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Resumo: Análise das obras de diversas escritoras brasileiras contemporaneas à luz da censura e da autocensura que cercam o conceito de lesbianismo no Brasil: Raquel de Queiroz, Lygia Fagundes Telles, Clarice Lispector, Edla van Steen, Nélida Piñon, Sonia Coutinho, Marcia Denser, emprestam noções de androginia a personagens que são discutidas em todas as suas nuances teóricas, do erótico, sublimado ou invisível ao abertametne sociopolítico.
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O Desejo Lesbiano no Conto de Escritoras Brasileiras
Contemporâneas1
Cristina Ferreira Pinto-Bailey
1. O lesbianismo e a literatura erótica feminina no Brasil
No Brasil e, de modo geral, na América Latina, a existência de
uma tradição lesbiana na literatura de autoria feminina não
tem sido reconhecida pela crítica, fato já comentado por David
William Foster (Sexual Textualities, 1991, 10). A razão para a suposta
ausência dessa tradição é o tabu que ainda cerca
as relações homossexuais na América Latina, e a conseqüente
censura e autocensura que impediriam a expressão do lesbianismo na literatura
de mulheres. Por um lado, tratar de personagens lesbianos e do desejo homossexual
entre mulheres poderia levar à identificação dessas escritoras
como lésbicas; por outro, uma literatura que desse expressão livre
ao erotismo lesbiano seria rapidamente tachada de pornográfica, ambos
rótulos indesejáveis dentro do contexto latino-americano.
A causa, entretanto, para o não reconhecimento, ou desconhecimento,
da presença do sujeito e do desejo lesbianos em obras de escritoras latino-americanas
jaz na mesma atitude ideológica que faz com que a mulher lésbica
tome-se invisível aos olhos da sociedade. 0 sujeito lesbiano foge à
definição aceita de "feminino", rompe radicalmente com
os padrões de gênero estabelecidos, ao não se definir em
função do desejo masculino e do sistema de reprodução
biológica e de transmissão de valores econômicos e ideológicos.
Por não ser possível categorizá-la dentro desses padrões,
a 1ésbica termina reduzida ao "não-ser", ao que não
se nomeia (e o que não se nomeia não existe): "the lesbian
exists in a vacuum of unreadability and unnameability both socially and sexually"
(Manzor-Coats, 1994, xxii). Se assim é na sociedade, na literatura o
reconhecimento de uma tradição lesbiana exige um certo tipo de
leitor que possa resgatar o sujeito e o desejo lesbiano de sua invisibilidade,
um leitor dotado de uma capacidade "queer" de leitura (Anzaldúa,
1991, 257-58). Ou seja, é necessária uma abertura ideológica
que permita ler nas entrelinhas, trazer à tona o palimpsesto e decifrar
a função da ambigüidade no texto, e que resgate a homossexualidade
feminina do espaço marginalizado da literatura pomográfica.
No Brasil, o desejo lesbiano aparece na literatura escrita por mulheres desde,
pelo menos, as primeiras décadas do século XX. A tradição
de uma literatura sobre temas e personagens 1ésbicos, no entanto, teria
que ser estabelecida a partir dos olhos da crítica de hoje, quando já
há espaço para um tipo de leitura como a que sugere Gloria Anzaldúa.
Assim, é possível verificar a representação do desejo
lesbiano em obras, por exemplo, da poeta Gilka Machado, de Raquel de Queiroz
ou de Clarice Lispector.2 Numa das raras obras sobre o tema, 0 lesbianismo no
Brasil (1987), Luís Mott dedica um longo capítulo a um levantamento
das "lésbicas na literatura brasileira", abrangendo desde a
literatura portuguesa do século XIV até a produção
literária no Brasil no começo dos anos 1980. Usando como critério
de seleção dos textos discutidos a presença de personagens
lésbicos ou a abordagem do lesbianismo como tema, Mott inclui nesse capítulo
principalmente obras de autores masculinos e até obras estrangeiras traduzidas
e publicadas no Brasil, porém poucos títulos de autoria feminina.
Segundo ele, a primeira obra de autora brasileira que enfoca o desejo lesbiano
teria sido o romance Vertigem, de 1926, escrito por Laura Villares, escritora
hoje pouco conhecida. A situação romanesca criada em Vertigem
lembra sob muitos aspectos a relação de Léonie e Pombinha
em O Cortiço (1889) de Aluísio Azevedo, sem ser, no entanto, tão
"violento e carnal" como o romance naturalista, possivelmente porque,
"por se tratar de uma escritora mulher, a autocensura tenha sido mais forte"
(Mott, 1987, 85).
A autocensura, que às vezes pode calar a expressão erótica
feminina em todas suas formas, encontra-se obviamente enraizada nas práticas
sociais vigentes, que tanto procuram controlar a sexualidade feminina, como
restringir o acesso da mulher a uma linguagem adequada à representação
de sua sexualidade. E somente a partir de finais da década de 1960, quando
as mulheres brasileiras ganham mais espaço no terreno sociopolítico
e um número maior de escritoras chega a alcançar reconhecimento
de público e crítica, que o erotismo passa com mais freqüência
a ser um aspecto integrante da literatura de mulheres. A partir dessa época,
ou seja, nos últimos trinta anos, observa-se uma proliferação
de discursos sobre a sexualidade (Manzor-Coats, 1994, xxiv). Entretanto, se
essa proliferação origina-se em parte no discurso social dominante
com a função de regulamentar e catalogar o desejo e as atividades
sexuais de homens e mulheres (Foucault, 1990, 30-31, 35, 36), o erotismo na
literatura escrita por mulheres, inclusive as brasileiras, funciona como "a
source of power, change and creativity" (Lorde, in Humm, 1992, 285). Surgem
então livros como A casa da paixão (1972) de Nélida Piñon
e, mais tarde, antologias coletivas de ficção erótica feminina,
tais como Muito prazer (1980) e 0 prazer é todo meu (1984), organizadas
por Márcia Denser, ela própria autora de um importante corpus
de ficção erótica feminina. O erotismo cínico, anti-romântico,
e mesmo anti-erótico de Denser é um excelente exemplo de como
as escritoras brasileiras têm problematizado as relações
de gênero ao mesmo tempo em que examinam as hierarquias sociais e conflitos
de poder freqüentes nas relações heterossexuais centradas
no desejo masculino.
Sob este aspecto, outro livro relevante publicado naquele período é
0 discurso da mulher absurda (1985), de Joyce Cavalcante, um volume de contos
eróticos cujas protagonistas femininas situam-se como sujeito do desejo,
buscando de modo "agressivo" (segundo os padrões masculinistas
de comportamento feminino) o prazer sexual. No conto "Luta livre",
por exemplo, a protagonista é uma mulher solteira, de classe média
que sai à noite procurando parceiros sexuais, e para cada amante que
tem ela assume um nome diferente: Miriam, Cleide, Leila, Cláudia. Seus
vários nomes representam a natureza esquiva da personagem frente aos
homens com quem se relaciona. Essa posição esquiva de mulher sexualmente
experiente surpreende e incomoda seus amantes, assim como deve ter incomodado
a1guns leitores. Neste caso, o que perturba é o rompimento dos padrões
de gênero, tanto pela personagem, ao assumir a posição de
sujeito, como pela autora, que escreve de modo tão explícito sobre
o erotismo feminino.
Se a expressão da experiência erótica feminina chega a ser
tão problemática, a representação da sexualidade
lesbiana o é ainda mais, pois rompe com as relações dominantes
de gênero, ao excluir a figura do homem e colocar a mulher em uma posição
de sujeito atuante, em vez do papel tradicional de objeto do desejo masculino.
Assim, o desejo lesbiano na obra de escritoras brasileiras não só
representa uma dimensão importante da sexualidade feminina, como também
serve para expor e questionar o controle social sobre a sexualidade e o corpo
femininos. O lesbianismo abre um espaço para a realização
pessoal e sexual da mulher, no qual a identificação com outro
ser seu igual toma possível a auto integração do sujeito
feminino. Como tem sido analisado pela teoria crítica contemporânea,
as origens dessa identificação física e psíquica
entre mulheres remonta ao semiótico (quando a criança encontra-se
num estágio de perfeita simbiose com a mãe. Esse primeiro estágio
de união influencia as relações posteriores do sujeito
e determina na mulher um tendência à bissexualidade e a uma sexualidade
mais fluida.3 0 romance lesbiano Sortilegiu (1981), de Myriam Campello, ilustra
bem essa identificação, neste trecho, por exemplo, em que a protagonista,
Ísola, conhece Marina, que mais tarde vai tomar-se sua amante: "Ísol
sentia a tepidez daquele corpo refletido sobre o seu no espelho, tocando-a,
como se a fusão das duas imagens produzisse calor" (1981, 47). A
imagem de dois corpos superpostos no espelho prenuncia o encontro sexual das
duas mulheres, quando o corpo de uma funciona como reflexo do da outra, e têm
lugar a integração fisica e a reciprocidade no dar e receber prazer:
"Marina [...] navegava Ísola também multiplicando-se, desdobrada
e vária como um prisma sob a luz. Ísola/Marina se desencadeavam
prazer como o vento no capim ondulante" (1981, 65).
Em seu livro Archetypal Patterns in Women's Fiction (1981), Annis Pratt comenta
que "Through the experience of Eros with other women, [...] women experience
themselves for the first time not as others but as essences, reaching that place
in their consciousness where they can tap the sources of their own libidinal
energy" (1981, 112). Treze anos depois, Teresa de Lauretis chega a uma
conclusão semelhante ao afirmar que o desejo lesbiano "affirms and
enhances the female-sexed subject and represents her possibility of access to
a sexuality autonomous from the male" (1994, xvii). A idéia de uma
sexualidade feminina autônoma coloca-se em contraposição
a um discurso social que privilegia o desejo masculino sobre o feminino, definindo
o corpo da mulher exclusivamente dentro dessa hierarquia. Desse modo, a sexualidade
e o desejo lesbiano podem ser entendidos como uma rejeição do
sistema dominante, como o "ato de resistência" proposto por
Adrienne Rich em seu importante ensaio "Compulsory Heterosexuality and
Lesbian Existence" (1980). De Lauretis considera "the figure of the
lesbian in contemporary feminist discourse [as representing] the possibility
of female subject and desire: she can seduce and be seduced, but without losing
her status as subject [...]" (1994, 156). Desse modo, a expressão
do desejo lesbiano no discurso literário representa "a place from
where female homosexuality figures, for women, the possibility of subject and
desire" (De Lauretis, 1994, 156). Diz ela:
To the extent that all women have access to that place, female homosexuality
guarantees women the status of sexed and desiring subjects, wherever their desire
may be directed. [...] the desire expressed in the figure, in the trope, of
female homosexuality may be predicated unconditionally of the female subject;
it becomes one of her properties or constitutive traits. [...] [and] it need
not be confined in the patriarchal frame of a "heterosexual love story"
(De Lauretis, 1994, 156-57).
A proposição de De Lauretis oferece um enfoque útil para
entender o desejo e o sujeito lesbianos nos contos que vão ser aqui discuti-los.
Em "Intimidade" (1977) de Edla van Steen, "A mulher de ouro"
(1984) de Myriam Campello, "A Escolha" (1985) de Lygia Fagundes Telles,
"Tigresa" (1986) de Marcia Denser, e "Fátima e Jamila"
(1a ed., 1976; 1994) de Sonia Coutinho, a representação do desejo
e da sexualidade 1ésbica privilegia notadamente a mulher como sujeito,
ao, mesmo tempo em que implica em uma crítica ao sistema de gêneros.
Com exceção de "A Escolha", no qual o erotismo tem lugar
num marco temporal anterior à narrativa, todos são contos eróticos
contrapondo-se àquele tipo de pomografia masculina na qual a homossexualidade
feminina funciona como locus de prazer para o voyeur. Nestes contos, o desejo
lesbiano representa uma ruptura com o contexto sociossexual demarcado pelo patriarcalismo,
um rompimento com as relações de gênero definidas pela "estória
de amor heterossexual". Esta expressão é aliás sintomática
da ideologia que limita a mulher a determinadas funções sociais
e narrativas (e.g. a virgem que espera o casamento e a mulher "fácil"
ou a prostituta), o que explica porque a própria palavra "amor"
pode ser às vezes rejeitada, já que tem toda uma carga ideológica
com conotações de amor romântico, relações
hierárquicas, poder e submissão.
2. 0 desejo lesbiano em cinco contos brasileiros contemporâneos
Pode-se considerar que os contos a serem analisados a seguir formam parte de
uma tradição lesbiana na literatura escrita por mulheres no Brasil.
Entretanto, há que se reconhecer que caracterizá-los como narrativas
lesbianas pode ser problemático, não só pelas questões
de censura e autocensura a que me referi acima, mas em especial pela própria
complexidade da discussão crítica em torno do que se poderia chamar
"literatura lésbica". Pesquisadoras como Bonnie Zimmerman,
Barbara Smith, Lillian Faderman e Marilyn R. Farwell apresentam definições
às vezes contraditórias entre si. Enquanto que Zimmerman é
categórica, ao afirmar que "the nature of lesbian fiction makes
it impossible to separate the text from the imagination that engenders it"
(1995, 15), sendo portanto o texto lesbiano aquele escrito por uma mulher homossexual,
Smith vê a crítica textual das instituições heterossexuais
como o elemento caracterizador da narrativa lesbiana (1979, 188). Por outro
lado, tanto Faderman quanto Farwell comentam as dificuldades e complexidade
da questão e apontam o leitor como o "locus of the lesbian in the
lesbian text" (Farwell Heterosexual Plots 7). Deste modo, corrobora-se
a necessidade de uma leitura que dê nome e existência ao personagem
ou ao desejo lesbiano, ainda que o próprio texto não pareça
fazê-1o abertamente.
No contexto da socieade e cultura brasileiras, que freqüentemente rejeitam
rótulos rígidos, nem todas as personagens destes cinco contos
se identificariam como homossexuais. Por exemplo, em "Intimidade"
de van Steen e "Fátima e Jamila", de Coutinho, temos personagens
casadas vivenciando um momento de desejo homossexual. Estes dois contos seriam
um exemplo do fenômeno histórico da "amizade romântica"
entre mulheres casadas (Haggerty c Zimmerman: 3); ambos, entretanto, lançam
mão da sugestão, da ambigüidade e, no caso de Coutinho, de
uma imagética forte, para criar situações de inequívoca
carga erótica, que permitem lê-los como expressão de um
desejo lesbiano. Falando da literatura anglo-americana novecentista, Vinetta
Colby faz um comentário pertinente ao afirmar que, muitas vezes, na ficção
de autoria feminina, a paixão entre mulheres "is sublimated in relationships
that modem readers would immediately designate as lesbian" (Pratt, 1981,
96). Nos contos de Van Steen e Coutinho, o desejo lesbiano transparece através
de um erotismo denso e fundamentalmente carnal, e é tal "carnalidade"
(Stimpson, 1981, 301), que leva a enquadrar estes dois textos numa tradição
literária lesbiana no Brasil.4
Já os contos "A Escolha", de Telles, e "A mulher de ouro",
de Campello, problematizam as relações de gênero na sociedade
brasileira ao mesmo tempo em que enfocam, cada um à sua maneira, a questão
da invisibilidade e "unnameability" do sujeito lesbiano. Enquanto
Telles emprega com maestria a ambiguidade característica de sua ficção,
Campello solta a "gargalhada da Medusa", para usar a expressão
de Hé1ène Cixous, e lança mão do humor e do sarcasmo
como estratégias narrativas para forçar a abertura de um espaço
onde seja possível representar o desejo lesbiano. Há nos dois
contos um excesso textual--seja a ambigüidade que não se explica
facilmente, seja o sarcasmo desafiante da voz narrativa--que vem exatamente
do caráter excessivo do desejo e do corpo lesbiano.5 Enquanto que esse
excesso é "descaradamente" anunciado pela protagonista de Campello,
no conto de Telles ele reside nas reticências, na ambigüidade, naquilo
que não se enuncia mas cuja presença, no entanto, é indubitável.
Estes dois contos, como aliás "Tigresa" de Márcia Denser,
correspondem a outro modo de entender a narrativa lesbiana, qual seja, a partir
de uma economia textual desestabilizadora, tanto das categorias narrativas como
de gênero (Farwell, Heterosexual Plots 8-9). 0 texto lesbiano, diz Farwell,
apresenta "a disruptive female body that reorders the traditional narrative
structure". Diana Marini, a protagonista de "Tigresa", incorpora
essa presença feminina perturbadora e excessiva, a partir da qual o texto
se constrói como um discurso desordenado e transgressivo, crítico
das relações sociossexuais da burguesia brasileira.
3. "Intimidade" e "Fátima e Jamila": a mulher "heterossexual"
e o desejo lesbiano
Edla van Steen, que em 1977 ganhou o prêmio Revista Status de literatura
erótica, enfoca em sua ficção o questionamento da identidade
sexual de suas personagens e a subversão das categorias de gênero.
Suas protagonistas freqüentemente encontram-se num processo de busca da
auto-realização pessoal e sexual e da definição
de um sentido de identidade. Essa busca, normalmente impossibilitada de atingir
uma conclusão satisfatória no contexto patriarcal da sociedade
brasileira, leva as personagens a criarem espaços alternativos onde a
realização pessoal e sexual do sujeito feminino toma-se viável.
Em "Intimidade", o desejo lesbiano vivenciado pelas duas personagens,
Ema e Bárbara, representa tal espaço alternativo.
"Intimidade" constitui um instantâneo do cotidiano das duas
amigas que vai revelar, para além dos atos rotineiros em primeiro plano,
uma realidade mais profunda e mais íntima a partir da qual a intimidade
entre as duas mulheres ganha uma nova dimensão. Ema e Bárbara
são duas amigas inseparáveis, fisicamente parecidas, cujos maridos
trabalham juntos, e que ficaram grávidas e tiveram filhos ao mesmo tempo.
Tudo aqui reforça a idéia de identidade entre as duas mulheres,
inclusive a semelhança física entre as duas. A narrativa mostra-nos
as duas conversando, já tarde da noite, numa hora em que as crianças
estão dormindo e os maridos ausentes, propiciando assim um dos "raros
[ ... ] instantes de intimidade" (1977, 68) entre as duas mulheres. A brecha
que então se abre na rotina vai se colocar em oposição
ao cotidiano estruturado sobre o sistema de heterossexualidade compulsória.
No conto, a cultura masculinista está representada na figura do marido,
cuja presença implica no silêncio e na imobilidade da mulher que
se sente nulificada: "Se o marido estivesse em casa a obrigaria a assistir
à televisão, porque ele mal chegava, ia ligando o aparelho, ainda
que soubesse que ela detestava sentar que nem múmia diante do aparelho"
(1977, 66). Ao contrário deste cenário estruturado sobre o desejo
do homem, a presença da amiga cria um clima de intimidade, identificação,
união, no qual tanto Ema quanto Bárbara agem espontaneamente,
sentem-se elas mesmas, desoprimidas: "Um sentimento de liberdade interior
brotava naquele silêncio" (1977, 68).
A partir de uma situação banal, na qual o desejo sexual pareceria
soterrado pela domesticidade, a narrativa vai fornecendo-nos índices
isolados da corporalidade das duas mulheres, da dimensão física
que Barbara e Ema assumem no imaginário uma da outra. 0lhando Bárbara,
Ema enxerga "uma linha de luz dourada [que] valorizava o perfil privilegiado"
(1977, 65); a outra, por sua vez, admira "os cabelos soltos, caídos
no rosto, [que escondiam os olhos cinzas, azuis ou verdes" de Ema (1977,
66). E mais tarde: "Cintura fina, pele sedosa, busto rosado e um dorso
infantil. [...] Louras e esguias, seriam modelos fotográficos, o que
entendessem, em se tratando de usar o corpo" (1977, 67). De maneira fragmentária,
estes índices vão apoiando a narrativa sobre o corpo feminino
e vão prenunciando, ao mesmo tempo, o desejo homossexual que se manifesta
quando as duas mulheres, com o pretexto de consertarem o sutiã de Ema,
despem-se e comparam qual das duas tem os seios maiores e trocam então
carícias. Note-se também a enunciação e o deslocamento
de objetos normalmente erotizados em um discurso masculino, tais como o sutiã,
o quarto de dormir e os lençóis novos n acama de Ema. Apresentados
displicentemente como parte do cotidiano doméstico, esses objetos parecem
perder sua carga de erotismo quando, na verdade, apenas servem para construir
uma nova dimensão erótica, já que aparecem exclusivamente
em função do corpo e do desejo feminino. Ao final do conto, após
essa manifestação de desejo sensual, as personagens sentem uma
mescla de emoções, uma "tristeza delicada, de quem está
de luto" (1977, 68), que a lembrança do cotidiano evoca e, ao mesmo
tempo, um "sentimento místico, meio alvoroçado, de a1guém
que, de repente, descobriu que sabe voar" (1977, 68), representando-se
o lesbianismo como um espaço de libertação e satisfação
pessoal e sexual para o sujeito feminino.
Também no conto de Sonia Coutinho, "Fátima e Jamila",
o desejo homossexual entre mulheres manifesta-se como um espaço alternativo
que isola e une as duas personagens do título, apartando-as do espaço
maior do desejo e do poder masculino. Este aparece claramente descrito na primeira
parte do conto:
Sentado à cabeceira da mesa comprida armada na varanda dos fundos, benevolente
e soberano como um chefe patriarcal, o Marido presidira o encontro de Homens
em Trajes Escuros e as mulheres de cabelos em penteados altos, roupas volumosas
enfeitadas com rendas e jóias em demasia: dignos rcpresentantes da Nobreza
Colonial Extinta, exibindo um antigo luxo trazido em caravelas de Portugal (Coutinho,
1994, 132).
O uso das maiúsculas, recurso bastante usado por Coutinho, apresenta
a ordem social dominante sob uma ótica crítica, ao mesmo tempo
em que a caracteriza como uma mentalidade colonial anacrônica. Essa realidade
vai servir de pano de fundo ao espaço íntimo que se vai estabelecendo
entre as duas protagonistas; é como se o foco de uma câmera cinematográfica,
depois de um "establishing shot" em que apresenta o contexto social
da ação narrativa, fosse se fechando pouco a pouco até
enfocar exclusivamente as duas mulheres. Entretanto, a ação propriamente
dita é quase inexistente e, sob este aspecto, o conto de Coutinho é
menos explícito quanto à manifestação do desejo
homossexual das duas personagens que o de Van Steen. Não há, por
exemplo, nenhuma referência a carícias on qualquer outro contato
físico. O texto, entretanto, está carregado de um erotismo pujante
que se constrói pelas e nas próprias palavras. O erótico
reside, antes de mais nada, no próprio texto, nas palavras cheias de
sumo, de odores, de vida própria, excessiva, que conotam languidez e
sensualidade. Veja-se um exemplo:
A brisa vinda do mar, lá longe, espalha pela sala o aroma pesado das
frutas empilhadas nas cestas [...]: umbus cuja acidez termina em doçura
final dissolvendo-se na boca, bananas pontudas e recurvas como adagas, mangas
rosadas cabendo na mão feito seio ovalado e cujo grosso caldo amarelo
escorre pelo queixo, cajus quase púrpura, o travo das pitangas (Coutinho,
1994, 131-32).
Coutinho constrói um cenário que apela para todos os sentidos,
inclusive o sonoro, combinando palavras que ora evocam lugares exóticos,
ora alongam-se sensualmente no "espreguiçamento" fonético
da aliteração e das proparoxítonas (por exemplo, "a
requintada pourriture do Tokay"; "sabores aveludados e sépidos";
"As sombras já se alongam entre os troncos dos flamboyants e das
acácias"; etc (1994, 133). Vale lembrar aqui o comentário
de Sylvia Molloy, que afirma:
Women's eroticism appears to express itself in forms more diverse [...] than
the primarily sexual. [...] What one often finds in women writers, in terms
of erotic desire, is a slippage from sex to text: the text itself is an erotic
encounter in which the poet [or the writer] makes love to her words. [...] Not
limited to the physical body, and certainly not repressing it, desire in these
cases extends to the body of writing (1991, 120).
Coutinho utiliza a linguagem para construir um cenário altamente sensual
ao que concorrem também imagens e metáforas, tais como a orquídea
que Fátima colhe entre as frutas na mesa. A orquídea, símbolo
da sexualidade feminina, aparece aqui detalhadamente descrita por Fátima,
que conclui: "As flores são hermafroditas" (1994, 133). Tal
afirmação sublinha a presença dos símbolos sexuais,
masculinos e femininos, presentes no parágrafo citado anteriormente e
de outros que vão aparecer mais adiante.
A narrativa continua a enfatizar a qualidade excessiva dos objetos que compõem
o cenário - o calor, o ar pesado, os cheiros, a vegetação
exuberante - e que reflete o caráter excessivo da sexualidade feminina:
"o ardor maduro do corpo de Fátima era o do excesso de sumo que
precede a decomposição" (1994, 135). A sensualidade do cenário
entretece-se com as poucas descrições fisicas de Fátima
(Jamila aparece somente de costas e na penumbra), seus poucos gestos misteriosos,
e com as histórias de amor e sedução que ela narra à
companheira, para armar então a cena-chave de sedução:
"Quem você vai enfeitiçar, desta vez?" pergunta Jamila.
A resposta encontra-se, novamente, não no plano do actante mas sim no
plano textual, condensando-se o desejo homossexual em uma série de imagens
dispostas metonimicamente:
Como se repentino o cantor de flamenco rompesse, no grito pungente da saeta,
o silêncio branco/negro de casas caiadas sob o sol vertical do meio-dia--com
estranha inquietação, [...] um arrepio de presságio descendo-lhe
pelos rins, quem sabe a Compreensão, Fátima se voltou e viu o
rosto de Jamila (Coutinho, 1994, 135).
Fátima e Jamila deparam-se assim no ambíguo jogo da sedução,
em que cada uma representa o papel de quem seduz e de quem é seduzida.
O desejo lesbiano coloca ambas na posição de sujeito do desejo,
posição esta, como nos lembra Coutinho nesta e em outras obras
suas, freqüentemente vedada à mulher dentro da ordem sociossexual
dominante.
4. 0 discurso transgressivo de Márcia Denser
Diana Marini, protagonista paradigmática e cínica narradora dos
contos de Márcia Denser, constantemente infringe as regras de comportamento
ao assumir ela o papel normalmente reservado ao homem. Diana é a caçadora
que busca ativamente o prazer pelo prazer;6 não é a mulher passiva
às investidas do homem, nem tampouco a prostituta disponível para
satisfazer os desejos masculinos. Diana busca a satisfação do
seu próprio desejo sexual e para tanto "utiliza a própria
arma do dominador", ou seja, a sedução erótica. Por
essa razão, "o homem, acostumado a 'controlar', vê-se ineficiente
diante dela" (Franconi, 1987, 57). Ao assumir o papel ativo no jogo da
sedução, Diana desestabiliza as relações de gênero
sem, entretanto, chegar a rompê-las: "[...] in the regime of compulsory
heterosexuality, women's power of seduction [ ... ] is the flip side of their
powerlessness as objects of seduction" (De Lauretis, 1994, 155). Diana
caça suas presas sexuais (masculinas) mas suas armadilhas são
os ditos ardis "femininos", porque ela aparentemente se submete aos
homens com quem vai para a cama, embora tenha uma grande consciência crítica
de sua posição, enquanto mulher, frente ao desejo masculino. 0
comportamento sexual de Diana assume uma dimensão subversiva porque ela
se furta a, controle social do corpo feminino e recusa seu lugar no sistema
de procriação e transmissão de valores econômicos
e ideológicos. Entretanto, são as reflexões cínicas
de Diana narradora, assim como o próprio estilo narrativo de Denser,
que desestabilizam o sistema dominante de gêneros porque expõem
criticamente as hipocrisias da sociedade brasileira (em particular de seu vasto
segmento burguês) e problematizam as relações amorosas e
sexuais entre homens e mulheres. A narrativa de Denser torna óbvia a
maneira como os atos mecânicos, o interesse próprio e o gosto pelo
poder impossibilitam a expressão autêntica de Eros.
Denser usa o erotismo para examinar as relações de poder, não
apenas entre homens e mulheres, como também entre indivíduos de
diferentes classes sociais e grupos raciais. Cabe ressaltar, aliás, que
apesar de inverter o sistema de gêneros e adotar comportamentos geralmente
inaceitáveis para a mulher, Diana Marini incorpora muito da ideologia
burguesa preconceituosa, principalmente no que diz respeito às classes
sociais mas também em relação à homossexualidade.
Estes dois aspectos ficam bem exemplificados no conto "Tigresa", em
que a protagonista expressa seu desdém por indivíduos das classes
baixas ("Olhei-o dum jeito de estremecer até os bagos do seu tataravó,
se é que essa gente tem raça. Brotam das lixeiras", 1986,
123-24) e seu incômodo quando confrontada com o desejo de outra mulher
por ela ("Aquele olhar untuoso e apaixonado de odalisca me incomodava",
1986, 132). "Tigresa" é um ótimo exemplo do tipo de
narrativa transgressora característica de Denser, fragmentada, rápida,
caótica, com diálogos suspensos e o encadeamento dos pensamentos
da protagonista, empenhada em sua avaliação apressada e sempre
crítica do outro. Em "Tigresa", que se revela também
um pouco comédia de erros, Diana é convidada por uma fã
inesperada e ardorosa para uma festa. Chamada de "tigresa" pela moça,
Lila, Diana imediatamente assume a máscara da mulher irresistível
e sedutora, o papel da "escritora-ser-superior" cuja representação
o álcool e a vaidade facilitam. O convite dá início ao
jogo de sedução que continuará na festa, no apartamento
de classe média alta dos pais de Lila. Diana vai à festa, convencida
de sua máscara, para descobrir que já outra pessoa havia armado
um jogo de sedução com papéis marcados. Lila é então
quem representa o papel de "tigresa": ela vai (tentar) seduzir Diana,
troca beijos com outra mulher para escândalo de alguns convidados, e seduz,
no sentido de fascinar, a todos os outros presentes. Entretanto, o comportamento
homossexual de Lila não é tanto a expressão do seu desejo
por Diana e pela outra mulher, como é, na verdade, resultado da vontade
de "épater les bourgeois" (Faderman, 1995, 50). Aliás,
Rich lembra que em contextos culturais tais como o brasileiro, nos quais a homossexualidade
feminina permanece "invísivel", o lesbianismo reduz-se às
vezes a um fenômeno das classes altas, onde os comportamentos ditos "decadentes"
são vistos com um misto de fascinação e condescendência
(Rich, 1983, 156, n. 44). Trazer Diana à festa tem assim, antes de mais
nada, a função de marcar a diferença de Lila perante a
família e os amigos.
Ao final do conto há outra vez uma troca de papéis, e de seduzida
Diana passa de novo a sedutora:
[ ... ] Lila segurou-me pelos ombros e debaixo do meu sono e cansaço
percebi outra vez o olhar gorduroso do desejo. Está bem, pensei, eu me
rendo, doce Lila, mas costumo terminar o que começo. Vamos ver até
onde você vai. […] Lila encostou-se melosamente na parede, com infinitos
dengos de sedução. […] Então, calmamente mandei:
- Tira a roupa. […]
- Tira tudo. Se você quer é pra valer, meu bem. Lila engoliu o
riso (Denser, 1986, 135-36).
Diana utiliza as armas de Lila com o mesmo resultado que a outra pretendia
alcançar: se Lila queria viver uma experiência homossexual para
"épater les bourgeois" e demarcar um espaço próprio,
é ela que, como boa filha de família burguesa, sai chocada e mesmo
humilhada da experiência. No entanto, a protagonista afinal assume, não
a máscara de tigresa, mas a pele do tigre que, acossado, acaba ferindo:
"[...] não sei porque, lembrei aquela frase do Emest Hemingway em
As neves do Kilimanjaro a respeito de um tigre que foi encontrado morto, enregelado
entre os cumes cobertos pela neve e que ninguém, ninguém jamais
soube explicar como e por que ele chegou até lá" (Denser,
1986, 136). é Diana, portanto, que marca sua diferença, seu espaço
à parte, sua solidão, dentro do espaço maior da sociedade
burguesa brasileira.
5. Lygia Fagundes Telles e Myriam Campello: "to name or not to name, that
is the question"
Em 1985, quando "A Escolha" sai publicado, o lesbianismo já
não era tema novo para Lygia Fagundes Telles. Em seu primeiro romance,
Ciranda de pedra (1954), Telles já abordava o tema de maneira aberta,
embora refletindo os preconceitos sociais dominantes então. Na obra,
a personagem Letícia, depois de um amor heterossexual frustrado, passa
a seduzir moças mais jovens para logo se apaixonar pela protagonista,
Virgínia. Numa cena em que as duas se beijam e Letícia propõe
a Virgínia que vá morar com ela. Apesar de avançada para
a época, a obra apresenta a homossexualidade de Letícia como um
"mal" que ela causa a si mesma e às outras moças. Sua
identidade homossexual aflora como conseqüência de uma desilusão
com um homem e a própria Letícia assume uma posição
masculinista em relação a suas amantes. Quase vinte anos depois,
em As meninas (1973), Telles procura apresentar uma visão mais natural
do lesbianismo, embora a experiência homossexual seja agora quase um acidente
na vida da personagem. Lião, uma das três protagonistas, tem sua
primeira experiência sexual com outra moça e essa iniciação
é caracterizada como uma etapa no processo de crescimento da jovem, um
fenômeno passageiro, num processo de desenvolvimento que levará
a mulher à "normalidade" heterossexual.7
Enquanto que nessas obras Telles aborda o tema sem subterfúgios, é
em contos como "A Escolha" que o lesbianismo ocupa verdadeiramente
o centro da narrativa, determinando inclusive a própria construção
do texto. Neste conto a autora problematiza a representação textual
e social do sujeito e do desejo lesbianos, realizando aqui o que Foster, em
outro contexto, caracterizou como um procedimento de "[textualizing] [...]
the problems of writing about a subject that cannot be satisfactorily accommodated
within the dominant discourse" (Foster, Gay and Lesbian, 1991, 141). A
solução que Telles encontra para esse problema de representação
reflete a posição "invisível" da mulher 1ésbica
na sociedade brasileira, cuja existência, em geral, ou é reconhecida
através de expedientes irônicos que não a nomeiam ou é
acolhida com violência, reduzindo-a à condição de
prostituta e promíscua (Miccolis, 1983, 89-90). Para expor no plano textual
esses dois modelos sociais de representação do sujeito e do desejo
lesbiano, Telles os reproduz literariamente utilizando a imagem de rosas vermelhas
para substituir paradigmaticamente o amor de duas mulheres, Gina e Oriana. As
duas, na verdade, encontram-se ausentes do texto, Gina já morta e Oriana
roubada de sua voz, afirmando-se suas presenças somente pelas rosas vermelhas
que Oriana, calada mas teimosamente, deixa no túmulo de Gina. O conto
é narrado por outra mulher, a mãe de Gina, cujas rosas brancas
contrastam e competem com as vermelhas, assim como ela disputa o amor da filha,
mesmo após sua morte, com a amante desta. A narradora "não
confiável" e a não enunciação da homossexualidade
de Gina e Oriana estruturam a ambigüidade tão a gosto da autora.
Narrado pela voz hostil e ciumenta da mãe, o relacionamento de Gina e
Oriana vai situar-se no espaço oculto do quarto de portas fechadas e
vozes abafadas. A perspectiva materna oferece uma visão ambígua
da filha, "dissimulada" e "inocente" ao mesmo tempo (Telles,
1985, 13, 1), e vil de Oriana ("voce é suja", 1985, 129), enquanto
que o amor entre as duas, na imagem das rosas vermelhas, representa-se pelo
excesso que socialmente caracteriza a sexualidade lesbiana. As rosas que a amante
deposita Para Gina são "vermelhonas, completamente desabrochadas
[ ... ] deslavadas ao sol, quase obscenas de tão abertas" (1985,
129). Contrastando com o excesso do "vermelho-negro" (1985, 129),
o branco das rosas da mãe representa o discreto, o comedido, o socialmente
aceito.
Colocada entre as duas, Gina é violentamente forçada a uma definição,
num confronto que reproduz a violência com que a sociedade pode tratar
a mulher lésbica: "[...] de repente comecei a gritar, batendo com
os punhos nos joelhos" (1985, 131); "Faça o que quiser, vá-se
embora com Oriana ou fique comigo, a decisão é sua, tem todo o
direito de escolher" (1985, 133). A mãe empresta voz à ideologia
dominante ao tentar controlar a sexualidade da filha. Gina, entretanto, não
escolhe nenhuma das duas opções que a sociedade, na figura da
mãe, lhe impõe, e nem assume a marginalidade social da mulher
lésbica, nem renuncia a seu amor por outra mulher: "Me lembrei de
tanta coisa, tanta mas em nenhum instante me ocorreu que além das opções
que lhe ofereci havia uma terceira. Que ela escolheu em surdina, fechada lá
no seu mundo secreto" (1985, 133). 0 suicídio aparece assim como
única resolução possível para o conflito em que
a sociedade a lança. É, contudo, uma resolução novamente
ambígua, expressão tanto da agência e autoridade da mulher
lesbiana como de sua mudez, ato de silêncio que a retorna à invisibilidade
a que a sociedade a confinou.
Myriam Campello, por sua vez, em "A mulher de ouro", responde de
modo bastante distinto à questão da (in)visibilidade do sujeito
e do desejo lesbianos na sociedade brasileira e de que modo nomeá-los
quando se tem como recurso um sistema sociolingüístico inadequado
para tal. Ao contrário de Telles, que lança mão do próprio
código social discriminatório ao tratar o tema do lesbianismo
sem chegar a nomeá-lo, Campello força a abertura de um espaço
para o sujeito lesbiano, enunciando desafiadoramente o desejo homossexual feminino.
Ao fazê-lo, atreve-se a anunciar uma nova ordem, na qual a homossexualidade
terá lugar reconhecido:
Aqui uma nota: Proust esperou até que a mãe morresse para poder
dizer as coisas. Mas a minha está viva e terá que agüentar.
Paciência, mamãe. Sei que tem vizinhos, parentes e amigos, mas
a verdade queima, louca para sair. Além disso é bom ir se acostumando,
gente fresca o lobo vai comer e lamber os beiços nesta década,
para mim está claro como água (Campello, 1984, 59).
De novo a figura materna encarna a ideologia dominante contra a qual a mulher
homossexual tem que se rebelar para afirmar sua verdade - sua sexualidade -
recusando o pacto de silencio estabelecido. Enunciando ostensivamente seu desejo
sexual por outra mulher, a protagonista-narradora de Campello antecipa-se com
muito sarcasmo a qualquer reação negativa que a sociedade (a mãe,
os vizinhos, os parentes, quem sabe o leitor) pudesse expressar: "Oh, Senhor,
o que fazer desse desejo? E, oh, Senhor, uma mulher!" (1984, 61). A enunciação
inequívoca da sexualidade lesbiana, o humor e o sarcasmo são as
estratégias narrativas utilizadas pela autora para dar ao sujeito homossexual
feminino o espaço que lhe é devido.
Em a "A mulher de ouro", a protagonista-narradora conta como, após
ter saído "do último casamento" (1984, 60), conhece
em uma discoteca a mulher do título. O desejo lesbiano, no entanto, não
é caracterizado como consolo para um amor heterossexual frustrado. Na
verdade, Campello cria uma protagonista consciente de sua sexualidade, uma mulher
que já viveu experiências tanto homossexuais como heterossexuais,
ilustrando assim a idéia, encontrada em Foucault, Rich e mesmo em Freud
(De Lauretis, 1994, xiii, 4, 1), de um "continuum sexual" no qual
a homossexualidade e a heterossexualidade aparecem como expressões possíveis
da sexualidade humana. Entretanto, o conto privilegia claramente o desejo lesbiano,
enquanto critica as relações dominantes de gênero e o casamento
firmado sobre "séculos de herança medieval, amor eterno,
babaquices lançadas sobre [a mulher] [...]" desde que nasce (Campello,
1984, 60).
Desiludida afinal com as falsas promessas do amor romântico (heterossexual),
a protagonista decide buscar "uma fórmula de contato humano"
que não a aprisionasse (50), não a submetesse, uma relação
não-hierárquica, entre iguais, e o desejo lesbiano acena com essa
possibilidade. Com a "mulher de ouro" ela vive uma relação
idílica de plena satisfação sexual, livre de vínculos
sociais: "Não lhe perguntava nada. Mal sabia seu nome, evitando
por minha vez lhe dar informações que penderiam incômodas"
(1984, 63). 0 idílio, entretanto, chega ao fim quando a amante pronuncia
a palavra proibida: "num momento de selvagem doçura a mulher de
ouro [...] me olhando nos olhos disse que me amava. [...] Foi nossa última
noite. Não quis mais vê-la" (1984, 63). Para a protagonista,
a declaração de amor da outra mulher evoca conotações
de posse, submissão e hierarquia, comuns no amor heterossexual, c ela
opta pelo rompimento, embora o final do texto sugira que tal opção
é feita à custa do seu amor pela outra mulher.
"A mulher de ouro" acaba sendo uma história de amor lesbiano,
tão romântico como uma história de amor heterossexual poderia
ser. O que cabe ressaltar neste conto, no entanto, é a representação
do amor homossexual entre mulheres como possível e natural, e do sujeito
lesbiano como qualquer mulher, de qualquer grupo social ("Ela era diferente
de mim. Simples, tímida, trabalhava em qualquer repartição
do governo", 1984, 59). Ao lado do sarcasmo com que desafiadoramente Campello
tira o sujeito lesbiano da sua invisibilidade e silêncio, observa-se também
a preocupação de criar uma linguagem adequada para reproduzir
da maneira a mais autêntica possível a vivência da mulher
homossexual, em particular suas experiências sexuais e eróticas:
[ ... ] uma febre oceânica me devorou, uma tempestade me comeu, toda
a mitologia hindu visitava meus desvãos solitários enquanto Brahma,
Vishnu e Siva corriam pelos nervos de raiz à mostra, o que era, Senhor,
esse olho de tufão me empurrando pra fronteiras tão longínquas
que eu nem sabia existirem. [...] e não eram só os orgasmos tremulando
por meu corpo como carrilhões de catedral que me conduziam a essa perplexidade
de prazer, era o espaço perfeito deixado por seu rastro na minha alma,
uma anulação tão grande na plenitude que me vi à
beira do êxtase religioso (Campello, 1984, 61-62).
Campello alterna passagens eróticas como esta a trechos de muito humor
em que se antecipa a uma possível reação negativa por parte
do leitor frente ao erotismo lesbiano: "imagino que deva haver alguém
na distinta platéia que se questione aflito, mas o que podem fazer duas
mulheres juntas? Respostas para o Ministério da Educação"
(1984, 62). A combinação desses dois registros lingüísticos,
o erótico e o humorístico, sublinha o que parecem ser as intenções
da escritora neste conto e, aliás, em outras obras suas: a abertura de
um espaço narrativo onde seja possível a afirmação
da identidade e sexualidade lesbianas e a criação de um discurso
erótico feminino independente do desejo masculino e, concomitantemente,
a conscientização do público leitor, preparando-o para
a nova ordem social que ela anuncia.
*****
Examinaram-se aqui cinco contos de escritoras brasileiras contemporâneas
em que o desejo homossexual feminino ocupa uma posição central
na narrativa, chegando a determinar a construção formal do relato.
Apesar de o modo de representação do desejo lesbiano diferir nestes
contos, em todos ele se apresenta como um locus que permite à mulher
o exercício de sua subjetividade, abandonando ela aposição
de objeto passivo ao qual tem sido limitada dentro do sistema dominante de gêneros.
Desse modo, o lesbianismo não só abre um canal para a expressão
autêntica do erotismo feminino como serve também para realizar
uma crítica às relações heterossexuais hierárquicas.
As estratégias narrativas utilizadas per Edla van Steen, Sonia Coutinho,
Márcia Denser, Lygia Fagundes Telles e Myriam Campello vão desde
a sugesão e a ambigüidade até o humor e a enunciação
clara do sujeito e do desejo lesbianos. Nem sempre explícitos, estes
contos exigem às vezes uma leitura "queer" que afirme aquilo
que aí se acha presente mas não se nomeia: o desejo homossexual
feminino. O conto de Telles é, talvez, o que melhor textualiza esse problema,
ao trabalhar literariamente com um código cultural que torna o sujeito
lesbiano socialmente invisível. De maneira semelhante, as narrativas
de van Steen e Coutinho armam-se sobre esse paradoxo, dando representação
ao erotismo lesbiano sem, contudo, dar-lhe nome. Coutinho, aliás, escreve
em "Fátima e Jamila" passagens de grande sensualidade e erotismo,
numa expressão do erótico que transcende o puramente sexual para
permear o textual. Também Campello trata de criar uma linguagem adequada
à representação das experiências de vida -sexuais
e não sexuais - da mulher 1ésbica. 0 conto de Denser, por sua
vez, caracteriza-se como um discurso transgressivo que rompe e subverte o sistema
dominante de gêneros; através da visão pessoal de sua protagonista,
Diana Marini, a autora denuncia as práticas discursivas discriminatórias
da homossexualidade feminina ao mesmo tempo em que expõe a apropriação
do lesbianismo pelas classes burguesas brasileiras, que fazem daquele uma marca
de diferença, quase se poderia dizer, um "símbolo de status".
Apesar das diferenças aqui verificadas, que respondem às diversas
definições teóricas do lesbianismo na literatura, estes
cinco contos exemplificam a construção de um espaço literário
que afirma um lugar para a subjetividade lesbiana, um espaço onde tanto
o personagem lésbico quanto outros personagens femininos podem vivenciar
ativamente sua sexualidade e seu desejo (Farwell, "Lesbian Narrative",
1995, 157). É portanto a criação desse espaço e
a centralidade do desejo lesbiano nestas obras que permitem inseri-las em uma
tradição lesbiana na literatura brasileira de autoria feminina.
NOTAS
1 Este ensaio foi publicado originalmente na Revista Iberoamericana, v. LXV,
n. 187, abril-junho 1999: p. 405-421.
2 Ver, por exemplo, o poema "Impressões do gesto" (Mulher
nua, 1928) de Gilca Machado, que expressa o desejo lesbiano ao representar o
prazer sensual da voz poética feminina despertado por outra mulher; Queiroz,
no romance As três Marias (1939), faz referência às "amizades
viciosas" entre as intemas e as órfãs do colégio;
e, segundo indicação de Earl E. Fitz, já no primeiro romance
de Lispector, Perto do coração selvagem (1944), a protagonista
contempla a possibiliclade de ter una relação homossexual. Lispector
volta a abordar o lesbianismo em contos como "A solução"
(de A legião estrangeira, 1964), "O Corpo" (de A via crucis
do corpo, 1974) e em A hora da estrela (1977).
3 A bibliografia sobre o assunto é extensa mas poder-se-iam ver a respeito,
entre outras, as seguintes obras: "The Laugh of the Medusa" (1975)
e outros ensaios de Hé1ène Cixous; "Stabat Mater" (1986)
de Julia Kristeva; e The Practice of Love (1994), de Teresa de Lauretis.
4 Diz Catherine Stimpson em "Zero Degree Deviance" (1981): "[A
lesbian] is a woman who finds other women erotically attractive and gratifying.
Of course, a lesbian is more than her body, [...] but lesbianism partakes of
the body [...] That carnality distinguishes it from gestures of political sympathy
with homosexuals and from affectionate friendships in which women enjoy each
other, support each other" (1981, 301). Enquanto que uma definição
categórica do sujeito não se adequa ao contexto cultural brasileiro,
o que me parece válido na proposição de Stimpson é
que ela exclui as simples demonstrações de amizade ou apoio político
entre mulheres. De qualquer modo, as categorias são sempre insatisfatórias
e pecam pela rigidez. Deve-se lembrar, neste sentido, as palavras de Herbert
Daniel: "A homossexualidade não se fecha numa definição,
nem mesmo pode ser reconhecida como objeto definível. É simplesmente
uma forma de viver a sexualidade" (1983, 52).
5 É comum nas culturas ocidentais a noção do corpo feminino
como excessivo, porque é de seu caráter exceder, expelir, lançar
para fora (secreções, a menstruação, o parto etc),
e é esse excesso que o discurso dominante procura controlar de várias
formas (Foucault, 1990, 104 e seguintes). O corpo lesbiano seria então
duplamente excessivo porque "[it] exceeds [the genderl system by being
what the system constructs as the ultimate threat: a female body, a woman's
sexuality, independent of the male" (Farwell, "Lesbian Narrative",
161).
6 A intencionalidade do nome da personagem, que se anuncia no título
do livro, Diana Caçadora, já foi observada pelos críticos,
entre eles Rodolfo Franconi (1987) e Susan Quinlan (1991).
7 Observações semelhantes são feitas por Pratt (1981,
97) sobre romances anglo-americanos publicados antes de 1970, e por Foster sobre
O Cortiço (Sexual Textualities, 2).
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