Revista Mulheres e Literatura – vol.15 – 2º Semestre - 2015



RUTH GUIMARÃES – UMA VOZ DE MUITAS VOZES – Severino Antônio





Severino Antônio

Centro Salesiano de São Paulo – UNISAL

 

 

Resumo: Este artigo traz algumas considerações sobre a obra e a vida de Ruth Guimarães (1920-2014), em diálogo com diferentes autores, dentre os quais Antonio Candido e José Paulo Paes, que ressaltam a relevância da autora, primeira escritora negra de reconhecimento significativo na literatura regionalista do modernismo brasileiro, tanto em sua ficção – romance, contos, crônicas e histórias infantis – como em seus estudos de cultura popular e folclore. O artigo reitera também a importância das histórias para a formação de leitores, para a educação da sensibilidade e da imaginação.

 

Palavras-chave: Ruth Guimarães – literatura – regionalismo – cultura popular.

 

Abstract: This article discusses the work and life of Ruth Guimarães (1920-2014), in dialogue with different authors, among which Antonio Candido and José Paulo Paes. These highlight the relevance of the author, the first of all black writer to achieve with significant recognition in regionalist literature of Brazilian modernism, both in his fiction – novel, short stories, chronicles and children’s stories – as in his study of popular culture and folklore. This article also reaffirms the importance of reading stories in the formation of readers and for the education of their sensitivity and imagination.

 

Keywords: Ruth Guimarães; literature; regionalism; popular culture.

 

Minicurrículo: Professor do Mestrado em Educação Sociocomunitária na Universidade Salesiana de São Paulo (UNISAL-SP). Doutor em Educação pela UNICAMP, é Conselheiro do Instituto ALANA. Há  quarenta anos trabalha com ensino de Redação e Leitura, Literatura, Filosofia, e também com formação de professores. Escreveu vários livros, dentre eles: Constelações – uma escuta poética da infância (Adonis, 2014); Poetizar o pedagógico (Biscalchin, 2014); Uma pedagogia poética para as crianças – com Katia Tavares (Adonis, 2013); Uma nova escuta poética da educação e do conhecimento (Paulus, 2009); O visível e o invisível (Verus, 2008).

 

 


 

RUTH GUIMARÃES UMA VOZ DE MUITAS VOZES

 

 

 

Severino Antônio

 

Centro Salesiano de São Paulo – UNISAL

 

 

 

 

 

Introdução

De modo constelar, este artigo faz considerações sobre algumas dimensões da obra de Ruth Guimarães, a partir de diálogos com alguns de seus textos e com autores que escreveram sobre o seu trabalho literário e cultural, de muitas vozes, e sobre sua dimensão humana.

Por que escrever sobre Ruth Guimarães, sua obra, sua vida?

Mais de duzentos milhões de habitantes. Mais de sete milhões de universitários matriculados no Ensino Superior. Tiragem média de um livro de literatura brasileira: os que conseguem ser publicados, em sua imensa maioria, têm edição de mil a dois mil exemplares.

Um breve andar pelas livrarias ou um olhar de sobrevoo às listas dos livros mais vendidos já evidenciam o domínio da lógica da última novidade do mercado de best sellers, geralmente lançados em todo o mundo, de modo semelhante à maquinaria da industria do cinema comercial.

A extensão dessa miséria amplia-se pela permanente crise de leitura, dentro e fora das escolas. Ao término do Ensino Fundamental, e mesmo do Ensino Médio, quantos são os alunos capazes de ler compreensivamente um texto lógico expositivo um pouco mais elaborado, com raciocínio mais complexo? E a leitura das entrelinhas e das palavras criadoras de sentido, e de mais sentidos, do texto literário?

Exatamente por isso, é imprescindível o trabalho de formação de leitores, que não se separa da formação de professores – que leiam e que chamem seus alunos a ler, que despertem o desejo e o gosto pela leitura. Para esse despertar, as histórias são fundamentais, pelos seus poderes de empatia, de identificação dos leitores com os personagens e os enredos, assim como pela capacidade de desenvolver curiosidade e imaginação, que ampliam as margens da vida. A convivência com a literatura revela-se, assim, experiência de educação da sensibilidade, em ambos os sentidos inscritos etimologicamente na palavra educar: conduzir na vida, na cultura, na sociedade; extrair, despertar e desenvolver, de dentro para fora, potencialidades humanas.

Este artigo reitera também a necessidade da descoberta e redescoberta de autores do patrimônio cultural, tanto brasileiro como da humanidade. Dentre esses autores, é significativo o conhecimento – e o reconhecimento – de vozes pioneiras, como a de Ruth Guimarães, primeira escritora negra a ocupar espaço significativo na literatura modernista, e que traz, tanto em sua ficção como em seus ensaios, as vozes dos deserdados da terra, vozes raramente escutadas.

 

Uma tessitura de vozes

Poucos dias depois da morte de Ruth Guimarães, Antonio Candido escreveu:

 

Com a morte de Ruth Guimarães, a vida cultural do Brasil perde uma de suas grandes damas, o que ela de fato era, no sentido pleno das palavras. À capacidade intelectual e fidelidade à vocação, juntava uma distinção rara, realçada pela serena reserva.

Dois anos mais velho do que ela, e sendo crítico literário do Diário de São Paulo, pude comentar a sua estreia brilhante, com o romance Água funda.

(…)

Nem sempre os escritores são, como pessoa, tão relevantes quanto os seus textos. De Ruth Guimarães pode se dizer que era. A sua integridade, a sua distinção pessoal, o corte sóbrio de sua conduta na República das Letras faziam dela uma personalidade respeitada e encantadora (CANDIDO, 2014, s. p.).

 

 

No dia mesmo da morte da escritora, Noemi Jaffe assim expressou-se, em artigo para o jornal Folha de São Paulo (on line), com a colaboração de Cesar Soto, artigo de que são recolhidos alguns excertos:

 

A escritora Ruth Guimarães morreu às 14h desta quarta (21), aos 93 anos, em Cachoeira Paulista, cidade onde nasceu. (…) Como com Guimarães Rosa, para quem “o sertão é o mundo”, também para ela “ser caipira” era uma condição antes espiritual e ontológica do que exclusivamente regional. (…) foi amiga pessoal de Mário de Andrade e a primeira escritora negra a obter repercussão nacional, em 1946, com o romance Água funda (…).

Assim é que a autora (…) misturava a Grécia a sacis, perfazendo uma literatura cronística, poética e romanesca, sem deixar de ser “contação de causos”, recuperação de nossas raízes negras (…). Ruth Guimarães teve nove filhos, escreveu romances, contos, poesia, palestras sobre educação, política, cultura, fez crítica literária, escreveu para alguns dos jornais mais importantes do país –publicou crônicas semanais para a Folha durante os anos 1960 – e era membro da Academia Paulista de Letras. Mas, para muitos, permanece anônima, principalmente nas grandes cidades. Certamente não no Vale do Paraíba, onde é um nome fundamental. É um caso a se pensar e, mais ainda, a reparar. Ela deixa quatro filhos e quatro netos (JAFFE, 2014).

 

 

Fabio Lucas, confrade da escritora na Academia Paulista de Letras, assim se expressou:

 

 

Ruth Guimarães projetou-se, desde cedo, como personalidade ímpar na literatura brasileira. Pesquisadora do folclore, desvendou organizadamente um dos pilares da formação da nacionalidade, até então ofuscada pelo preconceito. Ficcionista, levou à criação o cerne de nossa origem. Pedagoga, ofertou às crianças os encantos e a massa crítica do mundo maravilhoso (LUCAS, 2014, p. 130).

 

 

Quase sessenta anos antes, em 1956, no lançamento de Grande sertão: veredas, o criador de Riobaldo e Diadorim escreve-lhe como dedicatória:

 

A Ruth Guimarães,

 

parenta minha; e uma das pessoas mais simpáticas que já encontrei na vida; e que escreve como uma Fada escreveria –, com o grato apreço e a amizade do Guimarães Rosa (Rio, 11.VII. 56).

 

 

A questão da linguagem e da literatura regionalista

Uma obra vasta e plurívoca, de mais de quarenta volumes, de diferentes gêneros, com muitas dualidades: ao mesmo tempo regionalista e cosmopolita, feminina e universalista. Uma obra multifacetada, mas com uma concepção unitária de cultura e de literatura, que permanece coesa pela existência inteira.

Uma das mais expressivas dualidades pode ser assim apresentada: de um lado, a romancista de Água Funda, escrito aos vinte e um anos, e publicado em 1946, por Edgard Cavalheiro, autora que se reconhece e reitera sua identidade no pertencimento à literatura regionalista, à cultura caipira do Vale do Paraíba; de outro lado, a tradutora erudita, a latinista que faz uma admirada tradução de O asno de ouro, de Apuleio, estudada em diversas universidades, tradutora também de autores clássicos franceses, como Balzac e Daudet, assim como autora de um dicionário de mitologia grega, adotado em muitas faculdades.

Mesmo no campo específico de sua narrativa, há fecundas polaridades, faces diferentes e complementares, nunca dicotômicas, que propiciam chaves interpretativas que ampliam o diálogo e o reconhecimento da complexidade de sua criação. Uma das chaves é a que reconhece a dualidade de sua linguagem, unidade da diversidade, em oculta harmonia: a contadora de histórias do Vale do Paraíba, em especial de Cachoeira Paulista, traz a linguagem caipira, a fala viva das personagens; traz também, quase sempre na voz dos narradores, uma linguagem de feição clássica da língua portuguesa, que se espelha e inspira em Machado de Assis – não nas digressões, mas na concisão machadiana, autor que é a referência maior no cânone da autora, que leu Dom Casmurro aos nove anos de idade, do começo ao fim, “embalada pela música de suas frases”.

De muitos momentos possíveis, seguem dois, respectivamente representativos dessas duas faces inseparáveis da linguagem de Ruth Guimarães. Primeiramente, a voz das personagens caipiras:

 

Não, Irmã. Ela não está trabalhando. Eu sei. Percebo quando chega. O passo é leve, mal escuto. Entra em todas as peças da casa, sem sossego. Depois vai ficando vagarosa, pesada, parece que dá um passo e pensa, dá mais outro e pensa. E aí chega perto de mim e fala qualquer coisa, ligeiro, por comprazer. Outra hora escuto, longe, no terreiro, ou na sala, a batida de quem dança. Fala comigo sem paciência. Não, Malaquias; já vou Malaquias. Eu já não disse, Malaquias? Correu duas vezes, antonte, foi ficar na porta. Ficou um tempo. Quando voltou, perguntei: Foi enterro? E ela falou com um jeito desacorçoado: Também, Malaquias, a gente aqui nesta lonjura… (…) – peguei um passarinho na arapuca. – A voz do homem estava cansada e distante. – Coração dele ficava batendo na palma da minha mão. Única coisa que ele queria era escapar. Inda ’trodia, Maria se aprontou. Ia pro emprego. Tudo igual a todo dia, mas não sei o que tinha ficado diferente. “Espera um pouco, Maria, quero ver você.” Eu disse. Passei a mão no ombro dela. (…). Então dei um empurrãozinho nela e disse: “Vai que é tarde.” “Vou, sim.” E ficou parada um tempão. A freira esperou. Cego Malaquias também. No fim de uma expectativa um pouco ansiada, ele contou: – passei a mão no cabelo dela. Tinha uma flor (GUIMARÃES, 1996, p. 7 e 8).

 

E a voz do narrador, concisa, substantiva, de frases curtas e coordenadas: “A gente passa nesta vida, como canoa em água funda. Passa. A água bole um pouco. E depois não fica mais nada. E quando alguém mexe com varejão no lodo e turva a correnteza, isso também não tem importância. Água vem, água vai, fica tudo no mesmo outra vez” (GUIMARÃES, 1946).

É necessário lembrar sempre que a contadora de histórias, que escreve desde dentro da vida e da linguagem caipira, convive, o tempo inteiro, com a pesquisadora de folclore e de cultura popular, autora de obras como o pioneiro Os filhos do medo, de 1940, só publicado em 1950, lido nos originais por Mario de Andrade, que se torna amigo e uma espécie de mestre permanente da jovem escritora, e como Calidoscópio – a saga de Pedro Malazarte, vasta pesquisa feita por muitos anos, finalmente publicada em 2006, em volume de mais de trezentas páginas.

Em estudo para uma edição especial da obra O mundo cabloco, de Valdomiro Silveira, Ruth Guimarães escreve palavras que poderiam ser ditas sobre a sua condição de escritora e a sua própria literatura regionalista:

 

Refere-se a homens da terra pã-anímicos, sendo a expressão de uma experiência restrita, no campo da civilização, expressão do primitivo, visto de dentro para fora, revelado por si mesmo. (…).

Vamos dizer que logo se pôs um subproblema e era usar a língua na sua integridade gramatical e ortográfica, ou ao contrário empregá-la tal como a emprega o primitivo. Primitivo neste assunto e audacioso para o momento, sumamente perfeccionista no estilo em que vivia e escrevia, Valdomiro Silveira rompeu cânones a usar (pela primeira vez se usava) a linguagem dos mestiços do subtrópico em geral, e a do paulista em particular. Ou o valeparaibano, caipira, ou o santista, caiçara. Em Os Caboclos compareceu a linguagem falada do caipira (GUIMARÃES, 1974, p. xxii).

 

Ruth Guimarães sempre reivindicou sua condição de caipira, seu pertencimento à literatura regionalista caipira, o que é acompanhado de estruturas clássicas de narrativas, tanto na organização do enredo como na apresentação das personagens. Essa identidade é reconhecida por muitos dos seus leitores críticos, como José Paulo Paes. Em resenha publicada no jornal O Estado de São Paulo, a respeito do livro Contos de Cidadezinha, de 1996, ele escreve:

 

Ruth Guimarães continua praticando a narrativa de tipo tradicional. compraz-se em contar histórias com começo meio e fim e (…) a fala acaipirada de seus personagens e a miúda vida interiorana sobre que ela amorosamente se debruça denunciam-lhe logo a filiação a um regionalismo dado como irremediavelmente morto pela crítica de plantão. (…). Em comum com Costa Dantas, tem Ruth Guimarães o mesmo gosto coloquial e a mesma capacidade de descobrir, no dia a dia da gente mais simples, as raízes da humana condição. (…). Seja como for, o importante é a maestria de fatura e o poder de convencimento da arte narrativa de Ruth Guimarães, bem como a variedade de soluções a que recorre para dar interesse aos seus textos (PAES,1996).

 

 

Mais de cinquenta anos antes, quando do lançamento do romance Água funda, o então jovem crítico Antonio Candido resenhou o livro para o jornal Diário de São Paulo. Nela, já reconhece que a jovem autora unia “o português clássico à linguagem da gente humilde”. Ao final da resenha, afirma: “(…) não há dúvida que o seu romance (se for romance) encanta pelo equilíbrio da narrativa e o puro sabor das coisas naturais. Quem começa desta maneira irá, certamente, muito alto na carreira de escritor” (CANDIDO, 1946).

Na edição de 2003 de Água funda, Antonio Candido faz o prefácio da obra, em que assevera:

 

 

Este livro exprime bem o equipamento cultural e a visão de mundo de Ruth Guimarães, prosadora de qualidade e conhecedora profunda da cultura popular brasileira. É um romance, mas escrito como se fosse prosa afiada, como se fosse narrativa caprichosa que vai indo e vindo ao sabor da memória, ao jeito dos contadores de casos. Esta primeira impressão é justa, mas não deve esconder do leitor o que há neste livro de composição deliberada, de técnica bastante complexa, rica em elipses, em saltos temporais, em subentendidos. (…). O que estou procurando sugerir é a complexidade dessa narrativa despretensiosa, que sabe fundir os planos e passa com tanta maestria do individual ao coletivo, do natural ao social, do real ao mágico (CANDIDO, 2003, p. 7 e 9).

 

 

 

A imagem de si mesma

 

Ruth Guimarães não se tornou conhecida do grande público, apesar de ter feito inclusive reportagens para revistas de elevada tiragem, como Realidade e como Quatro Rodas, e apesar de ter publicado centenas de crônicas, como no jornal Folha de São Paulo em que, na década de 1960, alternava-se com Cecília Meireles e Carlos Heitor Cony.

Ao ler os textos a respeito de sua obra, uma outra questão emerge: o que a autora fala sobre si mesma, sobre sua condição de mulher, escritora, negra, pesquisadora, com uma vida singular, que raros romances seriam capazes de conceber e imaginar?

A condição de órfã desde cedo, de irmã que cuida dos irmãos; o casamento com o primo, o fotógrafo José Botelho Neto, casamento de mais de cinquenta anos, que nunca separou vida e literatura; a mãe de nove filhos, três dos quais com graves limitações provocadas pela síndrome de Alport; a romancista aos vinte anos; a estudante de letras clássicas, nos tempos da fundação da USP, aluna de Fidelino de Figueiredo e de Roger Bastide, dentre outros; a professora de português, por trinta e cinco anos, em escolas públicas do estado de São Paulo; a professora universitária em muitas faculdades no Vale do Paraíba; a animadora cultural, criadora de museu de folclore, diretora e secretária de Cultura em muitos municípios do Vale; a participação na Academia Paulista de Letras em que, com oitenta e oito anos, assume a cadeira vinte e dois…

Uma vida de muitas vidas. Ruth Guimarães pouco escreve e pouco fala de si mesma. Em uma das raras vezes em que se expressa diretamente sobre sua condição de mulher negra e escritora, em 1982, em entrevista a Heloneida Studart, para a revista Manchete, afirma: “Não é fácil ser mulata. (…). Esse louvor gratuito à mulata é coisa do Rio, de Copacabana, divertimento de intelectuais. A realidade é outra. Em qualquer ponto do país, a mulata é vítima do sistema duas vezes: como mulher e como negra” (GUIMARÃES, 2014, p. 49).

Em 2008, é eleita para a Academia Paulista de Letras. No discurso de posse, em 18 de setembro, faz breve menção a si mesma, a sua história vivida: “Eu não tinha ainda dezoito anos e vim para São Paulo, para abrir caminho na vida. E isto me palpitava obscuramente escrever. Sozinha. Arranjei trabalho modesto de datilógrafa correspondente, do outro lado do Arouche” (GUIMARÂES, 2014, p. 125).

Há uma passagem muito significativa que revela a imagem da autora sobre si mesma, sobre sua condição de mulher e de escritora, sobre sua concepção de literatura, sobre o seu processo de criação: trata-se do texto de abertura da obra Contos de cidadezinha. Um prefácio, chamado Duas palavras, um texto síntese de sua visão. Neste prefácio, enuncia algumas indagações fundamentais:

 

Escrevo para quê, afinal?

Indago de mim mesma e encontro inúmeras respostas, possivelmente nenhuma correta: Para obter honra e glória? Para poder dizer tudo o que penso? Para me aproximar do meu semelhante? Para tentar derrubar o muro que separa um ser de outro ser? Para apreender o sortilégio da vida, que de outro modo não alcanço? Para justificar essa minha existência? Para deixar impresso no mundo o traço da minha passagem? (GUIMARÃES, 2006, p. 3 e 4).

 

 

Responde a essas questões com uma prosa poética:

 

 

Ah! Eu conto histórias para quem nada exige, e para quem nada tem. Para aqueles que conheço: os ingênuos, os pobres, os ignaros, sem erudição nem filosofias. Sou um deles. Participo do seu mistério. Essa é a única humanidade disponível para mim. Quem me dera escrevesse com suficiente profundeza, mas claramente e simplesmente, para ser entendida pelos simples e ser o porta-voz dos seus anseios (GUIMARÃES, 2006, p. 4).

 

 

Imagens expressivas da autora sobre si mesma poderiam ser encontradas em seus poemas. Mas eles ficaram praticamente inéditos. Alguns foram reunidos em um número especial da revista Ângulo, de homenagem póstuma à autora. Os poemas são um outro continente, uma espécie de face oculta da criação literária de Ruth Guimarães. Não pertence à linhagem regionalista. São textos de temática existencial. Revelam-se como uma voz feminina, em enfrentamentos que não cessam – com dilemas, determinações e finitudes – em um mundo também assinalado de anunciações, mas sem transcendência. Escreve ela:

 

Itinerário

 

Pelos corredores do tempo/eu fui, / como se soubesse o caminho./Como se distinguisse o caminho./ Como se houvesse um caminho./E, sem saber de mim,/ continuadamente/ retorno ao ponto de partida (GUIMARÃES, 2014, p.100).

 

 

O texto a seguir, poema em prosa de que foi retirado um fragmento, traz um campo de imagens marítimas, imagística estranha ao mundo das personagens das pequenas cidades e das montanhas de passagem para Minas Gerais, espaço geográfico e existencial das suas narrativas:

 

Um dia eu serei marinheira no mundo, quando não sei, por que não sei. Há barcos de muito jeito. E se não for de outro modo, vou no barco do esquecimento, marinheira no mundo, nesse mesmo eu vou. Talvez entre algas, talvez entre luas e plumas. Os peixes passarão diante dos meus olhos abertos. E oceanos de silêncio se erguerão de todos os lados intransponíveis. Estarei viajando para onde ninguém me alcança, marinheira no mundo (GUIMARÂES, 2014, p. 24).

 

 

Retornando à questão do seu pertencimento à cultura caipira e à necessidade de trazer a voz genuína das personagens, Ruth Guimarães sempre discorda do processo de invenção de palavras na literatura. Para a autora, a palavra é criação comunitária e social. Se inventada, torna-se artificial, sem vida. O ficcionista precisa de enraizamento, não somente na linguagem, mas na existência.

Aos noventa e três anos, em entrevista para o jornal da União Brasileira de Escritores (UBE), assim discorre:

 

A minha literatura é regionalista, porque eu sou caipira. O escritor regionalista tem que ser uma pessoa do povo, que vive o que o povo vive, e que tenha burilado sua linguagem a ponto de ser capaz de transmitir com fidelidade e apuro linguístico a maneira de pensar e de viver do homem do povo. Eu sou caipira. Eu vivi a cultura da cidade pequena, e contei uma história( no romance Água funda, de 1946) que respeita o pensamento e a linguagem caipira. E não só isso, mas respeitando a maneira do caipira de contar uma história, a sua maneira de pôr a linguagem (GUIMARÂES, 2013, p. 14).

 

 

Sobre a necessidade de convivência com histórias e personagens mitopoéticas do folclore e da cultura popular, Ruth Guimarães sempre reiterou energicamente a implicação pedagógica da literatura, como forma genuína e insubstituível de educação, tanto no sentido do acesso ao patrimônio cultural, como no sentido do enriquecimento da sensibilidade e da imaginação. Já no prefácio ao seu primeiro livro infantil, o Lendas e fábulas do Brasil, de 1972, escreveu:

 

Os contos de encantamento obram, pois, outras maravilhas: sonhos do homem acordado, são também o aflorar do subconsciente, esse laboratório de alquimia da alma, onde cada um resolve os mistérios da sua própria vida. O viver continua encantado e miraculoso. E enigmático. E desconhecido. Contando às crianças os contos encantados, nós as ajudaremos a solver os seus mistérios, sem choques e sem ansiedades.

Ouvindo essas estórias de contar à noite, as crianças dormirão no embalo dos cavalos alados, dos prinspos e prinspas, do papagaio que virou gente, de madrinhas que transformam abóbora em carruagem. Trata-se de restos de ilusões do homem que, nesta era tecnológica e maquinal, no seu sentido mais terrível, maquinático e maquinâmico, perdeu a fantasia e a capacidade de criar novos desejos. (…). Dá pena saber que há crianças que nunca ouviram casos narrados assim (GUIMARÃES, 1972, p. 2 e 3).

 

 

Nas duas últimas décadas de sua longa vida, pensava um romance, sempre por escrever, sempre inacabado – O livro da bruxa, que poderia ser interpretado como uma metáfora, como um símbolo da sua condição, ela que afetuosamente era chamada de bruxa por muitos de seus amigos, inclusive por seu conhecimento de plantas medicinais.

Décadas depois da publicação de Lendas e fábulas do Brasil, retoma a publicação de contos de base folclórica Histórias de onça; Histórias de jabuti – que mesclam pesquisa e criação, para leitores de todas as idades. Sobre essas histórias, que comporiam um conjunto de nove livros, afirma:

 

Que continuemos, pois, a contar, ler e narrar contos folclóricos universais, pois que pertencem indestrutivelmente também a uma universalidade do ser. Mas que conheçamos as histórias brasileiras, que nos integrarão à nossa cultura, ao nosso pensar, agir, sentir e fazer de brasileiros. Elas constituem lições profundas, verdadeiras e indispensáveis de brasilidade (GUIMARÂES, 2008, p. 5).

 

 

Na época de seus noventa anos, organizava uma outra pesquisa: conversas, com pessoas mais velhas de Cachoeira Paulista e de outras cidades do Vale do Paraíba, sobre a memória das histórias que ouviam e que liam quando crianças.

Uma dificuldade física tornava-se dramática. Ruth Guimarães sempre escreveu os seus textos diretamente em uma antiga máquina de escrever. Com o tremor das mãos, a dificuldade de datilografar era cada vez maior. Muitas vezes ela se recusava a gravar ou a ditar os textos. Reiteradamente explicava que suas mãos é que pensavam, elas é que criavam os textos.

 

Considerações finais

Mesmo aqueles que não se identifiquem com a literatura regionalista e com a concepção de linguagem e de cultura de Ruth Guimarães, também eles podem reconhecer a fecundidade de sua leitura, da escuta de suas múltiplas vozes, como uma experiência literária, cultural e humana.

A voz da jovem negra, que cria os irmãos. A voz da mãe de nove filhos. A voz da contadora de histórias – em romance, contos, crônicas, que trazem as vozes de homens e mulheres raramente escutados. A voz da tradutora de clássicos do latim e do francês. A voz da pesquisadora de folclore e cultura popular. A voz da professora de português e literatura. A voz da animadora cultural. A voz da discípula de Mario de Andrade, parenta de Guimarães Rosa,  amiga de Antonio Candido.

Uma voz de muitas vozes, para quem se pode dizer o que Manuel Bandeira escreveu a Mario de Andrade: sua vida continua na vida que você viveu.

 

Referências Bibliográficas

CANDIDO, Antonio (2014). Sobre Ruth Guimarães in Revista Ângulo/Cadernos do Centro Cultural Teresa D’Ávila, Lorena, SP, nº 137.

CANDIDO, Antonio (1946). Notas de crítica literária: Água funda, jornal Diário de São Paulo, 18 set. 1946.

GUIMARÃES, Ruth (1946). Água funda. Rio de Janeiro: Globo.

GUIMARÃES, Ruth (1950). Filhos do medo. Rio de Janeiro, Globo.

GUIMARÃES, Ruth (1972). Lendas e fábulas do Brasil. São Paulo: Cultrix.

GUIMARÃES, Ruth (1972). Dicionário da mitologia grega. São Paulo: Cultrix.

GUIMARÃES, Ruth (1974). O mundo caboclo de Valdomiro Silveira, Rio de Janeiro:                              Livraria José Olympio Editora/Secretaria de Cultura, Estado de São Paulo/Instituto Nacional do Livro/MEC.

GUIMARÃES, Ruth (1996). Contos de cidadezinha, Lorena, SP: Centro Cultural Teresa D’Ávila.

GUIMARÃES, Ruth (2003). Água funda. Prefácio de Antonio Candido. Rio de Janeiro: Nova Fronteira.

GUIMARÃES, Ruth (2006). Calidoscópio a saga de Pedro Malazarte. São José dos                                                  Campos, SP: JAC Editora.

GUIMARÃES, Ruth (2008). Histórias de onça. São Bernardo do Campo, SP: Usina de Ideias.                                                   

GUIMARÃES, Ruth (2008). Histórias de jabuti. São Bernardo do Campo, SP: Usina de Ideias.

GUIMARÃES, Ruth (2014). Não é fácil ser mulata – entrevista para revista Manchete, in Revista Ângulo/Cadernos do Centro Cultural Teresa D’Ávila, Lorena, SP, nº 137.

GUIMARÃES, Ruth (2014). Discurso de posse na Academia Paulista de Letras, in Revista Ângulo/Cadernos do Centro Cultural Teresa D’Ávila, Lorena, SP, nº 137.

GUIMARÃES, Ruth (2013). Leitura e brasilidade – entrevista para o jornal O Escritor, da UBE (União Brasileira de Escritores), nº 13, abril 2013.

GUIMARÃES, Ruth (2014). Poemas, in Revista Ângulo/Cadernos do Centro Cultural Teresa D’Ávila, Lorena, SP, nº 137.

JAFFE, Noemi (2014). Morre Ruth Guimarães, da Academia Paulista de Letras, aos 93 anos, in Folha de São Paulo, 21/05, Folha on line.

LUCAS, Fábio (2014). Depoimento sobre Ruth Guimarães in Revista Ângulo/Cadernos do Centro Cultural Teresa D’Ávila, Lorena, SP, nº 137.

PAES, José Paulo (1996). Uma contista do interior revive sua fala, in Caderno Especial, jornal O Estado de São Paulo, 15 set. 1996.



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