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Revista Mulheres e Literatura – vol. 5 – 2001

Inscrições femininas na História e na Literatura: Mulheres em destaque nestes 500 anos de Brasil


Sônia Maria Dornellas Morelli

PINCELADAS DE INSCRIÇÕES FEMININAS NA HISTÓRIA:
Antes de nos atermos a fatos, dados contemporâneos, é preciso resgatar alguns dados históricos.
Roberto Sicuteri, no seu livro Lilith, a lua negra, ao relatar fatos históricos a respeito de Lilith (primeira companheira de Adão de acordo com os escritos judaicos), afirma que as origens dos fatos conhecidos agora remontam a milênios e emanam de lendas, mitos, sagas, alegorias e usos folclóricos.
Na realidade, os fatos baseiam-se mais nas palavras dos rabinos ou nos sonhos dos discípulos do que em documentos.
Estes grandes testemunhos depositários do Torah (o Ensinamento) e dos Midrash (a Procura) contidos na Misnach coleção de Códigos) são certamente dos rabinos iluminados pelo carisma e pela fé, mas são também os testemunhos de lendas, mitos, sagas, alegorias e usos folclóricos populares, que os Rabis usavam como reflexão viva baseada em analogias para estabelecer a verdade hermenêutica sobre as origens do mundo e do Homem.
(…)
E Lilith, para nós, nasce, talvez, do sonho ou da narrativa dos rabinos, nasce de uma necessidade ou de uma fantasia coletiva (p. 23, 25).
Um estudo recente da bíblia, feito por teólogas, lingüistas, historiadoras, arqueólogas e críticas literárias feministas mostram, neste final do milênio, surpreendentes revelações a respeito das mulheres na Bíblia. Afirma o teólogo católico David Tracy, em entrevista à Revista Cláudia de maio de 1999: “O encontro do feminismo com a religião será a próxima revolução intelectual.”
A mesma revista publicou comentários adaptados do livro The World According to Eve, de Cullen Murphy, lançado o ano passado, nos Estados Unidos. Nestes, alguns episódios bíblicos femininos mostram este novo enfoque.
O papel de Dalila, Eva, Maria surgem sob um novo prisma, uma nova concepção. Questões como: o papel exercido pelas mulheres, a condição de inferioridade, a sociedade igualitária, as mulheres seguidoras de Jesus, estão sendo debatidas, reavaliadas, pesquisadas e os resultados têm sido surpreendentes.
Carol L. Meyers, professora de Estudos Bíblicos e Arqueologia na Universidade Duke, nos Estados Unidos, revela que os livros “Josué” e “Juízes”, ambos do Antigo Testamento, mencionam a existência de uma estrutura familiar relativamente igualitária entre os israelitas.
Outra pesquisadora, Phyllis Trible, vai mais longe. Afirma que a palavra hebraica ha-‘adam, da qual deriva a palavra Adão, é um termo genérico para humanidade, usado no início do segundo capítulo do Gênesis para descrever uma criatura de sexo indefinido. Quando Deus tira uma costela de ha-‘adam, aí sim, acontece a separação dos sexos e esta nova realidade é assinalada por novas palavras. A criatura da qual foi tirada a costela passou a chamar-se ‘ish (homem) e a criatura surgida a partir da costela recebeu o nome de ‘ishshah (mulher). Sendo assim, o mesmo ato deu origem ao homem e à mulher.
Cita ainda a revista, que um antigo tratado cristão que foi incorporado numa carta do apóstolo Paulo aos gálatas, poderia ser chamado de “Carta Magna do Feminismo Cristão”. “Não há judeu, nem grego; não há servo, nem livre; não há homem, nem mulher. Todos vós sois um só em Jesus Cristo” (Gál 3,28).
 
UM OLHO NA REALIDADE ATUAL:
Se reivindicamos direitos iguais, por que ainda muitas brasileiras acham natural a dupla jornada (ser também responsável pelo trabalho doméstico e pela educação dos filhos), depois do fim do expediente de trabalho?
Se lutamos por um lugar ao sol por que aceitamos o preconceito dos homens? (Em muitas fábricas, a operária era obrigada a mostrar o absorvente higiênico manchado de sangue para provar que não estava grávida.). E o que dizer dos empregadores que só admitem mulheres solteiras?
Não é à toa que a participação das mulheres nos centros decisórios políticos e econômicos, no Brasil, ocupamos o 58º, de acordo com a ONU, em 1995.
De acordo com este mesmo órgão, no que diz respeito a desenvolvimento ajustado ao sexo (saúde, educação e salários), ficamos em 63º.
O jornal Gazeta do Povo, no dia 27 de agosto de 1995 publicou um ranking dos salários no mundo, em porcentagem. No Brasil, de acordo com esta fonte, as mulheres recebem 58% do salário dos homens. Se os homens acham que seus direitos trabalhistas não estão sendo respeitados, o que dizer em relação às mulheres ?
De acordo com o relatório do Desenvolvimento Humano de 95 da ONU, 22,1% dos homens e 46,7% das mulheres recebiam até um salário mínimo. Em contrapartida, 11,3% de homens e 6,5% de mulheres recebiam acima de 10 salários mínimos..
Ainda , com base neste relatório, é válido relatarmos alguns dados.
Nos Estados Unidos, a cada 18 minutos uma mulher é espancada e a cada 6 minutos uma mulher é estuprada.
Na Bolívia, por lei, lesões causadas por maridos em brigas domésticas, são punidas apenas se a mulher ficar incapacitada por mais de 30 dias. O país tolera maus tratos às mulheres praticados por parentes(pai, marido, irmão, tio, cunhado, filho…) desde que as “feridas não sejam graves”.
No Pasquitão, em casos de estupro, quatro homens religiosos precisam testemunhar para dizer que houve penetração. Se as acusações não forem comprovadas, o depoimento feminino pode ser considerado “sexo ilícito” e a mulher pode ser condenada à morte.
Na Romênia, o índice de analfabetismo entre mulheres é o dobro do dos homens.
A Albânia tem a maior taxa de mortalidade materna da Europa (de cada 100 mulheres, 57 morrem).
Na Rússia, em 1993, 14 mil mulheres morreram por causa da violência familiar e 56 mil ficaram feridas.
Na Índia, a história sexual da mulher é considerada prova pertinente em casos de estupro. A maioria dos casamentos é arranjada tendo em vista interesses materiais. (acompanha a noiva o seu dote como pagamento por ficar com a mulher. As mulheres já são educadas para obedecerem e sabem que só poderão voltar à casa paterna, mortas. O infanticídio de crianças do sexo feminino, logo ao nascer, é praticado em grande escala. O número de abortos de fetos do sexo feminino é altíssimo devido à amniocentese (técnica médica destinada a determinar desde cedo o sexo do feto).
No Reino Unido, as mulheres ganham o equivalente a 70% dos salários dos homens.
No Paraguai, a lei perdoa maridos que matam mulheres quando praticam adultério. Esta mesma lei não se aplica ao homem nestas mesmas condições.
A chance de uma grávida morrer, na África, é 180 vezes maior que na Europa Ocidental.
No Brasil, 50% dos assassinatos de mulheres são cometidos por maridos ou companheiros. Em 80% dos casos, o assassino alega “defesa da honra”.
Na zona rural, na China, entre outras barbáries, as mulheres ainda são vendidas a maridos que elas nunca viram.
O que dizer da Uganda onde o “direito” de o marido de espancar a mulher é reconhecido por lei ?
Na França, em 95% dos casos policiais registrados, as vítimas são mulheres. Em 51% dos casos, os agressores são os maridos.
Por que chegamos a esta situação? O que houve, no percurso tortuoso da História, com o ser humano feminino?
Por que a sociedade se omite, aceita, vende a idéia de que mulher é um ser “inferior”?
Há espaço para esperanças nas bases emergentes de novos tipos de unidades estabelecidas através dos princípios de raça, gênero e classe?
Afirma Donna Haraway:
Há mais espaços para esperanças se nos detivermos nos efeitos contraditórios da política destinada a produzir leais tecnocratas norte-americanos, mas que produziu também grande número de dissidentes, do que se nos concentrarmos nas derrotas presentes (p.272).
E continua:
Toda história que começa com inocência original e privilegia o retorno ao todo inventa o drama da vida como um exemplo de individuação, separação, o nascimento do eu, a tragédia da autonomia, a queda na escritura, a alienação, isto é, a guerra, temperada com a suspensão imaginária no seio do Outro (p. 277).
MULHERES EM DESTAQUE NESTES 500 ANOS DE BRASIL:
O que sabemos sobre o início da nossa colonização, em relação às mulheres? Muito pouco ou quase nada. Que imagem nos tem passado a escola durante estes 500 anos?
Pela reportagem da Revista Cláudia de abril de 2000, o papel de índias, negras, brancas que escreveram nossa História até o momento, para nossas escola, continua no ostracismo. Alguns fatos sobre a História do feminino, no Brasil, que os livros didáticos não dizem, essa revista leva a público. E há surpresas. Lançando mão de intensa pesquisa sobre o assunto, eis algumas conclusões.
As primeiras mulheres que para cá vieram, a pedido do Missionário Manuel da Nóbrega ao rei de Portugal, eram moças solteiras, virtuosas, órfãs, filhas de nobres – quase sempre ricos- mortos a serviço da Coroa. (A herança ficava para os herdeiros do sexo masculino). Essas mulheres ficariam trancafiadas em conventos ou cruzariam os mares para unirem-se a desconhecidos.
A Princesa Isabel, filha de D. Pedro II, que assinou a Lei Áurea, foi a única mulher até a presente data a administrar o Brasil.
No século XVII, era normal às mulheres, o casamento aos 12 anos. Aos 15, já era considerada solteirona. Segundo o historiador Emanuel Araújo, em artigo publicado no livro História das Mulheres do Brasil, de Mary Del Priore e Carla Bassanezi, era normal que o marido, ao sair em viagem, trancafiasse a esposa em algum convento para salvá-las das tentações do adultério.
Em 1888, um jornal da cidade de Desterro, capital de Santa Catarina, na época, publicou os dez mandamentos para a mulher. Dentre eles , havia: “amai o vosso marido sobre todas as coisas”; “não o atormenteis com exigências, caprichos e amuos”.
Nos anos 50, as revistas femininas aconselhavam a mulheres a tolerarem as infidelidades dos maridos e tentassem reconquistá-los agindo como gueixas.
Apesar destas repressões, quando podiam, elas iam à luta. No ciclo do ouro, em Minas Gerais, enquanto os homens trabalhavam nos garimpos, o comércio era tocado pelas mulheres e 70% das vendas em Vila Rica, atual Ouro Preto, eram efetuadas por mulheres. No Sul, comandavam estâncias. Foi só em meados de 1997 que a organização não governamental carioca Rede de Desenvolvimento Humano, decidiu iniciar um trabalho de resgate desta história perdida no tempo. Deste trabalho surgiu o projeto multimídia Mulheres 500 Anos Atrás dos Panos, incluindo o dicionário Mulheres do Brasil, com 600 verbetes, abrangendo desde o período colonial até 1975, que deverá chegar às livrarias ainda esse ano.
Consultando desde a Torre do Tombo e o Conselho Ultramarino em Portugal, os livros dos inquisidores que passaram pelo Brasil, até os documentos históricos de doze estados brasileiros, chegou-se a incríveis e extraordinários relatos. Vamos a alguns deles.
A baiana Maria Quitéria, em 1822, fugiu de casa com o uniforme do cunhado e, usando o sobrenome deste, participou da luta da consolidação da Independência do Brasil no Recôncavo Baiano.
Em 1918, a bióloga paulista Bertha Lutz liderou o movimento decisivo para a conquista do voto feminino.
A primeira mulher eleita governadora de um estado brasileiro, o Maranhão, (ainda está no cargo, já pela segunda vez), é Roseana Sarney. Ficou famosa não só por ser a primeira governadora mas também por desbaratar uma quadrilha de roubo de carga e tráfico de drogas e promover uma reforma administrativa no seu Estado que deu o que falar.
Maria Déa ou Maria Bonita como é conhecida foi a primeira mulher a pertencer a um bando de cangaceiros.
A professorinha primária que se tornou atriz talentosa, Leila Diniz chocou os banhistas das praias cariocas, ao mostrar sua barriga de grávida.
Graças à persistência, coragem e destemor de Chiquinha Gonzaga, surgia a primeira maestrina brasileira , no início do século.
A primeira sul americana a participar das Olimpíadas, em 1932, a nadadora Maria Lenk, ainda viva, é recordista mundial dos 50 metros borboleta na categoria até 80 anos. Treina uma hora por dia.
Elis Regina, a Pimentinha, foi grande intérprete e reveladora de talentos na música popular brasileira.
A gaúcha Yolanda Pereira venceu pela primeira vez o concurso de Miss Universo, em 1930, no Rio de Janeiro. Também foi destaque nas passarelas, a Miss Brasil de 1954, Marta Rocha. Uma das mulheres mais lindas dos anos 50.
Ana Pimentel era esposa de Martim Afonso de Souza, o português que trouxe a cana-de açúcar para o Brasil. O marido vivia comandando expedições exploradoras. Em 1534, ao saber que as coisas iam mal em São Vicente, terras que o marido recebera em doação do rei de Portugal, não teve dúvidas: mudou-se para cá e, pouco mais que uma adolescente, enfrentou o sertão sem saber uma única palavra que os índios diziam. Morava numa choupana e nunca havia visto uma cobra. Mandou buscar bois e vacas em Portugal bem como sementes de arroz, cana, laranja e trigo. Era reverenciada como autoridade absoluta da vila
A miss Brasil 1969, Vera Fischer, virou estrela de novela, posou nua aos 49 anos e provocou furor. Ainda luta contra a dependência química e é reverenciada como uma das mulheres mais lindas do Brasil.
Mulheres como Hortência de Fátima Marcari, “a estrela do basquete brasileiro”, Maria das Graças Meneguel, a Xuxa, “a rainha dos baixinhos”, Marília Grabriela, grande repórter, Astrid, repórter e apresentadora de televisão fazem com que o feminino brasileiro tenha o brilho que lhe é devido.
Apesar de a mulher, em 1929, não poder nem se aproximar das urnas, Alzira Soriano, aos 32 anos, fazendeira e mãe de três filhos, elegeu-se prefeita na cidade de Lages (RN). Para que isso acontecesse, o governador do Rio Grande do Norte, Juvenal Lamartine, concedeu o direito do voto às mulheres do seu estado, numa resposta ousada ao Congresso, que vinha rejeitando tal direito.
“O fim do século XX marca uma ruptura com a história de invisibilidade das mulheres e com o que a elas se refere. Não tenho dúvida de que a luta da mulher está ligada à democracia plena.” Estas são palavras da psicanalista, ex-deputada federal e presidente do Instituto de Políticas Públicas Florestan Fernandes Marta Suplicy.
Estas são algumas. Outras, muitas há que melhoraram e lutam por este país. O reconhecimento do feminino como parceria vai muito além da partilha de território masculino ou feminino. Durante muito tempo confundiu-se assimetria com desigualdade. Afirma Lídia Aratangy, psicoterapeuta de casal e de família, que é preciso livrar-se de algumas tiranias que são alimentadas: a balança, a moda, os modelos de juventude e beleza. Só seremos parecidos quando as diferenças não servirem como motivo de opressão, afinal “partilhamos ainda e sempre do medo da morte, da solidão. E comungamos da esperança de um mundo melhor, onde o compromisso maior seja com a ternura.”
Que o próximo milênio seja uníssono para homens e mulheres na dança harmoniosa do prazer de con-viver.
 
Para comentarmos um pouco do feminino na literatura, nada melhor que refletirmos dois contos de Marina Colasanti , do seu livro Contos de Amor Rasgados.
 
A BELEZA FANTÁSTICA NOS CONTOS DE MARINA COLASANTI:
Relances de uma Análise Literária
Estudando, enquanto saboreio o livro de Marina Colasanti “Contos de Amor Rasgados” relaciono-o a todos os dados, fatos, teorias citadas neste pequeno ensaio. Por quê? Ora, os mesmos são delicados, perturbadores. Minicontos cheios de histórias “rasgadas de amor” que despertam emoções e um olhar crítico. Vamos a eles.
Quando já não era mais necessário
Marina Colasanti
“Beije-me”, pedia ela no amor, quantas vezes aos prantos, a boca entreaberta, sentindo a língua inchar entre dentes, de inútil desejo.
E ele, por repulsa secreta sempre profundamente negada, abstinha-se de satisfazer seu pedido, roçando apenas vagamente os lábios no pescoço e rosto. Nem se perdia em carícias, ou se ocupava de despir-lhe o corpo, logo penetrando, mais seguro no túnel das coxas do que no possível desabrigo da pálida pele possuída.
Com os anos, ela deixou de pedir. Mas não tendo deixado de desejar, decidiu afinal abandoná-lo, e à casa, sem olhar para trás, não lhe fosse demais a visão de tanto sofrimento.
Mão na maçaneta, hesitou porém. Toda a sua vida passada parecia estar naquela sala, chamando-a para um último olhar. E, lentamente, voltou a cabeça.
Sem grito ou suspiro, a começar pelos cabelos, transformou-se numa estátua de sal.
Vendo-a tão inofensivamente imóvel, tão lisa, e pura, e branca, delicada como se translúcida, ele jogou-se pela primeira vez a seus pés.
E com excitada devoção, começou a lambê-la.
O significado ostensivo deste conto salta aos olhos, é o mais óbvio possível, pois corresponde ao enunciado que, por sua vez, não apresenta qualquer dificuldade de compreensão. Não é preciso dicionário.
Por outro lado, é preciso entender, a caracterização dos personagens além de intertextualizar com realidades outras diversas.
A personagem feminina é passiva (de início), carente, solícita, insistente, procura novos caminhos: “Mas não tendo deixado de desejar, decidiu afinal abandoná-lo…”, mas insegura, teme o desconhecido, a mudança. O ato de voltar a cabeça, olhar para trás demonstra isso.
Onipotente, ativo, apresenta-se o personagem masculino. Quer o prazer rápido, pois teme o que pode provocar a nudez, a carícia da e na mulher. É inseguro. Só vai adorá-la ao vê-la inofensivamente imóvel .
O narrador cria o fantástico: “Sem gritos ou suspiros, a começar pelos cabelos, transforma-se numa estátua de sal”.
A estátua de sal reporta-nos à passagem bíblica, quando Lot e sua família teriam que abandonar Sodoma o mais rápido possível, pois a cidade seria destruída por Deus. A esposa de Lot, ao deixar a cidade, por arrependimento, ou tristeza, olha para trás e transforma-se
numa coluna de sal. “E a mulher de Lot, tendo olhado para trás, ficou convertida num coluna de sal”(Gênesis 19,26).
A estátua lembra a imagem, a adoração, a reverência e, ao mesmo tempo, a passividade, a ausência. O sal dá o sabor. Foi valioso, pois chegou a valer como moeda corrente.
Para mostrar o envolvimento do personagem masculino e do feminino, após tal fato, termina dizendo que: “… com excitada devoção, começou a lambê-la”.
Numa macro-estrutura podemos afirmar que algumas idéias podem ser lidas “nas entrelinhas”, “nas lacunas”:
– Muitas vezes, só se valoriza algo, alguém, quando se perde. “… ele jogou-se pela primeira vez a seus pés.”
– Quando se toma uma decisão, é importante não vacilar. “… decidiu abandoná-lo, e à casa, sem olhar para trás , não lhe fosse demais a visão de tanto sofrimento.”
– Às vezes, a mulher não pede a separação, num relacionamento, porque teme o desconhecido: “Com os anos, ela deixou de pedir.”
Há homens que, no ato sexual, procuram ser rápidos como se tal fosse pecaminoso ou imoral. “nem se perdia em carícias, ou se ocupava de despir-lhe o corpo…”
Para concluir, a simplicidade de expressão na narrativa, traz implícita a alegoria, o fantástico como disfarce da condição verdadeira.
O refinamento do emissor do discurso, o disfarce poético, envolvem o destinatário e levam-no a questionar a simples e trágica situação real ali escancarada.
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Nunca descuidando do dever
Marina Colasanti
Jamais permitiria que seu marido fosse para o trabalho com a roupa mal passada, não dissessem os colegas que era esposa descuidada. Debruçada sobre a tábua com olho vigilante, dava caça às dobras, desfazia pregas, aplainando punhos e peitos, afiando o vinco das calças. E a poder de ferro e goma, envolta em vapores, alcançava o ponto máximo da sua arte ao arrancar dos colarinhos liso brilho de celulóide.
Impecável, transitava o marido pelo tempo. Que, embora respeitando ternos e camisas, começou sub-repticiamente a marcar seu avanço na pele do rosto. Um dia notou a mulher um leve afrouxar-se das pálpebras. Semanas depois percebeu que, no sorriso, franziam-se fundos os cantos dos olhos.
Mas foi só muitos meses mais tarde que a presença de duas fortes pregas descendo dos lados do nariz até a boca tornou-se inegável. Sem nada dizer, ela esperou a noite. Tendo finalmente certeza de que o homem dormia o mais pesado dos sonos, pegou um paninho úmido e, silenciosa, ligou o ferro.
Este miniconto, numa leitura primeira, chama-nos a atenção o próprio título, além de outros itens que, logo abaixo, analisaremos.
É uma macabra-fantástica-ironia, podemos afirmar após uma leitura superficial.
Neste, em oposição ao miniconto “Quando já não era mais necessário”, a personagem feminina é ativa, atenta a tudo: “Jamais permitiria que o marido fosse para o trabalho com a roupa mal passada..” “… dava caça às dobras, desfazia pregas, aplainando punhos e peitos, afiando o vinco das calças”.
Além disso, percebe-se também, a personagem feminina preocupada, temendo a opinião alheia “…não dissessem os colegas que era esposa descuidada”; procurando a perfeição “…alcançava o ponto máximo de sua arte…”
Mas numa análise mais atenta, é preciso nos questionarmos. Por que tanta preocupação em mostrar-se perfeita? Seria preocupação ou apreensão, medo? A roupa, enquanto visual, teria influência na sua conduta enquanto esposa? Aonde (e não onde) está a condição Ser-Feminino? Talvez, perdida na missão de servir, obedecer ao esposo (questões tão ironicamente incrustada na Mulher-Esposa) como se apenas para tal existisse. Já o personagem masculino é passivo. “Impecável transitava o marido pelo tempo.”
Analisando o vocabulário, há uma palavra (“sub-repticiamente”) que nos remete à idéia de réptil (troca de pele, se arrasta…) e o prefixo “sub” (embaixo) faz-nos questionar que tipo de personalidade tem este homem.
A personagem feminina vive envolta em vapores. Consegue seu apogeu a poder de ferro e goma. Lembra-nos a expressão popular que quer dizer com muita dificuldade: “a ferro e fogo”.
O conto transcende o real e passa ao plano fantástico quando “Tendo finalmente certeza de que o homem dormia o mais pesado dos sonos, pegou um paninho úmido e, silenciosa, ligou o ferro.”
O mesmo ato – passar a ferro para alisar – é usado nos sentidos denotativo e conotativo. “Um dia notou a mulher um leve afrouxar-se das pálpebras. Semanas depois percebeu que, no sorriso, franziam-se fundos os cantos dos olhos.
Analisando as estruturas profundas deste conto, subentendem-se as idéias:
– Quem é responsável por tudo, tem o direito de tomar decisão para resolver qualquer problema.” Tendo finalmente certeza… ligou o ferro.”
– Toda perfeição é um pouco neurótica. “Debruçada sobre a tábua com olho vigilante, dava caça às dobras,… afiando o vinco das calças.”
– Para conquistar seu espaço a mulher tem que lutar “a ferro e fogo”.
– O instinto “Medéia” (vingativo e calculista) perpassa as lacunas da história. “Sem nada dizer ela esperou a noite. Tendo finalmente certeza de que o homem dormia o mais pesado dos sonos, pegou um paninho úmido e, silenciosa, ligou o ferro.”
Sabiamente, Marina Colasanti consegue seu intuito. É como se, através de pequenos contos, poucas palavras, nos reafirmasse o que Eduardo Galeano, um escritor uruguaio, no seu livro Vozes e Crônicas:
Ao se escrever, é possível oferecer o testemunho de nosso tempo e de nossa gente, para agora e para depois, apesar das perseguições e da censura. Pode-se escrever como que dizendo, de certa maneira:” Estamos aqui, aqui estivemos; somos assim, assim fomos (p.13).
 
ÚLTIMAS PALAVRAS:
Perante o ceticismo da realidade do intelecto humano, é preciso nos posicionarmos como pessoas conscientes .
Hoje, enquanto vemos despontar tantos questionamentos a respeito das nossas origens e fins, concluímos que apenas sobreviverão plenamente (em corpo e espírito) aqueles que aprenderem a conviver e souberem responder aos questionamentos: “De onde viemos?” “Para onde vamos?” “O que faço neste planeta, neste tempo?”
Estudando, colocando-se em prontidão para absorvermos novos conhecimentos e assimilá-los em nossa vida – eis a nossa postura.
Diante de uma sociedade patriarcal e capitalista, faço minhas as palavras de Donna Haraway, em Um Manifesto para os Cyborgs: Ciência, Tecnologia e Feminismo Socialista na década de 80: “Ainda que ambos tenham sido engedrados na mesma dança espiralada, prefiro ser um cyborg a seu uma deusa” (p.283).
É tempo de buscas, questionamentos. É preciso encontrar o “elo perdido” do ser-estar-feminino.
Diante de teorias tão comprometidas com a realidade, neste ensaio apresentadas, urge que se propaguem tais estudos e conhecimentos.
Perante a enxurrada de textos que nos rodeiam, é preciso ir além. É preciso aprender e ensinar a ler as “lacunas”, as “entrelinhas”. É preciso analisar o presente sem desprezar todo o conhecimento histórico-social veiculado até então.
Linda Hutcheon, em sua obra Poética da pós-modernidade: história, teoria, ficção, ao falar da situação do feminino, cita Foucault, afirmando que “…precisava incluir seu próprio discurso nesta dúvida radical, pois tal discurso é, inseparavelmente dependente da própria suposição que procura revelar” (p.81).
Trabalhando na divulgação destas idéias contidas neste ensaio, é preciso não esquecer que sem resgatarmos a espiritualidade que existe em cada ser humano, dificilmente conseguiremos alcançar qualquer objetivo.
Mesmo que demorem anos, séculos, mesmo que não sejamos capazes de transpor as montanhas, ainda que estejamos apenas caminhando sem vislumbrar uma luz no túnel, cremos, lutamos. Afirma Dom Helder Câmara: “Não serás digno da criação se a considerares acabada e feita e não entenderes que a glória de tua espécie consiste em concluir o que o Pai, propositadamente, apenas começou…”. É tempo de caminhada. À luta agora.
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REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS
COLASANTI, Marina. Contos de amor rasgados. Rio de Janeiro: Rocco, 1986.
GALEANO, Eduardo. Vozes e crônicas. São Paulo: Global/Versus, 1978.
GAZETA DO POVO. Curitiba: 27 agosto 1995.
HOLLANDA, Heloísa Buarque de (Org.) Tendências e impasses – o feminismo como crítica da cultura. Rio de Janeiro: Rocco, 1994.
HUTCHEON, Linda. Poética da pós-modernidade: história, teoria, ficção. Trad. Ricardo Cruz. Rio de Janeiro: Imago, 1991.
JORNAL FOLHA DE SÃO PAULO. São Paulo: 26 agosto 1996.
REVISTA CLÁUDIA. Ano 38, n. 5, maio 1999, São Paulo: Abril, 1999.
REVISTA CLÁUDIA. Ano 39, n. 4, abril 2000, São Paulo: Abril, 2000.
SICUTERI, Roberto. LILITH A lua negra. 4ª ed.. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1987.

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A sensível percepção de mundo em alguns poemas de Helena Kolody, de 1941 a 1951


Rosana Cássia Kamita

 
Helena Kolody nasceu em 1912 no Paraná. Primogênita de imigrantes ucranianos, ela mesma assim nos conta em seus versos:
Vim da Ucrânia valorosa,
que foi Russ e foi Rutênia.
Vim de meu berço selvagem,
lar singelo à beira d’água,
no sertão paranaense.
Feliz menina descalça,
vim das cantigas de roda,
dos jogos de amarelinha,
do tempo do “era uma vez…”
Exerceu apaixonadamente a profissão do magistério, a qual foi muito importante para sua formação e para a qual a Escola Nova de certa forma colaborou para seu pioneirismo e arrojo. A Escola Nova foi um movimento eclético e de origens muito complexas, mas é inegável que recebeu certas idéias pedagógicas, como as de Rousseau, que influenciaram uma época e cujos ecos ainda se fazem ouvir. São numerosos os pedagogos que, influenciados pela doutrina do Emílio , contribuíram na renovação dos conceitos e das normas educacionais. Um de seus princípios era o de que se houvesse um interesse vital, criar-se-iam, também, as técnicas próprias para satisfazê-lo: “Emílio aprenderá a ler quando receber cartas e sentir a necessidade de compreendê-las; todo o papel do mestre será ajudá-lo a encontrar os meios de satisfazer essa necessidade.” Esse naturalismo pedagógico leva à exaltação da natureza humana, de suas virtudes, sua bondade natural, seu poder; idéias importantíssimas em qualquer época, mas principalmente naquela, tão marcada por rupturas. É autora de numerosos livros, a maioria editada com seus próprios recursos. Antes dos seus livros, no entanto, seus poemas eram publicados em jornais e revistas. Seu primeiro poema intitulava-se “A Lágrima”. Ela contava então com 16 anos. Seu primeiro livro publicado intitulava-se “Paisagem Interior”, de 1941, e, após esse, muitos outros foram escritos.
A poetisa mostra-se sempre muito sensível em perceber o belo no que aos nossos olhos não passaria de singelo. Lendo seu poema “Infância”, o leitor é levado pela sinestesia dos versos e sente-se, por que não dizer, levado a evocações de sua própria infância:
INFâNCIA (1951)
Pão feito em casa,
Com mel dourado,
Cheirando a favo.
No campo, recendente a camomila.
Alegria de correr até cair.
Do tempo, só se sabia
Que no ano sempre existia
O bom tempo das laranjas
E o doce tempo dos figos…
Seu delicado olhar de poetisa percorre paisagens da natureza guardadas em sua memória, parte de seu cotidiano e que a inspirou em muitos de seus versos. Uma dessas imagens naturais refere-se ao Rio Negro, que aparece em símbolos e imagens em seus versos:
RIO DE PLANÍCIE (1941)
Minha vida é um largo rio de águas mansas
 
FIO D’ÁGUA (1945)
Não quero ser o grande rio caudaloso
Quero ser o cristalino fio d’água
No início de sua caminhada como poetisa, Helena Kolody deixa-se levar espontaneamente, seus versos refletem seu estado de alma, com tons oníricos e outros telúricos, repletos de vivas tonalidades emocionais. São justamente esses os versos tratados aqui. Sem o apego formal, passam a impressão de um relato de vida, feito de uma maneira extremamente doce, de olhos que perpassam paisagens, situações, sentimentos perante a vida. Em seu relato, ela diz que sempre gostou do novo, do que representava um desafio, que a impulsionava na juventude. Helena Kolody enfatiza a juventude, conta sobre como nessa época os jovens paranaenses se reuniam e liam sobre tudo em jornais e revistas, discutiam sobre o conteúdo dos mesmos e faziam críticas aos respectivos textos. Ressaltou também a importância de se viver com pessoas de sua própria idade. Seus versos encantam quem se deixa tomar pela emoção e coloca de lado, pelo menos por alguns instantes, o ceticismo:
SONHAR (1941)
Sonhar é transportar-se em asas de ouro e aço
Num vôo poderoso e audaz de fantasia.
ELOGIO DO POETA (1941)
Quando os homens viram os olhos do poeta,
Acharam em sua luz a luz do próprio olhar
E no seu sonho o próprio sonho refletido.
No ritmo de seu verso, então, reconheceram
A canção que cantariam, se soubessem cantar.
Música submersa, de 1945, traz poemas referentes à desumanidade da II Grande Guerra. Ocorre novamente a identificação da poetisa com a dor alheia, captando a ela e a sua mesma numa simbiose. E como ela mesma afirma, quando se é jovem sente-se com mais intensidade as emoções:
AMPULHETA DA HORA PRESENTE
A hora terrível passa,
Esmagando o coração da humanidade.
Helena Kolody relata um acontecimento que revela o poder da palavra e a responsabilidade gerada por ela. É a história de uma jovem depressiva que tentaria o suicídio. Antes do gesto trágico, abriu o livro que a poetisa lhe dera de presente. Leu um de seus poemas, “Prece”, e desistiu de seu intento. Helena Kolody escreveu vários poemas depressivos, mas por sorte não foi um desses o escolhido. Ela diz que depois disso seus poemas se tornaram mais abertos, mais otimistas. O poema “Prece” recebeu duas versões musicais e um “imprimatur” da igreja, e é lido como se fosse uma oração:
PRECE (1941)
Concede-me, Senhor, a graça de ser boa,
De ser o coração singelo que perdoa,
A solícita mão que espalha, sem medidas,
Estrelas pela noite escura de outras vidas
E tira d’alma alheia o espinho que magoa.
Para ela, o amor ficou sendo só um sentimento, um sonho, e Helena Kolody soube muito bem transformar esses sentimentos em palavras melodiosas, o que levou alguns poemas seus a serem musicados. São versos carregados de um lirismo puro, que embalam reminiscências de amores de outrora (até mesmo a própria palavra tornou-se antiga) quando não era vergonhosa a expressão verdadeira dos sentimentos:
CÂNTICO ( 1941)
A luz do teu olhar é a estrela solitária
Da noite deste amor, que é feito de silêncio.
VITÓRIA ÍNTIMA (1941)
Como a penumbra da noite,
A meditação desceu em seu olhar
E acendeu dentro de mim a lâmpada serena.
Em 1941 publicou seus primeiros haikais, sendo criticada com os argumentos de que aquilo não era soneto, não tinha rima, não era poesia. Mas gostava de desafios, por isso fazia haikais mesmo sendo criticada. No entanto, a crítica para Guilherme de Almeida já não era tão severa… talvez por ele ter colaborado para o abrasileiramento do haikai, como por exemplo atribuir um título ao terceto, definição de estrutura métrica e utilização de rimas, ou, por que não dizer? Ter composto haikais “parnasianos” .
Não participou do Movimento Modernista por ser retraída, mas buscava sempre manter-se informada e tinha consciência da modernidade de seus versos. Nessa época o Movimento Modernista buscava uma superação dos pressupostos que ancoraram a Semana de Arte Moderna. Alguns poetas já tinham trilhado um caminho diferente dos versos parnasianos, restando, pois, amadurecer as idéias já plantadas.
Em seu livro Música Submersa (1945), figura o haikai “Pereira em flor”, o qual foi elogiado por Carlos Drummond de Andrade, que diz ter ficado feliz com poemas como esse, “em que à expressão mais simples e discreta se alia uma fina intuição dos ‘imponderável’ poéticos”. Conheça-se o poema:
PEREIRA EM FLOR (1945)
De grinalda branca,
Toda vestida de luar,
A pereira sonha.
A respeito desse haikai, a poetisa relata como surgiu-lhe a inspiração para escrevê-lo:
“Eu morava na Rua Carlos de Carvalho. Uma noite, ao sair da casa de uma amiga, dei com aquela pereira completamente florescida, banhada pela luz da lua cheia. A beleza do quadro foi um impacto na minha sensibilidade. Fiz o poema bem mais tarde. Associei a pereira com uma noiva: a noiva toda vestida de branco, sonhando, com a pereira ao luar.”
Só voltou ao haikai quando Paulo Leminski descobriu-a como primeira pessoa a fazer este tipo de poesia de origem japonesa no Paraná. Tornou-se “haijin” (pessoa que cultua o haikai), com o nome artístico de Reika, concedido em 1993 pela sociedade japonesa, e que significa “perfume da poesia”:
ARCO-ÍRIS (1941)
Arco-íris no céu.
Está sorrindo o menino
que há pouco chorou.
PRISÃO (1941)
Puseste a gaiola
Suspensa de um ramo em flor,
Num dia de sol.
A poetisa escreveu:
“Antigamente eu me derramava em palavras. Um dia, o Dr. Andrade Muricy, um paranaense que era crítico de arte no Rio de Janeiro, aconselhou-me: ‘você vai muito melhor no poema curto. você quer encompridar e, às vezes, você dilui o poema ou se repete. você tem talento para a síntese’. Daí em diante, comecei a cortar os excedentes, deixando só o sumo, o essencial.”
Helena Kolody tem a capacidade de transformar em palavras as imagens captadas em sua existência, e mais, é capaz de reduzir essas mesmas imagens em poucas palavras, sem que elas percam sua magia. Seus haikais são relâmpagos de palavras, rápidos e luminosos. A poetisa consegue unir subjetividade e objetividade, numa viagem de versos repletos de significados.
Ainda em relação à sua face japonesa, há que se destacar sua incursão no tanka (poema japonés, com a mesma estrutura do haikai, acrescido de mais dois versos heptassílabos). Não pertencem, no entanto, à época aqui estudada. Apenas para que se conheça:
AQUARELA (1993)
Sol de primavera.
nêu azul, jardim em flor.
Riso de crianças.
Na pauta de fios elétricos,
uma escala de andorinhas.
Foi eleita para a Academia Paranaense de Letras aos oitenta anos de idade e a segunda mulher admitida no fechado círculo masculino. Ainda vive em Curitiba e alega que o sonho continua sendo sua matéria. Por essa alegação percebe-se a grandeza de suas intenções, o quanto acredita que o mundo moderno não possa sufocar os sentimentos mais nobres do ser humano, que apesar das vicissitudes não reduziu-se ainda a um ser robotizado e, espera-se, ainda tenha capacidade para perscrutar os seres e retirar uma essência do belo, na sua acepção mais ampla.
Muitas palavras tão carregadas de sentido na língua portuguesa são massacradas, de tal forma que perdem o sentido, chegando a tornar-se piegas falar em “amor”, por exemplo, graças a inábeis escritores, que pela sua falta de talento afugentam os leitores, os quais acabam se tornando traumatizados por este mau uso de palavras muitas vezes tão expressivas. Mas Helena Kolody faz o resgate dessas palavras e pelas suas mãos elas readquirem todo o seu verdadeiro significado.
Ela afirma que “São as palavras que decidem a sorte dos homens e o destino das nações.” Portanto, que sua palavra:
CONSOLE
Se a ambição da riqueza te extenua,
Olha o jogo das crianças na calçada.
Somente o jogo é seu, nem tem mais nada…
De riqueza não sei maior que a sua.
(Tesouro, 1951)
ENCAMINHE
Sonhar é Ter um grande ideal na inglória lida:
Tão grande que não cabe inteiro nesta vida,
Tão puro que não vive em plagas deste mundo.
(Terceto final de “Sonhar” , 1941)
E seja uma luz no mundo, um instrumento de paz e fraternidade.
Ensina-me, Senhor, a palavra exata,
A grande palavra reveladora e fecunda
Que devo clamar, clamar e clamar
Para acordar, nos que adormeceram
A consciência do seu destino maior”
(Apelo, 1941)
Sem dúvida, acredita Helena Kolody no poder da palavra, e o poeta pode ser considerado o “escolhido” para fazer dela um instrumento de transformação do mundo. A responsabilidade é enorme, mas alguns artistas da palavra conseguem levá-la a contento e vão gravando pelo tempo sua idéias que geram novas idéias e assim sucessivamente num trabalho longo, árduo e necessário. Em “Canto místico” (1941), a poetisa confessa a insuficiência da palavra humana e a impotência pessoal diante do poeta máximo, o Universo, e diante de seu poeta, Deus. Seguem-se as duas primeiras estrofes desse poema:
Aqui estou, Senhor, no meio desta nave
Para cantar em teu louvor.
Minha voz é prisioneira da garganta:
Conhece a gama dos sons e não pode cantar.
Há vibrações sonoras em meus nervos.
Mas a voz ausentou-se de meu ser.
Helena Kolody é sem dúvida alguma um expoente na literatura paranaense, literatura essa que se encaminhou inicialmente de forma tímida. Citemos como exemplo os românticos, que não tiveram ali um público que os pudesse avaliar. No entanto, no Simbolismo escritores e público encontraram-s,e e a partir de então vivencia-se a literatura, que amadurece no Estado. Contudo, não podemos limitar sua obra apenas à esfera onde surgiu. Sua obra é merecedora de destaque em qualquer espaço, seja pelo seu pioneirismo e arrojo já citados, seja pela qualidade de seus versos, seja pelo impulso que promoveu nas letras paranaenses e muitos outros motivos que aqui poderiam ser listados. Portanto, que seus versos sejam lidos, apreendidos, analisados e principalmente, sentidos.
 
Referências Bibliográficas
BELLO, Ruy de Ayres. Pequena História da Educação. São Paulo: Editora do Brasil, 1978.
BOSI, Alfredo. História Concisa da Literatura Brasileira. São Paulo: Cultrix, 1994.
Conversas por telefone com D. Helena Kolody.
CRUZ, Antonio Donizeti da. “Tankas e kaicais: uma leitura de Reika, de Helena Kolody”.
FRANCHETTI, Paulo. “Guilherme de Almeida e a história do haikai no Brasil”.
http://www.angelfire.com
http://www.morretes.pr.gov.br/artistas.htm
KOLODY, Helena. Sinfonia da vida. Organização: Tereza Hatue de Rezende. Curitiba: Letraviva, 1997.
—. Viagem no espelho. Curitiba: Criar, 1988.
LOBO, Luiza. O haikai e a crise da metafísica. Rio de Janeiro, Numen, 1992.
NASCIMENTO, Noel. “A propósito de Helena Kolody”.
REBOUL, Olivier. Filosofia da Educação. Tradução e notas de Luiz Penna e J. B. Penna. São Paulo: Nacional, 1978.

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Revista Mulheres e Literatura – vol. 5 – 2001

Deslize na linguagem (uma leitura de Maria Gabriela Llansol)


Tatiana Salem Levy 

Roland Barthes, em sua aula inaugural no Collège de France, afirma que a linguagem é o objeto em que se inscreve o poder. Todo discurso, desde os proferidos pela escola ou pelo Estado até os que constituem a publicidade ou mesmo uma canção, encarrega-se de repetir a linguagem até o momento em que os sentidos das palavras nos pareçam naturais e inatos, como se a linguagem existisse antes mesmo do surgimento da sociedade e de suas construções de poder. A palavra repetida, fora de qualquer encantamento ou magia, Barthes chama de estereótipo. Aceitamos determinadas idéias como verdades puras, entretanto, na maioria das vezes, são estereótipos formados pelo engendramento de um discurso constituído sob a máscara do poder. O estereótipo é, pois, a cristalização de um único sentido da palavra, o cerceamento da multiplicidade do signo imposto por uma determinada ideologia.
O poder, segundo o semiólogo francês, está presente em todas as circunstâncias do intercâmbio social: “não somente no Estado, nas classes, nos grupos, mas ainda nas modas, nas opiniões correntes, nos espetáculos, nos jogos, nas informações, nas relações familiares e privadas, e até mesmo nos impulsos liberadores que tentam contestá-lo”.1 Faz-se uma revolução para acabar com um mecanismo de poder, ele logo reaparece, sob uma máscara nova, mas com os mesmos princípios autoritários e opressores. Parece-nos, assim, que a liberdade humana só é possível fora da linguagem. No entanto, o homem só existe dentro dela, em seu interior, uma vez que é constituído por ela, não havendo separação entre homem e linguagem. Estaremos, então, condenados à prisão perpétua, imbricados nesta rede de poderes que constituem os discursos? É aqui que entra a sábia (e saborosa) idéia barthesiana de trapaça com a língua: não podemos destruí-la, nem viver em seu exterior, mas podemos desviá-la de seus sentidos estereotipados, “jogar” com os signos. E é aqui, também, que entra a literatura de Maria Gabriela Llansol, tentativa máxima de destituir da língua os mecanismos de poder. Seus textos e os elementos que os constituem, tais como as cenas fulgor, o re-contar da História, o mundo textual e as personagens-figuras, giram em torno de uma idéia central: desfazer a impostura da língua. Em entrevista à Lúcia Castello Branco, afirma a autora: “Veja bem, a língua é uma impostura. Tudo aquilo que estamos aqui a falar é uma impostura. Mas é possível, em algum momento, atingir a linguagem, a língua sem impostura. É isso que o meu texto quer”.2
Llansol partilha com Barthes a idéia de que o poder está espalhado por toda a parte, e sua literatura tenta fazer despontar “a exigência da liberdade de consciência de cada ser vivo em face de Deus, do Estado e de sua rede de múltiplos poderes, na tentativa indefinida – sem fim, e sem limites – de alcançar para cada habitante da terra o direito inalienável à autonomia do seu sopro de vida, e à realização de sua natureza”.3 Parece-nos ser esta a grande cena fulgor de seus textos, a tentativa de deslize, a busca de uma brecha na linguagem, onde o homem se possa constituir como intensidade, ou seja, distante dos mecanismos de poder e próximo ao seu sopro de vida.
No diário 2 – Finita -, há algo que incomoda a narradora/autora: a constatação, em 26 de agosto de 1975, um ano e meio após a Revolução dos Cravos, de que Portugal rompeu com o autoritarismo salazarista, mas não se livrou da ligação com o poder. Diz ela:
Quarenta anos, todo um período de opressão que termina por afirmações de poderes, e linguagens pessoais de grupo. Portugal, agora, não é o meio de uma viagem, é uma partida conseguida, a muito custo, para uma viagem errada. Por enquanto estão (estamos) soltos mas ainda não livres. As instituições, as categorias, os poderes, o saber e a ignorância epidêmicos continuam a mediatizar as relações entre as pessoas. (…) Não se fala em abolir os efeitos do poder, mas de suscitar das velhas formas novas formas.4
Não que Llansol subestime a importância nem as conquistas da Revolução; mas incomodam-na as novas formas de discurso, ou seja, os novos estereótipos e a nova verdade elaborados pelo vencedor do momento. Como diz a própria autora, “num e noutro lugar há impostura”,5 e é por isso que sua literatura se desvia dos sentidos habituais das palavras, numa tentativa de contornar a impostura da língua. Em Lisboaleipzig I, Llansol nos deixa claro o que pretende sua escrita, quando, numa conversa em que Augusto “dizia que tinha a impressão de que a existência se dividia em três grandes continentes: o do poder, o da procura dos segredos das coisas, e o do amor”, afirma que recusou em seus textos, “desde logo, o primeiro continente, abandonando todo o poder nas mãos do Príncipe”,6 a quem se opõem o rebelde e o pobre.
Encontramos freqüentemente, em seus livros, palavras soltas, numa estranha disposição pela página, sem conexões sintáticas e, sobretudo, desprovidas de seus significados. Llansol pretende, assim, esvaziar os signos de suas marcas de poder, trazer à literatura as palavras em seus estados nascentes. Diz ela: “Não ligues excessivamente ao sentido. A maior parte das vezes, é impostura da língua”.7 Descarregando as palavras de seus sentidos banais e estereotipados, Llansol pode desenvolver seu projeto de recontar a História, tirando das mãos do Príncipe a palavra e dando-a aos pobres. Vale ressaltar, uma vez mais, que não se trata de destruir a língua, mas de trapaceá-la, já que, “na linguagem dos homens, as palavras que nos libertam do Poder desde sempre lá se encontraram disponíveis, lá repousam as palavras que darão outro desfecho à batalha de Frankenhäusen”.8 Llansol desperta tais palavras para que circulem em seus textos, espaço onde a História ganha um outro sentido.
Para falarmos da relação da literatura de Llansol com o poder, não nos podemos esquecer da rapariga que temia a impostura da língua, personagem que bem demonstra a busca de uma brecha na linguagem. Presa a cabra a um castanheiro, cena que abre Um beijo dado mais tarde, cortam-lhe a língua com uma faca, e uma outra língua, “com parte no céu-da-boca”, principia-lhe a nascer. Ao final desta descrição, afirma a narradora (o eu que, por vezes, se confunde com a própria Témia): “O lugar da interseção da língua arrancada com a outra língua transparente é herança da rapariga que temia a impostura da língua. Por isso eu tenho de encontrá-la, e traze-la para fora de sua nostalgia infinita”.9 Nostalgia essa que provém do grande mistério que ronda a casa e que a narradora revela sob a forma de uma parábola:
A é serva; quando engravida de B, o filho da casa, só pode cantar o amor de boca fechada; alguns anos mais tarde, o filho da casa contrai matrimônio, e dessa união tem uma filha ________; o primeiro filho – o da serva – foi abortado; e sobre esta casa pairou um mistério, um não-dito, que alisou, numa pequena pedra, uma irreprimível vontade de dizer. Deste mistério, e no fim de um trabalho executado a som e a cinzel, fez-se a rapariga que temia a impostura da língua e que queria, através da palavra, fazer ressoar fortemente, o seu irmão morto.10
A rapariga não passou por escolas nem outras instituições onde se inscreve o poder (“ninguém educou Témia”); por isso, sua relação com a linguagem é livre, longe dos estereótipos. A única pessoa que lhe ensinou algo foi seu companheiro filosófico para brincar, com quem se mete em aventuras para descobrir imagens, novas cenas fulgor. Com o tempo, a rapariga passa a não temer mais a impostura da língua, aproximando-se do fulgor das palavras, ou seja, de suas existências cintilantes. Cada dia sente-se mais à vontade para ir “brincar ao pensamento”, para correr “ao leito extrair da água as cenas fulgor”. Não será aqui, nesta passagem do medo do poder à conquista da liberdade de consciência, que Maria Gabriela Llansol encontra quem é em Témia? Que as duas se fundem na constituição do texto literário, deformando as fronteiras entre autor, narrador e personagem? Podemos, ao menos, afirmar que é certamente nesta passagem que a literatura de Llansol efetiva sua trapaça com a língua, constituindo-se fora das relações de poder, muito distante do olhar do Príncipe.
Que outras evidências do texto llansoliano nos levam a afirmar que sua escrita constitui-se fora das redes de poder? Quais são as estratégias utilizadas pela autora para desviar a língua de seus traumas, de suas marcas ideológicas e estereotipadas? Sem dúvida, não daremos conta de todas no presente trabalho. Enfatizaremos, portanto, de que forma a obra de Llansol foge ao modelo representativo da literatura, por acreditarmos ser este um ponto fundamental para a realização do desvio na linguagem. Afirma a autora: “se eu procurar abrir caminho a um texto que não represente (e por isso mesmo, antes de mais, diga), abrirei caminho a um, cuja fonte não seja nem a agressão, nem a impostura”.11
Encontramos, na literatura contemporânea, uma certa tendência ao questionamento do que é o escrever no interior do próprio texto literário. Levado ao paroxismo, esse tipo de escrita propõe uma ruptura com o modelo da representação, que pretende produzir no leitor uma espécie de reconhecimento do seu mundo. Enfatizando o conteúdo temático da narrativa, em função de tornar novamente presente algo que se dá no real, a literatura representativa fixa as coisas diante de si, tornando-as previsíveis, controláveis e comunicáveis. A comunicação se faz possível na medida em que a escrita funciona sobretudo como simulacro de um mundo já formado, o mundo do próprio leitor. Este, embebido na ideologia do poder, sente-se seguro em abrir um livro e lá encontrar seu mundo retratado, da forma mais semelhante possível ao real.
Roland Barthes, ao argumentar sobre a força representativa da literatura, afirma: “desde os tempos antigos até as tentativas da vanguarda, a literatura se afaina na representação de alguma coisa. O qué? Direi brutalmente: o real”. E prossegue: “o real não é representável, e é porque os homens querem constantemente representá-lo por palavras que há uma história da literatura”.12 O texto de Llansol foge a essa história da literatura, na medida em que rompe com o elo entre real e linguagem (talvez, quem saiba?, porque não haja separação entre ambos. – Isto é o que nos leva a crer Infausta, heterônimo feminino de Aossé, que se sente “dentro da vida sem nenhuma cortina de separação entre o visível e o invisível; o real e o irreal”).13
Sua escrita dobra-se sobre si mesma, provocando uma crise da representação. Seu texto não é o retrato de nossa realidade, mas uma outra realidade em que o leitor não se reconhece mais. Maria Gabriela Llansol é autora de um texto em que o fazer e o pensar literários se constróem simultaneamente. A língua não é, para ela, um instrumento de escrita, é a própria escrita realizada. Restringindo a amplitude temática de seu texto, Llansol possibilita a discussão em torno do que é o escrever. No percorrer de seus livros, podemos observar que a autora, através de pensamentos soltos, considerações e fragmentos, constrói a sua própria teoria textual.
Em sua obra, ela propõe um abandono da literatura, não para se aproximar ainda mais da vida, mas para elaborar um texto na margem da língua. Renegar a impostura da língua e tudo aquilo que possa cercear os afetos, esta é a sua “batalha”. Para isso, a autora experimenta uma escrita-laboratório, lugar de pensamento constante, onde para tudo há vez, menos para a regra, a autoridade, o enquadramento. Em seu projeto de escrita, Maria Gabriela Llansol desfaz a unicidade introduzida pela impostura da língua, para que a diferença circule em seu texto: “decido, nessa altura natalícia, tirar o d de deus, e chamar eus ao que for a diferença que o prive de ser a sua vontade”.14 Se a autora afirma não haver literatura (“Não há literatura. Quando se escreve só importa saber em que real se entra, e se há técnica adequada para abrir caminho a outros”.15), é porque não existe, como afirma Silvina Rodrigues Lopes, “um saber fazer definitivo, mas um saber fazer em aprendizagem, aqui definido por uma interrogação dos limites da linguagem, continuamente variáveis”.16
Esta afirmação remete-nos ao conceito de verdade em nossa civilização ocidental. Para Platão, pensar é o mesmo que buscar e reconhecer a verdade, única e universal. Haveria, nesse sentido, um absoluto a ser atingido, ou seja, “um saber fazer definitivo”, que a tradição ocidental não fez senão repetir. No entanto, F. Nietzsche propõe a verdade como processo de criação. Para este filósofo, nenhum sentido é eterno e tudo depende das relações de força que o constituem. Retomando o pensamento de Barthes, podemos relacionar o que ele chama de estereótipo com a verdade universal que cada época pretendeu alcançar. Já o que Nietzsche chama de verdade é a tentativa de decomposição de tais estereótipos, ou seja, é a arte, no seu sentido de multiplicidade, de diversidade.
Esta passagem pela concepção de verdade ajuda-nos a melhor entender a literatura representativa e aquela que quebra este modelo. O texto que tem como função proporcionar o reconhecimento ao leitor precisa-se manter o mais fielmente possível ao lado da suposta verdade, para que não haja estranhamento, constituindo-se, assim, sob os meandros do poder, que, como já vimos, estipula qual é a verdade dita “universal”. No avesso dessa proposta, uma literatura não representativa – como a de Llansol – anseia por “descobrir, inventar novas possibilidades de vida”. 17 Em Um beijo dado mais tarde, uma cena fulgor revela-nos como o texto de Llansol dialoga com a idéia nietzscheana de que nenhum sentido á eterno: “vão partir para outro lugar do meu entresser. Dei-lhes em troca os gomos da verdade, e, agora, as imagens do seu suco vesperal: uma verdade móvel.” Esta imagem é, sem dúvida, bastante libertadora, uma imagem do despoder.
Após este breve percurso pelo conceito de literatura da não-representação, podemos afirmar que o texto llansoliano se constitui à margem de um padrão narrativo mimético. Vimos que a autora recusa um modelo de linguagem e faz nascer uma nova língua. Analisemos, pois, alguns traços dessa nova narrativa llansoliana.
No discurso proferido por ocasião do Grande Prêmio do Romance e da Novela de 1990 atribuído ao romance Um Beijo dado mais tarde, Llansol esclarece alguns pontos da sua concepção de escrita. “Para que o romance não morra é uma bela manifestação da urgência de se substituir uma antiga forma literária – que tem como centro a narratividade – pelo que a autora chama de textualidade. Llansol, em momento algum, mostra-se pessimista em relação ao destino do romance. Ao contrário, enfatiza a importância dele e, se pretende mudar sua forma, é exatamente para que não morra. Diz ela, num bonito movimento de amor à escrita:
__________escrevo,
para que o romance não morra.
Escrevo, para que continue,
mesmo se, para tal, tenha de mudar de forma
mesmo que se chegue a duvidar se ainda é ele,
mesmo que o faça atravessar territórios desconhecidos,
mesmo que o leve a contemplar paisagens que lhe são tão
difíceis de nomear.18
A narratividade – ou o ato de contar estórias uns aos outros – foi, por longo tempo, uma possibilidade de levar o homem à sua liberdade de consciência. No entanto, “acontece, está acontecendo há muito, que a narratividade perde seu poder de fascínio”.19 E “o diagnóstico é conhecido”, afirma a autora. Esta forma de romance é controlada pelo princípio da representação do real, por uma preocupação com a verdade e, por isso, “só pode existir no âmbito da racionalidade que modula (…) os materiais que o mito (…) é obrigado a pôr à sua disposição”.20 Diante da constante repetição desse trabalho, que acabou por fazer esgotar a energia criadora, Llansol põe-nos as seguintes questões:
Como continuar o humano?
Que vamos nós fazer de nós?
Que sonhos vamos nós sonhar que nos sonhe?
Para onde é que o fulgor se foi?
Como romper estes cenários de “já visto” e “revisto”
que nos cercam?
Ela mesma é quem responde, introduzindo sua proposta estética: “é minha convicção que, se puder deslocar o centro nevrálgico do romance, descentrá-lo do humano consumidor de social e de poder, operar uma mutação da narratividade e faze-la deslizar para a textualidade, um acesso ao novo, ao vivo, ao fulgor, nos é possível”.21 O que a textualidade nos pode dar de diferente da narratividade é o acesso ao dom poético, “a imaginação criadora própria do corpo de afectos, agindo sobre o território das forças virtuais, a que poderíamos chamar de existentes-não-reais” (contrapondo-se ao real-não-existente, ou verossimilhança, que orienta a narratividade). Além disso, a textualidade “abre caminho à emigração das imagens, dos afectos, e das zonas vibrantes da linguagem,” permitindo uma pluralidade de olhares contínuos, numa “paisagem onde não há poder sobre os corpos”. 22
 
Referências Bibliográficas
(clique nos números para voltar ao texto principal)
1 BARTHES, Roland, Aula, Trad. Leyla Perrone-Moysés, São Paulo, Cultrix, 1978, p. 11
2 BRANCO, Lucia C. “Encontro com escritoras portuguesas”. In: Boletim CESP, Belo Horizonte, v.13 n.16, jul./dez. 1993, p.108
3 LLANSOL, Maria Gabriela, Lisboaleipzig I, o encontro inesperado do diverso, Lisboa, Rolim, 1994, p. 131
4 ____________ Finita (Diário 2), Lisboa, Rolim, 1987, p. 52, 53
5 ____________ Um beijo dado mais tarde, Lisboa, Rolim, 1990, p. 9
6 LLANSOL, 1996, p. 46, 47
7 LLANSOL, 1990, p. 113
8 LLANSOL, 1987, p. 53
9 LLANSOL, 1990, p. 9
10 idem, p. 12
11 LLANSOL, 1987, p. 67
12 BARTHES, 1978, p. 26
13 LLANSOL, 1994, p. 68
14 LLANSOL, M. G., Um Falcão no Punho (Diário 1), Lisboa, Rolim, 1985, p. 16
15 idem, p. 55
16 LOPES, Silvina Rodrigues, Teoria da Des-Possessão, Lisboa, Black Son Editores, 1988, p.29.
17 DELEUZE, Gilles, Nietzsche e a filosofia, Rio de Janeiro, Ed. Rio, 1976, p. 83
18 LLANSOL, M.G., “Para que o romance não morra”, In: Lisboaleipzig I, Lisboa, Rolim, 1994, p. 115
19 idem, p. 118
20 idem, p. 118
21 idem, p. 120
22 idem, p. 121

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Revista Mulheres e Literatura – vol. 5 – 2001

Escritoras brasileiras do século XIX


Resenha sobre Zahidé Lupinacci Muzart (org.). Escritoras brasileiras do século XIX. Florianópolis: Mulheres; Santa Cruz do Sul: UNISC, 1999 por Simone Pereira Schmidt e Tânia Regina Oliveira Ramos (UFSC)

Em 1999, mil páginas chegaram literalmente pelas mãos de Zahidé Muzart às nossas mãos, no volume Escritoras Brasileiras do Século XIX, uma belíssima e primorosa edição da Editora Universidade de Santa Cruz do Sul e da Editora Mulheres1. Nele, a força de trabalho direta, manual e intelectual, de sessenta e oito mulheres, incluindo nessa empreitada desde a planejadora, a organizadora, as editoras, as escritoras, as pesquisadoras, a prefaciadora: mulheres amarrando as pontas de dois séculos, integrando norte, sul, leste, oeste, as Américas. Somam-se a essas, mais uma dezena nos agradecimentos, que vão desde a funcionária da livraria do Campus a outras pesquisadoras ou precursoras…

Escritoras Brasileiras do Século XIX é, em síntese, não somente o resultado de uma pesquisa integrada, financiada, mas uma demonstração de um trabalho de equipe e de uma sinfonia ou sintonia de múltiplas vozes em um tempo datado: escritoras brasileiras do século XIX, pesquisadoras brasileiras do século XX, literatura brasileira para o século XXI, que possibilitam reavaliar nossa história cultural.
O livro é centrado nas escritoras, no fato de serem brasileiras, e em um tempo específico, porque significativo. Comecemos pelo brasileiras e por sua relação com o conceito norteador do século XIX. O conceito de nação está intrinsecamente ligado à escritura. Até porque não existe, a priori, uma definição de nação. Citemos alguns clássicos e o que dizem: “Não há um meio ‘científico’ de estabelecer o que todas as nações têm em comum.”2 Nação é “qualquer corpo de pessoas suficientemente grande cujos membros consideram-se como membros de uma nação”3. Ou “o nacionalismo não é o despertar das nações para a autoconsciência: ele inventa nações onde elas não existem”4.
Preferimos ficar com a concepção de que nação é escritura; o conceito alimenta-se de textos. Na base da formação da consciência nacional está o texto impresso; foi através dele que ela pôde existir. Logo, nada pode ser ignorado. Neste ponto em que chegamos, para reforçar a idéia de uma nova leitura da história literária do século XIX, descobrimos que o século XX passou sem termos solucionado a impossibilidade de se entender o século XIX, o centramento no nacionalismo e o processo de formação de uma história da literatura brasileira — mais exatamente, da cultura brasileira, ou de uma periodização delimitada por cânones indiscutíveis. Há seqüestros evidentes. Conhecíamos até agora, através da denúncia de Haroldo de Campos, no processo da formação da literatura brasileira, o seqüestro do barroco… Em relação às escritoras, nem denúncia nem pistas, mistério, enigma, vagas referências apenas. Em outras palavras, as verdades de uma tradição histórica, quando confrontadas com as provas concretas, como neste livro, devem ter seus alicerces estremecidos.
Não é preciso falar mais do espantoso silêncio a que essas cinqüenta e uma escritoras brasileiras foram submetidas. As falas dessas mulheres não querem provocar apenas uma ruptura, introduzir a alteridade, a diferença. Ler assim, apenas, seria ler pela oposição. Os textos reunidos em oposição só nos levariam mais uma vez à avaliação do paradigma de uma história literária escrita por textos de autores homens. O que valeria dizer: Pior… escrita por nomes masculinos, igualmente canônicos. Já superamos essa angústia e essa fase de desabafo. O desafio agora é reescrever essa história e ler diferentemente as histórias da literatura brasileira do século XIX e a historiografia produzida no século XX. Referimo-nos aos historiadores canônicos como Antonio Candido, José Aderaldo Castelo (em recente reedição), Alfredo Bosi, J. Guinsburg, Nelson Werneck Sodré e à luxuosa história da literatura de Luciana Stegagno-Picchio5 publicada pela Nova Aguilar em 1997. Referimo-nos também às leitoras dessas histórias da literatura, na maioria mulheres e professoras. E aos autores de manuais e livros didáticos. Não falamos apenas de uma revisão dos cânones, mas de uma outra compreensão do próprio período romântico e da própria cultura do século XIX.
O desejo de organizar e classificar essas escritoras que foram esquecidas, ou antes ignoradas6, leva-nos a refazer uma outra tradição literária. Aquela que as inclui e nos deve incluir. Caso contrário, correremos o risco (se quisermos ser pautadas pela ironia e pelo otimismo) de, em 2099, bisnetas e tataranetas de nossas orientandas e de nossos orientandos paradoxalmente estarem resgatando esses alfarrábios, eletrônicos ou não, para ler e entender o inexplicável ignorar mais uma vez, desta vez com dois séculos de atraso.
O que a história da literatura pode e deve fazer com essa pesquisa, com as leituras críticas que antecederam todas as poesias, cartas, ficções, ensaios das escritoras? Como avaliar ‘no calor da hora’ as resenhas, as reportagens, as entrevistas, os comentários, a fortuna crítica recente; a recepção bastante elogiosa ao livro organizado por Zahidé Muzart? Como avaliar os limites entre as exigências do mercado editorial, a especificidade da Editora Mulheres e o próprio conteúdo do livro em quatro tempos: o tempo das escritoras, o tempo da pesquisa, o tempo da leitura e o tempo depois de tudo isso?
Ou a historiografia literária contemporânea e os historiadores da literatura se integram ou integram essas pesquisas em um sistema literário e consideram os resultados (incluindo os dos discursos críticos que referendam as escritoras resgatadas) ou eternamente estaremos fazendo os mesmos comentários, falando da necessidade tão bem apontada pela crítica feminista: a alteração do sistema literário constituído, de forma que os textos nos forneçam novos instrumentos de análise. O que se deseja, então, não são ensaios isolados, mas a reavaliação do que está (por)escrito (e não entramos no mérito da canonização), além da consideração desse novo e organizado patrimônio literário e cultural. E, nas margens da nova história da literatura contemporânea, deseja-se que se incorpore o surgimento de um potencial literário e crítico em torno de uma pesquisa arqueológica. Estamos reescrevendo a história da literatura do século XIX, mas muito mais a história da literatura do final do século XX, pela inclusão de pesquisas criticamente consistentes e teoricamente modernas. Não basta estarmos em lista de ensaístas brasileiras, com nossos dados civis e acadêmicos. Precisamos entrar literalmente na História.
Retomemos, então, um ponto já citado: a nação se afirma de fato quando a vemos como escritura. Só no século XIX, quando alfabetizadas, as mulheres se tornam leitoras e começam a publicar, especialmente em jornais e revistas femininas. Só no final do século XX, quando tituladas e intelectualmente reconhecidas, as mulheres começam a se encontrar em seminários e a somar esforços para grandes empreitadas. E neste ponto estamos próximas de Nara Araújo, que, com sensibilidade e inteligência, prefaciou o livro e avaliou o trabalho como uma expedição, metáfora que nos remete à imagem contemporânea dos grandes descobrimentos…
No texto introdutório do livro, Zahidé Muzart define seu trabalho, seu e de sua equipe de pesquisadoras, como uma faina de ‘revolver escombros e garimpar entulhos’, que só pode ser levada a cabo ‘com paciência e boa dose de paixão’. Sua concepção a respeito da tarefa da historiadora feminista da literatura nos remete ao conceito benjaminiano da história como um amontoado de ruínas: não há, diz Benjamin, documento de cultura que não seja também documento de barbárie. Assim, o trabalho de resgate das autoras desaparecidas de nossa história literária corre contra a ação corrosiva do tempo, busca por entre as ruínas o legado daquilo que desapareceu. O que está morto na história pode ressuscitar. É este um modo de interpretar aquilo que Benjamin afirma: “O passado traz consigo um índice misterioso, que o impele à redenção. Pois não somos tocados por um sopro do ar que foi respirado antes?”7 ‘Revolver os escombros’ foi a fórmula encontrada por Zahidé para definir seu trabalho, contra a corrente do tempo. E contra a corrente pelo menos em dois sentidos. Primeiro porque vai literalmente daqui para lá: daqui de onde estamos, de posse da nossa reflexão contemporânea sobre o papel político dos cânones, que, em qualquer tradição cultural, afirmam um centro e silenciam as margens; para lá, esse obscuro e misterioso lá, onde se encontram nossas precursoras.
E contra a corrente do tempo, ainda, no sentido destacado também por Zahidé Muzart na introdução do livro. Ela fala do ritmo lento, necessariamente lento, da pesquisa, em cujos caminhos tortuosos, “o verbo mais conjugado é o esperar: esperar por uma informação bibliográfica, esperar pelo resultado de pedidos por carta a sebos e antiquários, esperar por microfilmes de bibliotecas”8. Espera: figura do discurso amoroso, no texto de Barthes. “Estou apaixonado? Sim, pois espero. O outro não espera nunca. O outro vive em eterno estado de partida, de viagem. A identidade fatal do enamorado não é outra senão: sou aquele que espera”9. Curiosa atitude a dessas mulheres que esperam, num tempo como o de agora, cujo imperativo é o de não se perder tempo. Mais uma aproximação a Walter Benjamin: citando Valéry, ele observa que o narrador cujo saber se amparava na tradição, na experiência vivida e compartilhada, adequava-se ao tempo da natureza, harmonizando-se ao seu ritmo. Assim como as coisas perfeitas produzidas pela natureza tinham um tempo longo, necessário, para ganhar existência (pérolas, vinhos, pedras, criaturas…), também o narrador, ao dar corpo às suas histórias, imitava essa paciência. Esse lento fluir do tempo, marcando as ações humanas, é algo perdido para a modernidade: “O homem de hoje não cultiva o que não pode ser abreviado”10, diz Valéry.
Assim o tempo ganha outra consistência no lento trabalho de recuperação das escritoras do passado. Trabalho que nos permite, além de ampliar e redimensionar a história literária brasileira, mudar nossa concepção dessa mesma história. Pois, como diz Jeanne-Marie Gagnebin, apoiada em Todorov, “cada história é o ensejo de uma nova história, que desencadeia uma outra, que traz uma quarta, etc; essa dinâmica ilimitada da memória é a da constituição do relato, com cada texto chamando e suscitando outros textos”11. Desse modo, o passado se transforma de monumento, diante do qual por tanto tempo nos mantivemos em posição de referência/reverência, em documento, com o qual travamos uma relação crítica. Trata-se, então, não apenas de salvar o passado, como quer Benjamin, mas também de aniquilá-lo12: arrastamos o passado ao tribunal e o condenamos. Porque as vozes silenciadas das mulheres na história não precisam mais de nós. Elas agora habitam o sono, indiferentes às respostas, que hoje lhes poderíamos ofertar, às terríveis perguntas que elas fizeram em seu tempo. Somos nós que precisamos das perguntas que elas fizeram13. Para que exerçam sobre nós a força germinativa que as histórias contém14: para que, agindo como sementes, sua força conservada no tempo atue sobre nosso olhar de leitoras. Pois, como diz Italo Calvino, as leituras que fazemos, ausentes de todos os cânones — aquelas que vão forjando nossa tradição literária na experiência pessoal, íntima, da leitura que se constrói lentamente como uma entrega amorosa —, tais leituras dão forma às nossas experiências futuras, fornecendo “modelos, recipientes, termos de comparação, esquemas de classificação, escalas de valores, paradigmas de beleza”15: todas, coisas que marcam indelevelmente nossa experiência de vida e de leitura.
No caso de nossa relação com os textos das escritoras do século XIX, cremos que essa semente é germinativa no sentido de nos auxiliar, a nós, como suas leitoras, a nos percebermos como vozes entre outras vozes, a apurar nossos ouvidos para perceber as vozes todas que se encontram em nossos discursos. Subjazem, a essas muitas vozes, muitas perguntas: como seriam esses discursos se essas mulheres do passado tivessem ido muito além do lamento, da mágoa e da raiva que impregnam os textos em que buscam timidamente se representar? Como seria hoje contada a história deste país ou de sua literatura se tais vozes lhe tivessem acrescentado uma visão outra, descentrada? Ou ainda, como propõe Caren Kaplan16 , haverá estratégias de leitura e de escrita capazes de historicizar e desconstruir mitologias do nacionalismo e do individualismo?
Ao empreendermos essa viagem a um século XIX praticamente desconhecido do leitor brasileiro, já no século XXI, um novo modo de olhar para a tradição literária brasileira se nos apresenta, e uma só visão homogênea — um país, um centro, um modelo, uma metrópole, uma família, uma tradição — se transforma, se estilhaça, nas mãos das mulheres que ressuscitam em Escritoras brasileiras do gêculo XIX. É assim que podemos ler o conto ‘A escrava’, de Maria Firmina dos Reis, em que se conta a escravidão do ponto de vista do negro, ou melhor, da mulher negra. Assim tamgêm se pode ler o poema ‘O soldado do Paraguai’, de Rita Bagêm de Melo, que revisita a contrapelo, marcada pela ironia, a história da guerra. Ou ainda o poema ‘A lágrima de um caeté’, de Nísia Floresta, em que Paulo Bezerra identifica “a imagem de um índio condenado à civilização, com valores culturais superiores aos do colonizador, de quem ele cobra os bens que lhe foram roubados”17. São exemplos esparsos que aqui indicamos apenas para sublinhar o que tentamos dizer: que as escritoras do passado, ao buscar se representar, assumindo todos os riscos da recusa da representação pela voz dos outros, construíram para o futuro — para nós — não apenas uma imagem outra de si mesmas, bastante diferente daquela que a tradição hegemonicamente nos legou nas histórias contadas sobre a mulher burguesa do segundo império, mas também outras histórias, diferentes da História. Não por acaso, o problema da representação é hoje um dos temas centrais para a teoria feminista. No centro dessa preocupação está o entendimento de que o ato de representar constitui o processo no qual um sujeito fala em lugar de outro. Nesse processo, o outro não se constitui como sujeito, pois não assume um discurso através do qual possa enunciar-se por si mesmo. Como objeto do enunciado alheio, ele se deixa impregnar pelas valorações e pela visão de mundo daquele que o representa. Nesse sentido, representar significa, de modo geral, silenciar e marginalizar o outro. Sabemos a quem, historicamente, tem sido destinada a posição do Outro. Empreender a leitura das escritoras do passado, encontrar sua voz dissonante em relação à tradição que as posicionou, é um gesto imbuído do significado político de construção de um espaço outro, para além da ideologia do gênero18. Isso não significa saudar nostalgicamente o passado, mas, pelo contrário, incorporar as vozes do passado num discurso que se faz aqui e agora, nem nostálgico nem utópico, mas traçado, como sugere Teresa de Lauretis, nas margens dos discursos hegemônicos, como “espaços sociais entalhados nos interstícios das instituições e nas fendas e brechas dos aparelhos de poder-conhecimento”19.
Assim como os textos reunidos pelas pesquisadoras desconstroem uma representação homogênea do lugar da mulher, seja na história, seja na literatura do século XIX, eles também acabam por solapar qualquer idéia que equivocadamente pudéssemos ter de uma identidade comum a unir todas essas escritoras. Em sua leitura, percorremos toda a variedade de pensamentos que povoam nosso passado, desde a adesão mais entusiasmada à ideologia colonial até o ímpeto revolucionário; da obediência estreita aos ditames da convenção literária da época até sua aberta paródia; do conformismo (a sério ou não) às rígidas hierarquias sociais, como nos Conselhos de Bárbara Heliodora a seus filhos — “Com Deus, e o rei não brincar,/ É servir e obedecer,/ Amar por muito temer,/ Mas temer por muito amar,/ Santo temor de ofender/ A quem se deve adorar!” — até o desabafo indignado da escritora anônima — “Triste sorte a nossa. Para alguma cousa melhor nascemos!”. Assim, lembrando, com Donna Haraway20, a dolorosa fratura que nos impede o retorno ao aconchego de um nós que nos abrigaria a todas, numa unidade tão doce quanto impraticável, caberia ainda interrogarmos, ao encararmos a variedade de discursos que constituem este corpus provisoriamente reunido, quantas mulheres se encontram por trás desse véu que apenas começamos a levantar, o véu da ‘mulher’ do século XIX? Quantas diferenças se encobrem sob essa aparente identidade que começamos a investigar?
A paciência e a paixão de que fala Zahidé Muzart na introdução de seu livro retornam aqui como uma síntese do que acreditamos ser o valor maior desse trabalho de resgate das autoras do século XIX. Paciência para realizar o trabalho quase artesanal que é ouvir e fazer falar a experiência — ou melhor, a multiplicidade de experiências, distintas, que se tinham volatizado no tempo. Paixão porque justamente se questiona, através das estratégias feministas de leitura ou releitura do passado, o valor dos critérios de objetividade e cientificidade reivindicados pelo sujeito do conhecimento das ortodoxias intelectuais. A leitora crítica feminista é — ao contrário desse sujeito supostamente neutro, não posicionado — posicionada no espaço, no tempo, sexual e politicamente; por isso mesmo ela trava com o texto que analisa uma relação que não é neutra nem impessoal, mas interessada, intensa e, muitas vezes, por que não, apaixonada.
É importante ressaltar o mérito de como o livro foi montado: ele é, como já dissemos, todo centrado nas escritoras brasileiras do século XIX, e as pesquisadoras deram a autoria àquelas que ainda não haviam aparecido em conjunto. Basta ver o índice. Sintomaticamente a história da crítica contemporânea é anunciada e iniciada quando os nomes e as especificações acadêmicas das quinze pesquisadoras fecham o livro, a pesquisa, a história, ou como acharmos que se deve nominar isso. São elas as responsáveis: Ana Helena Cizotto Belline, Constância Lima Duarte, Eliane Vasconcellos, Ivia Duarte Alves, Lizir Arcanjo Alves, Luzilá Gonçalves Ferreira, Maria Tereza Caiubi Crescenti Bernardes, Nancy Rita Vieira Fontes, Norma Telles, Rita Terezinha Schmidt, Sylvia Perlingeiro Paixão, Valéria Andrade Souto-Maior, Valéria Cardoso da Silva, Yasmin Jamil Nadaf e Zahidé Lupinacci Muzart.
A partir dessas colocações, propomos é que este livro não seja ponto de chegada, mas ponto de partida para se escrever uma história que não opte apenas pela inclusão dos nomes das autoras, dos títulos, mas que incorpore a leitura das obras nas concepções norteadoras do século XIX.21 Não há tempo aqui para se reavaliar, por exemplo, as alterações na estética romântica com a inclusão desses textos escritos por mulheres. Ou da estética parnasiana ou simbolista com a inclusão das poetas ali reunidas.
Inegavelmente, as quinze pesquisadoras já nos deram os caminhos e a bibliografia básica. Em linhas gerais elas repensaram a literatura, como que vasculhando a história da cultura em busca do que deve ser mencionado, senão para demonstrar, ao menos para apontar uma correspondência entre o que consideram estar dentro e fora do texto. O que devemos avaliar, com questionamento e auto-crítica, é se as inquietações que têm movido a crítica e a historiografia feministas encontram neste trabalho algumas respostas. Pois cabe aqui lembrar o que dizia a pesquisadora Zahidé Muzart em 1994, num encontro realizado na UFSC: “Somente agora estamos descobrindo no Brasil a literatura feminina do século XIX e, embora já possamos contar com várias pesquisadoras envolvidas em projetos de resgate, não temos ainda conclusões definitivas mas somente questionamentos e hipóteses — direções de percurso”22 .
Ao fazer os textos falarem, Escritoras Brasileiras do Século XIX promove a transformação de mais de sessenta mulheres em texto, e nos permite ensaiar uma nova história da literatura no Brasil. Cabe ainda — e a nós outras, em um esforço integrado — superar a fase apontada por Zahidé Muzart de questionamentos e hipóteses, e saber aproveitar o que a princípio é atordoante: mil páginas, cinqüenta e uma escritoras do século XIX, centenas de temas, mágoas, vidas, cartas, falas e poemas, quinze pesquisadoras do século XX, uma editora chamada, e dirigida por, Mulheres, histórias de uma literatura/cultura ainda a ser definida, assimilada e entendida no século XXI. Temos muito o que fazer a partir de agora com essa matemática predominantemente feminina.
 
Publicado em Estudos Feministas (Rio de Janeiro), v. 7, n. 1. 2, 1999.
Notas (para voltar ao texto, clique nos números)
1 Zahidé Lupinacci Muzart (org.). Escritoras Brasileiras do Século XIX. Florianópolis: Mulheres; Santa Cruz do Sul: EDUNISC, 1999.
2 In H. Bhabha (ed.). Nation and Narration. London/New York: Routledge, 1990, p. 47 e 49.
3 E. Hobsbawm. Nações e nacionalismo desde 1780. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1991, p. 8.
4 In Benedict Anderson. Nação e Consciência Nacional. São Paulo: Ática, 1989, p. 14.
5 Luciana Stegagno-Picchio. História da Literatura Brasileira. Rio de Janeiro: Nova Aguillar, 1997.
6 Brito Broca. As Mulheres na Literatura Brasileira. In: Românticos. Pré-Românticos. Ultra-Românticos. Polis/INL, 1953.
7 Walter Benjamin. Sobre o conceito de história. In: ____. Magia e técnica; arte e política; ensaios sobre literatura e história da cultura. São Paulo: Brasiliense, 1986, p. 223.
8 Zahidé L. Muzart (org.). Op. cit., p. 24.
9 Roland Barthes. Fragmentos de um discurso amoroso. Rio de Janeiro: Francisco Alves, 1981, p 27 e 96.
10 Walter Benjamin. O narrador. Considerações dobre a obra de Nikolai Leskow. In: ____. Op. cit., p. 206.
11 Jeanne-Marie Gagnebin. Walter Benjamin ou a história aberta. In: ____. Op. cit., p. 13.
12 Monumento, documento, salvar, aniquilar: usamos aqui Nietzche e Benjamin.
13 A partir da sugestão do poema ‘Procura da poesia’, de Carlos Drummond de Andrade.
14 Walter Benjamin. O narrador. Op. cit., p. 204.
15 Italo Calvino. Por que ler os clássicos. São Paulo: Companhia das Letras, 1993, p. 10.
16 Caren Kaplan. Autobiografia de resistência: gêneros fora-da-lei e sujeitos feministas transnacionais. Travessia, n. 29/30. UFSC, ago.94-jul.95, p. 63-99.
17 Paulo Bezerra. Um toque feminino na literatura brasileira. Jornal da Tarde. São Paulo, 18 de setembro de 1999.
18 Cf. Teresa de Lauretis. A tecnologia do gênero. In: Heloísa Buarque de Hollanda (org.). Tendências e impasses: o feminismo como crítica da cultura. Rio de Janeiro: Rocco, 1994, p. 206-42.
19 Idem, p. 237.
20 Donna Haraway. Um manifesto para os cyborgs: ciência, tecnologia e feminismo socialista na década de 80. In: Heloísa Buarque de Hollanda (org.). Op. cit., p. 243-88.
21 João Hernesto Weber. A Nação e o Paraíso. Florianópolis: UFSC, 1996.
22 Zahidé Luppinacci Muzart. Na aprendizagem da palavra: a mulher na ficção brasileira — século XIX. In: Fazendo gênero. Seminário de Estudos sobre a Mulher. Florianópolis: UFSC. 1994/ Ponta Grossa: UEPG, 1996, p. 77-83.

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Revista Mulheres e Literatura – vol. 5 – 2001

Mulher e Literatura no Século das Luzes ou Reflexões sobre Historiografia Literária


Ceila Ferreira Brandão
Doutoranda/FFLCH – USP

Canto porque já não posso ver as sombras e só me disponho para as luzes.
Teresa Margarida da Silva e Orta, Aventuras de Diófanes
Para pesquisarmos a literatura luso-brasileira do século XVIII, devemos consultar as histórias de literatura brasileira e portuguesa produzidas ao longo dos tempos, mas temos, também, que ler os textos escritos no período colonial e possuir idéia mais clara sobre a circulação e entrada de livros no Brasil e em Portugal, no Setecentos.
Dentro dessa perspectiva, estamos desenvolvendo nossa Tese de Doutorado na Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da USP, com o subsídio da FAPESP.
“Sob as luzes e as sombras do Iluminismo: a obra de Teresa Margarida da Silva e Orta” (São Paulo, 1711 ou 1712 – Belas, Portugal, 1793) é o título do nosso projeto de Tese, uma edição crítica dos textos literários da autora de Aventuras de Diófanes.
Nesta comunicação vamos apresentar duas questões que afloram do texto produzido por Teresa Margarida: a presença de imagens, palavras e temas caros à Ilustração e a representação da mulher nas páginas tecidas pelas mãos de uma escritora no século XVIII.
Nesse sentido, vamos apresentar algumas informações e reflexões sobre o Século das Luzes, mais especificamente, sobre a Ilustração e a obra de Teresa Margarida da Silva e Orta, escritora que nasce em São Paulo, Brasil, na segunda década do Setecentos e vive a maior parte de sua vida em Portugal.
Segundo Antonio Candido, no primeiro volume de Formação da literatura brasileira, quando pensamos em literatura comum (brasileira e portuguesa) e falamos de Ilustração, devemos ter em mente:
[…] o conjunto das tendências ideológicas próprias do século XVIII, de fonte inglesa e francesa na maior parte: exaltação da natureza, divulgação apaixonada do saber, crença na melhoria da sociedade por seu intermédio, confiança na ação governamental para promover a civilização e bem estar coletivo. Sob o aspecto filosófico, fundem-se nela racionalismo e empirismo; nas letras, pendor didático e ético, visando empenhá-las na propagação das Luzes”. 1
Ainda conforme Antonio Candido:
O momento decisivo em que as manifestações literárias vão adquirir, no Brasil, características orgânicas de um sistema, é marcado por três correntes principais de gosto e pensamento: o Neoclassicismo, a Ilustração, o Arcaismo. 2
O ano de 1750 é estabelecido pelo autor de Formação da literatura brasileira como o início desse momento decisivo.
Para Antonio Candido, 1750 é uma data “puramente convencional”, mas, o eminente professor esclarece que, ao adotá-la, leva em conta a Academia dos Seletos (1752), a dos Renascidos (1759) e os primeiros trabalhos de Cláudio Manuel da Costa (1750).3
1750 é também o ano em que Teresa Margarida da Silva e Orta apresenta à Censura do Santo Ofício, do Ordinário e do Paço as Máximas de virtude e formosura com que Diófanes, Climinéia e Hemirena, príncipes de Tebas, venceram os mais apertados lances da desgraça, que mais tarde recebem o título de Aventuras de Diófanes.
Na Formação da literatura brasileira, livro essencial para o estudo e compreensão da nossa literatura, Antonio Candido não escreve uma palavra sequer sobre Teresa Margarida da Silva e Orta. Contudo, tal escritora tem participação ativa na difusão de idéias iluministas em Portugal e também no Brasil, pois seu livro, hoje mais conhecido pelo título de Aventuras de Diófanes, é um dos mais encontrados nas livrarias do Brasil Colônia. Tal informação colhemos em o Perfil do leitor colonial, Tese de Doutorado defendida por Jorge de Araújo, na Faculdade de Letras da UFRJ.4
Sobre o romance de Teresa Margarida existe uma Dissertação de Doutoramento intitulada, Crítica e confluência em Aventuras de Diófanes, defendida pela Professora Maria de Santa Cruz, na Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa que, ao final de seu trabalho, apresenta uma lista “das principais obras, publicadas no século XVIII, de autores ultramarinos (brasílicos…) contemporâneos de Teresa Margarida” com o objetivo de:
“[…] demonstrar como Aventuras de Diófanes se insere no conjunto, inaugurando a segunda metade do século XVIII brasílico, diferenciando-se e inovando, contrastando não só pelo gênero como pela ousadia das suas reflexões político-filosóficas, para não aludir à audácia de introduzir neste todo um nome feminino […]”.5
Sobre Aventuras de Diófanes, escreve Rubens Borba de Moraes em Bibliografia brasileira do período colonial, que as obras produzidas por Teresa Margarida e seu irmão Mathias Aires, autor das Reflexões sobre a vaidade dos homens, são de difícil classificação e por tal motivo esquecidas tanto pela historiografia literária brasileira, quanto pela portuguesa. Aliás, por falar em Rubens Borba de Moraes, cabe aos estudiosos de literatura brasileira reconhecer a importância de sua obra injustamente esquecida.
Voltando a Teresa Margarida da Silva e Orta, é necessário tecermos algumas observações sobre a entrada de idéias iluministas em Portugal para compreendermos o contexto histórico em que é produzida a obra daquela que encobre seu nome com o pseudônimo Dorotéia Engrássia Tavareda Dalmira.
A Ilustração começa a invadir Portugal no reinado de D. João V, conhecido pelo título de o Magnânimo. No reinado do Rei Sol português, dá-se a entrada dessas idéias num Portugal ainda preso à Inquisição, através da atividade de pessoas que a historiografia portuguesa chama de estrangeirados. Nesse sentido, Estrangeirados são os divulgadores da Ilustração no reino português.
Após a Restauração (1640), Portugal procura restabelecer relações diplomáticas com outros países da Europa, e por esse motivo envia homens às embaixadas de Paris, Haia, Londres Roma etc. Dentre aqueles que prestam serviços ao reino português nas embaixadas estrangeiras estão Alexandre de Gusmão, escrivão da puridade de D. João V e Sebastião José de Carvalho e Melo, futuro Marquês de Pombal.
Alguns portugueses e brasílicos aproveitam a oportunidade para realizar seus estudos no exterior. Esse é o caso de Mathias Aires, irmão da autora de Aventuras de Diófanes, que completa sua formação acadêmica em Paris.
Alexandre de Gusmão, Sebastião de Carvalho e Melo e Mathias Aires são estrangeirados. Estrangeirada é a própria Teresa Margarida. Em Aventuras de Diófanes, escreve:
Também é certo, que para pintar Majestades me faltam os pincéis de Apeles, e não tenho a pena de Homero; mas como sou estrangeira, tenho visto bastante para poder contemplar soberanas propriedades […].6
Tal passagem é uma provável referência a sua condição de divulgadora das novas idéias vindas de França e/ou ao fato de ter nascido no Brasil . A propósito, nas Cartas persas, de Montesquieu, dois personagens estrangeiros, viajantes persas, descrevem a França.
Em Aventuras de Diófanes, a narradora/autora, uma estrangeira, e porque estrangeira, pode olhar com isenção os acontecimentos, transporta a luta travada, no reinado de D. João V, entre a superstição e as luzes para o palco do teatro de seu livro.
Em Aventuras de Diófanes, há a influência de Fénelon (François de Salignac de La Mothe, 1651-1715), um dos precursores da Ilustração. Tal influência já aparece estampada na Gazeta de Lisboa de 17 de agosto de 1752, ano em que é publicada a primeira edição do romance de Teresa Margarida, com o título de Máximas de virtude e formosura.
Diz a Gazeta de Lisboa:
Também saiu à luz o livro intitulado Máximas de virtude e formosura, obra discreta, erudita, política e moral, em que a sua Autora, se não estrangeira ao menos peregrina, no discurso, e na elegância, imita, ou excede ao Sapientíssimo Fénelon na sua viagem de Telémaco fazendo-se digna das mais atenciosas venerações. Vende-se na loja de Francisco da Silva de fronte de S. Antônio. 7
De Fénelon, Teresa Margarida conserva a oposição ao regime absolutista, mas a aceitação do regime monárquico. Conserva também a preocupação didática e pedagógica, porém, a autora de Aventuras de Diófanes apresenta maior preocupação com a educação das mulheres, que considera possuírem os mesmos direitos que os homens quanto à aquisição de conhecimentos.
Sobre a educação das representantes do sexo feminino, escreve Teresa Margarida:
A estas demonstrações gratulatórias assistiam de manhã os Soberanos, e de tarde a Academia das ciências, que em Palácio se fazia, onde eram admitidos homens e mulheres a darem conta do progresso de seus estudos […]. 8
Assim como Fénelon que constrói, em Aventuras de Telémaco, Salento, uma cidade utópica, uma cidade ideal, Teresa Margarida constrói em Aventuras de Diófanes uma ilha onde não há injustiças, não há escravidão e onde os súditos são governados por um rei nascido nas terras que governa. Uma referência ao Brasil? Talvez. Segundo a Professora Maria da Cruz em Crítica e confluência em Aventuras de Diófanes, sim, é uma referência ao Brasil.
Do Iluminismo, Aventuras de Diófanes aproveita os temas. Ciência, felicidade, natureza e virtude estão presentes nas páginas escritas por Teresa Margarida. Sobre a razão e as luzes (metáfora da razão) estamos escrevendo um ensaio e por tal motivo não vamos desenvolver esse tópico no trabalho que hoje apresentamos.
No século XVIII, a experiência científica tem grande impulso. Os cientistas da época buscam desvendar as leis da natureza. Acreditam mesmo que podem descobrir e explicar as leis que regem a natureza e trabalham com categorias como simplicidade, ordem, regularidade. Tais cientistas dão passos decisivos em direção ao que, séculos mais tarde, será chamado de “desencantamento do mundo” por Adorno e Horkheimer, na Dialética do esclarecimento.
Há, em Aventuras de Diófanes várias referências às ciências. Vejamos algumas:
[…] procuro infundir no ânimo daqueles, por quem devo responder, o amor da honra, o horror da culpa, a inclinação às ciências […]. 9
[…] as ciências são o prêmio de si mesmas, como bens, que o tempo respeita […].10
Bereniza, princesa de Atenas, personagem de Aventuras de Diófanes, possui conhecimentos de Astronomia e a protagonista do romance tem o nome de uma estrela: Hemirena. Também os conhecimentos práticos da Astronomia são valorizados:
Antes que deixasse aquele amável sossego, chamei os rústicos, com quem vivia contente: despedi-me dos filhos, que comigo principiavam a observar os movimentos dos Planetas desse luzido Firmamento, de outras, que com mais adiantado conhecimento já iam colhendo os doces frutos de suas aplicações […]. 11
A felicidade é um tema presente na maior parte dos Iluministas. Conforme Jean Touchard, uma das formas de felicidade propostas pelos filósofos é a “felicidade na virtude, na medida e na razão”.12 Em Aventuras de Diófanes, o tema da felicidade está presente nesta acepção. No último capítulo do romance de Teresa Margarida, Diófanes, Climinéia, Hemirena e Arnesto, após experimentarem os sofrimentos decorrentes da escravidão, da perseguição política e do exílio forçado por inúmeros contratempos, alcançam a felicidade duradoura pelo exercício constante da virtude:
[…] se repetiram festivas demonstrações, e muitos vivas àqueles Soberanos, até que entre o estrondo das salvas, e as sonoras vozes dos clarins, perderam de vista a Delos, levando a notícia do gosto, e paz, com que ficavam gozando o verdadeiro afeto dos súditos, e os descansos, para que haviam concorrido as fadigas, conhecendo todos, que sempre é vencedora a verdade, e que a formosura triunfa, quando é constante a virtude.13
Outro tema caro aos iluministas é o elogio à natureza, a busca do natural e do simples. Em Teresa Margarida, como na literatura neoclássica e no arcadismo, a natureza vira refúgio, locus amenus.
Segundo a Professora Doutora Nelly Novaes Coelho em artigo publicado na Revista da biblioteca Mário de Andrade, assistimos, em Aventuras de Diófanes, ao elogio:
[…] à vida natural, simples, rústica e austera, voltada à agricultura e longe dos artifícios da civilização. Antecipando Rousseau, nesta “volta à natureza”, Teresa Margarida vai mais longe do que Fénelon, pois não só acredita que a cidade “infecciona” os homens, como atribui virtudes mais ou menos milagrosas à vida do campo..[…].14
Vejamos esta passagem de Aventuras de Diófanes, em que a natureza aparece como refúgio:
Em uma fresca tarde já cansado se recolhia em o oco de uma árvore, quando ouviu uma voz suave, que docemente cantava; e saindo a buscar a causa de tão suave canto, ouviu o brando sussurro de um rio, que vagaroso se espalhava pela relva […].15
Quando à virtude, antes de falarmos sobre esse tema, gostaríamos de achar atenção para duas questões fundamentais do Século das Luzes: a transformação do vocabulário e o retorno à Antigüidade Clássica.
No Século das Luzes ocorre, segundo Jean Touchard, uma verdadeira revolução no vocabulário político. Ainda conforme Touchard, é aí que a palavra povo deixa de ter apenas o significado pejorativo de populaça para adquirir o sentido de “a parte mais numerosa e necessária da nação”.16
As palavras ciência, felicidade, razão, luzes, verdade, virtude adquirem conotações especiais e a literatura é fertilizada com novos sentidos.
No século em que o ser humano acredita na possibilidade de construção da felicidade, assistimos ao retorno à Antigüidade Clássica. Tal retorno marca também a mudança no vocabulário.
A palavra virtude, por exemplo, perde o elemento religioso e torna-se laica. Em Aventuras de Diófanes, adquire, entre outros significados, o sentido etimológico da palavra latina uirtus: força (própria do uir), vigor.17
Aliás, em Aventura de Diófanes, a alternância ou mesmo a duplicidade de sentidos das palavras marca a representação da figura feminina. Não é sem motivo que o romance recebe, na primeira edição, o título de Máximas de virtude e formosura. Virtude e formosura correspondem aos pólos masculino e feminino, sintetizados na personagem Hemirena. Explico: Hemirena, a protagonista do romance, para “vencer os assaltos de sua cruel fortuna”, veste-se de homem e passa a chamar-se Belino. Hemirena é Hemirena/Belino, aquela que tem virtude e formosura.
A mesma Hemirena, que salva a mãe e o noivo de um naufrágio, é submetida pela ideologia que procura domesticar o corpo das mulheres.
Conforme Norma Telles, no capítulo Escritoras, escritas e escrituras da História das mulheres no Brasil:
O discurso sobre a “natureza feminina”, que se formulou a partir do século XVIII e se impôs à sociedade burguesa em ascensão, definiu a mulher, quando maternal e delicada, como força do bem, mas, quando “usurpadora” de atividades que não lhe eram culturalmente atribuídas, como potência do mal.18
Em Hemirena podemos ver a formação desse discurso sobre a natureza feminina, mas também a sua negação. Ao mesmo tempo que Hemirena é a encarnação desse discurso, ela é sua antítese. Feminino e masculino se complementam na figura da protagonista Hemirena/Belino. O feminino, nas Aventuras, pode ser fonte de formosura, mas também, é fonte de virtude. Homens e mulheres têm, segundo a narradora, “igualdade de almas”.19 Assistimos, nas Aventuras, à oscilação entre o discurso sobre a “natureza feminina” domesticada pela sociedade patriarcal e a mulher forte, bela, inteligente, em igualdade de alma com os homens. Dessa oscilação, um verdadeiro duelo, vai predominar, na literatura ocidental, o discurso sobre “a natureza feminina”, formulado pela sociedade burguesa e patriarcal e as diáfanas heroínas românticas passam a povoar os livros e o imaginário do público leitor. Desde então, estava decretada a morte de heroínas transgressoras, como a Lucíola de José de Alencar.
Como podemos ver, Teresa Margarida participa da discussão sobre as mulheres no Século das Luzes.
Conforme Norma Telles, no capítulo supracitado, a mulher, no século XVIII, é aceita como musa ou criatura, nunca como criadora. 20 Daí, os contundentes pedidos de desculpas de Teresa Margarida/Dorotéia Engrássia por haver escrito um livro:
Leitor prudente, bem sei que dirás ser o melhor método não dar satisfações; mas tenho razão particular, que me obriga a dizer-te que não culpes a confiança de que me revisto, para satisfazer ao ardente desejo, com que procuro infundir nos ânimos daqueles, por quem devo responder, o amor da honra, o horror da culpa, a inclinação às ciências, o perdoar a inimigos, a compaixão da pobreza, e a constância nos trabalhos, porque foi este o fim, que me obrigou a desprezar as vozes, com que o receio me advertia a própria incapacidade […].21
Mas, apesar do medo, Teresa Margarida ousa filiar um romance à palavra escrita de uma mulher (Dorotéia Engrássia), que escreve para um público leitor composto de: mulheres e homens.
Nas Aventuras, Hemirena finge ser Belino para poder reencontrar os pais e o caminho de volta para o seu reino. Porém, a narradora do romance não deixa de informar aos leitores que Belino é uma mulher: Hemirena, aquela que atravessa mares, enfrenta tempestades e não perde a ternura jamais.
 
Notas:
(para voltar ao texto, clique nos números vinculados; veja também a referência bibliográfica)
1 CANDIDO, Antonio (1981) p. 43-44.
2 CANDIDO, Antonio (1981) p.43.
3 CANDIDO, Antonio (1981) p. 25
4 Esse primoroso trabalho de Jorge de Araújo encontra-se no Banco de Teses da Faculdade de Letras da UFRJ.
5 CRUZ, Maria de Santa (1990) p. 653.
6 ORTA, Teresa Margarida da Silva e (1993) p. 56.
7 ORTA, Teresa Margarida da Silva e (1993) p. 200.
8 ORTA, Teresa Margarida da Silva e (1993) p. 184.
9 ORTA, Teresa Margarida da Silva e (1993) p. 56.
10 ORTA, Teresa Margarida da Silva e (1993) p. 114.
11 ORTA, Teresa Margarida da Silva e (1993) p. 78.
12 TOUCHARD, Jean ( 1970) p. 50-51.
13 ORTA, Teresa Margarida da Silva e (1993) p. 195.
14 COELHO, Nelly Novaes (1995) p.31.
15 èXT€èXT€ Ter ߀Margarida da Silva e (1993) p. 76.
16 TOUCHARD, Jean (1970) p. 47.
17 FARIA, Ernesto (1994) verbetes uirtus e vir.
18 TELLES, Norma (1997) p. 403.
19 ORTA, Teresa Margarida da Silva e (1993) p.11.
20 TELLES, Norma (1997) p. 403.
21 ORTA, Teresa Margarida da Silva e (1993) p. 56.
 
Referências Bibliográficas:
ARAÚJO, Jorge. Perfil do leitor colonial. Rio de Janeiro, Faculdade de Letras da UFRJ, 1988, Tese de Doutorado.
CANDIDO, Antonio. Formação da literatura brasileira. 6. Ed. Belo Horizonte, Itatiaia, 1981, v.1.
COELHO, Nelly Novaes. A imagem da mulher no século XVIII: Aventuras de Diófanes de Teresa Margarida. In: Revista da Biblioteca Mário de Andrade. São Paulo, 1995, p. 31.
CRUZ, Maria de Santa. Crítica e confluência em Aventuras de Diófanes. Lisboa,
Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa, 1990. Dissertação de Doutoramento.
FARIA, Ernesto. Dicionário escolar latino-português. 7. ed, Brasília, FAE, 1994.
MORAES, Rubens Borba de. Livros e bibliotecas no Brasil colonial. Rio de Janeiro; São Paulo, Livros Técnicos e Científicos; Secretaria da Cultura, Ciência e Tecnologia do Estado de São Paulo.
ORTA, Teresa Margarida da Silva e. Obra reunida. Rio de Janeiro, Graphia, 1993.
TELLES, Norma. Escritoras, escritas, escrituras. In: DEL PRIORE, Mary (org.) História das mulheres no Brasil. São Paulo, Contexto, 1997.
TOUCHARD, Jean (dir.) História das idéias políticas. Lisboa, Europa-América, 1970, v. 4.