Revista Mulheres e Literatura – vol. 19 – 2017



TOADA NORDESTINA: DISSONÂNCIAS DE VOZES FEMININAS NO REGIONALISMO BRASILEIRO – Michele Nascimento Kettner





 

Michele Nascimento Kettner

Montclair State University

 

Resumo: O presente trabalho pretende fazer uma análise comparativa dos personagens Macabéa, de A hora da estrela, de Clarice Lispector, e Conceição, do romance O Quinze, de Rachel de Queiroz. Ele pretende analisar a função das personagens femininas no diálogo estabelecido por esses romances com a temática da seca e a tradição literária e cultural dela derivada. O diálogo entre esses livros com a tradição regionalista em nossa literatura abre questionamentos referentes não somente à invenção de uma região – segundo a teoria de Albuquerque Jr. –, mas também à criação de estereótipos homogeneizadores dessa literatura regional.

 

Abstract:  This paper intends to make a comparative analysis of the characters Macabéa, from Clarice Lispector’s novel A hora da estrela, and Conceição, from Rachel de Queiroz’ novel O Quinze. It aims to examine the role of these female characters in regards to the dialogue established by the two authors and the Regionalist novels that employ the theme of the drought in the Northeast of Brazil. The dialogue between these books with the regionalist tradition in Brazilian literature establishes discussions regarding not only “the invention of a region,”  according to Albuquerque Jr.’s proposal, but also the attempt to create homogenizing stereotypes of this regional literature.

 

Palavras-chave: Clarice Lispector, Rachel de Queiroz, Regionalismo.

 

Keywords: Clarice Lispector, Rachel de Queiroz, Regionalism.

 

Minicurrículo: Michele Nascimento Kettner é coordenadora do programa de português na Montclair State University, onde ministra disciplinas de língua portuguesa e literaturas lusófonas. Obteve o doutorado em Literaturas Hispânica e Luso-Brasileira no Graduate Center da CUNY (City University of New York). Em sua tese de doutorado investigou o tema do Regionalismo Transnacional e a Globalização na América Latina através da comparação das obras de Mario Vargas Llosa e de Milton Hatoum. Seus interesses de pesquisa incluem os temas de regionalismo, globalização, transnacionalismo e migração. Paralelamente a sua pesquisa sobre a literatura latino-americana, Nascimento Kettner foi coautora de um livro sobre música e cultura afro-brasileira, Maracatu de baque virado (2013).

 

 

 

TOADA NORDESTINA: DISSONÂNCIAS DE VOZES FEMININAS NO REGIONALISMO BRASILEIRO

 

Michele Nascimento Kettner

Montclair State University

 

Neste trabalho, serão trazidos à luz seca da temática nordestina os romances A hora da estrela e O Quinze, escritos por Clarice Lispector e Rachel de Queiroz, respectivamente. A análise comparativa destes romances centra-se na função estabelecida entre as personagens Macabéa de A hora da estrela e Conceição de O Quinze. Tratando-se de escritoras do gênero feminino, o trabalho pretende analisar como estas personagens femininas atuam dentro da tradição regionalista. A relação estabelecida entre estes livros com a tradição da literatura regionalista do nordeste brasileiro fomenta questionamentos que perpassam discussões sobre a invenção desta região, segundo Albuquerque Jr.[1], e a criação de estereótipos homogeneizadores no regionalismo.

O Quinze está situado dentro da tradição canônica regionalista. Este livro, publicado em 1930, tem por trama a história da grande seca de 1915 e mostra o tema do flagelo que entremeia o relacionamento amoroso entre Conceição e Vicente. Conceição, professora criada no sertão, torna-se uma advogada da causa dos retirantes. Rachel de Queiroz usa o espaço regional e seus símbolos para criar uma obra que pode ser considerada canônica e exemplar do chamado romance regionalista. Uma das grandes contribuições de Rachel de Queiroz para esse romance é sua própria existência como escritora. É notável a grande fascinação de autores contemporâneos de Queiroz, assim como de críticos, como Heloísa Buarque de Hollanda, sobre o fato de Rachel de Queiroz despontar como uma ‘escritora nordestina’ preocupada com o social.[2] Ângela Tamaru afirma categoricamente que:

 

Rachel de Queiroz não pode ser vista sob o mesmo prisma com que se veem os demais representantes do chamado romance nordestino, porque em suas obras, o fenômeno da região e dos homens aparece filtrado pelo olhar feminino que o atenua, delimitado pela formação característica da mulher da posição destacada no ambiente rural da cana e do gado (TAMARU, Ângela, 2006, p. 66).

 

Além disso, complementando o pensamento de Tamaru, é válido afirmar que a inovação da autora cearense se reflete na sua protagonista, Conceição. Esta personagem quebra o estereótipo da mulher nordestina que está fadada ao casamento e aos afazeres domésticos. Conceição, ainda que absorva o estereótipo da Virgem Maria/Nossa Senhora da Conceição em socorro dos retirantes nordestinos, é representada de maneira a exercer um papel ativo na sociedade e se destaca por sua inteligência.[3] Em O Quinze, Conceição é representada como a: “carinhosa inteligência (…) superior no meio de outras” (QUEIROZ, Rachel, 1957, p. 30). Ou, ainda, quando Queiroz a descreve como: “Acostumada a pensar por si, a viver isolada, cria para seu uso ideias e preconceito próprios, às vezes largos, às vezes ousados, e que pecavam principalmente pela excessiva marca de casa” (QUEIROZ, Rachel, 1957, p. 7). Maria de Lourdes Dias Leite Barbosa define a personagem dizendo: “Conceição talvez seja, das protagonistas de Rachel de Queiroz, a que mais demonstra preocupação intelectual, pois, além da leitura variada, escrevia poemas e um livro sobre pedagogia e, ainda citava Nordau e Renan” (BARBOSA, Maria de Lourdes, 1999, p. 35).

A inteligência que isola Conceição das outras mulheres nordestinas[4] é a mesma que a isola de Vicente, seu primo por quem se apaixona. A frustração de um final romântico entre Vicente e Conceição em O Quinze quebra esse estereótipo do feminino. Conceição, a normalista inteligente capaz de ler em diferentes línguas e com acesso à literatura universal e até teorias feministas, indaga a capacidade intelectual de Vicente. Rachel de Queiroz pôs em palavras e deu liberdade de ação à Conceição para escolher o seu próprio destino como ser pensante e até superior intelectualmente ao seu amado.[5] Courteau comenta que a introdução do personagem de Conceição faz parte do processo de feminização na literatura regional/nacional. Ao mesmo tempo em que Rachel de Queiroz se insere na tradição regional, a escritora promove uma mudança de perspectiva para esta tradição. Courteau afirma:

 

Nos romances O Quinze (1930), Caminho de Pedras (1937), e João Miguel (1932), Rachel desestabiliza o ideal de domesticidade borrando aquela imagem de mulher que foi desenvolvida com tanto cuidado no século XIX, mulher como o “anjo do lar”. Conceição, a heroína de O Quinze, ao não encontrar um homem que a merecesse, apesar do seu nome, rejeita o matrimônio e com este a conseguinte maternidade (…). Conceição torna-se mãe ao adotar Duquinha, filho dos retirantes da seca (COURTEAU, Joanna, 2001, p. 749-750).

 

Em O Quinze, Conceição oferece uma resistência social, e encontra sua independência e liberdade possibilitada pela educação. Sua liberdade social é afincada à realidade nordestina determinada pela seca e seu posicionamento dentro deste contexto.

Por sua vez, em A hora da estrela Macabéa parece situar-se num plano além do social. Ao fazer referência ao conceito de Sperber de resistência orgânica da personagem (em oposição a uma resistência social), Lídia Santos afirma a oposição explícita de Clarice Lispector à literatura realista.[6] Em verdade, mais do que uma oposição à tradição realista com a qual a obra dialoga constantemente, pode-se afirmar que o tema do outro é levado  para além da esfera humana como afirma a crítica feminista francesa Cixous:

 

Lispector cherishes a world that for us, for them, is tenderly and violently other. (…) In Clarice, the chain of the other the violently other, contains a terrifying beggar as well as a brigand, and the psychotic child as well as the cockroach. It is a universe quite removed from the human sphere (CIXOUS, Hélène, 1990, p. 144).

 

A realidade pesa em Lispector com uma intensidade que vai além dos desejos óbvios da mulher e do homem, e alcança um caráter metafísico. Como disse Giovanni Pontiero, Clarice Lispector:

 

(…) dismissed the idea that her narratives should have any predetermined form. Moments of insight and their repercussions were allowed to surface and flower as if by an act of nature. Fascinated by what others might consider worthless, incomplete, or simply awkward, Lispector drew inspiration from fleeting sensations, from some word overheard by chance, some trifle without substance or form. Her aim was to touch life rather than become entangled in mere description, and she could scarcely be more lucid in stating her preferences (…) (PONTIERO, Giovanni, 1995, p. 275).

 

De fato, A hora da estrela, publicado em 1977, representa uma mudança relevante em comparação com a obra anterior de Clarice Lispector e com a tradição literária brasileira. Ainda preocupada com os problemas interiores de suas personagens, Lispector adiciona a discussão sobre um dos temas mais crônicos da sociedade brasileira da época: a imigração de nordestinos para o sudeste do país. Este passo simboliza a entrada de Clarice Lispector na literatura regionalista. O diálogo entre esta obra e questões levantadas por esse tipo de literatura são cruciais para entender a postura da autora sobre a tradição.[7] Debra Castillo defende o envolvimento social de Lispector, considerado inexistente por muitos no início da sua carreira, com o seguinte depoimento da escritora:

 

Ever since I came to know myself, the social problem has been more important to me than any other issue: in Recife the black shanty towns were the first truth I ever encountered…tend to be straightforward in my approach to any social problem: I wanted ‘to do’ something, as if writing were not doing anything (CASTILLO, Debra 1992, p. 188).

 

Relacionando este depoimento à obra A hora da estrela, fica claro que escrever sobre a mulher nordestina para Lispector significou se envolver de forma a definir o conceito de Brasil e de sua sociedade.

A mulher nordestina representada no romance de Lispector por Macabéa difere bastante da Conceição de Queiroz, pois se em ambas a conotação social é forte, a representação de sua relação com a realidade difere. Embora as duas personagens sejam órfãs, o que as aproxima de certa forma, ainda há um grande hiato que separa as duas.[8] Enquanto Macabéa se mostra aparentemente alheia à realidade que a rodeia – somente escutando os pedaços de informação que vem da rádio-relógio – Conceição se constitui uma porta-voz para os retirantes da seca. Percebe-se que Macabéa de A hora da estrela não parece corresponder a nenhum estereótipo já trabalhado da mulher nordestina em específico (seja o da ‘mulher-macho’, da mulher mística, ou da submissa) embora na obra encontre-se carregada de estereótipos exacerbados nordestinos.[9]

Na verdade, este processo de exacerbação de estereótipos nordestinos a deixa sui generis, a isola e a singulariza. Clarice Lispector desmonta assim o estereótipo pela própria adoção de seu esquema em um processo de desconstrução. O processo desconstrutivo deste estereótipo é também demonstrado na cena em que Macabéa, isenta de uma cultura formal, foi capaz de sentir mais profundamente uma ópera de Donizetti.

Conceição e Macabéa, ambas nordestinas, distinguem-se mais que nada pelo processo de representação escolhido por suas autoras. Para ajudar a esclarecer o processo de escrita das duas autoras talvez o conceito de Cixous de ‘Realm of Proper’ e “Realm of Gift’ possa ser proveitoso. Sabe-se que, na concepção dessa crítica feminista, estes dois conceitos correspondem respectivamente ao modo de escrever masculino e ao modo de escrever feminino. O masculino seria o resultado do medo da castração, perda, separação e da visão do ato de doação como uma economia de troca. O feminino seria mais espontâneo, simbolizando a generosidade que não quer nada em troca e mais aberta para o diferente, para o ‘outro’. A concepção da diferença, de clara influência derridariana, é entendida por Cixous como uma outra bissexualidade, que seria múltipla e variável, e que fomenta e provoca diferenças. Assim, há uma grande preocupação em acabar com o binarismo masculino/feminino caracterizando a maneira feminina de escrever como ‘bissexual’.[10]

Levando em conta essa teoria, poder-se-ia situar O Quinze, de Raquel de Queiroz, como um livro que representaria uma escrita masculina. Utilizando a maneira de escrever fragmentada e realista masculina, Raquel de Queiroz transforma sua personagem Conceição em uma ativista pela causa da seca. Numa narrativa linear e de linguagem seca, a autora confere a Conceição valores do conhecimento ocidental da escrita e intelectualização. A isto se referiria Cixous ao dizer: “Casi todas las mujeres son así: hacen la literatura de otro –del hombre– y en su inocencia la defienden y le dan voz, creando obras que en realidad son masculinas” (MOI, Toril, 1995, p. 118).

Com as isenções que se merece dar à teoria feminista de Cixous[11], é bem verdade que, ao surgir no campo literário da escrita regionalista, Raquel de Queiroz foi louvada por possuir uma dicção que poderia se confundir com a de um homem. Vejamos as palavras de Graciliano Ramos, reproduzidas por Heloísa Buarque de Hollanda: “O Quinze caiu de repente ali por meados de 30 e fez nos espíritos estragos maiores que a obra de José Américo, por ser livro de mulher. Seria realmente de mulher? Não acreditei. (…) Uma garota assim fazer romance! Deve ser pseudônimo de sujeito barbado” (HOLLANDA, Heloísa, 2005, p. 15).

Obviamente isto sinaliza a descrença na qualidade de uma mulher escritora na época, mas também sinaliza o uso da “authorial voice” (LANSER, Susan, 1992, p. 15) de caráter legitimador da escrita. Em A hora da estrela, quanto à adoção de um narrador masculino, constata-se que: “Lispector exploits the idea that a male narrating subject would confer a greater degree of credibility and authority on her treatment of a theme more social in inclination that is usually found in her repertoire” (SLOAN, Cynthia, 2001, p. 93).

Ao adotar um narrador masculino com consciência social, o recurso do “authorial voice” é usado por Clarice Lispector, porém de modo irônico e revelador.[12] O processo de metamorfose de Lispector em Rodrigo simboliza também a diferenciação de Lispector de sua própria literatura considerada sempre como literatura feminina. Utilizando uma escrita mais centralizada e linear em relação às suas outras obras, Lispector simboliza a maneira masculina de escrever principalmente nas descrições de suas atitudes e hábitos.[13]

A adoção do narrador masculino Rodrigo S.M. (iniciais para Sua Majestade, como bem observado por Lídia Santos), também traz à tona o questionamento sobre a capacidade do narrador masculino de perceber o ‘outro’. Segundo Sloan, “Lispector calls into question a masculine narrative strategy that sanctions textual and social practices that do not allow the ‘other’ to be recognized” (SLOAN, Cynthia, 2001, p. 91). O escritor/narrador, segundo Sloan, é onipotente, mas não onisciente, pois a verdade que ele inventa, não a conhece inteira. Esta voz onipotente está sempre interrompendo o fluxo da história ao mesmo tempo em que desvela o seu poder de construção e destruição das personagens. Rodrigo diz: “Desculpai-me, mas vou continuar a falar de mim que sou meu desconhecido” (LISPECTOR, Clarice, 1999, p. 15).

A interrupção revela um narrador incapaz de esquecer-se de si mesmo e se enxergar no outro, voltando-se sempre a uma atitude egocêntrica. Neste jogo de gênero narratológico, a frustração da homogeneização e do controle do outro leva Rodrigo a matar Macabéa.[14] O clímax desse jogo de controle é o momento prévio à morte de Macabéa onde Rodrigo se embate com a impossibilidade de sair de uma marginalização e livrar-se do signo de escritura masculina.[15] Por isto, este livro, ao mesmo tempo em que afirma a escrita masculina com sua forma direta e cronológica (com começo, meio e gran finale), mostra uma fluidez de pensamento, constante uso de paradoxos, mistura de gêneros, técnica de cortes semelhante a de Joyce.[16] A apresentação de elementos técnicos diferentes levou Sloan a afirmar:

 

A hora da estrela, a text replete with contradiction, paradox, and inconsistency, can be read as a text that is wavering, attempting to become something that it is not, that it cannot be. It is a narrative that is unable to cross over from a masculine libidinal economy to a feminine economy and thus underscores Rodrigo’s frustrates attempts to forget himself and to identify, it protagonist and, by extension, between the artist and society (SLOAN, Cynthia, 2001, p. 99).

 

Existe em A hora da estrela um processo labiríntico de perspectivas onde o leitor lê o livro sabendo que é a perspectiva de uma mulher sobre um homem. Cixous analisa os títulos opcionais do livro e observa que a assinatura de Clarice Lispector se interpõe como um “ou”. Lispector se desdobra no livro, se metamorfoseia em homem para falar de uma “quase-mulher”. Na dedicatória a autora deixa explícita sua identidade a título enfático: “Dedicatória do autor (Na verdade, Clarice Lispector)” (LISPECTOR, Clarice, 1999, p. 21). Assim Lispector expõe o uso artificial do narrador masculino mostrando a intencionalidade no seu projeto de expor a visão deste ‘tipo’ de narrador e seu olhar sobre o outro.

Lispector utiliza uma escrita que já se caracteriza como pós-moderna e denuncia um outro tipo de relação com o conhecimento criando uma personagem que é símbolo de alteridade e da construção de um conhecimento relativizado. Em A hora da estrela a relativização do conhecimento é representada pela própria construção da personagem Macabéa. A personagem vista sempre com comiseração pelo seu narrador, que se sente culpado por sua situação, é representada como uma ‘ignorante’ dentro de parâmetros do conhecimento ocidental. No entanto, Macabéa mostrou-se capaz de apreciar um produto de cultura alta e também de aprender a mentir para ter tempo livre. Assim, ao mesmo tempo em que Macabéa é descrita como desprovida de conhecimento, sua representação é frustrada pelos próprios fatos da obra. Lispector representa a Macabéa sem correspondê-la à razão ocidental.

Portanto, a frustração do narrador com o fato de não conseguir apreender a personagem pode ser entendido como uma afirmação da distância que há entre a sociedade de valores ocidentais e esse ‘outro’ inalcançável. O ‘outro’, mulher pobre nordestina, é inalcançável não somente para o narrador mas também para a própria autora. Esta perpassa o seu sentimento para o narrador e este para o leitor. Lispector não tenta ser a porta-voz de uma camada social explicitamente alheia a ela.[17] Através da técnica do narrador consegue passar credibilidade a um personagem que não é produto da sociedade diretamente, mas sim da percepção da sociedade de um tipo social corrente. Em A hora da estrela a representação do ‘não grito’ (um dos títulos opcionais do livro) do subalterno aparece sem pretensões de ser ‘verdadeira’, ‘original’ ou ‘homogenia’.[18]

Macabéa assim, de certa forma, nasce numa obra que tenta desomogeinizar a imagem de um representante da região Nordeste. O próprio nome Macabéa faz alusão a revolta dos Macabeus contra a tentativa de um processo de homogeneização/assimilação do povo judeu, desenhando assim um claro paralelismo com o homogeneização que sofre a região Nordeste do país.[19] Esta região, que segundo Albuquerque Jr. foi ‘inventada’, passou por um processo de dizibilidade para o qual escritores e intelectuais contribuíram. Sobre este processo, o historiador afirma: “O Espaço Nordestino vai sendo dotado de uma visibilidade e uma dizibilidade; desenhado por agrupamento de imagens rurais ou urbanas, (…) domadas em sua diversidade pelo trabalho integrativo de poetas e escritores (ALBUQUERQUE JR, Durval, 1999, p. 117).

O trabalho das duas escritoras difere com relação à maneira como elas trabalham com as personagens nordestinas dentro da perspectiva da tradição literária regional. Em O Quinze o espaço novelesco está situado no espaço natural da literatura regionalista: a história se passa no Logradouro[20] ou na fazenda em que Conceição passara toda sua infância.

Em O Quinze, se há uma quebra do estereótipo da mulher, pode-se ver que há bem marcada a visão determinista do clima como principal vetor na formação dos tipos humanos. Rachel de Queiroz muda um aspecto da visão da mulher nordestina; contudo o nordestino em O Quinze, e da região em si, ainda se encontra nas garras do estereótipo construído sobre esta parte da nação. Existe a presença de multidões não individualizadas e a visão idílica e de vitimização do personagem sertanejo. Sobre a formação do estereótipo, diz Bhabha:

 

O reconhecimento do estereótipo, como um modo ambivalente de conhecimento e poder, requer uma resposta política e teórica que desafia os modelos deterministas e funcionalistas da concepção do relacionamento entre discurso e política e perguntas relativas às posições dogmáticas e moralistas do significado da opressão e da discriminação. Minha leitura do discurso colonial sugere que o ponto de intervenção deve mudar da identificação de imagens como positivas ou negativas para uma compreensão dos processos de subjetividade tornados possíveis (e plausíveis) por meio de discurso estereotípico (BHABHA, Homi, 1991, p. 178).

 

Os processos de subjetividade de um discurso estereotipado precisam ser repensados através da análise dos processos de subjetividade expostos dentro do discurso e o reconhecimento do poder determinista. É verdade que Rachel de Queiroz inova no campo regionalista ao quebrar um estereótipo da mulher nordestina “do lar”. Porém, Queiroz agrega um outro estereótipo para este tipo de literatura que irá se repetir em suas obras posteriores. Rachel de Queiroz não necessariamente impõe uma análise reflexiva a respeito do papel do escritor na representação de imagens homogêneas do Nordeste. Segundo Benedict Anderson[21], a literatura e, por conseguinte, o escritor tem grande importância na construção imaginativa de uma comunidade. Percebe-se uma atitude consciente da escritora Clarice Lispector sobre o seu papel construtor do estereótipo nordestino. Na obra de Lispector parece haver uma reflexão sobre o tema dentro do palimpsesto de sua obra, pela qual ela resolve expor as camadas da construção de um discurso regionalista.

O cotejo de O Quinze com A hora da estrela permite perceber como a tradição canônica da literatura brasileira regional construiu estereótipos, homogeneizou regiões e criou mitos identitários em nossa literatura. Rachel de Queiroz emprega aquilo que Lanser chama de “authorial voice” como uma forma de dar mais prestígio a sua voz. Esta técnica lhe posiciona entre os melhores do regionalismo brasileiro e lhe permite tornar o caráter da mulher mais múltiplo nesta tradição. Este progresso ocorre às custas de um esvaziamento do tom feminino em suas obras.

Lispector vai aos bastidores desta construção literária nacional para mostrar a impossibilidade de um processo de homogeneização (Macabéa é bastante diferente de Olímpico e de outros tipos de nordestinas). Impossível é tentar abarcar a imagem de um povo ou nação e modelá-la em termos de uma grande massa, representativa de desejos, e expectativas e (pre)conceitos. Se valendo da técnica de um narrador masculino, Lispector avalia o processo masculino de escrita da literatura regional que nomeia e demarca identidades e regiões.

A avaliação das personagens nordestinas dentro deste contexto mostra como se desenvolveu a representação do feminino neste tipo de literatura. Isto remete a uma reavaliação da literatura regionalista como sendo uma literatura que, ao mesmo tempo, quis dar voz ao subalterno, não conseguiu mais que sinalizar simulacros de identidades.

 

 

Referências Bibliográficas

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NOTAS AO TEXTO

 

[1] O Nordeste, segundo Albuquerque Jr. foi inventado a princípios do século passado como uma paisagem imaginária que substituiu a relação dicotômica norte-sul do Brasil. Seguindo a linha de Foucault, o autor afirma que o Nordeste é um discurso, um topos, mais do que um lugar.

[2] Em uma biografia de Rachel de Queiroz, Heloísa Buarque de Hollanda a escreve quase como um guia para entender/validar sua leitura. A crítica classifica Queiroz como proveniente deste clã de “matriarcas nordestinas” (12) e diz: “O Quinze trazia ainda consigo uma outra novidade não menos desafiadora: ser um livro escrito por uma mulher sobre uma mulher com claras preocupações sociais e autonomia de pensamento e ação.” (15) Há um certo fascínio sobre a escritora cearense que perpassa a crítica de Heloísa Buarque de Hollanda. Este é comum nas críticas feministas sobre escritoras, e também ocorre em Hélène Cixous ao falar sobre Clarice Lispector. Muitas vezes, em sua crítica, Cixous compara a vida das autoras e não de seus personagens, por considerar verdadeira esta relação especular “autora feminina/personagem feminino”.

[3] Em O Quinze, o narrador descreve o “retrato de Conceição, com ar pensativo, que pendia da parede junto do quadro do coração de Jesus.” (58)  Conceição se converte na cena em uma Virgem Maria “pensativa”. A obra também explora  este jogo de poder da Virgem Maria. Já na primeira página vê-se a frase: “Dignai-vos ouvir nossas súplicas, ó castíssimo esposo da Virgem Maria” (5) Deus está assim referido como esposo da Virgem Maria e prenuncia a mulher como figura central no livro.

[4] As outras mulheres da trama são retratadas como passivas. Esta passividade é representada por mulheres que se refugiam na religião ou choro: “Da janela da cozinha, as mulheres assistiam à cena. Chorava, silenciosamente…” (15). Por sua vez, Conceição anda sozinha pelas ruas (fato considerado não aceitável naquele contexto) e exerce um papel ativo na sociedade. A personagem vai de encontro aos padrões sociais que por vezes é representado na própria figura feminina da Mãe Nácia, sua avó. A mulher luta também contra o seu próprio sexo.

[5] Conceição indaga a capacidade intelectual de Vicente e vê que ele não se sente no mesmo nível intelectual de Conceição. Em O Quinze, a exploração do tema da mulher intelectual ou simplesmente superior intelectualmente ao homem vem constituir parte central da trama. O que fora sinalizado antes por Graciliano Ramos em Vidas secas, sobre a capacidade intelectual de Sinhá Vitória, na escrita feminina vem com mais força e ocorre uma exploração mais explícita do tema.  

[6] Lídia Santos chama a atenção para esta posição já na dedicatória do livro “E – e não esquecer que a estrutura do átomo não é vista mas sabe-se dela. Sei de muita coisa que não vi. E vós também.” ( Dedicatória de A hora da estrela, 10).

[7] Nesta época, Guimarães Rosa, considerado por Antônio Cândido como o representante do supra-regionalismo, tomava a cena. Lispector se insere neste gênero da literatura brasileira imprimindo seu estilo interior de momentos epifânicos joycianos. Clarice Lispector criada no Nordeste volta o seu olhar para a região em que viveu seus primeiros anos de vida de forma introspectiva.

[8] Maria de Lourdes Barbosa avalia a orfandade como uma maneira de facilitar o processo de independência de Conceição. A orfandade para Macabéa poderia, então, ser vista como um processo que causa dor e que permite o autodescobrimento. É só depois que sua tia falece que Macabéa vai ao Rio de Janeiro e começa a ampliar o processo que existia do seu deslocamento no mundo.

[9] Lispector enfatiza o caráter de Macabéa como uma nordestina. Diferentemente de Olímpico, ao qual por vezes se refere como ‘paraibano’, Macabéa é sempre apontada como a nordestina, e não a ‘alagoana’.

[10] O conceito de escritura feminina em Cixous relaciona-se com o conceito de différance de Derrida, que se opõe ao conceito de estruturalista binário. A análise de Derrida baseia-se na produção de significado que implica uma crítica a toda tradição filosófica ocidental. Os textos femininos dentro deste conceito adaptado por Cixous vão contra a lógica falocêntrica. Porém, é importante destacar a afirmação de Cixous de que a escrita feminina não está necessariamente ligada ao sexo feminino. Segundo a teórica francesa, homens como Joyce, Lautréamont e Genet escrevem de maneira feminina, com fluência e espontaneidade. Mulheres também podem fazer-se valer de uma escrita masculina, caracterizada por uma narrativa mais convencional estruturalmente.

[11] A teoria de Cixous é contraditória, pois lida com a ênfase de Derrida no fato textual, e se distancia da interpretação de literatura como voz, presença e origem. A contradição se constitui pelo fato de ainda utilizar mitos e símbolos da mulher envolvidos no imaginário ocidental. Muito da escritura francesa, inclusive a feminista, parece assumir uma disjunção radical mais ontológica do que socialmente construída entre mente/masculino e corpo/feminino.

[12] Há uma parte da crítica que pensa que Lispector não usa a voz pessoal para evitar que a obra fosse percebida como autobiográfica. Para Sloan, “she wants to portray a mode of discourse that is unlike her own, one that incorporates the practices the phallogocentric discourse. (…) Rodrigo makes it clear he is attempting to write from a position of objectivity and emotional distance. (91)

[13] Rodrigo compara a escrita com a carpintaria. Esta é uma comparação de cunho bem masculino e diferente da comparação da escrita com as outras artes como tinha ocorrido em Água viva. Enquanto a descrição dos outros personagens demarca sua classe social, as descrições de Rodrigo enfatizam seu lado de escritor masculino.

[14] Rodrigo representa o mundo da razão, intelectualidade, imaginação, enquanto Macabéa age por instinto. Ela é o oposto de Rodrigo, uma datilógrafa que ironicamente não nenhum controle conceitual sobre a língua. No entanto, de certa forma, ambos Rodrigo e Macabéa são figuras marginais. Ele, por ser escritor, e ela, uma nordestina. Rodrigo diz que a classe média o despreza, a alta o olha como um monstro esquisito e que a baixa nunca vem até ele.

[15] A invenção do personagem cartomante Carlota seria uma outra forma de controlar a vida de Macabéa, embora seja mais uma tentativa frustrada. Rodrigo e madame Carlota não conseguem realizar seus intentos e apreender o destino de Macabéa.

[16] Clarice Lispector faz uso de vocabulário simples, mas utiliza técnicas de escrita complexas. Sobre o estilo de escrita de Lispector, comenta Fitz:  “Additional characteristics of her sentences have to do so with parataxis, that is, a writing style that strings together the members of a sentence without a clear explanation of their connection, and hypotaxis, a style in which the members of a sentence are clearly connected by conjunctions, clauses and subordinate clauses.” (43) Outra figura de linguagem muito usada por Lispector é o paradoxo. Seu trabalho assume uma orientação filosófica e lírica. Fitz acrescenta:  “as a poetical writer, however, Lispector turns these apparently contradictory couplings into oxymorons. (…) a conceit that allows a writer to verbalize the inconsistencies, contradictions, and complexities of the human condition at the same instant that he gives credence to the truth of their existence.” (51)

[17] Cixous diz que Clarice Lispector escreve um texto sobre a pobreza, mas o texto não é pobre. Assim, Clarice Lispector mostra que pobreza não é somente um fato mas sim também um conceito ou preconceito. A imagem estereotipada do que é pobreza é desmascarada por um texto denso. Lispector divide bem o que seria pobreza espiritual e pobreza material.

[18] A respeito do personagem Macabéa e a construção da personagem feita por Clarice Lispector, Fitz afirma que Lispector deparou com o mesmo problema de Graciliano Ramos ao trabalhar com um personagem desprovido de educação formal e sem consciência de conceitos intelectuais de linguagem. Analogamente a Graciliano Ramos, que através da secura e comedimento de linguagem, conseguiu representar esse ‘outro’, Lispector consegue-o através de seu narrador masculino. Lispector supera este empasse narratológico com a adoção do narrador masculino em oposição do pretenso narrador assexuado de Queiroz. A validade da representação de Conceição é baseada na relação especular ‘autora/personagem’.

[19] O nome de Macabéa muitas vezes é citado pela crítica como um referência à ascendência judia de Clarice Lispector e a adoção do sufixo “-éa “, tão popular nas camadas pobres do Brasil. É importante saber que Judas Macabeu foi protagonista de uma revolta contra o processo de assimilação helenística iniciado pelo imperador Natíoco IV Epifanes, que queria impor um sistema religioso em detrimento dos judeus. Em 164 a.C., Judas e seus homens conseguem tomar Jerusalém e se ver livres dessa imposição.

[20] Lugar perto de Quixadá onde Rachel de Queiroz costumava passar suas férias quando menina. Percebe-se que a autora também passou por esse processo de ida e volta da paisagem sertaneja.

[21] A definição de nação de Benedict Anderson parece bastante válida em paralelo ao conceito de regionalização, quando afirma: “In an anthropological spirit, then, I propose the following definition of the nation: it is an imagined political community – and imagined as both inherently limited and sovereign. It is imagined because the members of even the smallest nation will never know most of their fellow-members, meet them, or even hear of them, yet in the minds of each life the image of their communion.” (5)



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