ESCRITORES



TU SÓ, TU, PURO AMOR





Autor: Machado de Assis
Título: TU SÓ, TU, PURO AMOR
Idiomas: port
Tradutor: –
Data: 09/02/2006

TU Só, TU, PURO AMOR[*]

COMÉDIA

 

Tu só, tu, puro amor, com for?a crua,

     Que os cora??es humanos tanto obriga…

(Lus?adas 3 CXIX)

PESSOAS

CAM?ES                                                                                      D. MANUEL DE PORTUGAL
D. ANT?NIO DE LIMA                                                     D. CATARINA DE ATAIDE
CAMINHA                                                                                 D. FRANCISCA DE ARAG?O

Sala no pa?o

CENA PRIMEIRA
CAMINHA, D. MANUEL DE PORTUGAL

 

(CAMINHA vem do fundo ? esquerda; vai a entrar pela porta da direita quando lhe sai D. MANUEL DE PORTUGAL, a rir)
CAM. Alegre vindes, senhor D. Manuel de Portugal. Disse-vos El-rel alguma cousa graciosa, decerto…
D. MAN. N?o; n?o foi El-rei. Adivinhai o que seria, se ? que o n?o sabeis j?.
CAM. Que foi?
D. MAN. Sabeis o caso da galinha do Duque de Aveiro?
CAM. N?o.

D. MAN. N?o sabeis? Pois ? isto: uns versos mui galantes do nosso Cam?es. (CAMINHA estremece e faz um gesto de m? vontade) Uns versos como ele os sabe fazer. (? parte) D?i-lhe a not?cia. (Alto) Mas, deveras, n?o sabeis do encontro de Cam?es com o Duque de Aveiro?
CAM . N?o .
D. MAN. Foi o pr?prio duque que mo contou agora mesmo, ao vir de estar com El-rei…
CAM. Que houve ent?o?
D. MAN. Eu vo-lo digo; achavam-se ontem, na igreja do Amparo, o duque e o poeta…
CAM. (com enfado). O poeta! o poeta! N?o ? mais que engenhar a? uns pecos versos, para ser logo
poeta! Desperdl?ais o vosso entusiasmo, senhor D. Manuel. Poeta ? o nosso S?, o meu grande S?! Mas, esse arruador, esse brig?o de horas mortas…
D MAN. Parece-vos ent?o?…
CAM. Que esse mo?o tem algum engenho, muito menos do que lhe diz a presun??o dele e a cegueira dos amigos; algum engenho n?o lhe nego eu. Faz sonetos sofr?veis. E can??es… digo-vos que li uma ou duas, n?o de todo mal alinhavadas. Pois ent?o? Com boa vontade, mais esfor?o, menos soberba, gastando as noites, n?o a folgar pelas locandas de Lisboa, mas a meditar os poetas italianos, digo-vos que pode vlr a ser…
D MAN. Acabai.
CAM. Est? acabado: um poeta sofr?vel.
D. MAN. Deveras? Lembra-me que j? isso mesmo lhe negastes.
CAM. (sorrindo). No meu epigrama, n?o? E nego-lho ainda agora, se n?o fizer o que vos digo. Pareceu-vos gracioso o epigrama? Fi-lo por desenfado, n?o por ?dio… Dizei, que tal vos pareceu ele?
D. MAN. Injusto, mas gracioso.
CAM. Sim? Tenho em mui boa conta o vosso parecer. Algum tempo supus que me desdenh?veis. N?o era imposs?vel que assim fosse. Intrigas da corte d?o azo a muita injusti?a; mas principalmente acreditei que fossem artes desse rixoso… Juro-vos que ele me tem ?dio.
D. MAN. O Cam?es?
CAM. Tem, tem…
D. MAN. Por qu??
CAM. N?o sei, mas tem. Adeus.
D. MAN. Ide-vos?
CAM. Vou a El-rei, e depois ao meu senhor infante (Corteja-o e dirige-se para a porta ela direita. D. MANUEL dirige-separa o fundo).
D. MAN. (andando).
Eu j? vi a taverneiro
Vender vaca por carneiro…

 

CAM. Recitai versos?…S?o vossos?…N?o me negueis o gosto de vos ouvir.
D. MAN. Meus n?o; s?o de Cam?es… (Repete-os descendo a cena)
Eu j? vi a taverneiro
Vender vaca por carneiro;

CAM. (sarc?stico). De Cam?es?… Galantes s?o. Nem Virg?lio os daria melhores. Ora, fazei o favor de repetir comigo:
Eu j? vi a taverneiro
Vender vaca por carneiro…

E depois? V?, dizei-me o resto, que n?o quero perder iguaria de t?o fino sabor.
D. MAN. O Duque de Aveiro e o poeta encontraram-se ontem na igreja do Amparo. O duque prometeu ao poeta mandar-lhe uma galinha da sua mesa; mas s? lhe mandou um assado. Cam?es retorquiu-lhe com estes versos, que o pr?prio duque me mostrou agora, a rir:
Eu j? vi a taverneiro
Vender vaca por carneiro
Mas, n?o vi, por vida minha,
Vender vaca por galinha
Sen?o ao Duque de Aveiro.

Confessai, confessai, Senhor Caminha, v?s que sois poeta, confessai que h? a? certo pico, e uma simpleza de dizer… N?o vale tanto decerto como os sonetos dele, alguns dos quais s?o sublimes, aquele, por exemplo:
De amor escrevo, de amor trato e vivo…
ou este:
Tanto do meu estado me acho incerto…

Sabeis a continua??o?
CAM. At? lhe sei o fim:
Se me pergunta algu?m por que assim ando
Respondo que n?o sei, por?m suspeito
Que s? porque vos vi, minha senhora.
(Fitando-lhe muito os olhos.) Esta senhora… Sabeis v?s, decerto, quem ? esta senhora do poeta como eu o sei como o sabem todos… Naturalmente amam-se ainda muito?…
D. MAN. (? parte). Que querer? ele?
CAM. Amam-se por for?a.
D. MAN. Cuido que n?o.
CAM. Que n?o?
D. MAN. Acabou como tudo acaba.
CAM. (sorrindo). Andai l?; n?o sei se me dizeis tudo. Amigos sois e n?o ? imposs?vel que tamb?m v?s… Onde est? a
nossa gentil senhora D. Francisca de Arag?o?
D. MAN. Que tem?
CAM. Vede: um simples nome vos faz estremecer de c?lera. Mas, abrandai a c?lera, que n?o sou vosso inimigo, mui ao contr?rio; amo-vos, e a ela tamb?m… e respeito-a muito. Um para o outro nascestes. Mas, adeus, faz-se tarde, vou ter com El-rei. (Sai pela direita).

CENA II
D. MANUEL DE PORTUGAL

 

Este homem! Este homem!… Como se os versos dele, duros e insossos… (Vai ? porta por onde Caminha saiu, e
levanta o reposteiro.) L? vai ele; vai cabisbaixo; rumina talvez alguma cousa. Que n?o sejam versos (Ao fundo aparecem D. Ant?nio de Lima e D. Catarina de Ata?de).

CENA III
D. MANUEL DE PORTUGAI, D. CATARINA DE ATAIDE, D. ANT?NIO DE LIMA

 

D. ANT. Que espreitais a?, senhor D. Manuel?
D. MAN. Estava a ver o porte elegante de nosso Caminha. N?o vades supor que era alguma dama. (Levanta o reposteiro.) Olhai, l? vai ele a desaparecer. Vai a El-rei.
D. ANT. Tamb?m eu. Tu, n?o, minha boa Catarina. A rainha espera-vos. (D. CATARINA faz uma rever?ncia e caminha para a porta da esquerda.) Ide, ide, minha gentil flor… (A D. MANUEL) Gentil, n?o a achais?
D. MAN. Gentil?ssima.
D. ANT. Agradecei, Catarina.
D. CAT. Agrade?o; mas o certo ? que o Senhor D. Manuel ? rico de louvores…
D. MAN. Eu podia dizer que a natureza ? que foi convosco pr?diga de gra?as; mas, n?o digo; seria repetir mal aquilo que s? poetas podem dizer bem. (D. ANT?NIO fecha o rosto.) Dizem que tamb?m sou poeta, ? verdade; n?o sei; fa?o versos. Adeus, Senhor D. Ant?nio… (Corteja-os e sai. D. CATARINA vai a entrar, ? esquerda. D. ANT?NIO det?m-na.)

CENA IV
D. ANT?NIO DE LIMA, D. CATARINA DE ATAIDE

 

D. ANT. Ouviste aquilo?
D. CAT. (parando). Aquilo?
D. ANT. ?Que s? poetas podem dizer bem? foram as palavras dele. (D. CATARINA aproxima-se.) V?s tu, filha? T?o
divulgadas andam j? essas cousas, que at? se dizem nas barbas de teu pai!
D. CAT. Senhor, um gracejo…
D. ANT. (enfadando-se). Um gracejo injurioso, que eu n?o consinto, que n?o quero, que me d?i… ?Que s? poetas podem dizer bem!? E que poeta! Pergunta ao nosso Caminha o que ? esse atrevido, o que vale a sua poesia… Mas, que seja outra e melhor, n?o a quero para mim, nem para ti. N?o te criei para entregar-te ?s m?os do primeiro que passa, e lhe d? na cabe?a haver-te.
D. CAT. (procurando moder?-lo). Meu pai…
D. ANT. Teu pai, e teu senhor!
D. CAT. Meu senhor e pai… juro-vos que… juro-vos que vos quero e muito… Por quem sois, n?o vos irriteis contra mim!
D. ANT. Jura que me obedecer?s.
D. CAT. N?o ? essa a minha obriga??o?
D. ANT. Obriga??o ?, e a mais grave de todas. Olha-me bem filha; eu amo-te como pai que sou. Agora, anda, vai.

CENA V
D. ANT?NIO DE LIMA, D. CATARINA DE ATAIDE, D. FRANCISCA DE ARAG?O

 

D. ANT. Mas n?o, n?o v?s sem falar ? senhora D. Francisca de Arag?o, que a? nos aparece, fresca como a rosa que desabotoou agora mesmo, ou como dizia a farsa do nosso Gil Vicente, que eu ouvi h? tantos anos, por tempo do nosso
seren?ssimo Senhor D. Manuel… Velho estou, minha formosa dama…
D. FRA. E que dizia a farsa?
D. ANT A farsa dizia:
? bonita como estrela,
Uma rosinha de abril,
Uma frescura de maio,
T?o manhosa, t?o subtil!

Vede, que a farsa adivinhava j? a nossa D. Francisca de uma frescura de maio, t?o manhosa, t?o subtil…
D. FRA. Manhosa, eu?
D. ANT. E subtil. N?o vos esque?a a rima, que ? de lei (Vai a sair pela porta da direita; aparece CAM?ES).

CENA VI
OS MESMOS, CAM?ES

 

D. CAT. (? parte). Ele!
D. FRA. (baixo a D. CATARINA). Sossegai!
D. ANT. Vinde c?, senhor poeta das galinhas. J? me chegou aos ouvidos o vosso lindo epigrama. Lindo, sim; e estou que n?o vos custaria mais tempo a faz?-lo do que eu a dizer-vos que me divertiu muito… E o duque? O duque, ainda n?o emendou a m?o? H? de emendar, que n?o ? nenhum mesquinho.
CAM?ES (alegremente).Pois El-rei deseja o contr?rio…
D. ANT. Ah! Sua Alteza falou-vos disso?… Contar-mo-eis em tempo. (A D. CATARINA com inten??o.) Minha filha e senhora, n?o ides ter com a rainha? eu vou falar a El-rei. (D. CATARINA cortejaos e dirige-se para a esquerda; D. ANT?NIO sai pela direita).

CENA VII
OS MESMOS, menos D. ANT?NIO DE LIMA

 

(D. CATARINA quer sair, D. FRANCISCA DE ARAG?O det?m-na)
D. FRA. Ficai, ficai…
D. CAT. Deixai-me ir!
CAM?ES Fugis de mim?
D. CAT. Fujo… Assim o querem todos.
CAM?ES Todos! todos quem?
D. FRA. (indo a CAM?ES). Sossegai. Tendes, na verdade, um g?nio, uns esp?ritos… Que h? de ser? Corre a mais e mais a not?cia dos vossos amores… e o Senhor D. Ant?nio, que ? pai, e pai severo …
CAM?ES (vivamente, a D. CATARINA). Amea?a-vos?
D. CAT. N?o; d?-me conselhos… bons conselhos, meu Lu?s. N?o vos quer mal, n?o quer… Vamos l?, eu ? que sou desatinada. Mas, passou. Dizei-nos l? esses versos de que fal?veis h? pouco. Um epigrama, n?o ?? H? de ser t?o bonito como os outros… menos um.
CAM?ES Um?
D. CAT. Sim, o que fizestes a D. Guiomar de Blasf?.
CAM?ES (com desd?m). Que monta? Bem frouxos versos.
D. FRA. N?o tanto; mas eram feitos a D. Guiomar, e os piores versos deste mundo s?o os que se fazem a outras damas. (A D. CATARINA.) Acertei? (A CAM?ES.) Ora, andai, vou deixar-vos; dizei o caso do vosso epigrama, n?o a mim, que j? o sei de cor, por?m a ela que ainda n?o sabe nada… E que foi que vos disse El-rei?
CAM?ES. El-rei viu-me, e dignou-se chamar-me; fitou-me um pouco a sua real vista, e disse com brandura: ?Tomara eu, senhor poeta, que todos os duques vos faltem com galinhas, porque assim nos alegrareis com versos t?o chistosos?.
D. FRA. Disse-vos isto? ? um grande esp?rito El-rei!
D. CAT. (a D. FRANCISCA) N?o ?? (A CAM?ES) E v?s que lhe dissestes?
CAM?ES Eu? nada… ou quase nada. Era t?o inopinado o louvor que me tomou a fala. E, contudo, se eu pudesse responder agora… agora que recobrei os esp?ritos… dir-lhe-ia que h? aqui (Leva a m?o ? fronte.) alguma cousa mais do que simples versos de desenfado… dir-lhe-ia que… (Fica absorto um instante, depois olha alternadamente para as duas damas, entre as quais se acha.) Um sonho… As vezes cuido conter c? dentro mais do que a minha vida e o meu s?culo… Sonhos… sonhos! A realidade ? que v?s sois as duas mais lindas damas da cristandade, e que o amor ? a alma do universo!
D. FRA. O amor e a espada, senhor brig?o!
CAM?ES (alegremente). Por que me n?o dais logo as alcunhas que h?o de ter posto os poltr?es do Rocio? Vingam-se com isso, que ? a desforra da poltroneria… N?o sabeis? Naturalmente n?o; v?s gastais as horas nos lavores e recreios do pa?o; mora aqui a doce paz do esp?rito…
D. CAT. (com inten??o). Nem sempre.
D. FRA. (a CAM?ES, sorrindo). Isto ? convosco; e eu, que posso ser indiscreta, n?o me detenho a ouvir mais nada. (D? alguns passos para o fundo).
D. CAT. Vinde c?…
D. FRA. Vou-me… vou a consolar o nosso Caminha, que h? de estar um pouco enfadado… Ouviu ele o que El-rei vos disse?
CAMOES Ouviu; que tem?
D. FRA. N?o ouviria de boa sombra.
CAM?ES Pode ser que n?o… dizem-me que n?o. a D. CATARINA) Pareceis inquieta…
D. CAT. (a D. FRANCISCA). N?o vades, n?o vades; ficai um instante.
CAM?ES (a D. FRANCISCA). Irei eu.
D. FRA. N?o, senhor; irei eu s?. (Sai pelo fundo).

CENA VIII
CAM?ES, D. CATARINA DE ATA?DE

 

CAM?ES (com uma rever?ncia). Irei eu. Adeus, minha senhora D. Catarina de Ata?de! (D. CATARINA d? um passo para ele.) Mantenha-vos Deus na sua santa guarda
D. CAT. N?o… vinde c? (CAM?ES det?m-se) Enfadei-vos? Vinde um pouco mais perto. (CAM?ES aproxima-se.) Que vos fiz eu? Duvidais de mim?
CAM?ES Cuido que me quer?eis ausente.
D. CAT. Lu?s! (Inquieta.) Vede esta sala, estas paredes… falarmos a s?s… Duvidais de mim?
CAM?ES N?o duvido de v?s, n?o duvido da vossa ternura; da vossa firmeza ? que eu duvido.
D. CAT. Receais que fraqueie algum dia?
CAM?ES Receio; chorareis muitas l?grimas, muitas e amargas… mas, cuido que fraqueareis.
D. CAT. Lu?s! juro-vos …
CAM?ES Perdoai, se vos ofende esta palavra. Ela ? sincera, subiu-me do cora??o ? boca. N?o posso guardar a verdade; perder-me-ei algum dia por diz?-la sem rebu?o. Assim me fez a natureza, assim irei ? sepultura.
D. CAT. N?o, n?o fraquearei, juro-vos. Amo-vos muito, bem o sabeis. Posso chegar a afrontar tudo, at? a c?lera de meu pai. Vede l?, estamos a s?s; se nos vira algu?m… (CAM?ES d? um passo para sair.) N?o, vinde c?. Mas, se nos vira algu?m, defronte um do outro, no meio de uma sala deserta, que pensaria? N?o sei que pensaria; tinha medo h? pouco, j? n?o tenho medo… amor sim… O que eu tenho ? amor, meu Lu?s.
CAM?ES Minha boa Catarina.
D. CAT. N?o me chameis boa, que eu n?o sei se boa, nem m?.
CAM?ES Divina sois!
D.CAT. N?o me deis nomes que s?o sacril?gios.
CAMOES Que outro vos cabe?
D. CAT. Nenhum.
CAM?ES Nenhum? Simplesmente a minha doce e formosa senhora D. Catarina de Ata?de, uma ninfa do pa?o, que se lembrou de amar um triste escudeiro, sem reparar que seu pai a guarda para algum solar opulento, algum grande cargo de camareira-mor. Tudo isso havereis, enquanto que o coitado de Cam?es, ir? morrer em ?frica ou ?sia…
D. CAT. Teimoso sois! sempre essas id?ias de ?frica…
CAM?ES ou ?sia. Que tem isso? Digo-vos que, ?s vezes, a dormir, imagino l? estar, longe dos galanteios da corte, armado em guerra, diante do gentio. Imaginai agora…
D. CAT. N?o imagino nada; v?s sois meu, t?o-s? meu, t?o-somente meu. Que me importa o gentio, ou o turco, ou que quer que ?, que n?o sei, nem quero? Tinha que ver, se me deix?veis, para ir ?s vossas ?fricas… E os meus sonetos? Quem mos havia de fazer, meu rico poeta?
CAM?ES N?o faltar? quem vo-los fa?a, e da maior perfei??o.
D. CAT. Pode ser; mas eu quero-os ruins, como os vossos… como aquele da Circe, o meu retrato, dissestes v?s.
CAM?ES (recitando).
Um mover de olhos, brando e piedoso,
Sem ver de que; um riso brando e honesto,
Quase for?ado; um doce e humilde gesto
De qualquer alegria duvidoso…

D. CAT. N?o acabeis, que me obrigar?eis a fugir de vexada.
CAM?ES De vexada! Quando ? que a rosa se vexou, porque o sol a beijou de longe?
D. CAT: Bem respondido, meu claro sol.
CAM?ES Deixai-me repetir que sois divina. Nat?rcia minha, pode a sorte separar-nos, ou a morte de um ou de outro; mas o amor subsiste, longe ou perto, na morte ou na vida, no mais baixo estado, ou no cimo das grandezas humanas, n?o ? assim? Deixai-me cr?-lo, ao menos; deixai-me crer que h? um v?nculo secreto e forte, que nem os homens, nem a pr?pria natureza poderia j? destruir. Deixai-me crer… N?o me ouvis?
D. CAT. (enlevada). Ou?o, ou?o.
CAM?ES Crer que a ?ltima palavra de vossos l?bios ser? o meu nome. Ser??… Tenha eu esta f?, e n?o se me dar? da adversidade; sentir-me-ei afortunado e grande. Grande, ouvis bem? Maior que todos os demais homens.
D. CAT. Acabai!
CAM?ES Que mais?
D.CAT. N?o sei; mas ? t?o doce ouvir-vos! Acabai, acabai, meu poeta! Ou antes, n?o, n?o acabeis; falai sempre, deixai-me ficar perpetuamente a escutar-vos.
CAM?ES Ai de n?s! A perpetuidade ? um simples instante, um instante em que nos deixam s?s nesta sala! (D. CATARINA afasta-se rapidamente) Olhai; s? a id?ia do perigo vos arredou de mim.
D. CAT. Na verdade, se nos vissem… Se algu?m a?, por esses reposteiros… Adeus…
CAM?ES Medrosa, eterna medrosa!
D. CAT. Pode ser que sim; mas n?o est? isso mesmo no meu retrato?
Um colhido ousar, uma brandura,
Um medo sem ter culpa; um ar sereno,
Um longo e obediente sofrimento…

CAM?ES
Esta foi a celeste formosura
Da minha Circe, e o m?gico veneno
Que p?de transformar meu pensamento.

D. CAT. (indo a ele). Pois ent?o? A vossa Circe manda-vos que n?o duvideis dela, que lhe perdoeis os medos, t?o pr?prios do lugar e da condi??o; manda-vos crer e amar. Se ela ?s vezes foge, ? porque a espreitam; se voc? n?o responde, ? porque outros ouvidos poderiam escut?-la. Entendeis? ? o que vos manda dizer a vossa Circe, meu poeta… e agora… (Estende-lhe a m?o) Adeus!
CAM?ES Ide-vos?
D. CAT. A rainha espera-me. Audazes fomos, Lu?s. N?o desafiemos o pa?o… que esses reposteiros…
CAM?ES Deixa-me ir ver!
D. CAT. (detendo-o). N?o, n?o. Separemo-nos.
CAM?ES Adeus! (D. CATARINA dirige-se para a porta da esquerda; CAM?ES, olha para a porta da direita).
D. CAT. Andai, andai!
CAM?ES Um instante ainda!
D. CAT. Imprudente! Por quem sois, ide-vos, meu Lu?s!
CAM?ES A rainha espera-vos!
D. CAT. Espera.
CAM?ES T?o raro ? ver-vos!
D. CAT. N?o afrontemos o c?u… podem dar conosco…
CAM?ES Que venham! Tomara eu que nos vissem! Bradaria a todos o meu amor, e ? f? que o faria respeitar!
D. CAT. (aflita, pegando-lhe na m?o). Reparai, meu Lu?s, reparai; onde estais, quem eu sou, o que s?o estas paredes… domai esse g?nio arrebatado. Pe?o-vo-lo eu. Ide-vos em boa paz, sim?
CAM?ES Viva a minha cor?a gentil, a minha t?mida cor?a! Ora vos juro que me vou, e de corrida. Adeus!
D. CAT. Adeus!
CAM?ES (com a m?o dela presa). Adeus!
D. CAT. Ide… deixai-me ir!
CAM?ES Hoje h? luar; se virdes um embu?ado diante das vossas janelas, quedado a olhar para cima, desconfiai que sou eu; e ent?o, j? n?o ? o sol a beijar de longe uma rosa, ? o goivo que pede calor a uma estrela.
D.CAT. Cautela, n?o vos reconhe?am.
CAM?ES Cautela haverei; mas que me reconhe?am, que tem isso? Embargarei a palavra ao importuno.
D.CAT. Sossegai. Adeus!
CAM?ES Adeus! (D. CATARINA dirige-se para a porta da esquerda, e p?ra diante dela, ? espera que CAM?ES saia. CAM?ES corteja-a para um gesto gracioso, e dirige-se para o fundo. ? Levanta-se o reposteiro da porta da direita, e aparece CAMINHA. ? D. CATARINA d? um pequeno giro e sai precipitadamente. ? CAM?ES det?m-se. Os dous homens olham-se por um instante).

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Fonte: Machado de Assis, Joaquim Maria. De ?Tu, s? tu, puro amor?. In: Obra completa. Rio de Janeiro, Nova Aguilar, 1994. v. 2.



[*] O DESFECHO dos amores palacianos de Cam?es e de D. Catarina de Ata?de ? o objeto da com?dia, desfecho que deu lugar ? subseq?ente aventura de ?frica, e mais tarde ? partida para a ?ndia, donde o poeta devia regressar um dia com a imortalidade nas m?os. N?o pretendi fazer um quadro da corte de D. Jo?o III, nem sei se o permitiam as propor??es m?nimas do escrito e a urg?ncia da ocasi?o. Busquei, sim, haver-me de maneira que o poeta fosse contempor?neo de seus amores, n?o lhe dando fei??es ?picas, e, por assim dizer, p?stumas.
Na primeira impress?o escrevi uma nota, que reproduzi na segunda, acrescentando-lhe alguma cousa explicativa. Como na cena primeira se trata da anedota que motivou o epigrama de Cam?es ao Duque de Aveiro, disse eu ali que, posto se lhe n?o possa fixar data, usara desta por me parecer um curioso rasgo de costumes. E aduzi: ?Engana-se, creio eu, o Sr. Te?filo Braga, quando afirma que ela s? podia ter ocorrido depois do regresso de Cam?es a Lisboa, alegando, para fundamentar essa opini?o, que o t?tulo de Duque de Aveiro foi criado em 1557. Digo que se engana o ilustre escritor, porque eu encontro o Duque de Aveiro, cinco anos antes, em 1552, indo receber, na qualidade de embaixador, a princesa, D. Joana, noiva do pr?ncipe D. Jo?o (veja Mem. e Doc., anexos aos Anais de D. Jo?o III, pp. 440 e 441); e, se Cam?es s? em 1553 partiu para a ?ndia, n?o ? poss?vel que o epigrama e o caso que lhe deu origens fosse anteriores?.
Temos ambos raz?o, o Sr. Te?filo Braga e eu. Com efeito, o ducado de Aveiro s? foi criado formalmente em 1557, mas o agraciado usava o t?tulo desde muito antes, por merc? de D. Jo?o III; ? o que confirma a pr?pria carta r?gia de 30 de agosto daquele ano. Textualmente inserta na Historia General, de D. Antonio Caetano de Sousa, que cita em abono da asser??o o testemunho de Andrade, na Cr?nica Del-Rei D. Jo?o III. Naquela mesma obra se l? (Liv. IV, cap. V) que em 1551, na transla??o dos ossos del-rei D. Manuel estivera presente o Duque de Aveiro. N?o ?, pois, imposs?vel que a anedota ocorresse antes da primeira aus?ncia de Cam?es.



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