ESCRITORES



SEMPRE AOS DOMINGOS





Autor: João ubaldo Ribeiro
Título: SEMPRE AOS DOMINGOS
Idiomas: port
Tradutor: –
Data: 18/05/2005

SEMPRE AOS DOMINGOS

 

 

Num boteco do Leblon

 

João Ubaldo Ribeiro

 

 

-Olha aí, ô Zé Mário, tu lavou bem esse copo? Tu tá sabendo que tem de dar lavagem dupla nesses copos, devia até ferver, os caras tão dizendo que o Aids também passa pela baba!

-Qual é baba, rapaz, tu tá por fora. O que pega pela baba é a epilepsia, todo mundo sabe disso. O Aids só pega nesse pessoal alegre aí, essa turma aí que… sabe como é, o contágio não é bem pelo copo, tu tá me entendendo, não é bem por aí, he-he!

-Aí é que tu demonstra tua ignorancia. Tu conhece o Dr. Carvalho? Tu conhece, ele vinha muito aqui, ultimamente é que não tem vindo, depois que a mulher dele internou ele numa clínica pelo problema do alcoolismo. Tu conhece ele, verdadeira sumidade, respeitado aqui e em todos os outros Estados, su-mi-da-de, pergunte a qualquer daqueles velhotes bêbados do Degrau, não tem um que ele não tenha curado a pancreatite, até o Lula Grande, que ficou paralítico de um porre de Johnny Bull, ele botou pra andar. Agora só ta bebendo água mineral e guaraná, é por isso que ele só pinta aqui de vez em quando, para se resguardar da nostalgia. Eu tive com ele no Bracarense, no dia em que o Flamengo perdeu, eu tomando um porre de vodca e ele de água mineral com gás, e tu sabe o que eu vi ele fazer na hora que o português botou o copo na frente dele? Ele tirou do bolso um pedacinho de algodão e um frasquinho parecendo desses de colírio, molhou o algodãozinho no líquido do frasquinho e esfregou pela beirada do copo toda, esfregou várias vezes com a maior meticulosidade.

-E o que era que tinha no frasquinho?

-Álcool, xará, álcool de farmácia. Eu falei: não tou sacando nada, doutor, será que o senhor não está esfregando esse álcool no copo para dar uma alegria aí na água mineral? Aí ele falou: deixa de ser otário, Lourival, acho bom tu também adotar o álcool na beirada do copo como eu, que a barra do Aids tá ficando pesada. Aí eu falei: mas, doutor, esse Aids não é uma transação que só dá em boneca, o cara que… ali… o cara que… justamente… não é?

-E ele falou que não?

-Ele falou duas coisas. Primeiramente ele falou que é verdade que dá mais em boneca, mas é só por enquanto e, além disso – aí é que você vê o raciocínio do homem que tem cultura, a pessoa tem de admirar – ele falou o seguinte: meu caro Lourival, você é um homem que conhece a vida e vai concordar comigo no seguinte: quem parece é, e muitos que não parecem também são, a verdade é essa, tu sabe disso.

-Bom, isso é, isso é uma grande verdade.

-É uma grande verdade! Tem muito moleque safado por aí que não dá nenhuma bandeira! Tu conhece o Carlão?

-Que Carlão? O Carlão da Humberto de Campos, um que faz musculação ali na esquina da João Lira, o da motoca?

-Pois é, Carlão-Carlão, esse mesmo.

-Não! O Carlão? Não! Que é que você está me dizendo, cara, o Carlão… Agora, pensando bem, com aquela machidão toda, todo fortão, todo cabeludão nas costas… Agora que tu tá me falando, tu sabe que eu sempre desconfiei, pensando bem… O Carlão, quem diria… Mas ele não tá de Aids, ontem ele passou pelo Maré Mansa e tá com a mesma cara, não dá nenhuma pinta de Aids.

-Que é isso, cara, o Carlão não é nada disso, é meu amigo, conheço ele bem, nada disso.

-Ué, tu não falou que…

-Tu não esperou eu acabar de falar, que é isso, o Carlão não… Não, nada disso. É que o Carlão teve um problema com um travesti no carnaval passado.

-Ah, ele saiu com um travesti no carnaval, hem? Aí o travesti… É cara, tem muita gente que toma bonde errado com esse negócio de travesti aí que… He-he! Quer dizer que o Carlão, como é que se diz, o Carlão foi buscar a lã e saiu atosquiado, não é assim que se diz? O travesti… he-he, vai ver que o Carlão bebeu demais, se distraiu… He-he!

-Não cara, nada disso, foi um caso de engano, o Carlão não tava sabendo que o cara era travesti, era desses todos cheios de silicone, sabe como é, desses que se tu não prestar atenção tu dança, tá sabendo como é que é?

-Ah, essa não, quer dizer que o Carlão só foi descobrir depois que a desgraça já tava feita? Ah, qual é, Vavá, pra cima de mim? Ah, vai, conta outra, essa daí não cola.

-Tou falando sério, cara, eu conheço o Carlão! O problema não é nada disso, cara, deixa eu acabar de falar!

-Tá legal, vá falando, mas minha idéia é que essa história do Carlão tá muito mal contada.

-É o seguinte, ele descobriu que o cara era travesti, mas só depois que tinha dançado com o cara e tudo, tinha tomado assim umas intimidades, sabe como é carnaval. Eu vou lhe dizer uma coisa aqui confidencialmente, você vai me prometer que não conta isso pra ninguém, é uma questão de confiança, o Carlão é uma pessoa que me merece muito. É o seguinte – olhe aqui, se tu sair falando isso por aí, eu vou ter uma grande decepção com você, veja bem –, é o seguinte. Tou te falando isso até por uma questão de saúde publica, pode crer, o grilo do Carlão é um grilo sério, é o seguinte: teve um momento que o Carlão beijou o travesti, um momento em que ele não tava sacando qual era a do cara. Logo em seguida, ele sacou, tu tá sabendo como é beijo de carnaval, ele inclusive – eu conheço o Carlão, eu sei que é um rapaz de caráter, eu manjo ele assim como eu manjo você, tá sabendo? – partiu para dar uma bolacha no sem-vergonha, mas o cara sentiu a barra do choque do Carlão e se pirulitou na hora, sumiu no ar. O Carlão ficou desgostoso etc., passou a noite bochechando com conhaque etc., mas depois esqueceu, que na ocasião esse grilo do Aids não tinha pintado ainda, era uma transa que ninguém tava sabendo ainda. Mas agora…

-Mas não foi no carnaval? Se foi no carnaval já tem tempo, não tem nada a ver, se o Carlão tivesse de pegar a doença já tinha pegado.

-Ai é que tu tá errado outra vez! O Dr. Carvalho me explicou, o cara pode estar contaminado uns cinco ou seis anos sem saber!

-Ih, cara, grilo grande!

-Pois é, você precisa ver o Carlão, cara, parece assim que ele tá bem, mas tá um farrapo, cara! Quer dizer, fisicamente não, ele fisicamente tá ótimo, mas a psicologia do cara desmoronou. Ele agora só come macarronada, só come comida engordante, não pode ver balança de farmácia – sabe aquelas farmácias todas da Ataulfo de Paiva? – pois não tem uma que ele passe que ele não pule em cima pra controlar o peso, tu tá sabendo que a primeira batida do Aids é o cara perder peso, tu viu a cara do Rock Hudes, um cara boa-pinta como o Rock Hudes, tu saca ele do Maquimila and Uáife, pois é, não pode ver comida engordante que não caia de boca na hora, é inhoque, é milquechêique, é batata frita, é vitamina de banana, é rissole de camarão em tudo que é boteco, é um inferno em vida, cara! Tou dizendo a você, é um inferno em vida, grilo grande mesmo.

-Eu não tava sabendo disso, cara, quer dizer que a transação do Aids leva até cinco anos pra rebentar?

-Incubadão aí, cara, pode crer, incubadão. Tipo fantasma da ópera, tá sabendo?

-Grilo grande, grilo grande. Cinco anos, tu disse?

-Cinco, seis. O Dr. Carvalho bateu pra mim, cinco, seis.

-Tu tá perdendo peso?

-Nada, cara, tou segurando firme em 78, tenho acompanhado.

-Aquela farmácia ali defronte da Sendas tem balança, não tem não?

-Vai ver que tem, eu não sei, porque eu controlo naquela da Zé Linhares, criei confiança.

-É, eu acho que vou dar um pulo lá, só uma pesadinha, faz muito tempo que eu não me peso.

-Tá legal, mas acabe aí tua caipirosca, não tem pressa. Eu tenho uma teoria. Minha teoria é que o álcool por dentro faz o mesmo efeito que o álcool por fora, a gente vai bebendo e vai desinfetando. O Dr. Carvalho achou interessante essa minha teoria, deu valor.

-É, com certeza, com certeza.

-E, além de tudo, o álcool ajuda a esquecer, é ou não é?

-É. Não que eu tenha nada a esquecer, mas ajuda.

-Eu também não, mas ajuda.

-O Dr. Carvalho falou o que era melhor, se era caipirinha ou caipirosca?

 

 

COMO É O SEU NOME COMPLETO?

 

 

Não há de haver profissão mais louca do que a de escritor. É possível até que, ao me verem chegando de manhãzinha para trabalhar no meu “escritório” de Itaparica, os freqüentadores da Praça da Quitanda pensassem em que vida mansa eu tinha, de bermudas e chinelos sempre aproveitando qualquer pretexto para, antes de subir, ficar por ali prosando sobre a tarrafa de Luiz Cuiúba ou as galinhas de Zé de Honorina, como quem não tinha pressa nem obrigação. Além disso, era tão comum que, depois de passar uma meia-hora lá em cima, eu descesse outra vez para ficar zanzando pela praça ou pela beira do cais, que muitas vezes me perguntavam se eu estava trabalhando mesmo.

Mal sabiam eles que, lá em cima, olhando para uma montanha desorganizada de papéis e entulhos variados, eu tinha acabado de concluir pela enésima vez que aquilo tudo era uma maluquice, que não estava entendendo nada e que jamais seria capaz de escrever uma outra linha, quanto mais concluir o livro que, fazia quase um ano, prometia à editora que entregaria “para o mês”. Que sentido tinham aquelas garatujas todas, lauda após lauda de uma história que eu estava tirando não sabia de onde, gente que não existia e cujos sentimentos e ações agora me ocupavam como a um alucinado, personagens que de repente começavam a mandar nos acontecimentos, por que eu não tinha uma atividade decente como qualquer pai de família respeitável? Ainda mais que, no dia anterior, em quase delírio, eu havia mais uma vez assustado a pacientíssima santa esposa com descrições verborrágicas dos maravilhosos feitos literários que brotavam em catadupas da minha máquina inspirada – que confiança, que fé no taco, que certeza de que estava no caminho certo!

Como é que isso acontecia, como é que eu era gênio na quarta-feira e cretino na quinta? Cretino, irremediavelmente cretino, metido até o pescoço num projeto impossível e paranóico, isolado em meio a fantasias estranhas, levantando-me exasperado para ir até a janela e ver a praça, onde as pessoas, placidamente conversando, acreditavam estar cá em cima um escritor com aquela cara de escritor que se vê nos livros, escrevendo agilmente belas palavras e convivendo com as musas. E, ainda por cima, não sou amador, sou profissional, não faço mais nada, não sei fazer mais nada. É possível exercer atividade tão absurda como ofício e meio de vida, isto é normal? Talvez fosse por isso – certamente era por isso – que eu tinha procurado, como procurara muitas vezes antes e continuaria a procurar, adiar o penoso instante em que, nas vascas do cretinismo, teria de subir de novo ao escritório e enfrentar a escrita. Não, não, era uma situação insuportável, o jeito era descer outra vez, carregando todos aqueles personagens na cabeça espremida como um caju, os miolos meio doidos – e ir de novo conversar sobre as galinhas e a tarrafa, de novo mostrar a eles como é amena e descontraída a vida de quem trabalha de bermudas e chinelos. Ou então – por que não? – baixar a cestinha amarrada numa corda que o inimitável Zé de Honorina me providenciou quando montei o escritório, dar um berro para o compadre Bento lá embaixo e pedir que ele, por caridade, encha um copão daqueles de requeijão com alguma coisinha forte e o envie, via cesta, cá para cima. Compadre Bento é sempre prestimoso, especialmente em questões de escrever, porque uma vez, quando eu não conseguia parar de batucar na máquina apesar da presença dele, ocupado em consertar um negócio qualquer no escritório, me viu trabalhando e ficou muito impressionado.

-É trabalho pesado – explicou ele mais tarde à sua dele santa senhora, comadre Marileide. – Ele bate, bate, destremece todo, dá risada e faz cada careta que só a pessoa vendo. Aquilo puxa muito pelo juízo, coitado.

Muitos acessos de genialidade e cretinismo mais tarde, muitas noites maldormidas e copos de requeijão mais tarde, acabei o livro. Abestalhei, dei para vagar pela ilha como um zombie, fazendo perguntas sem nexo aos passantes e achando que nunca mais ia conseguir dormir. Entreguei os originais, não melhorei da cabeça, comecei a esperar que o livro saísse, que alguém lesse aquilo, que eu pudesse tocar no produto final daquele processo enlouquecido.

Ai de nós, escritores, nada se passa tão simplesmente. O livro tem de ir para o editor, tem de ser planejado, composto, revisto, impresso, encapado, encadernado, guilhotinado e não sei mais o quê. Não é como o trabalho de um pintor, que termina o quadro e pode mostrá-lo; não é como o trabalho de um praticante das artes cênicas, que exibe suas artes diretamente, é aplaudido, ignorado ou vaiado na mesma hora; não é como o trabalho de um músico, que toca sua música e presencia seu eco logo em seguida. Nada disso, o trabalho do escritor se multiplica, lentamente, enervantemente, em exemplares e mais exemplares, que são (ou não são) curtidos de forma individual, privada e pessoal – o escritor não sabe de nada do que está acontecendo, não tem um momento de explosão, tem só aquela coisa parada, vagarosa, indefinida. Quando, finalmente, o editor telefona e diz “está pronto, venha ver”, já se sofreu tanta agonia que a visão da obra transformada em objeto utilizável pode ser até melancólica. Então é isso? Então foi para isso que me meti em tanta atribulação? O que é isto, que quer dizer, aonde cheguei? Mas só agora você aparece, livro, depois de quase me haver matado? E daí?

E daí que há outras exigências, a que o sujeito não pode furtar-se. Antes mesmo que alguém possa ter lido o livro, há que dar entrevistas, respondendo sobre coisas que não se sabe, eis que o livro só existe intimamente e só revela sua identidade depois de lido pelos outros. Então como é que o escritor vai saber de alguma coisa sobre o livro, antes que o livro realmente exista? Mas é preciso trabalhar e é preciso arregimentar talentos inexistentes para conseguir realizar esse trabalho.

Tal como o talento de dar autógrafos, fazer dedicatórias e ser simpático quando se está nervoso. Mal sei assinar o nome (sou do Norte), não consigo fazer dedicatórias que não sejam “com a admiração do…” e fico nervoso quando mais de duas pessoas me olham simultaneamente. Então me sento lá e, invariavelmente, esqueço os nomes dos bondosos amigos que aparecem nos lançamentos e, crentes de que eu nunca poderia esquecer seus nomes, ignoram os pedidos desesperados que faço ao pessoal que vende os livros para que anotem a lápis os nomes (“pode deixar isso pra lá, ele me conhece”) e surgem risonhos, estendendo seus exemplares para que eu os autografe. Dá um branco, todos os nomes vão embora, os neurônios não disparam, a mão na caneta não funciona. Agora mesmo vai haver uma dessas sessões de autógrafos, já prevejo o que acontecerá, a vida do escritor é muito dura, não adianta nem usar truques antigos.

Como, por exemplo, o que eu costumava empregar há algum tempo. Em Salvador, num lançamento um pouco remoto, lembro muito bem que já tinha passado por diversos vexames amnésicos quando se apresentou diante de mim um senhor simpático, me olhando com afeto e até carinho, livro em punho e sorriso encorajador. Eu tinha certeza de que conhecia aquela cara, era com toda a certeza um grande amigo meu, uma pessoa de quem gostava muito – mas quem seria? Como era o nome dele, meu Deus do céu? Vasculhei as gavetas emperradas dos velhos centros da memória, cheguei a perder o fôlego, não adiantou, o nome não vinha. Sorri amarelo e usei o truque que me parecia mais adequado.

-Como é seu nome completo? – perguntei brilhantemente, de caneta em riste e cara hipócrita de quem sabia o primeiro nome.

-Ora, meu filho – respondeu o simpático senhor. – Não precisa pôr nome nenhum. Basta escrever “para meu pai”, que está tudo bem.

-Desculpe, papai – disse eu.

 

 

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Fonte: RIBEIRO, João Ubaldo. Sempre aos domingos: crônicas. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1988. p. 29 – 35 ; 207 – 212.



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