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Resumo: Este ensaio objetiva reler a crônica de Cecília Meireles – “A Casa” – e reabre a possibilidade de que, através da experiência estética e da ferramenta do imaginário, seja possível articular saberes, construir identidades e reconfigurar a relação de distancia entre o observador e o objeto da arte. A referência à obra de Vermeer abre uma releitura da crônica de Cecília no sentido a confrontar as incompletudes do espaço e do tempo que ela nos oferece.
Texto:
O espaço de morar revelado: a Casa vista por Cecília Meireles
MINICURRICULO
Rafael Alves Pinto Junior é arquiteto, formado pela
Universidade Católica de Goiás, e Mestre em Cultura
Visual pela Universidade Federal de Goiás (UFG). Atualmente é
professor do CEFET e doutorando de História pela UFG.
RESUMO
Este ensaio objetiva reler a crônica de Cecília
Meireles – “A Casa” – e reabre a
possibilidade de que, através da experiência estética
e da ferramenta do imaginário, seja possível articular
saberes, construir identidades e reconfigurar a relação
de distância entre o observador e o objeto da arte. A
referência à obra de Vermeer abre uma releitura da
crônica de Cecília no sentido a confrontar as
incompletudes do espaço e do tempo que ela nos oferece.
O ESPAÇO DE MORAR
REVELADO:
“A CASA”, VISTA
POR CECÍLIA MEIRELES
Rafael Alves Pinto Junior
Universidade Federal de Goiás
Em junho de 1947 o jornal A Manhã
publicou na seção “Letras e Artes”, uma
crônica de Cecília Meireles intitulada “A Casa”.
Tendo seu primeiro livro lançado em 1919 – Espectros
– o nome de Cecília Meireles já se ligara ao que
de melhor se fazia na poesia da primeira metade do século XX
no Brasil. E não somente à poesia. Além dela, se
dedicou à prosa em vários gêneros: artigos,
ensaios, conferências, estudos sobre folclore e educação.
Este texto não se propõe a fazer uma análise do
discurso “oculto” no texto de Cecília, entendido
como produto cultural de sua autora; sobretudo quando se coloca este
horizonte como produto de uma experiência estética
intersubjetiva e vista como obra que se completa nos olhos de quem o
lê. A interpretação que proponho, ao rever o
mundo que o texto da escritora revela, é apenas uma entre as
várias possíveis.
Como é facilmente verificável, a linguagem poética
invade de sua prosa. Talvez, não importe delinear os contornos
de uma ou de outra, mas perceber manifestações diversas
da mesma pena, fruto de uma única poiesis.
Dentro do contexto de ruptura e de divisor de águas que o
modernismo construía na literatura e nas artes no Brasil das
primeiras décadas do século XX, Cecília se
distinguiu de seus contemporâneos por recusar tanto uma
identidade nacionalista quanto uma particularidade estética
determinada através de uma ruptura. Colocada numa condição
de “pós-simbolista” por Otto Maria Carpeaux e ao
lado de Drummond e Bandeira entre os grandes poetas vivos daquele
momento, Cecília se distingue através de uma poética
simultaneamente atual e inatual, conforme o colocado por Neto (NETO,
Miguel Sanches, 2001). Trata-se de uma filiação a um
conceito de tempo diverso de seus contemporâneos, desligado de
fraturas estilísticas, arroubos nacionalistas ou afirmações
ideológicas. Para ele:
Não se trata, portanto, de uma “neo-simbolista”
que apenas voltava ao Simbolismo de maneira passiva, mas de uma
autora que parte desse movimento, e do que havia nele de conexões
com o Parnasianismo, rumo a uma arte moderna escoimada de seu
materialismo limitador, fazendo preponderar um desejo de unificação
e não de cisão, de universalização e não
de particularização. E esse desejo se realiza muito
mais pelo desprendimento dos vínculos terrenos, num movimento
de ascensão que lhe dá um olhar mais amplo sobre o
homem e a existência.
Avessa ao sentimento estético separatista, ela se apossa de
uma palavra agregadora, por sentir de forma aguda a fugacidade de
tudo. Afastada do centro da poética modernista, manejando uma
língua intemporal, ela deu continuidade a uma tradição
lírica ibérica, trilhando a contramão dos rumos
poéticos de nossa modernidade, que negou justamente a conexão
com a cultura portuguesa, em nome da afirmação do local
ou por deslumbramento por culturas mais avançadas
tecnicamente. O que é considerado conservador em sua postura
adquire um papel de revolta, de resistência, até hoje
pouco valorizado em nossa cultura afoita demais pelas novidades (op.
cit., p. xxiv-lvi).
Neste sentido, falar em brasilidade expressa na arte da época,
corresponde abordar uma temática constante no cenário
cultural nacional e que diz respeito aos problemas de uma
conceituação de uma cultura brasileira. Como ponto de
partida, entendemos que as práticas artísticas
modernistas – principalmente as relacionadas à
literatura - se revestiram de propriedades capazes de esclarecer
práticas sociais e ideológicas inauguradoras de uma
forma de ordenar, ou ao menos de propor uma unidade cultural.
Sobretudo no que apresenta de imagética.
Vista desta maneira, a conceituação de uma identidade
cultural não deve ser entendida como um conceito fechado, mas
antes como um continuum de resultados transitórios dado
basicamente às suas causas múltiplas e mutáveis.
Desta forma, tornando-se um ponto de referência essencial no
processo de formação da arte brasileira, o modernismo
se afirmou no Brasil através de um processo historicamente
inconcluso, dinâmico e contraditório em sua essência;
e, portanto, problemático e aberto; ainda que em sua primeira
fase até os anos 1930 esta antinomia não seja
consciente.
No panorama do modernismo no Brasil, a obra de Cecília, em
prosa ou verso, não revela nenhum momento de ruptura em termos
profissionais, nenhum ano de conversão à
modernidade, nenhuma guinada abrupta. Sua formação se
deu de uma maneira peculiar, estando intimamente ligada ao seu
percurso biográfico. Neto (NETO, Miguel Sanches, 2001) observa
que será a orfandade, portanto, a circunstância
caracterizadora de uma estética da ascese, lugar geométrico
que a poeta elege como morada. Deste ponto de vista, externo e alheio
é que a autora se coloca ao escrever A Casa. À
compreensão deste ponto de vista é preciso entender os
conceitos de tempo e de espaço revelados pela poeta e de que
nos apoiaremos nesta exposição.
1 – O olhar exterior – a casa vista por fora
Das minhas altas varandas a avistava. E se a notei, foi só por
sua solidão, esse uniforme pelo qual – objetos, animais,
pessoas, - fazemos o nosso reconhecimento. Pensei que seria meu
destino amá-la. E sobre ela pensei algumas vezes, deslizando
como uma pequena mosca pelas suas vidraças insondáveis,
aventurando-me como os esbeltos gatos pelos ângulos do seu
telhado, farejando o desenho secular e pueril das suas cornijas.
Cecília Meireles, de suas altas varandas – reais
ou imaginárias - observa uma casa de esquina, abandonada –
cheio só de silêncios. A autora identifica como seu este
espaço alheio: ainda quando pertençam a outros, para
mim é que foram feitos. Ao lugar exterior atribui o
reconhecimento de suas dispersões em portas, corredores,
escadas e jardins. Aos lugares que não são seus e onde
não se está, se espelha. Ao se colocar no corpo de
outros seres – pequena mosca pelas vidraças, gatos pelos
telhados – faz um primeiro e fundamental reconhecimento, algo
como um tatear através do externo.
Assume sem rodeios sua relação com a distância e
o que ela representa:
Pensei que das minhas altas varandas se inclinava um coração
de amor para a casa solitária, e deixei-me ir vivendo essa
nova ternura; com suas ausências, seu natural impedimento de
distância, e a impossível comunicação. Mas
afinal, aprendemos tanto com os homens a lição da
renúncia que amar uma casa fechada é um pequeno
exercício; e uma casa vazia contem mais sonho e mais resposta
que a maioria das pessoas. Nunca esperei, no entanto, nada mais que
esse meu amor. Porque o amor não precisa mesmo de nada. E até
de certo modo, quando se fortalece muito, começa a excluir
tudo. O amor quer ser sozinho, isento de repercussão.
Visto em sua relação com o espaço, a dimensão
temporal adquire um novo significado. Além
do comprimento, largura e altura - as dimensões espaciais -, o
tempo comparece como um elemento de se estar no espaço. O
verdadeiro sujeito da percepção da arquitetura é
aquele que se coloca no espaço, ainda que do lado de fora como
na Casa.
Ao tempo real da experiência, Cecília contrapõe
uma quarta dimensão temporal simbólica, processada pelo
afastamento em relação ao objeto.
O fato de não entrar na casa, não explorar seus
ambientes internos, não vê-los por dentro, é
significativo. A autora escolhe ficar do lado de fora apesar de nada
indicar um impedimento de se entrar no espaço da casa.
Entretanto, esta não ação desperta na autora os
mecanismos da imaginação e, através da
distância, compõe um espaço de sonho que ela
preenche com ela própria. Não interessava a ela entrar
na casa. A renúncia seria exercitada através da
distância do olhar. O conhecimento do interior, ao revelar o
conteúdo, poderia impedir o espelhamento; e o espaço
que ela compõe não pode ser mensurável ou
definido pelos parâmetros construídos pela arquitetura
do edifício.
Ao se colocar do lado de fora, Cecília cria
uma visão de espaço peculiar, plena de subjetividade,
relacionada com sua noção de tempo. O tempo não
se apresenta em sua condição de passado ou futuro, mas
em sua condição transitória, fugidia. Apesar de
presente, escapável e móvel. Daí seu
encantamento e sua dor. À
imobilidade do objeto físico da casa, a autora identifica uma
ação. Ação de igual intensidade à
sua de observadora e em sentindo contrário. Uma ação
que não é percebida por ninguém além
dela:
Mas um dia a casa tirou todas as suas telhas. E entendi que para mim
as tirava, e que era seu modo de dizer-me “Eu também te
amo.” Era o seu modo de entregar-se. E das minhas altas
varandas vi toda a sua anatomia, suas divisões, suas
passagens, suas claridades, seus descalabros, a mancha dos quadros no
papel das paredes, as pias, os lavatórios, os ladrilhos
amarelos e azuis, o chão com sua geometria, o lugar de comer,
o lugar de dormir, e esse espaço geral de sofrer, que as casas
piedosamente cercam com seus sucessivos regaços.
Metáfora do seu próprio fazer poético, a figura
da casa é instrumento, ela própria, de representação
de um mundo interior absolutamente sensorial. Através desta
“desconstrução” se processa uma revelação
e o interior do objeto passa, mesmo à distância a ser
percebido. A imagem corresponde a um desnudar em que observam novas
cores. Os espaços internos outrora cobertos – e portanto
menos sujeitos às variações da luz –
adquirem novas tonalidades através do sol e da lua. Elementos
naturais que adquirem presença de protagonistas dentro do
espaço contruído.
Esta ação de ruína do espaço
construído, vista e comprendida pelo olhar exterior, é
para a autora o objeto mesmo da percepção, numa ação
que podemos identificar como fenomenológica. O que a poeta
vê – real ou imaginariamente – são dados
absolutos apreendidos em intuição pura. O processo de
desmaterialização do espaço físico
objetiva descobrir tanto as estruturas essenciais dos atos de ver e
imaginar (noesis) quanto as entidades objetivas que
correspondem a elas (noema), para usar uma terminologia tão
cara à fenomenologia.
A experiência propiciada pela distância e pela solidão,
se constitui no habito da habitabilidade, a que se refere Ferrara
(FERRARA, Lucrecia D´Alessio, 1993). Pela vivência da
solidão, a cronista aplica à cidade e aos seus
elementos – as outras casas – o seu modo de habitar e de
ver o seu entorno. A solidão é a lente através
do qual ela faz o uso do seu entorno. Falando sobre a habitabilidade
e o uso do espaço, Ferrara esclarece que:
Na homogeneidade da cidade, o hábito é a sedimentação
de um uso urbano e, ao mesmo tempo, fator de baixa definição
da cidade enquanto fonte de informação; entretanto, é
por este mesmo uso que o homem se apropria do espaço
ambiental, identificando-o e se identificando com ele; é o uso
que dinamiza o espaço e o concretiza como modo de ser de uma
cidade ou de um modo de viver. A cidade adquire identidade através
do uso que conforma e informa o ambiente. O espaço é
informado pelo uso que o transforma em lugar, em ambiente público
ou privado (op. cit., 1993, p. 21).
A poeta não pretende dominar estes
elementos ou suas antinomias, mas transitar por eles mediante uma
experiêcia sensível e imagética. O texto relata
uma experiência que deveria ser o contrário do de se
construir uma memória. Mediante o desfazer, a autora constrói
um sentido. Cria, mediante a ruína da casa, uma experiência
de se estar no mundo. O espaço e o tempo da arquitetura
comparecem como sujeitos de uma metáfora e de uma experiência
poética. No texto, a figura da casa, do espaço
construído, arquitetônico, desempenha a função
de se estar diante de uma obra de arte. Quer como presença ou
como desvelamento, produção do sentido,
experiência do mundo da obra que se intromete e faz vacilar o
mundo daquele que se envolve com ela, como entende Brandão
(BRANDÃO, Carlos A. Leite, 1999, p. 4). Segundo ele, a
existência da obra de arte se afirma na ação de
se produzir um sentido:
Já na sua Poética, Aristóteles estabelece
a verossimilhança e não o vero como o objetivo do poeta
trágico. Propondo a este retratar não “os homens
como eles são” mas “tais como devem ser”,
afora inúmeras outras considerações derivadas
acerca da eticidade original e da função da obra de
arte, o estagirita coloca a necessidade da obra ater-se aos
princípios de unidade tempo, ação e lugar que a
capacita a condensar as ações e concentrar a vida de
modo a que ela, afastando-se da dispersão do contingente,
revele um sentido e promova a catarsis e o auto-reconhecimento
do espectador. E, assim fazendo, ela se vê conferida de sentido
e oferece um conhecimento da verdade que antes se ocultava. Tal
experiência da verdade é o que muda o espectador e,
portanto, é um outro tipo de verdade que se anuncia na obra de
arte e que não pode ser compreendida como adequatio
entre a obra e algo exterior a ela: é a verdade como
desvelamento, produção do sentido, experiência do
mundo da obra que se intromete e faz vacilar o mundo daquele que se
envolve com ela (op. cit., p. 3-4).
Através do espaço revelado pela casa, a autora refuta
qualquer presentificação e desafia a percepção
linear do tempo. Para isso, utiliza o instrumental da poesia que a
permite transpor a noção imediata do tempo e à
concretude da matéria. De dentro de seu invólucro, a
autora cria um mundo pessoal e ao povoar a casa com o “seu”
tempo, dissolve a barreira da distância espacial do que vê.
2 – O olhar interior - a casa vista por dentro
Na história das
artes visuais, a figura de Johannes Vermeer (1632-1675) é uma
das mais fascinantes. Das trinta e seis pinturas atribuídas a
ele – algumas não datadas com precisão até
hoje – apenas duas não são de interiores. Imersas
na representação da vida doméstica, tema
dominante da escola de Delft, sua obra mostra momentos íntimos
do espaço de morar. Rara é a visão de uma rua ou
uma paisagem. Estão ausentes também os retratos, ao
menos na sua concepção tradicional. A luz e a
espacialidade representada em suas vistas exteriores não se
constituem em obras de exceção. Tanto os interiores
quanto os exteriores, favorecem para Vermeer, mais o jogo de luz e
sombra do barroco do que a claridade clássica. As vistas do
espaço construído pelo artista não estão
em oposição às de seus contemporâneos,
como podemos ver nas obras de Pieter
Saenredam (1597-1665), de Pieter de Hooch (1629
- 1684)
e de
Gabriel Metsu (1629-1667).
Imersas no horizonte do desenho barroco, os
interiores de Vermeer, apesar de mostrarem e explicitarem uma forma
ao observador, apresenta-a na incompletude. Conscientemente, o
artista oculta parte dela por detrás de uma cortina, no
horizonte não vislumbrado através de uma janela aberta,
no que está por vir em um corredor, numa encruzilhada, numa
porta entreaberta. A forma representada só pode ser entendida
através desta incompletude, desta parte oculta que sabe-se
presente mas que não se pode ver. Neste jogo reside o
propósito de evitar que a imagem enfocada na tela pareça
legitimada pelas contingências materiais do assunto
representado, como o colocado por Wölfflin (WOLFFLIN, Heinrich,
2000). Tudo parece simples e nada o é, dado que a luz não
se refere à forma, tornado-se ela própria, um elemento
não mensurável. Segundo ele:
O motivo perde a sua evidência, o seu
significado inequívoco; surgem então aquelas tomadas
que não demonstram qualquer interesse pelos objetos, para as
quais a pintura paisagística constitui, sem sombra de dúvida,
um terreno mais propício do que o retrato e os quadros de
cenas ou assuntos históricos. (...) As vistas arquitetônicas
podem ser ricas em conteúdo objetivo, mas devem comportar-se
como se não se preocupassem em nos transmitir determinada
realidade (op. cit, p. 295).
Consideradas em suas
autonomias poéticas, nada liga aparentemente a obra de Vermeer
à de Cecília. A literatura moderna do século XX
no Brasil e pintura Holandesa do século XVII parecem à
primeira vista, separadas por um intransponível abismo. Penso
que não. Falar do espaço da casa é falar de uma
ampla realidade que deve ser vista como complexidade. Além dos
dados expressos por sua materialidade, ele é formado pelas
dimensões simbólicas e imaginárias, dimensões
paralelas traduzidas pela poesia e pela pintura. Entendo que pensar o
espaço da morada é fazer convergir as variadas
dimensões que partem dela ou a ela se sobrepõe. Tanto a
literatura quanto as artes visuais se constituem num instrumental
privilegiado que nos permite compreender o espaço
geral de sofrer
no dizer da cronista.
No contexto da obra de
Cecília, a Casa
(1947)
se situa entre duas obras de fôlego: Mar
absoluto e outros poemas
(1945) e Retrato
Natural
(1949). Frutos do cerne de sua poética e do período
mais tranqüilo e estável propiciado pelo seu segundo
casamento. Em 1951 vai pela segunda vez à Europa. Conhece a
França e os Países Baixos, e da Holanda escreve os Doze
Noturnos da Holanda,
publicados em 1952. Anda pelas mesmas ruas de Vermeer. Através
da figura da noite e do silêncio, compõe um quadro
onírico. Uma noite holandesa – nítida –
envolvia a poeta: “Vem ver o silencio que tece e destece ordens
sobre-humanas e os nomes efêmeros de tudo que desce à
franja do horizonte!” (Doze
noturnos da Holanda.
In: SECCHIN, Antonio Carlos. (Org.). Cecília Meireles. Poesia
Completa. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 2001, p. 709-710).
Envolto no mesmo silêncio que envolveriam Cecília
Meireles, o espaço de Vermeer é concebido pela
distância. Através dela o silêncio unifica,
entrelaça e equaciona tanto pessoas quanto objetos. O mundo
externo, o tempo da natureza e sua realidade não interessa ao
pintor. Desprovido de interesse, ele se dedicou ao mais intimo dos
espaços: o de morar. O pintor constrói um espaço
cuja única intromissão do exterior é a luz e
seus reflexos, sua geometria e sua sombra. A luz revela e fixa as
figuras suspensas em gestos solitários através de uma
intimidade que não se imagina revelada. Uma intimidade que é
medida através da luz, da sombra e da distância, ela
própria espaço.
Ao espaço cartesiano, mensurável,
analítico, Vermeer contrapõe um espaço
subjetivo, construído a partir da geometria visual, mas além
dela. A geometria é a ferramenta da representação
da distância do ser em relação aos seus
sentimentos, que se apresentam ao observador como uma recordação
e não como um fato. À idéia do registro de um
fenômeno o pintor oferece a construção de um
espaço único e mágico. Construção
plena de uma subjetividade íntima que somente seria
reconhecida e valorizada na segunda metade do século XIX por
autores como Marcel Proust (1871-1922).
Os anos entre 1662 a
1667 foram para Vermeer de inspirada produção. Datam
deste período obras importantes como Carta
de Amor
(1667), Mulher
com colar de pérolas
(1664), O
Concerto
(1664) e Lição
de Música
(1662). Em todas elas, podemos entender o espaço pictórico
através da distância que o constitui. A distância
estabelece as relações de quem vê – na
penumbra – e de quem é visto, sob a luz. As ações
desempenhadas pelas figuras – ver uma carta, experimentar um
colar de pérolas, executar ou aprender música –
apenas marcam e referenciam a distância, estabelecendo um
limite à observação. Estabelecem um lugar
próprio que não pode ser invadido senão pela
distância do olhar.
O olhar é o
único instrumento que nos permite entrar neste mundo, mas
respeitando a privacidade a que têm direito seus habitantes.
Vermeer constrói um mundo de sujeitos que devolvem aos
observadores a possibilidade de preencher, através da
imaginação, o fato. Qual o conteúdo da carta do
amado ausente? Em quê pensavam diante da janela aberta? Qual a
palavra na boca entreaberta, na frase suspensa? Qual sentimento
aflorou e foi abafado? O pintor não responde a nenhuma destas
perguntas. Devolvendo-as ao espectador cria a possibilidade de,
através do imaginário, construir um sentido, e ao fazer
isso, participar da própria experiência estética
e do próprio fazer artístico. Mediado pelo simbólico
formado pelo imagético, o observador pode partir do visível
e chegar ao invisível. Cabe a quem vê, completar o jogo
que o espaço pictórico barroco nos propõe e, ao
permitir essa abertura, minimiza os aspectos da consciência
evidentes na percepção, coloca a obra – poética
ou visual – num horizonte não cartesiano.
O destino da casa, na
crônica de Cecília, é, notadamente, diferente das
retratadas por Vermeer. Ao espaço incompleto do desenho
barroco, corresponde uma revelação em Cecília. A
casa se desnuda, abrindo-se em ruína, achando-se
“desnecessária”. Entretanto, a casa sobrevive à
sua desmaterialização:
Tudo desapareceu. E a casa ainda existia. E por fora não
tinha mudança nenhuma. E a sombra das nuvens boiava na sua
amplidão e só de ar e de luz e de som estava repleta.
De silêncio, não. O silencio voara, e olhava para ela,
com os meus olhos. Ele e eu assistíamos a esse deixar de ser
que parecia voluntário. E ouvíamos a casa dizer que
desdenhava de si própria, que se achava desnecessária,
que tudo quanto fora já não servia, e que até
para abrigar e proteger é preciso inventar mil modos
diferentes, sucessivos, porque as misérias dos homens que
habitam as casas são muito complicadas, doloridas,
assustadiças, inquietas. (...) E a memória da casa
estava apenas no chão, no traçado do chão, por
onde ela voltava ao seu começo, àquele tempo em que o
arquiteto a inventara e ela era um vago pensamento. Era um desenho em
cima da Terra, outra vez, mas um desenho que agora se apagava.
E a casa me foi dizendo adeus pouco a pouco, e muito
amorosamente. E um dia olhei das minhas altas varandas e todas as
suas janelas tinham saído, e suas quatro paredes tinham sido
levadas, e ela não possuía mais limites: era um
quadrado deserto, um pequeno quadrado do planeta, à mercê
dos homens.
A cronista constrói
uma imagem poética em que o objeto – a casa –
retorna ao conceito, à concepção e à
gênese estética. No caso, a materialidade do espaço
construído se resume ao desenho conforme o concebido pelo
arquiteto, reconstruindo uma memória “ao avesso”.
Parte do reconhecimento da forma externa e termina no quadrado
deserto, um pequeno quadrado do planeta, à mercê dos
homens. Na Casa,
a identidade de quem vê se dá no reconhecimento da
destruição do objeto, que é, ele próprio
sujeito da experiência estética:
Foi só então que algumas pessoas repararam
na casa que já não era casa. Que não era mais
aquela casa. E como para os outros só tinha sido aquilo, é
natural que não fosse mais nada. Nem deixara pó que
sujasse a roupa dos passantes. Mas eu, que a tinha visto e ouvido...
Ah, comigo foi diferente. Quando chegarmos à Eternidade,
também ela estará entre as coisas sem morte, - e não
terá rua nem número: será simplesmente “A
casa”. E, por seu serviço, permanência e derrota
no mundo dos homens, anjos infantes correrão por suas traves e
com longas ramagens cheias de flores a adornarão.
Ao colocar a casa na latitude da Eternidade, a cronista
a situa no mundo platônico e imortal das Idéias.
Colocando-a como objeto ideal, Cecília faz uma redução
eidética, encontrando um significado para ela essencial. Às
diferenças de uma casa ou de outra, variadas como produtos da
cultura, se sobrepõe a imagem da casa imagética,
substantiva; e nisto podemos identificar mais uma das características
de Cecília: a universalidade.
Reler a crônica de Cecília reabre a
possibilidade de que, através da experiência estética
e da ferramenta do imaginário seja possível articular
saberes, construir identidades e reconfigurar a relação
de distância entre o observador e o objeto da arte. A
referência à obra de Vermeer abre uma releitura da
crônica de Cecília no sentido a confrontar as
incompletudes do espaço e do tempo que ela nos oferece. A obra
de Cecília espera ser relida. E esta releitura se reveste de
importância quando consideramos a necessidade de, na
contemporaneidade, nos colocarmos diante de um mundo globalizado, mas
não universal.
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