Revista LitCult – Vol.12 – 2º semestre 2016



SOBRE A IMPORTÂNCIA DO APRENDIZADO DA LÍNGUA NATIVA NA CRISTIANIZAÇÃO DA AMÉRICA LATINA – Lorilei Secco, Graciela René Ormezzano





SOBRE A IMPORTÂNCIA DO APRENDIZADO DA LÍNGUA NATIVA NA CRISTIANIZAÇÃO DA AMÉRICA LATINA

 

 

Lorilei Secco

Graciela René Ormezzano

Universidade de Passo Fundo

 

Resumo: Este artigo é um recorte de um projeto mais abrangente voltado para a leitura de imagens fotográficas em sítios arqueológicos missioneiros jesuíticos da América Latina, considerando-os vestígios significativos da gestação de todo um sistema de reduções[1] indígenas que facilitou o processo de interculturalidade e a definição de um modelo de evangelização. Trata especificamente do caso da doutrina de Juli no Peru, região habitada pelos Aymaras, onde, com a chegada dos conquistadores, iniciou-se uma profunda transformação e extinção de povos, civilizações e culturas estabelecidas no território andino. Essas populações nativas foram envolvidas numa conquista além de territorial e espiritual, também linguística, pois sem a comunicação, certos avanços não teriam sido possíveis. Num âmbito geral, foi a mestiçagem de toda uma cultura[2] a principal característica do sistema colonial, onde moldaram-se novos costumes, com a integração de comportamentos e elementos de diferentes formações que passaram a conviver em espaços comuns.

Palavras-Chave: cultura andina, idiomas nativos, história latina, jesuítas.

Minicurrículo: Lorilei Secco é graduada em Ciências Econômicas pela Universidade Luterana do Brasil (1996) e graduanda em Artes Visuais (Licenciatura) pela Universidade de Passo Fundo. É pesquisadora nas áreas de História da Arte na América Latina (tema: Missões Jesuíticas) e Educação Estética como bolsista UPF e Fapergs. Tem experiência artística e docente na área de Artes, atuando em projetos diversos, principalmente nos temas ligados às artes visuais, leitura de imagens, cultura, educação, inclusão social e saúde mental.

 

Graciela René Ormezzano possui graduação em Professorado de Escultura – Escuela Nacional de Bellas Artes Prilidiano Pueyrredón (1985), graduação em Educação Artística: Habilitação em Artes Plásticas/LP – Universidade Federal do Rio Grande do Sul (1992), Mestrado em Educação da Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul (1996), Doutorado em Educação na Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul (2001), Especialização em Arteterapia em Educação e Saúde na Universidade Cândido Mendes, RJ (2002), Pós-doutorado na Universidad Complutense de Madrid (2009), Pós-doutorado na Universidade do Estado de Santa Catarina (2015). Atualmente é professora titular III da Universidade de Passo Fundo. Tem experiência na área de Educação Estética, atuando principalmente nos seguintes temas: leitura de imagens, arteterapia, história da arte, imaginário e desenvolvimento humano.

 

 

SOBRE A IMPORTÂNCIA DO APRENDIZADO DA LÍNGUA NATIVA NA CRISTIANIZAÇÃO

DA AMÉRICA LATINA

 

 

Lorilei Secco

Graciela René Ormezzano

Universidade de Passo Fundo

 

Um pouco da História Andina

Os povos andinos não utilizavam a escrita e considerando que boa parte de sua memória cultural foi destruída durante os processos de conquistas de território, o conhecimento atual embasa-se nos estudos de evidências arqueológicas.

Muito antes da “Era dos Descobrimentos”, o espaço andino foi ocupado por diferentes civilizações nativas de nível tribal, com assentamentos pré-históricos que remontam a datas entre 40000 A. C. e 20000 A.C., ainda  na Era Glacial. Por volta de 5000 A. C., o clima dessa parte do mundo sofreu uma grande alteração, tornando-se mais árido e obrigando esses homens, que até então viviam como caçadores e coletores nômades, a produzirem seus próprios alimentos. O sedentarismo e o surgimento de uma nova forma de economia, fruto da domesticação de animais, do desenvolvimento da agricultura, de uma maior organização social e especialização do trabalho, resultou num novo contexto cultural que levou o homem andino de uma vida tribal a configuração do Império Tiwanaku.

Tiwanaku[3] existiu entre 1580 A.C.-1172 D.C. e, de uma pequena aldeia, foi

 

transformando-se lentamente em uma poderosa cidade com quilômetros de extensão e uma população aproximada de 40.000 habitantes. No auge de sua fase de expansão territorial, o império se estendeu até a serra e costa do Peru, norte do Chile, norte da Argentina, vales e selvas da Bolívia, configurando o que se denominou por “Pueblo Aymara”. Assim, define-se esse povo como o conjunto de indivíduos que tem como língua materna o idioma Aymara, geograficamente assentado em diferentes regiões andinas e composto por vários subgrupos étnicos como os Qullas, Lupagas, Qanchis, Carangas, Lucanas, Chocorvos, Chichas. Esse império entrou em colapso bruscamente, tendo como razão fundamental variações climáticas que ocasionaram desastrosas secas por anos consecutivos (ARPASI, 1995).

Depois do declínio de Tiwanaku, surgiram outros estados e senhorios Aymaras independentes e politicamente organizados em comunidades e regiões, fundamentadas nos laços de parentesco, sem a existência de classes sociais. Durante esse período, ocorreu grande crescimento demográfico e cada grupo tratou de consolidar seu território e de expandir o espaço agrícola, inclusive construindo fortificações na intenção de deter a invasão de povos vizinhos. Esses conflitos ficaram registrados na arte rupestre e têxtil com ricos e complexos desenhos coloridos.

Fragmentado e dividido, o povo Aymara foi dominado pelo então nascente Estado inca, que muito além de ser uma nova etnia, era uma mescla de Aymaras e Incas de língua quéchuas Donos de uma enorme capacidade organizacional e militar, em pouco tempo, construíram um dos maiores impérios da história da humanidade e, sem fazer distinção alguma, denominaram a todos os Aymaras por Qullas e o território habitado por eles passou então a chamar-se Qullasuyo. Não existe consenso entre os historiadores sobre a maneira como foi essa conquista. Uns sustentam que os Incas anexaram pacificamente as regiões Aymaras para logo assimilarem sua cultura, outros defendem que ocorreram guerras cruéis e rebeliões durante todo o domínio incaico. O certo, no entanto, é que os Incas respeitaram as crenças desse povo e que não conseguiram impor o idioma quéchua sobre o Aymara (ARPASI, 1995).

Na realidade, o Império inca era herdeiro somente de um exército e, para construir sua própria riqueza, devia conquistar e anexar novos territórios. Com isso, o sistema econômico dos Aymaras, que antes produziam para seu consumo com um mínimo de excedente para o comércio, passou a agregar em seu ciclo produtivo também horas de trabalho para o novo Estado. Isso incluía a construção de templos e caminhos, o serviço militar e trabalhos agrícolas onde as comunidades deviam cultivar as terras dos Incas e do Sol, produzindo uma série de bens, como tecidos em lã e algodão, cerâmicas, cestarias, utensílios domésticos, pescado e carne seca. Em contrapartida, os Incas forneciam outros bens de consumo ou de uso cerimonial, que serviam para fortalecer o controle e as alianças com as comunidades. Os centros administrativos e religiosos foram unidos pela construção do inca promovendo uma melhoria na infraestrutura e nos sistemas de informações.

Este funcionamento permaneceu até por volta do ano de 1528, quando os espanhóis, liderados por Francisco Pizarro e Diego Dalmagro começaram a explorar a costa norte do Império Inca. A conquista veio em seguida, foi violenta e trouxe consigo as piores expressões dos valores humanos devido à quantidade de pessoas que foram cruelmente assassinadas (CHOQUE MARIÑO, 2013). Essa destruição atingiu o seu auge na soma de vários fatores tais como as epidemias trazidas pelos europeus, a falta de uma unidade enquanto nação entre os diversos povos andinos, a colaboração de povos inimigos com o conquistador, a vantagem tecnológica das armas espanholas, a grande diferença entre a guerra ritual andina e a guerra de extermínio europeia. Após o massacre, um novo sistema impôs a dominação e o servilismo ao mundo indígena andino, alterando todo o seu modo de vida.

Com isso, segundo Amestoy (2012), primeiro abriu-se o horizonte geográfico com uma dominação militar e política, que foi seguido por uma “colonização” do imaginário religioso, na medida em que foram aparecendo também a Igreja e as ordens religiosas missioneiras, incumbidas de impulsionar a ocidentalização e a evangelização dos indígenas autóctones.

Para um melhor entendimento, deve-se considerar que o povo Aymara possuía uma tradição milenar dedicada ao pastoreio de lhamas e alpacas e a uma agricultura diversificada, que utilizava técnicas ancestrais de cultivo mediante o uso de terraças. Os que viviam no altiplano possuíam abundantes rebanhos e escassos cultivos, enquanto os da cordilheira produziam nos vales, verduras, frutas e sementes. Entre essas zonas, se realizava um forte intercâmbio não só comercial através das caravanas, mas também da cultura e do idioma, gerando o povoamento dos vales providos de água até o litoral. O lhama se converteu num dos elementos essenciais para o desenvolvimento dessa fase. Os Aymaras destacaram-se em manufaturas como a cerâmica, a metalurgia, os tecidos coloridos e detalhados, a escultura e a arquitetura a partir da construção dos primeiros centros cerimoniais em pedra, com finos acabamentos e tamanhos colossais. Concebiam seu habitat como todo o meio andino que lhe deu origem, numa cosmovisão formada em diferentes épocas, que refletia as grandes mudanças na sua história e onde o espaço era considerado sagrado. Para esses indígenas, submetidos à dominação colonial, foi muito difícil guardar a memória do seu passado e a chegada dos espanhóis representou uma virada tão brusca que, na perspectiva deles, foi comparada a um retorno forçado à Idade da Escuridão[4] (ARPASI, 1995).

 

 

A questão do idioma

Desde muito cedo, os espanhóis estavam conscientes da necessidade de resolver o problema do idioma para poder cristianizar e europeizar os nativos. Num primeiro contato, recorreram ao recurso dos gestos, complementados com a troca de presentes e a pronúncia de algumas palavras chaves. Este sistema comunicativo, no entanto, gerou uma série de desentendimentos que provocaram muitos problemas. Constatou-se que seria impossível expandir qualquer idioma instantaneamente, se fazendo obrigatória uma transição gradual.

Como alternativa provisória, utilizaram-se então, de intérpretes meninos que, segundo a opinião dos padres, aprendiam o espanhol com maior facilidade. Ainda assim, não podiam confiar que as traduções fossem realizadas sempre de maneira fiel. Necessitavam buscar formas de comunicação direta com o povo e para tal, tinham de escolher entre aprender o idioma nativo ou ensinar o espanhol.

 

Criou-se outro impasse, pois, enquanto alguns jesuítas[5] da Companhia de Jesus[6] defendiam o uso do idioma local, outros insistiam que o espanhol seria a melhor opção, apelando para um sentimento patriótico de que quando uma nação culta estendia

suas conquistas, procurava fazer o mesmo com sua língua.

 

Chegando a um acordo, optaram então pela língua Aymara, pois, parecia mais fácil de ser ensinada a uns poucos missionários já alfabetizados em vários idiomas, ao invés de levar o espanhol a milhares de indígenas analfabetos com professores e recursos insuficientes. Tampouco eles confiavam na capacidade de aprendizagem dos nativos, além de acreditarem que o indígena Aymara deveria ouvir a palavra de Deus em sua língua nativa para assimilar melhor seu conteúdo espiritual.

Partindo disso, desenvolveram um esquema linguístico, em que aplicavam seus conhecimentos de outras línguas, tentando entender a estrutura, a lógica, as conjugações e declinações do novo idioma. Decifrada essa etapa, o classificavam segundo suas características e decidiam se ele poderia ser usado como “idioma geral”, justificando com isso, seu ensino a outros jesuítas. Observavam, principalmente, se esse idioma já era falado pela maioria do povo e se pertencia a nativos tidos como mais civilizados, além de assemelhar-se ao grego ou latim. A língua Aymara era a segunda do Vice-Reino do Peru em importância, depois somente do Quéchua (KING; HISPANA; URBINA, 2011).

Em caso afirmativo, iniciava-se nas escolas seu estudo intensivo, evitando com isso, muitos dos mal entendidos que outras ordens religiosas experimentaram em seus esforços para evangelizar. No entanto, ao limitarem-se num idioma geral, os jesuítas perceberam que teriam de modificá-lo para que se tornasse adequado à evangelização, pois carecia de vocabulário para expressar as ideias cristãs. Se necessário, adicionavam então palavras, derivando-as da língua nativa, inventado-as ou usando-as do vocabulário espanhol. Por outro lado, ressignificavam palavras existentes, iniciando com isso, uma mestiçagem linguística.

Conforme King, Hispana e Urbina (2011), os jesuítas se destacaram linguisticamente das outras ordens por mostrarem interesse em entender profundamente os indígenas, preservando certos aspectos de sua cultura e tentando embasar seu ensino religioso em elementos espirituais já existentes, reconhecendo que o idioma nativo possuía uma força emotiva muito maior. Também o isolamento permitiu a preservação e total domínio do idioma local, pois, sendo o padre o único europeu, não havia necessidade de usar o espanhol com os indígenas. Isso favorecia o sigilo das conversações privadas entre os jesuítas.

No que se refere à postura oficial da Coroa espanhola, refletia-se uma confusão geral sobre o assunto, pois nunca haviam enfrentado uma situação linguística assim. Na Europa não existiam mais línguas desconhecidas e quando chegaram à América, os problemas de comunicação foram tantos e tão inesperados, que demoraram anos para decidirem-se por uma estratégia definitiva.

Quando finalmente chegaram a uma conclusão, estavam firmemente ao lado do ensino exclusivo do espanhol por estar mais próximo do latim, por ser o idioma melhor capacitado para expressar a fé católica, além de ser considerado mais rico em comparação com a “pobre” língua indígena. Desejavam também, uma população nativa hispanizada e obediente à Coroa, tendo o espanhol como língua comum de todo o império, unindo  mais os nativos e facilitando seu controle e cristianização.

Na realidade, a questão do uso das línguas nativas ou do espanhol não foi uma simples escolha entre duas alternativas. Foi sim, necessário mesclar os dois idiomas, modificando-os para criar um sistema comunicativo funcional. O resultado dessa mestiçagem linguística seria a explicação para os dialetos latino-americanos, tão diferenciados do espanhol ibérico.

A partir de 1612, foi instalada uma imprensa em Juli de onde saíram gramáticas e catecismos, que reuniram os diversos manuscritos de experiências anteriores, inclusive de padres de outras ordens (KING; HISPANA; URBINA, 2011). A produção textual missionária revela a importância do conhecimento da língua para a compreensão de um novo mundo de idéias e de representações. A necessidade fez com que a Doutrina de Juli fosse a origem de uma verdadeira tradição linguística nos idiomas quéchua e Aymara.

Além de tudo isso, indispensável mencionar que, as escolas de Juli desempenharam um papel fundamental e começaram funcionar pouco tempo depois que os jesuítas assumiram as ditas doutrinas. Os principais, porém não exclusivos beneficiários delas, eram os filhos dos líderes indígenas, que recebiam ensino da escrita, leitura, aritmética, música e dança. Com o passar do tempo, os padres observaram nas crianças locais, uma habilidade intelectual muito maior do que haviam imaginado. São destacados os efeitos multiplicadores da educação escolar nas comunidades, manifestando que os alunos criavam uma barreira muito eficaz contra a feitiçaria, o alcoolismo e o comportamento desonesto no ambiente cotidiano:

 

La escuela se comenzará a entablar con el favor divino; entiendo que entrarán en ella como doscientos muchachos. Creo que este medio de enseñar estos niños del escuela en costumbres y doctrina, ha de ser para ganar a sus padres y enseñarles el camino del cielo, de lo cual tienen mucha necesidad (ACOSTA, 2013, [s.p.] ).

 

Educação e evangelização sempre foram ações inseparáveis na experiência jesuítica. Na verdade, a evangelização é, em essência, uma ação educativa, porquse implica na transformação da vida do homem ou de um povo, de um estado cultural para outro. Nesse sentido, Ortiz (2008) destaca que, o representante no Peru da chamada “pedagogia da evangelização” ou “pedagogia missioneira”, foi o Provincial José de Acosta, com uma sólida formação intelectual assimilada das ideias de Ignácio de Loyola, do humanismo e do ratio studiorum. Ao tentar compreender os padrões culturais das populações aborígenes, ele elaborou um modelo pedagógico para executar tanto o processo educativo escolar formal quanto a cristianização da América, de acordo com a realidade do continente.  Realizou para tal, um trabalho paciente de recolhimento de dados sobre a vida dos homens autóctones e os submeteu a uma rigorosa análise, o que lhe permitiu distinguir diversos graus de desenvolvimento cultural nas chamadas “nações bárbaras”. Percebeu que, mesmo generalizando o nome de “indígenas” para todos, eles eram bastante diferenciados. Então, diante dessa diversidade se fez necessário o emprego de uma estratégia de evangelização para cada tipo de sociedade, respeitando suas leis e modos de vida que não fossem contrários à fé. Estratégias estas, que iam desde o convencimento por livre decisão, passando pelo paternalismo, até o uso da persuasão.

Os jesuítas colocaram-se contrários ao uso da violência na propagação do Evangelho, conscientes de que, pelo uso da força, fariam com que a religião católica fosse odiada, o que aumentaria o apreço dos nativos pelos seus ídolos de origem. Para eles, era absurdo difundir o evangelho da paz e estender a espada da violência, uma atitude bastante contraditória que atentava contra a liberdade do ser humano. O ponto de partida foi, portanto, a persuasão. Compreender sua cultura, demonstrar simpatia e confiança, dar exemplo de boas maneiras, mostrar-se paciente e humilde, para induzir com eficiência as mudanças desejadas.

 

Considerações finais

Os julgamentos históricos sobre o trabalho dos jesuítas são quase sempre polêmicos e controversos. No entanto, importa ressaltar seu papel enquanto sujeitos da história da América Latina, com destaque em obras no campo social, educacional, evangelizador, artístico, político e econômico, habilmente manejadas para modificar as condições de vida de conglomerados humanos nativos.

Nas doutrinas de Juli foram realizadas experiências essenciais que serviram de base para a implantação de todo um sistema de reduções, como: a) a manutenção do idioma nativo, onde as doutrinas serviram de seminário das línguas aymara e quéchua; b) a conveniência de produzir um sincretismo religioso e abandonar a simples conversão pelo batismo como havia sido praticado até então; c) a importância dada à educação nas escolas; d) o registro de pormenores da vida em Juli em detalhados diários como forma de multiplicar informações e vivências. Estes são alguns dos aspectos relevantes que mostram a referida doutrina como um verdadeiro laboratório construído em décadas de um trabalho paciente, árduo e cheio de incertezas, que acabou por transformar um assentamento numa redução “embrionária” de considerável influência. Dalí saíram os padres que, em diferentes lugares do sul da América, atuaram como protagonistas do projeto missioneiro.

Esse intercâmbio não se manifestou apenas no campo material, mas conjugado com outros elementos, em quase todas as manifestações culturais do povo Aymara. Salienta-se, porém, que embora os nativos tenham assimilado as novas informações trazidas pelos conquistadores, até hoje é mantido um complexo sistema de crenças. Como prova disso, registra-se que os Aymaras denominam de “costume” às práticas de seus rituais ancestrais e de “religião” aos rituais e símbolos cristãos.

 

Referências

 

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Notas

1 Redução é um termo que diz respeito à concentração permanente de indígenas em um povoado, estabelecido por ordem e iniciativa do Estado, e nos quais, os padres constituíam o centro organizador de toda vida espiritual e material; também traz o sentido de reduzir os nativos à civilização (GONÇALVES, 2013).

2 Considerando Cultura como o conjunto de manifestações artísticas, sociais, linguísticas e comportamentais de um povo ou civilização. Portanto, fazem parte da cultura de um povo, atividades e manifestações como a música, teatro, rituais religiosos, língua falada e escrita, mitos, hábitos alimentares, danças, arquitetura, invenções, pensamentos, formas de organização social e política (CULTURA, 2013).

3  Significa pedra central no idioma aymara  (CHOQUE MARIÑO, 2013).

4  Cf. Choque Mariño (2013), na Idade da Escuridão (Tutaypacha), o Deus Thunupa, armado de raio e luz, aniquilou a primeira humanidade, acabou com as trevas, iluminou o mundo, criou novos humanos civilizados, moralizou-os e lhes ensinou a cultura; no final desta Era, este Deus foi seduzido por mulheres sereias e morreu no mesmo Lago Titicaca que lhe dera origem, desaparecendo seu corpo com a promessa de voltar algum dia.

5 Cabe esclarecer que, desde 1577, os padres jesuítas aceitaram encarregar-se da doutrina de Juli, que então compreendia vários pequenos povoados, totalizando aproximadamente 20.000 habitantes (COELLO DE LA ROSA, 2007).

6 Ordem religiosa fundada em 1534 por Ignácio de Loyola, no contexto da reforma católica ou contra-reforma, como movimento reacionário à Reforma Protestante, tendo sido reconhecida por reis e papas; de disciplina rígida, pregaram a obediência total à doutrina da Igreja Católica, sendo seu lema “à maior Glória de Deus”; seus membros são chamados jesuítas, termo derivado do latim que significa “semelhante à Jesus”; caracteriza-se por sua forte ligação ao ensino e à educação, tendo sua experiência pedagógica sintetizada num conjunto de normas e estratégias chamado “Ratio Studiorum” (Ordem de Estudos), que visa a formação integral do homem cristão, de acordo com a fé e a cultura daquele tempo; em oposição aos luteranos, pregaram que as decorações e a ostentação nas cerimônias do catolicismo deveriam ser acentuadas e abundantes (BN DIGITAL,2011).



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