Resumo: O ensaio procura determinar a que fase pertencem grandes autoras dos séculos XIX e XX da literatura brasileira a partir das definições sobre literatura de autoria feminina propostas por Elaine Showalter em A literature of their own: sendo feminine, uma fase de imitação dos valores masculinos patriarcais, feminist, uma fase de busca de autonomia jurídica e política, e fe(male), uma criação de valores e uma busca da identidade. A partir daí, a autora estuda as obras de Maria Firmina dos Reis, possivelmente a primeira romancista brasileira, Carolina Nabuco, e, no século XX, Lya Luft, Patrícia Bins, Adélia Prado, Sonia Coutinho, Márcia Denser e Clarice Lispector - que abre a fase de afirmação da voz "fêmea". Texto: Narrativa de autoria feminina na literatura
brasileira: as marcas da trajetória
Elódia Xavier
Universidade Federal do Rio de Janeiro
A constatação da existência da autoria feminina configurando
uma produção literária, que se estende do século
passado até hoje, nos instiga a apontar os rumos desta trajetória,
enfatizando, concomitantemente, as marcas do percurso. Elaine Showalter, em
A Literature of Their Own: British Women Novelists from Brontë to Lessing,
afirma que: "Many other critics are beginning to agree that when we look
at women writers collectively we can see an imaginative continuum, the recurrence
of certain patterns, themes, problems, and images from generation to generation."
1 É o que ela chama de "female literary tradition", sem que
isto implique em nenhuma forma de essencialismo; Showalter está interessada
em investigar "the ways in which the selfawareness of the woman writer
has translated itself into a literary form" 2, não perdendo de vista
as transformações sofridas através dos tempos. É
esta perspectiva historicizante e culturalista que vai nos orientar no presente
trabalho.
São três as etapas apontadas por Showalter no percurso literário
que compreende as obras de autoria feminina entre 1840 até por volta
de 1960, tendo a cultura dominante como referencial. A primeira, que ela chama
de"feminine", é uma etapa prolongada e se caracteriza pela
imitação: " a prolonged phase of imitation of the prevailing
modes of the dominant tradition, and internalization of its standards of art
and its views on social roles." 3; a segunda, uma espécie de ruptura,
"a phase of protest against these standards and values, and advocacy of
minority rights and values, including a demand for autonomy"4, denominada
"feminist". E, por último, a fase da auto-descoberta, uma espécie
de "search for identity", a que dá o nome de "female".Não
se trata de categorias rígidas, sendo mesmo possível encontrar
as três, presentes na obra de uma mesma escritora.
Na literatura brasileira, até o presente momento, considera-se o romance
Ursula (1859) de Maria Firmina dos Reis, escritora maranhense, a primeira narrativa
de autoria feminina. Com seu estilo gótico-sentimental, perfeitamente
enquadrado nos padrões românticos, o romance reduplica os valores
patriarcais, construindo um universo onde a donzela frágil e desvalida
é disputada pelo bom mocinho e pelo vilão da história.
Contrariando os finais felizes, a narrativa termina com a morte da protagonista,
vítima da sanha do cruel perseguidor. Júlia Lopes de Almeida,
nascida em 1862 e autora de uma obra vasta e variada, é, ainda, mais
representativa desta fase de internalização dos valores vigentes
e dos papéis sociais. Pertencente à alta burguesia, enquanto Maria
Firmina dos Reis é uma simples professora do interior, Júlia Lopes
constrói sua obra sobre os alicerces patriarcais, sedimentada por rígidas
relações de gênero. As rainhas do lar coroam os finais felizes
deste universo ficcional. Também o romance A sucessora (1934) de Carolina
Nabuco, embora mais elaborado do ponto de vista psicológico, não
escapa do processo de imitação dos valores vigentes, uma vez que
a protagonista resolve seu conflito interior a partir do momento em que se percebe
grávida; é como reprodutora que ela supera o fantasma da primeira
esposa estéril...Ainda estávamos sob o domínio do determinismo
biológico.
Essas autoras ilustram a primeira etapa da trajetória da narrativa de
autoria feminina, na literatura brasileira; elas reduplicam os padrões
éticos e estéticos, mesmo porque elas ainda não tinham
se descoberto como donas do próprio destino. A obra de Clarice Lispector
rompe com esse estado de coisas, pondo em questão as relações
de gênero. Os contos de Laços de família (1960), - o próprio
título é muito significativo -, tornam visível a repressão
sofrida pelas mulheres nas cotidianas práticas sociais. O feminismo já
havia desencadeado um processo de conscientização e a narrativa
de autoria feminina vai incorporar as questões polêmicas contidas
em O segundo sexo (1949) de Simone de Beauvoir. Chamar esta etapa de feminista
não significa dizer que ela é panfletária; ninguém
discute o valor estético da obra de Clarice e, no entanto, ela traz nas
entrelinhas uma pungente crítica aos valores patriarcais.
O mesmo acontece com a obra de outras tantas autoras desse período que
se estende, aproximadamente, até 1990. Vamos nos deter em quatro dessas
autoras, embora nossa vontade fosse falar de todas elas, tal é a qualidade
estética e a força criativa que apresentam.
Patrícia Bins, carioca de nascimento, vive há muitos anos no
sul do país, onde vem escrevendo desde 1968. Seus romances, marcadamente
intimistas, narram sempre o drama existencial de uma mulher. Estas personagens
femininas são flagradas num determinado momento de sua trajetória:
o mundo a sua volta perde o sentido, o vazio se instala e elas, através
da regressão ao passado, se despojam das máscaras sociais num
auténtico processo de individuação. A psicologia junguiana
pode nos ser muito útil na leitura destes textos. Ana, protagonista de
Antes que o amor acabe (1984), ao se dar conta do automatismo de sua vida, dá
início à trajetória que a levará à descoberta
do self. Passo a passo se processa o desvestimento da persona, atingindo, no
final, a totalização psíquica e a integração
com a natureza. A situação social da personagem - meia idade,
casada, classe média - tem importância na medida em que representa
condicionamentos impostos por práticas sociais.A inadequação
a esses papéis gera o desequilíbrio e a busca de uma solução,
que só será eficaz se levar à descoberta da identidade
existencial. Embora o romance termine apontando para uma situação
plena, os dois pontos finais indicam que nada é definitivo.
A contestação aos valores patriarcais se revela, em Lya Luft,
de forma densa e dramática. A obra desta autora gaúcha, centrada
sobretudo na década de 80, tematiza o drama da mulher, educada dentro
de rígidos padrões moralistas; como geralmente ocorre com as narrativas
de autoria feminina, percebe-se, aqui, o cunho autobiográfico, uma vez
que a autora é descente de alemães, vivendo numa sociedade conservadora.
Sua obra compõe um universo feminino marcado pela loucura, pela doença
e pela morte. O lúdico e o grotesco desvendam os absurdos de uma sociedade
repressora e injusta, onde a mulher é sempre perdedora, o lado fraco,
o lado esquerdo; no grande jogo da vida, a mulher, vítima da rigidez
das relações de gênero, busca através da arte a sublimação
de seus conflitos; as protagonista, quase sempre sujeitos da enunciação,
se projetam especularmente na escrita, buscando sua identidade existencial.
Em Exílio (1987), a personagem, marcada por uma infância sofrida
e mal amada, vive num mundo povoado de fantasmas, alijada do convívio
de sua família; longe do filho e do marido infiel, ela se exila na "casa
vermelha", purgatório dos transgressores, aguardando um recomeço.
Frustrada em sua esperanças - o amante tem um filho excepcional que ela
não consegue suportar - , a crise existencial se agrava provocando um
mergulho mais profundo em busca de soluções vitais. Penetra, então,
na "floresta"- metáfora da mãe suicida -, tentando o
desvendamento dos enigmas que a atormentam. O final não aponta para uma
situação definida - "Talvez eu não consiga chegar
em casa. Talvez chegando, não possa ficar. Quem sabe"(p.201), mas
a personagem se encontra através da escrita, indiciando a solução
dos conflitos interiores.
São várias as formas de contestação aos valores
patriarcais assumidas pela narrativa desta etapa. Com Márcia Denser,
escritora paulista, ela assume um caráter violento e mordaz. Seu único
livro, Diana Caçadora (1986), é uma coletânea de pequenas
narrativas cuja disposição é significativa na medida em
que torna visível a crescente degradação da protagonista.
Trata-se da trajetória de uma mulher de aproximadamente trinta anos,
jornalista inteligente e liberada, que busca se encontrar através de
relações efémeras e ocasionais.Da parceria com intelectuais
à situação limite vivida em "Relatório final",
Diana percorre caminhos que a levam, sistematicamente, ao abandono e à
solidão. A ironia é seu recurso contra o sistema que a quer devorar
e são poucos os momentos em que, com extrema lucidez, reconhece melancolicamente
sua trágica fatalidade. A figura do analista está sempre presente,
como marca de uma cultura desprovida da autoridade familiar e religiosa. Os
papéis sociais, porém, continuam definidos, exigindo opções;
por isso, o analista aconselha - "ou escreve ou lava fraldas". Diana
evita relações duradouras com medo da dependência emocional
e a idéia de se submeter aos desmandos de um cônjuge lhe é
insuportável. Na sua fome e voracidade, de caçadora torna-se caça
e, lograda e insatisfeita, é usada violentamente pelo sistema.
Outra autora que, em sua contestação feminista, mantém
a tensão de forças antagônicas, é Sônia Coutinho,
de origem baiana mas vivendo no Rio de Janeiro desde de 1968. Este afastamento
da cidade natal e, consequentemente, dos laços familiares e do contexto
provinciano, é elemento estruturante de sua obra, constituída
de contos e romances. A temática da mulher madura, sozinha na cidade
grande, tentando realizar seus sonhos e viver a vida em sua plenitude, é
uma constante. O ambiente redutor da cidade pequena não satisfaz a personagem,
que busca em Copacabana a realização de seus sonhos. O resultado
é uma série de casamentos desfeitos, relações frustradas
, amargura e solidão. No conto "A liberdade secreta", a protagonista
se questiona - "a tirania do mundo é pior do que a dos pais?"(p.128)
. Basicamente, é esta a situação dramática do romance
Atire em Sofia(1989), narrativa nitidamente pós-moderna. Aqui, a protagonista,
depois de quinze anos afastada de suas origens, retorna para ver as filhas e
os amigos; o retorno tem um desfecho trágico, pois acaba assassinada
pelo amante. A obra de Sônia Coutinho é bem representativa da crise
da mulher numa sociedade que, até então alicerçada pelos
valores patriarcais, vê-se, nos anos 80 à mercê de grandes
transformações. A cisão de que são vítimas
estas personagens coincide com a crise do discurso feminista: dividida entre
viver seu "destino de mulher"e realizar sua "vocação
de ser humano", ambição esta tornada possível graças
à revolução dos costumes, a mulher busca uma solução
para sua plenitude existencial. Os encargos profissionais assumidos não
a liberaram dos deveres domésticos; e, como as conquistas são
recentes - vivemos um momento de transição -, os laços
de família ainda prendem a mulher a um espaço, que a sua ânsia
de transcendência recusa. Daí, uma certa nostalgia do tempo das
avós, aquelas tranquilas senhoras que tão bem desempenhavam seus
papéis de esposa/mãe e dona de casa, protegidas pelas vetustas
paredes do lar. As protagonistas de Sônia Coutinho vivem esse impasse:
não aceitam as regras do jogo, porque sufocantes e repressoras; querem
viver plenamente e acabam, por isso, condenadas à solidão e até
mesmo à morte.
A narrativa de autoria feminina dessa fase se estrutura em torno das relações
de gênero, tornando visíveis as assimetrias sociais. Se, em Patrícia
Bins, a trajetória das personagens as leva ao autoconhecimento, através
da individuação, o processo é doloroso e exige o abandono
de todas as máscaras; não se trata de uma vitória, porque
as narrativas terminam em dois pontos. Com Lya Luft, o trágico e o grotesco
se articulam para desvelar as regras desse jogo sujo, onde a mulher é
sempre perdedora. Márcia Denser tenta subverter essas regras, criando
uma personagem caçadora, que acaba, porém, caçada e degradada;
enquanto Sônia Coutinho desloca suas protagonistas no espaço em
busca de uma realização que não se dá, porque se
o esquema tradicional é sufocante, a liberação não
satisfaz. É um beco sem saída...
Algumas narrativas da década de 90 apontam para uma saída, configurando,
talvez, uma outra fase, a que Showalter chama de "female", marcada
pela construção de uma nova identidade. O termo "female",
contrapondo-se a "male", afasta-se da representação
de gênero, uma vez que remete unica e exclusivamente ao dado biológico.
Enquanto "feminine" é um termo gendrado, "female"
significa tão somente do sexo feminino. Isso importa na medida em que
algumas narrativas não fazem mais das relações de gênero
a origem dos conflitos e indiciam a construção de uma nova identidade
liberta do peso da tradição.
Adélia Prado, mais conhecida como poetisa, é autora de quatro
narrativas sendo a última, O homem da mão seca, datada de 1994,
enquanto as demais são da década de 80. As protagonistas, sempre
mulheres, vivem crises existenciais, em busca de uma plenitude inalcançável;
casadas, com filhos, cujos maridos - figuras inteiras, sem conflitos - contrastam
com o dilaceramento interior das protagonistas. A trajetória de Antonia,
personagem de O homem da mão seca, é indiciada pelas epígrafes,
quase todas bíblicas, que abrem os vários segmentos da narrativa.
As três primeiras são tiradas do Livro de Jó e remetem,
a primeira à origem da crise, através da imposição
da lei de Deus ("Guarda-te de declinar para a iniquidade e de preferir
a injustiça ao sofrimento"); a segunda à falta, à
carência que se instala na personagem ("Por ventura orneja o asno
montês, quando tem erva? Muge o touro junto de sua forragem?"); e
a terceira à opressão que paralisa a personagem ("Pois estou
cheio de palavras. O Espírito que está em meu peito me oprime.")
De forma significativa, a quarta epígrafe é de Camões ("O
vivo e puro amor de que sou feito/ como a matéria simples busca a forma."),
sugerindo a busca da unidade, da forma ideal, que será encontrada, no
último segmento que se abre com uma epígrafe, inspirada em Guimarães
Rosa ("Toma filha de Cristo, senhora dona:/ compra um agasalho para essa
que vai nascer/ defendida e sã e que deve de se chamar apenas/ Felícia
Laudes Antonia"). De fato, opera-se o batismo de uma nova Antonia, no início
chamada Antonia Travas Felícia Laudes e, agora, destravada e feliz, como
a epígrafe sugere. Operou-se o milagre indiciado pelo título do
livro, episódio bíblico narrado pelos evangelistas Marcos, Mateus
e Lucas.
A Sentinela, de Lya Luft, também de 1994, á ainda mais significativa
como representação de uma nova identidade feminina. Isto porque
seus cinco romances anteriores, todos da década de 80, constroem um universo
absolutamente sufocante, onde a mulher é sempre perdedora. Embora apontem
para a decadência do patriarcado, as protagonistas continuam enredadas
no contexto familiar, que destrói qualquer forma de realização;
a lei do pai ainda dita as regras do jogo social, restanto às personagens
femininas a acomodação aos papéis impostos. A ruptura é
punida com a marginalização e o exílio. Nesses romances,
a família, representada como instituição falida e fonte
geradora de conflitos e repressões, é, tragicamente, o beco sem
saída.
São os mesmos os ingredientes que compõem o universo ficcional
de A Sentinela; a protagonista, vítima do desamor e de perdas trágicas,
se enreda nos fios da memória, mas consegue, desfazer os nós e
encontrar os "rumos".Embora viver seja - "subir uma escada rolante...pelo
lado que desce. A gente passa a vida toda fazendo uma força danada para
chegar mais alto, para onde nos impelem esperança, desafios, sonhos.
Mas lá de baixo nos chamam o cansaço, a solidão, a doença,
a loucura...a morte. Esta, no fim, vai vencer".(p. 156-7) - a narrativa
aponta estratégias para enfrentar este destino. As perdas se diluem na
autoconfiança que a protagonista adquire através de seus teares,
tecendo uma nova identidade não mais sujeita às relações
de gênero. No presente da enunciação, ela declara: "Estou
bem, como se retivesse nas mãos as rédeas de mim, observando sem
espanto os trechos a percorrer."(p.30) A arte, tecendo palavras, fios,
sons, é a única capaz de enfrentar a vigilância mortal da
"sentinela".Nora, a protagonista, descobre no fazer artístico
- inaugura uma tecelagem - o caminho para a construção de uma
nova identidade, onde as relações afetivas - mãe, filho,
amante - perdem o peso relacional, deixando a personagem livre para viver o
mistério, o imprevisto, para ter "a audácia de se jogar"
e de "delirar".
As marcas da trajetória da narrativa de autoria feminina, na literatura
brasileira, revelam sutís diferenças no desfecho das tensões
dramáticas vividas pelas persongens femininas. Seriam estas diferenças
sintomáticas da construção de uma nova identidade feminina
mais livre do peso das relações de género?
Notas
1 SHOWALTER, E. (1986) p. 11-2
2 ibidem p.12
3 ibidem p. 13
4 ibidem p.13
Referências Bibliográficas
1. BEAUVOIR, Simone de. O segundo sexo. Trad. Sérgio Milliet. Rio de
Janeiro: Nova Fronteira, 1980. 2v.
2. BINS, Patrícia. Antes que o amor acabe. Rio de Janeiro: Nova Fronteira,
1984.
3. COUTINHO, Sonia. Atire em Sofia. Rio de Janeiro: Rocco, 1989.
4. DENSER, Márcia. Diana Caçadora. São Paulo: Global,
1986.
5. LISPECTOR, Clarice. Laços de família. Francisco Alve, 1960.
6. LUFT, Lya. A Sentinela. São Paulo: Siciliano, 1994.
7. NABUCO, Carolina. A Sucessora.Rio de Janeiro: Ediouro, s/d.
8. PRADO, Adélia. O homem da mão seca. São Paulo: Siciliano,
1994.
9. REIS, Maria Firmina dos. Ursula. Edição fac-similar. São
Luis: Progresso, 1859.
10.SHOWALTER, Elaine. In: EAGLETON, Mary ed. Feminist Literary Theory. New
York:Basil Blackwell Ltd, 1986.
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