Revista Mulheres e Literatura – vol. 19 – 2017



ÚRSULA E A VERTENTE DO GÓTICO FEMININO NO BRASIL – Ana Paula A. dos Santos





 Ana Paula A. dos Santos

Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ)

 

Resumo: No presente trabalho pretendemos analisar de que forma a tradição feminina do gótico explorou a conflituosa relação entre as personagens mulheres e os seus antagonistas. Para tanto, propomos uma leitura de Úrsula (1859), romance da escritora brasileira Maria Firmina dos Reis, cujo enredo explora o abuso de poder e a opressão gerada pelas leis familiares, e tem, na figura do vilão gótico, um páter-famílias, a principal causa dos horrores da narrativa.

 

Palavras chave: gótico, gótico feminino, gótico brasileiro, Literatura Brasileira, Maria Firmina dos Reis.

 

Abstract: This paper aims to analyze in what ways the female Gothic tradition tapped into the conflicting relationships between female characters and their antagonists. To this end, we propose the reading of Úrsula (1859), a Brazilian novel written by Maria Firmina dos Reis, which exploits the abusive power and oppression caused by the family laws, represented by the figure of a Gothic villain, a pater familias who is the main source of the horrors depicted in this narrative.

 

Keywords: Gothic, female Gothic, Brazilian Gothic; Brazilian Literature, Maria Firmina dos Reis.

 

Minicurrículo: Ana Paula A. dos Santos é mestranda em Teoria da Literatura e Literatura Comparada pela Universidade do Estado do Rio de Janeiro, bolsista da CAPES e membro do grupo de pesquisa “Estudos do gótico”, fomentado pelo CNPq. É orientanda do Prof. Dr. Júlio França e sua pesquisa se volta para esse tipo de ficção, mais especificamente para o gótico feminino e para as teorias que procuram compreender e analisar a relação existente entre a poética gótica e suas autoras.

 


 

ÚRSULA E A VERTENTE DO GÓTICO FEMININO NO BRASIL

 

Ana Paula A. dos Santos

Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ)

 

Introdução

Publicado em 1859 pela escritora maranhense Maria Firmina dos Reis, Úrsula pode ser considerado o primeiro romance brasileiro de autoria feminina, e, também, nosso primeiro romance abolicionista (cf. LOBO, 2006, p. 193). Apesar de a obra carregar tão importantes epítetos, é curioso notar o quão pouco estudada ela foi pela nossa crítica e historiografia. O nome de Reis não consta nos nossos manuais de literatura e suas obras permaneceram por longo tempo longe de qualquer apreciação ou análise, a despeito do caráter original que ela possui em comparação a outros escritores contemporâneos à sua época de publicação.

Assim como Reis, outras escritoras tiveram seus nomes obliterados de nossa história. O fato é comentado por Lúcia Miguel Pereira: estudando a produção ficcional brasileira do período de 1870 a 1920, a historiógrafa nota que, “[e]mbora tivesse, ainda no século dezoito, tido em Margarita da Orta e Silva uma precursora, a ficção não conta entre nós, no período aqui estudado, muitas mulheres” (PEREIRA, 1988, p. 259). O levantamento feito por Pereira revela o nome de apenas doze escritoras. Dentre estas, um número ainda menor representa as mulheres cujas obras resistiram ao tempo e conseguiram chegar até nós. Diante destes dados, a historiógrafa alerta para a dificuldade em se estabelecer uma tradição feminina da Literatura Brasileira:

 

(…) temos que aceitar como definitivo o juízo dos contemporâneos, tácito no silêncio que se fez em torno da maioria dessas escritoras, registradas tão-somente por Sacramento Blake. E mesmo a uma ou outra lembrada pelos críticos do momento, como Adelina Lopes Vieira ou Gorgeta de Araújo, não se pode dar lugar na história (PEREIRA, 1988, p. 259).

 

No entanto, o conjunto de escritoras brasileiras vem sendo ampliado por conta do empenho que estudos literários mais recentes têm empregado em resgatar esta produção ficcional omitida por tanto tempo da nossa história. Grande parte deste empenho foi realizado pelos trabalhos filiados à linha de pesquisa “Mulher e Literatura”, ativa desde 1986 (cf. GAZOLLA, 1990; MUZART, 2008), que tem defendido a necessidade de se estabelecer uma tradição que contemple as obras de autoria feminina pertencentes à nossa literatura. Desde então, romancistas como Ana Luísa de Azevedo e Castro, Emília Freitas, Júlia Lopes de Almeida, e a própria Maria Firmina dos Reis, entre outras escritoras do século XIX e XX, passaram a despertar um maior interesse dos estudos literários brasileiros.

A crítica feminista encontrou nesta produção ficcional o que foi compreendido como uma resistência aos valores patriarcais que dominavam as regras sociais e morais. Afinal, dentre os assuntos mais frequentemente abordados nessas narrativas, nota-se o inconformismo em relação à opressão gerada pela estrutura familiar e social. Contudo, as análises não se restringiram aos estudos de cunho feminista. A exemplo, romances como A rainha do ignoto (1899), de Emília Freitas, passaram a receber a atenção dos estudiosos não apenas pelo seu caráter de denúncia das dificuldades enfrentadas pela mulher na sociedade, mas, também, pelos aspectos fantásticos e sobrenaturais presentes na obra.

Em verdade, muitas das obras que integram esta produção literária feminina demonstram uma proximidade com uma literatura menos preocupada em seguir convenções realistas e mais voltada para uma poética imaginativa, a saber, o gótico – em especial para a versão setecentista desta literatura, que tornou conhecidas as obras de escritoras inglesas como Clara Reeve, Sophia Lee, Anne Radcliffe e Charlotte Smith.

A pesquisadora Zahidé Muzart (cf. 2008, p. 299) mostra-se surpresa ao notar que, tal como ocorrera na Inglaterra do século XVIII, o gótico foi uma poética que atraiu sobremaneira as mulheres que se dedicaram a escrever romances. Já Maurício Cesar Menon (2007) elenca Ana Luísa de Azevedo e Castro, Maria Firmina dos Reis e Emília Freitas entre o conjunto de escritores que apresentam influxos góticos em suas obras, seja por meio da proximidade das duas primeiras escritoras com o gótico radclifeano, seja pelo clima fantasmagórico e pelos temas do duplo e do espiritismo presentes na obra desta última.

No que concerne a Maria Firmina dos Reis, Luiza Lobo é categórica ao afirmar que o gótico se mostra uma das características basilares da obra da escritora maranhense. Seja em seu romance, em sua poesia ou mesmo em seu diário, Reis apresenta uma tendência às formas e aos conteúdos pertencentes à poética gótica:

 

Úrsula, escrito no estilo de folhetim romântico, ao gosto de Paul et Virginie, de Bernardin de Saint-Pierre – que, aliás, MFR cita no início do capítulo 13 –, traz descrições de cenas lúgubres no cemitério, de desenganos amorosos e da loucura de Úrsula. (…) São cenas de um romantismo gótico e aguçado que se repetem em diversos poemas de MFR, assim como no Álbum (LOBO, 2006, p. 193).

 

Partindo de tais considerações, podemos afirmar que o romance de Reis se caracteriza como uma obra gótica em sua totalidade: em primeiro lugar, os cenários sombrios, lúgubres e melancólicos, palcos de situações trágicas, fazem as vezes de loci horribiles. Em Úrsula é a fazenda de Santa Cruz que assume tal função. O local parece corroborar com a proposição de Fernando Monteiro de Barros (2014), para quem as grandes propriedades latifundiárias, as fazendas, as casas-grandes são nossos equivalentes nacionais dos castelos e das magnificentes e aterrorizantes construções góticas, principais loci do gótico setecentista.

Em segundo lugar, na fazenda de Santa Cruz impera o poder de um senhor de terras cuja tirania iguala-se a dos vilões aristocratas que povoam a ficção gótica. O antagonista da obra, o Comendador Fernando P…, possui as características das personagens monstruosas destas narrativas, suas ações se configuram como transgressões morais e sexuais responsáveis por colocar em risco os demais personagens e causar o horror e medo. Tal personagem vilanesco permite à narrativa uma ampla abordagem de situações de violência e assédio, entre outras infrações sociais que visivelmente se sobressaem aos sentimentos virtuosos e edificantes presentes na obra.

Nestes termos, podemos concluir que o enredo se caracteriza por uma forma bastante desencantada de retratar a existência humana, que, acreditamos, seja uma das características fundamentais do gótico. Afinal, tal ficção não parece interessada em retratar a bondade ou a virtude, mas sim o confronto dos sentimentos positivos com o que há de mais sombrio, maligno e cruel em nossa sociedade.

O embate maniqueísta, entre virtude e vício, bem e mal, também foi uma temática privilegiada por duas formas literárias com as quais o gótico dividiu o contexto setecentista, o melodrama e o romance sentimental, gêneros que se valiam de elementos sensacionais e do pathos advindo de situações de perseguição e angústia para suscitar determinados efeitos de recepção em seus respectivos públicos. Porém, os dois gêneros traziam uma preocupação moral visivelmente mais marcante que a ficção gótica: neles, a virtude era recompensada e a vilania punida.

A aproximação com o melodrama e o romance sentimental fez surgir uma vertente do gótico literário visivelmente mais preocupada com questões moralizantes. Tal vertente encontrou respaldo em uma significativa produção ficcional de escritoras que buscaram acrescentar ao “tecido da vida cotidiana – matéria privilegiada do romance feminino – e ao viés sentimental uma dose de ingredientes góticos para satisfazer o gosto do público leitor” (VASCONCELOS, 2007, p. 118). Posteriormente, essa produção ficcional constituiu-se como uma tradição particular da ficção gótica, a saber, o gótico feminino. Podemos considerar, então, o romantismo da obra de Reis como herdeiro dessa tradição, e Úrsula como integrante da linhagem brasileira do gótico literário, mais especificamente da tradição do gótico feminino no Brasil.

 

A vertente feminina do gótico

Apesar de o gótico setecentista ser compreendido comumente como um conjunto de obras mais ou menos homogêneas, uma análise mais apurada da produção ficcional do período – que se inicia com a publicação de O castelo de Otranto (1764), de Horace Walpole, e se estende até as primeiras décadas do século XIX – revela que as obras góticas possuem tantas semelhanças quanto possuem diferenças entre si (cf. PUNTER, 1996, p. 1). No que concerne às obras de autoria feminina, tais diferenças se mostram bastante significativas: o modo como as escritoras se utilizaram da poética gótica e os efeitos de recepção intencionados por suas narrativas originaram uma vertente particular desta ficção, o gótico feminino.

O termo, cunhado por Ellen Moers em 1976, deu margem a uma série de estudos guiados pelo objetivo de especificar as características narratológicas desta tradição do gótico, e, ao mesmo tempo, justificar a separação desta vertente de sua contraparte, o gótico masculino. Para Sandra M. Gilbert e Susan Gubar (cf. 1984, p. xi), a produção ficcional de autoria feminina compartilha entre si certas temáticas, como enredos de perseguição, a opressão da mulher por uma figura paterna, e, também, certas imagens de aprisionamento e clausura, motivo pelo qual seria possível constituir uma vertente do gótico literário propriamente feminina.

Tal como Zahidé Muzart, anteriormente citada, Gilbert e Gubar notam que uma parte considerável da literatura feminina apresenta certa propensão à utilização da poética gótica em suas narrativas. Para explicar esta tendência, devemos levar em conta o contexto de ingresso da mulher no mercado literário na Inglaterra setecentista, sobre o qual Virginia Woolf (cf. 1990, p. 84) tece importantes comentários. Woolf comenta que, à época, as mulheres passavam a maior parte do seu tempo restritas ao interior de suas casas, e, naturalmente, esse fato se reflete em suas obras: a ficção de autoria feminina tem no espaço doméstico o principal locus de suas narrativas, e nos sentimentos e relações pessoais os principais assuntos abordados por elas. Assim, seus romances apresentam frequentemente enredos que retratam o difícil cotidiano enfrentado pelas protagonistas para atender às expectativas sociais e adquirir uma posição social estável. Nem sempre, porém, os desfechos dessas apresentam finais felizes e o triunfo da bondade e da virtude – pelo contrário, a perseguição sexual e os problemas relativos ao âmbito doméstico são temas recorrentes nessas narrativas, revelando o lado mais sombrio do cotidiano da mulher em sociedade.

O gótico mostrou ser uma poética adequada para as escritoras retratarem, ficcionalmente, estes horrores próprios do universo feminino (cf. PUNTER & BYRON, 2004). A afinidade entre a poética e as temáticas deu origem a um viés do gótico literário, que, ao longo da história, explorou situações de horror e terror provenientes da experiência feminina. Nas palavras de Anne Williams (1995, p. 10, tradução nossa.), “[a] versão feminista do gótico (…) tem conscientizado os leitores das possíveis afinidades entre escritoras e uma literatura especializada no medo e nos segredos domésticos monstruosos”.

Nossa hipótese é de que Úrsula se insere nessa tradição ficcional, uma vez que essa narrativa tem como enredo a perseguição de uma jovem órfã por um vilão criminoso, violento e cruel, que não é outro senão seu próprio tio, obcecado em torná-la sua esposa. Ao longo do romance é notável que Reis se dedique a retratar o sofrimento feminino, sobretudo como forma de alertar para uma configuração de mundo em que o domínio de valores patriarcais frequentemente torna as mulheres vítimas da tirania masculina.

 

O páter-famílias como vilão gótico

Como procuramos defender, os problemas relativos ao âmbito familiar são os mais insistentemente retratados pelas escritoras da vertente feminina do gótico literário. Úrsula não foge a esta regra, afinal, é das relações familiares que surge a principal ameaça que colocará a protagonista de Maria Firmina dos Reis em perigo e fará dela uma damsel in distress – arquétipo comum nas obras góticas, encarnado em personagens jovens, inocentes, frágeis e virtuosas, ameaçadas pela malignidade e pelos desejos sádicos do vilão.

No gótico feminino, este vilão geralmente é a figura mais importante do espaço doméstico, o páter-famílias, um homem em posição de autoridade que deveria zelar pelas filhas, irmãs ou esposas, ou seja, pelas personagens femininas impotentes e desamparadas na configuração de mundo patriarcal. Essa figura de posição privilegiada no âmbito familiar é justamente quem vai subverter sua função e tornar-se a principal ameaça nas narrativas. Como Punter (1996, p. 52, tradução nossa.) ressalta, o universo retratado na vertente feminina do gótico corresponde a “um mundo no qual os homens, como protetores, passam quase naturalmente da gentileza ao estupro”.

Nesse sentido, o Comendador Fernando P…, antagonista de Úrsula e algoz da protagonista do romance, configura-se como um vilão desta vertente do gótico. Este é descrito por Menon (2007, p. 133) da seguinte forma:

 

De fato, a figuração desse vilão aproxima-se muito àquela esboçada pelo gótico. Vários dos elementos presentes no século XVIII, como a aristocracia, a tirania, a perseguição a parentes, a crueldade e a esperteza da personalidade encontram-se em Fernando P…; unem-se a isso, ainda, alguns elementos nacionais, como o fato de ele ser um senhor/torturador de escravos, as paragens brasileiras por onde se empreendem fugas e perseguições.

 

O vilão de dos Reis segue o perfil radclifeano de antagonista – cruel, sádico e misógino – ao qual foram adicionadas algumas particularidades dos vilões do gótico brasileiro. O comendador encontra-se em uma posição social privilegiada, protegido por leis institucionais que asseguram o seu domínio sobre as personagens femininas da narrativa. Além disso, assim como Montoni ou Schedoni, os respectivos vilões de Os mistérios de Udolpho (1791) e O Italiano (1797), ele será movido por uma emoção extrema: a paixão obsessiva e incestuosa que nutre pela sobrinha. Esse amor não correspondido será responsável pelos horrores da narrativa e pelo medo suscitado nas personagens e, consequentemente, nos leitores da obra.

Podemos considerar, então, que o principal antagonista de Úrsula se enquadra no arquétipo setecentista de vilão gótico. Da mesma forma, a protagonista também parece seguir o arquétipo de heroína gótica, que, nos termos de Réka Tóth (2010, p. 25, tradução nossa.), encontra-se quase sempre em uma posição “desamparada e desesperançosa diante das labirínticas perseguições do tirânico poder masculino”. Órfã de pai e, posteriormente, também de mãe, segundo as leis sociais Úrsula estaria sujeita ao domínio do Comendador, seu parente mais próximo. Porém, a protagonista não pode confiar a ele a função de páter-famílias, pois ele é uma ameaça para sua virtude e sua segurança, como demonstra o excerto abaixo, que descreve o primeiro encontro entre Úrsula e Fernando:

 

Esse homem não estava no verdor dos anos; mas sua fisionomia, suposto que severa e pouco simpática, nessa hora crepuscular, que dá certa sombra a toda a natureza, não denunciava a sua idade. A pele sem rugas, os olhos negros e cintilantes, tinham um quê de belo; mas que não atraía. Era de estatura acima da medíocre, esbelto, e bem conformado; e as feições finas davam-lhe um ar aristocrático, que, quando não atrai, sempre agrada.

Malgrado seu, Úrsula começou a sentir-se oprimida pelo olhar do desconhecido, a quem o seu deixava já de dominar, e caiu de novo sobre o assento entalhado no tronco. Era como se esse homem a tivesse magnetizado. A sua vista causava repugnância, queria escapar-lhe; mas as forças abandonavam-na e seus belos olhos cor de ébano estavam sobre ele fixos.

O terror, a desconfiança, a inquietação pintavam-se no rosto pálido e aflito, no olhar fixo e pasmado dessa pobre moça (REIS, 1988, p. 88-9).

 

Nesse primeiro encontro, Úrsula, que não sabe ainda que está diante de seu tio, percebe o perigo iminente que está correndo. É curioso notar que o personagem do comendador não é desprovido de atrativos físicos. Ele é descrito como belo e esbelto, suas feições são finas, aristocráticas. Portanto, à primeira vista, sua aparência não dá indícios de malignidade alguma. É seu olhar, como o de outros vilões góticos, a principal pista de seu verdadeiro caráter, ele hipnotiza e aterroriza a protagonista, causa-lhe desconfiança e medo.

Tais efeitos de terror serão gradativamente magnificados à medida que Fernando começa a perseguir a sobrinha e colocar a vida e a virtude da protagonista em risco. Úrsula passa a ser assombrada pela figura do tio:

 

Apareceu a noite rebuçada no seu manto de escuridão, e a donzela supôs encontrar o sossego nas trevas e no sono; mas trêmula e agitada no seu leito, invocava embalde o sono, que o fantasma se erguia mudo e impassível, e a sua mente alucinada dava-lhe movimento e voz, e ele blasfemava, e ameaçava, e sorria-se com sarcasmo. Os olhos chispavam fogo, e os lábios agitavam-se convulsos e os membros e o tronco pareciam cobertos de sangue.

E ela revolvia-se no leito, e o corpo tremia-lhe e o suor corria-lhe, e o peito opresso ofegava: era um pesadelo insuportável!!!!!!!!!!!!!!!!!! (REIS, 1988, p. 94)

 

Na cena, a descrição do comendador é feita de modo a potencializar os efeitos de horror na narrativa: ele aparece à noite, em meio às trevas, surgindo em meio a uma espécie de pesadelo em vigília experimentado por Úrsula. Sua forma é fantasmagórica, coberta de sangue, com lábios convulsos e olhos que chispam fogo. Em verdade, a passagem parece antecipar os horrores de que o comendador será capaz para tomar posse de Úrsula – como, por exemplo, assassinar friamente o noivo da sobrinha no dia do casamento. A violência da ação tem consequências fatais para Úrsula:

 

Um mar de sangue tingiu-lhe as mãos e os puros seios! Tinha os olhos fixos e pasmados sobre o doloroso espetáculo, e entretanto parecia nada ver; estava absorta em sua dor suprema, muda, e impassível em presença de tão monstruosa desgraça.

O seu sofrimento era horrível, e profundo, e o que se passava de amargo e pungente naquela alma cândida e meiga foi bastante para perturbar-lhe a razão (REIS, 1988, p. 147-8).

 

Novamente, Maria Firmino dos Reis vale-se de uma descrição expressiva para suscitar efeitos de horror: o sangue do noivo cobre as mãos e os seios da heroína, que, diante da horrível e monstruosa cena, perde a razão. Sob o domínio do tio, a personagem perecerá aos poucos. Febril, convulsa e louca, ela torna-se a encarnação física dos crimes do Comendador Fernando: “A presença dessa menina era um remorso vivo para o seu coração; seus olhos cerrados, seus lábios entreabertos, sua respiração ofegante pareciam repetir-lhe: – Assassino!” (REIS, 1988, p. 150).

Vale ressaltar que, mesmo no epílogo da obra as transgressões de Fernando não são, em momento algum, punidas pelas leis sociais. Apenas Úrsula parece agir como contraponto da malignidade do antagonista, denunciando, com o estado de loucura ao qual fora reduzida, a vilania do personagem e os atos malignos que ele cometera durante a narrativa.

Assim, ao mesmo tempo em que assume um ponto de visto empático em relação ao sofrimento de Úrsula, a narrativa de Maria Firmina dos Reis parece alertar, por meio do trágico final legado à personagem, quão ineficazes se mostram os seus esforços diante da extensão do poder vilanesco – poder este assegurado pelas instituições reguladoras das normas sociais.

Nesses termos, o romance de Reis coaduna com certa tendência das obras do gótico feminino em conferir desfechos nada otimistas às personagens femininas de suas obras. Acreditamos que este seja o meio pelo qual as escritoras desta tradição procuraram ressaltar a recorrência com que as mulheres tornavam-se vítimas de páter-famílias, cujo poder, infinitamente engenhoso na busca por seus demoníacos objetivos (cf. PUNTER, 1996, p. 9), mostra-se o verdadeiro causador dos perigos e dos horrores do universo feminino retratado neste viés do gótico literário.

 

 

Bibliografia

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