SEGREDOS PÚBLICOS OS BLOGS DE MULHERES NO BRASIL

Já se foi o tempo em que as moças desabafavam suas angústias num ‘querido diário’ escrito com caligrafia caprichada e que não deveria ser lido por mais ninguém. O amigo íntimo imaginário, feito de papel e tinta, deu lugar aos blogs, que podem ser lidos e comentados pelo mundo inteiro, sem que sua autoria seja revelada. Trata-se de um fenômeno recente, mas que já começa a alterar a construção da identidade feminina, pois estabelece uma nova forma de inserção social e joga por terra teorias consagradas de alguns dos maiores pensadores da comunicação. Em ‘Segredos públicos’, a pesquisadora, professora e escritora Luiza Lobo avalia essa revolução com profundidade, embasamento e clareza incomuns. Antes, as autoras dos diários se comunicavam consigo próprias. Escrever era isolar-se em seu mundo particular. Luiza Lobo mostra que desapareceu a divisão claramente definida entre o público e o privado, como era feita por Habermas. Também se rompeu o esquema de processo comunicativo linear e pessoal proposto por Jakobson. As vozes agora se cruzam simultâneas e em todas as direções. Os blogs se impõem como uma produção pessoal e coletiva, sem que haja contradição nisso. Como conseqüência, as mulheres têm hoje nos blogs um nível de liberdade muito maior que o experimentado por Anaïs Nin, Colette ou Marguerite Duras. Com a possibilidade de se expor em anonimato, elas incorporam a gíria, o idioleto e o baixo calão, expressando-se de modo mais catártico e profundo. A autora não defende nem condena os blogs, apenas os estuda e procura explicá-los.

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