AMOR VERSUS QUERER:
A
DICOTOMIA DO FEMININO NO ROMANTISMO
NAS OBRAS VIAGENS NA MINHA TERRA, DE GARRET E
AMOR DE PERDIÇÃO, DE CAMILO CASTELO BRANCO
PEDRO
FERNANDES DE OLIVEIRA NETO
Universidade
do Estado do Rio Grande do Norte
Várias são as
características que compõem o molde da estética
romântica, assinalada entre meados do século XVIII e XIX.
Impossível de defini-la em poucas palavras ou resumi-la num simples
conceito, haja vista sê-la mais que uma estética, o Romantismo
é tido mesmo como um movimento que em ondas concêntricas perpassa
todas as esferas desse ambiente em que emerge; corresponde mesmo a um
metamorfoseamento sócio, histórico e cultural.
Uma destas
características que podemos constatar no Romantismo está na
valorização, por vezes extremista até, do amor, posto
espiritualizado, puro e a visão do desejo circunscrita como
manifestação dos baixos instintos do ser enquanto humano,
devendo, portanto, nesse, o humano ser condenado.
A oposição amor versus querer, os românticos
associam como característica centrada na mulher. A figura feminina
dentro da estética romântica literária quando usada para
representar o amor puro, inspirador, é apresentada como angelical; se
associada, porém, aos desejos da carne, torna-se ser demoníaco,
responsável por levar o homem à perdição. Partindo
dessa dicotomia romântica do ser feminino, o presente texto se
proporá em estabelecer uma análise comparativa das personagens
femininas de duas obras distintas, ícones também de fases
distintas do Romantismo português: Joaninha, da obra garretiana Viagens na Minha Terra (1843), demarcando
o primeiro momento da prosa nessa estética; paralelamente, Tereza,
personagem da obra camiliana Amor de
Perdição, 1863, demarcando a prosa ultra-romântica lusa.
Duas características
centrais podem ser apresentadas como distintivas de ambas as obras. O romance
garretiano, mistura de relato jornalístico e história de amor,
é comedido, sem dramaticidades tamanhas, a própria época
em que foi escrito parecia
não o permitir; já o romance camiliano, é, pois,
embaralhado, alucinante, melodramático, para resumir, à margem de
todos os espectros sociais garretianos. No primeiro, a amor entre Joaninha e
Carlos é posto como algo possível, da saudabilidade, enquanto no
segundo, a amor entre Simão e Teresa é exposto como algo forte ao
extremo, algo que se torna negro e passível de malignidade. Assim sendo,
as personagens femininas moldadas neste cenário carregam marcas
distintas: a primeira se constituirá em oposição à
segunda, demarcando aqui as fronteiras dessa dicotomia feminina no Romantismo;
ambas, no entanto, possuirão características adquiridas desse
amor tecido pelos autores românticos.
A personagem Joaninha adequa-se
aos moldes rousseaunianos [1] uma vez sê-la fruto ou
espécie de ponto num cenário natural, de ar melancólico,
palco para o desenrolar dos fatos:
Joaninha
não era bela, talvez, nem galante sequer no sentido popular expressivo
que a palavra tem em português, mas era do tipo da gentileza, o ideal de
espiritualidade. Naquele rosto, naquele corpo de dezesseis anos, havia por dom
natural e por uma admirável simetria de proporções de toda
a elegância nobre, todo desembaraço modesto (...). (Viagens na minha terra, p. 87)
Ela é uma adolescente ainda com
sopro de pureza e inocência, justificando desse modo suas atitudes
jovem-pueris; parafraseando Massaud Moisés (1999), é alada pela
fantasia que a envolverá na história duma jovem que perece de
amor por amar um homem tolhido noutras malhas sentimentais.
Teresa, entretanto, adequa-se
aos moldes de uma burguesia em acentuada ascensão no espaço
social; criada e moldada no berço da ociosidade urbana. Configura-se o
ponto central de um estopim amoroso que eclodirá mais tarde no decorrer
do romance; envolvida por uma aura de pureza, não natural a Rousseau,
mas uma pureza esculpida por ideais.
As atitudes de Teresa em
oposição às de Joaninha classificam-se como violentas e
invencíveis, num jogo frenético de paixão avassaladora que
a conduz sob um comportamento quase que primitivo, é instintivo. Basta
que retomemos a teimosia sua em preferir qualquer coisa, a morte inclusive, a
ter de casar-se com seu primo, já prometido, o Baltazar: “–
Estás a brincar, prima! – redargüiu Teresa. – Eu hei de
ser tua cunhada quando não tiver mais coração. Teu mano
tem a certeza de que amo outro homem. Queria viver pra ele; mas se quiserem que
eu morra por ele, abençoarei todos os meus algozes.” (Amor de perdição, p. 57)
Na personagem
ultra-romântica não há logicidade nas atitudes. Enquanto
Joaninha move-se pela fantasia para um futuro paraíso, Teresa camainha e
arrasta os seus, através dos ideais, para um abismo negro; ela
não é somente passível e sofredora como Joaninha que o seu
futuro-morte marca uma heroicidade amorosa, mas é alguém capaz de
decidir e influenciar. Portanto,
também é ativa no intercurso da trama. Suas atitudes são
movidas a gás do desejo, uma expansão dos sentidos e dos
sentimentos da personagem garretiana. Em Teresa falam mais alto as
“razões da sociedade burguesa oitocentista, temerosa de enfraquecer-se
pela concessão dos direitos éticos individuais que possam
pôr-lhe em crise os dogmas, as convenções, as modas”
(MOISÉS, 1999, p. 148). Diferentemente de Joaninha, que carregará
interesses próprios, Teresa carrega no bojo de sua individualidade
aspirações suas, políticas e sociais da burguesia
revolucionária de fins do século XVIII e primeira metade do
século XIX: “encontra-se dessa forma as ‘razões do
coração’ e as convenções de uma sociedade
temerosa de ceder aos imperativos de indivíduo e do tempo.” (MOISÉS,
1984, p. 19) Alheia ao naturalismo rousseauniano vigoram em Teresa os ideais
franceses de liberdade, igualdade, fraternidade.
Analisando as atitudes de
Joaninha, perceberemos que estas se apresentam como comedidas, estritas,
já as de Teresa mantém-se constantemente histéricas, descabeladas.
O amor-querer é posto como algo superior, total controlador da mulher e
irradia sua dor como núcleo de tudo. Em Teresa se justapõe a
crueza do mundo numa vertente hiperbólica, rigidamente e criteriosamente
controlada:
É
já meu espírito que te fala, Simão. A tua amiga morreu. A
tua pobre Teresa, à hora em que leres esta carta, se me Deus não
engana, está em descanso.
(...)
Quem
te diria que morri, se não fosse eu mesma, Simão?
(...)
Adeus!
À luz da eternidade perece-me que já vejo, Simão. (Amor de perdição, p. 136-138)
A imagem que se constrói acerca da
personagem camiliana é a de uma figura sedutora e demoníaca que
se ergue à beira de um precipício, prestes ao suicídio,
propensa a levar consigo os de que ela se compadecerem. Objeta-se
dicotomicamente à imagem que podemos talhar da personagem garretiana:
Joaninha é ela própria dotada de angelicalismos, que no
vão de suas utopias para com Carlos não se apresenta como nociva
sedutora é um esmo passível de tragicidade.
No movimentar-se das tramas, dicotomias
outras se encontram nas duas personagens. Em Garret a personagem feminina
mantém-se inócua, contrariamente, Joaninha atém-se
harmoniosamente ao seu espaço; Teresa não, se mantém o
tempo inteiro deslocada. E, além de seu meio como personagem que se move
em prol do desejo humano e enquanto representação humana em busca
do desejo não é condenada pelas artimanhas e garras do tempo, mas
pelas suas próprias artimanhas cai nas próprias garras do tempo por
ela armadas. Ou seja, enquanto Joaninha morre a mercê das linhas do destino,
Teresa não, é dona, e por isso traça seu próprio
destino, embora sequer evolua em prol deste. A ilogicidade a personagem
camiliana julga-se através de um existencialismo. Seu poder de
locomoção dentro do romance é tamanho que extrapola as
barreiras, as linhas de sua própria existência humana;
fantástico desse amor romântico lança os sujeitos fora da
realidade, torna-os inexprimíveis, tomando das palavras de Pinto (2007).
Esse caráter gravitacional da personagem camiliana, justifica-se,
segundo Moisés (1984, p. 19), acima de todas as convenções,
porque:
(...) brota do mais
fundo das entranhas e alucina o cérebro com as antevisões de sua
realização, tem por arquitrave o amor vulcânico à
margem do casamento, mas em luta com razões morais (...). Vivendo a
violenta aceleração da paixão que tudo obnubila com seu
despótico império (...).
Assim sendo, entenderemos
Joaninha como face primeira da moeda amor
versus querer, visto que seus instintos enquanto humanos são
comedidos e encaixam-se aos caracteres românticos da pureza, da
inspiração. Face segunda desta moeda, o querer, atribui-se
à personagem camiliana, visto sê-la o oposto daquela, uma figura
própria do amor demoníaco que castra e arrasta os sujeitos para
além de sua realidade e possibilidade, para um abismo em busca de algo
como prêmio: um amor contaminado pelo vírus da paixão. Em
Teresa enxerga-se o sedutorismo que leva o homem à
perdição, justificando plenamente o título da obra.
Essa oposição
amor versus querer em Joaninha versus Teresa, configura no
entendimento pleno da dicotomia feminina no Romantismo.
Referências
CASTELO BRANCO, Camilo. Amor de perdição. São
Paulo: O Estado de São Paulo, Klick Editora, 1997.
GARRET, Almeida. Viagens na minha terra. Rio de Janeiro:
Ediouro, São Paulo: Publifolha, 1997.
MOISÉS, Massaud. A literatura portuguesa. 29ª ed.
São Paulo: Cultrix, 1999.
MOISÉS, Massaud. Presença da literatura portuguesa:
romantismo-realismo. 6ª ed. São Paulo: Difusão Editorial,
1984.
PINTO, Júlio
Pimentel. Afeto reinventado. In Entrelivros.
Ano 2, nº 24. São Paulo: Dueto Editorial, 2007, p. 38-42.