O HOMEM DO PLANETA AUSCHWITZ – Texto de Miriam Halfim


O HOMEM DO PLANETA AUSCHWITZ – Texto de Miriam Halfim

Teatro Laura Alvim. 6ª, sáb., dom. Estreia: 1º julho 2022. Até 31 julho 2022 e Funarj e Arcos produções. Vendas: funarj.eleventickets.com

 

Direção: Ary Coslov

Atores: Mario Borges e Susanna Kruger

Cenário: Marcos Flaksman

Figurino: Wanderley Gomes

Trilha sonora: Ary Coslov

 

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O SOBREVIVENTE DA ESTRELA AMARELA

REFLETIDA NOS ASTROS

 

Luiza Lobo*

 

No seu mais recente texto dramático, Miriam Halfim retoma o comprometimento com o teatro engajado, de ideias, que tanta falta faz nesses tempos hedonistas e negativistas pós-modernos. É um espetáculo forte, impressionante, montado num cenário em negro, com uma cerca de arame farpado, criação de Marcos Flaksman. A direção, de Ary Coslov, é segura, e os atores têm voz alta, impactante e convincente.

É claro que a falência da filosofia humanista ocidental já fora acusada desde Nietzsche, mas foi justamente com o nazismo que se abriu a maior brecha no pensamento e na política de Estado dos povos ditos civilizados e eruditos. A peça focaliza um encontro imaginário entre o escritor judeu polonês Yehiel De-Nur e a cientista política Hannah Arendt, que se exilou nos Estados Unidos ainda em 1933, portanto antes da criação dos guetos e dos campos de concentração nazistas. Arendt defende uma análise objetiva dos fatos, enquanto De-Nur, sobrevivente de Auschwitz, se choca com sua frieza, numa postura emocional.

A discussão imaginária entre os dois tem como ponto de partida um artigo publicado por Arendt na imprensa, intitulado “Eichmann em Jerusalém”, que foi amplamente criticado pela imprensa. Ali, ela expôs sua teoria da “banalidade do mal” e defendeu um processo dos nazistas de acordo com as regras jurídicas, inclusive o de Adolf Eichmann, chefe do campo de extermínio de Auschwitz, como o que foi realizado em Nuremberg, na Alemanha. Para Arendt, justiça e mídia são dois polos incompatíveis. De seu lado, De-Nur alega que esse julgamento frio e técnico nada mostrou da atrocidade praticada, nem do sofrimento humano das vítimas, exterminadas sem qualquer possibilidade de defesa e sem culpa por qualquer crime, e que, portanto, não comoveu a opinião pública. Alega que, em face da barbárie do genocídio, exigir uma justiça “normal”, como a de um país democrático, seria um ato de frieza e insensibilidade, e defende o julgamento realizado em Jerusalém, após o sequestro dos principais mandantes nazistas e sua condenação à morte. Para ele, o artigo de Arendt é uma prova de elitismo racional e universitário, distante do sofrimento das vítimas que foram brutalizadas e exterminadas sem razão. Segundo ele, só um julgamento emocional, como o realizado em Israel, com apoio da mídia, poderia ao menos em parte resgatar a atrocidade dos atos praticados por Adolf Eichmann.

Em seu artigo, Arendt caracterizou a “banalidade do mal” como o cumprimento de ordens sem raciocínio próprio nem discussão delas, numa atitude burocrática, de subserviência, sem visão crítica. Ela partiu do aspecto intelectual, individual, pontual, da questão. Já De-Nur se preocupou com a repercussão coletiva da opinião pública – tanto que passou a escrever diversos livros sobre o ocorrido nos campos de extermínio e visitou escolas, para conscientizar os jovens. Arendt acusa De-Nur de não ter confrontado Eichmann, ao ser interrogado no processo de Nuremberg. Ao invés, ele falou de astrologia, de estrelas e até desmaiou. Ele se justifica afirmando que a frieza e o riso cínico do carrasco, encerrado na sua confortável e protegida cabine de vidro, o fizeram silenciar. E a acusa de ter se refugiado nos Estados Unidos assim que possível, ter vivido como professora, longe dos fatos, e ter convivido com um antigo simpatizante das ideias nazistas.

A dramaturga opõe, no debate imaginário entre os dois protagonistas, a inclinação teórica de Arendt, com sua formação de cientista política e apreço pelo pensamento racional, a sociedade democrática e bem constituída, com leis em vigor, e a inclinação para a emoção de um sobrevivente quase por milagre, e marcado psicologicamente pelo dia a dia do holocausto. A pior crítica de Arendt, a meu ver, é de que os judeus não teriam se rebelado, teriam aceitado seu destino e até acreditado que iriam apenas trabalhar – e não seriam exterminados nos chamados “campos de trabalho” alemães.

A questão primordial da peça gira em torno do conflito entre racionalidade e emoção. Arendt contesta a emotividade propagada pela mídia e a necessidade de espetacularização dos fatos do cotidiano (conforme a definiu Guy Debord em A sociedade do espetáculo, obra de 1967). De-Nur se horroriza com a frieza metódica e científica da teórica, incapaz de viver na própria pele o sofrimento humano, e exigindo um julgamento justo para aqueles que criaram a mais injusta das tiranias da sociedade moderna. Inclusive porque alguns sobreviventes do holocausto terminaram por se suicidar, por não suportar o sofrimento que sentiram até o final de suas vidas. Afirma que, diante de crimes que ultrapassam o humano, leis “normais” não são suficientes para punir o chefe do campo de concentração nazista. Principalmente porque no pós-guerra os principais chefes já tinham fugido do país e trocado de identidade, alguns vivendo escondidos em países como Argentina e Brasil. Hoje é conhecido o preparo logístico de Hitler para uma fuga para a América do Sul, com a construção de ferrovias entre Buenos Aires e a Patagônia argentina e de moradias fortificadas naquele extremo, e de uma rede de apoio de neonazistas. No Brasil, também houve apoio para eles, com refúgio em hotéis distantes, onde, até, organizavam congressos que fomentavam o nazismo, em um hotel de Itatiaia.

Creio que a questão que a peça impõe é a exigência de um processo técnico, jurídico, legalista e democrático diante de crimes de exceção bárbaros dirigidos contra a humanidade, que passaram por cima de qualquer lei civilizada. Sem a emoção do povo e a indignação provocada com a divulgação pela mídia, haverá realmente a conscientização coletiva de forma que semelhantes crimes de genocídio não voltem a ocorrer? Por outro lado, é possível sequestrar criminosos de guerra e julgá-los, como ocorreu em Israel, ao arrepio da lei “normal”? Mas que “normalidade” existiu na própria criação de guetos e campos de extermínio, quando pessoas foram condenadas ao sofrimento, ao trabalho forçado, à fome, à morte, à destituição de seus bens e identidade, sem terem cometido crime algum?

Apesar de não ser correto realizar julgamentos sem seguir todos os trâmites jurídicos – que, aliás, levam décadas e não possibilitariam a punição dos criminosos, devido a sua idade avançada, por terem se escondido e trocado de identidade – dada a excepcionalidade dos fatos ocorridos, e sabendo-se quantos “julgamentos” políticos extrajudiciais ocorrem pelas mãos de espiões, da CIA, da KGB russa etc, a visão de De-Nur confronta o purismo acadêmico, de aguardar que o braço da justiça normal atingisse aqueles genocidas a tempo.

Interessantes analogias são traçadas por Miriam Halfim com nossos tempos atuais no Brasil e no mundo. Como reagir, que fazer nas ditaduras ou nos governos não democráticos? Como poderiam reagir as vítimas dos guetos e dos campos de concentração, dada a desigualdade de recursos? Estes, em suas casas, destituídos de tudo; os algozes, munidos do poder total do Estado e das mais poderosas armas dos SS. E por que não reagiu a própria população alemã, que via passarem trens de gado carregados de seres humanos em condições insuportáveis, de forma pior que o gado? Por que as ditaduras fazem silenciar os povos?

O artigo de Arandt define a banalização do mal numa perspectiva teórica, individual. Prende-se à falta de consciência e pensamento sobre os próprios atos. É uma resposta teórica da cientista política no âmbito individual da consciência racional para um problema que na verdade é da alçada da política, da coletividade e da sociedade – portanto da mídia, também, conforme alega o escritor Yeliel De-Nur. Ele afirma que no primeiro interrogatório de Nuremberg falou de estrelas e de astrologia como a única forma de expressar o sofrimento que sentia pelo seu estranhamento de que neste planeta o holocausto pudesse acontecer. Na verdade, só essa metáfora poderia representar todo o sofrimento humano vivido pelos judeus assassinados. Assim, por condensação metafórica, a estrela do céu remete à estrela que as vítimas eram obrigadas a usar no peito, desde que foram aprisionados em guetos. (Mas essa é uma longa história trágica, que já ocorria desde a Idade Média, na ascensão do mercantilismo, como estratagema para a impor a hegemonia religiosa cristã e seu domínio sobre as finanças e o Estado moderno emergente).

O mais importante, nesse renovado teatro de ideias, é o fato de estimular a abertura de debates, indagações, pesquisas. Só esse questionamento possibilita entender a questão do judaísmo no contexto do capitalismo cristão, que desde seu início utilizou as divergências religiosas como ponto de partida para a criação de um bode expiatório ocidental – quando, na verdade, a questão era quem deteria o capital e o poder.

Quando, ao final do espetáculo, os dois protagonistas bebem juntos um copo, combinam seus dois pontos de vista, a razão, e a emoção. O público então compreende a divergência milenar da guerra entre o bem e o mal, que reaparece na política sob diferentes disfarces. Impõe-se, como expõe Hannah Arendt em seu artigo, a necessidade de um pensamento lúcido e autocrítico sem descanso; mas também, como alega De-Nur, de sensibilidade e emoção, para que se transformem consciências e mentalidades. E isso só pode ser vivenciado e percebido pela emoção.

Estão de parabéns a autora e a equipe técnica desse belo espetáculo nesses tempos de retorno do mal. Filmado e distribuído na Internet, ele poderá atingir um público ainda mais amplo.

 

Rio, 11 de julho de 2022.

 

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* Luiza Lobo é professora aposentada e ex-pesquisadora 1 da UFRJ, entre outras universidades nacionais e internacionais. É autora de 20 obras, sendo as mais recentes Cânone e renovação do cânone em literatura (antologia de ensaios, Amazon 2019) e dois romances: Fábrica de mentiras: do Vale do Café ao Arco do Triunfo (RJ, 7Letras, 2022) e Terras proibidas: o Vale do Café (RJ, Batel, 2022).