Revista Mulheres e Literatura – vol.14 – 1º semestre - 2015



UMA POÉTICA DO SILÊNCIO: A POESIA INTIMISTA DE GLÓRIA DE SANT’ANNA – Giulia Spinuzza





 

 

 

Giulia Spinuzza

Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa

 

Sumário: O presente trabalho pretende analisar um aspecto da obra de Glória de Sant’Anna, poeta de origem portuguesa que esteve radicada em Moçambique de 1951 até 1974. Para demostrar que sua escrita rasura o problemático limite entre o dizível e indizível, será abordada a temática do silêncio enquanto elemento fundamental dessa poética intimista de autoria feminina. Veremos de que forma o silêncio molda o discurso poético de Glória de Sant’Anna e quais as possíveis interpretações críticas deste elemento temático, que questiona a representação da identidade e intimidade poética da autora.

 

Palavras-chave: silêncio, poesia moçambicana, intimismo, autoria feminina.

 

Currículo da autora: Mestre em Estudos brasileiros e africanos, é actualmente doutoranda da Faculdade de Letras de Lisboa com uma bolsa da Fundação para a Ciência e a Tecnologia. É membro colaborador do CEsA (ISEG, Universidade Tecnológica de Lisboa). Atualmente desenvolve uma tese sob orientação da Professora Ana Mafalda Leite (UTC) e co-orientação da Professora Carmen Lucia Tindó Ribeiro Secco (UFRJ). Em 2012 publicou o capítulo “Reconfiguração da nação em Janela para Oriente de Eduardo White” na colectânea de ensaios Nação e narrativa pós-colonial I: Angola e Moçambique (Leite et al., orgs.).  Em junho de 2013, publicou o artigo “O cânone poético em construção na literatura moçambicana” na revista Mulemba.

 

 

Uma poética do silêncio: a poesia intimista

 

de Glória de Sant’Anna

 

 

 

Giulia Spinuzza

 

Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa

 

 

Glória de Sant’Anna (1925-2009) é uma poeta de origem portuguesa que esteve radicada durante duas décadas em Moçambique. O mar, a viagem, o silêncio e a solidão são algumas das marcas da sua escrita introspectiva. Começa a publicar em 1951, ano de chegada à sua terra adoptiva e afectiva.

A poesia de Glória de Sant’Anna, que se insere na linha da lírica intimista, estabelece um diálogo com outros poetas moçambicanos das décadas de 1950 e 1960 e a sua obra será retomada por poetas que se afirmam logo após a independência do país. É possível encontrar na escrita dessa poeta ecos de outras vozes femininas de língua portuguesa, como é o caso, por exemplo, de Cecília Meireles e Sophia de Mello Breyner Andresen. São as temáticas aquáticas, as linguagens submarinas e as viagens náuticas alguns dos elementos que acomunam a escrita destas autoras.

A obra poética de Glória de Sant’Anna desenvolve dois grandes núcleos temáticos, um veiculado à poesia sobre os “outros”, da qual emergem mulheres, meninos e pescadores moçambicanos, para além do drama da guerra colonial, e outro mais intimista, centrado sobretudo na solidão e no silêncio.

A poesia lírica intimista privilegia uma visão introspectiva, na qual a representação do mundo é, na maioria dos casos, veiculada à função de “espelho” do sujeito. O olhar introspectivo tenta definir os limites e percursos da própria intimidade a partir da imagem do mundo exterior. Todavia, no percurso poético introspectivo há algo que é silenciado, porque há uma luta constante entre o que é dito e o que não é dito; por esta razão, a poesia de Glória de Sant’Anna rasura o limite entre o dizível e o indizível. Como escreve Clarice Lispector em A hora da estrela: “a minha vida a mais verdadeira é irreconhecível, extremamente interior, e não tem uma só palavra que a signifique” (2002, p. 13). Também a poesia de Sant’Anna nega a possibilidade de exprimir-se plenamente através da palavra, pelas limitações conexas à linguagem: “A palavra/ é uma leve medida onde não me contenho/ e meu cílio parou sobre o pensamento” (1954, p. 37). Dessa impossibilidade emerge a vocação para o silêncio, que não corresponde exclusivamente ao não dito porque, como afirma Eni Puccinelli Orlandi, “o silêncio não fala, ele significa” (2011, p. 42).

Partindo do pressuposto de que, como diz Max Picard, “o silencio é mais do que uma simples renúncia à palavra” (1953, p. 1, tradução livre), propomos analisar as várias formas do silêncio na poética de Glória de Sant’Anna com o apoio de alguns textos críticos e filosóficos, numa perspectiva de análise já inaugurada por Guilherme de Sousa Bezerra Gonçalves (2013).

O silêncio está presente em diferentes meios de expressão artísticos, como a literatura, a pintura e o cinema. Na literatura, o silêncio tem adquirido, assim como em outras formas de expressão artísticas, funções e significados diferentes ao longo das épocas. O silêncio, por exemplo, pode estar conexo à censura, ao interdito ou ao pudor. No nosso caso, a temática do silêncio combina-se com outros elementos, entre os quais o secretismo, o pudor da intimidade, a solidão, a necessidade de definição de um limite verbal e existencial, a incomunicabilidade da intimidade do sujeito e o horror da guerra. Como sugere Picard, “o silencio adquire mil formas diferentes” entre as quais predomina “a imagem do silêncio do nosso interior” (1953, p. 10, tradução livre). As conexões estabelecidas a partir do silêncio demonstram então a complexidade do tecido poético estruturado à volta deste elemento.

Na capa do primeiro livro publicado por Glória de Sant’Anna recém chegada a Moçambique, Distância (1951), entre uma fracção riscada e uma mancha de tinta, apresenta-se o seguinte verso: “Tão grande o silêncio/ trazido”. O silêncio é o elemento propulsor da poética desta autora desde o primeiro livro publicado. Tal como sugere o auto-retrato traçado pela poeta, o silêncio é a medida de significação do sujeito e a marca do seu perfil: “Aqui me tens ajoelhada,/ de mãos abstractas/ e pálpebras descidas no silêncio” (SANT’ANNA, Glória de, 1951, p. 67).

No segundo poema de Distância, o silêncio é associado ao tempo e à noite, como podemos ler nos seguintes versos: “O relógio/ marca o silêncio do Tempo:/ a noite/ veste o silêncio/ nas casas que dormem/ Eu tenho um oásis/ na alma/ de penumbra verde/ da calma noite” (SANT’ANNA, Glória de, 1951, p. 11). Relativamente ao binómio tempo/silêncio, Picard nota que estes dois elementos são estritamente ligados, porque silenciosamente avançam os dias e as estações ao longo do ano (1953, p. 85, 88). O tempo, que se dilata silenciosamente, é acompanhado e definido pelo silêncio que o habita e só o relógio contraria esta natural afiliação, ao marcar os instantes que irrevogavelmente avançam.

Se a imagem do silêncio e do tempo é menos comum, a do silêncio e da noite é mais recorrente. Noite e silêncio partilham a ideia de ausência, de luz, no primeiro caso, e de som, no segundo. Para além disso, a noite tem em comum com o silêncio a ideia de amplitude e vastidão, sendo que o poder de ambos é penetrar nos espaços privados e protectores, as casas, durante o momento mais vulnerável do homem, o sono. Também Picard sublinha a relação entre noite e silêncio: “à noite, o silêncio aproxima-se da terra; (…). O silêncio da noite dissolve as palavras do dia (…)” (1953, p. 108, tradução livre). A ideia de dissolução das palavras pode estar associada à ausência de memória, como demostram os versos de outro poema, “Ausência”, de Livro de água, que combinam a ideia de noite e de silêncio com a de memória:

Hoje nem saudade. O antigo vento é morto.

Dentro da noite

anda um silêncio absorto,

sem peso nem memória.

As casas pardas. Ausente a grande lua.

Dentro da noite,

cresce uma vã ternura

que ficará lá fora […].

(SANT’ANNA, Glória de, 1961, p. 30)

 

A temática da ausência de memória, conexa à da nulidade do passado e à da transitoriedade do presente, tem a ver com uma específica concepção do tempo, relacionada à efemeridade da vida humana. A noite, que exerce sua atracção sobre o silêncio, faz prevalecer a ideia de ausência, que dá o título a esse poema.

A este ponto perguntamos se é possível estabelecer uma relação entre silêncio e memória. Se, por um lado, o silêncio pode ser considerado um elemento propulsor da memória, porque favorece o processo de retrospecção necessário para lembrar o passado, por outro lado, pode evocar o nada, o vazio, o leve e o efémero. A ideia do silêncio-vazio, que remete para a concepção do silêncio enquanto ausência de som, contrasta com o facto de o silêncio ser muitas vezes relacionado à musicalidade. A relação silêncio/música integra a reconhecida relação entre a poesia e a música.

Como sabemos, a poesia lírica implicava a presença de um acompanhamento musical, a lira, desde o tempo dos gregos e dos romanos; também na época medieval as produções poéticas eram criadas para serem cantadas pelos trovadores. A poesia moderna e contemporânea reelabora criativamente e de formas distintas a questão da música e da musicalidade; é por isso que Steiner refere a existência de um topos que vê a poesia enquanto um caminho que, em sua intensidade máxima, conduz à música (1988, p. 62). Ainda segundo Blanchot, o verso orienta a linguagem segundo um movimento, uma trajectória rítmica, que aproxima a poesia da música (1999, p. 41). Considerando o facto de que o silêncio, pode ser visto não tanto em oposição às palavras, mas enquanto sua realização máxima, porque com as palavras é possível criar o silêncio (BLANCHOT, Maurice, 1999, p. 42), podemos dizer que este é presente na poesia como harmonia perceptível, enquanto música (PICARD, Max, 1953, p. 13).

Na poética de Glória de Sant’Anna a associação entre música e poesia é feita através da presença do silêncio, porque este representa a harmonia interior, que é reconduzível à musicalidade:

 

Silêncio aberto

de plenitude

como uma ilha

num lago fundo.

 

Silêncio exacto

cheio de música

vindo de nada

contendo tudo.

É este agora

deste momento

em que estando

me ausento.

(SANT’ANNA, Glória de, 1965, p. 33)

 

 

No poema citado há uma comunhão entre elementos aparentemente oximóricos: silêncio>música e nada>tudo. Todo o poema constrói-se através de categorias opostas: a ilha, que é o elemento de comparação do “silêncio aberto”, é na verdade uma porção de terra fechada pela água; e o silêncio, “cheio de música”, reconfigura a harmonia interior do sujeito e da poesia.

A última estrofe deste poema evidencia outra ambivalência: a do homem e a do sujeito poético; porque, para ser poeta, o eu-lírico tem que se “ausentar” do homem. O poema reafirma a ideia de Octávio Paz segundo o qual “a poesia nasce no silencio (…), mas aspira irresistivelmente a recuperar a linguagem enquanto realidade total” (1992, p. 282). Nesse sentido, podemos dizer que, no caso de Glória de Sant’Anna, o silêncio permite recuperar a harmonia do sujeito com o mundo à sua volta, através da linguagem poética.

A relação entre música e poesia, enunciada pelo poema citado, leva-nos a reflectir sobre o título de outro livro de Glória de Sant’Anna: Música ausente (1954). O livro funda-se na presença-ausência da memória e do passado, sendo que o sujeito, despojado de seus limites temporais, já não se reconhece no espelho do tempo. Assim, o título pode ser lido como uma referência à ausência da lembrança e da sua música interior, substituídas pela presença avassaladora do silêncio da poesia.

A ausência do passado, da memória, da lembrança e a ideia de um sujeito errante num espaço e tempo indefinidos remetem para o questionamento da identidade. O caminho da poesia vivencia então a impossibilidade de comunicar o indizível da alma:

 

Aqui estou inteira:

de memória ausente,

sem fisionomia

– como uma medalha.

Aqui estou inteira

para ser guardada

no fundo do tempo

onde não há nada.

(SANT’ANNA, Glória de, 1954, p. 61)

 

O sujeito mantém sua integridade, porém o seu limite se desfaz, num percurso de anulação temporal e espacial. Este poema, que sublinha o desmoronar-se das coordenadas temporais, complementa a imagem de outro poema, no qual se apresenta o movimento de dispersão do sujeito:

 

Força esta

que me dispersa…

Eu venho do brado das quedas da água,

e da melodia das ondas do mar,

e do céu infindo,

quando há lua cheia.

(SANT’ANNA, Glória de, 1951, p. 9)

 

 

Aqui, o sujeito reencontra a sua origem primordial nos elementos da natureza, cujas forças de dispersão o desprendem das amarras terrestres e lhe permitem alcançar o espaço infinito do mar e do céu. Ao lado deste movimento de expansão, notamos que há também um percurso paralelo de introspecção. E, nesta indagação interior, o silêncio torna-se no elemento que melhor define a intimidade do eu lírico, porque cela o indizível, o segredo.

Relativamente à relação entre secretismo e silêncio, podemos dizer que na poesia intimista a palavra não dita (ou, neste caso, escrita) deriva do facto de que, como bem explica Paula Morão, “a natureza do enigma reside no segredo da própria linguagem, e na luta travada entre um eu que se quer conhecer dizendo-se e a obscuridade da palavra. Escrever sobre o eu, e sobre o eu íntimo, é desafiar a esfinge e, como Édipo, incorrer nos perigos de tal empresa (…)” (2011, p. 49). Assim, o silêncio é também fruto das limitações da palavra e da linguagem no percurso de (re)conhecimento interior.

No “Segundo poema da solidão” (SANT’ANNA, Glória de, 1972, p. 47) a imagem do secretismo é criada através da referência ao elemento aquático que, devido à sua fluidez, não pode ser “capturado”. O movimento da água reflecte não só a transitoriedade do próprio sujeito, mas a sua inteligibilidade relacionada ao secretismo:

 

Serei tão secreta

como o tecido da água

e tão leve

e tão através de mim deixando passar

toda a paisagem

e todo o alheio pecado

do gesto, da presença ou da palavra

que logo que a tua mão me prenda

me não achará:

serei de água.

(SANT’ANNA, Glória de, 1972, p. 47)

 

 

Neste texto, s poesia viaja até os meandros do eu e o sujeito cumpre uma leitura da própria imagem no reflexo da água para descobrir, por intermédio da palavra, os lugares mais recônditos da própria alma. Podemos dizer que o intimismo está conexo ao narcisismo, na medida em que indagar sobre o eu permite concentrar-se na própria imagem. Mas, ao contrário de Narciso, o poeta vê na água muito mais do que a própria imagem. Define-se, assim, uma paisagem animizada e em permanente trânsito, impossível de se fixar temporal ou geograficamente.

O silêncio deve ser lido como um dos aspectos da poesia intimista que definem não só a escrita da poeta, mas também o seu enigmático rosto: “Este é o silêncio:/o silêncio exacto/ que permanece/ na curva do meu lábio” (SANT’ANNA, Glória de, 1972, p. 45). Nestes versos o silêncio torna-se parte constitutiva do ser, porque “o rosto humano é a fronteira entre o silêncio e a palavra (…). O silêncio é como um órgão do rosto (…)” (PICARD, Max, 1953, p. 73, tradução livre). Relativamente aos versos citados, é interessante notar que o silêncio se coloca na boca, ou seja, no órgão de emissão da palavra, porque é o lábio fechado que mantém o secretismo.

Consideradas as relações entre silêncio e secretismo, notamos que este último pode ser muito dramático porque, para além de carregar o peso do silêncio, pode esconder as inquietudes do sujeito. No poema “Mágoa”, por exemplo, o lábio fechado simboliza o silêncio que esconde a dor:

 

No tempo

é marcado

meu gesto amargo.

Morto o sentimento

– fechado meu lábio

por seu segredo.

(SANT’ANNA, Glória de, 1954, p. 87)

 

 

O segredo é a essência do sujeito e marca a sua origem e o seu destino indefinidos: “Eu nada sou/ Minhas raízes/ é que definem o que não digo./ E donde partem/ e aonde vão/ é um segredo já antigo” (SANT’ANNA, Glória de, 1965, p. 29). Então, o desconhecimento e a incomunicabilidade derivam de um não-estar no mundo enquanto sujeito “histórico”, com um passado, um presente e um futuro. A aniquilação do ser não é uma renúncia, mas uma tomada de consciência da instabilidade e efemeridade do próprio percurso geográfico, histórico e existencial.

Sendo impossível encontrar um lugar do ser, definido por coordenadas espaço-temporais, o eu lírico, devido às limitações da linguagem, não encontra palavras que o signifiquem. Em consequência disso, o sujeito nota a falha intrínseca da linguagem, à qual substitui o silêncio; as palavras, então, deixam de ter significado real e, ao ficarem desajustadas, contribuem à dispersão do sujeito: “Palavras me trespassam./ Claras frases. (Sem densidade quase)./ Tão exactas,/ diluindo meu contorno (que inda sou).” (SANT’ANNA, Glória de, 1965, p. 59). Dessa forma, as palavras, incapazes de reproduzir a ideia do real, deixam lugar ao silêncio, como testemunha o seguinte poema: “A essência das coisas é senti-las/ tão densas e tão claras,/ que não possam conter-se por completo/ nas palavras./ A essência das coisas é nutri-las/ tão de alegria e mágoa,/ que o silêncio se ajuste à sua forma/ sem mais nada” (SANT’ANNA, Glória de, 1965, p. 43).

Notamos então que a escrita de Glória de Sant’Anna dilui-se à medida que se aproxima da percepção do mundo e de si, porque, como declara Picard, a poesia nasce do silêncio (1953, p. 112) e o seu objectivo é recuperá-lo através das palavras.

Em conclusão, devemos notar também que a poética de Glória de Sant’Anna fundada no silêncio, não pode ser compreendida na sua totalidade, se não for relacionada à imagem do mar. O título de um livro da autora, Um denso azul silêncio (1965), pode fornecer uma interessante leitura acerca da relação entre o silêncio e o mar. De facto, Um denso azul silêncio evoca metaforicamente a imagem do céu e do mar e conjuga sinestesicamente os diferentes sentidos: o tacto (a densidade), a visão (o azul) e a audição (o silêncio). No poema “Nocturno”, que faz parte deste livro, ecoam as palavras do título:

 

Dentro dos finos dedos das árvores quietas

a noite dorme um longo sono transparente

junto das tépidas aves de olhos ausentes

da clara madrugada que ainda não surgiu.

O esparso e denso azul silêncio ressente-se

e simula agitar-se a uma brisa ténue que não existe,

(e contornaria os muros pálidos e inertes

sem tocar o secreto e desconhecido íntimo das pedras).

tudo se contém no contorno fixo do seu limite.

Só o mar se desdobra e reflecte a inquietamente

vigília inútil e cansada das estrelas.

(SANT’ANNA, Glória de, 1965, p. 65)

 

A profunda ligação entre o mar e o silêncio deve-se, como demonstra P. Orlandi, à origem etimológica da palavra silêncio, sileo, que remete para a ideia de tranquilidade e era empregada com referência à noite, ao vento e, sobretudo, ao mar: “Silentium, mar profundo. E aí deparamos com o aspecto fluido e líquido do silêncio” (2011, p. 33). O azul silêncio que emerge do mar e do céu acomuna os dois elementos naturais, todavia, neste aparente quadro de tranquilidade, perante a presença constante, e por isso “cansada”, das estrelas, a irreverência do mar, espelho do sujeito, marca a sua presença. Ao contrário do limite que marca e define os elementos naturais, o mar reivindica a sua força expansiva.

A força expansiva dos elementos naturais, conexa à ideia de imensidão, é uma imagem frequente na poesia de Glória de Sant’Anna. De facto, os elementos naturais, como o céu, o vento, as estrelas e o mar, estabelecem uma relação metafórica com o sujeito lírico. Porque a consciência da vastidão do mundo permite experimentar, como afirma Bachelard, “a consonância da imensidade do mundo com a profundidade do ser íntimo” (2008, p. 194). Assim, a natureza transforma-se num espaço sem limites, onde mergulha o eu lírico.

Em conclusão, podemos dizer que o silêncio é, como afirma Eni Puccinelli Orlandi, “tão ambíguo quanto as palavras”, porque “trabalha nos limites do dizer, o seu horizonte possível e o seu horizonte realizado” (2011, p. 101, p. 91). É dentro desses possíveis horizontes que devemos interrogar os textos escritos, porque o espaço do silêncio não se limita a preencher o vazio das palavras. Nesse sentido, a escrita de Glória de Sant’Anna, não é só um testemunho importante do lirismo intimista de autoria feminina, mas interroga também a capacidade da poesia de interpretar e desvelar os lados mais recônditos da intimidade poética. Se, como nota Blanchot, “a literatura pretende fazer da linguagem o absoluto, e reconhecer nesse absoluto o equivalente do silencio” (1999, p. 68), Glória de Sant’Anna procura, através da palavra poética, o absoluto silêncio da poesia.

 

 

 

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

BACHELARD, Gaston (2008). A poética do espaço. São Paulo: Martins Fontes.

BLANCHOT, Maurice (1999). La part du feu. Paris: Gallimard.

GONÇALVES, Guilherme de Sousa Bezerra (2013). Para inventar um balé marinho: Glória de Sant’Anna. Dissertação de mestrado orientada pela Dra. Carmen Lucia Tindó Secco. Programa de pós-graduação em letras vernáculas da Faculdade de Letras da Universidade Federal do Rio de Janeiro – UFRJ. 168 p.

LEITE, Ana Mafalda (2003). Literaturas africanas e formulações pós-coloniais. Lisboa: Colibri.

LISBOA, Eugénio. “Glória de Sant’Anna: O silêncio íntimo das coisas”. Introdução. In: SANT’ANNA, Glória de. Amaranto. Lisboa: Imprensa Nacional Casa da Moeda, 1988. p. 9-26.

LISPECTOR, Clarice (2002). A hora da estrela. Lisboa: Relógio d’Água.

MORÃO, Paula (2011). O secreto e o real – Ensaios sobre literatura portuguesa. Lisboa: Campo da Comunicação.

ORLANDI, Eni Pulcinelli (2011). As formas do silêncioNo movimento dos sentidos. Campinas: Unicamp.

PAZ, Octavio (1992). El arco y la lira: el poema, la revelación poética, poesía e historia, México: Fondo de Cultura Económica.

PICARD, Max (1953). Le monde du silence. Vendôme: Presses Universitaires.

SANT’ANNA, Glória de (1951). Distância. Lisboa: Edição de autor.

SANT’ANNA, Glória de (1954). Música ausente. Santa Maria de Lamas: Edição de autor.

SANT’ANNA, Glória de (1961). Livro de água. Lourenço Marques: Edição de autor.

SANT’ANNA, Glória de (1965). Um denso azul silêncio. Lourenço Marques: Edição de autor.

SANT’ANNA, Glória de (1972). Desde que o mundo e 32 poemas de intervalo. Lourenço Marques: COOP.

SECCO, Carmen Lucia Tindó Ribeiro (2008, 2ª ed.). A magia das letras africanas. Rio de Janeiro: Quartet.

STEINER, George (1988). Linguagem e silêncio: ensaios sobre a crise da palavra. São Paulo: Companhia das Letras.

 



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