A REPRESENTAÇÃO IDENTITÁRIA SUL-BAIANA EM IARARANA, DE SOSÍGENES COSTA
Gisane
Souza Santana - UESC
Tiago
Santos Sampaio - UESC
“As
identidades só podem ser lidas a contrapelo, isto é,
não como aquilo que fixa o jogo da
diferença em um
ponto de origem e estabilidade, mas como
aquilo
que é construído na
différrance ou por meio dela.”
Stuart
Hall
Considerações
Iniciais
Iararana,
poema de Sosígenes Costa, que narra de forma subjetiva o mito
fundacional da região cacaueira através de mitos regionais e
gregos, suscita a discussão sobre o potencial literário em servir
como forma de representação de traços da cultura popular
que compõem a identidade de um povo. Objetiva-se, portanto, identificar
os aspectos presentes na narrativa que retratam a cultura local e, por sua vez,
estabelecem uma relação entre a identidade brasileira e sul-baiana. Nesse sentido,
pressupõe-se que a literatura, ao abordar os elementos culturais,
corrobora para a construção e manutenção das
identidades. A problemática concentra-se em investigar como a identidade
é reafirmada a partir de uma estratégia discursiva literária
que utiliza elementos componentes da cultura local no seu decorrer.
Com
a finalidade de esclarecer essa questão, a verificação da
narrativa literária enquanto representação da identidade
é vislumbrada segundo os conceitos advindos dos Estudos Culturais de
acordo, sobretudo, com Hall (2005), Bhabha (1995) e Canclini (2003), cujas
abordagens são perpassadas pela reflexão acerca da dinâmica
imbricada no processo de formação das identidades culturais.
Dessa
forma, selecionam-se elementos da cultura sul-baiana presentes em Iararana a fim de perceber sua capacidade
representativa, bem como a reafirmação identitária operada
nos momentos em que a narrativa aponta para o leitor alguns aspectos marcantes
da cultura popular.
Pressupostos
Teóricos
Discutir
a questão da identidade exige a retomada de alguns conceitos que
permitem que esta seja vista como uma construção discursiva pela
qual os indivíduos se localizam individual e socialmente (Hall, 1999;
Cuche, 2002). A partir dessa localização são
construídos os sentidos que marcam as características mais representativas
de um povo.
Não
temos conhecimento de um povo que não tenha nomes, idiomas ou culturas
que em alguma forma de distinção entre o eu e o outro, nós
e eles, não seja estabelecida.... O autoconhecimento –
invariavelmente uma construção, não importa o quanto possa
parecer uma descoberta – nunca está totalmente dissociado da
necessidade de ser conhecido, de modos específicos, pelos outros
(CALHOUN apud. CASTELLS, 2000 p. 22).
Castells (2000, p. 22) caracteriza a identidade como “o processo
de construção de significado com base em um atributo cultural, ou
ainda, um conjunto de atributos culturais inter-relacionados, o(s) qual(ais)
prevalece(em) sobre outras fontes de significado.” Assim, entende-se, que
é operada uma espécie de seleção por parte da sociedade
dos atributos culturais que devem definir os seus traços distintivos e,
a partir dos sentidos conferidos a eles pelos indivíduos, passa-se a
edificar as identidades.
A identidade é,
então, construída a partir de um repertório cultural que
se apresenta na sociedade, que pode se expressar como conhecimento
científico, práticas artísticas ou religiosas. Mas,
“todos esses materiais são processados pelos indivíduos,
grupos sociais e sociedades, que reorganizam seu significado em
função de tendências sociais e projetos culturais
enraizados em sua estrutura social, bem como em sua visão de tempo e
espaço” (Castells, 2000, p. 23-24). Os grupos sociais remodelam
essas práticas e conhecimentos de acordo com o propósito dos seus
projetos de formação, transformação ou
manutenção das identidades. Esse aspecto fará com que os
indivíduos enquadrem a produção cultural individual e
coletiva aos interesses dos projetos comuns da sociedade. Estabelece-se aí
quem está apto ou se interessa a pertencer a determinados grupos de
acordo com as suas identidades.
Woodward (2003, p.13) afirma
que “com freqüência, a identidade envolve
reivindicações essencialistas sobre quem pertence e quem
não pertence a um determinado grupo identitário, nas quais a
identidade é vista como fixa e imutável”. O sentimento de
pertencimento e permanência é o pressuposto básico para a
construção da identidade individual, ao se referir aos grupos a
que pretende fazer parte. No entanto, ver a identidade como fixa e
imutável corresponde apenas a uma estratégia para tentar formar
nas consciências a sensação de homogeneidade que, na
verdade, não corresponde mais ao conceito pós-moderno de
identidade, devido aos processos de hibridização cultural.
O sujeito
pós-moderno, segundo Hall (2005, p. 13), é
[...] conceptualizado
como não tendo uma identidade fixa, essencial ou permanente. A
identidade torna-se uma ‘celebração móvel’:
formada e transformada continuamente em relação às formas
pelas quais somos representados ou interpelados nos sistemas culturais que nos
rodeiam. [...] A identidade plenamente unificada, completa, segura e coerente
é uma fantasia. Ao invés disso, à medida em que os
sistemas de significação e representação cultural
se multiplicam, somos confrontados por uma multiplicidade desconcertante e
cambiante de identidade possíveis, com cada uma das quais
poderíamos nos identificar – ao menos temporariamente.
As identidades, como mostra Hall, estão em constante processo de
formação a depender dos fatores sociais que agem sobre os
indivíduos. Daí a concepção do termo
“identificação”, uma vez que, à medida que
esses fatores – ‘as interpelações dos sistemas
culturais’ – se apresentam, as pessoas se identificam de acordo com
cada circunstância. Os processos que desencadeiam as
identificações são múltiplos e por isso geram uma
dinâmica favorável à não fixação
permanente das identidades.
A identidade, de acordo com sua concepção
pós-moderna e enquanto resultado das atribuições
culturais, é vista como uma manifestação muito mais
flexível, uma vez que tem sido mais difícil a tarefa de se situar
num ambiente mediado e formado por uma constante hibridização
cultural (Canclini, 2003). Os sujeitos passam a assumir diversas identidades
que não existem mais como algo unificado, mas que respondem a momentos
específicos e a contextos diversificados. Daí a necessidade de se
formular estratégias que permitam que, mesmo com a
hibridização das culturas e formação
múltipla das identidades, sejam construídos aspectos que
reúnam os indivíduos em categorias de acordo com algumas
características comuns ao grupo e que permitam que esses se sintam como
parte de um todo. Deve-se encontrar, portanto, formas de se costurar as
diferenças decorrentes das várias identificações, a
fim de constituir uma certa homogeneidade capaz de classificar os
indivíduos segundo particularidades que os definam. Para Hall
uma
forma de unificá-las tem sido a de representá-las como a
expressão da cultura subjacente de ‘um único povo’. A
etnia é o termo que utilizamos para nos referirmos às
características culturais – língua, religião,
costume, tradições, sentimento de ‘lugar’ - que
são partilhados por um povo.(2005, p. 62).
Essas classificações acerca das
caracterizações do povo são fundamentais para gerar um
agrupamento em torno dos mesmos aspectos culturais que promoverão as
impressões de homogeneidade. A unicidade mostra-se aí como uma
marca que reúne os requisitos que cada indivíduo deve conter para
que nasça a sensação de pertencimento.
Perceber a identidade como processo que emerge de atributos culturais
é crucial, portanto, para a compreensão do papel que as
representações têm na edificação dos sentidos
que compõem as identidades. Assim, é possível dizer que
só a partir da representação será possível conceituar a identidade nacional
explicando a sua importância nas sociedades contemporâneas, nos
domínios cultural e social. Nesse contexto, a cultura, enquanto
expressão da produção de bens simbólicos que
definem as identidades surge como uma síntese de
representações capazes de produzir as identificações
dos sujeitos com o meio no qual está inserido.
Dessa forma, a literatura adquire o status
de representação identitária cujo funcionamento age como
fonte de significados e suscita a abordagem dos aspectos culturais da sociedade
a que se refere. A partir dessa abordagem pode-se inferir que a
construção de traços característicos que
compõem as identidades são provenientes das
representações que abarcam e sintetizam os elementos da cultura. A representação
literária estudada, por exemplo, apresenta o potencial de retratar com
grande riqueza os aspectos da cultura regional, permitindo que a identidade
seja consolidada a partir de sua dimensão local.
Antes que se perceba imerso numa cultura universal, na qual se experencia
um contato mais íntimo com outros ambientes culturais, o sujeito precisa
se centrar num contexto local para encontrar os referenciais que interferem de
forma mais contundente na sua individualidade: “Ter uma identidade seria,
antes de mais nada, ter um país, uma cidade ou um bairro, uma entidade em que tudo o que é
compartilhado pelos que habitam esse lugar se tornasse idêntico ou
intercambiável” (Canclini, 2003, p. 190). As
identificações com os fatores sociais formam-se primeiro nos
espaços cujas identidades são mais facilmente constituídas,
ou seja, a formulação da identidade se processa inicialmente em
referência ao contexto local. As produções culturais das
comunidades passam a ter maior relevância por refletir mais diretamente
as características que se relacionam aos grupos sociais locais.
Outro aspecto relevante que se refere aos produtos culturais que visam a
reafirmação das identidades é que estes funcionam, ainda,
a partir de algumas estratégias a fim de situar as origens de um povo
através de narrativas que agem como mitos fundadores ou lendas de
tradição oral, construindo os sentidos que compõem as
identidades (Bhabha, 1995). Esse aspecto se verifica, assim, na literatura, na
cultura popular e na mídia e através de estratégias
discursivas que objetivam gerar a noção de continuidade, de
tradição e de intemporalidade. A crença em um passado
imaginado (Hobsbawm, 1997) e comum a todos edificado
pelas narrativas literárias, e outras formas de
representação cultural, orientam os indivíduos na
história de formação da sua coletividade e preenchem de
sentidos suas identidades. Desta
maneira, a partir da produção cultural é possível
que as pessoas de determinado local sintam-se agregadas, compartilhando modos
de se comportar e pensar, vivenciando um sentimento de cultura partilhada.
Os produtos culturais, como a literatura regional, são vitais no
processo de constituição das identidades locais, pois funcionam
como forma de representação dos aspectos culturais que as
caracterizam tal como se manifestam socialmente. O estudo da obra Iararana permite, deste modo, perceber a
literatura como reflexo da cultura retratada e também como uma
estratégia narrativa de reafirmação e
valorização da identidade sul-baiana.
Identidade em Iararana
Iararana de Sosígenes Costa,
composta por quinze cantos ou cenas e escrita na década de 1930,
é uma alegoria que narra a formação étnico-cultural
do Sul da Bahia, partindo de elementos
formadores da identidade nacional, ou seja, elementos que remetem
à miscigenação brasileira: o branco Tupã-Cavalo,
Iara e o índio. A obra está inserida no panorama da literatura
modernista, que buscava como um dos seus objetivos primordiais a
valorização do nacionalismo, através da
exploração de temáticas voltadas para os elementos mais
representativos da cultura brasileira. Com Iararana,
Sosígenes Costa opera, pela literatura, uma reafirmação
dos traços de elevada significação para o contexto da
região Sul-baiana.
A
poesia épica de Sosígenes Costa relata, através da
alma-do-mato, a história da chegada de Tupã-Cavalo à
região cacaueira e seus desdobramentos a partir do enlevo amoroso do
personagem com a Iara, figura mitológica que habita as águas dos
rios também conhecida como mãe-d’água –
materialização da divindade. Partindo da narrativa de cunho
mítico, o poeta expõe como teria se originado o cacau e apresenta
marcas relevantes da cultura regional que auxiliam no processo de
composição da identidade local.
E
Tupã-Cavalo brotou a mataria
_________________________________________
E as sementes
nasceram e se viu que era cacau
E o cacau
já estava crescidinho
e saía
com uma força...
e saía
com um forção
que benza-te
Deus meu pé de feijão!
mas ele dava
na gente a tirar broto de cacau
deu
facão a caboco para tirar broto de cacau
e o cacau
desbrotado ficou parrudo
e bonito como
danado.
(COSTA, 2001,
p. 444).
Através
da representação literária é possível,
assim, ter-se conhecimento sobre
elementos da cultura não apenas no que diz respeito às suas
manifestações festivas, expressões folclóricas e
outros costumes, mas também sobre a organização social e
econômica da região firmada sobre o cultivo do cacau.
Seguindo
a lógica da literatura modernista, Iararana
se apresenta como
[...] uma
saga, com exaltação do índio brasileiro e utilizando na
ação, como estratégia, a ‘limpeza de sangue’.
Esse percurso o singulariza no movimento modernista iniciado em 1922, por
não privilegiar a apropriação das
contribuições exógenas nas representações
culturais mas destacando nelas o que é autóctone, através
da celebração genealógica de uma linhagem e através
das peripécias e façanhas vivenciadas por um clã.
(SCHEINOWITZ, 2002, p. 66).
Pela
ênfase no que é autóctone, a identidade regional em Iararana é reafirmada
através da estratégia da retomada de elementos que expressem a
diferenciação com relação às outras
culturas, sobretudo àquela que se evidencia como exógena e
opressora. A cultura local mostra-se no poema, sobretudo, em seu potencial
antropofágico de digerir os aspectos positivos que contribuíram
para a região, como a técnica do cultivo do cacau, mas
também de renegar os traços que comprometem a identidade quando
vista sob a perspectiva de uma unicidade que mantém seu caráter
distintivo. Esse fator se evidencia, na poesia, na morte do Tupã-Cavalo,
representação do colonizador europeu, causada pelo lobisomem
E o Lobisome com boca de fogo
Atacou Tupã-Cavalo no
barranco da Inguaíra
E avançou no pescoço
do cavalo
E queria mata-lo de arrocho.
Mas a carne dele já estava
chiando no fogo que saía
Da boca do Lobisome
(COSTA, 2001, p. 505).
Há ainda uma associação entre os traços
negativos de personalidade com a descendência de Tupã-Cavalo, e
entre traços positivos com a descendência da Iara que, após
gerar a Iararana e de ser trocada pela loura européia Arancajuba,
envolve-se com um aimoré dando origem ao personagem menino do
céu.
- Menino do
céu, você tem sangue de mãe-dágua.
Teu sangue bom é sangue do rio
Sangue caboco com sangue do rio
Sangue mais limpo que o da falsa iara
Que puxou ao bicho e tem sangue runhe.
(COSTA, 2001, p. 503-504).
Embora
a narrativa traga aspectos distintivos da cultura regional, vislumbra-se a
presença de outros elementos que não são oriundos desta,
mas a compõe através de fenômenos híbridos
(Canclini, 2003), reunindo e relacionando aspectos históricos,
artísticos, filosóficos, culturais e literários. Essas
interferências de outros sistemas culturais caracterizam a cultura como
um processo em formação constante. De acordo com Laraia (1997, p.
100) “existem dois tipos de mudança cultural: uma que é
interna, resultante da dinâmica do próprio sistema cultural, e uma
segunda que é o resultado do contato de um sistema cultural com um
outro”.
Assim,
identificam-se na poesia marcas desse hibridismo cultural. Inicialmente pela
presença do Tupã-Cavalo (centauro) que desencadeia uma
mestiçagem resultante da mistura dos povos, representada na obra pelo
nascimento da Iararana, caracterizada como a “falsa iara” e de seus
outros irmãos. Além disso, constam na narrativa os elementos gregos
como os deuses. Além da mistura entre os mitos de tradição
indígena e cristã..
Naquela festa
do céu
havia um jegue
com asas
Qual o nome deste jegue?
-
Pégaso
(COSTA, 2001,
p. 479).
Se não
fosse esse fiasco
Aquela
moça copeira seria eleita rainha
naquela festa
do céu.
- Qual o nome
desta moça?
- Hebe
(COSTA, 2001,
p. 480).
Há,
portanto, uma abordagem ampla dos traços constituintes da cultura
regional, ainda que estes se apresentem hibridizados com elementos de outras
culturas. A partir dessa abordagem é possível se ter uma
noção das manifestações mais características
da cultura popular, expressas e perpetuadas, sobretudo pela oralidade e que
são revividos através da narrativa literária.
Ah naquela
cana brava
Todo dia pega
fogo
no momento em
que a mãe-dágua
deste rio
Jequitinhonha
é
levada lá pra dentro
por esse bicho
danado
que espantou a
caipora
meteu medo no
boitatá
(COSTA, 2001,
p. 449).
São
evidenciadas nesses trechos algumas crenças advindas da cultura popular
como da cobra que mama no seio das mulheres que pariram e a
explicação fantasiosa para a ocorrência simultânea de
chuva e sol como resultante do casamento da raposa. Os mitos são
expressos nos fragmentos que apresentam as figuras mitológicas como o
Tupã-Cavalo, a iara, o lobisomem, a mula-de-padre, o boitatá, a
caipora, dentre outros que surgem na narrativa, assumindo papéis
importantes para o desenvolvimento da história, como o lobisomem que se
responsabilizou por matar o Tupã-Cavalo devolvendo a autonomia das
personagens que representam a cultura local. Além disso, são
retratados os costumes, como o de enterrar os restos do parto na areia e evitar
treze pessoas à mesa para não dar azar, expressões
regionais, como o “oxente” e também ditados populares.
Moça
não casa com cobra
Porque
não sabe quem é o macho,
Isso é
o que o povo diz
(COSTA, 2001,
p. 473).
- Oxente!
Você tem namorado, Calunga?
(COSTA, 2001,
p. 433).
O
poema traz ainda outras manifestações da cultura popular como as
danças, canções, ritmos, como o samba, as festas
típicas, como o forrobodó na coroa e burrinha, e as brincadeiras infantis. Estes
aspectos funcionam como marca da diferença por serem tipicamente
regionais, necessitando serem repetidos como práticas inerentes da
cultura local para que possam ser perpetuados e possam consolidar a identidade
cultural associada a estas práticas.
A festa que se
fez foi a festa da Burrinha.
Todos foram
cantando receber o cavalo-do-mar
(COSTA, 2001,
p. 496).
O samba
que é macuíba
É o
samba do pau siriba.
Remexa bem as
cadeiras,
Se
esqueça da pindaíba.
E todo mundo
se peneirou
no samba do
pau siriba
(COSTA, 2001,
p. 481).
Iararana funciona como uma das
narrativas que constituem a identidade também pela estratégia de
mito fundacional. Sosígenes Costa parte de uma narrativa mítica
para explicar o surgimento de elementos regionais que atualmente são
conhecidos como tal devido à presença dos acontecimentos de
origem mitológica. Um exemplo se refere ao rio Belmonte que teria esse
nome devido a ossada de Tupã-Cavalo depositada no fundo do rio.
E a ossada
está lá no fundo do rio.
Mas a
mãe-dágua está lá viva e amarrada.
Ela dorme no
fundo do rio.
E nem
sucuriúba pode quebrar as correntes.
Só quem
descende da mãe dágua pode quebrar as correntes.
E os
descendentes dos mondrongos
chamam este
rio de Belmonte
(COSTA, 2001,
p. 506-507).
Além
disso, pode-se dizer que a referência a Belmonte funciona como forma do
poeta reviver as memórias da sua infância, vivida em Belmonte.
Pela organização dessa narrativa também se reafirma a
identidade enquanto sentimento de pertencimento à realidade nacional.
Considerações Finais
Enquanto
fonte primordial de sentido para que os sujeitos se localizem socialmente, as
identidades funcionam como manifestações móveis pelas
quais podem ser construídos os sentidos necessários para a
convivência na coletividade. Santos (1999, p. 135) afirma que. “as
identidades culturais não são nem rígidas nem, muito menos, imutáveis.
São resultados sempre transitórios e fugazes processos de
identificação”. Portanto, devem ser encontradas formas dos
indivíduos irem se identificando com vários contextos sociais e
culturais a fim de fornecer sentidos às suas experiências.
As
representações têm, então, o papel de produzir uma
síntese das características mais marcantes da cultura de um povo
para dar suporte à criação das
identificações. Estas, por sua vez, são
responsáveis pelo sentimento de pertencimento, que permite aos sujeitos
vislumbrarem-se como integrantes de um contexto cultural com traços bem
demarcados. Através das várias representações a
identidade cultural vai sendo edificada como uma narrativa, na qual se pode
verificar os aspectos que compõe cada cultura.
No
caso da obra Iararana,
Sosígenes Costa consegue tecer uma narrativa capaz de reunir os
caracteres que mais se evidenciam na cultura popular, formando uma importante
referência para a construção da identidade cultural da
região sul-baiana. Mesmo que
haja um hibridismo na apresentação desses aspectos, que
pode ser visto como uma metáfora da constante interação
cultural entre diversos povos, é possível demarcar os elementos
típicos da cultura local que são valorizados na história
como forma mostrar não apenas a diversidade, mas a capacidade de
resistência sobre as dominações exógenas,
enfatizando a riqueza advinda da produção cultural
autóctone e independente.
REFERÊNCIAS
CANCLINI, Nestor García
(2003). Culturas Híbridas:
estratégias para entrar e sair da modernidade. 4ª ed. Trad. Ana
Regina Lessa e Heloísa Pezza Cintrão. São Paulo: Edusp.
CASTELLS, Manuel (2000). O Poder da Identidade. Trad. Klauss
Brandini Gerhardt. São Paulo: Paz e Terra.
COSTA, Sosígenes. Iararana. São Paulo: Cutrix, s/d.
HALL, Stuart (1999). A identidade cultural na
pós-modernidade. Trad. Tomaz Tadeu da Silva e Guacira Lopes Louro.
Rio de Janeiro: DP&A.
HOBSBAWM, Eric J (1997). A
produção em massa de tradições. In: HOBSBAWM, Eric J. e RANGER Terence (Orgs). A invenção das tradições. Trad. Celina
Cardim Cavalcante. Rio de Janeiro: Paz e Terra.
LARAIA, Roque de Barros (1997). Cultura: um conceito antropológico.
11 ed. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor.
SCHEINOWITZ, Celina (2001).
Poética e Linguagem em Iararana. In: Iararana: revista de arte,
crítica e literatura. Ano III, nº 7.
WOODWARD, Kathryn (2003).
Identidade e diferença: uma introdução teórica e
conceitual. In: SILVA, Tomaz Tadeu (org.) Identidade
e diferença: a perspectiva dos Estudos Culturais. Petrópolis:
Vozes.