Revista LitCult – Vol.8- 1. semestre 2015



VALTER HUGO MÃE NA CENA LITERÁRIA CONTEMPORÂNEA – Danilo Sales de Queiroz Silva





 

DANILO SALES DE QUEIROZ SILVA

UNIVERSIDADE FEDERAL DA BAHIA

DOUTORANDO EM LITERATURA E CULTURA (BOLSISTA FAPESB)

 

Resumo: Levando em consideração o surgimento e, principalmente, a posição de destaque que ganha o autor angolano no campo literário atualmente, propomos entender sua participação na cena literária por meio dos fios discursivos presentes em sua ficção (formando uma espécie de “família literária”, que pode salvar-nos da solidão) e também através de suas aparições públicas, com destaque para a participação na Festa Literária de Paraty de 2011, investigando como se promove e se imputa uma assinatura que, em muito, beneficia o escritor.

Palavras-chave: Valter Hugo Mãe, autoria, Literatura Comparada, Literatura contemporânea.

 

 

Abstract: Due to the top position reached by the Angolan author, we try to analyze his participation in the contemporary literary field, through the discursive threads on his fiction – imaginary structuring a “literary family”, a perception that literature can save us from solitude – and through Valter Hugo Mãe’s public showings, particularly his participation in the literary festival in Paraty, 2011, investigating how Mãe’s signature is formed and the way it can profit the writer.

Keywords: Valter Hugo Mãe, author, Comparative Literature, Contemporary Literature.

 

 

 

“Um homem chegou aos quarenta anos e assumiu a tristeza de não ter um filho”. A frase, retirada do romance O filho de mil homens e aplicada ao protagonista (Crisóstomo), poderia também servir ao escritor de origem angolana. Durante a Festa Literária de Paraty em 2011, com 39 anos, Valter Hugo Mãe – que à época ainda assinava em minúsculas – revelou ter grande desejo de ter um filho.

Coincidência, representação ficcional de seu desejo, puro artifício na construção de um personagem que em nada reflete sua vida. Nenhuma das hipóteses descartadas, seguimos neste trabalho a ideia de que um ponto importante no surgimento e destaque que ganha o escritor contemporaneamente na cena literária advém do entrelaçamento entre sua vida e obra, ou melhor – para retirar o caráter algo determinista desse enlace “vida e obra” –, da simpatia causada pela figura carismática que Mãe apresenta durante suas aparições – conquistando cada vez mais leitores, como foi possível perceber na FLIP de 2011. Em outras palavras, durante suas aparições públicas, o autor, cujos romances já foram aclamados por instituições de prestígio (ganhou os prêmios Almeida Garret, José Saramago e dois Telecom), chama a atenção do público pela sua participação comovente, emocionante, sensível ou brincalhona: durante a FLIP arrancou lágrimas e aplausos da plateia; em entrevista circular dada ao programa Roda Viva, foi muito aclamado pelos debatedores.

Propomos um estudo sobre a posição do escritor angolano Valter Hugo Mãe no campo literário, levando em consideração que uma das estratégias mais fortes seja a criação de uma espécie de “teia” literária – com outros autores, outros campos artísticos em que atua – dando a ele lugar de distinção na circulação literária atual. Consideramos importante analisar de que modo sua rede de conexões tornou possível ou, ao menos, facilitou essa ascensão aos louros da crítica e do público. Também tentaremos, simultaneamente, entender como essa teia foi responsável pela formação/ratificação de uma assinatura: já anunciada no tom religioso com que fecha o romance supracitado (O filho de mil homens), parece ter ganhado ainda mais força após seu discurso emotivo na festa, garantindo ao autor os mais variados (e “doces”) epítetos – doravante citarei, sempre entre aspas, os epítetos utilizados pelas matérias midiáticas que cito na bibliografia (notadamente a Veja e a GloboNews). Antes de prosseguir, delimitamos o estudo à interpretação de seus romances e à maneira como o escritor foi acolhido pelo público e crítica brasileiros, enfocando na sua participação na FLIP – momento em que Mãe passou de quase desconhecido a “queridinho” – e na recepção que aqui teve.

Faz-se necessário introduzir duas premissas que foram colocadas no parágrafo anterior. Primeiro, em relação à importância do seu nome na cena literária atual, considero o autor de grande fama por alguns aspectos. Pela sua posição de destaque devido aos diversos prêmios literários, dentre eles o José Saramago em 2007, que rendeu para o escritor uma fala muito emocionada e elogiosa do autor que deu nome ao prêmio. Saramago disse ter, por vezes, assistido a um novo nascimento da língua portuguesa, classificou o livro O remorso de Baltazar Serapião como um tsunami literário e classificou Mãe como promessa de um arejamento na língua e literatura. Usando daquilo que Bourdieu denomina “poder de consagração”, Saramago nos parece ser o pontapé inicial para a formação da trajetória de sucesso do autor angolano. Não seria, entretanto, uma ratificação feita ao acaso: com traços que foram marcadamente atribuídos a Saramago (uso diminuído de pontuação, diálogos intercalados com a narrativa, além do trabalho com a linguagem), Mãe recebeu os louros da crítica especializada, já acostumada e seduzida pela estética da narrativa utilizada pelo escritor português.

Vale lembrar que o nome do protagonista de Mãe remete ao nome de um dos personagens caros a Saramago (Baltasar), e a trama d’O Remorso compartilha um “ambiente” (a pobreza, a família reunida, o trabalho extenuante), em alguns aspectos, similar àquele apresentado durante a narrativa do Memorial do Convento. Apesar de tais fatos não constituírem para nós objeto de crítica negativa, já que a influência de um autor sobre outro nos parece processo constitutivo natural de toda escrita, é interessante notar essa situação como uma espécie de continuidade de um círculo literário estável. Diríamos que se embasa aí, nessa continuidade e nessa consagração por autor de grande prestígio, a posição privilegiada alcançada por Mãe, alçando-se a uma posição dentro da hierarquia interna do campo literário por uma demanda dos autores já “consolidados” e da crítica institucionalizada. Consideramos, contudo, que sua posição também é galgada por uma “expectativa e (…) sanção anônimas do mercado” (BOURDIEU, 2010, p.247), visto que a expansão de sua fama não coincide diretamente com os elogios e prêmios recebidos, mas antes se dá pela sua diferença em relação aos antecessores. Falamos aqui, mais especificamente, sobre a ideia de que o surgimento (ou reconhecimento) da narrativa e da performance do escritor está provavelmente coadunada com uma espécie de demanda do público e do mercado editorial, que encontrou em Valter Hugo Mãe terreno fértil para a exposição de características que parecem estar, simultaneamente, em falta e em procura. São elas, basicamente, a empatia e o carisma, mas voltaremos a esse ponto mais adiante.

Além de muito laureado (como já foi dito, ele acumula até agora quatro prêmios de grande valor no campo literário), desde 2012, Mãe tem um programa de entrevistas na televisão portuguesa. Também é cantor e compositor de Governo, uma banda caracterizada pelo escritor como “pós-fado”. As letras das músicas do grupo – muitas de autoria do angolano – levaram-no a certo sucesso e a uma “descoberta”, por parte de curiosos, de suas primeiras obras literárias – poemas de difícil acesso ainda no Brasil. Essa inserção em diversos espaços é constitutiva da teia literária de que falamos antes, e constitui a segunda premissa que carecia de definição.

Chamo de “teia” um conjunto muito díspar de conexões. No campo literário, seja como autor – em que fala de escritores estimulantes (os quais ele denomina de “pais e mães” na “nota do autor” em O filho de mil homens) –, seja como editor – publicando obras de portugueses e brasileiros com os quais busca ter mais proximidade –, o escritor tenta criar uma espécie de família literária para dar lastro ao seu discurso ficcional. Chamo aqui de família uma tentativa dupla: a de criar laços afetivos com os demais artistas e a de indicar uma filiação, uma influência mais “profunda” do que indicaria uma simples leitura dos seus predecessores. Além disso, seu trabalho em outras áreas, como a música e a televisão, também conferem ao nome dele grande circulação na cena artística em geral.

Tomo as palavras de Mãe na “nota do autor” que aparece ao final do livro O filho de mil homens, uma espécie de prólogo explicativo ou suplemento ao livro. Depois de contar uma história convencional sobre uma criança na ânsia de conseguir alguns biscoitos (supostamente o autor na infância, posto que inscreve essa história fora dos demais capítulos do romance), Mãe desloca o momento que – parece-nos – seria o mais esperado: o momento de devorá-los. Nessa história, contudo, a criança gostaria de consegui-los para, em seguida, guardá-los. Numa espécie de mundo místico, envolto pela pureza e pelo tom sacrificial das imagens dos santos católicos na casa da senhora que oferecia os biscoitos, o menino imaginava as almas daqueles santos recheando os biscoitos que o faziam estremecer, e imaginava-se impuro se os comesse, “assim como achava terrível que se comesse o corpo de deus nas hóstias”.

Refletindo sobre essa atitude da criança, em tom saudoso, Mãe fala de um sentimento que parece guardado às crianças e que gostaria de retomar:

 

[O] sentimento, que na sua plenitude talvez se reserve às crianças, de acreditar que alguém cuida de nós segundo o nosso mérito. Quando se perde essa convicção, fica-se irremediavelmente sozinho. Os pais e os filhos são o único modo de interferir positivamente nessa solidão

Sei bem que sou filho de mil homens e mais mil mulheres. Queria muito ser pai de mil homens e mais mil mulheres. (MÃE, 2010, p. 203-204)

 

De tom inicialmente religioso, a narrativa passa a falar de um sentimento que está como base de um medo e de uma graça – o escuro da casa da senhora e o rosto dos santos em piedade deixam o menino acuado, enquanto a possibilidade de se fazer um menino melhor aparece na sua diferenciação em relação aos demais, afinal de contas, ele recusa o prazer da “gula”.

O sacrifício que faz o menino para guardar os biscoitos (descobrimos depois que ele possui uma vasilha onde estão armazenadas várias outras guloseimas) parece, então, a solução encontrada por ele para manter-se longe do outro lado da moeda sacra: a carnificina. Esse tema – o embate entre o sagrado e o mundano, o divino e o infernal, a virtude e o vício, vida e morte – de forte orientação cristã foi abordado pelo escritor em outras obras, como é o exemplo de Nosso reino, romance em que dois garotos fazem um pacto em favor da santidade, formando um par oposto a outro personagem do livro – um monstro triste e sombrio, de aspecto melancólico e sobrenatural, que vaga nas ruas assustando as pessoas e devorando lixo. Neste romance, a exigência de santidade de um dos meninos chega ao ápice pela recusa a tudo aquilo que seja fruto da dor, mantendo-se firme no propósito de fazer o bem e ser santo. O desenlace da narrativa, porém, mostra a faceta contrária da santidade, quando o menino, depois da morte de seu amigo com quem fez o pacto e por conta das suas escolhas, vira ele mesmo o substituto do monstro triste que ronda o bairro.

Citamos o romance por considerarmos aí, especialmente pelo entrelaçamento do viés adotado na narrativa de ambas as histórias, o surgimento de uma assinatura que apela para o universo da moral e conduta religiosas. Dialogando majoritariamente com o cristianismo dos países de língua portuguesa – referimo-nos a Brasil e Portugal, países em que Mãe já goza de bastante prestígio –, o autor se faz valer dos pressupostos dessa cultura para criar a sua assinatura, que, parece-nos, assume uma posição ambígua, entre a admiração por alguns conceitos e a crítica ao comportamento extremado. Com essa posição, acreditamos que o autor criou uma marca que, se não permite identidade pelo caráter instável de toda assinatura, foi constantemente modulada nos romances iniciais e parece, ao menos a partir de O filho de mil homens, ter atingido um sinal de contestação crítica maior do que o observado anteriormente.

Quando do seu estudo sobre Machado de Assis, Abel Barros Batista explicita, na esteira de Derrida, o valor e a função da assinatura:

 

(…) não é exatamente o nome próprio de autor que difere dos outros, mas a operação de assinatura que o cinde, permitindo-lhe continuar a designar um indivíduo, anterior à obra e seu primeiro agente, do mesmo passo que descreve já não o indivíduo, mas a obra: por efeito da assinatura, o nome converte-se em nome de obra, mais ainda, em nome de certa maneira, de certo estilo, ou, em termos machadianos, de certa “feição do livro”, imitável, repetível, reprodutível sem laço necessário com alguma interioridade ou individualidade original. (BAPTISTA, 2003)

 

E é desse modo que pensamos esta assinatura que agora imputamos a Mãe a partir da nossa interpretação dos seus romances. Apelamos a uma assinatura que incorpora o autor a certo estilo, a certa “feição do livro”. Pensamos que a percepção de um tema como centro do trabalho do autor pode nos ajudar a discutir sua ascensão no campo literário – sem, com isso, estancar os sentidos dos romances, posto que a assinatura é por nós imputada e, portanto, criação do nosso trabalho. Portanto, analisamos agora o investimento que percebemos estar em obras do autor: pensar uma conduta moral, dentro do catolicismo majoritário dos países com que tem maior diálogo. A reflexão sobre tal conduta parece despontar tanto na criação dos seus personagens quanto nas suas aparições públicas. Tento, doravante, explicitar estas hipóteses.

No romance A desumanização, o escritor narra os dias de uma menina que perde a irmã gêmea ainda criança, e, a partir desse eixo da morte como interrupção abrupta da pureza, também nos é apresentado o mundo de uma infância que se segue em meio à perda. Via de mão dupla, esse novo romance parece tensionar as duas oposições colocadas anteriormente sob o nome de assinatura: o emparelhamento ou confronto entre a vida e a morte, assim como certa admiração/rechaço pela cultura cristã. Explicamos: o fato de as irmãs serem gêmeas provoca um movimento duplo, a saber, por um lado, a vida e morte parecem coexistir, já que sempre foram tratadas como iguais (a mãe das meninas, que entra em depressão profunda e fica sorumbática, pensa que não tem mais filha e, ao ver a gêmea que ainda vive, acaba por se multilar), por outro lado, a gêmea viva fica responsável pela salvação da alma de ambas, uma tarefa tão bela quanto sacrificial e impraticável. Detemo-nos aqui, tirando da nossa interpretação apenas as conclusões que parecem servir também ao romance O filho de mil homens e à assinatura que a partir deste livro formulamos para o autor.

Por um lado, o tom emotivo nessa e em outras histórias referentes à vida ou a infância do escritor aparece não só como uma ode à bondade, mas também como formador do mito do aspecto ultra emotivo que circunda a figura de Mãe. Falo aqui no termo figura, porém, com uma concepção simples de imagem que nos chega a partir de seus livros, seus relatos, entrevistas, etc. Parece interessante pensar em como esse aspecto tem uma relação forte com o país escolhido pelo autor – vale lembrar que mãe é angolano de nascimento, mas, filho de portugueses, mudou-se para o país europeu com dois anos e lá mora até hoje – cuja cultura se baliza muitas vezes pela “sentimentalidade, ligada à história nacional” (LOURENÇO, 1999). Sentimentalidade investida pelo autor, que é também cantor de fados, ou pós-fados, como prefere assumir.

Tal aspecto, qual seja o mito criado em torno do escritor angolano como “emotivo por excelência”, deu-lhe inclusive o epíteto “fofo”, como ficou conhecido depois da participação em Paraty (Veja, Julho de 2011). O mesmo aplicar-se-ia às suas postagens e comentários nas redes sociais, além de sua escrita, com metáforas imagéticas (uma noiva que se veste de luz “como se caísse de um candeeiro” ou um homem que, consumido pelos pensamentos, entrava em queda livre e “caia para dentro de si mesmo”, ambas imagens do romance O filho de mil homens) e diálogos com ensinamentos sobre retidão moral e delicadeza. O escritor diz preocupar-se em fazer de suas narrativas mais do que um trabalho intelectual, transformando seus livros em “máquinas de fazer sentir” (como dito em entrevista à GloboNews).

Se esse tom emotivo nos leva a pensar na mitificação da figura do autor (que nos parece algo corroborada pela postura de Mãe), parece possível traçar um paralelo com a ideia esboçada por Mukarovsky no seu texto sobre “A personalidade do artista”.

Falando sobre as modificações por que passa o conceito de “artista” e da circulação desse nome enquanto figura no campo literário, o autor deste texto detém-se no exame dos diversos aspectos distintivos que funcionaram como conceituação da figura do artista. Entre as diversas valorações que Mukarovsky traz à baila para definir como essa personalidade funcionou no decorrer da história, chama a atenção o modo como este autor trata a ideia de gênio, inventada no Romantismo e definida como uma “espontaneidade criadora”. No texto, em discussão posterior, quando, percebendo o agonizar dessa concepção datada (artista como gênio inspirado e criador por natureza), Jan Mukarovsky afirma que, mesmo sofrendo diversas modulações, não temos uma história de ruptura em relação a esse conceito de artista, mas sim uma continuidade (MUKAROVSKY, 1993, p.276-281). Essa continuidade diz respeito à personalidade diferenciada do artista – excêntrico, exótico ou de qualquer modo diferente. Essa ideia de personalidade artística nos parece de grande valia para pensar a ascensão do escritor emotivo Valter Hugo Mãe.

Tentamos explicar-nos melhor: se a personalidade do artista estava conectada à ideia de gênio criador, agora, ousaríamos dizer, talvez a “personalidade do artista” paire sobre a ideia – muito generalizadora, muito aberta, talvez muito própria à nossa época – de diferenciação. Assim funcionaria a criação de uma imagem de artista à nossa época: menos por uma genialidade original do que por uma diferenciação em relação aos demais escritores. No caso de Mãe, uma diferença que o marca como emotivo, apaixonado ou “fofo”, dando vazão talvez para uma retomada da ideia de que o escritor se exprime/expressa.

Tal ponto nos remete a uma ideia esboçada anteriormente: a de que a consagração de Valter Hugo não dependeu exclusivamente do poder exercido pelos autores canônicos, nem foi determinada por um sistema interno que recoloca diversos autores em posições já estabelecidas, nem mesmo de que o seu reconhecimento seria fruto de uma estrutura permanente. Parece-nos que a posição ocupada pelo escritor angolano é fruto de uma espécie de dialética de duas demandas consideradas por Bourdieu: as forças dominantes externas (os grandes centros produtores e difusores) e as revoluções internas (as mudanças e os espaços abertos ou transformados dentro do campo literário). Consideramos ainda mais: o reconhecimento atingido pelo escritor deve corresponder a uma expectativa de mercado que, acreditamos, talvez com mais esperança do que pessimismo, corresponda a uma necessidade do público de um tom emotivo, tal como o empregado por Mãe. Sobre essa expectativa e necessidade falaremos mais adiante, cabe agora entender o funcionamento desse tipo de tom discursivo (ficcional ou não) no campo literário de que participa.

De que forma esse tom, encontrado nos seus textos literários, reafirmado nas suas entrevistas e condensado no discurso comovente da FLIP de 2011, corroborado por suas canções sentimentais entoadas em voz grave nos fados portugueses que ele reelabora – enfim, de que forma esse tom funciona? Não seria (também) uma estratégia de ficcionalizar o escritor e forjar sua identidade artística dentro do universo literário do qual participa? Reinaldo Marques, em seu texto sobre as imagens do escritor, fala sobre a “inserção do escritor no espaço da mídia”, destacando especificamente o funcionamento da Festa Literária Internacional de Paraty como o planejamento da guinada dos escritores (MARQUES, 2012, p. 61). Foi justamente nessa festa que o escritor ganhou destaque para os leitores brasileiros, tendo depois diversos livros seus publicados por editoras brasileiras de grande circulação.

Na citada matéria da Veja, o escritor afirmou ter sido acompanhado na FLIP todo o tempo por um cinegrafista carioca, contratado pelo seu editor. Preparou um texto comovente sobre uma família brasileira de quem foi vizinho e que muito o agradou por serem tão solidários – o texto foi publicado após a participação. Recebeu pedido de casamento por uma leitora no momento do autógrafo e afirmou em entrevista a vontade de ter um filho. Cantou um dos fados, emocionou novamente os ouvintes e falou jocosamente sobre as diferenças entre os sotaques do português europeu e brasileiro. Tornou-se figura carismática na feira – a mesma revista chegou a publicar que o nome cotado para “estrela literária” seria a escritora argentina Pola Oloixarac e que os dois teriam “trocado farpas”. Além disso, sua identidade foi ficcionalizada para receber o nome mãe. Tudo isso destaca o funcionamento de uma exposição controlada para promover um escritor. E é nesse sentido que entendemos o funcionamento desse tom emotivo também em função de uma exposição midiática programada com fins de estrelato dentro do campo literário. Mas não apenas.

De que forma esse tom emotivo empregado nos discursos (no discurso ficcional, os protagonistas são esperançosos e solidários, seres notadamente idealistas e bondosos; nas aparições, Mãe faz questão de contar histórias sobre pessoas e acontecimentos que revelam uma esperança na humanidade), essa familiarização dentro do campo literário, ou – avançando um pouco mais, com o perigo de ser paternal com o meu objeto, dada a minha escolha de leitor também esperançoso – de que forma essa “empatia” não é uma forma de colocar em voga uma sensibilidade deixada de lado devido à intelectualização e profissionalização do campo literário? É nesse sentido que considero a consagração de Mãe uma possibilidade que estava latente no campo literário.

Diz-nos Bourdieu:

 

(…) é preciso perguntar não como tal escritor chegou a ser o que foi – com o risco de cair na ilusão retrospectiva de uma coerência reconstruída –, mas como, sendo dadas a sua origem social e as propriedades socialmente constituídas que ele lhe devia, pôde ocupar ou, em certos casos, produzir as posições já feitas ou por fazer oferecidas por um estado determinado do campo literário (etc.) e dar, assim, uma expressão mais ou menos completa e coerente das tomadas de posição que estavam inscritas em estado potencial nessas posições. (BOURDIEU, 2010, p. 244)

 

É exatamente nesse espaço colocado por Bourdieu que se inscreve nossa hipótese de que talvez existissem (e ainda existam) expectativa de mercado e necessidade do público por um escritor que condense emoções nos discursos. Notamos claramente a funcionalidade dessa sensibilidade como estratégia de reconhecimento, mas também apelamos a isso como uma possível estratégia de reconciliar a magnitude das emoções ao processo intelectual, a formação ou consolidação talvez de uma razão que envolva o mundo das paixões – próximo ao conceito de razão sábia proposto por Rouanet em seu texto sobre “Razão e paixão” (CARDOSO, 1987, p. 437-467).

Tornar-se narrador é, em acordo com o princípio de empatia, colocar-se na pele do outro (WOOD, 2010), um ensinamento que parece permear todo o enredo de O filho de mil homens e a postura do autor, em sua ânsia de tornar-se comum – apesar de seu contínuo roçar com a linha tênue do diferenciado. Parece-nos que, para o escritor, o livro surgiu como oportunidade de desenvolver ideias que já estavam sutilmente anunciadas em alguns escritos anteriores e que estão presentes também nos livros posteriores a esse romance: de que forma a imaginação de um mundo melhor – o que vale dizer, a formação de utopias – e a empatia sentida pelos homens podem transformar o mundo?

Talvez, dado o universo em desencanto em que parecemos viver, a empatia – conceito amplo a que se aderem aspectos do ágape grego, da compaixão cristã, do humanismo renascentista e da universalidade constante no socialismo utópico – seja uma característica deixada de lado. Torna-se importante então pensar na postura de Mãe também como um escritor acreditando que a literatura seja, hoje, um espaço para o exercício dessa qualidade.

 

REFERÊNCIAS

BAPTISTA, Abel Barros. A Formação do Nome. Duas interrogações Sobre Machado de Assis. S.P. Unicamp, 2003.

BOURDIEU, Pierre. As regras da arte: Genese e estrutura do campo literário. Cia das Letras, 2010.

GLOBONEWS. Escritor valter hugo mãe em participação na flip 2011. Disponível em: <https://www.youtube.com/watch?v=l0WLfxnPCy8>

LOURENÇO, Eduardo. Mitologia da saudade, seguido de Portugal como destino. São Paulo: Companhia das Letras, 1999.

MARQUES, Reinaldo. “O arquivo literário e as imagens do escritor”. In: O futuro do presente. Arquivo, gênero e discurso. Belo Horizonte: Ed. UFMG, 2012, p. 59-88.

MÃE, valter hugo. O filho de mil homens. São Paulo: Cosac Naify, 2011.

MUKAROVSKY, Jan. “A personalidade do artista”. In: Escritos sobre estética e semiótica da arte. Editorial Estampa, 1993, p. 273-290

NUNES, Maria Leonor. As grandes minúsculas de valter hugo mãe. Jornal de Letras, Artes e Ideias, jan., 2010. Disponível em: <http://visao.sapo.pt/as-grandes-minusculas-de-valter-hugo-mae>. Acesso em: 18 jul. 2014.

RODRIGUES, Sérgio (2011). “A musa e o xodó: Pola Oloixarac e Valter Hugo Mãe”. Veja, 8 de Julho de 2011. Página consultada em 5 de junho de 2014. Disponível em: <HTTP://veja.abril.com.br/blog/todoprosa/vida-literaria/a-musa-e-o-xodo-pola-oloixarac-e-valter-hugo-mae/>

Veja Livros (2011), “Valter hugo mãe, o fofo da literatura”, 15 de Julho de 2011. Página consultada em 5 de junho de 2014. Disponível em <HTTP://veja.abril.com.br/noticia/celebridades/valter-hugo-mae-o-fofo-da-literatura>

WOOD, James. Como funciona a ficção. São Paulo: Cosac&Naify, 2010.

 

DANILO SALES DE QUEIROZ SILVA: Graduado pela UFBA em 2010 em Letras Vernáculas, foi bolsista FAPESB durante a graduação sob orientação de Mirella Márcia Longo Vieira Lima, vinculado ao projeto de pesquisa Artes Tardias. Mestre pela UFBA, titulado em 2013, e doutorando do Programa de Pós-Graduação em Literatura e Cultura também da UFBA, iniciado em 2014, bolsista FAPESB, atuo principalmente nas áreas de Literatura Comparada, Literatura Brasileira e Portuguesa, com ênfase em estudos sobre as representações literárias da família e do entrelaçamento com a sociedade.

 

 

 



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