ESCRITORES



SEMPREVIVA





Autor: Antônio Callado
Título: SEMPREVIVA
Idiomas: port/ita/fra
Tradutor: Vicenzo Barca(ita), Thiériot(fra)
Data: 23/12/2004

SEMPREVIVA

Capítulo 2

Antonio Callado

Antes de sair do quarto, mão direita já na maçaneta da porta, Quinho, espalmando a mão esquerda, olhou, como era de seu hábito, a cicatriz de um talho do dias de menino, quando limpava, para fazer um bodoque, uma forquilha de goiabeira. Depois, por um segundo, olhou, como se fosse um objeto estranho, sua outra mão, fechada sobre a maçaneta, sacudiu a cabeça, impaciente consigo mesmo, e abriu a porta, assumindo um ar resoluto de homem prático para ir, no sonolento, deserto refeitório da pensão, ao encontro de Pepe.
Postado à mesa diante de uma garrafa de vinho, Pepe – tristes bigodões de salgueiro de beira-rio, de guias tão compridas e cadentes que pareciam mirar, com certa intencionalidade, os canos das botas que o boliviano calçava – começou logo a falar, como se não tivesse interrompido a conversa da véspera, macia, emoliente, destinada a convencê-lo de que passar a fronteira era para ele, Quinho, nada mais do que a visita, a volta à casa paterna, o abrir da velha cancela, do portão de outrora, familiar, acolhedor. Enquanto isso Quinho, sorvendo da xícara um café quente, amargo, via com uma poeirenta clareza que ela própria não tinha, a estrada, o caminho boliviano, aquele cordão de umbigo esticado no chão e que levava ao portão, à gruta das grades e hastes de ferro.
— Pode entrar tranqüilo com seu cartão de identidade, mesmo velho, mesmo caducado. Entre não como quem chega, ou retorna, e sim como se tivesse vindo passar, em Puerto Suárez, umas horas apenas, para comprar um litro de uísque, um canivete suíço, um chapéu panamá. Entre com um ar despreocupado, malandro, que sua pinta é bem brasileira, não podia ser mais, com esse tom morenito de pele, olho castanho, cabelo preto, metro e setenta, entre firme, rapaz, pise forte, a casa é sua.
Como Quinho continuasse soprando e bebendo devagar o café, Pepe se levantou, pediu a Quinho que se pusesse de pé um instante, e deu-lhe a volta, observando-o de perto, quase a medi-lo, feito um alfaiate provando roupa no cliente.
— A única coisa que você devia perder é esse ar meio nervoso, os, se me permite, trejeitos, feito isso de olhar a palma da mão esquerda e de passar de vez em quando o dedo pelo colarinho, feito quem usa gravata e sente a pressão no pescoço.
— Pois é, disse Quinho, colocando a xícara de mau jeito no pires, o que a fez tombar, e pondo-a de novo de pé, com exagerado cuidado, é que eu de fato usava gravata, até outro dia, até trasanteontem, para ser preciso, e a gente custa a cancelar um gesto assim, adquirido com o tempo, e com a gravata, naturalmente. E agora pense e me diga: eles não podem inferir por aí, pelo meu tique, que se eu usava gravata, como aliás meu pescoço branco também atesta, e se ninguém a usa em Corumbá, ou aqui, que eu venho de outras terras e portanto devia apresentar um passaporte de verdade, ou pelo menos um documento direito, com todos os selos e datas?…
— Qual o quê, tira isso do juízo que eu conheço todos os funcionários que estão hoje de serviço na barreira, um deles é até meu afilhado de batismo, moço ainda e já é influente na aduana. Não tem nada que ele goste menos – e os outros, nem se fala – do que de papel esquisito, Nações Unidas, bossa-nova, que eles têm que telefonar para saber se vale, se é aquilo mesmo. Os melhores documentos que você trouxe estão aí, na bagagem de mão, os isqueirinhos franceses, os cigarros americanos, um ou outro charuto Montecristo, esses agradinhos que não chegam, nem de longe, a ter cheiro de suborno, e que eu, para fechar a rosca da sua travessia, vou reforçar com um punhado de garrafinhas de uísque, miniaturas, chamadas. Bota as miniaturas na sacola e pé na carreteira, rapaz, que a hora assim da tardinha, da sesta, é a melhor, pois estão todos com preguiça. Não quer um gole de vinho?
— Não, gracias, disse Quinho, como se estivesse empenhado em dividir, idiomática e tordesilhescamente, aquela terra lindeira, ibérica. E emborcou uma primeira miniatura de uísque, virando bem a cabeça para trás, como quem morde um bombom de licor e tem medo de melar a roupa, e, quase sem abaixar a cabeça, destorceu a tampinha da segunda miniatura e bebeu. Olhou depois, fixamente, a palma da mão esquerda, esperando que os dois imensos goles se transubstanciassem, fazendo saltar do velo talho, armado dos pés à cabeça, um voluntário da pátria, um lanceiro ébrio de bravura.
— Agora, vá, disse Pepe, que está ficando tarde, e de qualquer forma, para o que der e vier, aviso minha sobrinha, observação esta, afinal, que Quinho não entendeu, ou, aflito mas sentindo o prenúncio de miniaturizadas alquimias dentro de si mesmo, entendeu como uma forma displicente de despedida, um pouco-se-me-dá de quem, afinal, tinha ganho a parada e soltava a frase meio burlona que um caçador feliz poderia ter dito ao macuco já caçado e fechado, por cadarço e correia, no embornal.
(…)

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Fonte: CALLADO, Antonio. Sempreviva. São Paulo, Círculo do Livro, 1981.

SEMPREVIVA

Capitolo 2

Antonio Callado

Prima di uscire dalla stanza, con la mano destra già sulla maniglia della porta, per abitudine Quinho guardò, sul palmo della mano sinistra, la cicatrice de un taglio che si era fatto da bambino, raschiando una forcella di goiabeira per costruirsi una fionda. Poi, per un secondo, guardò, come se fosse un oggeto estraneo, l’altra sua mano, richiusa sulla maniglia, scosse la testa, impaziente con se stesso, e aprí la porta, assumendo un’aria decisa da uomo pratico per andare, nel sonnacchioso e deserto refettorio della pensione, a incontrare Pepe.

Seduto a un tavolo davanti a una bottiglia di vino, Pepe – i tristi baffoni da salice piangente sul lungofiume, dalle punte cosí lunghe e cadenti che parevano contemplare, con una certa intenzionalità, i gambali degli stivali che il boliviano calzava – attacò subito a parlare, come se avesse interrotto il discorso dal giorno prima, morbido, emolliente, destinato a convincerlo che passare la frontiera rappresentava per lo stesso Quinho nient’altro che una visita, un ritorno alla casa paterna, e che il vecchio cancelo, il portone di un tempo si sarebbe aperto, familiare, accogliente. Nel frattempo Quinho, sorbendo dalla tazza un caffè bollente, amaro, vedeva, con la polverosa chiarezza che non aveva, la strada, il camino boliviano, quel cordone ombelicale steso a terra e che conduceva al portone, alla grotta chiusa da grate e sbarre di ferro.

– Puoi tranquillamente entrare con la tua carta d’identità, anche se è vecchia e scaduta. Entra non come uno che arriva, o torna, ma come se fossi venuto a passare solo qualche ora a Puerto Suárez, per comprare un litro di whisky, un coltellino svizzero, un panama. Entra con l’aria disinvolta, un po’ guappa, tanto hai una faccia che piú brasiliana non si può, con quel tono scuretto della pelle, quegli occhi castani, i capelli neri e il tuo metro e settanta, entra sicuro, ragazzo, a passo fermo, sei a casa tua.

Siccome Quinho continuava a soffiare e a bere lentamente il suo caffè, Pepe si alzó, chiese a Quinho di alzarsi in piedi un istante e gli girò intorno, osservandolo da vicino, quasi per misurarlo, come un sarto che prova un vestito al cliente.

– L’unica cosa che dovresti perdere è quell’aria un po’ nervosa, quelle mosse, se mi consenti, tipo quella di guardarti il palmo della mano sinistra e di passarti ogni tanto il dito nel colletto, come uno che sente la pressione della cravatta sul collo.

– Va bene – disse Quinho, posando maldestramente la tazza sul piattino, facendola cadere e rimettendola di nuovo in piedi con esagerata cura – il fatto è che io portavo davvero la cravatta fino all’altro giorno, fino all’altroieri per essere precisi, e si fa fatica a cancellare un gesto cosí, acquisito col tempo, e con la cravatta ovviamente. E adesso rifletti e dimmi: non potrebbero dedurre da questo mio tic che, se io portavo la cravatta, come del resto attesta il mio colle bianco, e se nessuno la porta né qui né a Corumbá, significa che vengo da fuori e che quindi dovrei esibire un passaporto vero, o per lo meno un documento preciso, con tutti i timbri e le date?…

– Macché, levatelo dalla testa, conosco tutti gli impiegati che oggi fanno servizio alla sbarra, uno l’ho perfino tenuto a battesimo, è ancora un ragazzo ma è già influente in dogana. Non c’è niente che lo mandi piú in bestia – e figurati gli altri! – di quei pezzi di carta strani, Nazioni Unite e palle varie, ogni volta devono telefonare per sapere se sono in regola e cose del genere. I migliori documenti ce li hai lí nel tuo bagaglio a mano, gli accendini francesi, le sigarette americane, qualche sigaro Montecristo, robetta cosí che nemmeno da lentano odora di corruzione e che io, tanto per tagliare la testa al toro, rinforzerò con una manciata di bottigliette di whisky, di mignon, come le chiamano. Metti le mignon nello zaino e via, in marcia, perché questa della siesta è l’ora migliore, battono tutti la fiacca. Non vuoi un bicchiere di vino?

– No, gracias – disse Quinho, come se fosse impegnato, idiomaticamente e tordesillescamente, a dividere quella terra limitrofa, iberica. E trangugiò una prima mignon di whisky, buttando la testa all’indietro, come uno che morde una caramella al liquore e ha paura di infrittelarsi il vestito, e, quasi senza abbassare la testa, svitò il tappino della seconda bottiglietta e trincò. Si mise poi a fissare il palmo della mano sinistra, aspettando che i due enormi sorsi si transustanziassero, facendo venir fuori dal vecchio taglio, armato da capo a piedi, un volontario della patria, un lanciere ebbro di ardimento.

– Adesso vai, – disse Pepe – si sta facendo tardi, e a ogni modo e per ogni evenienza avviso mia nipote – osservazione finale questa, che Quinho non capí o per meglio dire, demoralizzato, ma sentendo dentro di sé il preannuncio di alchimie mignon, capí come una forma antipatica di congedo, un poco-mi-frega di chi, alla fine, aveva vinto il suo giro e buttaba lí un po’ per celia la frase che un cacciatore felice avrebbe potuto dire al merlo già preso e messo nel sacco, legato come si deve.

(…).

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Callado, AntonioSempreviva. Traduzione di Vicenzo Barca. Roma: Biblioteca Del Vascello, 1994. p. 17-19.

SEMPREVIVA

2

Antonio Callado

Avant de quitter la chambre, la main droite déjà sur la poignée de la porte, Quinho, dans la paume de sa main gauche ouverte, regarda, comme il en avait l’habitude, la cicatrice d’une estafilade qui datait de l’enfance, du jour où il écorçait, pour en faire un lance-pierres, une fourche de goyavier. Ensuite, juste une seconde, il regarda aussi, comme si c’était un objet bizarre, son autre main, refermée sur la poignée, hocha la tête, s’impatientant lui-même, et il ouvrit la porte, arborant un air résolu d’homme pragmatique, pour se rendre dans la somnolente salle à manger deserte de la pension, y rencontrer Pepe.
Assis à une table devant une bouteille de vin, Pepe – moustaches tristes de saule pleureur, aux crocs silongs et si tombants qu’ils paraissaient regarder, avec une certaine intentionnalité, les tiges des bottes que chaussait le Bolivien – se mit à parler d’emblée, comme s’il n’avait pas interrompu la conversation de la veille, moelleuse, émolliente, destinée à le convaincre que passer la frontière n’était pour lui, Quinho, rien de plus qu’une visite, le retour à la Maison paternelle, ouvrir la vieille grille du jardin, le portail d’autrefois, familier, accueillant. Tandis qu’il parlait, Quinho, tout en buvant à petits coups um café brûlant, amer, voyait, avec une clarté empoussierée qu’elle n’avait pas, la route, le chemin bolivien, ce cordon ombilical qui s’étirait sur le sol et qui conduisait au portail, à la grotte fermée de grilles et de hampes de fer.
— Tu peux entrer tranquillement avec ta carte d’identité, même ancienne, même perimée. Entre non pas comme quelqu’un qui arrive, ou revient, mais comme si tu étais venu passer, à Puerto Suarez quelques heures seulement, pour acheter un litre de whisky, um couteau suisse, un panama. Entre avec ton air désinvolte, un peu voyou, de Brésilien bon teint, pas une touche à rajouter à ce ton bruin de tap eau, tes yeux marron, tes cheveux noirs, ton mètre soixante-dix, entre sans hésiter, mon garçon, tu es chez toi.
Comme Quinho continuait de souffler et de sitorer son café, Pepe se leva, lui demanda de se lever également un instant, et il se mit à tourner autour de lui, l’observant de près, on aurait dit qu’il prenait ses mesures, comme un tailleur qui essaie un vêtement sur un client.
— La seule chose que tu devrais perdre, c’est ton air inquiet, ces, si tu me permets, ces tics, par exemple de regarder ta main gauche et de te passer de temps en temps un doigt à l’intérieur du col, comme quelqu’un qui met une cravate et qui se sent le cou serre.
— Vous avez raison, dit Quinho – en reposant si maladroitement as tasse sur la soucoupe qu’elle se renversa, et après l’avoir remise d’aplomb, avec un soin exagere –, c’est que, il est vrai, je mettais une cravate, jusqu’à l’autre jour, il y a trois jours, pour être précis, et ce n’est pas facile de perdre l’habitude d’um geste acquis avec le temps, et avec la cravate, naturellement. Mais maintenant, réfléchissez et dites-moi: ils ne peuvent tout de meme pas conclure, à cause de ce tic, que si j’ai toujours mis une cravate, la pâleur de mon cou du reste suffirait à l’attester, alors qu’ici, ou à Corumbá, personne n’en porte, cela signifie que je viens d’autres pays et que par conséquent je devrais leur présenter un vrai passeport, ou du moins un document légal, avec tous les tampons et dates voulus?…
— Allons donc, ne t’em fais pas, moi je connais tous les douaniers qui sont de service aujourd’hui à la barrière, même que l’un d’eux est mon fillieul, il est encore jeune, mais il a déjà le brás long à la douane. Ce qui lui plaît le plus – les autres, n’em parlons pas –, c’est ce qui sort de l’ordinaire, Nations Unies, bossa nova, ce qui les oblige à téléphoner pour savoir si c’est okay. Comme papiers, tu ne pouvais pas mieux apporter que ceux que tu as là, dans ton bagage à main, caickets français, cigarettes américaines, quelques cigares Montecristo, bref, ces petites gâteries qui n’achètent personne, tant s’em faut, et à quoi moi, pour encore mieux arranger ton passage, je vais rajouter une poignée de petites bouteilles de whisky, des miniatures, ça s’appelle. Allez mon garçon, mets-moi ces miniatures dans ta sacoche et le pied sur la route, en début d’après-midi, à l’heure de la sieste, c’est le meilleur moment, vu qu’ils ont tous plutôt envie de roupiller. Tu ne veux pas un petit coup de pinard?
— Non, gracias, dit Quinho, comme s’il avait le souci de partager linguistiquement et dans l’esprit du traité de Tordesillas cette terre limitrophe, ibérique. Et il lampa une première miniature de whisky, en renversant bien la tête en arrière, comme qui mord dans un bonbon à la liqueur et craint de poisser ses vêtements, et, sans même redresser la tête, dévissa la capsule d’une deuxième miniature qu’il but de même. Puis il regarda, fixement, la paume de sa main gauche, attendant la transsubstiation des deux culs sécs, qui ferait s’élancer de la vieille estafilade, arme de pied en cap, un Volontaire de la Patrie, un lancier ivre de bravoure.
— Et maintenant, pars, dit Pepe, avant qu’il ne soit trop tard, de toute façon, pour parer à toute éventualité, je préviens ma nièce – et cette observation, la dernière, Quinho, ne la comprit pas, ou bien alors, désemparé mais ressentant au plus profond de lui-même l’annonce d’alchimies miniaturisées, il la comprit et la prit pour la manière je-m’en-foutiste de l’envoyer se faire voir ailleurs, de lui dire c’est plus mês vignons, gu’affecte celui qui a reússi son coup et lâche la phrase mi-sarcastique qu’um heureux chasseur pourrait dire à l’oiseau déjà capture et enfermé, lacs et rets l’enserrant, «dans lê sac».
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Fonte: CALLADO, Antonio. Sempreviva: Roman. Traduit du brésilien par Jacques Thiériot. Paris, Presses de la Renaissance, 1985, p. 19-22

 



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