Categories
ESCRITORES

EXPEDIÇÃO MONTAIGNE

Autor: Antônio Callado
Título: EXPEDIÇÃO MONTAIGNE, EXPÉDITION MONTAIGNE
Idiomas: port/fra
Tradutor: Jacques Thiériot
Data: 23/12/2004

EXPEDIÇÃO MONTAIGNE

CAPÍTULO X

Antônio Callado

Desde a morte de Maria Jaçanã ninguém mais tinha procurado Ieropé para fumigação, massagem, receita, conselho, consolação e nem mesmo papo, companhia, mexerico, nada, como se ele, feito a Jaçanã, já tivesse morrido e sido enterrado na beira da lagoa. O único sentimento que ele ainda parecia capaz de despertar era o da suspeita, da desconfiança, não alguma suspeita de susto e medo, como ele inspirava, e gostava de inspirar, antigamente, e que se devia a suas ligações evidentes, profissionais mesmo, com o mundo dos espíritos, dos mortos, com alma dos que adormecem pra sempre e que está ainda sem pouso certo. Ele tinha sido quando moço homem de grandes có1eras e cegas iras que levantavam até as pálpebras dele, redondas e hirtas feito batoque de pau de beiço de suiá, e, quando se passavam muitos dias nem nada enraivecer ele, Ieropé de repente fingia que estava furioso e aterrava a aldeia inteira, pra não perder o pique e o respeito geral entre os vivos e entre as almas também, que, amedrontadas, ficavam mais dóceis, mais submissas, boas de arregimentar, aperfeiçoar, na medida do possível, e trancar de novo, em seres de concepção recente. Gostava de dominar e até de humilhar, naquele tempo, as almas experientes, ávidas de atividade, mandonas, mas sem membros, no momento, sem ferramentas, e de pôr ordem entre as almas rebeldes, preguiçosas ou apenas brincalhonas, que, em lugar de aceitarem logo nova encarnação, achavam engraçado cair na vagabundagem, atormentando os vivos ou se divertindo à custa deles, pregando sustos, se enfiando em cana de taquaras pra gemer feito flauta, ou, o que era mais grave, invadindo pessoas ainda vivas e ocupadas, que ficavam assim com duas almas, o que quando não dava em doidice visível dava em bobeiras sem razão e extravagâncias.

Agora, sem a veneração e o pavor dos vivos, Ieropé sentia que as almas de folga, disponíveis, começavam também a não ligar pra ele, ao ponto de, durante um tempo, terem passado a obedecer muito mais ao aprendiz que ele tinha tido, o menino Javari, muito talentoso e severo na lida com alma destrambelhada e metida a valente e emancipada. Mas o que balançava mesmo de vez a oca e a cuca de Ieropé no abandono em que ele vivia – e que ele quase aceitava, como alguma treda tramóia de Maivotsinim, que estava, Ieropé achava que era isso, fazendo ele ficar sozinho, sem ninguém, pra ele poder pensar e pensar o tempo todo e resolver como é que ela ia, com feitiços, destrançar Fodestaine, desmanchar a vida que ele tinha vivido – era, em primeiro lugar, aquela guerra do filho e parentes da Maria Jaçanã. O filho, em vida dela, não ligava pra ela e cuidava tão bem dela quanto da puta que pariu, mas agora vivia dizendo que Ieropé tinha matado ela porque não tinha dado a ela penicilina, como se depois de aparecer essa merda de penicilina do Fodestaine ninguém mais que tomasse penicilina tivesse morrido no mundo inteiro. E ainda tinha o pessoal da BR-080, com aquela conversa de que a morte do albino branco-aço, colega deles, que era cor-de-rosa mas tinha alcunha de Baio, não ficava assim não, que eles não tinham visto a hora que ele levou a cacetada mas sabiam que quem tinha dado a cacetada tinha sido o pajé. Tinha, sim, tinha sido o pajé e com uma bordunada na cabeça do Baio que não era de ninguém botar defeito ou pedir penicilina pra racha não, mas certeza, certeza ninguém tinha que tinha sido ele e o Baio bem que merecia, correndo atrás de tudo que era indiazinha camaiurá saidinha da escuridão do resguardo, e…

Mas o velho pajé tudo agüentava porque sabia que estava protegido por todos os cantos, por três forças de três almas de três mortos que ele tinha resolvido hospedar e guardar: um tuxaua, um lutador de huka que nunca tinha sido pego pela perna e nem nunca tinha deitado no pó do terreiro, e um pajé, que atendia pelo nome de Kutumapu, tão poderoso que não dava a confiança de dar ordem aos homens e às mulheres, só se entendendo, quando eles estavam dormindo, com as almas deles, que saíam dos corpos e vinham fazer beiju pra ele e depois colocavam a vontade dele, pajé, dentro dos corpos, quando voltavam. Pois essas forças prisioneiras de Ieropé sabiam que, no albino branco-aço chamado Baio, Ieropé tinha tido o aviso que aguardava, da terceira vinda de Fodestaine, que não era albino, nem branco-brasileiro, era lourão mesmo, mas o Baio até que tinha parecido louro, visto pela frincha da pálpebra pesada do pajé. E era aviso, lá isso era, e se ele tivesse tempo de pensar e pensar como queria e como Maivotsinim mandava, ia saber destrançar o tempo, desmanchar, desfazer, desfiar até chegar diante de Fodestaine e não deixar nem permitir que ele tivesse tido o descaramento de acontecer.

(…).

___

Fonte: Callado, AntonioA Expedição Montaigne: romance. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1982. p. 53-56.

EXPÉDITION MONTAIGNE

Chapitre X

Antônio Callado

Depuis la mort de Maria Jaçanan, personne n’avait plus recouru à Iéropé pour une fumigation, un massage, une prescription, un conseil, une consolation, ni même une converse, une compagnie, un cancan, rien, comme si lui, pareil que la Jaçanan, était, déjà mort et enterré au bord du lac. Le seul sentiment qu’apparemment il était encore susceptible de susciter, c’était la suspicion, la méfiance, mais ce n’était plus la suspicion provoquée par la crainte et la peur qu’autrefois il inspirait, et aimait inspirer, et due à ses liens évidents, professionnels même, avec l’âme de ceux qui dorment pour toujours, avec les âmes qui n’ont pas encore trouvé leur asile définitif.

Dans sa jeunesse, Iéropé avait été un homme porté à de grandes colères et des fureurs aveugles qui allaient jusqu’à lui exorbiter les paupières, rondes et roides comme les rondelles de bois dont les Souïas s’incrustent la lippe, et quand plusieurs jours s’écoulaient sans que rien ne le mêt en rogne, il feignait soudain d’être furieux et terrorisait tout le village, pour ne pas perdre son allant non plus que le respect général aussi bien des vivants que des âmes qui, épeurées, devenaient plus dociles, plus soumises, faciles à enrégimenter, à perfectionner, dans la mesure du possible, et à enfermer de nouveau dans des êtres récemment conçus. Il aimait dominer, et même humilier, à cette époque, les âmes expérimentées, avides d’activité, autoritaires, mais sans membres, pour le moment sans attributs, et également imposer l’ordre parmi les âmes rebelles, paresseuses ou simplement espiègles qui, au lieu d’accepter d’emblée une nouvelle incarnation, trouvaient amusant de se laisser aller au vagabondage, tourmentant les vivants ou se divertissant à leurs dépens, leur fichant la frousse, s’enfilant dans des tiges de bambou pour gémir comme une flûte, ou bien encore, circonstance aggravante, envahissant des personnes encore vivantes et déjà habitées qui du coup se retrouvaient avec deux âmes, ce qui provoquait chez ces personnes, sinon une insanité manifeste, du moins des lubies et des extravagances.

A présent, privé de la vénération et de la peur des vivants, Iéropé subodorait que les âmes désoeuvrées, disponibles, commençaient à leur tour à ne plus se soucier de lui, la meilleure preuve c’était que durant un certain temps, elles s’étaient mises à obéir à son apprenti de l’époque, le jeune Javari, plein de talent et de sévérité dans l’art de se colleter avec les âmes écervelées, fanfaronnes et émancipées. Mais ce qui faisait vaciller pour de bon la paillote et la jugeote d’Iéropé dans l’abandon où il vivait – et qu’il acceptait presque, comme une traîtresse manigance de Maïvotsinim, oeuvrant, se figurait Iéropé, pour qu’il se retrouve tout seul, sans personne, à devoir penser et repenser sans arrêt, à décider comment est-ce qu’il allait, grâce à ses sortilèges, détortiller Foutestaine, démantibuler la vie qu’il avait vécue – c’était, au premier chef, cette foutue guerre que lui faisaient le fils et la parentèle de Maria Jaçanan. Le fils, quand elle était encore en vie, ne s’occupait pas d’elle et s’en foutait de son sort, mais maintenant il passait son temps à dire que Iéropé l’avait tuée parce qu’il ne lui avait pas donné de pénicilline, comme si après l’apparition de cette saloperie de pénicilline de Foutestaine plus personne qui en aurait pris ne serait mort dans le monde entier. Et par-dessus le marché Iéropé avait sur le dos les ouvriers de la nationale BR-80 qui répandaient que la mort d’un de leurs copains, un albinos à la peau rose mais surnommé le Bai, ça n’allait pas se passer comme ça, ils n’avaient pas vu l’heure où il s’était dégusté son coup de casse-tête mais ils savaient bien que çui qui l’avait donné, le coup de casse-tête, ç’avait été le pajé. Effectivement, le pajé était l’auteur du coup, un coup impeccable qui avait si bien fendu la cafetière du Bai que même la pénicilline ne l’aurait pas ramené à la vie, mais dire qu’on était sûr et certain que ç’avait été le sorcier personne ne pouvait et après tout le Bai n’avait eu que ce qu’il méritait, à force de cavaler aux trousses de toutes les petites Indiennes camaïouras qui s’esbignaient de l’obscurité de leur retraite rituelle et…

Mais le vieux pajé supportait tout parce qu’il se sevait protégé par les trois forces de trois âmes de trois morts qu’il avait décidé d’accueillir et de garder : un chef de tribu, un lutter de houka-houka qui n’avit jamais été empoigné par la jambe ni renversé dans la poussière de la lice, et un pajé, qui répondait au nom de Koutoumapou, si puissant que, se méfiant de donner des ordres aux hommens et aux femmes, il n’avait de commerce, pendant leur sommeil, qu’avec leurs âmes : celles-ci sortaient des corps et venaient lui offrir des cassaves et ensuite mettaient ses volontés de pajé dans ces corps, quand elles y retournaient. En effet, ces forces captives de Iéropé savaient que par l’intermédiaire de l’albinos surnommé le Bai Iéropé avait reçu l’avertissement qu’il attendait, celui de la troisième venue de Foutestaine qui n’était ni albinos ni blanc-brésilien mais parfaitement blond, car le Bai déjà, vu à travers la fente des paupières lourdes du pajé, pouvait passer pour blond. C’était un avertissement, à n’en pas douter, et s’il avait le temps de ressasser ses pensées comme le voulait et l’ordonnait Maïvotsinim, il saurait détortiller le temps, le démantibuler, le défaire, le défiler jusqu’à tant qu’il se retrouve face à Foutestaine, à qui il devait défendre, interdire d’avoir eu l’outrecuidance d’exister.

(…).

____

Fonte : Callado, AntonioExpédition Montaigne : roman. Traduit du brésilien par Jacques Thiériot. Paris : Presses de la Renaissance, 1989. p. 55-58.

Categories
ESCRITORES

SEMPREVIVA

Autor: Antônio Callado
Título: SEMPREVIVA
Idiomas: port/ita/fra
Tradutor: Vicenzo Barca(ita), Thiériot(fra)
Data: 23/12/2004

SEMPREVIVA

Capítulo 2

Antonio Callado

Antes de sair do quarto, mão direita já na maçaneta da porta, Quinho, espalmando a mão esquerda, olhou, como era de seu hábito, a cicatriz de um talho do dias de menino, quando limpava, para fazer um bodoque, uma forquilha de goiabeira. Depois, por um segundo, olhou, como se fosse um objeto estranho, sua outra mão, fechada sobre a maçaneta, sacudiu a cabeça, impaciente consigo mesmo, e abriu a porta, assumindo um ar resoluto de homem prático para ir, no sonolento, deserto refeitório da pensão, ao encontro de Pepe.
Postado à mesa diante de uma garrafa de vinho, Pepe – tristes bigodões de salgueiro de beira-rio, de guias tão compridas e cadentes que pareciam mirar, com certa intencionalidade, os canos das botas que o boliviano calçava – começou logo a falar, como se não tivesse interrompido a conversa da véspera, macia, emoliente, destinada a convencê-lo de que passar a fronteira era para ele, Quinho, nada mais do que a visita, a volta à casa paterna, o abrir da velha cancela, do portão de outrora, familiar, acolhedor. Enquanto isso Quinho, sorvendo da xícara um café quente, amargo, via com uma poeirenta clareza que ela própria não tinha, a estrada, o caminho boliviano, aquele cordão de umbigo esticado no chão e que levava ao portão, à gruta das grades e hastes de ferro.
— Pode entrar tranqüilo com seu cartão de identidade, mesmo velho, mesmo caducado. Entre não como quem chega, ou retorna, e sim como se tivesse vindo passar, em Puerto Suárez, umas horas apenas, para comprar um litro de uísque, um canivete suíço, um chapéu panamá. Entre com um ar despreocupado, malandro, que sua pinta é bem brasileira, não podia ser mais, com esse tom morenito de pele, olho castanho, cabelo preto, metro e setenta, entre firme, rapaz, pise forte, a casa é sua.
Como Quinho continuasse soprando e bebendo devagar o café, Pepe se levantou, pediu a Quinho que se pusesse de pé um instante, e deu-lhe a volta, observando-o de perto, quase a medi-lo, feito um alfaiate provando roupa no cliente.
— A única coisa que você devia perder é esse ar meio nervoso, os, se me permite, trejeitos, feito isso de olhar a palma da mão esquerda e de passar de vez em quando o dedo pelo colarinho, feito quem usa gravata e sente a pressão no pescoço.
— Pois é, disse Quinho, colocando a xícara de mau jeito no pires, o que a fez tombar, e pondo-a de novo de pé, com exagerado cuidado, é que eu de fato usava gravata, até outro dia, até trasanteontem, para ser preciso, e a gente custa a cancelar um gesto assim, adquirido com o tempo, e com a gravata, naturalmente. E agora pense e me diga: eles não podem inferir por aí, pelo meu tique, que se eu usava gravata, como aliás meu pescoço branco também atesta, e se ninguém a usa em Corumbá, ou aqui, que eu venho de outras terras e portanto devia apresentar um passaporte de verdade, ou pelo menos um documento direito, com todos os selos e datas?…
— Qual o quê, tira isso do juízo que eu conheço todos os funcionários que estão hoje de serviço na barreira, um deles é até meu afilhado de batismo, moço ainda e já é influente na aduana. Não tem nada que ele goste menos – e os outros, nem se fala – do que de papel esquisito, Nações Unidas, bossa-nova, que eles têm que telefonar para saber se vale, se é aquilo mesmo. Os melhores documentos que você trouxe estão aí, na bagagem de mão, os isqueirinhos franceses, os cigarros americanos, um ou outro charuto Montecristo, esses agradinhos que não chegam, nem de longe, a ter cheiro de suborno, e que eu, para fechar a rosca da sua travessia, vou reforçar com um punhado de garrafinhas de uísque, miniaturas, chamadas. Bota as miniaturas na sacola e pé na carreteira, rapaz, que a hora assim da tardinha, da sesta, é a melhor, pois estão todos com preguiça. Não quer um gole de vinho?
— Não, gracias, disse Quinho, como se estivesse empenhado em dividir, idiomática e tordesilhescamente, aquela terra lindeira, ibérica. E emborcou uma primeira miniatura de uísque, virando bem a cabeça para trás, como quem morde um bombom de licor e tem medo de melar a roupa, e, quase sem abaixar a cabeça, destorceu a tampinha da segunda miniatura e bebeu. Olhou depois, fixamente, a palma da mão esquerda, esperando que os dois imensos goles se transubstanciassem, fazendo saltar do velo talho, armado dos pés à cabeça, um voluntário da pátria, um lanceiro ébrio de bravura.
— Agora, vá, disse Pepe, que está ficando tarde, e de qualquer forma, para o que der e vier, aviso minha sobrinha, observação esta, afinal, que Quinho não entendeu, ou, aflito mas sentindo o prenúncio de miniaturizadas alquimias dentro de si mesmo, entendeu como uma forma displicente de despedida, um pouco-se-me-dá de quem, afinal, tinha ganho a parada e soltava a frase meio burlona que um caçador feliz poderia ter dito ao macuco já caçado e fechado, por cadarço e correia, no embornal.
(…)

___________________
Fonte: CALLADO, Antonio. Sempreviva. São Paulo, Círculo do Livro, 1981.

SEMPREVIVA

Capitolo 2

Antonio Callado

Prima di uscire dalla stanza, con la mano destra già sulla maniglia della porta, per abitudine Quinho guardò, sul palmo della mano sinistra, la cicatrice de un taglio che si era fatto da bambino, raschiando una forcella di goiabeira per costruirsi una fionda. Poi, per un secondo, guardò, come se fosse un oggeto estraneo, l’altra sua mano, richiusa sulla maniglia, scosse la testa, impaziente con se stesso, e aprí la porta, assumendo un’aria decisa da uomo pratico per andare, nel sonnacchioso e deserto refettorio della pensione, a incontrare Pepe.

Seduto a un tavolo davanti a una bottiglia di vino, Pepe – i tristi baffoni da salice piangente sul lungofiume, dalle punte cosí lunghe e cadenti che parevano contemplare, con una certa intenzionalità, i gambali degli stivali che il boliviano calzava – attacò subito a parlare, come se avesse interrotto il discorso dal giorno prima, morbido, emolliente, destinato a convincerlo che passare la frontiera rappresentava per lo stesso Quinho nient’altro che una visita, un ritorno alla casa paterna, e che il vecchio cancelo, il portone di un tempo si sarebbe aperto, familiare, accogliente. Nel frattempo Quinho, sorbendo dalla tazza un caffè bollente, amaro, vedeva, con la polverosa chiarezza che non aveva, la strada, il camino boliviano, quel cordone ombelicale steso a terra e che conduceva al portone, alla grotta chiusa da grate e sbarre di ferro.

– Puoi tranquillamente entrare con la tua carta d’identità, anche se è vecchia e scaduta. Entra non come uno che arriva, o torna, ma come se fossi venuto a passare solo qualche ora a Puerto Suárez, per comprare un litro di whisky, un coltellino svizzero, un panama. Entra con l’aria disinvolta, un po’ guappa, tanto hai una faccia che piú brasiliana non si può, con quel tono scuretto della pelle, quegli occhi castani, i capelli neri e il tuo metro e settanta, entra sicuro, ragazzo, a passo fermo, sei a casa tua.

Siccome Quinho continuava a soffiare e a bere lentamente il suo caffè, Pepe si alzó, chiese a Quinho di alzarsi in piedi un istante e gli girò intorno, osservandolo da vicino, quasi per misurarlo, come un sarto che prova un vestito al cliente.

– L’unica cosa che dovresti perdere è quell’aria un po’ nervosa, quelle mosse, se mi consenti, tipo quella di guardarti il palmo della mano sinistra e di passarti ogni tanto il dito nel colletto, come uno che sente la pressione della cravatta sul collo.

– Va bene – disse Quinho, posando maldestramente la tazza sul piattino, facendola cadere e rimettendola di nuovo in piedi con esagerata cura – il fatto è che io portavo davvero la cravatta fino all’altro giorno, fino all’altroieri per essere precisi, e si fa fatica a cancellare un gesto cosí, acquisito col tempo, e con la cravatta ovviamente. E adesso rifletti e dimmi: non potrebbero dedurre da questo mio tic che, se io portavo la cravatta, come del resto attesta il mio colle bianco, e se nessuno la porta né qui né a Corumbá, significa che vengo da fuori e che quindi dovrei esibire un passaporto vero, o per lo meno un documento preciso, con tutti i timbri e le date?…

– Macché, levatelo dalla testa, conosco tutti gli impiegati che oggi fanno servizio alla sbarra, uno l’ho perfino tenuto a battesimo, è ancora un ragazzo ma è già influente in dogana. Non c’è niente che lo mandi piú in bestia – e figurati gli altri! – di quei pezzi di carta strani, Nazioni Unite e palle varie, ogni volta devono telefonare per sapere se sono in regola e cose del genere. I migliori documenti ce li hai lí nel tuo bagaglio a mano, gli accendini francesi, le sigarette americane, qualche sigaro Montecristo, robetta cosí che nemmeno da lentano odora di corruzione e che io, tanto per tagliare la testa al toro, rinforzerò con una manciata di bottigliette di whisky, di mignon, come le chiamano. Metti le mignon nello zaino e via, in marcia, perché questa della siesta è l’ora migliore, battono tutti la fiacca. Non vuoi un bicchiere di vino?

– No, gracias – disse Quinho, come se fosse impegnato, idiomaticamente e tordesillescamente, a dividere quella terra limitrofa, iberica. E trangugiò una prima mignon di whisky, buttando la testa all’indietro, come uno che morde una caramella al liquore e ha paura di infrittelarsi il vestito, e, quasi senza abbassare la testa, svitò il tappino della seconda bottiglietta e trincò. Si mise poi a fissare il palmo della mano sinistra, aspettando che i due enormi sorsi si transustanziassero, facendo venir fuori dal vecchio taglio, armato da capo a piedi, un volontario della patria, un lanciere ebbro di ardimento.

– Adesso vai, – disse Pepe – si sta facendo tardi, e a ogni modo e per ogni evenienza avviso mia nipote – osservazione finale questa, che Quinho non capí o per meglio dire, demoralizzato, ma sentendo dentro di sé il preannuncio di alchimie mignon, capí come una forma antipatica di congedo, un poco-mi-frega di chi, alla fine, aveva vinto il suo giro e buttaba lí un po’ per celia la frase che un cacciatore felice avrebbe potuto dire al merlo già preso e messo nel sacco, legato come si deve.

(…).

_____

Callado, AntonioSempreviva. Traduzione di Vicenzo Barca. Roma: Biblioteca Del Vascello, 1994. p. 17-19.

SEMPREVIVA

2

Antonio Callado

Avant de quitter la chambre, la main droite déjà sur la poignée de la porte, Quinho, dans la paume de sa main gauche ouverte, regarda, comme il en avait l’habitude, la cicatrice d’une estafilade qui datait de l’enfance, du jour où il écorçait, pour en faire un lance-pierres, une fourche de goyavier. Ensuite, juste une seconde, il regarda aussi, comme si c’était un objet bizarre, son autre main, refermée sur la poignée, hocha la tête, s’impatientant lui-même, et il ouvrit la porte, arborant un air résolu d’homme pragmatique, pour se rendre dans la somnolente salle à manger deserte de la pension, y rencontrer Pepe.
Assis à une table devant une bouteille de vin, Pepe – moustaches tristes de saule pleureur, aux crocs silongs et si tombants qu’ils paraissaient regarder, avec une certaine intentionnalité, les tiges des bottes que chaussait le Bolivien – se mit à parler d’emblée, comme s’il n’avait pas interrompu la conversation de la veille, moelleuse, émolliente, destinée à le convaincre que passer la frontière n’était pour lui, Quinho, rien de plus qu’une visite, le retour à la Maison paternelle, ouvrir la vieille grille du jardin, le portail d’autrefois, familier, accueillant. Tandis qu’il parlait, Quinho, tout en buvant à petits coups um café brûlant, amer, voyait, avec une clarté empoussierée qu’elle n’avait pas, la route, le chemin bolivien, ce cordon ombilical qui s’étirait sur le sol et qui conduisait au portail, à la grotte fermée de grilles et de hampes de fer.
— Tu peux entrer tranquillement avec ta carte d’identité, même ancienne, même perimée. Entre non pas comme quelqu’un qui arrive, ou revient, mais comme si tu étais venu passer, à Puerto Suarez quelques heures seulement, pour acheter un litre de whisky, um couteau suisse, un panama. Entre avec ton air désinvolte, un peu voyou, de Brésilien bon teint, pas une touche à rajouter à ce ton bruin de tap eau, tes yeux marron, tes cheveux noirs, ton mètre soixante-dix, entre sans hésiter, mon garçon, tu es chez toi.
Comme Quinho continuait de souffler et de sitorer son café, Pepe se leva, lui demanda de se lever également un instant, et il se mit à tourner autour de lui, l’observant de près, on aurait dit qu’il prenait ses mesures, comme un tailleur qui essaie un vêtement sur un client.
— La seule chose que tu devrais perdre, c’est ton air inquiet, ces, si tu me permets, ces tics, par exemple de regarder ta main gauche et de te passer de temps en temps un doigt à l’intérieur du col, comme quelqu’un qui met une cravate et qui se sent le cou serre.
— Vous avez raison, dit Quinho – en reposant si maladroitement as tasse sur la soucoupe qu’elle se renversa, et après l’avoir remise d’aplomb, avec un soin exagere –, c’est que, il est vrai, je mettais une cravate, jusqu’à l’autre jour, il y a trois jours, pour être précis, et ce n’est pas facile de perdre l’habitude d’um geste acquis avec le temps, et avec la cravate, naturellement. Mais maintenant, réfléchissez et dites-moi: ils ne peuvent tout de meme pas conclure, à cause de ce tic, que si j’ai toujours mis une cravate, la pâleur de mon cou du reste suffirait à l’attester, alors qu’ici, ou à Corumbá, personne n’en porte, cela signifie que je viens d’autres pays et que par conséquent je devrais leur présenter un vrai passeport, ou du moins un document légal, avec tous les tampons et dates voulus?…
— Allons donc, ne t’em fais pas, moi je connais tous les douaniers qui sont de service aujourd’hui à la barrière, même que l’un d’eux est mon fillieul, il est encore jeune, mais il a déjà le brás long à la douane. Ce qui lui plaît le plus – les autres, n’em parlons pas –, c’est ce qui sort de l’ordinaire, Nations Unies, bossa nova, ce qui les oblige à téléphoner pour savoir si c’est okay. Comme papiers, tu ne pouvais pas mieux apporter que ceux que tu as là, dans ton bagage à main, caickets français, cigarettes américaines, quelques cigares Montecristo, bref, ces petites gâteries qui n’achètent personne, tant s’em faut, et à quoi moi, pour encore mieux arranger ton passage, je vais rajouter une poignée de petites bouteilles de whisky, des miniatures, ça s’appelle. Allez mon garçon, mets-moi ces miniatures dans ta sacoche et le pied sur la route, en début d’après-midi, à l’heure de la sieste, c’est le meilleur moment, vu qu’ils ont tous plutôt envie de roupiller. Tu ne veux pas un petit coup de pinard?
— Non, gracias, dit Quinho, comme s’il avait le souci de partager linguistiquement et dans l’esprit du traité de Tordesillas cette terre limitrophe, ibérique. Et il lampa une première miniature de whisky, en renversant bien la tête en arrière, comme qui mord dans un bonbon à la liqueur et craint de poisser ses vêtements, et, sans même redresser la tête, dévissa la capsule d’une deuxième miniature qu’il but de même. Puis il regarda, fixement, la paume de sa main gauche, attendant la transsubstiation des deux culs sécs, qui ferait s’élancer de la vieille estafilade, arme de pied en cap, un Volontaire de la Patrie, un lancier ivre de bravoure.
— Et maintenant, pars, dit Pepe, avant qu’il ne soit trop tard, de toute façon, pour parer à toute éventualité, je préviens ma nièce – et cette observation, la dernière, Quinho, ne la comprit pas, ou bien alors, désemparé mais ressentant au plus profond de lui-même l’annonce d’alchimies miniaturisées, il la comprit et la prit pour la manière je-m’en-foutiste de l’envoyer se faire voir ailleurs, de lui dire c’est plus mês vignons, gu’affecte celui qui a reússi son coup et lâche la phrase mi-sarcastique qu’um heureux chasseur pourrait dire à l’oiseau déjà capture et enfermé, lacs et rets l’enserrant, «dans lê sac».
(…)

_____________________

Fonte: CALLADO, Antonio. Sempreviva: Roman. Traduit du brésilien par Jacques Thiériot. Paris, Presses de la Renaissance, 1985, p. 19-22

 

Categories
ESCRITORES

GAETANINHO

GAETANINHO

Brás, Bexiga e Barra Funda

Antônio de Alcântara Machado

– Xi, Gaetaninho, como é bom!
Gaetaninho ficou banzando bem no meio da rua. O Ford quase o derrubou e ele não viu o Ford.
O carroceiro disse um palavrão e ele não ouviu o palavrão.
– Eh! Gaetaninho! Vem prá dentro.
Grito materno sim: até filho surdo escuta. Virou o rosto tão feio de sardento, viu a mãe e viu o chinelo.
– Subito!
Foi-se chegando devagarinho, devagarinho. Fazendo beicinho. Estudando o terreno. Diante da mãe e do chinelo parou. Balançou o corpo. Recurso de campeão de futebol. Fingiu tomar a direita. Mas deu meia volta instantânea e varou pela esquerda porta adentro.
Êta salame de mestre!
Ali na Rua Oriente a ralé quando muito andava de bonde. De automóvel ou carro só mesmo em dia de enterro. De enterro ou de casamento. Por isso mesmo o sonho de Gaetaninho era de realização muito difícil. Um sonho.
O Beppino por exemplo. O Beppino naquela tarde atravessara de carro a cidade. Mas como? Atrás da tia Peronetta que se mudava para o Araçá. Assim também não era vantagem.
Mas se era o único meio? Paciência.
Gaetaninho enfiou a cabeça embaixo do travesseiro.
Que beleza, rapaz! Na frente quatro cavalos pretos empenachados levavam a tia Filomena para o cemitério. Depois o padre. Depois o Savério noivo dela de lenço nos olhos. Depois ele. Na boléia do carro. Ao lado do cocheiro. Com a roupa marinheira e o gorro branco onde se lia: ENCOURAÇADO SÃO PAULO. Não. Ficava mais bonito de roupa marinheira mas com a palhetinha nova que o irmão lhe trouxera da fábrica. E ligas pretas segurando as meias. Que beleza rapaz! Dentro do carro o pai os dois irmãos mais velhos (um de gravata vermelha outro de gravata verde) e o padrinho Seu Salomone. Muita gente nas calçadas, nas portas e nas janelas dos palacetes, vendo o enterro. Sobretudo admirando o Caetaninho.
Mas Gaetaninho ainda não estava satisfeito. Queria ir carregando o chicote. O desgraçado do cocheiro não queria deixar. Nem por um instantinho só.
Gaetaninho ia berrar mas a tia Filomena com a mania de cantar o “Ahi, Mari!” todas as manhãs o acordou.
Primeiro ficou desapontado. Depois quase chorou de ódio.
Tia Filomena teve um ataque de nervos quando soube do sonho de Gaetaninho. Tão forte que ele sentiu remorsos. E para sossego da família alarmada com o agouro tratou logo de substituir a tia por outra pessoa numa nova versão de seu sonho. Matutou, matutou, e escolheu o acendedor da Companhia de Gás, Seu Rubino, que uma vez lhe deu um cocre danado de doído.
Os irmãos (esses) quando souberam da história resolveram arriscar de sociedade quinhentão no elefante. Deu a vaca. E eles ficaram loucos de raiva por não haverem logo adivinhado que não podia deixar de dar a vaca mesmo.
O jogo na calçada parecia de vida ou morte. Muito embora Gaetaninho não estava ligando.
– Você conhecia o pai do Afonso, Beppino?
– Meu pai deu uma vez na cara dele.
– Então você não vai amanhã no enterro. Eu vou!
O Vicente protestou indignado:
– Assim não jogo mais! O Gaetaninho está atrapalhando!
Gaetaninho voltou para o seu posto de guardião. Tão cheio de responsabilidades.
O Nino veio correndo com a bolinha de meia. Chegou bem perto. Com o tronco arqueado, as pernas dobradas, os braços estendidos, as mãos abertas, Gaetaninho ficou pronto para a defesa.
– Passa pro Beppino!
Beppino deu dois passos e meteu o pé na bola. Com todo o muque. Ela cobriu o guardião sardento e foi parar no meio da rua.
– Vá dar tiro no inferno!
– Cala a boca, palestrino!
– Traga a bola!
Gaetaninho saiu correndo. Antes de alcançar a bola um bonde o pegou. Pegou e matou.
No bonde vinha o pai do Gaetaninho.
A gurizada assustada espalhou a noticia na noite.
– Sabe o Gaetaninho?
– Que é que tem?
– Amassou o bonde!
A vizinhança limpou com benzina suas roupas domingueiras.
Às dezesseis horas do dia seguinte saiu um enterro da Rua do Oriente e Gaetaninho não ia na boléia de nenhum dos carros do acompanhamento. Ia no da frente dentro de um caixão fechado com flores pobres por cima. Vestia a roupa marinheira, tinha as ligas, mas não levava a palhetinha.
Quem na boléia de um dos carros do cortejo mirim exibia soberbo terno vermelho que feria a vista da gente era o Beppino.
CARMELA
Dezoito horas e meia. Nem mais um minuto porque a madama respeita as horas de trabalho. Carmela sai da oficina. Bianca vem ao seu lado.
A Rua Barão de Itapetininga é um depósito sarapintado de automóveis gritadores. As casas de modas (AO CHIC PARISIENSE, SÃO PAULO-PARIS, PARIS ELEGANTE) despejam nas calçadas as costureirinhas que riem, falam alto, balançam os quadris como gangorras.
– Espia se ele está na esquina.
– Não está.
– Então está na Praça da República. Aqui tem muita gente mesmo.
– Que fiteiro!
O vestido de Carmela coladinho no corpo é de organdi verde. Braços nus, colo nu, joelhos de fora. Sapatinhos verdes. Bago de uva Marengo maduro para os lábios dos amadores.
– Ai que rico corpinho!
– Não se enxerga, seu cafajeste? Português sem educação!
Abre a bolsa e espreita o espelhinho quebrado, que reflete a boca reluzente de carmim primeiro, depois o nariz chumbeva, depois os fiapos de sobrancelha, por último as bolas de metal branco na ponta das orelhas descobertas.
Bianca por ser estrábica e feia é a sentinela da companheira.
– Olha o automóvel do outro dia.
– O caixa-d’óculos?
– Com uma bruta luva vermelha.
O caixa-d’óculos pára o Buick de propósito na esquina da praça.
– Pode passar.
– Muito obrigada.
Passa na pontinha dos pés. Cabeça baixa. Toda nervosa.
– Não vira para trás, Bianca. Escandalosa!
Diante de Álvares de Azevedo (ou Fagundes Varela) o Ângelo Cuoco de sapatos vermelhos de ponta afilada, meias brancas, gravatinha deste tamanhinho, chapéu à Rodolfo Valentino, paletó de um botão só, espera há muito com os olhos escangalhados de inspecionar a Rua Barão de Itapetininga.
– O Ângelo!
– Dê o fora.
Bianca retarda o passo.
Carmela continua no mesmo. Como se não houvesse nada. E o Ângelo junta-se a ela. Também como se não houvesse nada. Só que sorri.
– Já acabou o romance?
– A madama não deixa a gente ler na oficina.
– É? Sei. Amanhã tem baile na Sociedade.
– Que bruta novidade, Ângelo! Tem todo domingo. Não segura no braço!
– Enjoada!
Na Rua do Arouche o Buick de novo. Passa. Repassa. Torna a passar.
– Quem é aquele cara?
– Como é que eu hei de saber?
– Você dá confiança para qualquer um. Nunca vi, puxa! Não olha pra ele que eu armo já uma encrenca!
Bianca rói as unhas. Vinte metros atrás. Os freios do Buick guincham nas rodas e os pneumáticos deslizam rente à calçada. E estacam.
– Boa tarde, belezinha…
– Quem? Eu?
– Por que não? Você mesma…
Bianca rói as unhas com apetite.
– Diga uma cousa. Onde mora a sua companheira?
– Ao lado de minha casa.
– Onde é sua casa?
– Não é de sua conta.
O caixa-d’óculos não se zanga. Nem se atrapalha. É um traquejado.
– Responda direitinho. Não faça assim. Diga onde mora.
– Na Rua Lopes de Oliveira. Numa vila. Vila Margarida no 4. Carmela mora com a família dela no 5.
– Ah! Chama-se Carmela… Lindo nome. Você é capaz de lhe dar um recado?
Bianca rói as unhas.
– Diga a ela que eu a espero amanhã de noite, às oito horas, na rua… na…. atrás da Igreja de Santa Cecília. Mas que ela vá sozinha, hein? Sem você. O barbeirinho também pode ficar em casa.
– Barbeirinho nada! Entregador da Casa Clark!
– É a mesma cousa. Não se esqueça do recado. Amanhã, as oito horas, atrás da igreja.
– Vá saindo que pode vir gente conhecida.
Também o grilo já havia apitado.
– Ele falou com você. Pensa que eu não vi?
O Ângelo também viu. Ficou danado.
– Que me importa? O caixa-d’óculos disse que espera você amanhã de noite, às oito horas, no Largo Santa Cecília. Atrás da igreja.
– Que é que ele pensa? Eu não sou dessas. Eu não!
– Que fita, Nossa Senhora! Ele gosta de você, sua boba.
– Ele disse?
– Gosta pra burro.
– Não vou na onda.
– Que fingida que você é!
– Ciao.
– Ciao.
Antes de se estender ao lado da irmãzinha na cama de ferro Carmela abre o romance à luz da lâmpada de 16 velas: Joana a Desgraçada ou A Odisséia de uma Virgem, fascículo 2.0
Percorre logo as gravuras. Umas tetéias. A da capa então é linda mesmo. No fundo o imponente castelo. No primeiro plano a íngreme ladeira que conduz ao castelo. Descendo a ladeira numa disparada louca o fogoso ginete. Montado no ginete o apaixonado caçula do castelão inimigo de capacete prateado com plumas brancas. E atravessada no cachaço do ginete a formosa donzela desmaiada entregando ao vento os cabelos cor de carambola.
Quando Carmela reparando bem começa a verificar que o castelo não é mais um castelo mas uma igreja o tripeiro Giuseppe Santini berra no corredor:
– Spegni la luce! Subito! Mi vuole proprio rovinare questa principessa!
E – raatá! – uma cusparada daquelas.
– Eu só vou até a esquina da Alameda Glette. Já vou avisando.
– Trouxa. Que tem?
No Largo Santa Cecília atrás da igreja o caixa-d’óculos sem tirar as mãos do volante insiste pela segunda vez:
– Uma voltinha de cinco minutos só… Ninguém nos verá. Você verá. Não seja má. Suba aqui.
Carmela olha primeiro a ponta do sapato esquerdo, depois a do direito, depois a do esquerdo de novo, depois a do direito outra vez, levantando e descendo a cinta. Bianca rói as unhas.
– Só com a Bianca…
– Não. Para quê? Venha você sozinha.
– Sem a Bianca não vou.
– Está bem. Não vale a pena brigar por isso.
– Você vem aqui na frente comigo. A Bianca senta atrás.
– Mas cinco minutos só. O senhor falou…
– Não precisa me chamar de senhor. Entrem depressa.
Depressa o Buick sobe a Rua Viridiana.
Só pára no Jardim América.
Bianca no domingo seguinte encontra Carmela raspando a penugenzinha que lhe une as sobrancelhas com a navalha denticulada do tripeiro Giuseppe Santini.
– Xi, quanta cousa pra ficar bonita!
– Ah! Bianca, eu quero dizer uma cousa pra você.
– Que é?
– Você hoje não vai com a gente no automóvel. Foi ele que disse.
– Pirata!
– Pirata por quê? Você está ficando boba, Bianca.
– É. Eu sei porquê. Piratão. E você, Carmela, sim senhora! Por isso é que o Ângelo me disse que você está ficando mesmo uma vaca.
– Ele disse assim? Eu quebro a cara dele, hein? Não me conhece.
– Pode ser, não é? Mas namorado de máquina não dá certo mesmo.
Saem à rua suja de negras e cascas de amendoim. No degrau de cimento ao lado da mulher Giuseppe Santini torcendo a belezinha do queixo cospe e cachimba, cachimba e cospe.
– Vamos dar uma volta até a Rua das Palmeiras, Bianca?
– Andiamo.
Depois que os seus olhos cheios de estrabismo e despeito vêem a lanterninha traseira do Buick desaparecer, Bianca resolve dar um giro pelo bairro. Imaginando cousas. Roendo as unhas. Nervosissima.
Logo encontra a Ernestina. Conta tudo à Ernestina.
– E o Ângelo, Bianca?
– O Ângelo? O Ângelo é outra cousa. E pra casar.
– Há!…
____
Fonte: Alcântara Machado, Antônio de. “Gaetaninho”. In: —. Brás, Bexiga e Barra Funda.

Categories
ESCRITORES

MACÁRIO

MACÁRIO

 

(Prólogo para a peça de teatro)

 

Álvares De Azevedo

 
 
… e o gênio traz sempre um sinal que se reconhece em toda a parte (e em qualquer tempo) — uma auréola na fronte que brilha sob todos os firmamentos, uma senha e um ataque Iramita que se traduz em todas as línguas.

Álvares de Azevedo

No ceticismo do Candide voltaireano, depois do ultimo soluço há o abafamento bochorral do nada, a treva do não-ser.
 

Álvares de Azevedo

MACÁRIO

Criei para mim algumas idéias teóricas sobre o drama. Algum dia, se houver tempo e vagar, talvez as escreva e dê a lume.
O meu protótipo seria alguma coisa entre o teatro inglês, o teatro espanhol e o teatro grego — a forca das paixões ardentes de Shakespeare, de Marlowe e Otway, a imaginação de Calderon de la Barca e Lope de Vega, e a simplicidade de Esquilo e Eurípedes — alguma coisa como Goethe sonhou, e cujos elementos eu iria estudar numa parte dos dramas dele  — em Goetz de Berlichingen, Clavijo, Egmont, no episódio da Margarida de Faust — e a outra na simplicidade ática de sua Ifigênia. Estudá-lo-ia talvez em Schiller, nos dois dramas do Wallenstein, nos Salteadores, no D. Carlos: estudá-lo-ia ainda na Noiva de Messina com seus coros, com sua tendência à regularidade.
É um tipo talvez novo, que não se parece com o misticismo do teatro de Werner, ou as tragédias teogônicas de OEhlenschläger e ainda menos com o de Kotzebue ou o de Victor Hugo e Dumas.
Não se pareceria com o de Ducis, nem com aquela tradução bastarda, verdadeira castração do Otelo de Shakespeare, feita pelo poeta sublime do Chatterton, o conde Vigny. — Quando não se tem alma adejante para emparelhar com o gênio vagabundo do autor de Hamlet, haja ao menos modéstia bastante para não querer emendá-la. Por isso o Otelo de Vigny é morto. É uma obra de talento, mas devia ser um rasgo de gênio.
Emendá-lo? pobres pigmeus que querem limar as monstruosidades do Colosso! Raça de Liliput que queria aperfeiçoar os membros do gigante — disforme para eles — de Gulliver!
E digam-me: que é o disforme? há ai um anão ou um gigante? Não é assim que eu o entendo. Haveria enredo, mas não a complicação exagerada da comédia espanhola. Haveria paixões, porque o peito da tragédia deve bater, deve sentir-se ardente — mas não requintaria o horrível, e não faria um drama daqueles que parecem feitos para reanimar corações-cadáveres, como a pilha galvanica as fibras nervosas do morto!
Não: o que eu penso é diverso. É uma grande idéia que talvez nunca realize. É difícil encerrar a torrente de fogo dos anjos decaídos de Milton ou o pantano de sangue e lágrimas do Alighieri dentro do pentametro de mármore da tragédia antiga. Contam que a primeira idéia de Milton foi fazer do Paraíso Perdido uma tragédia — um mistério — não sei o quê: não o pôde; o assunto transbordava, crescia; a torrente se tornava num oceano. É difícil marcar o lugar onde pára o homem e começa o animal, onde cessa a alma e começa o instinto  — onde a paixão se torna ferocidade. É difícil marcar onde deve parar o galope do sangue nas artérias, e a violência da dor no cranio. —  Contudo, deve haver e o há — um limite às expansões do ator, para que não haja exageração, nem degenere num papel de fera o papel de homem. O Pobre Idiota tem esse defeito entre mil outros. A cena do subterraneo é interessante, mas é de um interesse semelhante àquele que excitava o Jocko ou o homem das matas — aquele macaco representado por Morietti que fazia chorar a platéia.
O Pobre Idiota representa o idiotismo do homem caído na animalidade. O ator fez o papel que devia —  não exagerou — , representou a fera na sua fúria, — uma fera, onde por um enxerto caprichoso do imitador de Hauser havia um amor poético por uma flor — e uma estampa!
A vida e só a vida! mas a vida tumultuosa, férvida, anelante, às vezes sanguenta — eis o drama. Se eu escrevesse, se minha pena se desvairasse na paixão, eu a deixaria correr assim. Iago enganaria o Mouro, trairia Cássio, perderia Desdêmona e desfrutaria a bolsa de Rodrigo. Cássio seria apunhalado na cena. Otelo sufocaria sua Veneziana com o travesseiro, escondê-la-ia com o cortinado quando entrasse Emília: chamaria sua esposa  — a whore — e gabar -se -ia de seu feito. O honest, most honest Iago viria ver a sua vítima, Emília soluçando a mostraria ao demônio; o Africano delirante, doido de amor, doido de a ter morto, morreria beijando os lábios pálidos da Veneziana. Hamlet no cemitério conversaria com os coveiros, ergueria do chão a caveira de Yorick, o truão; Ofélia coroada de flores cantaria insana as balatas obscenas do povo: Laertes apertaria nos braços o cadáver da pobre louca. Orlando no What you will penduraria suas rimas de Rosalinda nos arvoredos dos Cevennes. Isto seria tudo assim.
Se eu imaginasse o Otelo, seria com todo o seu esgar, seu desvario selvagem, com aquela forma irregular que revela a paixão do sangue. É que as nódoas de sangue quando caem no chão não têm forma geométrica. As agonias da paixão, do desespero e do ciúme ardente quando coam num sangue tropical não se derretem em alexandrinos, não se modulam nas falas banais dessa poesia de convenção que se chama — conveniências dramáticas.
Mas se eu imaginasse primeiro a minha idéia, se a não escrevesse como um sonambulo, ou como falava a Pitonisa convulsa agitando-se na trípode, se pudesse, antes de fazer meu quadro, traçar as linhas no painel, fálo-ia regular como um templo grego ou como a Atália, arquétipa de Racine.
São duas palavras estas, mas estas duas palavras têm um fim: é declarar que o meu tipo, a minha teoria, a minha utopia dramática, não é esse drama que aí vai. Esse é apenas como tudo que até hoje tenho esboçado, como um romance que escrevi numa noite de insônia  — como um poema que cismei numa semana de febre  — uma aberração dos princípios da ciência, uma exceção às minhas regras mais íntimas e sistemáticas. Esse drama é apenas uma inspiração confusa — rápida —  que realizei à pressa como um pintor febril e trêmulo.
Vago como uma aspiração espontanea, incerto como um sonho; como isso o dou, tenham-no por isso.
Quanto ao nome, chamem-no drama, comédia, dialogismo:  —  não importa. Não o fiz para o teatro: é um filho pálido dessas fantasias que se apoderam do cranio e inspiram a Tempestade a Shakespeare, Beppo e o IX Canto de D. Juan a Byron; que fazem escrever Anunciata e O Conto de Antônia a quem é Hoffmann ou Fantasio ao poeta de Namouna.

 

 

Categories
ESCRITORES

NOITE NA TAVERNA

NOITE NA TAVERNA 

I

 

UMA NOITE DO SÉCULO

Bebamos! nem um canto de saudade!

Morrem na embriaguez da vida as dores!

Que importam sonhos, ilusões desfeitas?

Fenecem como as flores!

José Bonifácio

 
 

Álvares de Azevedo

 
– Silêncio, moços! acabai com essas cantilenas horríveis! Não vedes que as mulheres dormem ébrias, macilentas como defuntos? Não sentis que o sono da embriaguez pesa negro naquelas pálpebras onde a beleza sigilou os olhares da volúpia?
– Cala-te, Johann! enquanto as mulheres dormem e Arnold – o louro, cambaleia e adormece murmurando as canções de orgia de Tieck, que música mais bela que o alarido da saturnal? Quando as nuvens correm negras no céu como um bando de corvos errantes, e a lua desmaia como a luz de uma lampada sobre a alvura de uma beleza que dorme, que melhor noite que a passada ao reflexo das taças?
– És um louco, Bertram! não é a lua que lá vai macilenta: e o relampago que passa e ri de escárnio as agonias do povo que morre… aos soluços que seguem as mortalhas do cólera!
– O cólera! e que importa? Não há por ora vida bastante nas veias do homem? Não borbulha a febre ainda as ondas do vinho? não reluz em todo o seu fogo a lampada da vida na lanterna do cranio?
– Vinho! vinho! Não vês que as taças estão vazias bebemos o vácuo, como um sonambulo?
– É o Fichtismo na embriaguez! Espiritualista, bebe a imaterialidade da embriaguez!
– Oh! vazio! meu copo esta vazio! Olá taverneira, não vês que as garrafas estão esgotadas? Não sabes, desgraçada, que os lábios da garrafa são como os da mulher: só valem beijos enquanto o fogo do vinho ou o fogo do amor os borrifa de lava?
– O vinho acabou-se nos copos, Bertram, mas o fumo ondula ainda nos cachimbos! Após os vapores do vinho os vapores da fumaça! Senhores, em nome de todas as nossas reminiscências, de todos os nossos sonhos que mentiram, de todas as nossas esperanças que desbotaram, uma última saúde! A taverneira ai nos trouxe mais vinho: uma saúde! O fumo e a imagem do idealismo, e o transunto de tudo quanto ha mais vaporoso naquele espiritualismo que nos fala da imortalidade da alma! e pois, ao fumo das Antilhas, a imortalidade da alma!
– Bravo! bravo!
Um urrah! tríplice respondeu ao moço meio ébrio.
Um conviva se ergueu entre a vozeria: contrastavam-lhe com as faces de moço as rugas da fronte e a rouxidão dos lábios convulsos. Por entre os cabelos prateava-se-lhe o reflexo das luzes do festim. Falou:
– Calai-vos, malditos! a imortalidade da alma!? pobres doidos! e porque a alma é bela, por que não concebeis que esse ideal posse tornar-se em lodo e podridão, como as faces belas da virgem morta, não podeis crer que ele morra? Doidos! nunca velada levastes porventura uma noite a cabeceira de um cadáver? E então não duvidastes que ele não era morto, que aquele peito e aquela fronte iam palpitar de novo, aquelas pálpebras iam abrir-se, que era apenas o ópio do sono que emudecia aquele homem? Imortalidade da alma! e por que também não sonhar a das flores, a das brisas, a dos perfumes? Oh! não mil vezes! a alma não é como a lua, sempre moça, nua e bela em sue virgindade eterna! a vida não e mais que a reunião ao acaso das moléculas atraídas: o que era um corpo de mulher vai porventura transformar-se num cipreste ou numa nuvem de miasmas; o que era um corpo do verme vai alvejar-se no cálice da flor ou na fronte da criança mais loira e bela. Como Schiller o disse, o átomo da inteligência de Platão foi talvez para o coração de um ser impuro. Por isso eu vo-lo direi: se entendeis a imortalidade pela metempsicose, bem! talvez eu a creia um pouco; pelo platonismo, não!
– Solfieri! és um insensato! o materialismo é árido como o deserto, é escuro como um túmulo! A nós frontes queimadas pelo mormaço do sol da vida, a nós sobre cuja cabeça a velhice regelou os cabelos, essas crenças frias? A nós os sonhos do espiritualismo.
– Archibald! deveras, que é um sonho tudo isso! No outro tempo o sonho da minha cabeceira era o espírito puro ajoelhado no seu manto argênteo, num oceano de aromas e luzes! Ilusões! a realidade é a febre do libertino, a taça na mão, a lascívia nos lábios, e a mulher seminua, trêmula e palpitante sobre os joelhos.
– Blasfêmia! e não crês em mais nada? teu ceticismo derribou todas as estátuas do teu templo, mesmo a de Deus?
– Deus! crer em Deus!?… sim! como o grito íntimo o revela nas horas frias do medo, nas horas em que se tirita de susto e que a morte parece roçar úmida por nós! Na jangada do náufrago, no cadafalso, no deserto, sempre banhado do suor frio do terror e que vem a crença em Deus! Crer nele como a utopia do bem absoluto, o sol da luz e do amor, muito bem! Mas, se entendeis por ele os ídolos que os homens ergueram banhados de sangue e o fanatismo beija em sua inanimação de mármore de há cinco mil anos… não creio nele!
– E os livros santos?
– Miséria! quando me vierdes falar em poesia eu vos direi: aí há folhas inspiradas pela natureza ardente daquela terra como nem Homero as sonhou, como a humanidade inteira ajoelhada sobre os túmulos do passado nunca mais lembrará! Mas, quando me falarem em verdades religiosas, em visões santas, nos desvarios daquele povo estúpido, eu vos direi: miséria! miséria! três vezes miséria! Tudo aquilo é falso: mentiram como as miragens do deserto!
– Estás ébrio, Johann! O ateísmo é a insania como o idealismo místico de Schelling, o panteísmo de Spinoza – o judeu, e o esoterismo crente de Malebranche nos seus sonhos da visão em Deus. A verdadeira filosofia e o epicurismo. Hume bem o disse: o fim do homem é o prazer.
Daí vede que é o elemento sensível quem domina. E pois ergamo-nos, nos que amanhecemos nas noites desbotadas de estudo insano, e vimos que a ciência é falsa e esquiva, que ela mente e embriaga como um beijo de mulher.
– Bem! muito bem! é um toast de respeito!
– Quero que todos se levantem, e com a cabeça descoberta digam-no: Ao Deus Pã da natureza, aquele que a antigüidade chamou Baco o filho das coxas de um deus e do amor de uma mulher, e que nos chamamos melhor pelo seu nome – o vinho!…
– Ao vinho! ao vinho!
Os copos caíram vazios na mesa.
– Agora ouvi-me, senhores! entre uma saúde e uma baforada de fumaça, quando as cabeças queimam e os cotovelos se estendem na toalha molhada de vinho, como os braços do carniceiro no cepo gotejante, o que nos cabe é uma historia sanguinolenta, um daqueles contos fantásticos como Hoffmann os delirava ao clarão dourado do Johannisberg!
– Uma história medonha, não, Archibald? falou um moço pálido que a esse reclamo erguera a cabeça amarelenta. Pois bem, dir-vos-ei uma história. Mas quanto a essa, podeis tremer a gosto, podeis suar a frio da fronte grossas bagas de terror. Não é um conto, é uma lembrança do passado.
– Solfieri! Solfieri! aí vens com teus sonhos!
– Conta!
Solfieri falou: os mais fizeram silêncio.
 
 

II

 

SOLFIERI

…Yet one kiss on your pale clay

And those lips once so warm — my heart! my heart!

Cain. Byron

 
 
– Sabei-lo. Roma é a cidade do fanatismo e da perdição: na alcova do sacerdote dorme a gosto a amásia, no leito da vendida se pendura o Crucifixo lívido. É um requintar de gozo blasfemo que mescla o sacrilégio à convulsão do amor, o beijo lascivo à embriaguez da crença!
– Era em Roma. Uma noite a lua ia bela como vai ela no verão pôr aquele céu morno, o fresco das águas se exalava como um suspiro do leito do Tibre. A noite ia bela. Eu passeava a sós pela ponte de… As luzes se apagaram uma por uma nos palácios, as ruas se faziam ermas, e a lua de sonolenta se escondia no leito de nuvens. Uma sombra de mulher apareceu numa janela solitária e escura. Era uma forma branca. – A face daquela mulher era como a de uma estátua pálida à lua. Pelas faces dela, como gotas de uma taça caída, rolavam fios de lágrimas.
Eu me encostei a aresta de um palácio. A visão desapareceu no escuro da janela… e daí um canto se derramava. Não era só uma voz melodiosa: havia naquele cantar um como choro de frenesi, um como gemer de insania: aquela voz era sombria como a do vento a noite nos cemitérios cantando a nênia das flores murchas da morte.
Depois o canto calou-se. A mulher apareceu na porta. Parecia espreitar se havia alguém nas ruas. Não viu a ninguém: saiu. Eu segui-a.
A noite ia cada vez mais alta: a lua sumira-se no céu, e a chuva caía as gotas pesadas: apenas eu sentia nas faces caírem-me grossas lágrimas de água, como sobre um túmulo prantos de órfão.
Andamos longo tempo pelo labirinto das ruas: enfim ela parou: estávamos num campo.
Aqui, ali, além eram cruzes que se erguiam de entre o ervaçal. Ela ajoelhou-se. Parecia soluçar: em torno dela passavam as aves da noite.
Não sei se adormeci: sei apenas que quando amanheceu achei-me a sós no cemitério. Contudo a criatura pálida não fora uma ilusão: as urzes, as cicutas do campo-santo estavam quebradas junto a uma cruz.
O frio da noite, aquele sono dormido à chuva, causaram-me uma febre. No meu delírio passava e repassava aquela brancura de mulher, gemiam aqueles soluços e todo aquele devaneio se perdia num canto suavíssimo…
Um ano depois voltei a Roma. Nos beijos das mulheres nada me saciava: no sono da saciedade me vinha aquela visão…
Uma noite, e após uma orgia, eu deixara dormida no leito dela a condessa Bárbara. Dei um último olhar àquela forma nua e adormecida com a febre nas faces e a lascívia nos lábios úmidos, gemendo ainda nos sonhos como na agonia voluptuosa do amor. Saí. Não sei se a noite era límpida ou negra; sei apenas que a cabeça me escaldava de embriaguez. As taças tinham ficado vazias na mesa: nos lábios daquela criatura eu bebera até a última gota o vinho do deleite…
Quando dei acordo de mim estava num lugar escuro: as estrelas passavam seus raios brancos entre as vidraças de um templo. As luzes de quatro círios batiam num caixão entreaberto. Abri-o: era o de uma moça. Aquele branco da mortalha, as grinaldas da morte na fronte dela, naquela tez lívida e embaçada, o vidrento dos olhos mal apertados… Era uma defunta! … e aqueles traços todos me lembraram uma idéia perdida… – Era o anjo do cemitério? Cerrei as portas da igreja, que, ignoro por que, eu achara abertas. Tomei o cadáver nos meus braços para fora do caixão. Pesava como chumbo…
Sabeis a historia de Maria Stuart degolada e o algoz, “do cadáver sem cabeça e o homem sem coração”, como a conta Brantôme? – Foi uma idéia singular a que eu tive. Tomei-a no colo. Preguei-lhe mil beijos nos lábios. Ela era bela assim: rasguei-lhe o sudário, despi-lhe o véu e a capela como o noivo as despe a noiva. Era mesmo uma estátua: tão branca era ela. A luz dos tocheiros dava-lhe aquela palidez de ambar que lustra os mármores antigos. O gozo foi fervoroso – cevei em perdição aquela vigília. A madrugada passava já frouxa nas janelas. Aquele calor de meu peito, à febre de meus lábios, à convulsão de meu amor, a donzela pálida parecia reanimar-se. Súbito abriu os olhos empanados. Luz sombria alumiou-os como a de uma estrela entre névoa, apertou-me em seus braços, um suspiro ondeou-lhe nos beiços azulados… Não era já a morte: era um desmaio. No aperto daquele abraço havia contudo alguma coisa de horrível. O leito de lájea onde eu passara uma hora de embriaguez me resfriava. Pude a custo soltar-me daquele aperto do peito dela… Nesse instante ela acordou…
Nunca ouvistes falar da catalepsia? É um pesadelo horrível aquele que gira ao acordado que emparedam num sepulcro; sonho gelado em que sentem-se os membros tolhidos, e as faces banhadas de lágrimas alheias sem poder revelar a vida!
A moça revivia a pouco e pouco. Ao acordar desmaiara. Embucei-me na capa e tomei-a nos braços coberta com seu sudário como uma criança. Ao aproximar-me da porta topei num corpo; abaixei-me, olhei: era algum coveiro do cemitério da igreja que aí dormira de ébrio, esquecido de fechar a porta.
Saí. Ao passar a praça encontrei uma patrulha.
– Que levas aí?
A noite era muito alta: talvez me cressem um ladrão.
– É minha mulher que vai desmaiada…
– Uma mulher!… Mas essa roupa branca e longa? Serás acaso roubador de cadáveres?
Um guarda aproximou-se. Tocou-lhe a fronte: era fria.
– É uma defunta…
Cheguei meus lábios aos dela. Senti um bafejo morno. – Era a vida ainda.
– Vede, disse eu.
O guarda chegou-lhe os lábios: os beiços ásperos roçaram pelos da moça. Se eu sentisse o estalar de um beijo… o punhal já estava nu em minhas mãos frias…
– Boa noite, moço: podes seguir, disse ele.
Caminhei. – Estava cansado. Custava a carregar o meu fardo; e eu sentia que a moça ia despertar. Temeroso de que ouvissem-na gritar e acudissem, corri com mais esforço.
Quando eu passei a porta ela acordou. O primeiro som que lhe saiu da boca foi um grito de medo…
Mal eu fechara a porta, bateram nela. Era um bando de libertinos meus companheiros que voltavam da orgia. Reclamaram que abrisse.
Fechei a moça no meu quarto, e abri.
Meia hora depois eu os deixava na sala bebendo ainda. A turvação da embriaguez fez que não notassem minha ausência.
Quando entrei no quarto da moça vi-a erguida. Ria de um rir convulso como a insania, e frio como a folha de uma espada. Trespassava de dor o ouvi-la.
Dois dias e duas noites levou ela de febre assim… Não houve como sanar-lhe aquele delírio, nem o rir do frenesi. Morreu depois de duas noites e dois dias de delírio.
A noite saí; fui ter com um estatuário que trabalhava perfeitamente em cera, e paguei-lhe uma estátua dessa virgem.
Quando o escultor saiu, levantei os tijolos de mármore do meu quarto, e com as mãos cavei aí um túmulo. Tomei-a então pela última vez nos braços, apertei-a a meu peito muda e fria, beijei-a e cobri-a adormecida do sono eterno com o lençol de seu leito. Fechei-a no seu túmulo e estendi meu leito sobre ele.
Um ano – noite a noite – dormi sobre as lajes que a cobriam. Um dia o estatuário me trouxe a sua obra. Paguei-lha e paguei o segredo…
– Não te lembras, Bertram, de uma forma branca de mulher que entreviste pelo véu do meu cortinado? Não te lembras que eu te respondi que era uma virgem que dormia?
– E quem era essa mulher, Solfieri?
– Quem era? seu nome?
– Quem se importa com uma palavra quando sente que o vinho lhe queima assaz os lábios? quem pergunta o nome da prostituta com quem dormia e que sentiu morrer a seus beijos, quando nem há dele mister por escrever-lho na lousa?
Solfieri encheu uma taça e bebeu-a. Ia erguer-se da mesa quando um dos convivas tomou-o pelo braço.
– Solfieri, não é um conto isso tudo?
– Pelo inferno que não! por meu pai que era conde e bandido, por minha mãe que era a bela Messalina das ruas, pela perdição que não! Desde que eu próprio calquei aquela mulher com meus pés na sua cova de terra, eu vô-lo juro – guardei-lhe como amuleto a capela de defunta. Hei-la!
Abriu a camisa, e viram-lhe ao pescoço uma grinalda de flores mirradas.
– Vede-la murcha e seca como o cranio dela!
 
 
______________________
 
Fonte: AZEVEDO, Álvares de. Noite na taverna. In: Noite na Taverna / Macário. Rio de Janeiro: Editora Três, 1973. p.

Categories
ESCRITORES

OBRAS POÉTICAS

OBRAS POÉTICAS


Alvarenga Peixoto

A EL REI D. DINIZ, FUNDADOR DA UNIVERSIDADE DE COIMBRA
« O pai da pátria, imitador de Augusto
Liberal Alexandre…» Ia adiante,
Quando uma imagem se me pôs presente,
A cuja vista me gelei de susto.
Mostrava no semblante pio e justo
Raios brilhantes do Empírio luzente,
Porém os olhos, como descontente,
Em mim cravava com bastante custo.
– « Nem de Alexandre nem de Augusto quero
Os nomes; sou Diniz » – me disse apenas
Com gesto melancólico e severo.
Levou-me às praias do Mondego amenas,
e, depondo o semblante grave e austero,
Riu-se e mostrou-me a portuguesa Atenas.
ODE AOS TRABALHOS DE HÉRCULES
Tarde Juno zelosa
Vê Júpiter, o Deus onipotente,
Em Alcmena formosa
Ter Hércules; e tanto esta dor sente,
que, em desafogo à pena,
Trabalhos mil de Jove ao filho ordena.
Manda-lhe, enfurecidas,
Duas serpentes logo ao berço terno,
Criadas e nascidas
No infernal furor do estígio
Mas nada surte efeito,
Se um sangue onipotente anima o peito;
Nas mãos o forte infante
Despedaça as serpentes venenosas
E fica triunfante
Das ciladas mortais e furiosas,
Que Juno lhe ordenava
Quando ele a viver mal começava.
Cresce, e a cruel madrasta,
Que, sempre nos seus danos diligente,
A vida lhe contrasta,
Ou que viva em descansos não consente,
Faz com que, vagabundo,
Corra, sempre em trabalhos, todo o mundo.
Aqui lhe põe, irada,
De diversas cabeças a serpente,
Que em briga porfiada
Trabalha por troncar inutilmente:
Divide-as, mas que importa,
Se outras tantas lhe nascem quantas corta?
Enfim, por forca e arte,
Este monstro cruel deixa vencido,
Que já em outra parte
Trabalhos lhe tem Juno apercebido,
Tais que eu não sei dizê-los,
Mas pode o peito de Hércules sofrê-los
Triunfando e vencendo,
Fazendo-se no mundo mais famosos,
A Terra toda enchendo
De seu heróico nome gloriosos,
No templo da Memória
Gravou o Non plus ultra a sua gloria.
A JOSÉ BASÍLIO DA GAMA, AUTOR DO POEMA O URAGUAI
Entro pelo Uruguai: vejo a cultura
Das novas terras por engenho claro;
Mas chego ao templo majestoso, e paro
Embebido nos rasgos da pintura.
Vejo erguer-se a República perjura
Sobre alicerces de um domínio avaro;
Vejo distintamente, se reparo,
De Caco usurpador a cova escura,
Famoso Alcides, ao teu braço forte
Toca vingar os cetros, e os altares:
Arranca a espada, descarrega o corte.
E tu, Termindo, leva pelos ares
A grande ação; já que te coube em sorte
A gloriosa parte de a cantares.
A BÁRBARA HELIODORA
Bárbara bela
Do Norte estrela
Que o meu destino
Sabes guiar.
De ti ausente
Triste somente
As horas passo
A suspirar.
Isto é castigo
Que Amor me dá.
Por entre as penhas
De incultas brenhas
Cansa-me a vista
De te buscar.
Porém não vejo
Mais que o desejo
Sem esperança
De te encontrar.
Isto é castigo
Que Amor me dá.
Eu bem queria
A noite e o dia
Sempre contigo
Poder passar.
Mas orgulhosa
Sorte invejosa
Desta fortuna
Me quer privar.
Isto é castigo
Que Amor me dá.
Tu entre os braços
Ternos abraços
Da filha amada
Podes gozar.
Priva-me a estrela
De ti e dela;
Busca dois modos
De me matar.
Isto é castigo
Que Amor me dá.
SONETO ESCRITO NO CÁRCERE
Não me aflige do potro a viva quina;
Da férrea mão o golpe não me ofende;
Sobre as chamas a mão se não estende;
Não sofro do agulhete a ponta fina.
Grilhão pesado os passos não domina;
Cruel arrocho a testa me não fende;
À forla perna ou braço se não rende;
Longa cadeia o colo não me inclina.
Água e pomo faminto não procuro;
Grossa pedra não cansa a humanidade;
O pássaro voraz eu não aturo.
Estes males não sinto; é bem verdade;
Porém sinto outro mal inda mais duro;
– Sinto da esposa e filhos a saudade!
____________________
Fonte: PEIXOTO, Alvarenga. Obras poéticas. Introdução e notas de Domingos Carvalho da Silva. Rio de Janeiro: ABL, 1998. p. 51-57 ; 111-113 ; 131-132.
 
1 Este soneto saiu pela primeira vez na edição de JNSS (1865) e pertence, como o anterior, à época da juventude do poeta, ainda sob a influência dos estudos de história clássica e literatura latina. Já que JNSS nada informou sobre a procedência destes versos, adota-se aqui o texto proposto, com base em manuscritos, por R. Lapa. A palavra «Empíreo» quebra o ritmo do sexto verso. É possível que Alvarenga tenha usado «Empireu», como usou «nivéis» na ode «Retrato». Nicolau Tolentino rimou «Pegáso» com «Parnaso» e Silva Alvarenga, «ibero» com «Cerbéro».
2 Foi esta ode localizada na Biblioteca do Porto por R. Lapa, que a publicou na Vida e obra de Alvarenga Peixoto e, em uma nota, insinuou o título aqui adotado. O texto denuncia a fase de preparação do poeta, que, dos doze trabalhos de Hércules, cuidou de dois apenas.
3 Este soneto foi publicado com O Uruguai em 1769 e teve a assinatura de Inácio José de Alvarenga Peixoto. Foi a primeira poesia impressa, do autor. Alcides, um dos nomes de Hércules, é provavelmente uma representação metafórica de Gomes Freire de Andrada, que tinha comandado as tropas portuguesas na guerra contra a «República perjura» dos jesuítas.
O texto acama reproduz fielmente o que foi impresso na edição de 1769 do O Uruguai.
4 Esta lira foi publicada pela primeira vez por Elias Matos (Miscelânea poética ou coleção de poesias diversas de autores escolhidos, Rio, 1853) sob a rubrica de De Inácio José de Alvarenga, estando preso, a sua mulher. Nas Obras poéticas (1865), de JNSS, lê-se: A D. Bárbara Heliodora – sua esposa – remetida do cárcere da Ilha das Cobras. R. Lapa (1960) suprimiu o título, afirmando: «não é admissível que a lira fosse composta na prisão». Como o poeta se refere apenas à «filha amada» e como em 1784 já era nascido o seu filho Eleutério, deve a lira ter sido escrita antes daquele ano, provavelmente em 1782, ano em que Alvarenga Peixoto poderá ter ido a Vila Rica para assistir às núpcias do tenente-coronel Freire de Andrada. Isto é só uma hipótese, mas aceitável.
O texto acima (da lira) reproduz o da Miscelânea com a adição do H etimológico de Heliodora. O Amor do estribilho é Cupido e por isso está aqui com inicial maiúscula.
5 Este soneto foi publicado pela primeira vez por JNSS (Obras poéticas, 1865) sob o titulo de «A Saudade – Ouvindo na Cadeia Pública do Rio de Janeiro a sua Sentença de Morte». R. Lapa (Vida e obra de Alvarenga Peixoto, 1960) repetiu-lhe o texto com alterações no último verso. E observou que o poeta: «naquele momento de desgraça, não soube encontrar os acentos de dor que se poderiam esperar do seu gênio poético.» Uma leitura atenta do texto mostra porém que Lapa se equivocou. Alvarenga – a ser dele o soneto… – não fala de desgraça, nem da morte ou da forca iminente; ao contrário, nega ter sido vítima das torturas que enumera e, sobre elas, diz claramente: «Estes males não sinto, é bem verdade.» A ser de Alvarenga Peixoto o soneto, ele o escreveu, certamente, no cárcere, mas muito antes de ouvir a sentença condenatória de18 de abril de1792.
O texto do soneto reproduz fielmente o de 1865.

Categories
ESCRITORES

O MULATO

Autor: Aloísio de Azevedo
Título: O MULATO, DER MULATTE
Tradutor: Michael O. Güsten
Data de entrada no site: 23/12/2004

O MULATO

I

Aloísio de Azevedo

Era um dia abafadiço e aborrecido. A pobre cidade de S. Luiz do Maranhão parecia entorpecida pelo calor. Quasi que se não podia sahir à rua: as pedras escaldavam; as vidraças e os lampeões faiscavam ao sol corno enormes diamantes; as paredes tinham reverberações de prata polida; as folhas das arvores nem se mexiam; as carroças d’agoa passavam ruidosamente a todo o instante, abalando os predios; e os aguadeiros, em mangas de camiza e pernas arregaçadas, invadiam sem ceremonia as casas para encher as banheiras e os potes. Em certos pontos não se encontrava viva alma na rua; tudo estava, concentrado, adormecido; só os pretos faziam as compras para o jantar ou andavam no ganho.

A praça d’Alegria apresentava um ar funebre. De um casebre miseravel, de porta e janella, ouviam-se gemer os armadores enferrujados de urna rede e uma voz tisica e aflautada, de mulher, cantar em falsete a « gentil Carolina era bella »; d’outro lado da praça, uma preta velha, vergada por immenso taboleiro de madeira, sujo, seboso, cheio de sangue e coberto por uma nuvem de moscas, apregoava em tom muito arrastado e melancolico: « Figado, rins e coração! » Era uma vendedeira de fatos de boi. As crianças nuas, com as perninhas tortas pelo costume de cavalgar as ilhargas maternas, as cabeças avermelhadas pelo sol, a pelle crestada, os ventrezinhos amarellentos e crescidos, corriam e guinchavam, empinando papagaios de papel. Um ou outro branco, levado pela necessidade de sahir, atravessava a rua, suado, vermelho, afogueado, à sombra de um enorme chapeu de sol. Os cães, estendidos pelas calçadas, tinham uivos que pareciam gemidos humanos, movimentos irasciveis. Mordiam o ar querendo morder os mosquitos. Ao longe, para as bandas de S. Pantaleão, ouvia-se apregoar: « Arroz de Veneza! Mangas! Mocajubas! » As esquinas, nas quitandas vazias, fermentava um cheiro acre de sabão da terra e agoardente. O quitandeiro, assentado sobre o balcão, cochilava a sua preguiça morrinhenta, acariciando o seu immenso e espalmado pé descalço. Da praia de Santo Antonio enchiam toda a cidade os sons invariaveis e monotonos de uma busina, annunciando que os pescadores chegavam do mar; para lá convergiam, apressadas e cheias de interesse, as peixeiras, quasi todas negras, muito gordas, o taboleiro na cabeça, rebolando os grossos quadris tremulos e as tetas opulentas.

A Praia-Grande e a rua da Estrella contrastavam todavia com o resto da cidade, porque era aquella hora justamente a de maior movimento commercial. Em todas as direcções cruzavam-se homens esbofados e rubros; cruzavam-se os negros no carreto e os caixeiros que estavam em serviço na rua; avultavam os paletós saccos, de brim pardo, mosqueados nas espaduas e nos sovacos par grandes manchas de suor. Os correctores de escravos examinavam, à plena luz do sol, os negros e moleques que ali estavam para ser vendidos; revistavam-lhes os dentes, os pés e as verilhas; faziam-lhes perguntas sobre perguntas; batiam-lhes com a biqueira do chapeu nos hombros e nas coxas, experimentando-lhes o vigor da musculatura, corno se estivessem a comprar cavallos. Na Casa da Praça, debaixo das amendoeiras, nas portadas dos armazens, entre pilhas de caixões de ceboulas e batatas portuguezas, discutiam-se o cambio, o preço do algodão, a taxa do assucar, a tarifa dos generos nacionaes; volumosos commendadores resolviam negócios, faziam transações, perdiam, ganhavam, tratavam de embarrilar uns aos outros, com muita manha de gente de negocios, fallando n’uma gíria só delles, trocando chalaças pesadas, mas em plena confiança de amizade. Os leitoeiros cantavam em voz alta o preço das mercadorias, com um abrimento affectado de vogaes; diziam: «Mal rais » em vez de mil reis. A’ porta dos leilões agglomeravam-se os que queriam comprar e os simples curiosos. Corria um quente e grosseiro zum-zum de feira.

O leiloeiro tinha piscos d’olhos significativos; de martello em punho, enthusiasmado, o ar tragico, mostrava com o braço erguido um calice de cachaça, ou, comicamente acocorado, esbrocava com o furador os paneiros de farinha e de milho. E, quando chegava a occasião de ceder a fazenda, repetia o preço muitas vezes, gritando, e afinal batia o martello com grande barulho, arrastando a voz em um tom cantado e estridente.

Viam-se deslizar pela praça os imponentes e monstruosos abdomens dos capitalistas; viam-se cabeças escarlates e descabelladas, gotejando suor por debaixo do chapeu de pello; risinhos de protecção, boccas sem bigode dilatadas pelo color, perninhas espertas e suadas na calça de brim de Hamburgo. E toda esta actividade, posto que um tanto fingida, era geral e communicativa; até os ricos ociosos, que iam para ali encher o dia, e os caixeiros, que « faziam cera » e até os proprios vadios desempregados, apparentavam diligencia e promptidão.

A varanda ao sobrado de Manoel Pescada, uma varanda larga e sem forro no tecto, deixando ver as ripas e os caibros que sustentavam as telhas, tinha um aspecto mais ou menos pittoresco com a sua bella vista sobre o rio Bacanga e as suas rotulas pintadas de verde-Paris. Toda ella abria para o quintal, estreito e longo, onde, a mingoa de sol, se mirravam duas tristes pitangueiras e passeiava solemnemente um pavão da terra.

As paredes, barradas de azulejos portuguezes e, para o alto, cobertas de papel pintado, mostravam, nos seus desenhos repetidos de assumptos de caça, alguns logares sem tinta, cujas manchas brancacentas traziam à idéa joelheiras de calças surradas. Ao lado, dominando a mesa de jantar, aprumava-se um velho almario de jacarandá polido, muito bem tratado, com as vidraças bem limpas, expondo as pratas e as porcelanas de gosto moderno; a um canto dormia, esquecida na sua caixa de pinho envernisado, uma machina de costura de Wilson, das primeiras que chegaram ao Maranhão; nos intervallos das portas symetrisavam-se quatro estudos de Julien, representando em lithographia as estações do anno; defronte do guarda-louça um relogio de corrente embalava melancolicamente a sua pendula do tamanho de um prato e apontava para as duas horas. Duas bolas da tarde.

Não obstante, ainda permanecia sobre a mesa a louça que servira ao almoço. Uma garrafa branca, com uns restos de vinho de Lisboa, scintillava à claridade reverberante que vinha do quintal. De uma gaiola, dependurada entre as janellas desse lado, chilreava um sabiá.

Fazia preguiça estar ali. A viração do Bacanga refrescava o ar da varanda e dava ao ambiente um tom morno e aprazivel. Havia a quietação dos dias inuteis, uma vontade lassa de fechar os olhos e esticar as pernas. Lá defronte, nas margens oppostas do rio, a silenciosa vegetação do Anjo da Guarda estava a provocar bôas sestas sobre o capim, debaixo das mangueiras; as arvores pareciam abrir de longe os braços, chamando a gente para a calma tepidez das suas sombras.

– Então, Anna Rosa, que me respondes?… disse Manoel, esticando-se mais na cadeira em que se achava assentado, à cabeceira da mesa; em frente da filha. Bem sabes que te não contrario… desejo este casamento, desejo… mas, em primeiro logar, convém saber se elle é do teu gosto… Vamos… falla!

Ana Rosa não respondeu e continuou muito embebida, como estava, a rolar sob a ponta côr de rosa dos seus dedos as migalhas de pão que ia encontrando sobre a toalha.

(…).

____

Fonte: Azevedo, Aluísio. O Mulato. 5a ed. Rio de Janeiro: Garnier, 1927. p. 9-13.

DER MULATTE

1

Aluísio de Azevedo

DER TAG WAR SCHWÜL UND LANGWEILIG. Wie betäubt lag die armselige Stadt São Luiz do Maranhão* in der Hitze. Kaum konnte man die Strassen betreten; die Pflastersteine glühten; silbrig flimmerten die Mauern, und die Fenster und Strassenlampen gleissten in der Sonne wie riesige Diamanten. An den Bäumen bewegte sich kein Blatt. Alle Augenblicke schepperten Wasserkarren vorüber, dass die Häuser erbebten. In Hemdsärmeln und mit aufgekrempelten Hosen gingen die Wasserträger in die Häuser, um Badewannen und Kannen zu füllen. Dann war wieder keine Seele auf der Strasse zu sehen. Die Bewohner der Stadt hatten sich zurückgezogen und schliefen. Nur die Sklaven kauften für das Mittagessen ein oder gingen ihrer Arbeit nach.

Die Praça da Alegria bot einen trostlosen Anblick. Aus Tür und Fenster einer elenden Hütte drang das Seufzen verrosteter Hängemattenringe. Eine Frau sang mit schwindsüchtiger, flötender Falsettstimme eine Volksweise. Auf der anderen Seite des Platzes pries eine alte Negerin mit schleppender, melancholischer Stimme „Leber, Herz, Nieren” an. Von einer FIiegenwolke umschwirrt, gebeugt unter der Last eines schweren Brettes, schmutzig und blutverschmiert, ging sie über den Platz. Kreischend liefen nackte Kinder hinter aufsteigenden Drachen her. Sie hatten versengte Haut und von der Sonne gerötete Gesichter, ihre Bäuche waren aufgequollen und die Beine krumm von der Sitte, auf dem Rücken der Mutter zu reiten. Hin und wieder überquerte ein Weisser unter einem grossen Sonnenschirm schweissnass und rot vor Hitze die Strasse. Auf den Treppen lagen Hunde. Sie gaben Laute von sich, die menschlichen Seufzern glichen, und schnappten nach den Mücken. Von São Pantaleão drangen Rufe herüber: ,,Venezianischer Reis! Mangofrüchte! Mocajubas!” Aus den leeren Marktbuden an den Ecken quoll scharfer Seifen- und Branntweingeruch. Ein Budenbesitzer hockte auf dem Ladentisch, duselte vor sich hin und kraulte seinen grossen, nackten Plattfuss. In der ganzen Stadt hörte man den eintönigen, gleichmässigen Laut des Signalhorns in Santo Antonio, das die Rückkehr der Fischer vom Meer verkündete.

Eilig und begierig strömten die Fischweiber dorthin. Sie trugen Tablette auf dem Kopf und waren fast alle schwarz und dick. Ihre fetten Hüften und schweren Brüste wabbelten.

An der Praia Grande und in der Rua da Estrêla sah es ganz anders aus als in der übrigen Stadt. Dort herrschte gerade zu dieser Tageszeit reges geschäftliches Treiben. Aus allen Richtungen kommend, strömten in diesem Teil der Stadt ausser Atem geratene Männer, Neger auf Karren und Kommis zusammen. Dort herrschten sackartige Jacken aus dunklem Segeltuch vor, die auf dern Rücken und unter den Achseln durchgeschwitzt waren. Sklavenmakler untersuchten in der grellen Sonne Neger und Negerknaben, die zum Verkauf angeboten wurden. Sie musterten Zähne, Füsse und Schamteile, stellten Fragen über Fragen, beklopften mit der Schirmspitze Hüften und Schenkel und betasteten die Muskeln, als ginge es um einen Pferdekauf. Im Stadthaus, unter den Mandelbäumen oder vor den Ladentüren zwischen aufgetürmten Kisten mit Zwiebeln und portugiesischen Kartoffeln debattierte man über den Börsenkurs, über die Baumwollpreise, die Zuckersteuer und den Tarif der einheimischen Waren. Dicke Händler machten Geschäfte, strichen Gewinne ein oder buchten Verluste und versuchten, einander übers Ohr zu hauen, wobei sic derbe Scherzworte in ihrer Gaunersprache tauschten: doch alles ging freundschaftlich und vertraulich vor sich. Auktionäre verkündeten lauthals den Preis ihrer Waren. Um sie scharten sich Kauflustige und Neugierige. Auf dem Markt ging es laut und lebhaft zu.

Der Auktionär blinzelte bedeutsam. Den Hammer in der Hand, wies er grossspurig und theatralisch ein Schnapsg1as vor. Oder er prüfte, komisch zusammengekauert, mit einem Locheisen die Maniokund Maiskörbe. Sobald sich ein Geschäft dem Abschluss näherte, wiederholte er viele Male, markerschütternd singend und schreiend, den Preis und schlug am Ende dröhnend mit dem Hammer auf den Tisch.

Auf dem Platz sah man die schweren, fetten Leiber der Kapitalisten, sah man erhitzte, schweissglänzende, zerfahrene Gesichter unter Sonnenschirmen und vor Hitze aufgesperrte Münder, sah man rastlose, schwitzende Beine in Hamburger Tuchhosen, hörte man gönnerhaftes Auflachen. Überall war Geschäftigkeit, sie ergriff alle, wiewohl mancher sie nur vorgab. Doch selbst die reichen Faulenzer, die nur hierherkamen, um die Zeit totzuschlagen, die Kommis, die nur schwatzten, und die Armen, die keine rechte Arbeit hatten, schienen sich eifrig und fleissig zu betätigen.

Die geräumige Veranda am Hause Manuel Pescadas bot einen recht malerischen Anblick. Sie hatte keine Deckenverschalung, so dass die Balken und Sparren zu sehen waren, auf denen die Dachziegel ruhten. Man hatte von hier eine herrliche Aussicht auf den Bacangafluss. Die Jalousien waren in Pariser Grün gehalten. Die Veranda führte auf einen langen, schmalen Garten, in dem zwei Myrtenbäume mangels Sonnenlichts kümmerten und ein Pfau feierlich einherstolzierte.

Die Wände waren mit bunten portugiesischen Fliesen ausgelegt. Sic zeigten Jagdszenen, unterbrocben von einigen farblosen Stellen, die fleckiges Papier verdeckte, so dass sie nun als weissblonde Flecken wie ausgebeulte, verblichene Hosen aussahen. Auf der einen Seite stand neben einem Tisch ein alter, guterhaltener Schrank aus Jakarandaholz, hinter dessen blankgeputzten Scheiben Porzellan und Silbergerät modernen Geschmacks glänzten. In der einen Ecke schlief in einem Kasten aus lackiertem Fichtenholz vergessen eine Wilson-Nähmaschine, eine der ersten ihrer Art, die nach Maranhão gekommen war. An der Wand zwischen den Türen hingen, symmetrisch geordnet, Lithografien, die vier Jahreszeiten darstellend. Dem Geschirrschrank gegenüber schwang eine Standuhr melancholisch ihr tellergrosses Pendel. Es war zwei Uhr nachmittags. Trotzdem stand auf dem Tisch ein Frühstücksgedeck. In einer Karaffe mit einem Rest Lissabonner Weins spiegelte sich das Licit aus dem Garten wider. Zwischen den Fenstern auf dieser Seite hing ein Käfig, in dem eine Sabiá zwitscherte.

Hier fühlte man sich wohl. Vom Bacanga her wehte ein frischer Lufthauch, es war angenehm kühl. Hier war die Ruhe müssiger Tage. Man war müde und hatte den Wunsch, die Augen zu schliessen und die Beine auszustrecken. Drüben, am anderen Ufer des Flusses, lud die in tiefem Schweigen liegende Vegetation zum Ausruhen ein im Sand unter den Mangobäumen, die von fern aussahen, als riefen sie mit offenen Armen die Menschen in die stille Kühle ihrer Schatten.

„Nun, Ana Rosa, was antwortest du mir?” fragte Manuel und rekelte sich auf seinem Stuhl am Kopfende des Tisches. Vor ihm sass seine Tochter. ,,Du weisst doch, dass ich nur dein Bestes will. Ich wünsche diese Heirat, ich will sie… Aber zunächst möchte ich wissen, ob du einverstanden bist. Nun… Sprich!”

Ana Rosa antwortete nicht. Sic drehte Brotkrumen über dem Teller.

(…).

_____

Fonte: Azevedo, Aluizio. Der Mulatte. Aus dem Portugiesischen von Michael O. Güsten. Berlim: Verlag Volk und Welt, 1964. p. 5-9.

 
 

Categories
ESCRITORES

A MULHER MADURA: CRÔNICAS

A MULHER MADURA: CRÔNICAS

 
 

Affonso Romano de Sant’Anna

 
 
A mulher madura
 
 
O rosto da mulher madura entrou na moldura de meus olhos.
De repente, a surpreendo num banco olhando de soslaio, aguardando sua vez no balcão. Outras vezes ela passa por mim na rua entre os camelôs. Vezes outras a entrevejo no espelho de uma joalheria. A mulher madura, com seu rosto denso esculpido como o de uma atriz grega, tem qualquer coisa de Melina Mercouri ou deAnouke Aimé.
Há uma serenidade nos seus gestos, longe dos desperdícios da adolescência, quando se esbanjam pernas, braços e bocas ruidosamente. A adolescente não sabe ainda os limites de seu corpo e vai florescendo estabanada. É como um nadador principiante, faz muito barulho, joga muita água para os lados. Enfim, desborda.
A mulher madura nada no tempo e flui com a serenidade de um peixe. O silêncio em torno de seus gestos tem algo do repouso da garça sobre o lago. Seu olhar sobre os objetos não é de gula ou de concupiscência. Seus olhos não violam as coisas, mas as envolvem ternamente. Sabem a distancia entre seu corpo e o mundo.
A mulher madura é assim: tem algo de orquídea que brota exclusiva de um tronco, inteira. Não é um canteiro de margaridas jovens tagarelando nas manhãs.
A adolescente, com o brilho de seus cabelos, com essa irradiação que vem dos dentes e dos olhos, nos extasia. Mas a mulher madura tem um som de adágio em suas formas. E até no gozo ela soa com a profundidade de um violoncelo e a sutileza de um oboé sobre a campina do leito.
A boca da mulher madura tem uma indizível sabedoria. Ela chorou na madrugada e abriu-se em opaco espanto. Ela conheceu a traição e ela mesma saiu sozinha para se deixar invadir pela dimensão de outros corpos. Por isto as suas mãos são líricas no drama e repõem no seu corpo um aprendizado da macia paina de setembro e abril.
O corpo da mulher madura é um corpo que já tem história. Inscrições se fizeram em sua superfície. Seu corpo não é como na adolescência uma pura e agreste possibilidade. Ela conhece seus mecanismos, apalpa suas mensagens, decodifica as ameaças numa intimidade respeitosa.
Sei que falo de uma certa mulher madura localizada numa classe social, e os mais politizados têm que ter condescendência e me entender. A maturidade também vem à mulher pobre, mas vem com tal violência que o verde se perverte e sobre os casebres e corpos tudo se reveste de uma marrom tristeza.
Na verdade, talvez a mulher madura não se saiba assim inteira ante seu olho interior. Talvez a sua aura se inscreva melhor no olho exterior, que a maturidade é também algo que o outro nos confere, complementarmente. Maturidade é essa coisa dupla: um jogo de espelhos revelador.
Cada idade tem seu esplendor. É um equívoco pensá-lo apenas como um relampago de juventude, um brilho de raquetes e pernas sobre as praias do tempo. Cada idade tem seu brilho e é preciso que cada um descubra o fulgor do próprio corpo.
A mulher madura está pronta para algo definitivo.
Merece, por exemplo, sentar-se naquela praça de Siena à tarde acompanhando com o complacente olhar o vôo das andorinhas e as crianças a brincar. A mulher madura tem esse ar de que, enfim, está pronta para ir à Grécia. Descolou-se da superfície das coisas. Merece profundidades. Por isto, pode-se dizer que a mulher madura não ostenta jóias. As jóias brotaram de seu tronco, incorporaram-se naturalmente ao seu rosto, como se fossem prendas do tempo.
A mulher madura é um ser luminoso é repousante às quatro horas da tarde, quando as sereias se banham e saem discretamente perfumadas com seus filhos pelos parques do dia. Pena que seu marido não note, perdido que está nos escritórios e mesquinhas ações nos múltiplos mercados dos gestos. Ele não sabe, mas deveria voltar para casa tão maduro quanto Yves Montand e Paul Newman, quando nos seus filmes.
Sobretudo, o primeiro namorado ou o primeiro marido não sabem o que perderam em não esperá-la madurar. Ali está uma mulher madura, mais que nunca pronta para quem a souber amar.
 
 
Fazer 30 anos
 
 
QUATRO pessoas, num mesmo dia, me dizem que vão fazer 30 anos. E me anunciam isto com uma certa gravidade. Nenhuma está dizendo: vou tomar um sorvete na esquina, ou: vou ali comprar um jornal. Na verdade estão proclamando: vou fazer 30 anos e, por favor, prestem atenção, quero cumplicidade, porque estou no limiar de alguma coisa grave.
Antes dos 30 as coisas são diferentes. Claro que há algumas datas significativas, mas fazer 7, 14, 18 ou 21 é ir numa escalada montanha acima, enquanto fazer 30 anos é chegar no primeiro grande patamar de onde se pode mais agudamente descortinar.
Fazer 40, 50 ou 60 é um outro ritual, uma outra crônica, e um dia eu chego lá. Mas fazer 30 anos é mais que um rito de passagem, é um rito de iniciação, um ato realmente inaugural. Talvez haja quem faça 30 anos aos 25, outros aos 45, e alguns, nunca. Sei que tem gente que não fará jamais 30 anos. Não há como obrigá-los. Não sabem o que perdem os que não querem celebrar os 30 anos. Fazer 30 anos é coisa fina, é começar a provar do néctar dos deuses e descobrir que sabor tem a eternidade. O paladar, o tato, o olfato, a visão e todos os sentidos estão começando a tirar prazeres indizíveis das coisas. Fazer 30 anos, bem poderia dizer Clarice Lispector, é cair em área sagrada.
Até os 30, me dizia um amigo, a gente vai emitindo promissórias. A partir daí é hora de começar a pagar. Mas também se poderia dizer: até essa idade fez-se o aprendizado básico. Cumpriu-se o longo ciclo escolar, que parecia interminável, já se foi do primário ao doutorado. A profissão já deve ter sido escolhida. Já se teve a primeira mesa de trabalho, escritório ou negócio. Já se casou a primeira vez, já se teve o primeiro filho. A vida já se inaugurou em fraldas, fotos, festas, viagens, todo tipo de viagens, até das drogas já retornou quem tinha que retornar.
Quando alguém faz 30 anos, não creiam que seja uma coisa fácil. Não é simplesmente, como num jogo de amarelinha, pular da casa dos 29 para a dos 30saltitantemente. Fazer 30 anos é cair numa epifania. Fazer 30 anos é como ir à Europa pela primeira vez. Fazer 30 anos é como o mineiro vê pela primeira vez o mar.
Um dia eu fiz 30 anos. Estava ali no estrangeiro, estranho em toda a estranheza do ser, à beira-mar, na Califórnia. Era um homem e seus trinta anos. Mais que isto: um homem e seus trinta amos. Um homem e seus trinta corpos, como os anéis de um tronco, cheio de eus e nós, arborizado, arborizando, ao sol e a sós.
Na verdade, fazer 30 anos não é para qualquer um. Fazer 30 anos é, de repente, descobrir-se no tempo. Antes, vive-se no espaço. Viver no espaço é mais fácil e deslizante. É mais corporal e objetivo. Pode-se patinar e esquiar amplamente.
Mas fazer 30 anos é como sair do espaço e penetrar no tempo. E penetrar no tempo é mister de grande responsabilidade. É descobrir outra dimensão além dos dedos da mão. É como se algo mais denso se tivesse criado sob a couraça da casca. Algo, no entanto, mais tênue que uma membrana. Algo como um centro, às vezes móvel, é verdade, mas um centro de dor colorido. Algo mais que uma nebulosa, algo assim pulsante que se entreabrisse em sementes.
Aos 30 já se aprendeu os limites da ilha, já se sabe de onde sopram os tufões e, como o náufrago que se salva, é hora de se autocartografar. Já se sabe que um tempo em nós destila, que no tempo nos deslocamos, que no tempo a gente se dilui e se dilema. Fazer 30 anos é como uma pedra que já não precisa exibir preciosidade, porque já não cabe em preços. É como a ave que canta, não para se denunciar, senão para amanhecer.
Fazer 30 anos é passar da reta à curva. Fazer 30 anos é passar da quantidade à qualidade. Fazer 30 anos é passar do espaço ao tempo. É quando se operam maravilhas como a um cego em Jericó.
Fazer 30 anos é mais do que chegar ao primeiro grande patamar. É mais que poder olhar pra trás. Chegar aos 30 é hora de se abismar. Por isto é necessário ter asas, e sobre o abismo voar.
 
 
Nem com uma flor
 
“Até hoje só bati numa mulher, mas com singular delicadeza.”

Vinícius de Moraes

 
 
UM AMIGO ia passando pela Avenida Atlantica quando viu um homem batendo numa mulher dentro de um carro estacionado. Resolveu parar e chamar a polícia. Mas iam passando pelo calçadão dois garotões atléticos que vendo o tumulto pararam também para saber. Meu amigo então lhes explica que o sujeito estava batendo na mulher.
-Mas a mulher não é dele? – indagou o garotão.
-E só porque é dele pode bater? – diz o amigo.
-É, nessa você me pegou, cara.
Nesta semana a OAB descobriu que em Imperatriz, no Maranhão, nos últimos cinco anos, maridos mataram 30 mulheres. Mas o fizeram por uma razão muito clara: não queriam pagar pensão nem partilhar os bens na separação. Diante desta estatística da terra de Sarney, os machos da terra de Tancredo ficam humilhados, porque eles só matam mulher por “traição”, e, mesmo assim, em menor escala.
Mas vou lhes contar outra estória: uma amiga estava em São Paulo numa conversa sobre espancamento de mulheres. De repente, falou-se de um conhecido professor que havia espancado a mulher (coisa, aliás, que acontece em várias faculdades do país). Reparem bem, estamos falando de gente fina. Não se trata de cachaceiros na subida do morro, do sujeito massacrado pela vida que chega em casa escorraçando as crianças, cães e mulheres. Estamos falando de gente inteligente, formada, com anel no dedo, que toma coquetéis com a gente e cita Marx, Hegel et caterva.
Vai daí, alguém, comentando a razão por que o professor teria batido na mulher, sendo ele uma pessoa célebre, indaga: – Mas, afinal, ele é ele, e ela quem é?
Na primeira estorinha vocês viram que um acha que a mulher é propriedade privada do marido, e por isto pode apanhar. Quer dizer: é igual quando a gente tem um cavalo ou cão. Já na segunda narrativa, a titulação acadêmica ou a importancia hierárquica justifica a violência sobre o mais fraco. E a mulher, do ponto de vista muscular, é geralmente mais fraca que o homem. Por isto faz muito sentido quando na favela ao lado ouço as mulheres que apanham gritar: “Covarde! Vai bater num homem”. E um garotão esclarecido, que estuda lutas marciais, ao ouvir a estória do professor espancador, observou: “Eu queria ver esse professor crescer para cima de mim”.
As estorinhas como essas são intermináveis. Lá vai outra. Uma amiga estava dando uma entrevista à televisão e o assunto era exatamente o espancamento de mulheres e a necessidade de se criar uma delegacia especial no Rio, como Franco Montoro criou em São Paulo, só para atender mulheres. E lá ia explicando o bê-á-bá da violência dos homens sobre as mulheres, lembrando que, quando uma mulher é violentada ou espancada, nas delegacias comuns têm que passar por vexames e cantadas, que os homens vêem a vítima como culpada, porque nossa sociedade nos convenceu de que a mulher é sempre uma Eva pecadora. Lembrava que em alguns países, além das delegacias para mulheres, há associações estruturadas para esconderem as vítimas, porque sabem que se muitas delas voltarem para casa serão até assassinadas. E foi explicando que em alguns lugares dos Estados Unidos existe um tratamento para maridos violentos, em sessões comuns, uma espécie de Associação de Alcoólatras Anônimos (os Espancadores Anônimos), que se curam e se tratam em grupo, porque isto é uma doença pessoal e social.
Mas enquanto minha amiga dava a entrevista, os cameras estavam indóceis. Parecia que o assunto era com eles. E aí, não agüentaram, interromperam a entrevista e um disse: – a gente trabalha na rua o dia inteiro, chega em casa cansado e a comida não está pronta, o que é que há? Ela está querendo apanhar! E a amiga tentou explicar: – então é só você que trabalhou? Ela não batalhou por aí em dupla jornada? Imagine se toda mulher fosse bater em marido que traz pouco ou nenhum dinheiro para casa?
Os cameras continuaram resmungando durante a entrevista. Não sei o que aconteceu quando eles chegaram em casa. Mas se houvesse na cidade uma delegacia para defender o direito das mulheres certamente pensariam duas vezes. Talvez não chegassem em casa sobraçando flores. Mas seguramente chegariam menos arrogantes.
 
 
____________________
 
Fonte: SANT’ANNA, Affonso Romano de. A mulher madura: crônicas. 2a ed. Rio de Janeiro: Rocco, 1986. p. 09-11; 36-38; 54-56.

Categories
ESCRITORES

CORPO VIVO

CORPO VIVO


Primeira Parte

Adonias Filho

Tudo começou no sábado. Lembrou-me a mulher, quando jantávamos, que o compadre Januário nos esperava na segunda-feira, lá, na fazenda dos Limões. Teríamos o domingo para atravessar a colina e, Deus não mandasse o contrário, dormiríamos em casa de Alonso, nos baixios da Jussara. O roteiro da mulher foi seguido. Saímos domingo cedo, vencemos a colina, e noitinha batíamos na porta de Alonso. Era um casebre na estrada que tinha os fundos no rio. Alonso não tardou a acender o candeeiro e logo a Sinhá, sua mulher, serviu a janta. Joana, minha mulher, contou que íamos aos Limões a chamado de Januário. “O mundo é muito grande – Alonso disse _ mas querem as terras de Januário”. Do meu retiro, nas Canoas, ainda não ouvira falar naquilo. E inúmeras foram as perguntas que fiz. Alonso respondeu a todas esclarecendo que os Bilá, após certas brigas com Januário, tinham jurado lhe tomar as terras. O cacau novo de Januário começava a dar frutos. Aquelas terras valiam ouro e os Bilá tinham um exército no rifle. Que Deus guardasse o compadre Januário!

Manhã alegre, com os pássaros no canto, quando deixamos a tapera de Alonso. Volta do meio dia, na estrada deserta, fizemos fogo à sombra de uma cajazeira para a mulher esquentar a carne do sertão. Pelos cálculos, antes que o sol sumisse, estaríamos nos Limões. A mulher, porém, queixou-se das pernas. Apoiada em mim, em marcha lenta, quase não andávamos. E foi isso, a vontade do destino, que nos impediu de ver os Limões na claridade do dia. Era noite, com a lua varrendo os campos, quando abrimos a cancela e tomamos o caminho que levava à casa. Luz não se filtrava pelas janelas. Todos pareciam dormir no casarão parado que, a mim, lembrou um rochedo dentro da noite.

A mulher foi na frente para surpreender a comadre. Galgou a escada do alpendre e hoje ainda escuto o seu grito. Larguei os bornais e corri para deter-me na porta, o vulto da minha mulher com os braços abertos, e a sala em trevas ainda com o calor dos corpos. “Deus de misericórdia!” – exclamei, pressentindo mais do que vendo. Internei-me em busca da cozinha e, lá encontrando o candeeiro, acendendo-o, retornei no que foi a mais triste caminhada da minha vida. É preciso ter visto o que vi, no percurso da cozinha à sala, para saber-se porque foi triste a caminhada. Forte era o vozerio da noite, mas o choro de minha mulher o dominava. Andando, com o candeeiro na mão, eu via o que fora a família de Januário.

Na sala de jantar, emborcadas na poça de sangue as duas meninas – Maria Laura, de doze anos, e Maria Lúcia, de dez anos – estavam caídas como alvejadas em plena carreira. Sobre o batente da porta, como se estivesse escapado dos braços da mãe, o corpo tão pequeno do pagão que ia fazer três meses. Andando com os pés no sangue, em direção à sala onde ficara minha mulher, levantei o candeeiro para aumentar a luz. A comadre ainda tinha as mãos sobre o rosto e, um pouco distante do marido, como que se preparava para dormir. Januário de costas, estirado, sangrando no pescoço como se fosse um porco. Pondo o candeeiro no chão, cuja luz parecia empretecer as poças de sangue, abracei minha mulher procurando anima-la. Foi ela quem, acima da minha perturbação, perguntou por Maria Teresa. Era a mais velha e tinha dezoito anos. Retornei com o candeeiro, percorrendo os quartos. Fui encontrá-la na despensa, quase despida, e observei que unhas de homem tinham rasgado a sua pele. Deitada de bruços, o sangue há não gotejava da ferida aberta na nuca. O punhal, que a matara, penetrara fundo.

Retornei à sala mais uma vez e, levando a mulher comigo, regressei novamente à despensa para verificar se as armas de Januário estavam nos caixotes. Abri os caixotes e as encontrei: três rifles e bastante munição, o revólver e as caixas de balas. Compadre Januário, eu concluí, fora apanhado desprevenido, à traição. Entregando o candeeiro à mulher, que mal o segurava com as mãos nervosas, retirei os rifles dos caixotes e enchi as algibeiras de balas. A seguir, mais tranqüilo, disse: “Falta o afilhado”. A mulher interrogou: “Cajango?” Respondi: “Sim, Cajango, o nosso afilhado.

Sentou-se a mulher na sala e, sobre o banco, coloquei os rifles e a camisa. Nu da cintura para cima, em silêncio, comecei o mais penoso trabalho que já realizei. Nos meus braços, um a um, carreguei os corpos. E na sala os juntei, sob a luz enfraquecida, enquanto a mulher rezava. O quadro, quando sentei-me ao lado da mulher, após lavar-me na cisterna aos fundos, não me pareceu espantoso. Estava por demais preocupado com o afilhado para senti-lo. Combinei com a mulher que faríamos um facho e, antes que enterrássemos os mortos, procuraríamos o menino nos arredores. Saímos, eu com um rifle e a mulher com o facho, procurando seu corpo na grama, entre os arbustos, nas moitas de capim alto. Era um menino de onze anos e seu corpo podia ter sido lançado em qualquer parte. A busca foi demorada, demorada e paciente, mas não o encontramos. “É inútil esperarmos o dia”, voltei a falar, a mulher ouvindo. “Quando chegarmos ao rancho de Alonso, continuei, já estarão podres”. Levantei-me com a decisão feita, iria enterra-los naquele momento.

Fiz três outros fachos que acendi e plantei no chão. E, uma hora depois, no pedaço de terra iluminada, o grande túmulo já aberto, voltei-me para a mulher. Sentada, com o xale sobre os cabelos, continuava a rezar. Foi neste momento que, saindo das trevas, correndo para mim, surgiu o menino, Cajango, meu afilhado. O sangue empretecido dos pais e dos irmãos estava em seus cabelos, em suas mãos, em suas roupas. A mulher, hoje, não vive para confirmar. Mas as estrelas testemunharam. O menino caiu nos meus braços sujos de terra e, quando se afastou, a luz dos fachos mostrou o seu rosto. A sombra da mulher, deitada sobre o túmulo vazio, revelava sua imobilidade. Não fez uma pergunta, é verdade, mas observei nas linhas do rosto que Cajango já não era uma criança. Ele tudo vira, nós saberíamos depois. Quando a mulher quis voltar a sentar-se, pedi que arrancasse um facho e, levando o menino, se distanciasse. O trabalho que ia realizar parecia-me duro demais para os seus olhos. Não queria que visse os corpos, dos seus pais e dos seus irmãos, nos meus braços de lavrador carregados como fardos.

Tempo não havia para arrumar os corpos na grande cova. Quase correndo, voltando a sujar-me do sangue dos infelizes, carreguei um a um até que a cova se encheu. Sob o fogo dos fachos, era uma trincheira de guerra. E, um pouco exausto, movendo a pá, cobri com a terra de Januário a sepultura da sua gente. Meu corpo cansado, afinal, pôde sentar-se. O suor lavava o sangue dos mortos nos meus peitos. Gritei, chamando a mulher e o menino. Tínhamos que nos banhar na cisterna e partir o mais cedo possível. Após o banho – eu vestindo uma roupa de Januário e o afilhado, de roupa limpa, já com a trouxa de seus pertences -, e depois que fechamos a casa, pensei nas providências para conduzir as armas e as munições. Antes, com minhas próprias mãos, amarrando as achas de lenha com embira, fiz a cruz que ficou na cabeça do túmulo. Rezamos, frente à cova, em voz alta. Entre nós, com a trouxa nas costas, Cajango não se moveu. A luz, que vinha do fogo dos fachos, batia em uma cara de pedra.

Rodeei a casa, em busca dos animais, nos fundos. Sabendo que a cangalha e os panacus estavam na barcaça, dentro dos cochos, lá conduzi a ruana. E, com as armas e as munições nos panacus cobertos com folhas de bananeira, e o menino montado entre eles, iniciamos a viagem de volta. A noite era de lua e, com tantas estrelas, dava para que distinguíssemos a estrada e as árvores. No ombro, com a mulher a meu lado, trazia um rifle. Eu sabia que ia começar a chover sangue. Os anos foram muitos, é verdade, mas ainda vejo o espanto de Alonso – no fundo de sua tapera – quando narrei os acontecimentos. Foi Alonso, e não eu, quem pediu ao menino para contar como escapara.

Até então, não chorara. Não chorou também quando, sem tremer os lábios, disse que se lembrava da mãe suplicando ao pai que largasse a fazenda. Ainda no almoço a mãe insistira, temia uma desgraça, o pai não podia lutar sozinho contra a tropa dos jagunços. Facilitara, porém, o homem prevenido. E deitado estava quando, ouvindo tiros e gritos, se refugiara dos irmãos, não escutara porém a voz do pai. Ele já devia estar morto quando acordara. Os gemidos, a seguir. A voz alta de um homem que ordenava – “Não deixem ninguém vivo!” – e os tiros de misericórdia nos que gemiam. Depois, ainda escutara os gritos de Maria Teresa que, diminuindo, diminuindo, cessaram definitivamente. Percebera os homens abandonando a casa, os passos pesados, e o silêncio finalmente tudo dominou. Minutos depois, saindo do esconderijo, a casa em trevas, tropeçava no corpo do pai. Arrastara-se no sangue, em busca da cozinha, mas temera acender o candeeiro. E, receando que retornassem, ganhara o campo para esconder-se nos cacaueiros. Pouco depois vira a luz na casa e os fachos no campo. Ouvira os gritos, chamando-o. Aproximara-se quando se certificara que era o padrinho.

Quando Cajango silenciou, Alonso disse: “Sabendo que está vivo, caçarão este menino nos infernos”. Sinhá, sua mulher, acrescentou: “Voltarão hoje ou amanhã para ocupar as terras”. Era uma verdade, eu pensei. Na estrada, enquanto andava, refletia no que devia fazer. Mais cedo ou mais tarde saberiam que o menino tinha escapado vivo. Iriam dar com os cascos das mulas nas Canoas, em minha fazenda. E, antes que lá chegassem, deveria proteger-me. Foi ali mesmo, no casebre de Alonso, que tomei a decisão. Não voltaríamos para as Canoas.

(…)

____

Fonte: Filho, Adonias. Corpo vivo: romance. Editora Civilização Brasileira, 1977. p. 5-9.

CUERPO VIVO

Primeira Parte

Adonias Filho

Tudo empezó el sábado. Mi mujer me recordó, cuando comíamos, que el compadre Januario nos esperaba el lunes, allá, en la fazenda1 dos Limões. Tendríamos el domingo para atravesar la colina y, si Dios no mandaba lo contrario, dormiríamos en casa de Alonso, en la ensenada de Jussara. El trayecto de mi mujer fue seguido. Salimos el domingo temprano, cruzamos la colina, al anochecer gopeábamos la puerta de Alonso. Era un rancho en el camino cuyos fondos deban al río. Alonso no tardó en encender el farol y en seguida, Sinhá, su mujer, sirvió la comida. Joana, mi mujer, contó que íbamos a los Limões por un pedido de Januario. “El mundo es muy grande – dijo Alonso – pero quieren las tierras de Januario.” En mi retiro, en las Canoas, todavía no había oído nada de eso. E innumerables fueron las preguntas que hice. Aloso respondió a todas aclarando que los Bilá, después de ciertas peleas con Januario, habían jurado que le sacarían las tierras. El cacao nuevo de Januario empezaba a dar frutos. Esas tierras valían oro y los Bilá tenían un ejército armado. ¡Que Dios guardase al compadre Januario!

Mañana alegre con los pájaros cantando cuando dejamos la tapera de Alonso. A la vuelta del mediodía, por el camino desierto, hicimos fuego a la sombra de una cajazeira2 para que mi mujer calentase la carne del sertón. Por lo calculado, antes de que el sol desapareciese, estaríamos en los Limões. Pero mi mujer se quejó de las piernas. Apoyada en mí, en marcha lenta, casi no avanzábamos. Y eso fue por voluntad del destino, pues nos impidió ver los Limões con la claridad del día. Era de noche u la luna barría los campos cuando abrimos la tranquera y tomamos el camino que llevaba a la casa. No se filtraba luz por las ventanas. Parecía que todos dormían en el caserón quieto que a mí me recordó una roca en la noche.

Mi mujer fue adelante para sorprender a la comadre. Subió la escalera del patio y todavía hoy escucho su grito. Largué las alforjas y corrí para detenerme en la puerta, la cara de mi mujer con los brazos abiertos, y la sala en tinieblas, todavía con el calor de los cuerpos. “¡Dios de la misericordia!” – exclamé, presintiendo más que viendo. Me interné en busca de la cocina, allá encontré el farol, lo encendí y volví en lo que fue el caminar más triste de mi vida. Hay que ver lo que vi, en el trayecto de la cocina a la sala, para saber por qué fue triste el caminar. Fuerte era el vocerío de la noche pero el llanto de mi mujer lo dominaba. Andando, con el farol en la mano, yo veía lo que había sido la familia de Januerio.

En el comedor, de boca en un charco de sangre, las dos niñas – María Laura, de doce años, y María Lúcia, de diez años – estaban caídas como si les hubieran hecho blanco en plena carrera. Sobre el umbral de la puerta, como escapando de los brazos de la madre, el cuerpo tan pequeño del pagano que iba a cumplir tres meses. Caminando, los pies sobre la sangre, en dirección a la sala donde había quedado mi mujer, levanté al farol para aumentar la luz. La comadre tanía aún las manos sobre el rostro y estaba a poca distancia del marido, como que se preparaba para dormir. Januario de espaldas, estirado, sangrado por el pescuezo como si fuese un cerdo. Poniendo el farol en el piso, su luz parecía ennegrecer los charcos de sangre, abracé a mi mujer tratando de animarla. Fue ella quien, encima de mi perturbación, preguntó por María Teresa. Era la mayor y tenía dieciocho años. Volví con el farol, recorriendo los cuartos. Fui a encontrarla en la despensa, casi desnuda, y noté que uñas de hombre habían rasgado su piel. Echada de bruces, la sangre ya no goteaba de la herida abierta en la nuca. El puñal que la había matado había calado hondo.

Volví a la sala otra vez y llevando a mi mujer conmigo regresé de nuevo a la despensa para verificar si las armas de Januario estaban en los cajones. Los abrí y las encontré: tres rifles y bastante munición, el revólver y las cajas con balas. El compadre Januario, concluí, fue sorprendido, lo mataron a traición. Le entregué el farol a mi mujer que mal sostenía con sus manos nerviosas, retiré los rifles de los cajones y me llené los bolsillos de balas. En seguida, más tranquilo, dije: “Falta el hijado”. Mi mujer preguntó: “¿Cajango?” Respondí: “Sí, Cajango, nuestro ahijado”.

Mi mujer se sentió en la sala y sobre el banco coloqué los rifles y la camisa. Desnudo de la cintura para arriba, en silencio, comencé el trabajo más penoso que jamás realicé. En mis brazos, uno a uno, cargué los cuerpos. Y los junté en la sala, bajo la débil luz, mientras mi mujer rezaba. Cuando me senté al lado de mi mujer después de lavarme en la cisterna del fondo, el cuadro no me pareció espantoso. Estaba demasiado preocupado por el ahijado para sentirlo. Arreglé con mi mujer que haríamos una antorcha y que antes de enterrar los cuerpos buscaríamos al niño por los alrededores. Salimos, yo con un rifle y mi mujer con la antorcha, buscando su cuerpo en la gramilla, entre los arbustos, entre las matas de pasto alto. Era un niño de once años y su cuerpo podía haber sido arrojado a cualquier parte. La búsqueda fue lenta, lenta y paciente, pero no lo encontramos. “Es inútil esperar el día”, volví a hablar, mi mujer escuchaba. “Cuando lleguemos al rancho de Alonso, continué, ya estarán podridos.” Me levanté con la decisión tomada, los enterraría en ese momento.

Hice otras tres antorchas que encendí y clavé en el suelo. Y una hora después, en el pedazo de tierra iluminada, el gran pozo ya abierto, me di vuelta hacia mi mujer. Sentada, con la mantilla sobre la cabeza, seguía rezando. En ese momento fue que, saliendo de las tinieblas, corriendo hacia mí, apareció el niño. Cajango, mi ahijado. La sangre ennegrecida de los padres y hermanos estaba en su pelo, en sus manos, en sus ropas. Mi mujer, ahora, no vive para confirmarlo. Pero las estrellas fueron testigos. El niño cayó en mis brazos sucios de tierra y cuando se apartó, la luz de las antorchas mostró su cara. La sombra de mi mujer, proyectada sobre la tumba vacía, revelaba su inmovilidad. No hizo una pregunta, es verdad, pero observé en las líneas del rostro que Cajango ya no era un niño. Todo él cambió, lo sabríamos después. Cuando mi mujer quiso volver a sentarse, le pedí que levantase una antorcha y se distanciara con el niño. El trabajo que iba a realizar me parecía demasiado duro para sus ojos. No quería que viese los cuerpos de sus padres y de sus hermanos en mis brazos de labrador cargados como fardos.

No había tiempo para acomodar los cuerpos en el gran pozo. Casi corriendo, volviendo a ensuciarme con la sangre de los infelices, los cargué uno a uno hasta que la tumba se llenó. Bajo el fuego de las antorchas era una trinchera de guerra. Y, ya un poco exhausto, moviendo la pala, cubrí con la tierra de Januario la sepultura de su gente. Mi cuerpo cansado pudo al fin sentarse. El sudor me lavaba la sangre de los muertos en el pecho. Grité llamando a mi mujer y al niño. Teníamos que bañarnos en la cisterna y partir lo más temprano posible. Después el baño – yo vistiendo ropas de Januario y mi ahijado con ropa limpia, ya cargando sus pertenencias – y una vez que cerramos la casa, pensé en las providencias para conducir las armas y las municiones. Antes, con mis manos, atando los palos de leña con paja, hice la cruz que quedó sobre la tumba. Rezamos frente a ella, en voz alta. Entre nosotros, con el atado a la espalda, Cajango no se movió. La luz, que venía del fuego de las antorchas, golpeaba sobre una cara de piedra.

Rodeé la casa buscando a los animales en el fondo. Sabiendo que los palos y los canastos estaban en la barcaza, allá conduje a la ruana. Y con las armas y las municiones en los canastos tapados con hojas de banano, el niño encaramado sobre ellos, iniciamos el viaje de vuelta. La noche era de luna y con tantas estrellas alcanzaba para que distinguiéramos el camino y los árboles. Al hombro, con mi mujer al lado, traía un rifle. Yo sabía que iba a empezar a llover sangre. Los años fueron muchos, es verdad, pero todavía veo el espanto de Alonso – al fondo de su tapera – cuando narré los acontecimientos. Fue Alonso, y no yo, quien le pidió al niño que contara cómo había escapado.

Hasta entonces no había llorado. No lloró tampoco cuando, sin temblor en los labios, dijo que se acordaba de la madre suplicándole al padre que dejase la fazenda. En el almuerzo de ese día la madre había insistido, temía una desgracia, el padre no podía luchar solo contra la tropa de bandidos. Ayudaba, sin embargo, que estuviera prevenido. Y acostado estaba cuando, oyendo gritos y tiros, se había refugiado detrás de las bolsas de cacao. Había escuchado las súplicas de la madre, el griterío de los hermanos, pero no había oído la voz del padre. Éste ya debía estar muerto cuando él se había despertado. En seguida los gemidos. La voz alta de un hombre que ordenaba: “¡ No dejen a ninguno vivo!”, y los tiros de misericodia para los que gemían. Después todavía había escuchado los gritos de María Teresa que, disminuyendo, disminuyendo, se apagaron definitivamente. Había sentido que los hombres abandonaban la casa, los pasos pesados, y el silencio que por fin dominó todo. Minutos después, saliendo de su escondrijo, la casa en tinieblas, había tropezado con el cuerpo del padre. Se había arrastrado por la sangure en busca de la cocina, temeroso de encender el farol. Y con recelo de que volviese, había ganado el campo, escondiéndose entre el cacao. Poco después había visto la luz en la casa y las antorchas en el campo. Había escuchado los gritos llamándole. Se había acrecado cuando advirtió que era el padrino.

Cuando Cajango hizo silencio, Alonso dijo: “Sabiendo que está vivo cazarán a este niño hasta en el infierno”. Sinhá, su mujer, agregó: “Volverán hoy o mañana para ocupar las tierras”. Era una verdad, pensé yo. En el camino, mientras andaba, pensaba en lo que debía hacer. Más tarde o más temprano sabrían que el niño había escapado vivo. Irían a para con los cascos de sus mulas en las Canoas, en mi fazenda. Y debía protegerme antes de que llegaran allá. Fue allí mismo, en el rancho de Alonso, donde tomé la decisión. No volveríamos a las Canoas.

(…)
_____
Fonte: Filho, Adonias. Cuerpo vivo. Traducción de Estela dos Santos. Buenos Aires, Sudamericana, 1980. p. 15-21.

NOTAS

1 – Establecimiento de explotación agropecuaria o plantación (N. De la T.)
2 – Árbol brasileño, familia anacardiáceas; su fruto es el cajú (N. De la T.)

Categories
ESCRITORES

MEMÓRIAS DE LÁZARO: ROMANCE

MEMÓRIAS DE LÁZARO: ROMANCE
Terceira parte
Adonias Filho
Tremem as mãos ainda agora, mas os tijolos se tornaram negros com o fumo do incêndio. Outra, a sua aspereza. Sobre eles tateiam as minhas mãos, tão brutas como outrora, já inúteis como o meu próprio passado. Fosse possível, neste instante, e voltaria sem elas. Deixá-las-ia ficar, pregadas na parede, como pedaços de carne ainda viva. Contudo, o vento não se deteve, o negro céu parece ter baixado, e eu o único ser a respirar no orvalho o ar que só devia pertencer às árvores e aos arbustos. Além dos meus olhos, acesos como os de um animal, apenas a luz da lanterna. Vista do alto, aparecerá como uma estrela no chão.
E da luz que escoa, trêmula e escassa, brotam para mim os laivos de fogo. As chamas emergem simultaneamente de todos os lugares, transparentes, para que veja a conversão de tudo em cinzas, crepitando a madeira, Jerônimo da boca da sua caverna a sentir na fumaça que sobe como os homens não perdoam os inocentes. Invencível fogo que devora, e se alastra, devorando sempre, para apagar-se quando nada há mais o que arder. Um facho do inferno, de enormes labaredas, que poupa as paredes e perdoa sobretudo a terra do chão.
Volta a ser virgem: a terra. Perecem as nódoas dos pés, extinguem-se os rastos humanos, e o que ressurge é a crosta primitiva do vale. Rosália, porém, ainda dorme no seu bojo. Se o calor das chamas a alcança, não sei. Mas sei que desperto e, despertando, pressinto que Jerônimo não tardará em chegar. Debruço-me, apanho a lanterna, fecho os olhos. O ressoar das asas, agora. Breve, muito breve porque logo se ergue, no pequeno círculo da luz, a desolação que me envolve.
Não se vão ainda, eu peço. Vejam que estou procurando, sobre a toalha de carvão, localizar o quarto. Desorientam-se as paredes. Avanço e recuo, o andar lento, a terra sempre igual. Refaço, lentamente, a arquitetura. Tento medir, com os pés, as distâncias. Identifico afinal o lugar da cama e, detendo-me, calculo rigorosamente. Aproximo-me, repetindo os passos de outrora, e não posso evitar que os lábios digam: “Foi aqui”. Sobre a terra, porém, não há a menor cicatriz. Espessa e endurecida é a terra. O ar não penetra, não imerge o eco do vento, não percebe ao menos o peso do meu corpo. Entre ela e eu, neste instante, mais que um conflito absurdo, a luta que se trava é a da insensibilidade contra a humana vontade de um louco. Contenho a respiração, aguço os ouvidos – mas não a escuto pois nada vem de dentro, um verme não se arrasta, não se exala um vapor, monstruosamente inescrutável a sua rigidez. Pudesse falar, e eu indagaria. Exigiria a confissão de tudo, como absorveu o sangue, e escarnou o peito, e poupou os ossos na lenta imolação do extermínio. Se houve aflição, se os braços não se torceram em torno do tronco, fantásticos, tentando abrigar o resto da inexorável podridão. Não lhe foi dada, porém, a voz.
Afasto-me, temendo que o tempo desfaça a noite, já receando me possam ver, a mim, que devia ter sido queimado com a minha casa, os meus porcos, a minha terra. Densas, porém, são as trevas. Longe, a manhã. Possível ainda, único na solidão, contemplar o vale agora sem tamanho, restritas as suas fronteiras, toda sua presença concentrada nas paredes negras. Sei que são fortes as rajadas do vento. Mas o que se arremessa, varando as sombras para encontrar-me, é o grito exasperado de um homem.
Encosto-me à parede para não cair. Fecho os olhos para não ver. Atraiçoam-me as pobres mãos, trêmulas e desgraçadas. E o grito se torna vivo, tão físico quanto as bofetadas de Jerônimo no meu rosto.
(…).
Quarta parte
II
Desfaça-se, no fundo do vale, este eco que já não me pertence – mas ao vento que nos cerca, como combatentes invisíveis, neste pedaço de terra. Fujam, todos, neste instante. Já não preciso de ouvidos humanos, dispenso a compaixão e a misericórdia, que todos se afastem. Estas paredes mudas, que caiam, com estrondo. Apague-se a lanterna. Venha a luz, com a manhã, e sustente no vale a sua cólera. Jerônimo, eu sei, chegará muito tarde.
Agora, unicamente o maravilhoso caminho, aquele caminho que se não pode comparar à estrada do vale, mas o caminho que se abre, aos meus olhos, pela mão de Abílio, meu pai. Vejo-o, na frente, a guiar-me. Em volta, o que resta é o negro. O meu pobre coração já não enxerga, inúteis as minhas mãos – não mais doem, no meu corpo, as feridas. O cérebro não interroga, a língua não fala. Mas andam os pés, vagarosos.
É possível que os vivos já não me possam alcançar. Em silêncio, malditos espectros sem morada nos mundos, é possível que me espreitem os mortos. Rosália, a quem não conheci. Espreitem, esperando, mas sem ânsia. Chegarei a eles, em breves minutos, porque o caminho que me leva não é longo e infinito como a estrada do vale.
Meus pés resvalam, o corpo tomba, a boca sem um grito. É pútrido o último ar. O lodo que me absorve, e asfixia, no canal é viscoso. Ocultam-se, num corte fulminante, o vale e o vento. Tudo se vai fechando, aos poucos, com serenidade e imensa quietude.
___________________________
Fonte: FILHO, Adonias. Memórias de Lázaro: romance. Rio de Janeiro: O Cruzeiro, 1952. p. 95-96, 165.
MEMORIES OF LAZARUS
Part three
Adonias Filho
My hands tremble even now, but the bricks have turned black with the smoke from the fire. Their roughness is different. As brutal as in the old days, as useless now as my own past, my hands grope over them. If it were possible, at this moment, I would return without them. I would let them remain, nailed to the wall, like pieces of still living flesh. Nevertheless, the wind has not subsided, the black sky seems to have lowered, and I am the only creature who, midst the dew, breathes the air that should belong only to the trees and shrubs. Except for my eyes, shining like those of an animal, there is only the lantern light. Seen from above, it will appear to be star on the ground.
And from the light that floats out, faint and shimmering, I seem to see tongues of fire springing up. The flames, transparent, emerge simultaneously from all sides, so that I may see it all turned to ashes, the wood crackling, Jeronimo from the mouth of his cavern sensing in the rising smoke how men never forgive the innocent. Invincible fire that feeds and spreads, ever devouring, and goes out when there is nothing left to burn. A hellish firebrand, with towering flames, that saves the walls and especially spares the dirt floor.
The earth is virgin once more. Gone are footprints, every human vestige is expunged, and what reappears is the primitive crust of the valley. Rosalia, however, is still asleep in its pit. If the heat of the flames are reaching her, I do not know. But I do know that, awakening and awake, I have a presentiment that Jeronimo will not be long in coming. I bend over, take hold of the lantern, close my eyes. The resounding of the wings, now. Only for a moment, a brief moment, because immediately there arises, in the little circle of light, the desolation that surrounds me.
Do not go away yet, I beg you. Observe that, in the layers of charred rubble, I am attempting to locate the bedroom. The walls keep disorienting me. I go back and forth, walking slowly, over earth unvaryingly even. Slowly I reconstruct the architecture. With my feet, I try to measure the distances. Finally I locate where the bed was and, pausing, make my calculations painstakingly. I draw near, retracing my steps of times past, and I cannot prevent my lips from saying: “Here is where it was”. On the dirt surface there is not the least scar. The earth is compact and hard. The air cannot penetrate it, the wind’s echo cannot sink in, it does not in the least perceive the weight of my body. Between it and me, at this moment, rather than an absurd conflict, the struggle being waged is that of insensibility against the willpower of a madman. I hold my breath, prick up my ears – but I cannot hear it as nothing comes from inside, no worm is crawling, no vapor is being given off, its rigidity monstrously inscrutable. If it could speak, I would ask it questions. I would require a complete confession, how it absorbed the blood and stripped the breast of flesh, and spared the bones, in the slow ritual of extermination. Whether there was pain, whether her arms did not twist around her trunk, grotesquely, trying to protect her remains from inexorable corruption. It was not, however, endowed with voice.
I draw away, fearing that time will rout the night, already afraid lest I be seen, I who should have been burned with my house, my pigs, my land. But the shadows are dense. Morning, far away. Alone in this remoteness, it is still possible for me to contemplate the valley now devoid of magnitude, its boundaries restricted, its entire presence concentrated between the blackened walls. I am aware that the wind blasts are strong. What comes hurtling, parting the shadows to find me, is the anguished shout of a man.
I lean back against the wall, in order not to fall. I close my eyes in order not to see. I am betrayed by my poor hands, trembling and ill-fated. And the shout comes alive, as physical as Jeronimo’s blows on my face.
(…).
Down there in the valley, let this echo fade that belongs not to me but to the wind that encircles us, like invisible combatants, on this piece of ground. Everyone, this moment, flee. I no longer need human ears, I can dispense with compassion and pity. Let everyone stand back. These mute walls – let them come down with a roar. Put out the lantern. Let light shine, white the break of day, and confirm in the valley the wrath of the valley. Jeronimo, I know, will arrive too late.
Now, there is only that marvelous road, the road that cannot be compared to the road in the valley, but the road that opens, before my eyes, at a sign from Abilio, my father. I see him, ahead there, guiding me. All around, the rest is blackness. My poor heart can no longer see, my hands are useless – there is no more pain from the wounds in my body. My brain forms no questions, my tongue is not speaking. But my feet keep on walking, ever so slowly.
It is possible that the living can no longer reach me. Silently, like doomed specters homeless among the worlds, it is possible that the dead have spied me. Rosalia, whom I cannot see. Nathanael, whom I cannot hear. Paula, whom I did not know. Let them observe, in expectation, but without anxiety. I shall reach them, in a few minutes, because the road that takes me is not long and infinite like the road in the valley.
My feet slip, my body falls, my mouth giving no cry. The final air is foul. The mud that absorbs me, and asphyxiates me, in the slough, is viscous. With a lightning suddenness, the valley and the wind are hidden. Everything comes to a close, gradually, with serenity and immense quietude.
_______________
Fonte: FILHO, Adonias. Memories of Lazarus. Translated by Fred P. Ellison. Austin: University of Texas Press, 1969. p. 95-97, 170.