UMA RESENHA DE O ATLANTICO NEGRO,
DE PAUL GILROY
Paulo da Luz Moreira
O Atlantico Negro tem
como razão primordial, nas palavras do autor, ver “os negros percebidos como agentes, como pessoas com capacidades cognitivas e mesmo com
uma história intelectual – atributos negados pelo racismo moderno.”(GILROY,
Paul, 2001, p.40) Entretanto, percebe-se no
livro duas outras aspirações principais: repudiar as noções de pureza racial
que ainda circulam dentro dos movimentos políticos negros e propor alternativas
ao que o autor chama de “clausuras das categorias com as quais conduzimos
nossas vidas políticas.” (GILROY, Paul, 2001, p.30)
Gilroy busca chegar a esses objetivos aprofundando e
consolidando um pensamento crítico sobre a condição negra que foge das armadilhas
do essencialismo e do relativismo, defendendo que nos
libertemos das amarras do essencialismo racial, sem
com isso negar à categoria de raça sua validade como construção social e
cultural e instrumento de luta por igualdade. Na prática isso implica em
confrontar posturas comuns entre pensadores da condição negra e, nesse sentido,
Gilroy argumenta de modo convincente contra o
discurso de inspiração nacionalista e romantica que tem a África como origem de
uma cultura negra pura, mostrando que as culturas negras na África e na
diáspora nunca viveram hermeticamente fechadas em si mesmas e nem são grupos
homogêneos sem divisões internas de gênero e classe. Ao mesmo tempo, Gilroy rejeita categoricamente a ênfase desmedida na
textualidade que
se torna um meio de esvaziar o problema da ação humana, um meio de
especificar a morte (por fragmentação) do sujeito e, na mesma manobra,
entronizar o crítico literário como senhor do domínio da comunicação humana
criativa. (GILROY, Paul, 2001, p.166)
Como alternativa ao essencialismo
e ao relativismo, Gilroy propõe um modo transnacional
de refletir sobre a experiência negra no mundo a partir da constatação de que
as comunidades negras, dos dois lados do Atlantico, estiveram em intenso
intercambio desde os séculos XVIII e XIX, e não apenas por causa do tráfico
negreiro – Gilroy lembra que o piloto de Colombo era
negro e que um quarto da marinha inglesa era composta de africanos no final do
século XVIII. Gente, mercadoria e cultura nas mais diversas formas (música,
culinária, literatura) transitaram intensamente de um lado do Atlantico para o
outro, nos dois sentidos, num tráfego intenso que mudou, mas não acabou com o
fim da escravidão. A permanência dos laços criados pela colonização nas
relações pós-coloniais (entre elas as migrações do terceiro para o primeiro
mundo, chamadas por ele de “segunda” diáspora) perpetuou o Atlantico Negro
durante todo o século XX, ainda que pontos de vista preocupados primordialmente
com a questão da identidade nacional tendam a ignorá-lo.
O nacionalismo em geral é, aliás,
um dos alvos principais de Gilroy. As perspectivas
que confinam os estudos literários em departamentos rigidamente separados são vigorosamente contestadas já que “nem as
estruturas políticas nem as estruturas econômicas de dominação coincidem mais
com as fronteiras nacionais”. Observações como esta me parecem particularmente
relevantes no contexto da crítica norte-americana e européia (onde estão os
interlocutores implícitos de Gilroy), mas não
deveriam ser novidade para quem vive em um país de terceiro mundo tutelado pelo
FMI. Aí está um indício da grande limitação desse livro, que requer do leitor
brasileiro uma leitura cum granus salis.
Nos capítulos 3, 4 e 5, fica
bastante claro que Gilroy, chefe do departamento de Black Studies de Yale, fala
diretamente para os seus pares nos centros de saber do hemisfério norte. Nesses
capítulos, Gilroy denuncia as limitações e
mistificações que foram produzidas para sustentar a visão de que as obras de
W.E.B Du Bois e Richard Wright
e a música dos Spirituals eram
expressões típicas e exclusivas da cultura negra estadounidense,
ignorando as importantes conexões internacionais que as definiram.
Os Spirituals
são apenas um entre vários exemplos derivados da música popular no livro uma
vez que, para Gilroy, a música revela de forma clara
os processos de livre apropriação e recombinação que configuram a cultura negra
mundial:
(...) a música e seus rituais podem ser utilizados
para criar um modelo no qual a identidade não pode ser entendida nem como uma
essência fixa, nem como uma construção vaga e extremamente contingente a ser
reinventada pela vontade e pelo capricho de estetas, simbolistas e apreciadores
de jogos de linguagem (GILROY, Paul, 2001, p.209).
Mas é justamente quando o assunto é
música que a mais séria deficiência desse livro tão ambicioso aparece ainda
mais claramente: não há sequer uma menção específica a músicos cubanos,
brasileiros ou colombianos – apenas duas ou três vagas referências ao Brasil,
principalmente quando Gilroy discute a música de Quincy Jones. Ou seja, ainda que o próprio Gilroy diga no prefácio à edição brasileira que “a história
brasileira tem sido marginalizada mesmo nos melhores relatos sobre a política
negra centrados na América do Norte e no Caribe” (GILROY, Paul, 2001, p.11), O Atlantico Negro apenas perpetua esse
estado de coisas. Seria mais adequado chamar esse livro, portanto, de O
Atlantico Negro do Norte, pois ele vem de um mundo que se
pretende cosmopolita, mas só fala uma língua (o inglês), e só leva em conta o
terceiro mundo quando quer passar as férias no Caribe.
Tendo isso em mente, o transnacionalismo de Gilroy tem
que ser visto com uma certa reserva. Ainda que ele
afirme que “com algumas nobres exceções, as explicações críticas da dinamica da
subordinação e da resistência negra têm sido obstinadamente monoculturais,
nacionais e etnocêntricas.” (GILROY, Paul, 2001,
p.170) e que, “a ponderação das similaridades e diferenças entre as culturas
negras continua a ser uma preocupação urgente” (GILROY, Paul, 2001, p.171), o
que se vê em O Atlantico Negro é a
repetição de uma operação de apagamento de uma importante parcela do mundo
negro que não consegue se fazer representar no circuito acadêmico entre Estados
Unidos e Inglaterra. Palavras recorrentes no texto como “América” (GILROY,
Paul, 2001, p.58, 182) e “Ocidente” (GILROY, Paul, 2001, p.83, 102) são
exemplos dessa operação de apagamento; talvez pudessem ter sido traduzidas
respectivamente como Estados Unidos e Europa ocidental/América
anglo-saxônica para evitar equívocos do leitor de língua portuguesa.
É verdade que, devido à amplitude
do tema, qualquer estudioso que se propusesse a escrever sobre todas as
culturas negras dos dois lados do Atlantico encontraria dificuldades, mas o problema agrava-se quando se tenta impor
conclusões gerais sobre as comunidades negras em geral e o resultado é uma
teoria crítica necessariamente capenga, ou talvez seria melhor dizer, caolha.
Não é surpresa, portanto, que a grande ausência no livro seja a relação
assimétrica entre as culturas negras do centro e da periferia do capitalismo
mundial. Não é fruto do acaso que Michael Jackson seja muitíssimo mais popular
que Milton Nascimento ou Gilberto Gil em Moçambique e Angola, ou que a chegada
de Cesária Évora ao mercado fonográfico brasileiro
esteja ligada ao sucesso da cantora cabo-verdiana no
primeiro mundo. Mesmo o acesso ao trabalho de intelectuais com raízes mais ou
menos fortes no Caribe, como Stuart Hall e o próprio Paul Gilroy,
depende da chancela que esses intelectuais têm nos meios acadêmicos do primeiro
mundo. Esses são momentos em que o véu cai e fica bastante claro que a
globalização não supera, mas perpetua e até mesmo acentua as relações desiguais
dos tempos coloniais. Mas há que abrir os olhos para ver.
O Atlantico Negro,
portanto, não cumpre sua promessa, o que não tira todo o mérito do livro. Um
exemplo é a discussão da relação entre escravidão e modernidade. Gilroy afirma que “as realizações intelectuais e culturais
das populações do Atlantico negro existem em parte dentro e nem sempre contra a
narrativa gloriosa do iluminismo e seus princípios operacionais” (GILROY, Paul,
2001, p.113). A escravidão não era um resquício arcaico que a modernidade
combatia e Gilroy mostra que a escravidão e a visão
do negro como fundamentalmente anti-racional foram parte do pensamento
ocidental moderno desde do início.
Há muito que aprender com o livro
de Gilroy, principalmente o seu trafegar no mar
revolto entre modernidade e pós-modernidade sem se afogar no neoconservadorismo ou na paralisia relativista. Mas pensar
um Atlantico Negro que realmente expresse sua riqueza e multiplicidade é um
desafio não realizado, talvez maior que o trabalho de um só indivíduo. Que as
lições com os erros e os acertos de Paul Gilroy sejam
fecundas por aqui!
Referência bibliográfica:
GILROY, Paul. (2001) O
Atlantico Negro. Modernidade e dupla consciência, São Paulo, Rio de
Janeiro, 34/Universidade Candido Mendes – Centro de Estudos Afro-Asiáticos.