Revista LitCult – Vol.9 - 2. semestre 2015



UMA RETROSPECTIVA DO USO DO TERMO LITERACIA: SENTIDOS ATRIBUÍDOS E DERROTADOS ENTRE O FINAL DO SÉCULO XIX E MEADOS DO SÉCULO XX – Beatrice Bonami Rosa





Universidade de São Paulo

 

Resumo: O presente artigo delimita as nuances semânticas do conceito literacia (tradução do inglês literacy) a fim de compreender seu constante uso dentro do campo da Comunicação e Educação. Para tanto, mapeia o uso do termo no perímetro epistemológico da Literatura e dos Estudos Culturais desde o final do séc. XIX até a década de 1980. É possível esboçar que Literacia leva em seu gene etimológico um leque semântico, o qual se encaixa em suas atribuições de sentidos atuais com designações próximas aos conceitos de alfabetização e letramento, porém em um sentido mais interdisciplinar e afirmativo em relação ao desenvolvimento humano.

 

Palavras-chaves: Literacias, Alfabetização e Letramento, Estudos Culturais, Nuances Semânticas.

 

Abstract: This paper defines the semantic nuances of the concept of literacy (originally an English word) in order to understand its constant use in the Communication in the Educational field. To this end, it maps the use of the term in the epistemological area between Literature and Cultural Studies from the end of the 19th Century until the 1980s. It is possible to sketch that literacy contains a wide semantic range in its etymology, which can adapt to its current uses in Portuguese. Those relate to concepts that approach the designation of literacy and reading learning, but which are employed in a more interdisciplinary and humanistic sense.

 

Key Words: Literacies, Reading learning, Cultural Studies, Semantic Nuances.

 

Currículo: É natural de São Paulo e aluna de Mestrado do Programa de Pós-Graduação em Ciências da Comunicação da Escola de Comunicações e Artes da Universidade de São Paulo – PPGCOM/ECA/USP. Graduada em Artes Visuais e Mídia pelo Instituto de Artes da Universidade Federal de Uberlândia – IArte/UFU. É pesquisadora associada do Observatório da Cultura Digital do Núcleo de Apoio à Cultura e Extensão Escola do Futuro da Universidade de São Paulo – NACE – EF/ECA/USP. Tem experiência nas áreas de Comunicação e Educação, Ensino Especial, Educação Artística e Fotografia.

 

UMA RETROSPECTIVA DO USO DO TERMO LITERACIA: SENTIDOS ATRIBUÍDOS E DERROTADOS ENTRE O FINAL DO SÉCULO XIX E MEADOS DO SÉCULO XX

 

Beatrice Bonami Rosa

Universidade de São Paulo

 

 

Introdução

A palavra literacia, em sua origem na língua inglesa (final do século XIX), denotava alfabetização/letramento. Em sua associação com a mídia, a informação e a tecnologia, o termo foi estendido para definir habilidades e competências envolvendo a busca, a seleção, a análise, a avaliação e o processo da informação, considerando os meios, contextos e ambientes em que se encontra e se produz o conhecimento.  Historicamente, foi um conceito associado ao crescimento e à evolução das sociedades, mas somente em meados do século XX, acadêmicos se interessaram pelo real sentido da palavra. Ela não mais denotou um sentido vinculado somente ao “letramento”, mas foi associada a um processo educacional mais amplo, que envolve práticas sociais e culturais.

A questão “O que é literacia?”, tanto é difícil de se perguntar quanto de se responder. As discussões sobre o conceito se tornaram comuns desde a década de 1960 e chegou a se colocar que o número de definições da palavra é diretamente proporcional à quantidade de usuários. Na educação, ideias como novas literacias, múltiplas literacias, multiliteracias, entre outras, proliferaram no discurso do professor e no discurso literário. Por ser um termo amplo e interdisciplinar, é preciso defini-lo para não se tornar vago.

 

Literacias no Contexto Cultural

O termo tem sido abordado no Brasil nos últimos anos na área da “Comunicação na Educação” para designar novas habilidades desenvolvidas pelo sujeito exposto às novas mídias, informações e tecnologias. Comumente articulada a outros conceitos, literacia se torna um termo composto, tal como: literacias digitais ou literacias em mídia e informação. Na língua portuguesa, a palavra “literacy” (do inglês) é oficialmente traduzida como letramento ou alfabetização, sendo assim ligada ao campo da pedagogia e da literatura.

Em referência aos termos compostos também no inglês – “digital literacy” e “media and information literacy” – surgiram expressões tais como: letramento informacional, alfabetização informacional, habilidade informacional e competência informacional. No entanto, existe uma tendência em utilizar no lugar dessa tradução, uma expressão mais literal, daí o uso da palavra “literacia”. A tradução literal abarca a abrangência do radical da palavra original, já que o conceito, desde seu uso mais primórdio, já contemplava habilidades para além do letramento (escrita e leitura), mas também noções de interpretação e produção relativas à área da literatura e da cultura.

É aberto um leque semântico em relação à palavra, e essa amplitude é fruto do desenvolvimento do termo desde o final do século XIX até a década de 1980. Foram selecionados três autores que investigaram e delimitaram conceitualmente o radical. O primeiro, Raymond Williams, foi propositor de um procedimento metodológico para investigação semântica de palavras em que usou e pontuou o termo “literacy” dentro da história. Além dele, Richard Hoggart e Eric Donald Hirsch foram autores selecionados pelo extensivo uso do termo aplicado na área da cultura, uma virada semântica importantíssima, pois o termo era primordialmente associado a noções de alfabetização.

Raymond Williams (1921-1988), acadêmico, crítico e novelista galês, publicou em 1977 o livro Key-Words (traduzido no português como Palavras-chaves, São Paulo, BoiTempo, 2007). Em sua publicação, Williams relaciona os processos de construção semântica das palavras ao longo da história. Sua motivação para a escrita do livro foi a sua volta do serviço militar na Segunda Guerra Mundial, evento que interrompeu seus estudos em Cambridge. Ao seu regresso, detectou alguns termos articulados de maneira diferente e empregados em outros círculos sociais, em especial a palavra “cultura”. Passou a investigar esses processos de construção de sentido dentro da língua britânica.

Seu propósito era articular conceitos de linguagem que apresentassem os limites e as pressões das ações humanas, já que toda palavra é subordinada ao uso e contexto sociais. Desse ângulo, ao longo de cada verbete, é preciso entender quais foram as opções de sentido derrotadas, quais foram impostas e a serviço de quê. Apesar da estrutura (e do posicionamento na ala de Referências da Biblioteca), o livro não consiste de um dicionário ou glossário de um assunto acadêmico específico. Trata-se de uma investigação a respeito de um vocabulário que percorre o perímetro entre duas palavras: cultura e sociedade.

Naturalmente, nem todas as questões semânticas são entendidas por simples análises de palavras, valendo-se da descrição do contexto, bem como de fenômenos históricos associados com conceitos que elucidem o verbete. Contudo, o significado não pode dissolver-se nesse contexto, apesar da palavra não ser autônoma e estar no processo social da língua.

Algumas palavras, verbetes por assim dizer, são interessantes destacar como “comunicação” que somente no século XX passou a se referir à mídia (ou meio); ou então a palavra “indivíduo” em que atribui o seu significado do resultado de pensamentos científicos, políticos e econômicos, pois originalmente, seu significado seria “indivisível” ou aquilo oposto ao “geral”. Exemplos à parte, como o objetivo deste estudo é a investigação do uso do termo “literacias”, foi dirigida a atenção ao verbete de “literatura”.

Literatura correspondia aos significados de “literacy”, originalmente traduzido como “letramento”, uma palavra nova do final do século XIX. O termo literacy significava tanto a capacidade de ler quanto a condição de ser muito lido (em outras palavras, de ser culto). Literacy (letramento) e illiteracy (analfabetismo) tornaram-se conceitos cruciais em uma perspectiva muito mais ampla.

Desde o século XVIII, o termo “analfabetismo” indicou a incapacidade geral de ler e escrever, enquanto “letramento” foi uma palavra usada para expressar a obtenção e a posse de competências vistas como, cada vez mais, gerais e necessárias. Segundo Williams, “literacy” comporta uma abrangência em seu significado, abrindo um leque referente a quais competências o indivíduo poderia desenvolver, mesmo que no campo da literatura.

Não obstante, o autor atribui uma perspectiva libertária à literacia, pois, uma vez que o indivíduo aprende a ler, ele passa a compreender seu contexto. Quando um sujeito se torna letrado, ele atribui sua habilidade de acordo com a demanda que lhe convier. Como exemplo, em outro livro (Television: Technology and Cultural Form, 1975), Williams expõe que na Revolução Industrial Britânica, primordialmente, só se ensinava o indivíduo a ler, e não a escrever, para absorver os significados culturais, bem como instruções escritas no trabalho e ensinamentos morais religiosos pela Bíblia. No entanto, sem poder reproduzi-los através da escrita, fator considerado irrelevante em sua educação, já que raramente os trabalhos demandavam a palavra escrita. Mas, segundo o autor,

 

There was no way to read the Bible which did not also enable him to read the radical press. A controlled intention became an uncontrolled effect. Yet the acquisition of literacy, then as now, almost always involve submission to a lengthy period of social training – education – in which quite other things than literacy or similar skills were taught” (WILLIAMS, 1975, p. 131)[1].

 

 

 

Em confluência com esse tema apontado por Wiliams em um de seus verbetes, pode-se citar HOGGART (1957). Richard Hoggart (1918-2014), acadêmico e sociólogo britânico, escreveu o livro “The Uses of Literacy” (1956) traduzido para o português como “As Utilizações da Cultura: aspectos da vida cultural da classe trabalhadora” (Lisboa, 1957). Em seu livro, Hoggart faz uma análise dos aspectos culturais da vida do proletariado desde o final da década de 1910 (após a Revolução Russa de 1917), observando as mudanças significantes traduzidas pela cultura de massa e pelos novos meios de comunicação: o rádio e a televisão. Primeiramente, ele define quem é esse “povo” à que a cultura de massa está direcionada e como é a vida do povo (a posição do gênero, a família, a comunidade e a religião). Depois, passa-se à análise literária das publicações populares:

 

Deve-se tentar ver, para além dos hábitos, aquilo que os hábitos representam, ver através das declarações e respostas o que estas realmente significam (significado que pode ser oposto a essas próprias declarações), detectar os fatores emocionais subjacentes às frases idiomáticas e observâncias ritualísticas” (HOGGART, 1957, p. 20).

 

 

O autor dispõe que a linguagem é de grande importância no desenvolvimento cultural da população e, por conseguinte, as produções em literatura:

 

Uma vez que o ensaio estuda a modificaçã cultural[ii] interessa sobretudo outros aspectos mais sutis do estilo de vida que caracteriza o proletariado. A linguagem será de grande utilidade, e em particular o conjunto das frases de uso comum. As maneiras de falar, os dialetos, sotaques e entoações, sejam provavelmente mais úteis” (HOGGART, 1957, p. 25).

 

 

Notas

 

1 Não há maneira de ler a Bíblia sem que isso permita o indivíduo ler a imprensa “radical”. Uma intenção de controle assume um efeito incontrolável. Além disso, a aquisição do letramento, agora como antes, quase sempre envolve submissão a um longo período de estágio social – educação – no qual outras coisas além da alfabetização ou habilidades são ensinadas. (Tradução livre).

2 Sendo modificação cultural tradução equivalente ao termo “literacy” na obra de Hoggart (1957).

 

No livro, o termo “literacy” é associado ao termo “cultura” ligado ao campo da literatura (já que a expressão literária é um fator importante na composição cultural de um grupo comunitário). Além disso, a competência cultural (literacy) está mais próxima ao literário do que ao linguístico, assumindo uma definição generalizada que permite o livre arbítrio entre expressões, observações e pensamentos relevantes na literatura.

A correspondência entre “cultura” e “literacy” é exata quando se refere à multiplicidade e amplitude que ambos os termos empregam. Essa representação é encarada nesse estudo como uma virada semântica importante na construção do termo literacia. Tal associação ainda é próxima do termo “Cultural Literacy” cunhado pelo acadêmico e crítico literário Eric Donald Hirsch (nascido em 1928 nos Estados Unidos) em seu livro “Cultural Literacy: what every american needs to know” (Literacia Cultural – o que todo americano precisa saber – Boston, 1987). Na publicação, Hirsch cunha o termo “cultural literacy” (que em português foi traduzido como alfabetização cultural) referindo-se à habilidade de compreender e participar em uma cultura, e não só ser fruto dessa:

 

English teachers by profession are committed to the ideology of literacy. They cannot successfully avoid the political implications of that ideology by hiding behind the skirts of methodology and research. Literacy implies specific contents as well as formal skills. Extreme formalism is misleading and evasive” (HIRSCH, 1987, p. 161).[1]

 

 

 

O termo é uma analogia à “literacy proper” (linguística apropriada – que foi exposta pelo autor como a habilidade de ler e escrever cartas) definindo, não uma pessoa alfabetizada/educada que saiba o suficiente de língua, gramática e vocabulário, mas uma pessoa culturalmente alfabetizada/educada que saiba propriedades linguísticas e semióticas (signos e símbolos) da cultura ao qual se identifica, tais como linguagem, dialetos, histórias, costumes etc. Segundo o autor, ao final do ensino uma pessoa deveria já ter adquirido essas habilidades e competências necessárias para se viver em sociedade e participar ativamente da cultura.

A associação entre Hoggart e Hirsch desloca o termo “literacy” do campo literário e o realoca em um contexto educacional mais amplo, que não se restrinja à capacidade de leitura e escrita. Foi parte do início dos questionamentos dos currículos escolares, que antes da década de 1960, consideravam o estudante parte de uma cultura e, a partir de então, o consideravam um integrante ativo, como ele cita “Literacy is not just a formal skill; it is also a political decision. The decision to want a literate society” (HIRSCH, 2002, p. 162)[2].

Talvez, a correspondência entre o termo na literatura e na cultura é porque “Knowledge of words is an adjunct to knowledge of cultural realities signified by words, and to whole domains of experience to which word refer” (HIRSCH, 2002, p. 159)[3]. Esse breve relato descreve um importante “turning point” (ponto de inflexão) da semântica do termo “literacy”: que antes era referente à literatura e passou a se referir à cultura como um todo. E pode ser ilustrada pelo testemunho de Hoggart no “Journal of Basic Writing”, quando alega:

 

We all need literacy, imaginative and intellectual literacy; because it is an essential part of our movement towards greater critical self-awareness brought to bear on our own lives and on what society offers us as the desirable life. We all need the continued nourishment, which can be given by contact with other, finer, minds” (HOGGART, 1980, p. 80).[4]

 

 

 

A década de 1970, foi um período chave em que a informação e a mídia foram repensadas dentro do quadro social. Assim, começou a profunda investigação sobre quais conjuntos de habilidades eram necessários para o uso da informação e dos meios de comunicação.

A transição, de uma visão canônica de letramento às múltiplas formas de expressão aplicadas à convergência das mídias em um contexto multicultural, trouxe novas investigações sobre as literacias. Porém, para entender os impactos e aplicações do termo, não se pode se restringir às teorias ou mesmo à pedagogia. É preciso compilar diferentes documentos, discursos, vozes e pesquisas sobre como ter uma experiência significativa ao se conectar com os meios de comunicação, sejam eles digitais ou analógicos. Sem essa síntese, as questões acerca da palavra serão incompletas.

 

Novas Literacias

Não existe uma teoria sobre literacias e sim várias delas, mas de maneira geral se leva em consideração seu contexto sociocultural além do contexto educacional. Essa perspectiva tem sido presente por décadas:

 

Some may argue that this treatment reflects the relative ‘newness’ of the acceptance of sociocultural perspectives on literacy development; however, sociocultural and sociolinguistic theories on literacy development and practice have been influential for decades” (PERRY, 2012, p. 51).[5]

 

 

 

 

 

Essa abordagem sociocultural é uma coleção de teorias relacionadas que incluem contextos sociais e culturais nos quais as literacias são trabalhadas. As maiores perspectivas teóricas estão relacionadas à literacia como prática social e como conjunto de várias habilidades.

 

A literacia, uma vez compreendida como conjunto de práticas sociais e não apenas como simples e específica habilidade cognitiva, depende de uma série de recursos, tais como: artefatos físicos (livros, revistas, jornais, periódicos, computadores); conteúdo relevante sendo transmitido por esses meios; habilidades apropriadas, conhecimento e atitudes por parte do usuário; e tipos mais adequados de suporte social e da comunidade” (PASSARELI, 2010, p. 74).

 

 

Isso contribui para uma constelação de termos compostos como: literacia sociocultural, literacias digitais emergentes, multi-literacias, literacias de mídia e informação com implicações que vão além do perímetro escolar e dos artigos acadêmicos:

 

Metaphors for literacy do not stand on their own. They are part of a particular view on literacy that has implications for how we think about learners, how we think about what they ought to learn and how this could be achieved” (PERRY, 2012, p. 52).8

 

 

A perspectiva sociocultural é derivada do contexto sócio linguístico, já que a língua (idioma, fonética, símbolos e significados) é parte fundamental de uma cultura. Naturalmente, a linguagem tem bagagens como: as relações sociais; os modelos culturais; e as dinâmicas econômicas e políticas de uma sociedade. No contexto das literacias, elas envolvem ações e competências abarcadas na prática cultural, como por exemplo a expressão escrita da pessoa.

Perry em seu artigo “What is Literacy? – A critical overview of sociocultural perspectives” (O que é literacia? Um panorama crítico das perspectivas socioculturais) publicado em 2012, sugere as literacias como práticas em contexto social (coletivo) referentes aos diferentes domínios da vida. Algumas delas se tornam mais dominantes dependendo dos ambientes de aplicação.

É importante perceber como é sua construção histórica em uma perspectiva macro (sociedade) e micro (focada no indivíduo) percebendo os eventos envolvendo literacias (onde elas podem ser observadas) e práticas que as envolvem (onde é preciso inferir sua utilização). A perspectiva das literacias como práticas sociais não explica como o sujeito aprende ou se engaja em conteúdos, porém, Perry (2012) afirma que ela ajuda a descrever quais tipos de conhecimento são necessários para realizá-las como atividades.

Quando se compreende as diversas maneiras que diferentes pessoas fazem uso de suas literacias, é possível melhor entender o processo educativo e de construção do conhecimento como um todo. Naturalmente, toda teoria, ou conjunto de teorias tem limitações e controvérsias, por exemplo, o fato da própria palavra “literacia” ser, por vezes, somente associada ao sentido de “letramento”.

Devido à convergência com os significados de letramento, competência e alfabetização é preciso de cautela em associar esses conceitos dentro do campo da Comunicação e da Informação. Por exemplo, ao empregar a palavra “alfabetização” em situações que os sujeitos sejam letrados ou já tenham completado os ensinos básicos de educação, pode-se atribuir um sentido pejorativo, sugerindo que o indivíduo seja um “analfabeto informacional”. O mesmo acontece ao se referir à “competência”, abrindo a sugestão de que, quem não as desenvolve se tornaria um “incompetente informacional”. As literacias em seus termos compostos dispensam essas divergências ou mesmo conflitos em relação ao sentido empregado das palavras, e propõem uma posição afirmativa do sujeito que aprende essas novas habilidades e competências sem diminuir seu histórico escolar tradicional.

Os estudos a consideram muito mais ampla e por vezes desvinculada do próprio campo literário ou da alfabetização. Deve sim ser aproximada ao campo educacional, mas na perspectiva de “conscientização” e de “desenvolvimento”. A palavra é tão ampla, que se encontra no limiar de se tornar sem significado, e por isso é preciso ser criterioso em seu uso. Contudo, ela pode ser definida como “any form of communication/thinking” (PERRY, 2012, p. 64)9.

 

O que precisa ser compreendido é como o desenvolvimento das discussões acerca do termo ocorre em uma gama de contextos – sendo a educação formal apenas um deles, pois todo ambiente tem também sua parcela educativa.

O desenvolvimento do radical como conjunto de habilidades e competências praticado e desenvolvido pelo sujeito em contextos educacionais e socioculturais leva à questão de como se relacionar com conteúdos, informações e mídias, partes tão importantes do convívio social. Ainda, como esses fatores influenciam o processo educativo já que a cultura de massa tem um alcance exponencial devido às novas tecnologias.

 

Considerações Finais

A constante articulação do termo “literacia” em pesquisas relacionadas à Comunicação e à Educação foi a motivação desse trabalho. Por vezes, essa abordagem parece ser construída como uma simples substituição ao termo “alfabetização informacional”. Por outro lado, é também encarada como uma criação de uma nova tendência nesse mesmo perímetro epistemológico. Não obstante o conceito foi revisado em seus diferentes vértices com a Literatura e a Cultura. Foi observado que o termo tem em seu gene etimológico um caráter amplo e flexível, apropriado ao seu emprego nas atuais pesquisas. A construção semântica ganha notoriedade na década de 1980, enfatizando o processo cultural e social sobre a pesquisa de novas mídias e as novas maneiras de se pensar a informação. Os estudos em comunicação, educação e tecnologia as observam dessa maneira, como um mediador e não como um agente. O agente transformador é o sujeito exposto a elas que desenvolve as habilidades necessárias para praticar as múltiplas ações exigidas pela rede contemporânea. Junto com as novas tecnologias se acopla a convergência das mídias e também das informações.

A perspectiva das literacias tem se difundido e consolidado de tal forma, que a United Nation of Educational, Scientific and Cultural Oraganization (UNESCO) já há algum tempo discute o tema, reconhecendo-o como um direito humano fundamental, devido ao seu caráter construtivo e afirmativo tão necessários nos processos linguístico e educacional. A tradução literal para o termo “literacy” se emprega justamente por essa flexibilidade da palavra ao se movimentar e integrar novas associações. Para além do triângulo informação, tecnologia e mídia, há uma vasta gama de literacias emergentes desenvolvidas na sociedade da informação.

Os estudos no campo estão em desenvolvimento e carecem de pesquisas sobre o tema tanto para delimitar as nuances conceituais, quanto para definir aplicações práticas no contexto educacional brasileiro. Não obstante, esse artigo pretende incentivar novas pesquisas na área, bem como integrar um referencial teórico em construção.

3 Professores de línguas eficientes estão comprometidos com a ideologia da alfabetização. Eles não conseguem evitar eficazmente as implicações políticas da ideologia oculta nas saias da metodologia e da pesquisa. Alfabetização implica conteúdos específicos, bem como as competências formais. O formalismo extremo é enganador e evasivo. (Tradução Livre).

4 A alfabetização não é somente uma habilidade formal, é também uma decisão. A decisão de se querer uma sociedade alfabetizada. (Tradução Livre).

5 O conhecimento das palavras é um complemento ao conhecimento das realidades culturais significadas pelas palavras, e também a todo o domínio da experiência a que se refere a palavra. (Tradução Livre).

6 Todos nós precisamos de literacias, letramento imaginativo e intelectual, porque é uma parte essencial do nosso movimento em direção a uma maior autoconsciência crítica exercida sobre nossas próprias vidas e sobre o que a sociedade nos oferece como vida desejável. Todos nós precisamos do alimento contínuo, que pode ser dado pelo contato com outras mentes. (Tradução Livre).

7 Alguns podem argumentar que este tratamento reflete a “novidade” em relação à aceitação de perspectivas socioculturais no desenvolvimento das literacias; no entanto, as teorias socioculturais e sociolinguísticas sobre o desenvolvimento das literacias e suas práticas foram influentes ao longo de décadas. (Tradução Livre).

8 Metáforas para a literacia não se levantam por conta própria. Elas fazem parte de uma visão particular que tem implicações na forma como pensamos sobre os alunos, como pensamos sobre o que eles devem aprender e como isso pode ser alcançado. (Tradução Livre)

9 Qualquer forma de comunicação/pensamento. (Tradução Livre).



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