Categories
REVISTA LITCULT Revista LitCult - Vol.1 - 2001

MOSAICO DE AGRESSÕES

Resumo:
No final do século passado, tinha-se muito mais esperança e confiança no futuro do que atualmente. Acreditava-se principalmente que a ciência e o triunfo da razão trariam paz e progresso. Dava-se asas à imaginação e pensava-se que o futuro realizaria as suas promessas: iluminação elétrica para as casas, as máquinas possibilitando deslocamentos rápidos, como com o trem e o automóvel, uma revolução através dos remédios, uma maior união dos indivíduos através do patriotismo, o telefone, facilitando as comunicações a distancia, as indústrias tornando-se cada vez mais poderosas e os jornais descobrindo a publicidade. Tudo indicava a proximidade de um novo século de progresso material e da celebração da vida. Muitos acreditavam ainda ser possível mudar o mundo através da razão. Cem anos depois, somos mais modestos, não nos preocupamos tanto em querer mudar os poderes podres do mundo; os valores contemporaneos são pautados pela quantidade do que se pode consumir; o conformismo proporcionado pelos valores materiais estereliza as singularidades e as ambições ideológicas do indivíduo, criando o preconceito contra os mais desprovidos.
Texto:

MOSAICO DE AGRESSÕES

GILBERTO ROCHA

Sociedade Espaço Brasileiro de Estudos Psicanalíticos

Société Internationale d’Histoire de la Psychanalyse et de la Psychiatrie

A pergunta que Freud lançou em seu livro O mal-estar na civilização faz-s

e novamente: será que o supereu continuará conseguindo administrar o manejo de nossas pulsões destrutivas para continuar assim sua convivência com a cultura? (Freud, Sigmund, 1969, v. 21, p. 36). Isso quer dizer, que cada vez mais, o ser humano terá de produzir novas formas de subjetivação para manejar as propriedades das pulsões agressivas/destrutivas? E se os manejos faltarem, estaremos novamente num mundo darwiniano onde a sobrevivência é o bem supremo?

Existem formas de o indivíduo relacionar-se com a agressividade na vida que são valorizadas, enquanto outras não o são. Umas são banidas, outras aceitas, dependendo das circunstâncias e do momento do processo civilizatório. Mas, uma coisa é certa, um mundo sem delinqüência, disputas, assassinatos, um mundo sem crueldade, sem destruição, sem transgressões, sem complexo de Édipo seria um mundo impossível.

Muitas dessas situações agressivas não podem nos levar para outro lugar senão o do mal-estar mencionado nas reflexões do psicanalista austríaco, que em seu livro, publicado em 1930, nos relata a oposição existente entre a agressividade e a civilização (FREUD, S., v. 21, p. 68). Mais tarde, encontraremos trabalhos que começarão a dar importância ao aprofundamento do estudo da positividade da agressividade e priorizarão essa outra forma de manifestação das pulsões agressivas que viabiliza a convivência com a cultura. Porém, não é objeto desse estudo a questão psicanalítica das várias combinações entre a pulsão de vida e de morte.

Parece ser o caso de alguns profissionais, tais como médicos-cirurgiões, açougueiros, policiais e tantos outros. Figuras sociais nos quais as pulsões agressivas/destrutivas encontram-se constantemente em situação de descarga, portanto em situação de controle, disciplinadas, quase dominadas. Abraçar uma carreira profissional na qual o sujeito está constantemente manipulando sua agressividade parece, em primeiro lugar, uma forma de poder exercer mais intensamente sua porção agressiva, e, em segundo, uma forma de não renunciar ao prazer que está associado a essa descarga.

Existem formas de manejar a força destrutiva das pulsões agressivas dentro de um mesmo grupo de pessoas. Uma delas, a eleição de um inimigo comum, é uma maneira já muito consagrada pela cultura neste século XX para o manejo das pulsões agressivas/destrutivas. É interessante notar que a eleição de um inimigo comum em determinada sociedade não diminui a violência; somente a faz mudar de direção, pois ela agora estará direcionada para o inimigo. Nessas situações, existe uma realocação da pulsão de morte orientada para o exterior e em hipótese alguma uma saída ou mesmo enfraquecimento da intensidade da agressividade humana. Pode-se diminuir a destrutividade entre os membros de determinado grupo, mas por outro lado não se consegue diluir a pulsão agressiva que é redirecionada para outro lugar. O futuro de paz que o final do século XIX anteviu para o século seguinte, tornou-se, então, o futuro de uma ilusão, pois foi o século XX que, em termos de atrocidades e extermínios, auxiliados pela teconologia, possivelmente superou as centenas de séculos que o antecederam. Alguns autores, entre eles Peter Gay, apontam o amor pelo próprio país e o ódio aos inimigos (o patriotismo), como um dos maiores álibis da cultura para criação de situações agressivas/destrutivas testemunhados pela história universal: “O amor ao próprio país e o ódio aos inimigos se mostraram as mais potentes racionalizações para a agressão que foram produzidas ao longo do século XIX, conquistando a dúbia honraria de ser o álibi dos álibis” (Gay, Peter, 1993, p. 518).

1. Mídia e poder

Michel Focault nos chama atenção, em seu livro A história da sexualidade I, para o fato de que, em nossa cultura, a proibição, além ou por causa do fascínio que exerce, faz-se geralmente acompanhar de uma proliferação discursiva. (Foucault, Michel, 1976, p. 61). É o caso da sexualidade, e também o da agressividade. Percebemos que a proliferação discursiva sobre a agressividade humana cada vez ganha mais espaço na mídia. Por que a mídia veicula tanta destrutividade através de sua programação? Será porque assim ela reflete a agressividade que se encontra latente em sua clientela? Podemos dizer que a mídia é uma grande divulgadora da agressividade humana, pois, ao assistir a um noticiário na televisão, o espectador vai percorrer um mundo em que a agressividade transforma-se num espetáculo, velado ou não. Hoje os noticiários refletem um mundo repleto de disputas e violência: guerras, atentados, imagens de um indivíduo apanhando geralmente sozinho de pequenos grupos uniformizados, a política da violência, a violência política, suicídios e execuções (sejam ou não legais) são alguns exemplos.

As execuções públicas, na época clássica, tinham poder de espetáculo e sempre deram vazão à dramaticidade que às vezes acompanham as pulsões agressivas. Michel Foucault descreve, em Vigiar e punir (Foucault, M., 1975, p. 14), quanto podiam ser cruéis os suplícios impingidos na punição através do castigo-espetáculo ocorridos até o final do século XVIII e início do século XIX. Atualmente, continuamos às voltas com o crime-espetáculo, que de certa forma não deixa de ser, no essencial, uma variação do mesmo espetáculo, o espetáculo da agressividade que, na época clássica, ocorria em praças públicas. Atualmente, através dos meios de comunicação de massa, ela acontece na privacidade acolhedora na própria casa do indivíduo.

Pode-se notar facilmente como os meios de comunicação servem de suporte, investem e enriquecem as notícias sobre violência, em seu poder de sedução através do espetáculo. Estas notícias são o prato principal e predileto da mídia, que sabe que os patrocinadores não desconhecem que essas informações refletem a agressividade do sujeito e exercem um tipo de atração que se mantém através da intensificação e reprodução das notícias sobre violência. A avalanche desse tipo de notícia acaba banalizando, quase que absorvendo e assimilando o roubo, o assassinato, o estupro no nosso dia a dia da atualidade.

2. Alguns formas de convivência entre a pulsão de morte e a civilização

Existem várias maneiras de tentar contornar o problema da desagregação social causada pela pulsão de morte dentro de uma sociedade. O planejamento urbano, a arquitetura e a tecnologia podem ser considerados alguns exemplos.

Dependendo da estrutura urbana de uma cidade, pode-se estimular ou diminuir as condições que permitam o surgimento de acontecimentos que envolvem a descarga da pulsão de morte/destruição. O planejamento urbano pode contribuir sobremodo para diminuir a tensão do narcisismo das pequenas diferenças através da mistura de diversos grupos étnicos ou de classes sociais diferentes, estimulando-os à convivência, ajudando-os e incentivando-os. Facilita-se o convívio entre eles para tentar dessa forma ajudar a diminuir o índice de criminalidade do lugar em que habitam. (Sennett, Richard, 1994, p. 19).

Outra contribuição vem da arquitetura urbana através dos shoppings e condomínios que são construídos com a finalidade, entre outras coisas, de criar “ilhas contemporâneas de segurança” contra a violência. Essas áreas mais vigiadas e protegidas conseguem diminuir e evitar a violência que vem de fora desses lugares, porém não conseguem inibir de forma alguma a violência existente nas pessoas que as freqüentam. Outro exemplo na tentativa de manejo e convívio com a força destrutiva da pulsão de morte acontece no Rio de Janeiro. Depois de uma volta pela cidade, o recém-chegado turista poderá pensar o seguinte: Por que a maioria dos edifícios, casas e praças nesta cidade são cercados por grades? Será que, na verdade, o neófito está constatando alguma coisa que poderíamos chamar de arquitetura urbana da agressividade, onde a ordenação, possibilitada pela arquitetura, cria e impõe suas regras para docilizar os corpos?

O culto da agressividade aos poucos desenvolveu também a indústria da violência e seu poder político. Os produtos dessa indústria continuam em franca expansão, motivada pela procura do mercado consumidor. Seguranças armados, câmeras vigilantes, alarmes, grades, carros blindados, armas com tecnologia avançada, seguros, são assimilados pela cultura ocidental contemporânea como “comuns” e “normais” em nosso cotidiano. A indústria da vigilância e do controle, por exemplo, coloca suas câmaras de vídeo nos ambientes públicos, nos lugares de comércio e de negócios. Essa forma de vigilância cria a situação de que todos devem ser filmados, por prevenção, de que todos em princípio são suspeitos. Essa “indústria” exerce um tipo de poder, com o registro do olhar tecno-panóptico, que tem por fim vigiar para assegurar e prevenir. Acredita-se que a tecnologia é melhor do que os duvidosos resultados da investigação policial. Portanto, todos devem ser vigiados e controlados, pois as pulsões destrutivas podem estar à espreita, aguardando condições para inesperadamente revelar a sua face.

3. Submissão e agressividade

Desde o início da Psiquiatria tem-se um bom exemplo de como as normas disciplinadoras, através da agressividade, conseguem dominar, submeter e domesticar os corpos para dar conta de uma intimidade que se apresenta rebelde e indisciplinada. O enclausuramento, cirurgias, eletrochoques com caráter punitivo, abuso de autoridade e outras tantas agressões infinitesimais que se explicavam como terapêuticas, foram recursos fartamente usados na história da Psiquiatria (Rocha, Gilberto S., 1989, p. 86) ainda resistindo em alguns redutos.

A agressão, principalmente a física, exige, geralmente, que um dos componentes da situação agressiva seja mais forte que o outro. Daí, o peso da violência recair principalmente nos velhos, nas mulheres e nas crianças, que são figuras sociais desprovidas de força física. O que se entende por violência atualmente se ampliou para dar conta das novas formas de violência e sujeição do indivíduo. É considerada violência contra a pessoa o fato de crianças com idades as mais variadas (desde por vezes os 6 ou 7 anos), trabalharem em período escolar. Isto acontece principalmente em zonas rurais de países com desenvolvimento lento. Essas crianças, ao invés de estudarem, vêem-se na condição de terem que colaborar no parco orçamento da sua família para poderem seguir vivendo. Subtrair a oportunidade de uma criança e desenvolver parece ser o objetivo de políticas conservadoras e, no caso do Brasil, também corruptas, que, através deste “manejo”, cria um mercado de trabalho barato e cativo. Essas políticas de sujeição e alienação do indivíduo à ignorância e à pobreza, tem como único intuito dificultar o aparecimento das condições de possibilidades, para o indivíduo poder sair de sua condição miserável. Isso nos indica, por um lado, uma forma de exploração que leva a criança a submeter-se ao universo das pulsões agressivas/destrutivas do adulto. Por outro lado, no lugar de poder do assujeitador, as pulsões agressivas encontram-se canalizadas para a obtenção de prazer, através da sujeição do outro e da obtenção de lucros financeiros resultante disso.

Antigamente, as pulsões agressivas eram justificadas como disciplinadoras, fazendo com que muitos filhos, escravos, alunos, colonizados tenham provado do “estalar ” do chicote, da vara de marmelo, do chinelo, do cinto, ou mesmo da palmatória. O castigo corporal foi e é mantido como o melhor e mais rápido restabelecedor de autoridade por parte de quem infringe a punição, e faz parte também do que chamamos de pedagogia pelo medo. Um certo prazer nesse exercício de poder através do castigo corporal existe, e, na verdade, no que diz respeito aos castigos corporais que ocorrem na educação dos filhos, é uma prática que jamais foi totalmente abolida pelos pais. Na atualidade da cultura ocidental, ela caiu em desuso, mas o menor sentimento de perda de autoridade faz com que, tal como Fênix, o “ultrapassado” castigo físico ressurja das cinzas. Com o fim de um tipo de servidão humana no Brasil chamada de escravidão do trabalho negro, as pulsões agressivas dos açoitadores tiveram que mudar de objeto de descarga. Talvez seus filhos, suas mulheres, seus animais domésticos tenham sentido na própria pele a abolição do trabalho escravo no final do século XIX.

A sujeição através do castigo físico, no Brasil de hoje, ficou mais hipócrita. Existe, geralmente, atrás dos muros das penitenciárias, das delegacias, das casas de correção para menores, nessas “ilhas de privacidade” onde a violência física e mental andam unidas. Somado ao espancamento, hoje temos, nas prisões, um novo instrumento de castigo físico: a superlotação das cadeias que, junto com a pancadaria nos corpos, constitui-se um instrumento eficiente de controle assujeitador e boicotador da auto-estima dessas pessoas que, em sua esmagadora maioria, são integrantes das classes populares. Tenta-se, assim, reduzir o sujeito à sua insignificância e conduzi-lo a uma disciplinada docilidade alcançada e mantida sob controle e vigilância à base de muita pancada por parte das estruturas de contenção. Nessas “ilhas de privacidade”, o sujeito será reprimido através de castigos corporais exemplares, que também são receitados pelos aparelhos de repressão de uma forma geral para diminuir o sentimento de onipotência, de arrogância e de auto-estima. Ou seja, uma forma de aniquilação psíquica.

A violência contra a velhice pode ser não só física, como também uma forma que ataca psicologicamente o velho. Por exemplo, a violência por motivos econômicos cria no sujeito repetidas vezes um sentimento de estar em depressão. É comum, em países com seus “sistema de previdência social falido”, aviltar e diminuir os ganhos dos aposentados. Uma violência legalizada pela globalização, que atinge as pessoas no final de suas vidas, comprometendo sua alimentação, habitação, lazer e bem-estar. Eles são colocados numa condição difícil de dependência e fragilidade, num mundo de muita disputa, intolerância e pouca solidariedade.

Na história da cultura brasileira, as mulheres foram bastante molestadas fisicamente. Estupros, pancadaria, assassinatos sexuais… Até cinqüenta anos atrás, principalmente no interior, era difícil um homem ser condenado pela justiça por matar sua mulher. A vingança de ser traído pela mulher com outro homem terminava com freqüência em assassinato. Sem sombra de dúvida, se ele pertencesse à elite, certamente sua sentença já seria conhecida desde o princípio do julgamento. Inocente!, por exercer seu direito de honra de ser homem e assim jamais ser traído em sua sexualidade, virilidade, ou potência. Era uma ameaça de morte concreta para a mulher. Uma ameaça democrática, que se infiltrou desde as camadas mais ricas e poderosas até as mais pobres e miseráveis. Tal poder dava, assim, ao sexo masculino, veladamente, o poder de direito sobre a vida e a morte da mulher, tal como o espírito que reinava entre o soberano e seus súditos na época clássica. Com sua superioridade física, o homem tomou o corpo da mulher como extensão do seu próprio corpo, sua propriedade, “o quintal de sua casa” e os abusos contra a mulher, estupros, pancadarias, assassinatos, eram vistos e sentidos como algo que não deveria sair do âmbito de sua privacidade, não poderia tornar-se público. O machismo preponderante fornecia ao homem dessa época bons álibis para exercer sua crueldade no corpo da mulher. Além disso, as histórias de traições repetidas constituíram-se em motivos para piadas e chacotas. Despertavam, alimentavam a imaginação e a curiosidade das pessoas. Essas histórias inicialmente foram aproveitadas pelos jornais e romancistas para vender, e atualmente são muito utilizadas pela mídia eletrônica, principalmente pelas novelas.

Finalizando, estas considerações sobre a agressividade foram concebidas para mostrar alguns exemplos de exigências das pulsões agressivas que às vezes se encontram em antagonismo com o processo civilizatório, mas que em outras podem estar conciliadas com as restrições impostas por esse mesmo processo. Trata-se, portanto, de uma tentativa de pensar algumas formas da pulsão de morte que estão presentes na atualidade, num país como o nosso, abaixo dos trópicos, e inserido nos valores da civilização ocidental.

____

Este artigo baseia-se no ensaio de minha autoria publicado na revista on-line do Colóquio États-Généraux de la Psychanalyse, Paris — La Sorbonne, realizado em julho de 2000, com o título de “Mosaïque d’Agressions”.

____

NOTAS AO TEXTO

Freud, Sigmund. O mal-estar na civilização. Rio de Janeiro, Imago, 1969. 24 v. v. 21.

Foucault, Michel. L’Histoire de la Sexualité I — La volonté de savoir. Paris, Gallimard, 1976.

—–. Surveiller et punir. Paris, Gallimard, 1975.

Gay, Peter, The cultivation of hatred — The bourgeois experience III – Victoria to Freud. New York, W.W. Norton, 1993.

Rocha, Gilberto S. Introdução ao Nascimento da Psicanalise no Brasil. Rio de Janeiro, Forense Universitária, 1989. p. 86.

Sennett, Richard. Carne e pedra — o corpo e a cidade na civilização ocidental. Rio de Janeiro, Record, 1994.

Categories
REVISTA LITCULT Revista LitCult - Vol.1 - 2001

O CORTIÇO E A CIDADE DO RIO DE JANEIRO

Resumo:
A preocupação naturalista com o referente extra-literário se investe de uma tal veracidade que isto nos permite acompanhar, em O cortiço de Aluísio Azevedo, as mutações ocorridas no Rio de Janeiro do último quartel oitocentista, como a expansão geográfica e a modernização dos costumes, ambas associadas às transformações operadas na paisagem humana brasileira devido à substituição da mão de obra escrava pela dos imigrantes. Assim, nesse romance, a cidade torna-se um personagem literário e, como tal, será analisada.
Texto:

O CORTIÇO E A CIDADE DO RIO DE JANEIRO

Ligia Vassallo
Universidade Federal do Rio de Janeiro

O séc

ulo XIX descobre a cidade – realidade sociológica que é logo apropriada pela literatura. São bem conhecidas as palavras de Baudelaire sobre sua flânerie pelas ruas de Paris, fenômeno magistralmente estudado por Walter Benjamin. Entretanto, bastante antes das experiências deambulatórias do autor das Fleurs du mal (1857), a cidade já aparece na então hegemônica literatura francesa, principalmente no grande romance realista, cuja preocupação em tematizar a história feita no presente, tanto quanto a problemática da atualidade, leva a valorizar o referente extra-literário e a veracidade do espaço, em especial o urbano, tomado como cenário preferencial das ações ficcionais.

Assim é que os salões aristocráticos parisienses figuram em Le rouge et le noir, obra de 1830; e no Père Goriot, de 1833, presenciamos uma espécie de mitologia da capital francesa, de que a barata Pensão Vauquer, de um lado, e o sofisticado e elitista salão de Madame de Beauséant, do outro, constituem pólos privilegiados do imenso edifício. Décadas mais tarde, a série dos Rougon-Macquart, de Emile Zola, publicada entre 1871 e 1893, está longe de esgotar os atrativos da Cidade Luz, perene centro cosmopolita e multifacetado. Desse modo, em L’Assommoir (1877), romance que focaliza o universo operário, a cidade se estende para áreas até então inocupadas, ainda em fase de urbanização, nas quais se estabelece a lavadeira Gervaise, que acaba por soçobrar no alcoolismo. Por sinal, tais indicadores remetem ao nosso O cortiço (1890), de Aluísio Azevedo, que mantém intenso diálogo intertextual com o livro de Zola.

Numa sociedade periférica como a brasileira, o fenômeno de valorização da cidade se reproduz e se intensifica, ainda mais no último terço do século XIX, que se assinala por ser o período em que a presença francesa se fez mais forte e influente no Brasil. Haja vista, por exemplo, a magnitude de que se revestiu o Positivismo entre nós. É nesse contexto que vem a lume O cortiço, obra que tomamos como referência para caracterizar a realidade urbana do Rio de Janeiro a partir de um texto literário.

Contudo, independentemente das profundas relações entre a produção de Aluisio Azevedo e a de Émile Zola – questão que não será abordada aqui -, o criador da corrente naturalista no Brasil alcança produzir um rico e diversificado panorama da então capital do Império, num romance bem sucedido que, entretanto, não se propõe a este objetivo precípuo, uma vez que, como o próprio título indica, dedica-se a focalizar as camadas populares, centrando-se na residência coletiva, habitada por uma classe em constituição, a dos trabalhadores manuais livres, em coexistência com os últimos estertores do sistema escravagista.

No desenrolar da narrativa, o romancista procede por contraste, confrontando duas camadas sociais que se encontram sempre em posições antagônicas em todos os aspectos, como no tocante à moradia, às práticas quotidianas, ao trabalho e ao lazer. O conflito entre ambas eclode e se reforça porque os dois grupos são vizinhos no novo bairro de Botafogo, em vias de urbanização, sendo separados por um muro, que situa de um lado o sobrado solarengo da abastada e pretensiosa família Miranda, de outro o cortiço, habitação coletiva de baixa renda capitaneada pelo vendeiro luso João Romão, amásio da escrava Bertoleza. Desse modo, considerando-se que para a estética realista-naturalista o microcosmo reproduz o macrocosmo, tem-se uma visão de conjunto de um certo momento da sociedade brasileira, visão embora sumária, configurada pela situação dos moradores de sua capital, que são os personagens do romance. A percepção da cidade nos é dada tanto pelas ações destes quanto pelo espaço físico onde eles evoluem, espremido entre o mar das praias – Lapa, Saudade, Botafogo – e a montanha, das pedreiras de São Diogo (no Centro da cidade) e Botafogo, nas quais trabalha o cavouqueiro português Jerônimo, egresso do trabalho rural a que não se adaptara.

No século XIX, com a transmigração da família real para o Brasil, a abertura dos portos e a transformação da capital da colônia em sede do reino, depois império, a sociedade se complexifica e conseqüentemente a cidade cresce. Considera Eulalia Lobo (1978) que a introdução do trabalho assalariado, substituindo a escravidão, liberou capitais até então empatados, que passam doravante a se destinar a outros ramos de atividade econômica, como uma incipiente indústria, o comércio internacional e os serviços financeiros. Em contrapartida, excedentes de mão de obra livre que são

excluídos do campo, uma vez que o pólo cafeeiro se deslocou para o estado de São Paulo, dirigem-se para a cidade, vindo engrossar a fileira dos trabalhadores manuais não especializados. Muitos deles passam a atuar como vendedores ambulantes e prestadores de serviços (ferreiros, torneiros, carroceiros, taverneiros, soldados de polícia, empregados do comércio).

Com isso a cidade se povoa – e, portanto, a literatura. Ela se povoa de “gente graúda” e “gente miúda”. O primeiro grupo se compõe basicamente de estrangeiros ricos, que vão integrar a elite social: ingleses financistas, franceses do comércio de luxo, portugueses atacadistas. Somente a última nacionalidade é retratada no romance, através dos dois protagonistas e concorrentes, Miranda e João Romão, que representam dois lados da fortuna e, conseqüentemente, de comportamento e de posição na sociedade.

O segundo grupo é formado por gente com os mais variados matizes de cor da pele, desde os migrantes internos, provenientes do norte do país como a sensual mulata Rita Baiana ou do interior do estado, todos atraídos pelas possibilidades da embrionária metrópole, até os imigrantes europeus, como os trabalhadores portugueses, italianos e judeus que moram no cortiço. Por sinal sobre eles recaem estereótipos negativos: alguns generalizados, como a barulheira e o mau cheiro do corpo, outros mais específicos, como a avidez do judeu ou a sujeira e a bagunça dos italianos.

Aliás, a obra-prima de Aluísio Azevedo é o primeiro texto literário em que aparece a figura do imigrante italiano no Brasil. É também o primeiro que focaliza empregados e trabalhadores sob o modo sério, além de ser o primeiro que assinala a presença da capoeira, cujos praticantes se reuniam em maltas, como refere Gastão Cruls (1952). Ele a define como um “jogo físico de destreza e ataque inventado pelo mestiço ágil, que cansa o adversário para derrubá-lo com um passe imprevisto de rasteira ou cabeçada” (p. 318). Os capoeiristas eram empregados nas campanhas políticas como cabos eleitorais, segundo afiança um deles, o personagem Firmo, que aspirava uma nomeação para o serviço público. Meios tão pouco ortodoxos facultavam-lhes alcançar vitórias altamente questionadas pela imprensa da época.

A união daqueles dois aspectos arrolados por Eulalia Lobo resulta não só em aumento da oferta de bens e serviços, como também na expansão da área urbana, que vai-se estendendo do antigo Centro em direção à zona sul. Desse modo incorporam-se sucessivamente novos bairros, como Lapa, Glória e Catete, para finalmente atingir Botafogo, epicentro da ação no Cortiço. O Centro da cidade, que concentra o comércio elegante quase todo em mãos de franceses, principalmente na Rua do Ouvidor, mantém seu prestígio como área residencial, embora outros arrabaldes desabrochem com esse fim. Nesse sentido, o percurso de Miranda é paradigmático, ao transferir sua moradia do centro da cidade para a região recém-desbravada.

Nessas circunstâncias, constrói-se muito em Botafogo, a se dar crédito ao romance:

“Entretanto, a rua lá fora povoava-se de um modo admirável. Construía-se mal, porém muito; surgiam chalés e casinhas da noite para o dia; subiam os aluguéis; as propriedades dobravam de valor. Montara-se uma fábrica de massas italianas e outra de velas […] Abriam-se novas tavernas; nenhuma, porém, conseguia ser tão afreguesada como a dele” (Azevedo, 1983, p. 10).

No Segundo Reinado, Botafogo era o bairro mais procurado pelas famílias de alta renda, incluído na enorme freguesia que agrupava áreas desertas como Copacabana e Ipanema, ou áreas rurais como a Lagoa Rodrigo de Freitas e a Gávea. Em fins do século XIX a enseada de Botafogo era coberta por jardins e chácaras suntuosas. Erigem-se mansões luxuosas, segundo Jaime Larry Benchimol (1990, p.103), como o atual palácio do Catete, construído em 1862 pelo Barão de Nova Friburgo e onde funcionou a Presidência da República até a transferência da capital federal para Brasília; outro exemplo é o atual palácio da Guanabara, sede do governo do estado do Rio de Janeiro, que foi vendido pelo presidente do Banco do Brasil à família imperial para residência da herdeira do trono.

Nesse bairro estabelecem-se os palacetes da elite social, a exigir mais e mais empregados e fornecedores. Ainda de acordo com Benchimol (1990, p.103), estes constituem a população não aristocrática, que se instala em terrenos menos valorizados nas imediações do cemitério São João Batista, datado de 1852. Seu mercado de trabalho é local, diretamente vinculado à residência dos ricos; relaciona-se ao comércio (formal ou ambulante), à prestação de serviços domésticos, ao exercício de certas profissões e pequenos ofícios, à exploração das pedreiras e à construção. Mas há também oferta de trabalho nas primeiras fábricas, como as que o romance menciona (massas alimentícias, velas) ou as de tecidos, instaladas em Laranjeiras, Gávea e Jardim Botânico, contígüas às vilas operárias que surgem.

São estes contingentes que estão a necessitar moradia e vão ocupar as infectas habitações coletivas para populações de baixa renda, anteriores às atuais favelas, cujas condições de insalubridade favorecem a rápida difusão de epidemias, como as febres mortais que acometem alguns inquilinos de João Romão, mormente entre os italianos. Tais moradas são conhecidas como casas de cômodos, cortiços ou avenidas, verdadeiras colméias humanas que concentram cerca de 10% da população do Rio de Janeiro por volta de 1888. Sua exploração é matéria candente na imprensa da época, em acusação que recai sobre vários aristocratas, inclusive o Conde d’Eu, genro do Imperador, conforme apontam Jean-Yves Mérian (1988, cap. 31) e Lilia Schwarcz (1999, p. 432).

Percebe-se a ocupação do bairro, em O cortiço, de maneira indireta: pelo aumento da extração na pedreira, produtora de material de construção por excelência; pelo crescimento da clientela de João Romão, pelo desenvolvimento de seu ritmo de negócios, pela multiplicação do número de seus inquilinos. O vendeiro vai dilatando o terreno, as propriedades e o poder, em homologia com seu projeto de enriquecimento e ascensão social, o que pode ser detectado através das diversas etapas em seus investimentos e nas modificações em seu comportamento.

Graças às economias de Bertoleza, ele adquiriu “alguns palmos de terreno ao lado esquerdo da venda e levantou uma casinha de duas portas” (Azevedo, 1983, p.5); em seguida três casas, erigidas em terreno baldio ao lado da vendinha infecta em que viviam, construídas com material roubado às obras da vizinhança, são o ponto de partida do grande cortiço. Depois, aos poucos, ele atinge as noventa e cinco casinhas da “Estalagem de São Romão”, tornando-se proprietário também de lavanderias, da pedreira, de hortas e jardins, da casa de pasto mais bem afreguesada do bairro, de bazar variado e bem provido, de armazém com gêneros diretamente importados da Europa, de sorte que João Romão pode fornecer tudo a todos, inclusive sortimento aos pequenos comerciantes dos arredores. O ápice de seus empreendimentos habitacionais constitui-se na “Avenida São Romão”, construção um pouco menos abjeta que o conjunto anterior, sendo formada por prédios de dois pavimentos que abrigam centenas de moradias, agora ocupadas por gente da baixa classe média e não mais as lavadeiras e mascates dos primeiros momentos. Entre os novos inquilinos, mencionados no capítulo 20, arrolam-se empregados do correio, estudantes pobres, contínuos de repartição pública, caixeiros de botequim, artistas de teatro, condutores de bonde, vendedores de bilhetes de loteria, mascates italianos.

Aos trabalhadores interessa viver nas proximidades do local de trabalho, ou, como dizem, perto da “obrigação” (Azevedo, 1983, p. 11), medida indispensável considerando-se a carência de transportes coletivos. Há um serviço de ônibus e uns poucos bondes, como o de São Clemente, usado pelo protagonista ou pelo parasita Botelho quando regressam do Centro da cidade; a maioria das viaturas, contudo, é de uso particular e se move por tração animal, como as que transportam as cocotes Léonie e Pombinha ou conduzem os coches de enterros. Por isso anda-se tanto a pé, como faz João Romão ao ser convocado à polícia, aonde comparece acompanhado por boa parte de seus inquilinos; como fazem Jerônimo e seus comparsas após matarem Firmo; como fazem as hordas de capoeiristas nas lutas entre cortiços ou, ainda, como se locomovem mascates e fornecedores de serviços que freqüentam o cortiço de João Romão, como o leiteiro acompanhado de vaca e bezerro, o padeiro, o tripeiro, o peixeiro, o vendedor de artigos de armarinho, entre tantos outros.

Trabalhadores e gente abastada não vivem da mesma maneira, ainda que em situação de vizinhança. Encontram-se espacialmente apartados, em grupos distintos e antagônicos, constituídos respectivamente pelos do cortiço e os do sobrado. Os primeiros se caracterizam por trabalhar, o que ocorre na pedreira, na tina de roupa por lavar, na loja de João Romão ou em atividades externas, exercidas todos os dias menos aos domingos, quando cuidam da higiene pessoal, lavando as casas e vestindo roupa limpa. Doentes e acidentados buscam cuidados médicos em hospitais como o da Misericórdia ou em irmandades como a de São Francisco, onde Jerônimo convalesce da navalhada. Casos mais simples, como os abortos de Bertoleza, são resolvidos graças às ervas da lavadeira Paula, também conhecida pela alcunha de Bruxa.

Em contrapartida, os membros do segundo grupo, sempre em ótima saúde, assinalam-se por estar permanentemente de folga, à exceção dos empregados domésticos e de Henrique, filho de um cliente de Miranda que veio do interior para estudar medicina na capital. Assim sendo, no tocante ao chefe do clã, enobrecido pelo título de Barão, sabe-se apenas que dirige seu estabelecimento comercial instalado no Centro da cidade. Quanto a João Romão, depois que enriquece e atinge a invejável posição de capitalista, deixa de vender no balcão, onde controlava o caixa do estabelecimento, para marcar presença nos bancos e círculos financeiros, onde especula na bolsa e faz grandes transações comerciais para multiplicar seu patrimônio, entregando a administração do escritório a uma complexa hierarquia de caixeiros e vendedores especializados.

A gente do cortiço pratica suas funções ao ar livre, em espaços comuns, seja devido à própria natureza das mesmas, ou porque as casas são minúsculas. Por isso, uma solidariedade algo forçada obriga-os a partilhar tudo, tarefas profissionais e prazeres, como as comezainas domingueiras, acompanhadas de bebida, música, dança, barulho e, não raro, alguma briga ou cena de infidelidade conjugal, além da reclamação dos vizinhos. A portas fechadas, vêem-se apenas os freqüentadores do botequim do Garnisé ou o trabalho de Pombinha, que costura seu enxoval de casamento ou escreve cartas ditadas pelos moradores analfabetos. No sobrado, porém, tudo se passa em ambientes fechados, em especial a intensa comensalidade, das pequenas reuniões de convidados às grandes recepções nas ocasiões especiais. Executa-se fora de casa apenas a transgressão de Dona Estela com o jovem Henrique, praticada nas moitas do jardim.

O contraste entre os grupos se evidencia em outros aspectos, como no tocante à organização da família e no emprego do tempo livre. Nas camadas populares os casais se unem por interesse afetivo, de maneira livre e descompromissada, como o lusitano João Romão com a escrava Bertoleza e Rita Baiana com Firmo, ambos mulatos, ou pelo casamento oficial – como o dos portugueses Piedade e Jerônimo, ou do policial negro Alexandre com a lavadeira branca Augusta, geradores de numerosa prole. Essas uniões, que podem ser multirraciais, também se desfazem e se refazem sem formalidades, simplesmente pelo abandono do parceiro, como ocorre com os casais formados por Jerônimo e a esposa, Rita e o capoeirista, que constituem um novo par, composto por Jerônimo e Rita.

Na elite branca exige-se o cumprimento dos rituais – de noivado, preparativos de enxoval, casamento na igreja. A união matrimonial parece ser assunto decidido exclusivamente pelos homens, uma vez que Miranda não leva em conta os sentimentos da filha Zulmira, a ponto de escolher João Romão para genro; ela se baseia em interesses econômicos e patrimoniais, sendo portanto indissolúvel. Daí a preocupação em resguardar o dote trazido pela mulher, o que acarreta a necessidade de manter as aparências, mesmo em caso de adultério. É o procedimento adotado por Miranda ante as evidências do comportamento leviano da esposa. Nesse panorama, avulta a situação de Pombinha, que se coloca em posição intermediária, visto que sua família decaiu da condição social anterior após a falência e suicídio do pai. Com isso, ela cumpre os preceitos e sobe ao altar na igreja São João Batista, mas casa sem amor, como alternativa para ascender e se libertar, e termina por abandonar o marido após traí-lo. Por outro lado, a família patriarcal possui um sentido amplo, uma vez que inclui agregados, como o parasita Botelho e o jovem pensionista do interior, o estudante Henrique, além de crianças protegidas, afilhados e numerosa criadagem, circunstância não encontrada no outro grupo.

O emprego do tempo livre dá-se de maneira inteiramente desigual de acordo com a procedência sócio-econômica do personagem. Os trabalhadores do cortiço, pela própria condição laboral, só descansam aos domingos, em fainas já evocadas. Em compensação, o ocioso grupo do sobrado utiliza seu perene lazer de maneira bastante variada. As mulheres recebem e fazem visitas, quando não vão às compras de enfeites. Aos homens de todas as idades é permitido freqüentar as cocotes de luxo, muitas vezes de procedência estrangeira, como Léonie, por quem chegam até a se arruinar. Homens e mulheres estão sempre passeando em locais elegantes no Centro da cidade, principalmente às ruas Gonçalves Dias e Ouvidor. Nesta última encontra-se a Casa Pascoal, confeitaria onde se namora muito, se toma o aperitivo e se fazem lanches intermináveis; os homens lêem os jornais do dia e fumam. Os adultos de bolsa farta ainda comparecem a leilões de prendas e festas de arraial, tornam-se sócios de clubes para aprender a dançar, freqüentam as sessões da tarde no teatro São Pedro de Alcântara e as apresentações das companhias líricas, apreciadas por Dona Estela. A vida social amena e fútil se complementa, no plano cultural, com a leitura de jornais e de “fascículos de romances franceses traduzidos” (Azevedo, 1983, p.77), com os quais João Romão vai-se familiarizando, em seu afã de ostentar maneiras refinadas. Em sua fase de potentado, freqüenta hotéis caros e faz camaradagem com capitalistas. Veste-se com esmero, perfuma-se, vai ao barbeiro, recheia a casa reformada com ricos móveis, prataria e porcelanas.

Percebe-se que a elite social dispõe de algum meio de transporte para ir ao Centro da cidade, como as carruagens ou o bonde São Clemente, e ali faz compras no comércio, vai a confeitarias e teatros, passeia à beira-mar e nas ruas elegantes cujos nomes se mantêm até hoje: Ouvidor, Gonçalves Dias, Largo de São Francisco, Largo da Carioca… Em contrapartida, os trabalhadores do cortiço locomovem-se a pé, motivo pelo qual suas caminhadas se concentram no bairro em que moram. Nesse sentido, é exemplar o percurso de Jerônimo e seus comparsas na noite do assassinato do capoeirista e rival, pois saem de um botequim próximo ao cemitério São João Batista, tomam a rua Sorocaba até as imediações das ruas Bambina e São Clemente, encaminham-se para a travessa da Passagem nas cercanias do Hospício de D. Pedro II, hoje incluído nocampus universitário da zona sul, alcançam a praia de Botafogo para, em seguida, rumarem em direção à cidade, passando pelas praias do Catete, Glória e Lapa. Aí, em vez de flânerie, o itinerário descreve uma rota de despistamento e fuga.

Em suma, o uso do espaço urbano pelos personagens de O cortiço permite configurar a obra de Aluísio Azevedo como um romance de localização especificamente carioca. Nele, são flagradas a cidade e a sociedade em estado de mutação, quando se adapta para o ambiente urbano a dicotomia de casa grande e senzala, agora traduzida pelos contrastes simbolizados pela oposição entre cortiço e sobrado. Assim, a preocupação com a veracidade, própria do realismo-naturalismo, fornece um painel da cidade, em momento de profunda transformação social, cultural, humana. Graças à minuciosa pesquisa que empreendeu, Aluísio Azevedo transformou seu romance em um documentário não só sobre a acumulação de capital como também sobre a cidade do Rio de Janeiro, através da vida, trabalho, moradia e lazer de seus habitantes, sejam eles pertencentes às camadas aristocráticas ou às populares.

___________

Este ensaio foi publicado na revista Ipotesi, Juiz de Fora, Universidade Federal de Juiz de Fora, v. 4, n. 1, jan-junho 2000, p. 103-10.

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

Azevedo, Aluísio (1983). O Cortiço. São Paulo, Moderna.

Benchimol, Jaime Larry (1995). Pereira Passos, um Haussmann tropical. Rio de Janeiro, Secretaria Municipal de Cultura. (Col. Biblioteca Carioca).

Cruls, Gastão (1952). Aparência do Rio de Janeiro. Rio de Janeiro, José Olympio. 2 v.

Frota Neto (1978). Urbanização no Brasil e alguns dos seus limites. Brasília, Senado Federal.

Lobo, Eulalia M. L. (1987). História do Rio de Janeiro (do capital comercial ao capital industrial e financeiro). Rio de Janeiro, Instituto Brasileiro de Mercado de Capitais. 2 v.

Mérian, Jean-Yves (1988). Aluísio Azevedo, vida e obra (1857-1913. Rio de Janeiro, Espaço e Tempo.

Milliet, Sergio (1959). “Introdução”. In: Azevedo, Aluísio. O Cortiço. São Paulo, Martins. p. 11-16.

Rocha, Oswaldo Porto & Carvalho, Lia de Aquino (1990). A era das demolições; habitaçõespopulares. 2 ed. Rio de Janeiro, Secretaria Municipal de Cultura. (Col. Biblioteca Carioca).

Schwarcz, Lilia Moritz (1999). As barbas do Imperador D. Pedro IIum monarca nos trópicos. São Paulo, Companhia das Letras.

Vassallo, Ligia. “De Zola para O Cortiço: o cânone e a forma”, Cânones e contextosAtas,V Colóquio Internacional ABRALIC, Rio de Janeiro, 1998, 3 v. v. 2, p. 467-70.

Categories
REVISTA LITCULT Revista LitCult - Vol.1 - 2001

TRADIÇÃO E RUPTURA NA CRÍTICA NO BRASIL: DA SOBREVIVÊNCIA DA ARTE E DO LITERÁRIO

Resumo:
This essay attempts at the discussion of the conditions for the survival and permanence of art in the new millennium. It discusses post-colonial culture and tradition in Brazil in the face of the new technologies and trends quickly arriving from other more developed milieus. The essay draws the epistemological lines of resistance for esthetics and art in such a culture.
Texto:

TRADIÇÃO E RUPTURA NA CRÍTICA NO BRASIL: DA SOBREVIVÊNCIA DA ARTE E DO LITERÁRIO

Luiza Lobo

Universidade Federal do Rio de Janeiro

 
 
INTRODUÇÃO

Os 500 anos de descoberta do Brasil provocam-nos uma indagação sobre as criações que ocorreram no país no campo da arte, da literatura e da cultura, para ficarmos no campo das ciências humanas. O que marca especialmente esta data é sua coincidência com o início do novo milênio, dentro da cronologia cristã, o que nos leva, simbolicamente, a sentir que estamos fechando uma era e iniciando uma nova. Tudo isso pode, concordo, não passar de uma impressão ligada tão-somente ao calendário gregoriano cristão, data historicamente nada significativa para árabes, indianos e judeus, por exemplo.

O panorama cultural global alterou-se a tal ponto no Brasil e no mundo, nos últimos dez anos, que muitas vezes nos indagamos se permanecerão uma literatura e uma cultura como a conhecemos agora, ainda escrita, culta, erudita e literária, dentro da tradição greco-judaico-cristã-ocidental. A compreensão do mundo nesses 25 séculos de história greco-cristã parte de premissas físicas e concretas, no máximo ligadas à eletricidade, no século XIX, e à revolução da eletrônica, do laser e da Internet, no século XX. Ocorreu uma revolução tão radical nesta última década que ameaça aposentar o papel como veículo de imprensa e de cultura escrita. Boa notícia para a ecologia, graças à melhor conservação das florestas. A difusão do computador em escolas, mesmo nos países pobres, com sua contraface do CD-Rom, o disco a laser, o email, a conversa on-line, a Internet, a vídeo conferência e o hipertexto representado das redes e conexões representa uma forma radicalmente nova de comunicação entre os seres humanos. O fenômeno da televisão, com a divulgação de arte e notícias de forma simulada ao real, através da cor, movimento e linguagem oral, por via eletrônica, depois aperfeiçoado com a televisão a cabo e o vídeo doméstico, criando a especialização do espectador, passou por uma transformação ainda mais gigantesca com o correio eletrônico e muitos outros avanços tecnológicos que aparecem diariamente.

A conseqüência social mais imediata deste fenômeno é a globalização e a unificação da sensibilidade humana através de um tipo de visão de mundo única ou predominante. Mas outra conseqüência disso é que é a hegemonia da língua inglesa e a cultura por ela engendrada, que difundem seus hábitos, cultura e arte — e, naturalmente, seus produtos negociáveis. Cria-se um novo império de dominação cultural moderna através do domínio da imagem e da palavra. Este só pode ser comparado ao império latino na antigüidade. Nem mesmo os Estados nacionalistas do século XIX conseguiram a mesma penetração mundial obtida pelo império anglo-saxônico atual, entendendo-se aí principalmente a hegemonia dos Estados Unidos. É uma forma inteligente de dominar mas que se deve, principalmente, ao fato de a Inglaterra, desde o século XVIII, já se constituir num país industrializado e capitalista, o que a capacitou a utilizar a língua como uma forma de exportação de sua cultura, através de um forte sistema educacional e um bem organizado sistema administrativo das colônias, que se aliavam para utilizar a língua inglesa como principal veículo de dominação. Esta se dava não tanto através de guerras, ou unicamente pelas guerras, mas através da exportação de cultura (ver The Empire writes back, de Bill Ashcroft, Gareth Griffiths e Helen Tiffin, London, Routledge, 1991. 1. Ed. 1989). Uma forma de dominação que já atua de forma cada vez mais próxima, pois é realizada através das chamadas “negociações”, seja no plano político ou econômico. Estes acordos quase nada têm de negociados, uma vez que os parceiros mais fortes sempre poderão “exportar” (isto é, impor) suas idéias e negócios com muito maior margem de aceitação (ou imposição) nas regiões humilhadas e ofendidas (ver Agnes Heller). Exemplo disso foi a “negociação” sobre a emissão de gases CO2, na última reunião de cúpula mundial, durante a qual os Estados Unidos e outros países do Primeiro Mundo, em lugar de reduzirem o grau de poluição que provocam no mundo, “negociaram” com países menos poluidores a comprarem deles uma certa quantidade “quotas de poluição”, uma vez que eles pouco poluem. Mas também pouco produzem. Assim, com esta “barganha”, ainda durante algum tempo continuará a poluição na atmosfera que a Terra como um todo provoca. Situação eticamente condenável que nos lembra as indulgências compradas pelos pecadores do Santo Papa durante o Renascimento. Daí a importância da apropriação das formas impostas pelos países dominadores, de que nos falam os autores acima.

Do ponto de vista da arte e da literatura, o computador trouxe para o leitor da telinha uma importante opção. Ele já não precisa dedicar-se apenas à observação passiva dos bonequinhos e filmes impostos pela televisão ou pela programação da TV a cabo. Ele se sente dono do universo, buscando seu assunto na Internet ou escrevendo em velocidade igual ou quase igual à do pensamento, ou pode conversar sobre inúmeros assuntos com pessoas de diversos pontos do globo, visitando endereços eletrônicos e informações de locais distantes sobre infinitos assuntos em fração de segundos. A vantagem que este espectador-leitor-escritor ganhou foi passar a utilizar, em sua leitura na Internet, quando na presença de ilustrações, os dois lobos do cérebro, quando antes só utilizava o direito, para a escrita. O ocidental pouco utilizava o lobo esquerdo do cérebro, que se destina às figuras ou desenhos. Com o computador, foi forçado, afirmam alguns especialistas, a usar os dois lobos, combinando figuras/desenhos e escrita. Aproxima-se assim da percepção do texto que tem o oriental, que sempre precisou, para interpretar e escrever o ideograma, combinar a leitura da figura visual à interpretação da escrita. (Ver também Pierre Lévy, A tecnologia da inteligência; O futuro do pensamento na era da informática. Rio de Janeiro, 34 Letras, 1993. 1. Ed. 1990; e também O que é o virtual?, Rio de Janeiro, 34 Letras, 1999. 1. Ed. 1995).

Outra conseqüência associada à escrita no computador é a possibilidade de realizar o sonho de Stéphane Mallarmé, em seu famoso e inacabado projeto do Livre, como mostrei na Apresentação a Globalização e literatura (Rio, Relume-Dumará, 1999, p. 37-45): no computador, pode-se até certo ponto desobedecer à ordem linear do discurso, escrevendo, recortando, deslocando, apondo sílabas, palavras e orações numa rearrumação constante do discurso, o que não poderia ser feito no texto tradicional.

Todo este fenômeno teve lugar na última década do período que Lyotard denominou “condição pós-moderna”, implicando no fim das utopias que vinham se delineando desde o século XVIII, com os grandes enciclopedistas franceses e pensadores da filosofia transcendental alemã. Este momento, iniciado na década de 1970, a partir de uma crise generalizada no mundo das artes, corresponde ao fim da busca do “Make it new” poundiano e da originalidade do modernismo da primeira fase, e à passagem para a idéia de que “Nada é new“. Tudo é repetição, rearranjo de termos já presentes na ordem do discurso anteriormente enunciado. Na condição pós-moderna a literatura e o “fim do real na condição pós-moderna veiculam percepções, produzem subjetividades e anunciam os paradigmas de novas formas de pensar, sentir e estar no mundo”, nas palavras de Fernando Fábio Fiorese, um dos ensaístas do livro, que retomo na mesma “Apresentação” daquele livro.

A crise das utopias, o sentimento de déjà vu e de melancólico “sentimento do mundo”, na expressão de Carlos Drummond de Andrade, que se apodera de artistas e produtores culturais do pós-moderno explica-se pelo acúmulo de informações permitido pelo computador, o CD-Rom, o hard disk e outros meios de armazenamento de dados quase infinitos e até então impensáveis. A maior amplitude de informação, impulsionada pelas descobertas tecnológicas e científicas a cada dia trouxe, no plano das artes, a sensação de vazio e de nada mais te-se a inventar. Isso ocorreu, pelo menos no plano da retórica, ou seja, das artes.

À diferença dos jornais, cobertos do resíduo de tinta, borrão, provocado pelo chumbo, a graxa e por máquinas pesadas, manuais ou elétricas, cria-se uma nova realidadeclean, os programas de computador e os portais de informações científico-tecnológicas, propagandas e comunicação eletrônica, abrindo para um universo de possibilidades individuais. Esta realidade virtual que nem sequer tenta mais simular a vida real, mas que cria a vida, já foi considerada compatível com a ética e as características da sociedade capitalista e puritana. É o portal de um novo mundo da comunicação. Uma história da leitura, de Alberto Manguel (São Paulo, Companhia das Letras, 1997, 1 ed. 1996), mostra-nos a evolução que preparou este novo universo infinito de simulacros idênticos ao real, e muitas vezes superiores aos originais, obtidos numa velocidade inimaginável. A técnica acompanha o progresso da humanidade em relação a uma crescente imersão no capitalismo, em que time is money. Já não há manuscritos, rabiscos, textos inéditos e únicos rascunhados à mão ou numa máquina individual, caseira. As descobertas que faziam a alegria dos especialistas em ecdótica, hermenêutica ou genética crítica. O horror da página em branca de que nos fala Maurice Blanchot em L’espace littéraire já quase deixou de existir. Um texto é composto de recortes, reaproveitamentos, revisões: composições rápidas em que surgem, em questão de segundos, através de pequenos gestos técnicos, como o automático clicar de botões de recortar, apagar e colar, um novo tipo de palimpsesto. Não há tempo para hesitações. Time is money. Os moldes de cada escrita estão armazenados na memória do computador, resíduos de outros textos que podem ser facilmente reaproveitados, sem grande emoção humana, apenas por força da máquina. O mundo clean já se aproxima perigosamente de uma certa realidade de ficção científica, pelo menos para a classe média, em que as pessoas agem como robotizadas e dominados pela máquina. Ao menos este é o tema de filmes atuais realizados nos Estados Unidos: MatrixQuero ser John Malkovitch e sem dúvida muitos outros, talvez menos criativos e convincentes.

A noção de reprodutibilidade técnica, anunciada por Walter Benjamin em “O objeto literário na época de sua reprodutibilidade técnica” repete-se e reproduz-se numa quantidade e velocidade inimaginável. O conteúdo filosófico e questionador do texto desaparece em prol da economia de palavras e de tempo. Se o meio é a mensagem, o fremir da máquina em movimento elétrico acelera a acumulação de gestos mecânicos, que não raro redundam em lesões nervosas por sua excessiva repetição.

Esta repetição, que deixava uma margem, um surplus, na teoria de Jacques Derrida, passa a ser questionada na sua produção positiva de sentidos por Jean Baudrillard emL’Échange symbolique et la mort (Paris, Gallimard, 1976). Essa série infinita de sentidos levaria a uma constante morte de significado na vida, eternamente perpetuada no capitalismo (série que pode ser interrompida pelos discursos marginais ao capitalismo, como as dos negros e das mulheres). Também Fredric Jameson em “O pós-modernismo e a sociedade de consumo” (cap. 1, in Ann Kaplan, org. O mal-estar no pós-modernismo; Teorias, práticas, Rio de Janeiro, Jorge Zahar, 1993, 1. Ed. 1988, p. 25-44), menciona (p. 30) uma “construção” do sujeito burguês, que nunca teria existido, e a emergência de uma “nova experiência de tecnologia citadina” (p. 40), que Walter Benjamin já apontara em Baudelaire.

Paralelamente a esta transformação de atitudes, ocorre um fenômeno inesperado no plano da crítica literária: sucede uma exaustão com os métodos semiológicos até então utilizados, desde o Estruturalismo e a crítica pós-modernista com base em Jacques Derrida, Paul de Man, Jonathan Culler, Gilles Deleuze e outros filósofos e críticos literários. Na medida mesma em que há na sociedade contemporânea uma hipertrofia do instrumental virtual, ocorre, paralelamente, um desejo de recuperar uma dimensão histórica ou até microhistórica (nova história, ou de história das mentalidades), que abarque a totalidade dos eventos sociais que constituem o tecido social como um todo e que pode ser reconstituído a partir do texto. “Nas palavras de Michel de Certeau, o que chamamos de realidade é um inventário (quiçá incompleto) daquelas pegadas deixadas num mapa coletivo já marcado por outros traços de outras viagens” (cit. in Claudia de Lima Costa in “O ‘outro” enquanto sujeito: a problematização pós-esturutalista”, in p. 263, p. 257-63, parte 4., O outro enquanto mesmo, in Identidade & representação, Raúl Antelo, org., Pós-graduação em Letras/Literatura Brasileira e Literária, UFSC, Florianópolis, 1994, 464 p.). Noutros termos, a realidade é histórica. Nos estudos posteriores ao pós-moderno assiste-se a um certo retorno à análise sócio-histórico-cultural, como por exemplo entre seus criadores, os historiadores franceses Claude Braudel, Jacques Le Goff e outros representantes da da escola, ou nos seus seguidores, o professor inglês Peter Burke. Contudo, já não é uma história ingenuamente realista, nos moldes de um Arnold Hauser, de um Norbert Elias ou, em menor grau, de um Erich Auerbach. Ela pressupõe a recriação mimética da realidade através de uma narrativa que passa a constituir uma história que não se quer científica, isto é, reprodutora do real, mas recriativa deste real. (Ver sobre Costa Lima Máscaras da mímese). Na encruzilhada entre o pensamento marxista realista e esta visão quase literária de história, passando pela revisão da obra semiológica de Jacques Derrida, encontra-se a figura revolucionária de Gayatri Spivak (ver artigo Internet).

Esta indiana não se considera indiana, para ela uma criação forçada por ingleses e outros povos dominadores da Índia, buscando uma falsa união para melhor conquistá-la. Na verdade, ela se considera natural de Bengali, onde nasceu, sendo o bengali sua língua materna. Desde os 17 anos está radicada nos Estados Unidos. Em suas conferências e ensaios procurou unir a sociologia marxista com o pensamento filosófico de Jacques Derrida, depois chamado de desconstrucionismo, nos Estados Unidos, quando ele passou a lecionar em Yale, após a década de 1970, dando origem ao que se chamou movimento pós-moderno. Questionando cada palavra, buscou contestar o conteúdo essencialista da linguagem, e unir a crítica à posição marginal ocupada pelas classes subalternas com a experiência feminista de revisão textual.

Assiste-se a um fenômeno que poderíamos definir como uma dupla crise do conceito de mímese. Na década de 1960-1970, o Estruturalismo desvinculou a noção de mímese da palavra e da linguagem, desatrelando-o do real social. A linguagem foi eleita como uma explicação hegemônica e autônoma de interpretação. A luta surda que se travou entre os críticos marxistas e os pensadores que buscavam a autonomia do texto literário redundou na noção de autonomia da dimensão do imaginário e do simbólico no texto literário, libertando o signo de uma mímese colada ao real. Este processo parece ter se invertido no momento em que o pós-moderno já se esgota com relação a uma mímese vassala do real. Enquanto, no período pós-moderno, a filosofia era uma preocupação constante dos críticos, sob o influxo do pensamento de Derrida, visando a contestar os pressupostos da filosofia transcendental metafísica, no momento atual os estudos culturais e a linha de discussão centrada no pós-colonialismo atrelam-se à sociologia e apresentam questionamentos políticos, não filosóficos, às questões da cultura.

Na última década do século XX Terry Eagleton (Theory of Literature, London, Blackwell,1993, 1. Ed. 1988) e Henri Lefebvre (The construction of space, Oxford, Anthropos, 1991, 1. Ed. 1974) desconfiam da hipertrofia da linguagem como sendo capaz de servir de explicação para a totalidade dos fenômenos sociais da realidade além dos textuais. Lefebvre chega a referir-se explicitamente a tal falência.

Também a partir do pensamento filosófico de Jacques Derrida e da semiologia, mas afastando-se rapidamente dele, Edward Said, Homi Bhabha, assim como Gayatri Spivak, utilizando em sua maior extensão o conceito de diferença de Derrida e ampliam-no não só para a definição de gênero no feminismo como, igualmente, para as camadas subalternas e as minorias políticas . Esta linha se constitui numa crítica pós-colonialista que se volta para as margens, em oposição ao eixo dominador eurocêntrico.

Na mesma vertente, os estudos culturais aprofundam as redes sociológicas deste saber questionador, afastando-se cada vez mais da indagação semiológica presente em Derrida, Kristeva e mesmo Foucault.

O texto liberta-se da clausura semiológica, na qual se supunha que o signo continha o todo social em si, como na afirmação de Julia Kristeva sobre o termo ideologema, e a crítica volta-se novamente para o social, embora o veja através de um sistema mimético de representação, não como um dado concreto, como no marxismo ingênuo. Contesta-se a linguagem como metalinguagem ou um discurso retórico autônomo, para além da ideologia. A ciência é posta em questão, até no campo das ciências exatas. A lingüística não mais se constitui na grande ciência da comunicação que tudo abarca, como queria Roland Barthes em Língüística e comunicação. Ela volta a ocupar um nicho dentro das ciências humanas. A sociologia, a história e a antropologia tornam a despertar o interesse do discurso teórico e crítico universitário. A comunicação de massa e a cultura canibalizam os campos da arte e da literatura, atrelando-os à sociedade do espetáculo atual, na feliz expressão de Guy Debord (em A sociedade do espetáculo, Rio de Janeiro, Contraponto; é um aspecto discutido também por Nestor García Canclíni em Culturas híbridas, São Paulo, EDUSP, 1997, 1. Ed. 1989).

O modismo do espetáculo, que caracteriza a nossa cultura como a do olhar sem críticaencontra o seu paroxismo em Paulo Coelho, que pontifica sobre teologia em O Alquimista, e é arrastado, na sua mais profunda glória, como o andor de um santo, nas laterais de uma linha de ônibus que percorre Paris. É um espetáculo inusitado vê-lo proferir conferências eruditas nas academias, e freqüentar banquetes, a convite do Presidente da França e as maiores editoras do país, locais que há 50 anos só sonhavam penetrar os maiores representantes da alta literatura francesa.

Há no entanto a possibilidade de uma autocrítica do próprio enunciador do discurso, que se coloca no texto como pessoa, e não mais como cientista, ou seja, um sujeito afastado do objeto de seu saber. O processo epistemológico dá lugar ao processo existencial. Passa a ser “travessia” (ver Luciano Zajdsznajder, A travessia do pós-moderno (Rio de Janeiro, Gryphus, 1992; ver também O pós-moderno, de Jair Ferreira dos Santos), e surge o apelo a “uma ‘leitura atípica’, aquela que não pretende nenhuma exaustão, nem tem uma metodologia a priori, deixando-se levar pelaexperiência, palavra que também se liga à idéia de travessia. Uma leitura a partir das zonas menos privilegiadas do texto, ou de suas margens no dizer de Derrida, emMargens da filosofia: das notas, dos títulos, das epígrafes, das referências intra-, inter- e extratextuais” (Evando Nascimento, Derrida e a literatura. “Notas de Literatura e Filosofia nos textos da desconstrução, Niterói, EDUFF, 1999, 363 p., “Questões de princípio”, p. 15-25, p. 20). Mas saber sem o sentir perde o sentido

Já foi muito repetido que a maior revolução deste século foi a revolução feminista. Esperemos que ela não se torne um projeto adiado ou fracassado como a Revolução Comunista. De qualquer forma, adiada ela já está, pois parte de suas propostas de autonomia no plano social teráo de ser adiadas para o próximo. Foi um longo caminho que começou em fins do século XIX, com os primeiros movimentos sufragistas e a entrada da mulher para a imprensa e o mundo profissionalizado da imprensa e da literatura, com George Sand, Jane Austen e Charlottle e Emily Brontë, mas que ainda enfrenta muitos preconceitos arraigados. A pesquisa sobre o cânone, o resgate das escritoras e a discussão teórica sobre gêneros foi o caminho depois seguido pela crítica, que depois estendeu este pensamento à recuperação literária a outras “minorias”, sexuais, raciais, os povos orientais e os que produzem literatura oral. Principalmente estes últimos eram desconsiderados pelos estudiosos oriundos do pensamento eurocêntrico, uma vez que, na definição de Derrida, a oralidade baseia-se no fonocentrismo, um tipo de discurso do ouvir-dizer que não passa pela recriação da escrita ou a escritura crítica. Contudo, hoje, é a fala, a oralidade que preside às manifestações culturais mais importantes na história. O que em Derrida só se redimia pela escrita, ultrapassando o fonocentrismo do ouvir-dizer, torna-se valorização do fonocentrismo, pela reconsideração da literatura oral, da manifestação política e cultural de povos com uma cultura mais oral.

A arte e a literatura, como bem nos mostra Nestor Canclini em Culturas híbridas, passam a ser divulgadas na sua forma de baixa literatura, incorrendo num conceito muito amplo de cultura, que corresponde, na verdade, à noção de mídia como foi criado neste século. A mídia é a comunicação para as massas — não se devendo confundi-lo com a literatura oral ou popular, que sempre existiu. Esta não empregava meios de ampliação da divulgação, e era realizada pelas classes populares ou dirigida a elas. Um processo justamente inverso ao atual, em que o povo recebe pacotes de mensagens e imagens, de linguagens decodificadas para ele por pessoas bem informadas da elite intelectual que douram a pílula do conhecimento do cotidiano, oferecendo-a em pequenas doses. Não importa o que digam os bem-pensantes, como Leyla Perrone-Moysés, em sua defesa das “altas literaturas”, a verdade é que toda sorte de discursos se cruza nos meios de comunicação mais diversos, numa rede de intertextualidades: muros, programas de televisão, revistas on-line, programas de alta ou baixa qualidade, livros best-sellers e o hiperrealismo, no computador. Termina em grande parte o preconceito contra o não-erudito. Há a mistura das artes, como já vinha mencionado no Auerbach, confundindo-se alta, média e baixa literatura.

Nas universidades e meios intelectuais fala-se de decadência e finissecularismo. Nas livrarias compram-se obras de esoterismo e auto-ajuda. A própria psicanálise entra em crise, substituída por tratamentos de menor duração (ver Elisabeth Roudinesco, Mais!,Folha de São Paulo, março 2000), ligadas ao corpo e a esoterismos. A situação é crítica para as letras. Não se vendem mais livros. Editoras se unem em cartéis e conglomerados. Utilizam portais de informática. Introduzem-se em homepages. Livros inteiros são disponibilizados na Internet, mas o pagamento de direitos autorais se faz à editora só após completar-se o milheiro de vendas. Tudo passa a ter dimensões globais. E, como nos cultos milenaristas ao final do primeiro milênio, onde muitos peregrinavam pelas ruas esperando o fim do mundo e se autochicoteando, alguns prenunciam o fim da literatura e da arte. A baixa literatura e arte ditam as regras do bom-tom entre os intelectuais. As obras da chamada alta literatura destinam-se a um público altamente especializado e com um objetivo definitivo: didático, profissional, ou estimulado por um programa de televisão ou filme que apelam para este ou aquele título, como se deu com o livro O Perfume, de Patrick Susskind, uma releitura rebaixada de À Rebours, de Houysmans, que alcançou grande nível de vendagem e de que hoje ninguém mais ouviu falar. É o fenômeno da moda, da alta costura em pleno domínio das letras.

O tratamento indiscriminado de qualquer produto como produto artístico, que passaria a ocupar o espaço das belas letras, belas-artes ou da arte erudita, chega ao ápice no fim do milênio. Já na última década do século XX surgem os estudos culturais. Não se sabe ainda se são a tábua de salvação para as artes ou a aceleração de seu processo irremediável de decadência. As universidades e as revistas especializadas deixam de tratar a literatura como linguagem específica para se dividirem em departamentos ou centros voltados para a política da literatura e os problemas sociais, abrindo espaço para estudos cada vez mais politizados: women’s studies (estudos feministas), cultura latino-americana, estudos hispânicos, arte, estudos sociopolíticos. A alta literatura enclausura enclausura-se entre públicos altamente especializados, nas rodas de intelectuais e dos bares, a literatura (assim como as exposições de arte e a música erudita) não é mais o assunto. Fala-se de cinema, de psicanálise, de música popular, da economia, da vida privada. Cada um no seu buraco de pombo, para usar a expressão norte-americana que indica o aprisionamento universitário numa excessiva especialização: “pigeon-holed“.

Ainda não se sabe se os estudos culturais vieram condescender em abrir espaço para a moribunda literatura, ou se vieram acelerar um processo de perda de prestígio que poderia ainda se prolongar por mais algumas décadas, dando espaço para se alcançar algum processo de salvação pelo surgimento de alguma novidade no cenário cultural. A crítica torna-se mais sociológica, histórica, política, antropológica e menos voltada para estudos específicos da literatura, como o eram Hugo Friedrich, Wolfgang Keyser ou Vossler, nos antigos tempos do estudo da estilística textual. Acirram-se os estudos de literatura e cultura, literatura e sociedade e arte enquanto mídia. A crítica e a arte podem até continuar a se voltar para a literatura e o cinema de arte ou a obra de artista, o problema é encontrar público, seja universitário ou o geral. Criam-se núcleos, pequenos grupos especializados que continuam a ler em segmentos: literatura de autoria feminina, afro-brasileira, roman noir, romance policial. É como no início da rádio FM: as rádios AM sobreviveram, mas precisaram se tornar cada vez mais especializadas, voltando para segmentos mínimos da população: donas de casa, motoristas de caminhão, noticiário, certas seitas, tipos de música e até mesmo rádio relógio.

O VIRTUAL NA LITERATURA E NA ARTE: pós-modernismo, pós-estruturalismo, pós-colonialismo, estudos culturais

O estruturalismo consistiu num período crítico eivado de intertextualidades, de citações cruzadas, entre textos e intertextos literários que, no dizer de Julia Kristeva, se autobastavam, conduzindo a outras citações e leituras, numa incursão infindável pelo texto do outro, numa rede interminável. Já no clímax deste movimento, ou seja, no pós-modernismo, Barbara Cassin, em Máscaras da mímese, A obra de LCL, org. Hans Ulrich Gumbrecht e João Cezar de Castro Rocha, Rio de Janeiro, Record, 1999, “Transmissão e ficção”, p. 34-35, p. 25-43,), desmancha a magia das citações e das aspas, mostrando que a citação, desde Diels, o estudioso da literatura grega, é que elegia, de acordo com seu “bom gosto”, os textos dignos de citação, pois na verdade a frase citada é uma apropriação. Toda a etiqueta do processo de citação entre aspas data apenas do típógrafo Guillaume, epônimo de “guillemets”, as aspas, em francês (p. 34). Assim, a “doxografia” não passa de um “objeto filológico que corresponde ao ideal de uma transmissão por pura repetição” (p. 35). Para rivalizar com o culto livro de Genette que lançou toda a escola de análise de texto desde a década de 1970,Palymsestes, desmerece Barbara Cassim, no período pós-moderno: caracteriza a doxografia é “o que ele diz” (phêsin, em grego), enquanto legein significa “querer dizer” e apaga o falante, para que subsista apenas a “repetição da fórmula” (p. 38). Sem dúvida é uma releitura do estruturalismo e da semiologia, em que a repetição do dito e da diferença do mesmo é que vão indicar o significado semiológico dos vocábulos.

Estudos tradicionais — como a antropologia, a filosofia e a história — vêm sendo submetidos a um “profundo questionamento de qualquer formação epistemológica” — afirma Claudia de Lima Costa in “O ‘outro” enquanto sujeito: a problematização pós-esturutalista”, in p. 257, p. 257-63, parte 4., O outro enquanto mesmo, in Identidade & representação, Raúl Antelo, org., Pós-graduação em Letras/Literatura Brasileira e Literária, UFSC, Florianópolis, 1994, 464 p.). O que sucede é a textualização, a “literalização” de todas as antigas ciências, num sentido que antes poderia ser identificado ao de uma ideologia, como vêm fazendo Hayden White e Richard Rorty em filosofia, e Clifford Geertz e James Clifford em antropologia (idem, p. 257). Essas teorias limitam-se a apresentar narrativas ou textos culturais sobre fenômenos textuais “construídos a partir de uma aglomeração de textos” (idem, ibidem). Paralelamente, desequilibrou-se a estrutura sujeito-cientista — e objeto de estudo. O “objeto de qualquer prática discursiva não é nada mais que a própria produção dessa prática e é específico a ela” (idem, ibidem). Rompe-se assim a universalidade e a estabilidade que antes cercava o sujeito do conhecimento. Coloca-se em cheque a crença hermenêutica na quest!ao da formação da subjetividade naas construções e operações epistemológicas e metodológicas (como no caso de Um Geertz, Gadamer ou Paul Ricoeur). Estabelece-se um certo pacto em que o próprio discurso cria o seu objeto, ao contrário do pensamento hermenêutico, que antes via o objeto como um já-dado para ser conhecido pelo sujeito (ver idem, ibidem).

O que se poderia questionar aqui é se permanece um espaço irredutível que poderíamos chamar (ainda) de real. Que o real é impregnado de história, já nos disse de Certeau. Mas se este limiar é que o mundo real, aquele produzido pelo trabalho de todos, num retorno ao conceito marxista de trabalho e de produção relembrado por Lefebvre, então todas as interpretações e releituras são possíveis, e perde-se até mesmo a dimensão da ética na vida humana. Para Lefebvre, há três instâncias no que diz respeito ao real concreto, como em Platão, cada vez mais afastadas do real, em direção aos discursos de representação. Este pacto com a realidade, uma realidade que em si não teria nada de interessante, comenta Richard Rorty, no entanto nos permite uma saída para fora da desconstrução, em relação à construção de um discurso coerente que não fique circularmente eternamente se autoperguntando sua função social o tempo todo.

A LITERATURA NA ERA DO CULTURAL

Afirma Thais Flores Nogueira Diniz em “Representação e identidade nos anos 40”, in Antelo, Raúl, org., Identidade & representação, Florianópolis, UFSC, 1994, p. 237-43, que hoje o texto é “considerado como produto cultural, [e] é visto como absorção, réplica a outro texto ou a vários, e em que o que era entendido como relação de dependência ou dívida para com o antecessor passa a ser compreendido como um procedimento natural e contínuo de re-escrita” (p. 237). Lembra que identidade e representação são conceitos intimamente ligados, pois a “representação, a idéia, aquilo de que é imagem no ato da lembrança resulta em conhecimento da identidade”. Esta se define como uma experiência emocional que permite a cada ser perceber-se como entidade única, apesar de suas contínuas transformações. É a contradição de ‘ser-si-mesmo’ deixando de sê-lo. O conceito de identidade opõe-se ao de alteridade e o reconhecimento da identidade de dois ou mais objetos, ou sua identificação, pressupõe sua alteridade, que lhes permite continuar ‘o mesmo’, persistir no seu ser” (p. 237; ver Greimas, A. J.; Courtes. Dicionário de semiótica. São P;aulo, Cultrix, 1979).

Temos, assim, a pressuposição de que cada obra literária desenvolve elos intertextuais com outras obras — no sentido de intertextualidade que lhe atribuem Julia Kristeva emSemeiotiké e Jean Genette em Palympsestes. Neste sentido, já não haveria a idéia de influência ou preponderância de um autor sobre outro, uma vez que os textos funcionam como redes de sentido complexas e existindo concomitantemente na sociedade atual. No caso de autores cronologicamente anteriores, eles seriam retrabalhados e reinscritos num novo todo lingüístico, pelo autor posterior na tradição literária, tratando-se por assim dizer de um caso de tradução ou transliteração. Mas, para além deste conceito, vemos delinear-se uma tal complexidade de intertextualidades que se configura um problema de hiperrealismo, como na Informática, de signos ou conteúdos que remetem a outros conjuntos de signos ou de conteúdos, indefinidamente.

O cânone literário ficaria assim sob suspeita, podendo-se afirmar que não existe literatura “pura”, no sentido das “belas-letras”, uma vez que todo texto, em última instância, estaria inscrita na totalidade do social, ou na vasta palavra cultura. Desse modo, nenhum texto poderia deixar de estar inserto na história. Um cânone literário único e definitivo seria uma contradição, uma vez que a cultura está em constante mobilidade, assim como a parole (palavra), sempre móvel, com relação à langue(língua), mais fixa. O cânone sempre vai incorporar autores do passado que vão sendo revalorizados — é o caso das escritoras do século XIX que vão sendo resgatadas — e escritores quer atuais, quer passados, uns porque passam a ser considerados, outros porque, tendo sido antes bem considerados, saem de moda ou caem desuso. É o caso, entre nós, de Coelho Neto, que hoje ninguém mais lê. O caso modelar para este fenômeno é Shakespeare, cuja própria existência já foi negada e no século XIX foi valorizado como o mais original e valioso dos dramaturgos, sendo hoje reescrito e transfigurado de todas as formas, a cada montagem e leitura crítica (ver Thais Flores Nogueira Diniz em “Representação e identidade nos anos 40”, in Antelo, Raúl, org.,Identidade & representação, Florianópolis, UFSC, 1994, p. 237-43, por exemplo, a respeito das releituras de Shakespeare em nosso século)

A idéia de um kanon (em grego, vara de medir), de função puramente estética (ver Roberto Reis, “Cânon”, in José Luís Jobim, org., Palavras da crítica, Tendências e conceitos no estudo da literatura, Rio de Janeiro, Imago, 1992, Biblioteca Pierre Menard, p. 65-92, p. 70-1), isto é, com base na filosofia kantiana, que pregava o bem e o belo desinteressados, tornou-se obsoleta. O conceito cultural parece atropelar essa pureza metafísica de conceitos que se originou no pensamento da elite do século XVIII. A primeira pergunta na sociedade atual, supostamente democrática e republicana, é sobre a legitimação do conceito de belo. Quem será o juiz deste conceito? Em que definirá a medida desta beleza? Como afirma Roberto Reis: “O estudo da literatura seria melhor equacionado considerando-o dentro da dinâmica das práticas sociais: a escrita e a leitura estão sujeitas a variadas formas de controle e têm sido utilizadas como instrumento de dominação social” (idem, p. 72). A legitimação dessas obras e dos critérios seria feita pela universidade, pela crítica especializada ou a resenha jornalística nos meios de comunicação social — entretanto, no apagar das luzes do século XX, seria ainda este o critério usual? Sem dúvida, caminhamos na direção contrária à apontada por Harold Bloom em seu O cânone ocidental (Rio de Janeiro, Objetiva, 1995), que desejaria retornar a Shakespeare e apenas ao panteão de autores clássicos e anglo-saxônicos estudados em Yale até 1950. (No Brasil foram publicados recentemente, de Flavio Kothe, O cânone colonial e O cânone imperial, Brasília, ed. Da UnB).

Hoje assistimos à transformação do livro num objeto de consumo e de utilidade prática. O best-seller oferece informações importantes. Paulo Coelho, por exemplo, decifra os passos para a depuração da alma, até a ascese maior, descortinando ao leitor o caminho até Santiago de Compostella. Outros explicam o Japão na época do Xogum ou o Egito no tempo dos faraós. São historiadores que facilitam o vocabulário e o aprofundado estudo cronológico, inserindo-o numa narração cheia de graça e regada a romance, aventura e ação. O leitor sente-se elevado à categoria de intelectual, sem precisar do esforço de estudar ou dirigir-se à universidade. A literatura mostra-se “um eficaz veículo de transmissão de cultura” (Roberto Reis, idem, p. 72), mas, também, um eficaz instrumento de dominação de classe e de grupos sociais altos. Tradicionalmente, houve a exclusão dos povos da periferia européia, os asiáticos, africanos, sul-americanos — processo que está sendo em parte revertido pela atuação da Associação Internacional de Literatura Comparada neste sentido, reunindo-se e estudando o Japão (último congresso) e a África (este ano). No entanto, dada a complexidade do mundo atual, uma listagem de “grandes escritores da literatura universal”, como existia nas universidades norte-americanas e européias até a década de 1950, ou a idéia de uma Weltliteratur, como o desejava Goethe, no momento da criação da Literatura Comparada, no século passado, parece inviável hoje, podendo-se antes imaginar a coexistência de diversos cânones destinados a distintos fins e voltados para diferentes regiões do globo. Estes cânones reconheceriam explicitamente os fins a que se dedicariam, pois o critério estético, eivado de metafísica, no sentido desinteressado e superior a qualquer interesse, parece pouco convincente e até aberto à suspeita, principalmente das classes mais subalternas, se elas receberem a educação a que têm direito — um processo que tem sido retardado indefinidamente no Brasil, com a contínua queda da educação e a manutenção do salário mínimo em 75 dólares mensais. No momento atual, a quebra do conceito de nacionalidade, bem exportado através dos impérios pela escola hegemônica do Romantismo, parece também perpetuar-se pela impressionante influência dos Estados Unidos em todo o mundo, constituindo-se agora como uma nação global. Se, como nos mostra o livro The Empire writes back antes havia o imperialismo capitalista e eficaz da Inglaterra desdobrando-se através da língua, da cultura como armas de dominação cultural expandindo-se na Índia, Austrália, Canadá, etc — com uma eficiência infinitamente superior aos impérios mercantilistas no século XVI de Portugal, Espanha e Holanda, por exemplo, hoje a lição inglesa é elevada a uma infinita potência com o império norte-americano e temos o mundo transformado em aldeia global quase que exclusivamente constituído a sua imagem e semelhança.

CRÍTICA LITERÁRIA BRASILEIRA: TRADIÇÃO E RUPTURA

Balizar a critica literária brasileira dentro desta rede de pensamentos filosóficos e lingüísticos não é tarefa fácil. Pode-se cair na armadilha do nacionalismo, enfatizando a importância de todos os críticos que se voltaram para um pensamento nacional. Assim, se destacaria a preeminência da escola da USP, liderada por Antonio Candido e Roberto Schwarz, e hoje seguida por inúmeros de seus alunos espalhados pelo mundo. Mas esse esforço poderia parecer um pouco infrutífero a partir da década de 1970, quando o pensamento especificamente “brasileiro” passou a se estender a um pensamento mais latino-americano, com pensadores como Roberto Schwarz, ou universalista, como é o caso de João Alexandre Barbosa, que incluiu nos seus ensaios estudos sobre Mallarmé e outros poetas simbolistas, na linha mais eclética de um Augusto Meyer. Inúmeras metodologias passaram a se cruzar a partir da década de 1970, as quais podem ser sintetizadas nos estudos de Literatura Comparada, que passaram a reunir estudos interdisciplinares dos mais diferentes teores. Mas com uma marcante diferença: não preconizava o fechamento em torno de temas da Literatura Brasileira nem com um instrumental oriundo tão-somente do Brasil. Esta foi uma das preocupações de Luís Costa Lima em um certo momento de sua carreira crítica: encontrar as raízes e as ramificações de uma crítica “autenticamente” brasileira (como ele desejaria ver surgir, enquanto “sistema intelectual brasileiro”). O esforço por encontrar algo totalmente autóctone tornou-se um tour de force. Aqui e ali, e no próprio pensamento de Costa Lima, surgiam influências, leituras, contágios, contaminações, apropriações. Na verdade, onde se encontrariam, em pleno século XX, esses pensamentos totalmente originais? Acabou-se por incorrer na teoria das intertextualidades, de Julia Kristeva, a partir do pensamento de Mikhail Bakhtin, e dizer-se que não é mais possível retraçar as influências e, como na rede entretecida de Jorge Luís Borges, e no Palympsestes, de Genette, todos os textos estão em todos os textos, na modernidade. Através da extrema circulação da Literatura Comparada no Brasil, a partir da década de 1980, e principalmente com a revista da ABRALIC n. 1, de Niterói, em 1991, passou-se a valorizar problemas genéricos, como a identidade cultural, a diferença filosófica ou de gênero, e a utilizar como metodologia a interdisciplinaridade, com a conjunção da história, da antropologia e da história. Abria-se um caminho internacional para os estudos da Literatura Comparada. Os apelos marxistas do local e do popular tornavam-se mais raros, e só voltaram a ocorrer no campo da literatura com a ruptura da idéia de erudito, e sua mistura com o conceito de arte popular ou baixa literatura.

O conflito entre nacional e autêntico e uma crítica livre, de caráter quem sabe francês, nos moldes de Sainte-Beuve, esteve presente no Brasil desde os seus começos. Em Alencar, “Como e por que sou romancista” e em Machado de Assis, “O instinto de nacionalidade” o importante era diferenciar-se do pensamento europeu, hegemônico, eurocêntrico. Naquele momento, de fixação das fronteiras nacionais e de uma identidade própria (até certo ponto identificada com a idéia de exótico, de tropical, de indígena e selvático) dizer-se brasileiro era criar uma diferença e afirmar-se uma identidade própria. Entretanto, os críticos literários tradicionais como Santiago Nunes, Artur Araripe, Sílvio Romero e José Veríssimo, prestaram uma atenção apenas periférica ao problema da nacionalidade. Ela se restringia à questão do tema e das descrições no que dizia respeito a cenas de natureza “brasileiras”, isto é, o que resumia a teoria da “cor local”, uma das bases do Romantismo. A verdadeira preocupação desses críticos era, entretanto, o problema estético dos textos. Estudavam a sua eficácia, sua recepção pelo público, a utilização de um vocabulário adequado, oriundo do português e não afrancesado, a descrição de pessoas da classe popular e com o vestuário típico do povo brasileiro que não denotasse influência estrangeira nem descrições excessivamente cosmopolitas ligadas a Paris.

Assim, a crítica literária brasileira nasceu não há 500 anos, mas há menos de 200, no século XIX. Surge com a independência do país, quase no Romantismo, e vence inúmeros problemas. O primeiro, é o analfabetismo do povo. Machado, como bom cronista dos costumes de sua época, assim define o grau de instrução e a política do país: somos 70% de analfabetos (ver crônica de Notas semanais). O segundo, é a ausência de universidades (a Universidade do Brasil data de 1920) e faculdades dedicadas à literatura. Até 1940, quando se cria a primeira Faculdade de Letras do país, os escritores estudavam Direito. Isso leva a uma certa generalização nos seus comentários críticos. A falta de leitura sistemática de autores, críticos, da literatura greco-latina ou de importantes histórias literárias que nos antecederam leva a um ecletismo e um generalismo de estilo que foram denominados de impressionista. É o domínio do sentimento sobre a racionalidade. Vale a impressão pessoal sem fundamento num estudo mais aprofundado ou em comparação a autores antes estudados com afinco. É grande a leitura de obras literárias mas quase nula a procura por obras filosóficas na Biblioteca Nacional do Rio de Janeiro, como se constata através de seu Livro de Consulentes do século XIX. Outro problema é o elitismo de todo sistema intelectual brasileiro. Permitia-se, por exemplo, o ingresso à Biblitoeca Nacional, por exemplo, apenas a homens brancos, de terno, gravata, bengala e chapéu. Jamais descalços (escravos) nem mulheres (esperta foi George Sand, que se vestia de homem e adotou pseudônimo masculino, em pleno século XIX francês).

Conclusão

Nos 500 anos de descobertas do Brasil, talvez devêssemos cobrar de nós mesmos uma crítica pós-colonialista que implicasse na autonomia com relação às dependências do passado, nos moldes do pensamento que surge na Índia, como base para a criação de um país totalmente independente, embora constituído por um rede de línguas e culturas unificada pelos ingleses e outros dominadores artificialmente. No entanto, essa hipótese é remota dada a conjuntura globalizada do mundo atual. O fim da colônia terminou, do ponto de vista cultural, no Romatismo do período monárquico, realizando uma mudança de eixo de influência de Portugal para a França. A influência francesa culminou com o modernismo, no qual muitos manifestos, como o Pau-Brasil e o Antropófago tinham suas bases no Manifeste Caniballe, de Picabia, por exemplo (ver Benedito Nunes, Oswald canibal, São Paulo, Perspectiva). Mas por volta de 1950 a influência francesa foi substituída pela norte-americana, num grande império mundial de bases extraordinariamente globalizadas. Uma crítica pós-colonial nos levaria de volta à dicotomia nacional versus internacional. A um pensamento autóctone. As dicotomias se mostram cada vez mais abertas à suspeita num mundo complexo. Seria o autóctone o indígena? O africano? Ou o retorno à cultura do português? E que fazer com os imigrantes europeus e japoneses? Desse ponto de vista, parece-me que no multiculturalismo que deve prevalecer na cultura e na arte, nosso sistema intelectual brasileiro, que já lutou tanto para ser puramente “brasileiro” durante tantas décadas, deveria reunir os fragmentos da cultura que o compõem e se autoquestionar no sentido de influir no processo o máximo possível. A criação de uma teoria totalmente pura e autóctone, independente e original lembra-nos as teorias racistas do final do século passado e início deste. E o movimento em direção à globalização torna-se inevitável. O que não quer dizer automático nem regulado exclusivamente por outros. A lição da apropriação, já proposta entre nós pelos modernistas, parece ser o único caminho possível para uma teoria e uma prática crítica entre nós e em qualquer parte do mundo hoje, ligado por uma quase visível rede comunicacional que realiza a predição da aldeia global de McLuhan, aldeia global, multicultural mas na qual alguns exportam saberes e bens e outros os importam. Daí a importância da permanência da crítica literária e cultural.

Este texto foi escrito para uma conferência durante o Simpósio Internacional BRASIL 500 ANOS: CAMINHOS DA HISTÓRIA, SÍNTESE DE CULTURAS, realizado na Universidade Federal de Alagoas, em Maceió, de 9 a 14 de abril de 2000, sob a coordenação da Profa. Maria Gabriela Cardoso Fernandes da Costa, da Pró-Reitoria de Extensão e do Forum das Nações. Foi paricalmente publicado em jornal local.

Categories
ESCRITORES

O BOM-CRIOULO

O BOM-CRIOULO

 Adolfo Caminha

 A velha e gloriosa corveta que pena! já nem sequer lembrava o mesmo navio doutrora, sugestivamente pitoresco, idealmente festivo, como um galera de lenda, branca e leve no mar alto, grimpando serena o corcovo das ondas!…
Estava outra, muito outra com o seu casco negro, com as suas velas encardidas de mofo, sem aquele esplêndido aspecto guerreiro que entusiasmava a gente nos bons tempos de patescaria. Vista ao longe, na infinita extensão azul, dir-se-ia, agora, a sombra fantástica de um barco aventureiro. Toda ela mudada, a velha carcaça flutuante, desde a brancura límpida e triunfal das velas até a primitiva pintura do bojo.
No entanto ela aí vinha esquife agourento singrando águas da pátria, quase lúgubre na sua marcha vagarosa; ela aí vinha, não já como uma enorme garça branca flechando a líquida planície, mas lenta, pesada, como se fora um grande morcego apocalíptico de asas abertas sobre o mar…
Havia pouco entrara na região das calmarias: o pano começava a bater frouxo, mole, inchando a cada solavanco, para recair depois, com uma pancada surda e igual, no mesmo abandono sonolento; a viagem tornava-se monótona; a larga superfície do oceano estendia-se muito polida e imóvel sob a irradiação meridional do sol, e a corveta deslizava apenas, tão de leve, tão de leve que mal se lhe percebia o movimento.
Nem sinal de vela na linha azul do horizonte, indício algum de criatura humana fora daquele estreito convés: água, somente água em derredor, como se o mundo houvesse desaparecido num dilúvio medonho…, e no alto, lá em cima, o silêncio infinito das esferas obumbradas pela chuva de ouro do dia.
Triste e nostálgica paisagem, onde as cores desmaiavam à força de luz e a voz humana perdia-se numa desolação imensa!
Marinheiros conversavam à proa, sentados uns no castelo, outros em pé, colhendo cabos ou estendendo roupa ao sol, tranqüilamente, esquecidos da faina. As chapas dos mastros, a culatra das peças, varais de escotilha, tudo quanto é aço e metal amarelo reluz fortemente, encandeando a vista.
De vez em quando há um grande rebuliço: a mastreação geme, como se fora desprender-se toda, o pano bate com força de encontro às vergas, chocam-se cabos com um ruidozinho seco, e ouve-se o cachoeirar da água no bojo da velha nau.
Agüenta! diz uma voz.
E volta o sossego e continua a pasmaceira, o tédio, a calmaria sem fim…
Já os primeiros sintomas de indolência refletiam-se no semblante da gente, convertendo-se em bocejos e espreguiçamentos de sesta, e ainda ficavam tão longe as montanhas da costa e os carinhos da família!…
Escasseavam os gêneros, e o regimen de carne-seca e das conservas em lata aproximava-se ameaçadoramente, causando apreensões à marinhagem.
Tinham dado onze horas na sineta de proa.
O tenente que estava de quarto no passadiço conferiu o relógio dalgibeira, um belo cronômetro de ouro comprado em Toulon, torceu o bigode, passou uma vista dolhos no aparelho, e, dirigindo-se para a espada que descansava junto ao mastro, numa voz clara um pouco, metálica:
Corneta!
Era um oficial distinto, moço, moreno, os olhos vivos e inteligentes, grande calculista, jogador da sueca e autor de um Tratado elementar de navegação prática.
Ninguém a bordo o excedia na procura dos logaritmos. Calculava dolhos fechados, e senos e cosenos acudiam-lhe à ponta do lápis de um modo admirável. Era, invariavelmente, o primeiro que achava a hora meridiana. Tornara-se conhecido logo ao sair da escola pelo sei entranhado amor às matemáticas e à vida naval. Como guarda-marinha deixava-se ficar a bordo nos dias de folga, somente para não perder o hábito. Inimigo de terra, preferia o farniente de seu camarote, ali ao pé dos livros e das fotografias marítimas, ao movimento esterilizador e absorvente dos cafés e dos teatros.
Corneta! repetiu, carregando o semblante numa sombria expressão de constrangimento.
Outras bocas foram transmitindo a ordem até que surgiu, correndo, a figura exótica de um marinheiro negro, dolhos muito brancos, lábios enormemente grossos, abrindo-se num vago sorriso idiota, e em cuja fisionomia acentuavam-se linhas características de estupidez e subserviência.
Pronto! disse levando a mão ao boné com um jeito marcial.
Toca mostra, ordenou o tenente.
As primeiras notas da corneta, límpidas e sem eco no silêncio do mar alto, houve logo um estranho bulício em todos os recantos da corveta. Agora os marinheiros que descansavam à proa, olhavam-se por cima dos ombros com ar desconfiado. Na tolda e pelas cobertas o movimento foi-se acelerando à proporção que o toque finalizava, sobressaindo no atropelo a voz dos guardiões: Sobe, sobe, tudo para cima! de envolta com um barulho de ferros que vinha dos porões.
O mestre darmas, cabrocha pedante, muito cheio de si e de seus galões reluzentes, ia enfileirando a marinhagem por alturas, num exagero metódico de instrutor de colégio, arredando uns para colocar outros, advertindo estes porque não tinham a camisa abotoada e aqueles porque não tinham fita no boné, ameaçando estoutro de levá-lo à presença de seu tenente porque recusava-se a perfilar…
Oficiais começavam a aparecer em segundo uniforme boné e dragonas, arrastando as espadas, mirando-se dalto a baixo, apertados no talim de pano azul, por cima da farda.
Com pouco estava tudo pronto, marinheiros e oficiais aqueles alinhados a dois de fundo, num e noutro bordo, estes a ré, perto do mastro grande, em atitude respeitosa de quem vai assistir a um ato solene.
Tinha-se feito silêncio. Uma ou outra voz segredava baixinho, timidamente. E agora, no silêncio da mostra, é que se ouvia bem a cachoeira de água no bojo da corveta caturrando…
Agüenta!
Por fim apareceu o comandante abotoando a luva branca de camurça, teso na sua farda nova, o ar autoritário, solta a espada num abandono elegante, as dragonas tremulando sobre os ombros em cachos de ouro, todo ele comunicando respeito.
Era homem robusto de feições e presença nobre, olhar enérgico, muito moreno, desse moreno carregado, cor de bronze, que o sol imprime nos homens do mar, bigode largo e compacto, levemente grisalho, com uma ponta de arrogancia convencional.
Silêncio absoluto nas fileiras da marinhagem. Cada olhar tinha um brilho especial de indiscreta curiosidade. Um frêmito de instintiva covardia, como uma corrente elétrica, vinha à face de toda aquela gente abespinhada ali assim perante um só homem, cuja palavra trazia sempre o cunho áspero da disciplina. Era um respeito profundo chegando às raias da subserviência animal que se agacha para receber o castigo, justo ou injusto, seja ele qual for.
Os presos…, fez o comandante, sem se alterar, dando um puxão na manga da farda.
Todos os olhos voltaram-se para o fiel dartilharia, vivamente curiosos, enquanto este, obedecendo à ordem, precipitou-se pela escada que ia ter à coberta, mudo e taciturno.
O tenente continuava no passadiço, a passear como se tudo corresse às mil maravilhas naquele pequeno mundo flutuante de que ele era, agora, uma espécie de rei provisório. Ouvia-se-lhe o passo vagaroso e igual como o de uma sentinela noturna.
A luz intensa do sol caía do alto, pondo brilhos de malacacheta no cristal imenso do mar clamo. Um calor forte e asfixiante penetrava a carne, acelerando a circulação, congestionando, irritando o sistema nervoso atrozmente, implacavelmente.
Toda a atmosfera parecia vibrar num incêndio universal.
E o pano, largo e frouxo, a bater, a bater como uma cousa desesperada…
Calmaria estúpida! pensava o tenente consultando os horizontes. Ele, o grande patesca, a olhar o tempo, sem fazer nada, por causa de um diabo de calma interminável. Raríssimas vezes lhe acontecia aquilo: era mesmo para danar uma pessoa…
Chegam os presos: um rapazinho magro, muito amarelo, rosto liso, completamente imberbe; outro regulando a mesma idade, mas um pouco moreno, também grumete; e um primeira-classe, negro alto, espadaúdo, cara lisa.
Vinham em ferros, um a um, arrastando os pés num passo curto e demorado, e encaminharam-se para o meio do convés, fazendo alto a um aceno do comandante. Este imediatamente segredou a outro oficial, que estava a seu lado com um livro na mão, e, dirigindo-se ao primeiro sentenciado, o da frente, o rapazinho amarelo, cor da terra:
Sabe por que vai ser castigado?
O grumete, sem levantar a cabeça, murmurou afirmativamente: que sim, senhor…
Chamava-se Herculano e no seu rosto imberbe de adolescente havia uns longes de melancolia serena, assim como uma precoce morbidez sintomática… um secreto arrependimento.
Na gola quadrangular de flanela azul destacava a divisa branca de sua classe.
As unhas metiam náusea, muito quilotadas de alcatrão, desleixadas mesmo. Triste figura essa, cujo aspecto deixava uma impressão desagradável e persistente.
O comandante, depois de um breve discurso em que as palavras disciplina e ordem repetiam-se, fez um sinalzinho com a cabeça e logo o oficial imediato, um louro, de bigode, começou a leitura do Código na parte relativa a castigos corporais.
A marinhagem, analfabeta e rude, ouvia silenciosa, com um vago respeito no olhar, aquele repisado capítulo do livro disciplinar, em pé, à luz dura e mordente do meio dia, enquanto o oficial do quarto, gozando a sombra reparadora de um largo toldo estendido sobre sua cabeça, ia e vinha, de um bordo a outro bordo, sem se preocupar com o resto da humanidade.
Junto aos presos equilibrava-se um homem de grande estatura, largo e reforçado, tipo de caboclo nascido no Amazonas, trajando fardeta e boné e segurando com ambas as mãos, sobre o joelho em descanso, o instrumento de castigo: era o guardião Agostinho, o célebre guardião Agostinho, especialista consumado no ofício de aplicar a chibata, o mais robusto e valente de todos os guardiões, e cujo zelo em cousas de patescaria tornara-se proverbial, Nos momentos de manobra difícil, era ele quem auxiliava o mestre na faina, invariavelmente munido de um apito de prata, não se afastando nunca de suas obrigações.
Caboclo macho! diziam os companheiros.
Se acontecia desprender-se um moitão, um cabo qualquer, lá cima nos mastros, em lugar arriscado, ele, mais que depressa, galgava os enfrechates, com aquele corpo muito pesado, transpunha o cesto da gávea, sem olhar para trás, e ei-lo agarradinho aos vaus, atando e desatando, ligeiro, alvo de todos os olhares, oscilando com o navio, em termos de precipitar-se no mar. Homem de poucas palavras, muito metido consigo, tolerante e enérgico ao mesmo tempo em matéria de serviço, não compreendia a disciplina sem chibata, único meio de se fazer marinheiro.
E tinha sempre esta frase na ponta da língua: Navio de guerra sem chibata é pior que escuna mercante…
Por isso os companheiros não o estimavam muito; pelo contrário, evitavam a sua presença, procurando intrigá-lo com o mestre e com os outros inferiores. O guardião Agostinho, sim, que era homem valente, capaz de comandar um quarto…
E riam às escondidas, praguejando contra o burro do Agostinho, que nem ao menos tinha jeito para capitão de proa…
Ele ali se achava também, no sue posto, à espera de um sinal para descarregar a chibata, implacavelmente, sobre a vítima. Sentia um prazer especial naquilo, que diabo! cada qual tem a sua mania…
Vinte e cinco…, ordenou o comandante.
Tira a camisa? quis logo saber Agostinho radiante, cheio de satisfação, vergando o junco para experimentar-lhe a flexibilidade.
Não, não: com a camisa…
E solto agora dos machos, triste e resignado, Herculano sentiu sobre o dorso a força brutal do primeiro golpe, enquanto uma voz cantava, sonolenta e a arrastada:
Uma!… e sucessivamente: duas!… três!… vinte e cinco!
Herculano já não suportava. Torcia-se todo no bico dos pés, erguendo os braços e encolhendo as pernas, cortado de dores agudíssimas que se espalhavam por todo o corpo, até pelo rosto, como se lhe rasgassem as carnes. A cada golpe escapava-lhe um gemido surdo e trêmulo que ninguém ouvia senão ele próprio no desespero de sua dor.
Toda gente assistia aquilo sem pesar, com a fria indiferença de múmias.
Corja! regougou o comandante brandindo a luva. Não se compenetram de seus deveres, não respeitam a autoridade! Hei de ensiná-los: ou aprendem ou racho-os!
O caso era simples: Herculano tinha uns modos esquisitos de viver sempre retraído, pelos cantos, evitando a companhia dos outros, fazendo seu serviço calado, não se envolvendo em sambas à noite, na proa. Tímido e esquivo, cada vez mais pálido, o olhar morto com uma pronunciada auréola de bistre, a voz cansada, caindo de fraqueza, tinham-lhe dado o apelido ridículo de Pinga…
O grumete não podia se conformar com esse tratamento, por mais inofensivo que ele fosse, e vingava-se dos companheiros atirando-lhes palavrões de regateira aprendidos ali mesmo a bordo.
Bastava isto para que ele desenrolasse o vocabulário do insulto numa cólera ameaçadora que às vezes chegava ao delírio.
Os outros, porém, caíam na gargalhada:
Olha o Pinga! Segura ele!
Pinga é …
E lá ia uma obscenidade, um calão grosseiro.
Palavra puxa palavra, quase sempre o gracejo acabava em questões de outra ordem e daí prisões, castigos…
Ora, aconteceu que, na véspera desse dia, Herculano foi surpreendido, por outro marinheiro, a praticar uma ação feia e deprimente do caráter humano. Tinham-no encontrado sozinho, junto à amurada, em pé, a mexer com o braço numa posição torpe, cometendo, contra si próprio, o mais vergonhoso dos atentados.
O outro, um mulatinho esperto, que tinha o hábito de andar espiando, à noite, o que faziam os companheiros, precipitou-se a chamar o SantAna, e, riscando um fósforo, aproximaram-se ambos para examinar…. No convés brilhava a nódoa de um escarro ainda fresco: Herculano acabava de cometer um verdadeiro crime não previsto nos códigos, um crime de lesa natureza, derramando inutilmente no convés seco e estéril, a seiva geradora do homem.
Grande foi o seu desapontamento ao ver-se apanhado em flagrante naquela grotesca situação. Investiu para o SantAna, fulo de raiva, extremamente pálido, e com pouco estavam os dois agarrados numa luta corpo a corpo, aos trambolhões, acordando os que dormiam por ali o bom sono da madrugadinha… Terminou o alvoroço com a prisão de ambos.
Ah! seu Pinga, seu Pinga!… repetia o guardião do quarto. Não pense que, por ser branco, há de fazer das suas…
Tal fora o delito de Herculano e do seu camarada SantAna que também ia ser castigado.
O SantAna, porém, não era lá rapaz de que sofresse calado: tinha sempre o que dizer na ocasião do castigo, desculpando-se como podia perante a autoridade a fim de escapar manhosamente à ação criminal, o que nunca lhe sucedera, porque toda gente o conhecia bastante.
Era um pobre diabo de terceira classe, moreno cor de jenipapo, cabelo rente, à escovinha, olhos negros, nariz acaçapado, cara magra, e cujo nome lá estava no livro de castigos um rol de vezes. Gago de nascença, fazia rir aos companheiros quando abria a boca para dizer qualquer cousa, principalmente se estava num de seus momentos de sobreexcitação colérica, porque, então, ninguém o compreendia.
Tinha a facilidade ingênita das lágrimas: a mais leve comoção fazia-o chorar, transformando-lhe os olhos em duas fontes de úmida ternura.
Pôs-se logo a gaguejar uma história de implicações: que estava bem sossegadinho no seu canto e o Herculano fora provocá-lo, implicar com ele…
Vamos, guardião, vamos, que é tarde. Não estou para ouvir histórias. Vá!…
Agostinho vergou o junco e, resolutamente, sem inquirir cousa alguma, com um risinho de instintiva malvadez no canto da boca, desfechou o primeiro golpe:
Uma! contou a mesma voz de há pouco.
O rapaz empinou-se na ponta dos pés, arregalando muito os olhos, esfregando as mãos.
Ah! gemeu com um grito de dor. Pe… pe… pelo amor de… de… de Deus, seu… seu… comandante!
Vamos, vamos!…
Seguiram-se as outras chibatadas implacáveis, brutais como cáusticos de fogo, caindo uma a uma, dolorosamente, no corpo franzino do marinheiro.
Ele não teve jeito senão suportá-las todas, uma a uma, porque de nada lhe serviam os gritos, as súplicas e as lágrimas…
Hei de corrigi-los, bradava o comandante, aceso em súbita cólera, mal humorado sob a luz ardentíssima do meio dia tropical. Hei de corrigi-los: corja!
Nenhum frêmito de comoção na marinhagem, testemunha habitual daquelas cenas que já não logravam produzir efeitos sentimentais, como se fora a reprodução banal de um quadro muito visto.
Começava a cair uma aragenzinha leve, tão leve que apenas atenuava a força cáustica do sol, inflando as velas quase imperceptivelmente.
O tenente, um pouco animado agora com a viração que precede os ventos largos, tomava notas num pequeno caderno, ansioso por chamar a gente aos braços.
Meio dia quase e ainda não estava acabado o castigo.
Seguia-se o terceiro preso, um latagão de negro, muito alto e corpulento, figura colossal de cafre, desafiando, com um formidável sistema de músculos, a morbidez patológica de toda uma geração cadente e enervada, e cuja presença ali naquela ocasião, despertava grande interesse e viva curiosidade: era o Amaro, gajeiro da proa o BOM CRIOULO na gíria de bordo.
Aproxime-se, disse o comandante imperiosamente, carregando na voz e no semblante.
Houve um sussurro longínquo, um leve, um tímido murmúrio nas fileiras da marinhagem, assim como o vago estremecimento que assalta os espectadores de um teatro nas mutações de cenário. Agora a cousa era outra, na verdade. O Herculano e o SantAna, de resto, não passavam de uns pulhas, de uns miseráveis marinheiros que dificilmente agüentavam no lombo vinte e cinco chibatadas: uns criançolas!… Queria-se ver o Amaro, o célebre, o terrível Bom-Crioulo.
Fez-se nova leitura do Código em voz lenta e cadenciada de ofício religioso, e o comandante, formalizando-se dentro de sua farda muito justa e luzida:
Sabe por que vai ser castigado?
Sim senhor.
Estas palavras, Bom-Crioulo proferiu-as num tom resoluto, sem o mais ligeiro constrangimento, firmando o olhar, atrevidamente, nos galões de ouro daquele oficial. Em pé, junto ao mastro, unidos os calcanhares, os braços caindo ao longo do corpo, militarmente perfilado, havia, contudo, na linha dos ombros, no jeito da cabeça, onde quer que fosse, um recolhido e traiçoeiro cunho de flexibilidade e destreza felinas.
Com efeito, Bom-Crioulo não era somente um homem robusto, uma dessas organizações privilegiadas que trazem no corpo a sobranceira resistência do bronze e que esmagam com o peso dos músculos.
A força nervosa era nele uma qualidade intrínseca sobrepujando todas as outras qualidades fisiológicas, emprestando-lhe movimentos extraordinários, invencíveis mesmo, de um acrobatismo imprevisto e raro.
Esse dom precioso e natural desenvolvera-se-lhe à força de um exercício continuado que o tornara conhecido em terra, nos conflitos com soldados e catraieiros, e a bordo, quando entrava embriagado.
Porque Bom-Crioulo de longe em longe sorvia o seu gole de aguardente, chegando mesmo a se chafurdar em bebedeiras que o obrigavam a toda a sorte de loucuras.
Armava-se de navalha, ia para os cais, todo transfigurado, os olhos dardejando fogo, o boné de um lado, a camisa aberta num desleixo de louco, e então era um risco, uma temeridade alguém aproximar-se dele. O negro parecia uma fera desencarcerada: fazia todo mundo fugir, marinheiros e homens da praia, porque ninguém estava para sofrer uma agressão…
Quando havia conflito no cais Pharoux, já toda gente sabia que era o Bom-Crioulo às voltas com a polícia. Reunia povo, toda a população do litoral corria enchendo a praça, como se tivesse acontecido uma desgraça enorme, formavam-se partidos a favor da polícia e da marinha… uma cousa indescritível!
O motivo, porém, de sua prisão agora, no alto mar, a borda da corveta, era outro, muito outro: Bom-Crioulo esmurrara desapiedadamente um segunda classe, porque este ousara, sem o seu consentimento, maltratar o grumete Aleixo, um belo marinheirito de olhos azuis , muito querido por todos e de quem diziam-se cousas.
Metido em ferros no porão, Bom-Crioulo não deu palavra. Admiravelmente manso, quando se achava em seu estado normal, longe de qualquer influência alcoólica, submeteu-se à vontade superior, esperando resignado o castigo. Reconhecia que fizera mal, que devia ser punido, que era tão bom quanto os outros, mas, que diabo! estava satisfeito: mostrara ainda uma vez que era homem… Depois estimava o grumete e tinha certeza de o conquistar inteiramente, como se conquista uma mulher formosa, uma terra virgem, um país de ouro… Estava satisfeitíssimo.
A chibata não lhe fazia mossa; tinha costas de ferro para resistir como um Hércules ao pulso do guardião Agostinho. Já nem se lembrava do número das vezes que apanhara de chibata…
Uma! cantou a mesma voz. Duas!… três!…
Bom-Crioulo tinha despido a camisa de algodão, e, nu da cintura para cima, numa riquíssima exibição de músculos, os seios muito salientes, as espáduas negras reluzentes, um sulco profundo e liso dalto a baixo no dorso, nem sequer gemia, como se estivesse a receber o mais leve dos castigos.
Entretanto, já iam cinqüenta chibatadas! Ninguém lhe ouvira um gemido, nem percebera uma contorção, um gesto qualquer de dor. Viam-se unicamente naquele costão negro as marcas do junco, umas sobre as outras, entrecruzando-se como uma grande teia de aranha, roxas e latejantes, cortando a pele em todos os sentidos.
De repente, porém, Bom-Crioulo teve um estremecimento e soergueu um braço: a chibata vibrara em cheio sobre os rins, empolgando o baixo-ventre. Fora um golpe medonho, arremessado com uma força extraordinária.
Por sua vez Agostinho estremeceu, mas estremeceu de gozo ao ver, afinal, triunfar a rijeza de seu pulso.
Marinheiros e oficiais, num silêncio concentrado, alongavam o olhar, cheios de interesse, a cada golpe.
Cento e cinqüenta!
Só então houve quem visse um ponto vermelho, uma gota rubra deslizar no espinhaço negro do marinheiro e logo este ponto vermelho se transformar numa fita de sangue.
Nesse momento o oficial, ponteirando o óculo de alcance, procurava reconhecer uma sombra quase invisível que parecia flutuar muito longe, nos confins do horizonte: era, talvez, a fumaça de algum transatlantico…
Basta! impôs o comandante.
Estava terminado o castigo. Ia recomeçar a faina.
 
 
_______________________
 
Fonte: CAMINHA, Adolfo. Bom-crioulo. Biografia, introdução e notas de M. Cavalcanti Proença. Rio de Janeiro: Edições de Ouros, 1966. p. 19-37.
 
 
 

Categories
ESCRITORES

POEMAS

POEMAS

Adélia Prado


COM LICENÇA POÉTICA
Quando nasci um anjo esbelto,
Desses que tocam trombeta, anunciou:
Vai carregar bandeira.
Cargo muito pesado pra mulher,
Esta espécie ainda envergonhada.
Aceito os subterfúgios que me cabem,
sem precisar mentir.
Não sou feia que não possa casar,
Acho o Rio de Janeiro uma beleza e
Ora sim, ora não, creio em parto sem dor
Mas o que sinto escrevo. Cumpro a sina.
Inauguro linhagens, fundo reinos
– dor não é amargura
Minha tristeza não tem pedigree,
Já a minha vontade de alegria,
Sua raiz ao meu mil avô.
Vai ser coxo na vida é maldição pra homem.
Mulher é desdobrável. Eu sou.

____

Fonte: Prado, Adélia. In: Bagagem. O modo poético. In: Poesia reunida. 3a ed. São Paulo: Siciliano, 1991. 407 p. p. 11.

SOLO DE CLARINETA
As pétalas da flor-seca, a sempre-viva,
do que mais gosto em flor.
Do seu grego existir de boniteza,
sua certa alegria.
É preciso Ter morrido uma vez e desejado
o que sobre as lápides está escrito
de repouso e descanso, pra amar seu duro odor
de retrato longínquo, seu humano conter-se.
As severas.

____

Fonte: idem, p. 49.

LIRIAL

Lírios, lírios
a vida só tem mistérios.
Destruo os lírios,
eles me põem confusa.
Os finados se cobrem deles,
os canteiros do céu,
onde as virgens passeiam.
Com cabeças de alho,
os bulbos ficam na terra
esperando novembro para que eu padeça.
Como pessoas, esta flor espessa;
branca, d’água, roxo-lírio,
lírio amarelo – um antilírio -,
lírio de nada, espírito de flor,
hausto floral do mundo,
pensamento de Deus inconcluído
nesta tarde de outubro em que pergunto:
para que servem os lírios,
além de me atormentarem?
Um lírio negro é impossível.
Inocente e voraz o lírio não existe
e esta fala é delírio.

____

Fonte: Prado, Adélia. In: O Pelicano. Licor de romãs. In: Poesia reunida. 3a ed. São Paulo: Siciliano, 1991. 407 p. p. 311.

Categories
RESENHAS

Rimas de Ventos e velas

Rimas de Ventos e velas 
Com a calma de um mar que guarda palavras sem tempo, tendo completado 80 anos de publicação mundial, a obra da escritora inglesa Virginia Woolf, “To the Lighthouse” ou “Passeio ao Farol”, uma das traduções para o Brasil. Considerado o mais importante romance-poema (uma nova espécie de poema sobre o sentido da vida e das relações humanas) de Virginia na Europa, a trama deste livro é relativamente simples, planeja-se um passeio de barco a um farol próximo; em um dia, mas dez anos depois, o passeio finalmente ocorre. Essa obra que é dividida em três “cenas”: A Janela, O Tempo Passa e O Farol, é uma leitura que proporciona grande concretude visual e clareza, e por ser uma obra livre de erudição e pedantismo, comunica-se com o leitor comum que há em todos nós, artistas ou não, isto é, com o common reader. De tão emaranhado na estruturação, é às vezes comparado com a composição de uma sonata ou é visto como a versão literária do pontilhismo, onde personagens protagonistas e figuras secundárias misturam-se umas as outras, como no processo da atomização. Há ainda em alguns capítulos, variação de luz, como no impressionismo, ou como diria o escritor John Lehmann “uma espécie de impressionismo interior”. Esta obra é considerada o mais visionário e formalmente perfeito de seus livros, onde a abundancia deslumbrante de imagens poéticas é observada a todo o momento na estrutura do livro, e segundo Lehmann “não são apenas meras decorações”. “A imensidão de água azul surgia diante dela; o antigo Farol, distante austero, no centro; e à direita,tão longe quanto a vista alcançava,diminuindo e declinando em suaves ondulações,as dunas verdes de relva fluida e selvagem ,que sempre pareciam correr para algum país lunar, inabitado pelos homens. Era essa a paisagem.”[2] Essa paisagem som por som tom por tom, foi re-criada ,sem barateamentos no texto e com profundo conhecimento, por Luiza Lobo escritora, Professora de Línguas Lusófonas na Universidade de Nantes(FR) e tradutora de “Passeio ao Farol”,além de Virginia Woolf, Luiza traduziu mais de trinta obras, entre ficção, ensaios e dicionários, dentre os quais Persuasão, de Jane Austen, O deus escorpião, de William Golding e contos de Edgar Allan Poe. Em 1994 lançou uma tradução bilíngüe do escocês, com introdução e notas intitulada 50 poemas, por Robert Burns (Rio de Janeiro, Relume-Dumará, 1994). Pelos oitenta anos dessa obra, segue abaixo uma pequena entrevista que realizei com Luiza Lobo sobre como revelar em palavras uma paisagem sem tempo ou espaço.
ENTREVISTA
1.“Re-criar é a meta de um tipo especial de tradução: a tradução-arte.”[3] “To the Lighthouse” seria esse tipo especial de tradução?
– Sim, To the Lighthouse teve, na primeira edição, em 1968, o título de O Farol, na Gráfica Record (não é a Editora Record), e o traduzi por devotação. Eu tinha 19 anos quando a comecei, e Virginia Woolf era minha escritora predileta. Propus o título ao dono da gráfica, e ele o aceitou. Eu escrevi meu primeiro artigo sobre sua obra no Globo, em 1970 (31-1-1970), com o título “Virginia Woolf – o romance e as mulheres”. Revi muitas vezes o texto dessa tradução, que foi republicada pela Nova Fronteira (1982), depois pela Ediouro (1a edição, 1993) e pelo Círculo do Livro, e hoje deve estar na 20a edição. O desafio desta tradução é respeitar as inovações estilísticas de Woolf, que acompanham o fluxo da consciência, com um ritmo e uma respiração típicos de seu estilo. Só não estou de acordo com a recriação total ou transliteração livre, pois creio que se deve respeitar o contexto e a cultura do autor que se escolheu traduzir, uma vez que ele é o autor, fundamentalmente.
2. Roland Barthes disse certa vez que deveríamos demolir a diferença entre a literatura e as artes visuais, e renunciar à pluralidade das artes, para afirmar, mais enfaticamente, a pluralidade dos textos…
– Sim, para Roland Barthes a lingüística teria um fator preponderante sobre a comunicação e outras artes, porque o ser humano sempre traduz suas sensações estéticas – de um filme, uma música, uma escultura – na linguagem, na palavra, no discurso. Assim, a lingüística seria o suporte de toda a compreensão estética e as sensações humanas.
3. O Tempo (ou a falta dele) tem qual importancia, nesse livro de Virginia Woolf?
– O Tempo é um tópico fundamental nesta obra de Woolf e em todas as suas obras da maturidade, como The Waves (As Ondas), Between the Acts (eu o traduziria como No intervalo, mas o título da Nova Fronteira ficou Entre os atos…). O tempo sempre foi um tema da predileção de Woolf, representando uma metáfora para a morte e para sua insegurança pessoal diante da vida e os desafios de sua difícil condição psicológica. O tempo representa a constante mobilidade das coisas – como a morte dos seus dois irmãos, um deles na Segunda Guerra, e o bombardeamento de sua casa, em Londres. Um dos três capítulos de O Farol se intitula “O tempo passa” – e mostra a casa em que a família Ramsay passava as férias em ruínas, levando consigo todos os sonhos e bons momentos das pessoas, algumas delas já mortas, como a sra. Ramsay. Esta personagem de Passeio ao farol representa a mãe de Virginia Woolf, que ela perdeu aos 13 anos. É preciso lembrar que sua leitura predileta era, além dos gregos, Marcel Proust, cujo tema fundamental é a passagem do tempo, através do registro minucioso dos acontecimentos da sociedade francesa através de suas crônicas, depois reunidas em A procura do tempo perdido (1919-26). É esta leitura, conforme nos relata em seu Diário, e a de Joyce, que Woolf constrói sua noção de fluxo da consciência. Este constitui uma união ente a realidade externa e as sensações inconscientes das pessoas. Em Passeio ao farol, a noção negativa da passagem do tempo, associada à morte e à ruína, é no entanto superada pela figura de Lily Briscoe, talvez uma representação de sua irmã, a pintora Vanessa Stephen. A pintura do quadro impressionista da Sra. Ramsay no jardim, com o farol ao fundo, feita por Lily, que retorna à casa para terminar de pintá-lo, no último capítulo, que permite conservar e reconstruir o passado.
4. Segundo uma carta escrita por Virginia para seu amigo Roger Fry, ela diz que o Farol é mais do que isso, do que simples metáfora de alguma coisa “não sei lidar com símbolos, exceto dessa maneira vaga”…
– O farol, nesta obra de Woolf, já foi interpretado como símbolo fálico. Hermione Lee, por exemplo, tem um estudo muito bonito sobre o Passeio ao farol. Poderíamos imaginar a metáfora do farol da seguinte maneira: inicialmente todos buscam o farol à distancia, representando a figura fálica do pai. Mas é uma viagem que não acontece, pelas condições climáticas. Então, há um retorno à figura materna (Sra. Ramsay) e à arte da escrita, que é feita por ela mesma (a narradora) e pela pintura (Lily Briscoe). No livro, todos os homens falham – o Sr. Ramsay é um filósofo pretensioso e egocêntrico; o Sr. Carmichael nada faz de notório; na realidade, só as mulheres produzem, neste romance, sendo que a Sra. Ramsay é quem recria toda a beleza do quotidiano e une os amigos e a família ao seu redor, transmutando tudo o que toca em objetos iluminados. Poderíamos concluir que, se o farol é o símbolo fálico, a figura da mãe é seu complemento, a sua luz.
5. O elemento água nos livros de Virginia não é somente um, ambiente, um pano de fundo. É mais que isso: é sua linguagem e substancia vital. “O destino da palavra é tornar-se água?”[4]
– A água é o símbolo materno, justamente o que falta na vida de Woolf, pois depois da morte da mãe ela foi assediada sexualmente pelo meio-irmão mais velho; além disso, para pagar a universidade dos dois irmãos, ela e Vanessa tiveram de cursar a escola em casa, tendo aulas com o próprio pai, o biógrafo inglês Leslie Stephen, editor do Dictionary of National Biography (1885). Essa obsessão com a falta materna e o passado termina por levar Woolf a se suicidar no rio Ouse, enchendo os bolsos com pedras. Ela não resistiu à idéia de ser internada pela terceira ou quarta vez, vítima de anorexia e alucinações. A água é importante também no primeiro livro de Clarice Lispector, Perto do coração selvagem, através da presença do mar. Este é um elemento flexível, dúctil, muito próximo da experiência feminina.
6. Qual escritor ou escritora merece um convite teu para um “Passeio ao Farol”. Se fizer um dia bonito, of course?
– Minha escritora predileta no Brasil é Clarice Lispector, embora também aprecie a poesia de Cecília Meireles e Gilka Machado, e a obra de tantas prosadoras de ficção e ensaio. Selecionei 36 escritoras no meu Guia de escritoras da Literatura Brasileira, que acaba de sair pela Editora da Universidade do Estado do Rio de Janeiro, com financiamento da FAPERJ. Seria injusto não levar todas para um passeio ao farol. Mas em termos de importancia e efeito sobre a minha maneira de escrever, Woolf e Lispector foram as mais importantes.
Por Danielle Fonseca é artista visual. Mora em Belém do Pará
[Título] Trecho de “Porto Solidão” (1980)
[2] Virginia Woolf, To the Lighthouse, pág.16.
[3] Augusto de Campos, in: O Anticrítico, 1986.
[4] Subtítulo da Bolsa de Pesquisa em arte “Rumo ao Farol”, de Danielle Fonseca, financiada pela Fundação Ipiranga (2007).

Categories
REVISTA MULHERES E LITERATURA Revista Mulheres e Literatura - vol.1 - 1997

Nísia Floresta Brasileira Augusta: Pioneira do Feminismo Brasileiro – Séc. XIX

Resumo:
Apresentação da escritora norte-rio-grandense Nísia Floresta Brasileira Augusta (1810-1885), considerada a primeira feminista brasileira pela publicação de Direitos das mulheres e injustiça dos homens (Recife, 1832). Além deste livro, a autora publicou ainda outros títulos relacionados à mulher, à educação feminina, ao índio brasileiro e às viagens que fez pela Europa.
Texto:

Nísia Floresta Brasileira Augusta: Pioneira do Feminismo Brasileiro – Séc. XIX

Constância Lima Duarte

Quando pensamos na história da luta feminina em busca de seus direitos no Brasil, vários são os nomes de mulheres que nos ocorrem. Joana Paula Manso de Noronha,Josefina Álvares de Azevedo, Luciana de Abreu, Francisca Senhorinha da Mota Diniz, Presciliana Duarte de Almeida e Bertha Lutz, por exemplo, são apenas alguns nomes que poderiam ser citados. Mas se recuamos ainda mais e tentamos alcançar as primeiras páginas dessa história, um nome logo se destaca e se impõe: Nísia Floresta Brasileira Augusta. A esta mulher devemos as primeiras e mais importantes páginas dessa luta, pela coragem revelada em seus escritos e pelo ineditismo e ousadia de suas idéias.
Este nome, melhor, pseudônimo, pertenceu a uma norte-rio-grandense – Dionísia Gonçalves Pinto – nascida em 1810 e que, após residir em diversos Estados brasileiros, como Pernambuco, Rio Grande do Sul e Rio de Janeiro, mudou-se para a Europa onde passou o resto de sua vida. Nísia Floresta morreu em 1885, em Rouen, no interior da França. Num tempo em que a grande maioria das mulheres brasileiras vivia trancafiada em casa sem nenhum direito; quando o ditado popular dizia que “o melhor livro é a almofada e o bastidor” e tinha foros de verdade para muitos, justo nesse tempo Nísia Floresta dirigia um colégio para moças no Rio de Janeiro e escrevia livros e mais livros para defender os direitos das mulheres, dos índios e dos escravos.
Nísia Floresta deve ter sido uma das primeiras mulheres no Brasil a romper os limites do espaço privado e a publicar textos em jornais da chamada grande imprensa. E foram muitas as colaborações na forma de crônicas, de contos, de poesias e de ensaios. Aliás, esse é um traço da modernidade de Nísia Floresta: sua constante presença na imprensa nacional, desde 1830, sempre comentando as questões mais polêmicas da época. Se lembramos que apenas em 1816 a imprensa chegou ao país, mais se destaca o papel pioneiro que esta brasileira desempenhou no cenário nacional.
Naturalmente – até como não podia deixar de ser – Nísia recebeu em troca o desprezo, a difamação e o esquecimento, principalmente da parte de seus conterrâneos. Sua figura foi envolvida por um manto de mistério em sua terra natal e durante algumas dezenas de anos não se ouviu falar dela. O pouco que se ouvia estava marcado pelo preconceito, ou impregnado da surpresa de se encontrar, em tempos passados, uma história de vida como a sua e uma obra contendo reflexões tão avançadas para a época. O fato de estar à frente de seu tempo custou-lhe, no mínimo, o não-reconhecimento de seu talento. Seu nome até hoje não costuma ser citado na história da Literatura Brasileira como escritora romântica e muito menos na História da Educação feminina, como educadora.
Se agora ela começa a se tornar um pouco mais conhecida é justamente por esse trabalho de resgate e recuperação de autoras e obras do passado, que vem sendo feito em nossas universidades, por inúmeras pesquisadoras. Alguns de seus livros estão sendo reeditados e suas idéias voltam para nos lembrar um pouco da sofrida história das mulheres pelo reconhecimento de seus direitos e de sua capacidade intelectual.
Faço uma rápida apresentação de alguns de seus escritos, para que vocês conheçam um pouco mais as diversas vertentes da militância da autora. O interessante, numa leitura de sua obra, é observar como os textos dialogam entre si, um iluminando o outro, como peças complementares de um mesmo plano de ação prática, qual seja, formar e modificar consciências. E tal plano tinha principalmente um propósito: alterar o quadro ideológico vigente no que diz respeito ao comportamento das mulheres e, naturalmente, o dos homens seus contemporâneos.
Senão, vejamos: o primeiro livro escrito por Nísia Floresta é também o primeiro de que se tem notícia no Brasil que trata dos direitos das mulheres à instrução e ao trabalho, e que exige que as mulheres sejam consideradas como seres inteligentes e merecedoras de respeito pela sociedade. Este livro, publicado em 1832 em Recife (PE), tem o sugestivo título de Direitos das mulheres e injustiça dos homens, e, quando surgiu, Nísia tinha apenas 22 anos e a grande maioria das mulheres brasileiras vivia enclausurada em preconceitos, sem qualquer direito que não fosse o de ceder e aquiescer sempre à vontade masculina.
No ano seguinte – 1833 – saiu uma segunda edição e, em 1839, ainda uma terceira, no Rio de Janeiro. Direitos das mulheres de Nísia Floresta foi inspirado no livro de Mary Wollstonecraft, a feminista inglesa: Vindications of the Rights of Woman. Só que, ao invés de fazer simplesmente uma tradução, a autora brasileira aponta os principais preconceitos existentes no Brasil contra seu sexo, identifica as causas desse preconceito, ao mesmo tempo em que desmistifica a idéia dominante da superioridade masculina.
Tais reflexões não encontraram eco entre os contemporâneos e são o testemunho do quanto Nísia Floresta representava de exceção em meio à massa de mulheres submissas, analfabetas e anônimas. Foi esse livro que deu à autora o título de precursora do feminismo no Brasil e, talvez, até mesmo da América Latina, pois não existem registros de textos anteriores realizados com estas intenções.
O texto revolucionário de Mary Wollstonecraft havia sido publicado em Londres em 1792, como uma resposta à Declaração universal dos direitos do homem. Neste mesmo ano surgiu a tradução francesa e nos anos seguintes diversas outras edições. Rapidamente o livro se tornou conhecido e repercutiu pela Europa e Estados Unidos consagrando o nome de sua autora como a pioneira na defesa dos direitos da mulher.
Quatro décadas mais tarde seria a vez de Nísia Floresta inscrever seu nome nesta história ao fazer a tradução livre deste livro, baseada na versão francesa. E aí está a grande questão. Na verdade Nísia Floresta não realiza uma tradução, no sentido convencional, do texto da feminista. Ela realiza sim, um outro texto, o seu texto sobre os direitos das mulheres. Mary Wollstonecraft lhe deu a motivação ao colocar em letra impressa questões pertinentes à mulher inglesa, voltadas para o público de seu país. Nísia empreende então uma “antropofagia libertária” e, poderíamos ainda acrescentar: não como opção, mas até como uma fatalidade histórica. Na deglutição geral das idéias estrangeiras aqui chegadas, era comum promover-se uma acomodação das mesmas ao cenário nacional. É o que ela faz. Assimila as concepções de Mary Wollstonecraft e devolve um outro produto, pessoal, em que cada palavra é vivida, em que os conceitos surgem das páginas como algo visceral, extraídos da própria experiência e mediatizadas pelo intelecto.
Não é, portanto, o texto inglês que se conhece ao ler estes Direitos das mulheres e injustiça dos homens. Ainda está para ser feita a sua tradução em língua portuguesa. Temos sim, nesta tradução livre, talvez o texto fundante do feminismo brasileiro, se o vemos como uma nova escritura, ainda que inspirado na leitura de outro. Vejo-o como uma resposta brasileira ao texto inglês; a nossa autora se colocando em pé de igualdade com a Wollstonecraft e até com o pensamento europeu, e cumprindo o importante papel de elo entre as idéias européias e a realidade nacional.
Em sua essência, os Direitos das mulheres de Nísia Floresta se encontram com os Rights of woman,de Mary Wollstonecraft, tanto na denúncia da mulher como “classe oprimida” como na reivindicação de uma sociedade mais justa, em que ela seja respeitada e tenha os mesmos direitos. Também são pontos comuns a denúncia da superioridade masculina apoiada na força física, a valorização da função materna, a educação como o meio eficaz de promoção feminina e o aparato filosófico de feição iluminista. No mais, os textos se distanciam tomando cada qual o seu rumo, segundo as motivações das autoras, o público a que se destinavam e as peculiaridades da condição feminina num e noutro lugar.
Por exemplo: enquanto a feminista inglesa dedica seu livro ao senhor Talleyrand-Périgord – o antigo bispo de Autun e líder moderado da Revolução Francesa – não exatamente para homenageá-lo, mas como forma de lhe responder e contestar suas idéias sobre a educação feminina, Nísia Floresta dedica seus Direitos às mulheres brasileiras e aos jovens académicos de seu tempo. E é fácil entender porquê. As mulheres porque é delas que trata e por elas escreve. E aos acadêmicos porque, afinal de contas, eram eles os representantes legítimos da elite pensante do país, aqueles que poderiam, se quisessem, mudar os rumos dos acontecimentos. Foi desta geração, sabemos bem, que saíram os abolicionistas, os republicanos e também uns poucos – bem poucos – defensores dos direitos da mulher.
Nísia Floresta questiona em 1832 o porquê de não haver mulheres ocupando cargos de comando, tais como de general, almirante, ministro de estado e outras chefias. Ou ainda, porque não estão elas nas cátedras universitárias, exercendo a medicina, a magistratura ou a advocacia, uma vez que têm a mesma capacidade que os homens. Como se vê, ela vai fundo em suas intenções de acender o debate e de abalar as eternas verdades de nossas elites patriarcais.
E, assim, à medida que nos deixamos envolver pelo discurso nisiano, maior se torna nossa admiração por esta figura inovadora e audaciosa. Se Mary Wollstonecraft foi a primeira na Grã-Bretanha a defender os direitos da mulher; no cenário nacional coube a Nísia Floresta o privilégio de praticamente deflagrar a formação de uma consciência feminista. Se considerarmos a contribuição nisiana a esse processo, seu papel de fundadora e sua trajetória militante, num momento histórico de verdadeiro obscurantismo em relação aos direitos femininos, seus vacilos, contradições e certas posturas que hoje interpretaríamos como ingênuas e pueris, afiguram-se menores diante do aspecto pioneiro de sua obra.
Em outros livros ela continuará a tratar da temática destacando a importância da educação feminina para a mulher e a sociedade. São eles: Conselhos a minha filha, de 1842; Opúsculo humanitário, de 1853; A Mulher, de 1859; além de algumas novelas dedicadas às jovens estudantes de seu colégio. Nesses escritos encontramos desde conselhos de como as meninas deviam se comportar, os deveres esperados de uma filha e histórias de cunho didático-moralista, até minuciosas e ricas explanações acerca da história da condição feminina em diversas civilizações e em diferentes épocas.
Em Opúsculo Humanitário, por exemplo, que reúne sessenta e dois artigos sobre a educação já publicados nos principais jornais da corte, Nísia Floresta tece comentários sobre a Ásia, a África, a Oceania, a Europa e a América do Norte, antes de tratar do Brasil e da mulher brasileira, sempre observando a relação existente entre o desenvolvimento intelectual e material do país (ou o seu atraso), com o lugar ocupado pela mulher. Nísia, em consonância com intelectuais da época, defende a tese de que o progresso de uma sociedade depende da educação que era oferecida à mulher; e que só a instrução, aliada à educação moral, dariam maior dignidade e fariam da mulher uma melhor esposa e melhor mãe. Esses, aliás, seriam precisamente os objetivos da educação das meninas: torná-las conscientes de seus deveres e papéis sociais.
Hoje, preocupações como estas de Nísia Floresta, podem soar, a ouvidos menos atentos, como algo ultrapassado e até reacionário. Apenas, é preciso não perder de vista a repentina valorização da mulher ocorrida em meados do século XIX, a partir mesmo do redimensionamento da maternidade enquanto papel social. Se num momento a presença da mulher era inexpressiva em conseqüência da rígida estratificação social que privilegiava o masculino; em outro, a figura feminina transformava-se em centro das atenções, devido à valorização de sua função biológica exclusiva: a maternidade. Tais alterações tiveram, naturalmente, uma grande repercussão em meio às intelectuais que vislumbraram, aí, a possibilidade de as mulheres adquirirem status e poder diante da opinião pública.
Dissemos que Nísia estava à frente de seu tempo. Também na abordagem de outras questões, como quando trata do índio brasileiro, ela foi precursora. Em um longo poema de 712 versos – intitulado A lágrima de um Caeté, de 1849 – encontramos interessantes posicionamentos da autora a respeito do indígena. Uma rápida leitura do texto permite a identificação de inúmeros elementos marcantes do romantismo como a lusofobia, o elogio da natureza e a exaltação de valores indígenas. A novidade é que o poema nos traz não a visão do índio-herói que luta, presente na maioria dos textos indianistas conhecidos e, sim, o ponto-de-vista dos derrotados, do índio vencido consciente e inconformado com a opressão de sua raça pelo branco invasor.
Não cabem, pois, em seu índio, os epítetos de inocente, de puro e de portador daquela “bondade natural”, idealizados nas teorias filosóficas européias e adotadas pelos demais escritores brasileiros. O contato com o homem branco revelou-se pernicioso demais para ele (e a história nos mostra) com conseqüências irreversíveis. A dor do indígena vem precisamente da consciência dessa irreversibilidade e do meio-lugar (ou lugar nenhum) em que se encontra. O discurso da narradora, absolutamente preso ao do índio e às vezes até se confundindo com o dele, acrescenta um dado fundamental: o da perda de identidade por parte do silvícola, que os escritores românticos do período tentavam escamotear.
No mesmo ano da publicação de A lágrima de um Caeté, Nísia Floresta viajou para a Europa, onde permaneceu vinte e oito anos de sua vida. E, nessa época, no auge da maturidade intelectual, relacionou-se com grandes escritores, como Alexandre Herculano, Dumas (pai), Lamartine, Duvernoy, Victor Hugo, George Sand, Manzoni, Azeglio e Auguste Comte, viajando durante anos seguidos pela Itália, Portugal, Alemanha, Bélgica, Grécia, França e Inglaterra.
Em Portugal ela residiu durante o ano de 1851, quando teve oportunidade de viajar pelo país e fortalecer os laços de amizade com Alexandre Herculano e Antonio Feliciano de Castilho. No Instituto Histórico e Geográfico do Rio de Janeiro, aliás, existe um exemplar de Opúsculo humanitário dedicado a Herculano.
Das muitas viagens que realizou pela Europa resultaram alguns livros que, bem ao gosto da época, contém suas impressões dos lugares que ia conhecendo. Só que Nísia Floresta não realiza simples relatos de viagem. Ela descreve com riqueza de detalhes as cidades, as igrejas, os museus, os parques, as bibliotecas e monumentos, detendo-se nos tipos humanos e comentando tudo que observava sempre com muita sensibilidade e erudição. Itinerário de uma viagem à Alemanha, de 1857, e Três anos na Itália, seguidos de uma Viagem à Grécia (em dois volumes, de 1864 e 1872) são os títulos desses livros escritos e publicados em língua francesa. Apenas o primeiro foi traduzido para o português, em 1982, depois de mais de cem anos em língua estrangeira; o outro, apesar de considerado por mais de um crítico uma obra-prima, onde ela teria alcançado a culminância de seu esplendor intelectual, continua iuêdito em língua portuguesa. E Três anos na Itália é interessante porque contém anotações do ano anterior à unificação italiana, a descrição da luta, dos sentimentos populares, do clima revolucionário e ainda nos revela a admiração da autora pelos líderes, Garibaldi e Azeglio, com quem se correspondeu durante algum tempo.
Um outro trabalho, dos mais importantes, é Scintille d’ un’anima brasiliana, publicado em Florença, na Itália, no ano de 1859. Este livro contém cinco ensaios que tratam da educação de jovens, da mulher européia, da pátria distante e das saudades que ela sentia de seu país, após tantos anos ausente. Um dos textos, intitulado “A Mulher”, trata da mulher francesa de meados do século XIX, que a autora critica pelo comportamento superficial e mundano. Nísia se antecipa aos governantes e pensadores franceses e condena – nesse ensaio – o costume das mulheres de abandonar os filhos recém-nascidos para serem amamentados e criados distantes, no interior do país, por mulheres camponesas. Em outro ensaio, “O Brasil”, também publicado em Paris em 1871, ela resume a história da nação brasileira, fala dos recursos econômicos, das riquezas conhecidas e latentes, dos sábios e escritores mais conhecidos. Sua intenção era, além de fazer propaganda da pátria no estrangeiro, desfazer os preconceitos e mentiras que predominavam na Europa, acerca do Brasil.1
Assim, ainda que rapidamente e nos limites desta palestra, tentei mostrar a importância do resgate de uma figura como Nísia Floresta na história intelectual da mulher brasileira. No momento em que se pesquisa e se constrói a história intelectual da mulher brasileira, é hora de dar a Nísia Floresta o lugar de destaque que ela de fato merece e reconhecer o ineditismo de seus escritos. A autora – que tão longe iria em sua trajetória de vida – foi sim uma mulher “educada” entre as que surgiram no Brasil patriarcal e também uma das raras mulheres de letras de seu tempo. Mas foi mais ainda. Nísia Floresta foi também uma brasileira erudita e “ilustrada”, como bem poucas em nossa história.
 
NOTAS
1 Estão sendo preparados três relançamentos de Nísia Floresta para os próximos meses. Cintilações de uma alma arasileira e Itinerário de uma viagem à Alemanha, pela Editora das Mulheres, de Florianópolis (SC), e Edunisc, de Santa Cruz do Sul (RS); e A lágrima de um Caeté, pela Fundação José Augusto, de Natal (RN).

Categories
REVISTA LITCULT Revista LitCult - Vol.1 - 2001

O Discurso literário-religioso em Juiz de Fora no início do século XX

O Discurso literário-religioso em Juiz de Fora no início do século XX

Geysa Silva

Universidade Federal de Juiz de Fora

A pesquisa, O discurso literário-religioso em

Juiz de Fora no início do século XX, vem acusando uma presença marcante da teodicéia cristã, no período e na cidade em questão. Neste sentido, acredita-se que os estudos até agora desenvolvidos apontam diversos caminhos e atalhos que são tangenciais do projeto matriz e que podem servir de condutores a uma primeira abordagem da obra de Murilo Mendes. Partindo do princípio de que existe uma certa correlação entre fatos históricos e correntes do Saber, basta indagar quais eram as grandes tendências, no início deste século, para visualizarmos o espaço dentro do qual se tocavam os caminhos do pensamento. De um lado, acelera-se o processo de industrialização, com seus aspectos positivos e negativos: avanços da ciência e da tecnologia, desemprego e exploração da força de trabalho. De outro, na filosofia, o positivismo produz um alinhamento que se cristaliza em atitudes semelhantes às vivenciadas pela religiosidade, ensejando o confronto entre anarquistas e contra-iluministas, acirrando os debates e provocando atitudes de extrema agressividade, em ambas as partes.

No caso de Juiz de Fora, cidade situada na Zona da Mata mineira, a proximidade com o Rio de Janeiro, que se pretendia uma nova Paris, e a instalação de fábricas diversas fizeram com que a população vivenciasse transformações sensíveis em sua religiosidade. Pode-se dizer que a expansão do capital e a chegada maciça de imigrantes europeus relativizaram os conteúdos religiosos, que perderam sua realidade objetiva e passaram a ser assunto de indivíduos, isto é, deixaram de lado o cosmos ou a História para ligar-se à existência individual.

Destaca-se, com facilidade, na expressão religiosa de Juiz de Fora, a importância dos católicos, que constituem a maioria da população local e têm, como reduto ideológico, as ordens redentorista e sacramentina, cuja popularidade se assentava na palavra e na ação dos padres Júlio Maria de Morais Carneiro e Júlio Maria de Lombaerde, que, embora não pertencesse ao clero local, tinha seus discursos e livros, lidos e discutidos. Acrescente-se, ainda, o papel desempenhado pelo jornal “O Pharol”, que retrata, em suas páginas, as modificações sofridas pela religiosidade em artigos escritos em linguagem parnasiana e fortemente tendenciosa.

Estabelecendo um diálogo entre religião e literatura, foi possível traçar novas perspectivas de leitura desses discursos, indiciando uma compreensão interdisciplinar do texto poético, que ultrapassa a historicidade ou a imanência da narrativa.

Vivenciando o crepúsculo de uma era e o surgimento de outra (a modernidade), Juiz de Fora, no início do século XX, se reflete nos discursos que redefinem as obrigações religiosas do catolicismo e redefinem o próprio conceito de Deus, nem sempre pensado como fundamento de tudo e de todos, o que vai despertar a reação dos convictos.

A presença real! A permanência de Jesus Cristo

Na terra! A sua perpétua coabitação com os homens!

[…] O espírito que se fortalece neste mistério quase

que sente despedaçados os grilhões da carne e vai,

nas regiões do infinito, pedir aos anjos que cantem

a fortuna e a glória da humanidade

(Júlio Maria, 1905, p. 106-7).

A industrialização plenifica a era dos homens como construtores de seus atos, era exemplificada em O Pharol, mas perde-se a noção de uno e de todo, cuja busca se exibe tanto nos sermões dos dois padres Júlio Maria, como no existencialismo religioso de Murilo Mendes. Religião e literatura, ética e estética emaranharam-se sem conseguir gechar o abismo das novas situações, provocadoras de uma nova consciência.

Se, na Idade Média, por exemplo, tinha-se uma teodicéia que explicava e mantinha unido o mundo, a modernidade inaugurava um mundo que é de alguns e que tem de competir com o mundo dos outros. Luteranos, presbiterianos e metodistas, além dos anarquistas, exibiam a proliferação de crenças e a presença do ateísmo, na fragmentação de atitudes diante dos mistérios da vida. Uns e outros acenavam com a utopia da justiça para todos e com a realização das possibilidades individuais. É sobre essa conjuntura sócio-histórica que se faz a pesquisa de O discurso literário-religioso em Juiz de Fora no início do século XX.

Estudar as obras dos católicos, os artigos de O Pharol, ou as manifestações dos anarquistas exige um compromisso de muitas direções, que mal começam a ser vislumbradas. Tendo como suporte dos “corpora”, os arquivos da biblioteca dos redentoristas, do Centro de Estudos Murilo Mendes, da biblioteca municipal e do próprio arquivo histórico da Universidade Federal de Juiz de Fora, a pesquisa procura mostrar como esses discursos religiosos influíram na formação de Murilo Mendes, de vez que sua família era católica praticante e sua casa freqüentada pelos padres, especialmente pelo padre Júlio Maria de Moraes Carneiro.

É preciso, entretanto, esclarecer que usaremos a palavra discurso como linguagem em interação, pois os sentidos produzidos por um texto não nascem em seu autor, este apenas o retoma. Como afirmam os lingüistas, a linguagem não é somente meio de comunicação e/ou expressão; ela é um espaço de conflito onde se realizam lutas ideológicas. Nossa questão é, pois, caracterizar o discurso religioso, encontrar marcas formais que explicitem seu funcionamento, porque, ao lado da já discutida relação entre religião e cultura, apresenta-se hoje, para os estudiosos em geral, a relação entre religião e literatura, adentrando a crítica acadêmica (principalmente nos Estados Unidos), apoiada na necessidade de novas interpretações do texto poético.

Sabe-se que o discurso religioso é, por sua especificidade, autoritário, procurando absolutizar um sentido de tal maneira que se torne o único e, por conseguinte, sua polissemia é contida. Em se tratando do discurso católico, a performatividade, que considera a linguagem como ação, é exercida pelos padres que falam sempre “no lugar de”. A palavra detentora da verdade requer a crença e faz a mediação com o sagrado, constituindo o discurso religioso em promessa ou em ameaça, conforme as circunstâncias. Vejamos quais eram essas circunstâncias em Juiz de Fora e quais reações a elas eram dadas pelo discurso religioso.

O final do século XIX e o início do século XX trazem para Juiz de Fora a vontade hedonística de aproveitar cada momento da vida. A industrialização, em toda parte, sempre permitiu que os mais pobres se reconhecessem como tal e, portanto, que as diferenças sociais ficassem mais evidentes. Torna-se rara a submissão à vontade de Deus, ou manter a esperança numa vida melhor, mesmo essa esperança sendo mediada pela figura do Cristo encarnado. É assim que A teodicéia social do cristianismo (isto é, sua legitimação das injustiças da sociedade tem desmoronado juntamente com a plausibilidade geral da teodicéia cristã. (Berger, 1985, p. 91). O padre Júlio Maria vai ameaçar a cidade com um eschaton divino: a epidemia que, em 1918, já grassava em outros lugares próximos:

Cidade infiel! Por que temes a peste, a desolação e a morte, se tens em mim o remédio, a alegria e a vida? toda tua confiança, Eu sei estava nos meios humanos; tu os aplicaste; mas eles estão esgotados: só te resta a Minha Misericórdia (Júlio Maria, 1934, p. 31).

O Deus que assim fala tem a plenitude do poder e pode livremente usá-lo, quando a causa é santa (para ajudar os fiéis), ou quando a causa é sacríliga (para puni-los). Essa é a lei da graça, segundo a qual se obtém reconhecimento ou castigo. A questão da culpa e do castigo vai levantar problemas outros. O pecado e as conseqüências dele advindas são vistas sob forma de um masoquismo religioso, justificador de todos os males. Um Deus poderoso castiga os homens, que devem modificar seu comportamento para escapar à danação. Mesmo se o castigo é por demais rigoroso e parece injusto, Deus não pode ser interpelado, pois sua ética está acima dos padrões humanos. Poder-se-ia dizer que a proposta apresentada no discurso religioso é a reiteração das palavras de Jó: Ainda que Deus me mate, confiarei nele. Também os padres não estão isentos de culpa. Ataca-se a desorganização pastoral que se descuidava dos ensinamentos da fé, omitindo-se das obrigações catequéticas para satisfazer o gosto mundano de festas comemorativas as mais diversas. Padres que não estudam a palavra de Deus e adotam o improviso na prática oratória são asperamente criticados pelo padre Júlio Maria:

Pode saber pregar quem não procura no Divino Mestre da palavra a alma, a inspiração, o fogo da eloqüência sagrada? […] A palavra de Deus não precisa, para trazer frutos, de talentos oratórios; precisa apenas ser reproduzida com decoro, fidelidade, gravidade (Júlio Maria, 1934, p. 86).

É justamente nessa via que se constituem os fundamentos da crença, estabelecendo, a partir da compreensão das escrituras, o sistema de regras de vivência. Prosseguir continuadamente com a formação teológica é pré-requisito exigido dos sacerdotes, que devem oferecer, ao público, um referencial de comparação para validade da religião católica. O sacerdote, como medium entre o homem e a realidade absoluta, é fonte do conhecimento religioso, pois ele explica e aponta o espaço da revelação, onde todos os temores se desvanecem. Através da palavra sacerdotal, Deus se faz conhecer e só assim ganham sentido o culto e os rituais.

Convencer o público, argumentar a favor de uma religião que se estiolava no combate com outras religiões e com suas divisões internas é tarefa que exige a fala literária e lingüística cuidada. O padre Júlio Maria toma consciência, dramaticamente, de que bons exemplos não são suficientes para os fiéis adotarem uma vida que mereça a redenção. É preciso divulgá-los através de uma oratória apoiada no discurso literário, configurado por um ritmo musical que se aproxima da poesia. A fala performática, que do público imprecava contra os fiéis, é atravessada por uma melodia monocórdia, análoga e monofônica do canto gregoriano, que o rigor eclesiástico conduziu ao máximo da perfeição expressiva, permitindo que, até hoje, ouvintes se deliciem com sua beleza. Essa monodia (segundo alguns) ou monofonia (segundo outros) limita as opções de representação, todavia permite centrar a atenção no orador e por conseguinte, em suas palavras, conforme se constata neste trecho O Deus desprezado.

Eu sigo os trilhos que o senhor me riscou;

dou os combates a quem me convidou;

acompanho a Estrela que Ele fez brilhar

nas trevas da minha mocidade (Júlio Maria, 1934, p. 102).

A importância do padre Júlio Maria, na formação de Murilo Mendes, é explicitada em A idade do serrote (Mendes, 1994, p. 94), quando o poeta dele fala como alguém que possui uma visão diferente do catolicismo: “O padre Júlio Maria já me vacinara contra a religião piegas das beatas”.

Outro padre, que se destacou na pregação da fé católica e na oratória sacra, coincidentemente tem o mesmo prenome do primeiro: foi Júlio Maria de Lombaerde. A coincidência de nomes não se repetiu nas posições político-religiosas, dentro de uma igreja que era comum aos dois. Atuou em Manhuaçu, em Varginha e em Dores da Boa Esperança, porém seus sermões, publicados em livros, circularam intensamente em Juiz de Fora. Levando vida austera, verdadeiro exemplo de ascetismo, Júlio Maria de Lombaerde era também conservador em questões político-teológicas. Seus escritos apontam para uma clara influência de Santo Agostinho, ensinando que devemos procurar não a sabedoria profana, que pretende desvendar os segredos da natureza e, sim, a sabedoria espiritual, aquela capaz de colocar-nos em contato com o transcendente e aperfeiçoar o que ‘há de melhor em nossa alma!’

O conservadorismo leva o padre Júlio Maria de Lombaerde a atacar o evolucionismo de Darwin, opondo-se até a Aristóteles e a Spencer; condena qualquer tipo de materialismo, uma vez que, para os católicos, é fundamental estabelecer diferenças entre o corpo e a alma, pois o primeiro vem da terra e a segunda, de Deus, como ensina a Bíblia. Nestas condições. Somente é aceita a história de Adão e Eva para explicar a origem do mundo e dos homens. É no Gênesis que se encontra a verdade primeira:

Deus disse: – ‘Que haja luz!’ E a luz existiu. Deus disse: ‘Façamos o homem à nossa imagem e semelhança’. E Deus criou Adão. Tudo isso é sublime e deixa entrever o dedo de Deus. Tudo está explicado pela onipotência divina e nossa origem é divina (Lombaerde, 1937, p. 11).

Ao ataque de anarquistas e ateus responde que a existência de Deus não é uma discussão científica, mas um problema de fé. Esse argumento é hoje defendido por Ferry, que nos diz:

Pois se a existência de Deus, admitamos por hipótese, nos fosse demonstrada em boa e devida forma, com um rigor e uma precisão perfeitamente científicos, ninguém teria paradoxalmente nenhuma razão para acreditar. Ninguém mais teria fé, mas “saberíamos” Deus, como sabemos que Napoleão existiu, mesmo que ele não pertença mais a este mundo (Ferry, 1999, p. 3).

Concebendo Deus como “actus purus“, padre Lombaerde defende o intelecto sobre-humano da mente divina, que não concebe distinção entre realidade e possibilidade. Assim, ao homem foi dado o livre-arbítrio para que faça suas escolhas. Não há determinismo nem fatalismo, estamos longe da “moyra” grega, de quem era impossível escapar. Agora há responsabilidade plena.

O homem deve dilatar a alma pela oração e pela virtude. A salvação é uma obra a dois: Deus e o homem. Porém, Deus deu ao homem o lívre-arbítrio, sem o qual seria apenas um animal e não mais um ser inteligente e livre (Lombaerde, 1937, p. 172-3).

Num momento histórico em que a pobreza e a doença convivem com a ostentação da opulência, o discurso precisa ser altamente persuasivo, para despertar nos fiéis as virtudes teologais que, segundo Santo Agostinho, nunca estarão separados. Lombaerde aponta a prática dessas virtudes como caminho da salvação: agir com amor (ao próximo e a si mesmo), acreditar na vida eterna e, apesar de todos os sofrimentos, esperar encontrá-las, após a morte.

(…) Os bons sofrem, mas para expiarem suas faltas, para se purificarem e merecerem a glória eterna (…). Nem para os lírios tudo é lírio! O Salvador não nos pretende preservar de sofrimentos, mas Ele quer que na dor como na alegria, olhemos para Ele, abençoemos sua mão paternal, e Nele esperemos mais do que nos homens (Lombaerde, 1937, p.89).

A comparação com os lírios, símbolos da pureza, indicia a justificativa dos males que atingem os “bons”. É na própria natureza humana que se encontra a razão do mal. Sofrendo o estigma do pecado original, o homem já nasce sob o signo da culpa. Pior: ainda que Adão e Eva não merecessem a perda do paraíso, não sendo criadores, mas apenas criaturas, os homens seriam marcados pela imperfeição:

No momento em que Deus resolveu fazer as criaturas, Ele não podia escolher, tinha que fazê-las necessariamente defectíveis. Pois só Ele é e pode ser indefectível e devia assim introduzir em sua obra a possibilidade do mal (…). O único bem perfeito é Deus (Lombaerde, 1937, p. 68).

Subrepticiamente, o discurso introduz o tema da recompensa e do castigo, do mérito e do demérito. Há nessa religiosidade o imperativo categórico kantiano, uma escuta interior – o dever que a consciência impõe ao sujeito, um deus que é visto como imagem, modelo a ser seguido pelos homens. O texto é organizado em frases declarativas, de maneira a não deixar dúvidas. O emprego dos adjetivos defectível e seu antônimo, tirados da linguagem culta, empresta solenidade ao discurso que impressiona pela clareza da sintaxe. Há uma defesa apaixonada da fé e da verdade religiosa, qualificada de supra-racional. O homem deve aceitar a miséria de sua condição e conformar-se em viver num mundo degredado, para redimir a si mesmo:

Deus sabia pela presciência divina o que aconteceria com a raça deste homem. Ele viu tudo… tudo… (…) e não quebrou a estátua que tinha diante de si, como um artista descontente com sua obra. Porque mais alto que a ingratidão dos homens, Deus enxergava a misericordiosa figura do Redentor dos homens. (…) A criação, esmo que imperfeita, é um bem. Por causa de poder haver certos males neste bem, Deus não deveria deixar de criá-lo. (…) Seria sacrificar um bem maior por causa de um bem menor (Lombaerde, 1937, p. 139).

O final apoteótico desses sermões substitui a gratuidade e a insignificância de nossa existência pela crença na redenção. Ao notar as “doenças” de uma cidade que começava a mergulhar na era técnica e a entregar-se aos excessos do pragmatismo, padre Lombaerde vai tentar “salvá-la” para Deus, propondo uma prática de vida que se opunha à superficialidade da fé de seus contemporâneos.

Entretanto, a defesa do catolicismo não ficava restrita aos púlpitos. Ela se fazia também nos jornais, como acontecia com “O Pharol!”. Na coluna intitulada “Pregação histórica”, a Igreja empreendia sua força legitimadora que, segundo Peter Berger, “constitui-se num processo fundamental de socialização e controle social (…), que serve para atenuar qualquer ameaça de rompimento com o mundo objetivo” (Berger, 1985, p.42). Assim, o jornal traçava perspectivas moralizantes, através do uso de uma linguagem normativa, com características literárias. Assinada por um enigmático Sibillat, a coluna “Pregação Histórica” fustigava os crentes com suas admoestações.

Queixamo-nos das calamidades, e de todos os flagelos com que Deus nos pune; queixamo-nos das doenças, dos insucessos em nossos negócios; e, entretanto, a origem principal de todos os males, são essas bocas infernais; essas penas impudicas, (…) a vomitarem lavas de blasfêmias, torrentes de obscenidade e de insultos contra Jesus Christo, sua Egreja e os bons costumes.

São como outras tantas cavernas pestilenciais a exalarem mortífero veneno, e que deveriam ser fechadas,…, como contrárias às leis morais, cujo respeito e observância trazem tranqüilidade e boa ordem,…, prosperidade e engrandecimento, ao indivíduo, à família, à nação (“Sibillat”, in O Pharol, 14/07/1899). O jornal não apresenta numeração de páginas e suas edições encontram-se em precário estado de conservação, impossibilitando uma melhor especificação da nota.

Com a proclamação da República e concedida a liberdade de culto, novas correntes religiosas chegam a Juiz de Fora. Para enfrentá-las, a Igreja Católica procura diminuir e diferença entre conselho e advertência, usando uma argumentação com base histórica; observe-se a apresentação de Henrique VIII:

O real chefe do protestantismo (…) Para fazer uma idéia justa ou pelo menos aproximada dos sentimentos, que enchiam o coração desse monstro, basta lembrar – diz o Apóstolo – que ele sacrificou à sua paixão 2 cardeais, 18 arcebispos, 335 nobres, 124 cidadãos… Acrescente-se ainda que duas rainhas, Ana Bolena e Catarina Howard, foram degoladas em conseqüência da inconstância dos amores deste príncipe, que foi o primeiro chefe da Igreja Anglicana (O Pharol, 25/1/1900).

O início do século XX mostra o jornal O Pharol preocupado em disputar o mercado de pregações religiosas. O discurso católico tenta agradar tanto os “velhos consumidores”, apegados à tradição, como os “novos consumidores” que experimentavam as novas simbologias. Se, em 7 de janeiro de 1900, O Pharol publicava “Os sofrimentos humanos agravaram mais e mais, parece que apregados às conquistas científicas do homem”, em 25 de janeiro do mesmo ano, o discurso se torna compreensivo, adaptado aos tempos “modernos”: “Não somos daqueles que querem mal aos que, ou por um desvio da razão, ou por ferrenha pertinência no erro, não comungam”. O jornal adota também a forma poética, em versos que celebram a humildade e a resignação, como se pode ver neste fragmento do soneto “A bofetada”.

Vergado e cambaleando, quase morto

Sob o peso sinistro do madeiro,

Segue Jesus – o grande mensageiro

Da egualdade, da paz e do conforto.

…………………………………………………..

E elle, sereno, como se rezasse,

Murmura, offerecendo-lhe a outra face:

Fere, tambem, deste outro lado, irmão!

(Correa de Azevedo – O Pharol, 14/01/1900)

Conclui-se da leitura desses diferentes discursos que eles só adquirem significação plena, quando há interação entre locutores e ouvintes ou leitores, pois há sempre, por parte do primeiro, modalização apreciativa, ou seja, a fala se dirige a um público determinado e procura atingir finalidades específicas.

É importante destacar a preocupação com a salvação e com a doutrina: deseja-se ligar a criatura humana a seu princípio divino, mostrar que os eixos da existência estão invertidos, afirmar a necessidade de o sagrado sobrepor-se ao profano; tenta-se reparar o corte que separa o imaginário da razão, a verdade revelada do conhecimento objetivo. O discurso religioso da época exibe irritação com a mentalidade científica e uma grande tensão vivida pela Igreja diante dos obstáculos oferecidos por todo um processo de metamorfose social, confirmando a linguagem como construtora de símbolos indicadores do aspecto religioso da vida. Essa linguagem reconhece que o crente não é passivo, inerte diante das ocorrências; ao contrário, o discurso religioso concebe esse homem como participativo, sujeito a influências diversas, co-produtor de seu próprio mundo.

Bibliografia:

Berger, Peter. O dossel sagrado. Trad. José Carlos Barcellos. São Paulo: Paulus, 1985.Mendes, Murilo. Obra completa. Rio de Janeiro: Nova Aguilar, 1995.Moraes Carneiro, Júlio Maria. O deus desprezado. Rio de Janeiro: Boa Imprensa, 1934.Lombaerde, Júlio Maria. O anjo da luz. Petrópolis: Vozes, 1937.Orlandi, Eni Pulcinelli. 2ª ed. Campinas: Pontes, 1987.O Pharol. Juiz de Fora: 1899/janeiro 1900.Ferry, Jean Luck. Caderno de Cultura de O Estado de São Paulo, 10.10.1999.
Categories
REVISTA LITCULT Revista LitCult - Vol.1 - 2001

O ENSAÍSMO DE EDUARDO LOURENÇO: A INQUIETA E LUMINOSA EXPERIMENTAÇÃO DO (IM)POSSÍVEL

Resumo:
O ensaio (stricto sensu): tentativa de definição, levando em consideração seus principais aspectos e o papel que desempenha na arquitetura dos gêneros literários. Ensaio-exame e ensaio-enxame: algumas considerações. Principais ensaístas portugueses. O ensaísmo de Eduardo Lourenço: temas recorrentes (a imagologia e a questão identitária; idéia de Europa) e heterodoxia. O estilo: o pendor epigráfico; as construções quiasmáticas; a incorporação do onírico e do imaginário; a dobra; a ironia, o duplo e o labirinto; a errancia; a vocação do infinito. O texto: a inquieta e luminosa experimentação do (im)possível ou a escrita no limiar do literário. O fascínio de ler Lourenço como se lê um romance.
Texto:

O ENSAÍSMO DE EDUARDO LOURENÇO: A INQUIETA E LUMINOSA EXPERIMENTAÇÃO DO (IM)POSSÍVEL

Maria de Lourdes Soares

Universidade Federal do Rio de Janeiro

      1. O ensaio: breves considerações

O que é um ensaio? Nas palavras de Eduardo Prado Coelho, o ensaio,stricto sensu, é um texto “onde o autor se interroga e nos interroga (…), é o exercício, tanto quanto possível livre, de uma razão que não procura soluções”, mas reunir elementos para que cada leitor possa elaborar as soluções possíveis. Pressupõe, portanto, “uma consciência da pluralidade dos fins e dos meios e das conexões dialécticas que concretamente os estruturam: não pode desconhecer nem a ironia nem a ação que a supera” (Coelho, 1972: p. 48-49). Os ensaios, ainda segundo o crítico, num estudo posterior, “são “textos de reflexão que (…) desenvolvem um pensamento autônomo, que não procura divulgar uma verdade estabelecida previamente, mas sim, encontrá-la e, simultaneamente, perdê-la no labirinto interminável da escrita” (Coelho, 1984a: p. 43).

Mais recentemente, retomando a sua reflexão sobre o ensaísmo, Prado Coelho sublinha “o papel instabilizador do ensaio na arquitectura dos gêneros literários” (Coelho, 1977: p. 18). Agrupando, didaticamente, os estudos sobre o ensaio em dois tipos, considera que em títulos do tipo “ensaio sobre a essência do ensaio” destaca-se “a noção de exame, com o seu rol de conseqüências: a exigência, o gosto, a prova, o peso, a balança”; já em títulos na linha de “ensaio sobre o ensaio”, sublinha-se “a importância do enxame, nuvem de pássaros, mancha indecisa de multiplicidades, proliferação ilimitada, jogo de espelhos” (Coelho, 1997, p. 20).

As considerações de Prado Coelho sobre o ensaio fundamentarão, nesta fase da pesquisa que desenvolvo, as reflexões sobre a escrita ensaística de Eduardo Lourenço.

      1. O ensaísmo de Eduardo Lourenço

“Um ensaísta é um experimentador do possível“.

Eduardo Lourenço

Eduardo Lourenço conta com mais de meio século de produção intelectual, veiculada através de uma admirável bibliografia, considerada em termos de extensão e de alta qualidade.

A figura e a obra do ensaísta vêm recebendo o merecido reconhecimento por parte da crítica, não apenas no âmbito da cultura lusíada, mas também no cenário europeu e internacional. Os prêmios e os títulos atribuídos ao eminente ensaísta confirmam a importância da sua obra, notadamente para os lusófonos e lusófilos. Além da outorga, em 1995, do título de Doutor Honoris Causa da UFRJ (primeira instituição a distingui-lo com este tipo de prêmio), merecem destaque, entre as inúmeras homenagens que lhe foram prestadas, a atribuição do Prêmio Europeu de Ensaio Charles Veillon (1988) e o Prêmio Camões (1996).

Eduardo Lourenço é certamente a personalidade lusíada de maior relevo da atualidade, sendo inclusive considerado por muitos críticos o maior estudioso da cultura portuguesa que surgiu no século XX. Presença ansiosamente aguardada nos Congressos e outros eventos afins que tematizam a cultura portuguesa, Lourenço inscreve-se com igual destaque como pensador das questões mais inquietantes do nosso século.

Desse modo, depois de publicar o já clássico O Labirinto da saudade (1978), Eduardo Lourenço dá continuidade aos seus estudos sobre Portugal e a cultura portuguesa, publicando, entre outros, Nós como futuro, texto escrito por ocasião da EXPO’98, e, em 1999, Portugal como destino seguido de Mitologia da saudade. Em 1998, publicou também O Esplendor do caos, obra em que dedica estudos sobre a situação da cultura na era da mundialização, procurando refletir sobre a desordem no imaginário finissecular, a vivência da caoticidade em que estamos mergulhados, enfim, o caos nosso de cada dia, caos que “habitamos como se fosse o próprio esplendor” (Lourenço, 1998b: p. 11).

À admiração coletiva que cerca o ensaísta, contudo, não corresponde, com a mesma intensidade, a produção de estudos objetivando um maior aprofundamento dos estudos sobre a sua obra. Foi precisamente a percepção da necessidade desse aprofundamento e a constatação da inexistência, até onde me foi possível saber, de estudos que privilegiassem os processos de construção da escrita de Lourenço que me levaram a apresentar à UFRJ, em maio de 1999, o projeto de pesquisa intitulado “O ensaísmo de: Eduardo Lourenço: o mar sem fim do pensamento e a escrita no limiar da ficção”.

A reconhecida notoriedade da sua figura poderia converter-se em obstáculo a um desejo de aproximação, no sentido de que a sua imensa projeção cultural, tal como ocorreu com Camões e Pessoa, tenderia a criar um halo mítico de efeito paralisante em termos de interlocução com o seu pensamento. O mesmo poderia ser dito em relação ao brilho da sua escrita, cuja luminosidade acabaria por inibir uma vontade de efetivo diálogo.

O que o estudo que pretendo desenvolver propõe é uma leitura que, sem recusar o inegável fascínio do ensaísmo de Lourenço e sem desconsiderar o lugar cultural em que o autor foi colocado, consiga atravessar o esplendor de seus textos (para usarmos uma palavra presente no título de um de seus livros mais recentes), sem no entanto deter-se na pura contemplação. Interessa-me pensar no porquê do fascínio que os textos de Lourenço exercem sobre o leitor — o seu modo de estar na escrita, as estratégias discursivas a que recorre —, relacionando esse poder de sedução com a vivacidade e a amplitude do seu pensamento.

Motiva-me aprofundar uma hipótese que se esboçou com mais nitidez no texto da Prova Escrita do Concurso Público para Professor Adjunto da UFRJ, que realizei em 1997 (“O ensaísmo em Portugal”), hipótese que, de certa forma, estava implícita no modo como leio Lourenço: leio-o como se lê um romance, ainda que o seu texto não se apresente ao leitor com os conhecidos protocolos de leitura romanescos. Talvez seja essa a razão por que ler Lourenço é sempre um prazer antecipado — prazer que não exclui o trabalho. Em resumo, interessa-me pesquisar a construção desse ensaio que se escreve sob o fascínio de outro território — o da ficção.

Em Portugal, renomados ensaístas (lato sensu) — Eduardo Prado Coelho, Silvina Rodrigues Lopes — dedicaram estudos a Eduardo Lourenço, fornecendo-me importantes elementos que constituíram pontos de partida para o desenvolvimento da questão.

O impulso inicial veio-me de Eduardo Prado Coelho. Leitor atento da cultura contemporânea em suas diversas manifestações artísticas, notadamente da literatura e do cinema, Prado Coelho revelou-se também um dos melhores leitores de Eduardo Lourenço, assim se referindo à obra daquele que, em sua opinião, mereceria a qualificação de verdadeiro ensaísta:

(…) soube articular, com extrema lucidez e brilhante desenvoltura da escrita, toda a tradição da esquerda portuguesa, toda a densidade existencial dos anos 50, e o mais fundo das mutações culturais de nosso tempo, na sua dimensão pulsional, errante (…) e apaixonada (Coelho, 1984 a, p. 44).

Diante da dificuldade de ler Lourenço no sentido de ultrapassar o efeito de fascínio que seus textos exercem sobre o leitor —, Prado Coelho, no artigo “Eduardo Lourenço: um rio luminoso”, sublinha a urgência cada vez maior de se ler o ensaísta, procurando encontrar a lógica específica do seu discurso. Assim, com base no livro Poesia e Metafísica (1983), o crítico procura ler Lourenço “na intertextualidade de sua imensa biblioteca”, “na trama da sua conceptualidade às vezes indecisa”, “na espessura vivida de um pensamento”. O crítico encontra na imagem do círculo aberto a melhor definição para a dinâmica do pensamento do autor de O labirinto da saudade, movimento que vai do centro ao horizonte, “da caverna ao rio”, sem contudo “perder no caminho o sentido da origem” (Coelho, 1984b, p. 280).

O impulso seguinte deu-mo o texto de Silvina Rodrigues Lopes. Autora de brilhantes estudos sobre Sophia de Mello Brayner Andresen, Agustina Bessa Luís e Maria Gabriela Llansol, Silvina Rodrigues Lopes assina também “Alguns apontamentos sobre o ensaísmo de Eduardo Lourenço”. Tomando por base Tempo e Poesia e Heterodoxia,Silvina destaca a importância do lugar da interrogação no pensamento do ensaísta, “aquele que a associa à inquietude”, não com vista à obtenção de uma resposta ou verdade definitivas, mas como “um dinamismo próprio, que leva a leitura ao ponto em que ela ‘nos ensina’ e ‘nos critica’, à deslocação de modelos e de normas teóricas”. Desse modo, em lugar de critérios prévios de juízo crítico, Lourenço “propõe um processo de leitura como aparecimento de um duplo”. Mas esse duplo da obra não é “uma simples imagem no espelho, o texto crítico não é mímesis da obra”. Entendendo-se que a “obra não é produto, mas produção, não ergon, mas energueia”, ela apenas dará lugar a “imagens motivadas, as de um espelho imaginário que não funciona segundo o princípio da causalidade, implicando em si o exercício da imaginação que permite que o invisível e o inesperado se insinue na sua superfície, que o inconsciente entre em jogo na estratégia argumentativa, tornando vivo o pensamento”. A ironia, “que corresponde a um modo de pensar, ou de escrita, que na oposição busca a passagem”, é “o nó de que derivam tanto a figura do duplo como a do labirinto, (…) hipóteses centrais do ensaísmo de Eduardo Lourenço (Lopes, 1990, p. 203-205).

Em estudo posterior, apresentado no Congresso Internacional “Portugal e os mares — um encontro de culturas” (realizado em Nápoles, em Dezembro de 1994), Silvina propõe-se a discorrer sobre a idéia de Europa no pensamento de Lourenço, sem dúvida um de seus temas centrais. Em “Europa ou o diálogo que nos falta” (Heterodoxia, 1949), o ensaísta iniciou suas reflexões sobre a Europa e a pertença de Portugal a ela, estudo inovador não só por romper o tradicional círculo de fascínio/ressentimento, “mas porque aí já se defendia o diálogo como forma de resistência a todo tipo de totalitarismos” (Lopes, 1993, p. 2). Em Nós e a Europa ou As Duas Razões (1988), outra vez a interrogação, a dinâmica do seu pensamento se confirma, procurando acompanhar a s circunstâncias e problemáticas atuais. Face a dois tipos de paralisia da história — a auto-acusação, que dominou a intelectualidade pós-Guerra, e a compulsão à celebração, que domina a pós-modernidade — , “Lourenço propõe com insistência a deslocação para outro lugar que permita à fidelidade à Europa como algo de positivo, não só a preservar, mas a fazer”. Ou seja, “uma idéia de Europa que tenha a autoridade da memória”, que “radique numa história comum e não numa identidade”, história comum que é “a da interrogação acompanhada por um sentido de errância” (Lopes, 1994, p. 3).

Ao pôr em interlocução os textos dos dois estudiosos, percebi que ganhava consistência a idéia de examinar com mais atenção a maneira pela qual a escrita de Lourenço se constrói. O exercício da imaginação, a interrogação que se desdobra em ironia e a inclusão da fantasia e do inconsciente, aspectos assinalados por Silvina, correspondem, de certa maneira, ao círculo aberto e à dimensão pulsional, errante e apaixonada, apontados por Eduardo Prado Coelho, e que podem ser vistos, na leitura que proponho, como estratégias dessa escrita ensaística que se aproxima da ficção.

Ao lado do fascínio por aquilo que Lourenço diz, é impossível não se deixar seduzir pela maneira como diz. Para tal, interessa-me acompanhar alguns aspectos do seu estilo inconfundível, sobretudo em O labirinto da Saudade, talvez o livro que mais repercussão causou no meio universitário, dando origem a diversos Cursos, Dissertações e Teses. De início, merece registro a presença de um perturbante “ou”, não disjuntivo, em alguns títulos de artigos (“Camões e o tempo ou a razão oscilante”, de Poesia e Metafísica) e de livros (O complexo de Marx ou o fim do desafio portuguêsNós e a Europa ou As Duas razões), que, embora possa ser entendido como subtitulação, parece indicar sobretudo a pujança e a dinâmica interrogativa e errante de um pensamento que se desdobra, ou ainda abertura às disponibilidades receptivas do leitor.

Lourenço recorre com freqüência a epígrafes, recortadas com extrema propriedade, e também a itálicos, que pontuam noções (por vezes polêmicas) e sublinham referências-chave. Mas, sem dúvida, um dos traços mais fascinantes da sua escrita são as construções quiasmáticas, paradoxais, que tiram o seu efeito no cruzamento ou contaminação sintática de construções normais, construções que se revelam extremamente adequadas à lógica de um pensamento cujo sentido, recorrendo às palavras de Silvina, na oposição busca a passagem: “quinhentos anos de imperialismo sem império que foram também quinhentos anos de Império sem autêntico imperialismo”, como escreve Lourenço em O labirinto da saudade (Lourenço, 1991, p. 45).

O estudo desses elementos estilísticos e o levantamento de outros recursos que fundamentam a estrutura formal do texto são os pontos atrativos que me levam a atravessar a paisagem inquieta e luminosa do ensaísmo de Eduardo Lourenço.

Em O labirinto da saudade, corajosamente, Eduardo Lourenço nomeia os dilemas e complexos do modo de ser português, não hesitando em expor a grandeza e pequenez do imaginário lusíada, ao apontar os seus mitos traumáticos (o da origem ou do nascimento, o da dominação espanhola e o do Ultimatum inglês) e a fixação obsessiva dos portugueses numa imagem irreal de si mesmos, forjada em torno de uma idéia de grandeza que era, no fundo, uma ficção.

Movendo o seu pensamento através da “Literatura como interpretação de Portugal” (e esta é sem dúvida uma das razões da sedução do seu texto), Lourenço destaca alguns momentos-chave da gestação de contra-imagens (Neo-realismo, Surrealismo, Filosofia Portuguesa, Revolução de Abril). Por fim, sublinha, na trajetória que se inicia com Garrett, passa por Eça e a Geração de 70, e chega até o Modernismo, o mais profundo e dilemático processo da moderna autognose literária portuguesa. Como não poderia deixar de ser, Lourenço recorre novamente a uma construção quiasmática para melhor traçar este percurso: do romântico “Ninguém-Portugal” de Garrett ao pessoano “português-ninguém, imerso e dissolvido no universal de todos” (Lourenço, 1991, p. 17ss).

No texto “Onze Teses por ocasião de mais uma descoberta de Portugal”, um dos capítulos de Pela mão de Alice, Boaventura S. Santos (Santos, 1997, p. 53-74) estabelece um provocador diálogo com o referido livro de Lourenço, significativamente subintitulado “Psicanálise mítica do destino português”. Contudo, o desenvolvimento desta instigante interlocução escapa aos limites deste trabalho.

À guisa de conclusão deste estudo — conclusão forçosamente provisória dado o estágio inicial em que se encontra a minha pesquisa sobre a obra de Lourenço —, decidi recorrer outra vez ao pensamento de Prado Coelho. Em nossos dias, é possível observar uma polêmica em torno de duas perspectivas extremamente polarizadas: a que conduz à “rejeição de quaisquer limites”, decorrente em grande parte da noção alargada de texto; e a que, avessa à dissolução dos limites, pratica uma espécie de “terrorismo de fronteiras”. Em lugar dessas posições extremas, Prado Coelho sugere uma terceira via, significatimente próxima à da mecânica dos fluidos, conforme a imagística que lhe é tão cara, assim encerrando o seu ensaio sobre o ensaio:

(…) na atmosfera matizada de uma cultura dita pós-moderna, sentimos que a atracção do exterior se atenua e que os limites são cada vez menos portas voltadas para a explosão da luz que vem de fora do que sutis mecanismos de rios, margens e pontes, nos quais a vocação deambulatória do ensaio enquanto exercício de liberdade e tolerância, composição harmoniosa de exame e enxame, poderá recuperar a mais profunda e apaixonante razão de ser (Coelho, 1997, p. 49).

Difícil encontrar melhor síntese para definir a ensaística daquele que ousa agitar o mar sem fim do pensamento “com a vara apaixonada da literatura” (Coelho, 1997, p. 121): a reiterada imagem do rio, a vocação deambulatória, a confluência harmoniosa do exame e do enxame. A ela gostaria apenas de acrescentar a hipótese que me fascina na ensaística de Lourenço: o texto como inquieta e luminosa experimentação do (im)possível ou a escrita ensaística que se constrói no horizonte do literário. Talvez valha a pena lembrar, como já apontaram alguns poetas e críticos da cultura portuguesa, que este modo de “estar na fronteira” (aqui entendido não como dilaceramento ou limite rígido entre dois territórios, mas como um limiar), é também um muito próprio modo “português de ser (Silveira, 1997, p. 533).

_____

Este texto foi uma comunicação apresentada no XVII Encontro de Professores Universitários Brasileiros de Literatura Portuguesa, realizado na UFMG/PUC-Minas, no período de 16 a 20 de Agosto de 1999. Aqui ele corresponde às primeiras considerações sobre o ensaísmo de Lourenço, já que meu projeto de pesquisa a este respeito encontra-se em fase inicial, com o seu desenvolvimento previsto para o período de 2001-2003.

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

COELHO, Eduardo Coelho. Sílvio Lima. O reino flutuante. Exercícios sobre a razão e o discurso. Lisboa: Edições 70, 1972, p.45-51.

——. O ensaio em Portugal (1974-1984). Colóquio Letras no 78 (1984a), p. 44

—— Eduardo Lourenço: um rio luminoso. A mecânica dos fluidos. Lisboa: IN-CM, 1984b, p. 279-284.

——. O ensaio em geral. O cálculo das sombras. Porto: Asa, 1997, p. 18-49.

——. Eduardo Lourenço: aquele que agita o mar. O cálculo das sombras. Porto: Asa, 1997, p. 121-123.

LOPES, Silvina Rodrigues. Alguns apontamentos sobre o ensaísmo de Eduardo Lourenço. A aprendizagem do incerto. Lisboa: Litoral, 1990, p.199-205.

——. A ideia da Europa. Portugal e os Mares: um encontro de culturas. Nápoles, 1994, p. 1-7.

LOURENÇO, Eduardo. Nós e a Europa ou as duas razões. Lisboa: IN-CM, 1988.

——. O labirinto da saudade – Psicanálise mítica do destino português. 4. ed. Lisboa: Dom Quixote, 1991.

——. O esplendor do caos. Lisboa: Gradiva, 1998.

——. Nós como futuro. LisboaAssírio & Alvim, 1998.

——. Portugal como destino seguido de Mitologia da saudade. Lisboa: Gradiva, 1999.

SANTOS, Boaventura de Sousa. Pela mão de Alice. O social e o político na pós-modernidade. 4. ed. São Paulo: Cortez, 1997.

SILVEIRA, Jorge Fernandes da. A casa do Império. 5o Congresso Abralic Cânones & Contextos. Anais. Rio de Janeiro: CNPq/ABRALIC/FINEP, 1997. V. 1, p. 531-37.

Categories
REVISTA LITCULT

TRADIÇÃO E RUPTURA NA CRÍTICA NO BRASIL: DA SOBREVIVÊNCIA DA ARTE E DO LITERÁRIO

Resumo:
This essay attempts at the discussion of the conditions for the survival and permanence of art in the new millennium. It discusses post-colonial culture and tradition in Brazil in the face of the new technologies and trends quickly arriving from other more developed milieus. The essay draws the epistemological lines of resistance for esthetics and art in such a culture.
Texto:

TRADIÇÃO E RUPTURA NA CRÍTICA NO BRASIL: DA SOBREVIVÊNCIA DA ARTE E DO LITERÁRIO

Luiza Lobo

Universidade Federal do Rio de Janeiro

 
 
INTRODUÇÃO

Os 500 anos de descoberta do Brasil provocam-nos uma indagação sobre as criações que ocorreram no país no campo da arte, da literatura e da cultura, para ficarmos no campo das ciências humanas. O que marca especialmente esta data é sua coincidência com o início do novo milênio, dentro da cronologia cristã, o que nos leva, simbolicamente, a sentir que estamos fechando uma era e iniciando uma nova. Tudo isso pode, concordo, não passar de uma impressão ligada tão-somente ao calendário gregoriano cristão, data historicamente nada significativa para árabes, indianos e judeus, por exemplo.

O panorama cultural global alterou-se a tal ponto no Brasil e no mundo, nos últimos dez anos, que muitas vezes nos indagamos se permanecerão uma literatura e uma cultura como a conhecemos agora, ainda escrita, culta, erudita e literária, dentro da tradição greco-judaico-cristã-ocidental. A compreensão do mundo nesses 25 séculos de história greco-cristã parte de premissas físicas e concretas, no máximo ligadas à eletricidade, no século XIX, e à revolução da eletrônica, do laser e da Internet, no século XX. Ocorreu uma revolução tão radical nesta última década que ameaça aposentar o papel como veículo de imprensa e de cultura escrita. Boa notícia para a ecologia, graças à melhor conservação das florestas. A difusão do computador em escolas, mesmo nos países pobres, com sua contraface do CD-Rom, o disco a laser, o email, a conversa on-line, a Internet, a vídeo conferência e o hipertexto representado das redes e conexões representa uma forma radicalmente nova de comunicação entre os seres humanos. O fenômeno da televisão, com a divulgação de arte e notícias de forma simulada ao real, através da cor, movimento e linguagem oral, por via eletrônica, depois aperfeiçoado com a televisão a cabo e o vídeo doméstico, criando a especialização do espectador, passou por uma transformação ainda mais gigantesca com o correio eletrônico e muitos outros avanços tecnológicos que aparecem diariamente.

A conseqüência social mais imediata deste fenômeno é a globalização e a unificação da sensibilidade humana através de um tipo de visão de mundo única ou predominante. Mas outra conseqüência disso é que é a hegemonia da língua inglesa e a cultura por ela engendrada, que difundem seus hábitos, cultura e arte — e, naturalmente, seus produtos negociáveis. Cria-se um novo império de dominação cultural moderna através do domínio da imagem e da palavra. Este só pode ser comparado ao império latino na antigüidade. Nem mesmo os Estados nacionalistas do século XIX conseguiram a mesma penetração mundial obtida pelo império anglo-saxônico atual, entendendo-se aí principalmente a hegemonia dos Estados Unidos. É uma forma inteligente de dominar mas que se deve, principalmente, ao fato de a Inglaterra, desde o século XVIII, já se constituir num país industrializado e capitalista, o que a capacitou a utilizar a língua como uma forma de exportação de sua cultura, através de um forte sistema educacional e um bem organizado sistema administrativo das colônias, que se aliavam para utilizar a língua inglesa como principal veículo de dominação. Esta se dava não tanto através de guerras, ou unicamente pelas guerras, mas através da exportação de cultura (ver The Empire writes back, de Bill Ashcroft, Gareth Griffiths e Helen Tiffin, London, Routledge, 1991. 1. Ed. 1989). Uma forma de dominação que já atua de forma cada vez mais próxima, pois é realizada através das chamadas “negociações”, seja no plano político ou econômico. Estes acordos quase nada têm de negociados, uma vez que os parceiros mais fortes sempre poderão “exportar” (isto é, impor) suas idéias e negócios com muito maior margem de aceitação (ou imposição) nas regiões humilhadas e ofendidas (ver Agnes Heller). Exemplo disso foi a “negociação” sobre a emissão de gases CO2, na última reunião de cúpula mundial, durante a qual os Estados Unidos e outros países do Primeiro Mundo, em lugar de reduzirem o grau de poluição que provocam no mundo, “negociaram” com países menos poluidores a comprarem deles uma certa quantidade “quotas de poluição”, uma vez que eles pouco poluem. Mas também pouco produzem. Assim, com esta “barganha”, ainda durante algum tempo continuará a poluição na atmosfera que a Terra como um todo provoca. Situação eticamente condenável que nos lembra as indulgências compradas pelos pecadores do Santo Papa durante o Renascimento. Daí a importância da apropriação das formas impostas pelos países dominadores, de que nos falam os autores acima.

Do ponto de vista da arte e da literatura, o computador trouxe para o leitor da telinha uma importante opção. Ele já não precisa dedicar-se apenas à observação passiva dos bonequinhos e filmes impostos pela televisão ou pela programação da TV a cabo. Ele se sente dono do universo, buscando seu assunto na Internet ou escrevendo em velocidade igual ou quase igual à do pensamento, ou pode conversar sobre inúmeros assuntos com pessoas de diversos pontos do globo, visitando endereços eletrônicos e informações de locais distantes sobre infinitos assuntos em fração de segundos. A vantagem que este espectador-leitor-escritor ganhou foi passar a utilizar, em sua leitura na Internet, quando na presença de ilustrações, os dois lobos do cérebro, quando antes só utilizava o direito, para a escrita. O ocidental pouco utilizava o lobo esquerdo do cérebro, que se destina às figuras ou desenhos. Com o computador, foi forçado, afirmam alguns especialistas, a usar os dois lobos, combinando figuras/desenhos e escrita. Aproxima-se assim da percepção do texto que tem o oriental, que sempre precisou, para interpretar e escrever o ideograma, combinar a leitura da figura visual à interpretação da escrita. (Ver também Pierre Lévy, A tecnologia da inteligência; O futuro do pensamento na era da informática. Rio de Janeiro, 34 Letras, 1993. 1. Ed. 1990; e também O que é o virtual?, Rio de Janeiro, 34 Letras, 1999. 1. Ed. 1995).

Outra conseqüência associada à escrita no computador é a possibilidade de realizar o sonho de Stéphane Mallarmé, em seu famoso e inacabado projeto do Livre, como mostrei na Apresentação a Globalização e literatura (Rio, Relume-Dumará, 1999, p. 37-45): no computador, pode-se até certo ponto desobedecer à ordem linear do discurso, escrevendo, recortando, deslocando, apondo sílabas, palavras e orações numa rearrumação constante do discurso, o que não poderia ser feito no texto tradicional.

Todo este fenômeno teve lugar na última década do período que Lyotard denominou “condição pós-moderna”, implicando no fim das utopias que vinham se delineando desde o século XVIII, com os grandes enciclopedistas franceses e pensadores da filosofia transcendental alemã. Este momento, iniciado na década de 1970, a partir de uma crise generalizada no mundo das artes, corresponde ao fim da busca do “Make it new” poundiano e da originalidade do modernismo da primeira fase, e à passagem para a idéia de que “Nada é new“. Tudo é repetição, rearranjo de termos já presentes na ordem do discurso anteriormente enunciado. Na condição pós-moderna a literatura e o “fim do real na condição pós-moderna veiculam percepções, produzem subjetividades e anunciam os paradigmas de novas formas de pensar, sentir e estar no mundo”, nas palavras de Fernando Fábio Fiorese, um dos ensaístas do livro, que retomo na mesma “Apresentação” daquele livro.

A crise das utopias, o sentimento de déjà vu e de melancólico “sentimento do mundo”, na expressão de Carlos Drummond de Andrade, que se apodera de artistas e produtores culturais do pós-moderno explica-se pelo acúmulo de informações permitido pelo computador, o CD-Rom, o hard disk e outros meios de armazenamento de dados quase infinitos e até então impensáveis. A maior amplitude de informação, impulsionada pelas descobertas tecnológicas e científicas a cada dia trouxe, no plano das artes, a sensação de vazio e de nada mais te-se a inventar. Isso ocorreu, pelo menos no plano da retórica, ou seja, das artes.

À diferença dos jornais, cobertos do resíduo de tinta, borrão, provocado pelo chumbo, a graxa e por máquinas pesadas, manuais ou elétricas, cria-se uma nova realidadeclean, os programas de computador e os portais de informações científico-tecnológicas, propagandas e comunicação eletrônica, abrindo para um universo de possibilidades individuais. Esta realidade virtual que nem sequer tenta mais simular a vida real, mas que cria a vida, já foi considerada compatível com a ética e as características da sociedade capitalista e puritana. É o portal de um novo mundo da comunicação. Uma história da leitura, de Alberto Manguel (São Paulo, Companhia das Letras, 1997, 1 ed. 1996), mostra-nos a evolução que preparou este novo universo infinito de simulacros idênticos ao real, e muitas vezes superiores aos originais, obtidos numa velocidade inimaginável. A técnica acompanha o progresso da humanidade em relação a uma crescente imersão no capitalismo, em que time is money. Já não há manuscritos, rabiscos, textos inéditos e únicos rascunhados à mão ou numa máquina individual, caseira. As descobertas que faziam a alegria dos especialistas em ecdótica, hermenêutica ou genética crítica. O horror da página em branca de que nos fala Maurice Blanchot em L’espace littéraire já quase deixou de existir. Um texto é composto de recortes, reaproveitamentos, revisões: composições rápidas em que surgem, em questão de segundos, através de pequenos gestos técnicos, como o automático clicar de botões de recortar, apagar e colar, um novo tipo de palimpsesto. Não há tempo para hesitações. Time is money. Os moldes de cada escrita estão armazenados na memória do computador, resíduos de outros textos que podem ser facilmente reaproveitados, sem grande emoção humana, apenas por força da máquina. O mundo clean já se aproxima perigosamente de uma certa realidade de ficção científica, pelo menos para a classe média, em que as pessoas agem como robotizadas e dominados pela máquina. Ao menos este é o tema de filmes atuais realizados nos Estados Unidos: MatrixQuero ser John Malkovitch e sem dúvida muitos outros, talvez menos criativos e convincentes.

A noção de reprodutibilidade técnica, anunciada por Walter Benjamin em “O objeto literário na época de sua reprodutibilidade técnica” repete-se e reproduz-se numa quantidade e velocidade inimaginável. O conteúdo filosófico e questionador do texto desaparece em prol da economia de palavras e de tempo. Se o meio é a mensagem, o fremir da máquina em movimento elétrico acelera a acumulação de gestos mecânicos, que não raro redundam em lesões nervosas por sua excessiva repetição.

Esta repetição, que deixava uma margem, um surplus, na teoria de Jacques Derrida, passa a ser questionada na sua produção positiva de sentidos por Jean Baudrillard emL’Échange symbolique et la mort (Paris, Gallimard, 1976). Essa série infinita de sentidos levaria a uma constante morte de significado na vida, eternamente perpetuada no capitalismo (série que pode ser interrompida pelos discursos marginais ao capitalismo, como as dos negros e das mulheres). Também Fredric Jameson em “O pós-modernismo e a sociedade de consumo” (cap. 1, in Ann Kaplan, org. O mal-estar no pós-modernismo; Teorias, práticas, Rio de Janeiro, Jorge Zahar, 1993, 1. Ed. 1988, p. 25-44), menciona (p. 30) uma “construção” do sujeito burguês, que nunca teria existido, e a emergência de uma “nova experiência de tecnologia citadina” (p. 40), que Walter Benjamin já apontara em Baudelaire.

Paralelamente a esta transformação de atitudes, ocorre um fenômeno inesperado no plano da crítica literária: sucede uma exaustão com os métodos semiológicos até então utilizados, desde o Estruturalismo e a crítica pós-modernista com base em Jacques Derrida, Paul de Man, Jonathan Culler, Gilles Deleuze e outros filósofos e críticos literários. Na medida mesma em que há na sociedade contemporânea uma hipertrofia do instrumental virtual, ocorre, paralelamente, um desejo de recuperar uma dimensão histórica ou até microhistórica (nova história, ou de história das mentalidades), que abarque a totalidade dos eventos sociais que constituem o tecido social como um todo e que pode ser reconstituído a partir do texto. “Nas palavras de Michel de Certeau, o que chamamos de realidade é um inventário (quiçá incompleto) daquelas pegadas deixadas num mapa coletivo já marcado por outros traços de outras viagens” (cit. in Claudia de Lima Costa in “O ‘outro” enquanto sujeito: a problematização pós-esturutalista”, in p. 263, p. 257-63, parte 4., O outro enquanto mesmo, in Identidade & representação, Raúl Antelo, org., Pós-graduação em Letras/Literatura Brasileira e Literária, UFSC, Florianópolis, 1994, 464 p.). Noutros termos, a realidade é histórica. Nos estudos posteriores ao pós-moderno assiste-se a um certo retorno à análise sócio-histórico-cultural, como por exemplo entre seus criadores, os historiadores franceses Claude Braudel, Jacques Le Goff e outros representantes da da escola, ou nos seus seguidores, o professor inglês Peter Burke. Contudo, já não é uma história ingenuamente realista, nos moldes de um Arnold Hauser, de um Norbert Elias ou, em menor grau, de um Erich Auerbach. Ela pressupõe a recriação mimética da realidade através de uma narrativa que passa a constituir uma história que não se quer científica, isto é, reprodutora do real, mas recriativa deste real. (Ver sobre Costa Lima Máscaras da mímese). Na encruzilhada entre o pensamento marxista realista e esta visão quase literária de história, passando pela revisão da obra semiológica de Jacques Derrida, encontra-se a figura revolucionária de Gayatri Spivak (ver artigo Internet).

Esta indiana não se considera indiana, para ela uma criação forçada por ingleses e outros povos dominadores da Índia, buscando uma falsa união para melhor conquistá-la. Na verdade, ela se considera natural de Bengali, onde nasceu, sendo o bengali sua língua materna. Desde os 17 anos está radicada nos Estados Unidos. Em suas conferências e ensaios procurou unir a sociologia marxista com o pensamento filosófico de Jacques Derrida, depois chamado de desconstrucionismo, nos Estados Unidos, quando ele passou a lecionar em Yale, após a década de 1970, dando origem ao que se chamou movimento pós-moderno. Questionando cada palavra, buscou contestar o conteúdo essencialista da linguagem, e unir a crítica à posição marginal ocupada pelas classes subalternas com a experiência feminista de revisão textual.

Assiste-se a um fenômeno que poderíamos definir como uma dupla crise do conceito de mímese. Na década de 1960-1970, o Estruturalismo desvinculou a noção de mímese da palavra e da linguagem, desatrelando-o do real social. A linguagem foi eleita como uma explicação hegemônica e autônoma de interpretação. A luta surda que se travou entre os críticos marxistas e os pensadores que buscavam a autonomia do texto literário redundou na noção de autonomia da dimensão do imaginário e do simbólico no texto literário, libertando o signo de uma mímese colada ao real. Este processo parece ter se invertido no momento em que o pós-moderno já se esgota com relação a uma mímese vassala do real. Enquanto, no período pós-moderno, a filosofia era uma preocupação constante dos críticos, sob o influxo do pensamento de Derrida, visando a contestar os pressupostos da filosofia transcendental metafísica, no momento atual os estudos culturais e a linha de discussão centrada no pós-colonialismo atrelam-se à sociologia e apresentam questionamentos políticos, não filosóficos, às questões da cultura.

Na última década do século XX Terry Eagleton (Theory of Literature, London, Blackwell,1993, 1. Ed. 1988) e Henri Lefebvre (The construction of space, Oxford, Anthropos, 1991, 1. Ed. 1974) desconfiam da hipertrofia da linguagem como sendo capaz de servir de explicação para a totalidade dos fenômenos sociais da realidade além dos textuais. Lefebvre chega a referir-se explicitamente a tal falência.

Também a partir do pensamento filosófico de Jacques Derrida e da semiologia, mas afastando-se rapidamente dele, Edward Said, Homi Bhabha, assim como Gayatri Spivak, utilizando em sua maior extensão o conceito de diferença de Derrida e ampliam-no não só para a definição de gênero no feminismo como, igualmente, para as camadas subalternas e as minorias políticas . Esta linha se constitui numa crítica pós-colonialista que se volta para as margens, em oposição ao eixo dominador eurocêntrico.

Na mesma vertente, os estudos culturais aprofundam as redes sociológicas deste saber questionador, afastando-se cada vez mais da indagação semiológica presente em Derrida, Kristeva e mesmo Foucault.

O texto liberta-se da clausura semiológica, na qual se supunha que o signo continha o todo social em si, como na afirmação de Julia Kristeva sobre o termo ideologema, e a crítica volta-se novamente para o social, embora o veja através de um sistema mimético de representação, não como um dado concreto, como no marxismo ingênuo. Contesta-se a linguagem como metalinguagem ou um discurso retórico autônomo, para além da ideologia. A ciência é posta em questão, até no campo das ciências exatas. A lingüística não mais se constitui na grande ciência da comunicação que tudo abarca, como queria Roland Barthes em Língüística e comunicação. Ela volta a ocupar um nicho dentro das ciências humanas. A sociologia, a história e a antropologia tornam a despertar o interesse do discurso teórico e crítico universitário. A comunicação de massa e a cultura canibalizam os campos da arte e da literatura, atrelando-os à sociedade do espetáculo atual, na feliz expressão de Guy Debord (em A sociedade do espetáculo, Rio de Janeiro, Contraponto; é um aspecto discutido também por Nestor García Canclíni em Culturas híbridas, São Paulo, EDUSP, 1997, 1. Ed. 1989).

O modismo do espetáculo, que caracteriza a nossa cultura como a do olhar sem críticaencontra o seu paroxismo em Paulo Coelho, que pontifica sobre teologia em O Alquimista, e é arrastado, na sua mais profunda glória, como o andor de um santo, nas laterais de uma linha de ônibus que percorre Paris. É um espetáculo inusitado vê-lo proferir conferências eruditas nas academias, e freqüentar banquetes, a convite do Presidente da França e as maiores editoras do país, locais que há 50 anos só sonhavam penetrar os maiores representantes da alta literatura francesa.

Há no entanto a possibilidade de uma autocrítica do próprio enunciador do discurso, que se coloca no texto como pessoa, e não mais como cientista, ou seja, um sujeito afastado do objeto de seu saber. O processo epistemológico dá lugar ao processo existencial. Passa a ser “travessia” (ver Luciano Zajdsznajder, A travessia do pós-moderno (Rio de Janeiro, Gryphus, 1992; ver também O pós-moderno, de Jair Ferreira dos Santos), e surge o apelo a “uma ‘leitura atípica’, aquela que não pretende nenhuma exaustão, nem tem uma metodologia a priori, deixando-se levar pelaexperiência, palavra que também se liga à idéia de travessia. Uma leitura a partir das zonas menos privilegiadas do texto, ou de suas margens no dizer de Derrida, emMargens da filosofia: das notas, dos títulos, das epígrafes, das referências intra-, inter- e extratextuais” (Evando Nascimento, Derrida e a literatura. “Notas de Literatura e Filosofia nos textos da desconstrução, Niterói, EDUFF, 1999, 363 p., “Questões de princípio”, p. 15-25, p. 20). Mas saber sem o sentir perde o sentido

Já foi muito repetido que a maior revolução deste século foi a revolução feminista. Esperemos que ela não se torne um projeto adiado ou fracassado como a Revolução Comunista. De qualquer forma, adiada ela já está, pois parte de suas propostas de autonomia no plano social teráo de ser adiadas para o próximo. Foi um longo caminho que começou em fins do século XIX, com os primeiros movimentos sufragistas e a entrada da mulher para a imprensa e o mundo profissionalizado da imprensa e da literatura, com George Sand, Jane Austen e Charlottle e Emily Brontë, mas que ainda enfrenta muitos preconceitos arraigados. A pesquisa sobre o cânone, o resgate das escritoras e a discussão teórica sobre gêneros foi o caminho depois seguido pela crítica, que depois estendeu este pensamento à recuperação literária a outras “minorias”, sexuais, raciais, os povos orientais e os que produzem literatura oral. Principalmente estes últimos eram desconsiderados pelos estudiosos oriundos do pensamento eurocêntrico, uma vez que, na definição de Derrida, a oralidade baseia-se no fonocentrismo, um tipo de discurso do ouvir-dizer que não passa pela recriação da escrita ou a escritura crítica. Contudo, hoje, é a fala, a oralidade que preside às manifestações culturais mais importantes na história. O que em Derrida só se redimia pela escrita, ultrapassando o fonocentrismo do ouvir-dizer, torna-se valorização do fonocentrismo, pela reconsideração da literatura oral, da manifestação política e cultural de povos com uma cultura mais oral.

A arte e a literatura, como bem nos mostra Nestor Canclini em Culturas híbridas, passam a ser divulgadas na sua forma de baixa literatura, incorrendo num conceito muito amplo de cultura, que corresponde, na verdade, à noção de mídia como foi criado neste século. A mídia é a comunicação para as massas — não se devendo confundi-lo com a literatura oral ou popular, que sempre existiu. Esta não empregava meios de ampliação da divulgação, e era realizada pelas classes populares ou dirigida a elas. Um processo justamente inverso ao atual, em que o povo recebe pacotes de mensagens e imagens, de linguagens decodificadas para ele por pessoas bem informadas da elite intelectual que douram a pílula do conhecimento do cotidiano, oferecendo-a em pequenas doses. Não importa o que digam os bem-pensantes, como Leyla Perrone-Moysés, em sua defesa das “altas literaturas”, a verdade é que toda sorte de discursos se cruza nos meios de comunicação mais diversos, numa rede de intertextualidades: muros, programas de televisão, revistas on-line, programas de alta ou baixa qualidade, livros best-sellers e o hiperrealismo, no computador. Termina em grande parte o preconceito contra o não-erudito. Há a mistura das artes, como já vinha mencionado no Auerbach, confundindo-se alta, média e baixa literatura.

Nas universidades e meios intelectuais fala-se de decadência e finissecularismo. Nas livrarias compram-se obras de esoterismo e auto-ajuda. A própria psicanálise entra em crise, substituída por tratamentos de menor duração (ver Elisabeth Roudinesco, Mais!,Folha de São Paulo, março 2000), ligadas ao corpo e a esoterismos. A situação é crítica para as letras. Não se vendem mais livros. Editoras se unem em cartéis e conglomerados. Utilizam portais de informática. Introduzem-se em homepages. Livros inteiros são disponibilizados na Internet, mas o pagamento de direitos autorais se faz à editora só após completar-se o milheiro de vendas. Tudo passa a ter dimensões globais. E, como nos cultos milenaristas ao final do primeiro milênio, onde muitos peregrinavam pelas ruas esperando o fim do mundo e se autochicoteando, alguns prenunciam o fim da literatura e da arte. A baixa literatura e arte ditam as regras do bom-tom entre os intelectuais. As obras da chamada alta literatura destinam-se a um público altamente especializado e com um objetivo definitivo: didático, profissional, ou estimulado por um programa de televisão ou filme que apelam para este ou aquele título, como se deu com o livro O Perfume, de Patrick Susskind, uma releitura rebaixada de À Rebours, de Houysmans, que alcançou grande nível de vendagem e de que hoje ninguém mais ouviu falar. É o fenômeno da moda, da alta costura em pleno domínio das letras.

O tratamento indiscriminado de qualquer produto como produto artístico, que passaria a ocupar o espaço das belas letras, belas-artes ou da arte erudita, chega ao ápice no fim do milênio. Já na última década do século XX surgem os estudos culturais. Não se sabe ainda se são a tábua de salvação para as artes ou a aceleração de seu processo irremediável de decadência. As universidades e as revistas especializadas deixam de tratar a literatura como linguagem específica para se dividirem em departamentos ou centros voltados para a política da literatura e os problemas sociais, abrindo espaço para estudos cada vez mais politizados: women’s studies (estudos feministas), cultura latino-americana, estudos hispânicos, arte, estudos sociopolíticos. A alta literatura enclausura enclausura-se entre públicos altamente especializados, nas rodas de intelectuais e dos bares, a literatura (assim como as exposições de arte e a música erudita) não é mais o assunto. Fala-se de cinema, de psicanálise, de música popular, da economia, da vida privada. Cada um no seu buraco de pombo, para usar a expressão norte-americana que indica o aprisionamento universitário numa excessiva especialização: “pigeon-holed“.

Ainda não se sabe se os estudos culturais vieram condescender em abrir espaço para a moribunda literatura, ou se vieram acelerar um processo de perda de prestígio que poderia ainda se prolongar por mais algumas décadas, dando espaço para se alcançar algum processo de salvação pelo surgimento de alguma novidade no cenário cultural. A crítica torna-se mais sociológica, histórica, política, antropológica e menos voltada para estudos específicos da literatura, como o eram Hugo Friedrich, Wolfgang Keyser ou Vossler, nos antigos tempos do estudo da estilística textual. Acirram-se os estudos de literatura e cultura, literatura e sociedade e arte enquanto mídia. A crítica e a arte podem até continuar a se voltar para a literatura e o cinema de arte ou a obra de artista, o problema é encontrar público, seja universitário ou o geral. Criam-se núcleos, pequenos grupos especializados que continuam a ler em segmentos: literatura de autoria feminina, afro-brasileira, roman noir, romance policial. É como no início da rádio FM: as rádios AM sobreviveram, mas precisaram se tornar cada vez mais especializadas, voltando para segmentos mínimos da população: donas de casa, motoristas de caminhão, noticiário, certas seitas, tipos de música e até mesmo rádio relógio.

O VIRTUAL NA LITERATURA E NA ARTE: pós-modernismo, pós-estruturalismo, pós-colonialismo, estudos culturais

O estruturalismo consistiu num período crítico eivado de intertextualidades, de citações cruzadas, entre textos e intertextos literários que, no dizer de Julia Kristeva, se autobastavam, conduzindo a outras citações e leituras, numa incursão infindável pelo texto do outro, numa rede interminável. Já no clímax deste movimento, ou seja, no pós-modernismo, Barbara Cassin, em Máscaras da mímese, A obra de LCL, org. Hans Ulrich Gumbrecht e João Cezar de Castro Rocha, Rio de Janeiro, Record, 1999, “Transmissão e ficção”, p. 34-35, p. 25-43,), desmancha a magia das citações e das aspas, mostrando que a citação, desde Diels, o estudioso da literatura grega, é que elegia, de acordo com seu “bom gosto”, os textos dignos de citação, pois na verdade a frase citada é uma apropriação. Toda a etiqueta do processo de citação entre aspas data apenas do típógrafo Guillaume, epônimo de “guillemets”, as aspas, em francês (p. 34). Assim, a “doxografia” não passa de um “objeto filológico que corresponde ao ideal de uma transmissão por pura repetição” (p. 35). Para rivalizar com o culto livro de Genette que lançou toda a escola de análise de texto desde a década de 1970,Palymsestes, desmerece Barbara Cassim, no período pós-moderno: caracteriza a doxografia é “o que ele diz” (phêsin, em grego), enquanto legein significa “querer dizer” e apaga o falante, para que subsista apenas a “repetição da fórmula” (p. 38). Sem dúvida é uma releitura do estruturalismo e da semiologia, em que a repetição do dito e da diferença do mesmo é que vão indicar o significado semiológico dos vocábulos.

Estudos tradicionais — como a antropologia, a filosofia e a história — vêm sendo submetidos a um “profundo questionamento de qualquer formação epistemológica” — afirma Claudia de Lima Costa in “O ‘outro” enquanto sujeito: a problematização pós-esturutalista”, in p. 257, p. 257-63, parte 4., O outro enquanto mesmo, in Identidade & representação, Raúl Antelo, org., Pós-graduação em Letras/Literatura Brasileira e Literária, UFSC, Florianópolis, 1994, 464 p.). O que sucede é a textualização, a “literalização” de todas as antigas ciências, num sentido que antes poderia ser identificado ao de uma ideologia, como vêm fazendo Hayden White e Richard Rorty em filosofia, e Clifford Geertz e James Clifford em antropologia (idem, p. 257). Essas teorias limitam-se a apresentar narrativas ou textos culturais sobre fenômenos textuais “construídos a partir de uma aglomeração de textos” (idem, ibidem). Paralelamente, desequilibrou-se a estrutura sujeito-cientista — e objeto de estudo. O “objeto de qualquer prática discursiva não é nada mais que a própria produção dessa prática e é específico a ela” (idem, ibidem). Rompe-se assim a universalidade e a estabilidade que antes cercava o sujeito do conhecimento. Coloca-se em cheque a crença hermenêutica na quest!ao da formação da subjetividade naas construções e operações epistemológicas e metodológicas (como no caso de Um Geertz, Gadamer ou Paul Ricoeur). Estabelece-se um certo pacto em que o próprio discurso cria o seu objeto, ao contrário do pensamento hermenêutico, que antes via o objeto como um já-dado para ser conhecido pelo sujeito (ver idem, ibidem).

O que se poderia questionar aqui é se permanece um espaço irredutível que poderíamos chamar (ainda) de real. Que o real é impregnado de história, já nos disse de Certeau. Mas se este limiar é que o mundo real, aquele produzido pelo trabalho de todos, num retorno ao conceito marxista de trabalho e de produção relembrado por Lefebvre, então todas as interpretações e releituras são possíveis, e perde-se até mesmo a dimensão da ética na vida humana. Para Lefebvre, há três instâncias no que diz respeito ao real concreto, como em Platão, cada vez mais afastadas do real, em direção aos discursos de representação. Este pacto com a realidade, uma realidade que em si não teria nada de interessante, comenta Richard Rorty, no entanto nos permite uma saída para fora da desconstrução, em relação à construção de um discurso coerente que não fique circularmente eternamente se autoperguntando sua função social o tempo todo.

A LITERATURA NA ERA DO CULTURAL

Afirma Thais Flores Nogueira Diniz em “Representação e identidade nos anos 40”, in Antelo, Raúl, org., Identidade & representação, Florianópolis, UFSC, 1994, p. 237-43, que hoje o texto é “considerado como produto cultural, [e] é visto como absorção, réplica a outro texto ou a vários, e em que o que era entendido como relação de dependência ou dívida para com o antecessor passa a ser compreendido como um procedimento natural e contínuo de re-escrita” (p. 237). Lembra que identidade e representação são conceitos intimamente ligados, pois a “representação, a idéia, aquilo de que é imagem no ato da lembrança resulta em conhecimento da identidade”. Esta se define como uma experiência emocional que permite a cada ser perceber-se como entidade única, apesar de suas contínuas transformações. É a contradição de ‘ser-si-mesmo’ deixando de sê-lo. O conceito de identidade opõe-se ao de alteridade e o reconhecimento da identidade de dois ou mais objetos, ou sua identificação, pressupõe sua alteridade, que lhes permite continuar ‘o mesmo’, persistir no seu ser” (p. 237; ver Greimas, A. J.; Courtes. Dicionário de semiótica. São P;aulo, Cultrix, 1979).

Temos, assim, a pressuposição de que cada obra literária desenvolve elos intertextuais com outras obras — no sentido de intertextualidade que lhe atribuem Julia Kristeva emSemeiotiké e Jean Genette em Palympsestes. Neste sentido, já não haveria a idéia de influência ou preponderância de um autor sobre outro, uma vez que os textos funcionam como redes de sentido complexas e existindo concomitantemente na sociedade atual. No caso de autores cronologicamente anteriores, eles seriam retrabalhados e reinscritos num novo todo lingüístico, pelo autor posterior na tradição literária, tratando-se por assim dizer de um caso de tradução ou transliteração. Mas, para além deste conceito, vemos delinear-se uma tal complexidade de intertextualidades que se configura um problema de hiperrealismo, como na Informática, de signos ou conteúdos que remetem a outros conjuntos de signos ou de conteúdos, indefinidamente.

O cânone literário ficaria assim sob suspeita, podendo-se afirmar que não existe literatura “pura”, no sentido das “belas-letras”, uma vez que todo texto, em última instância, estaria inscrita na totalidade do social, ou na vasta palavra cultura. Desse modo, nenhum texto poderia deixar de estar inserto na história. Um cânone literário único e definitivo seria uma contradição, uma vez que a cultura está em constante mobilidade, assim como a parole (palavra), sempre móvel, com relação à langue(língua), mais fixa. O cânone sempre vai incorporar autores do passado que vão sendo revalorizados — é o caso das escritoras do século XIX que vão sendo resgatadas — e escritores quer atuais, quer passados, uns porque passam a ser considerados, outros porque, tendo sido antes bem considerados, saem de moda ou caem desuso. É o caso, entre nós, de Coelho Neto, que hoje ninguém mais lê. O caso modelar para este fenômeno é Shakespeare, cuja própria existência já foi negada e no século XIX foi valorizado como o mais original e valioso dos dramaturgos, sendo hoje reescrito e transfigurado de todas as formas, a cada montagem e leitura crítica (ver Thais Flores Nogueira Diniz em “Representação e identidade nos anos 40”, in Antelo, Raúl, org.,Identidade & representação, Florianópolis, UFSC, 1994, p. 237-43, por exemplo, a respeito das releituras de Shakespeare em nosso século)

A idéia de um kanon (em grego, vara de medir), de função puramente estética (ver Roberto Reis, “Cânon”, in José Luís Jobim, org., Palavras da crítica, Tendências e conceitos no estudo da literatura, Rio de Janeiro, Imago, 1992, Biblioteca Pierre Menard, p. 65-92, p. 70-1), isto é, com base na filosofia kantiana, que pregava o bem e o belo desinteressados, tornou-se obsoleta. O conceito cultural parece atropelar essa pureza metafísica de conceitos que se originou no pensamento da elite do século XVIII. A primeira pergunta na sociedade atual, supostamente democrática e republicana, é sobre a legitimação do conceito de belo. Quem será o juiz deste conceito? Em que definirá a medida desta beleza? Como afirma Roberto Reis: “O estudo da literatura seria melhor equacionado considerando-o dentro da dinâmica das práticas sociais: a escrita e a leitura estão sujeitas a variadas formas de controle e têm sido utilizadas como instrumento de dominação social” (idem, p. 72). A legitimação dessas obras e dos critérios seria feita pela universidade, pela crítica especializada ou a resenha jornalística nos meios de comunicação social — entretanto, no apagar das luzes do século XX, seria ainda este o critério usual? Sem dúvida, caminhamos na direção contrária à apontada por Harold Bloom em seu O cânone ocidental (Rio de Janeiro, Objetiva, 1995), que desejaria retornar a Shakespeare e apenas ao panteão de autores clássicos e anglo-saxônicos estudados em Yale até 1950. (No Brasil foram publicados recentemente, de Flavio Kothe, O cânone colonial e O cânone imperial, Brasília, ed. Da UnB).

Hoje assistimos à transformação do livro num objeto de consumo e de utilidade prática. O best-seller oferece informações importantes. Paulo Coelho, por exemplo, decifra os passos para a depuração da alma, até a ascese maior, descortinando ao leitor o caminho até Santiago de Compostella. Outros explicam o Japão na época do Xogum ou o Egito no tempo dos faraós. São historiadores que facilitam o vocabulário e o aprofundado estudo cronológico, inserindo-o numa narração cheia de graça e regada a romance, aventura e ação. O leitor sente-se elevado à categoria de intelectual, sem precisar do esforço de estudar ou dirigir-se à universidade. A literatura mostra-se “um eficaz veículo de transmissão de cultura” (Roberto Reis, idem, p. 72), mas, também, um eficaz instrumento de dominação de classe e de grupos sociais altos. Tradicionalmente, houve a exclusão dos povos da periferia européia, os asiáticos, africanos, sul-americanos — processo que está sendo em parte revertido pela atuação da Associação Internacional de Literatura Comparada neste sentido, reunindo-se e estudando o Japão (último congresso) e a África (este ano). No entanto, dada a complexidade do mundo atual, uma listagem de “grandes escritores da literatura universal”, como existia nas universidades norte-americanas e européias até a década de 1950, ou a idéia de uma Weltliteratur, como o desejava Goethe, no momento da criação da Literatura Comparada, no século passado, parece inviável hoje, podendo-se antes imaginar a coexistência de diversos cânones destinados a distintos fins e voltados para diferentes regiões do globo. Estes cânones reconheceriam explicitamente os fins a que se dedicariam, pois o critério estético, eivado de metafísica, no sentido desinteressado e superior a qualquer interesse, parece pouco convincente e até aberto à suspeita, principalmente das classes mais subalternas, se elas receberem a educação a que têm direito — um processo que tem sido retardado indefinidamente no Brasil, com a contínua queda da educação e a manutenção do salário mínimo em 75 dólares mensais. No momento atual, a quebra do conceito de nacionalidade, bem exportado através dos impérios pela escola hegemônica do Romantismo, parece também perpetuar-se pela impressionante influência dos Estados Unidos em todo o mundo, constituindo-se agora como uma nação global. Se, como nos mostra o livro The Empire writes back antes havia o imperialismo capitalista e eficaz da Inglaterra desdobrando-se através da língua, da cultura como armas de dominação cultural expandindo-se na Índia, Austrália, Canadá, etc — com uma eficiência infinitamente superior aos impérios mercantilistas no século XVI de Portugal, Espanha e Holanda, por exemplo, hoje a lição inglesa é elevada a uma infinita potência com o império norte-americano e temos o mundo transformado em aldeia global quase que exclusivamente constituído a sua imagem e semelhança.

CRÍTICA LITERÁRIA BRASILEIRA: TRADIÇÃO E RUPTURA

Balizar a critica literária brasileira dentro desta rede de pensamentos filosóficos e lingüísticos não é tarefa fácil. Pode-se cair na armadilha do nacionalismo, enfatizando a importância de todos os críticos que se voltaram para um pensamento nacional. Assim, se destacaria a preeminência da escola da USP, liderada por Antonio Candido e Roberto Schwarz, e hoje seguida por inúmeros de seus alunos espalhados pelo mundo. Mas esse esforço poderia parecer um pouco infrutífero a partir da década de 1970, quando o pensamento especificamente “brasileiro” passou a se estender a um pensamento mais latino-americano, com pensadores como Roberto Schwarz, ou universalista, como é o caso de João Alexandre Barbosa, que incluiu nos seus ensaios estudos sobre Mallarmé e outros poetas simbolistas, na linha mais eclética de um Augusto Meyer. Inúmeras metodologias passaram a se cruzar a partir da década de 1970, as quais podem ser sintetizadas nos estudos de Literatura Comparada, que passaram a reunir estudos interdisciplinares dos mais diferentes teores. Mas com uma marcante diferença: não preconizava o fechamento em torno de temas da Literatura Brasileira nem com um instrumental oriundo tão-somente do Brasil. Esta foi uma das preocupações de Luís Costa Lima em um certo momento de sua carreira crítica: encontrar as raízes e as ramificações de uma crítica “autenticamente” brasileira (como ele desejaria ver surgir, enquanto “sistema intelectual brasileiro”). O esforço por encontrar algo totalmente autóctone tornou-se um tour de force. Aqui e ali, e no próprio pensamento de Costa Lima, surgiam influências, leituras, contágios, contaminações, apropriações. Na verdade, onde se encontrariam, em pleno século XX, esses pensamentos totalmente originais? Acabou-se por incorrer na teoria das intertextualidades, de Julia Kristeva, a partir do pensamento de Mikhail Bakhtin, e dizer-se que não é mais possível retraçar as influências e, como na rede entretecida de Jorge Luís Borges, e no Palympsestes, de Genette, todos os textos estão em todos os textos, na modernidade. Através da extrema circulação da Literatura Comparada no Brasil, a partir da década de 1980, e principalmente com a revista da ABRALIC n. 1, de Niterói, em 1991, passou-se a valorizar problemas genéricos, como a identidade cultural, a diferença filosófica ou de gênero, e a utilizar como metodologia a interdisciplinaridade, com a conjunção da história, da antropologia e da história. Abria-se um caminho internacional para os estudos da Literatura Comparada. Os apelos marxistas do local e do popular tornavam-se mais raros, e só voltaram a ocorrer no campo da literatura com a ruptura da idéia de erudito, e sua mistura com o conceito de arte popular ou baixa literatura.

O conflito entre nacional e autêntico e uma crítica livre, de caráter quem sabe francês, nos moldes de Sainte-Beuve, esteve presente no Brasil desde os seus começos. Em Alencar, “Como e por que sou romancista” e em Machado de Assis, “O instinto de nacionalidade” o importante era diferenciar-se do pensamento europeu, hegemônico, eurocêntrico. Naquele momento, de fixação das fronteiras nacionais e de uma identidade própria (até certo ponto identificada com a idéia de exótico, de tropical, de indígena e selvático) dizer-se brasileiro era criar uma diferença e afirmar-se uma identidade própria. Entretanto, os críticos literários tradicionais como Santiago Nunes, Artur Araripe, Sílvio Romero e José Veríssimo, prestaram uma atenção apenas periférica ao problema da nacionalidade. Ela se restringia à questão do tema e das descrições no que dizia respeito a cenas de natureza “brasileiras”, isto é, o que resumia a teoria da “cor local”, uma das bases do Romantismo. A verdadeira preocupação desses críticos era, entretanto, o problema estético dos textos. Estudavam a sua eficácia, sua recepção pelo público, a utilização de um vocabulário adequado, oriundo do português e não afrancesado, a descrição de pessoas da classe popular e com o vestuário típico do povo brasileiro que não denotasse influência estrangeira nem descrições excessivamente cosmopolitas ligadas a Paris.

Assim, a crítica literária brasileira nasceu não há 500 anos, mas há menos de 200, no século XIX. Surge com a independência do país, quase no Romantismo, e vence inúmeros problemas. O primeiro, é o analfabetismo do povo. Machado, como bom cronista dos costumes de sua época, assim define o grau de instrução e a política do país: somos 70% de analfabetos (ver crônica de Notas semanais). O segundo, é a ausência de universidades (a Universidade do Brasil data de 1920) e faculdades dedicadas à literatura. Até 1940, quando se cria a primeira Faculdade de Letras do país, os escritores estudavam Direito. Isso leva a uma certa generalização nos seus comentários críticos. A falta de leitura sistemática de autores, críticos, da literatura greco-latina ou de importantes histórias literárias que nos antecederam leva a um ecletismo e um generalismo de estilo que foram denominados de impressionista. É o domínio do sentimento sobre a racionalidade. Vale a impressão pessoal sem fundamento num estudo mais aprofundado ou em comparação a autores antes estudados com afinco. É grande a leitura de obras literárias mas quase nula a procura por obras filosóficas na Biblioteca Nacional do Rio de Janeiro, como se constata através de seu Livro de Consulentes do século XIX. Outro problema é o elitismo de todo sistema intelectual brasileiro. Permitia-se, por exemplo, o ingresso à Biblitoeca Nacional, por exemplo, apenas a homens brancos, de terno, gravata, bengala e chapéu. Jamais descalços (escravos) nem mulheres (esperta foi George Sand, que se vestia de homem e adotou pseudônimo masculino, em pleno século XIX francês).

Conclusão

Nos 500 anos de descobertas do Brasil, talvez devêssemos cobrar de nós mesmos uma crítica pós-colonialista que implicasse na autonomia com relação às dependências do passado, nos moldes do pensamento que surge na Índia, como base para a criação de um país totalmente independente, embora constituído por um rede de línguas e culturas unificada pelos ingleses e outros dominadores artificialmente. No entanto, essa hipótese é remota dada a conjuntura globalizada do mundo atual. O fim da colônia terminou, do ponto de vista cultural, no Romatismo do período monárquico, realizando uma mudança de eixo de influência de Portugal para a França. A influência francesa culminou com o modernismo, no qual muitos manifestos, como o Pau-Brasil e o Antropófago tinham suas bases no Manifeste Caniballe, de Picabia, por exemplo (ver Benedito Nunes, Oswald canibal, São Paulo, Perspectiva). Mas por volta de 1950 a influência francesa foi substituída pela norte-americana, num grande império mundial de bases extraordinariamente globalizadas. Uma crítica pós-colonial nos levaria de volta à dicotomia nacional versus internacional. A um pensamento autóctone. As dicotomias se mostram cada vez mais abertas à suspeita num mundo complexo. Seria o autóctone o indígena? O africano? Ou o retorno à cultura do português? E que fazer com os imigrantes europeus e japoneses? Desse ponto de vista, parece-me que no multiculturalismo que deve prevalecer na cultura e na arte, nosso sistema intelectual brasileiro, que já lutou tanto para ser puramente “brasileiro” durante tantas décadas, deveria reunir os fragmentos da cultura que o compõem e se autoquestionar no sentido de influir no processo o máximo possível. A criação de uma teoria totalmente pura e autóctone, independente e original lembra-nos as teorias racistas do final do século passado e início deste. E o movimento em direção à globalização torna-se inevitável. O que não quer dizer automático nem regulado exclusivamente por outros. A lição da apropriação, já proposta entre nós pelos modernistas, parece ser o único caminho possível para uma teoria e uma prática crítica entre nós e em qualquer parte do mundo hoje, ligado por uma quase visível rede comunicacional que realiza a predição da aldeia global de McLuhan, aldeia global, multicultural mas na qual alguns exportam saberes e bens e outros os importam. Daí a importância da permanência da crítica literária e cultural.

Este texto foi escrito para uma conferência durante o Simpósio Internacional BRASIL 500 ANOS: CAMINHOS DA HISTÓRIA, SÍNTESE DE CULTURAS, realizado na Universidade Federal de Alagoas, em Maceió, de 9 a 14 de abril de 2000, sob a coordenação da Profa. Maria Gabriela Cardoso Fernandes da Costa, da Pró-Reitoria de Extensão e do Forum das Nações. Foi paricalmente publicado em jornal local.