Resumo:
It will be suggested a reading of the novel A hora da Estrela, written by Clarice Lispector with a view to the narrative because it shows itself provocative and particular. Who tells the story seems to be a man nevertheless he allows himself to be "the other" of his own character, revealing a possible feminine side. Other features will be broach from this first one: the time’s subject – ambiguous in this narrative – as well as the dubious try to make a fiction which all the time shows itself as a non-fiction.
Texto:
FABIANA RODRIGUES CARRIJO
A DUBIEDADE NARRATIVA EM CLARICE LISPECTOR: UM OLHAR SOBRE A
HORA DA ESTRELA
Fabiana Rodrigues Carrijo
UNIVERSIDADE FEDERAL DE UBERLÂNDIA
ABSTRACT: It will be suggested a reading of the
novel A hora da Estrela, written by Clarice Lispector with a
view to the narrative because it shows itself provocative and particular.
Who tells the story seems to be a man nevertheless he allows himself to be
"the other" of his own character, revealing a possible feminine
side. Other features will be broach from this first one: the time’s subject
– ambiguous in this narrative – as well as the dubious try to make a fiction
which all the time shows itself as a non-fiction.
1- INTRODUÇÃO
O presente trabalho destina-se a fazer uma leitura da novela
A hora da Estrela; sabe-se que esta constituirá apenas em mais
uma entre tantas que se tem feito. Tal leitura se pautará pela análise
e sugestão de um possível viés narrativo, congregando
o duplo, ou seja, o "outro" da própria personagem.
Na realidade, esta possível androginia textual - nome
com o qual denominou-se a especificidade desta narração dupla
- em última instância - anuncia um tipo de narrativa polifônica,
plurissignificante, como quer crer a terminologia de Bakhtin (1995), na qual
a relação de alteridade está sempre presente, mesmo que
sub-repticiamente.
No presente caso, a relação com o "outro"
está na entrelinha de um discurso que opta pela relação
dúbia com este outro. Andrógino, no sentido de entremostrar
um narrador que não se constitui apenas masculino, mas se apresenta,
em vários momentos, como a outra faceta, diga-se feminina. Dir-se-ia
mais, se apresenta como a contraparte de um ser feminino.
Discutida a questão principal – a androginia textual
– , tentar-se-á pontuar alguns aspectos da presente obra, na
qual percebe-se uma tentativa de criação de uma narrativa,
aparentemente, ficcional, mas que, concomitantemente, se "desmente"
o tempo todo, revelando-se não-ficcional e, de modo análogo,
sendo a própria ficção.
Posteriormente, discutir-se-á o modo particular em
que é tratada a noção do tempo na narrativa que ora se
comenta. Deve-se dizer que todos estes aspectos a serem abordados na presente
proposta de leitura, em primeira e última análise representam
partes de um todo que, somadas, ajudam a compor a particular obra clariceana.
2- PERCORRENDO O CAMINHO DA ANDROGINIA TEXTUAL
Em A hora da estrela, o narrador Rodrigo
S.M, em um processo de espelhamento, cria a personagem, Macabéa, como
um duplo do narrador: "Vejo a nordestina se olhando ao espelho e –
um ruflar de tambor –no espelho aparece o meu rosto cansado e barbudo"(H.E,
22). Como o Outro do Si-mesmo, Macabéa força sua existência
na existência de Rodrigo (BORGES: 1999): "Apesar de eu não
ter nada a ver com a moça, terei que me escrever todo através
dela, por entre espantos meus" (H.E., 24). "(É paixão
minha ser o outro. No caso a outra. Estremeço esquálido igual
a ela.)" (H. E, 29). A possível feminilização do
narrador, a partir desta determinação, se entrevê por
indícios de que uma escrita masculina seria mais racional do que a
que ele realiza. (BORGES: 1999). O narrador afirma "escrever com o corpo
e o resultado desta escrita é uma névoa úmida".
Contudo, a tentativa de racionalizar a escrita aparece na contraposição
seco/úmido: "O que eu narrarei será meloso? Tem tendência
mas agora mesmo seco e endureço tudo"(H.E, 17) que caracteriza
a contraposição entre a dureza masculina e a pretensa pieguice
feminina : ". . .e até o que escrevo um outro escreveria. Um outro
escritor, sim, mas teria que ser homem porque escritora mulher pode lacrimejar
piegas."( H.E, 14)
Este sentido duplo de narrar, anuncia, ainda que sub-repticiamente,
uma androginia textual em A hora da estrela, uma vez que há
uma mixagem de vozes, tanto o narrador quanto a personagem protagonista se
acham de tal modo imbricados, que um depende do outro para ter vida : Macabéa
só possui vida no discurso ficcional criado por Rodrigo S.M, assim
que S.M põe fim a existência de Macabéa, o mesmo acontecerá
com ele mesmo: "Macabéa me matou. Ela estava livre de si e de
nós. Não vos assusteis, morrer é um instante, passa logo,
eu sei porque acabo de morrer com a moça."(H.E, 86). Tal excerto
sugere-nos a enorme coincidência entre autor/personagem, bem como a
reversibilidade entre os membros deste par, já que os termos podem
ser transpostos de uma posição para outra, sem que este processo
implique em perda de função.
Do ponto de vista da escrita feminina, "este mecanismo
de cessão da voz narrativa a um homem, faz-se como um pretexto para
destruir internamente um discurso institucionalizadamente masculino".(BORGES:1999).
Daí a constante luta do narrador contra a pieguice que ele considera
feminina por excelência. Por outro lado, a androginia textual que se
instala mediante este processo, expressa um propósito de "conciliação
do masculino – feminino como um gesto novo de escrita". (Engelmann: 1996,
56).
Este exercício de concessão da voz a um narrador
masculino, faz-se através de um exercício para manter-se junto
a personagem (permanecer no nível da personagem) – no caso do narrador
(Rodrigo) e distante dela (no caso do Autor):
Agora não é confortável: para falar
da moça tenho que não fazer a barba durante dias e adquirir
olheiras escuras por dormir pouco, só cochilar de pura exaustão,
sou um trabalhador manual. Além de vestir-me com roupa velha rasgada.
Tudo isso para me pôr no nível da nordestina.
(H.E,19)
No fato de distanciar-se da personagem, deve-se dizer,distanciar-se
de seu excesso. Um excesso que se caracteriza por elementos ausentes, já
que sua natureza é lacunar.
Há uma estreita ligação entre o narrador
Rodrigo S.M e a protagonista Macabéa, como se insistiu ao longo deste
texto: "... e preciso falar dessa nordestina senão sufoco. Ela
me acusa e o meio de me defender é escrever sobre ela. Escrevo em traços
vivos e ríspidos de pintura." (H. E, 17).
O narrador Rodrigo S.M, não é só o narrador,
é a contraparte de Macabéa; sua identidade vai sendo paulatinamente
desdobrada através de Macabéa; ao falar de Macabéa, Rodrigo
S.M "se fala": "Pareço conhecer nos menores detalhes
essa nordestina, pois se vivo com ela. E como muito adivinhei a seu respeito,
ela se me grudou na pele qual melado pegajoso ou lama negra".(H. E, 21).
Acrescentando, o narrador ainda comenta que "a ação
desta história terá como resultado minha transfiguração
em outrem e minha materialização enfim em objeto." (H.E,
27), ou seja, é sugerido desde as primeiras linhas da
novela um possível travestimento, se é que assim, poder-se-á
tomá-lo. Deve-se dizer que o termo travestimento não será
utilizado aqui na acepção de transposição estilística
de caráter parodístico como surge veiculada, por exemplo, na
terminologia genettiana, mas como um processo de transformação
aparente do masculino em feminino e vice-versa.
Quanto ao possível travestimento do narrador em outrem,
deve-se dizer que, na constituição da presente narrativa, por
diversos momentos, o Rodrigo S.M profere sobre o fato da narrativa já
estar escrita, de algum modo, nele mesmo: "Ainda bem que o que eu vou
escrever já deve estar na certa de algum modo escrito em mim. Tenho
é que me copiar com uma delicadeza de borboleta branca".(H.E,
20)
Vale mencionar que a tarefa de escrever a narrativa, ou seja,
de se copiar, não é tão fácil como se pensa. Em
diversos momentos tem-se a representação de que ela é
bastante dolorosa, árdua, repleta de lutas, horas e horas se constituindo,
se desfacelando, se destecendo, se fragmentando, acompanhada do jogo de ficcionalização
e desficcionalização da narrativa:
Pois a datilógrafa não quer sair dos meus
ombros. Logo eu que constato que a pobreza é feia e promíscua.
Por isso não sei se minha história vai ser_ ser o quê?
Não sei de nada, ainda não me animei a escrevê-la.
Terá acontecimentos? Terá. Mas quais? Também não
sei. Não estou tentando criar em vós uma expectativa aflita
e voraz: é que realmente não sei o que me espera, tenho
um personagem buliçoso nas mãos e que me escapa a cada instante
querendo que eu o recupere. (H. E, 22).
Para se copiar, é imprescindível tomar cuidado,
como o narrador mesmo adverte, de se estar sobrevoando, de se estar em um
espaço tênue, entre o limiar do espaço térreo e
as alturas, ou seja, de estar no intervalo, no triz: ". . . com a delicadeza
de borboleta branca". Será com o intuito de não se contaminar,
de não se misturar, imbricar, o que, de fato, está tão
sub-repticiamente, contaminado, imbricado, como a noz e a semente?
Deve-se mencionar que em A hora da estrela há
todo um jogo, através do processo de ficcionalização
e desficcionalização do real. Em alguns momentos, tem-se uma
tentativa de justificar, de nomear e, de contar quantos e quem são
ou serão os possíveis personagens da novela, que possíveis
sinas as esperam e assim por diante. Contudo em outros momentos, o narrador,
quer fazer crer que a personagem construída, inventada, é passível
de ser real, ou melhor, de se constituir em realidade, para que todos "a
vejam, andando pelas ruas":
A história – determino com falso livre-arbítrio
– vai ter uns sete personagens e eu sou um dos mais importantes deles,
é claro. Eu, Rodrigo S.M. Relato antigo, este, pois não
quero ser modernoso e inventar modismos à guisa de originalidade.
Assim é que experimentarei contra os meus hábitos uma história
com começo, meio e ‘gran finale’ seguido de silêncio e de
chuva caindo." (H.E, 12-13). "De uma coisa tenho certeza: essa
narrativa mexerá com uma coisa delicada: a criação
de uma pessoa inteira que na certa está tão viva quanto
eu. Cuidai dela porque meu poder é só mostrá-la para
que vós a reconheçais na rua, andando de leve por causa
da esvoaçada magreza. (H. E, 19).
Reafirmando o que se anunciou no parágrafo anterior,
existe uma tentativa dupla de ficcionalização e desficcionalização
na presente narrativa; concomitantemente à descrição
de uma narrativa ficcional aparece também a desficcionalização
desta narrativa, na medida em que o narrador, a todo o momento, quer fazer
parecer que a Macabéa não é tão irreal assim,
já que é possível ir reconhecendo-a pouco a pouco, e
talvez, dentro de nós mesmos, no caso, os leitores. Contudo, por outro
lado, não nos deixa esquecer que se trata de uma narrativa que vai
se constituindo, na medida em que o narrador vai aventando e explicitando
os fatos, os recursos narrativos – digam-se "fictícios" ou
não – que lança mão para a construção de
sua narrativa.
Posteriormente, o narrador segue configurando a construção
da narrativa e, de modo velado, faz-se ler, ainda que implicitamente, uma
tentativa de sugerir que seu papel não é tão somente
o de escritor, mas, bem mais que isto – na medida em que, além de ser
uma das personagens principais (ou de dividir com a mesma o papel principal
– o "outro" dela mesma) – representa também aquele que conduz
até mesmo o respirar alheio: "Na verdade sou mais ator porque,
com apenas um modo de pontuar, faço malabarismos de entonação,
obrigo o respirar alheio a me acompanhar o texto".(H.E, 23). Este "ator",
em alguns momentos, assume a réplica dos leitores, representando o
papel de ser o "outro" de nós mesmos e, quem sabe, dele próprio?
Faz perguntas, assume comportamento, dúvidas que antes mesmo de os
leitores as pensarem, responderem e encenarem, ele (o narrador) já
as têm prontas, respondidas. Para utilizar um termo do teatro, o narrador
encena e contracena com ele mesmo, ou melhor, com os diversos "outros"
com os quais convive, seja dando por sua convivência, seja negando-a:
(Há os que tem. E há os que não
têm.É muito simples: a moça não tinha. Não
tinha o quê? É apenas isso mesmo: não tinha. Se der
para me entenderem, está bem. Se não, também está
bem. Mas por que trato dessa moça quando o que mais desejo é
trigo puramente maduro e ouro no estio?) (H.E, 25)
(Estou passando por um pequeno inferno com esta história.
Queiram os deuses que eu nunca descreva o lázaro porque senão
eu me cobriria de lepra). (Se estou demorando um pouco em fazer acontecer
o que já prevejo vagamente, é porque preciso tirar vários
retratos dessa alagoana. E também porque se houver algum leitor
para essa história quero que ele se embeba da jovem assim como
um pano de chão todo encharcado. A moça é uma verdade
da qual eu não queria saber. Não sei a quem acusar mas deve
haver um réu) (H.E, 39)
No tocante ao tempo, na presente narrativa, deve-se destacar
que ele é totalmente ambíguo e, parece obedecer ao mesmo jogo
de ficcionalização e desficcionalização já
sugerido inicialmente. Aliás, é em conseqüência deste
jogo de ficção e não-ficção que se justifica
a noção do tempo aqui empregada:"Quero acrescentar à
guisa de informação sobre a jovem e sobre mim, que vivemos exclusivamente
no presente pois sempre e eternamente é o dia de hoje e o dia de amanhã
será um hoje, a eternidade é o estado das coisas neste momento."(H.E,
18)
Anteriormente, ou seja, nas páginas
iniciais da narrativa, o narrador havia sugerido que o tempo da narrativa
é o próprio da narração. Veja-se: "Como que
estou escrevendo na hora mesma em que sou lido." (H.E,12). A todo o momento,
percebe-se que os elementos que "deveriam" localizar, referir-se
– os chamados dêiticos – cumprem mais a tarefa de não-localizar,
ou localizar, dubiamente, enveredando os leitores para um caminho não
marcado temporalmente, ou marcado com tendência a não-marcar:
"Mas voltemos a hoje. Porque, como se sabe, hoje é hoje. Não
estão me entendendo e eu ouço escuro que estão rindo
de mim em risos rápidos e ríspidos de velhos." (H.E, 20).
O transcorrer do tempo, dos dias também é sugerido
de forma ambígua: "Enquanto isso – as constelações
silenciosas e o espaço que é tempo que nada tem a ver com ela
e conosco. Pois assim se passavam os dias. (H.E, 31)". "E assim
se passava o tempo para a moça esta" (H.E, 27).
É importante destacar, ainda, com referência
ao tempo, que o mesmo se apresenta duplo, já que tanto se refere ao
próprio tempo da construção da narrativa – em que se
dispende para escrevê-la, para compor as personagens e a própria
ficção – quanto ao tempo cronológico, específico
da personagem e do narrador e de sua inserção na realidade pretensamente
evolutiva, histórica. O próprio narrador retoma esta questão,
nas páginas iniciais da novela:
Pergunto-me se eu deveria caminhar à frente do
tempo e esboçar logo um final. Acontece porém que eu mesmo
ainda não sei bem como esse isto terminará. E também
porque entendo que devo caminhar passo a passo de acordo com um prazo
determinado por horas: até um bicho lida com o tempo. E esta é
também a minha primeira condição: a de caminhar paulatinamente
apesar da impaciência que tenho em relação a essa
moça. (H.E,16)
O emprego do tempo, a ficção e a não-ficção,
bem como o processo de travestimento, de se transfigurar em outrem, ou melhor,
de se configurar em um "outro" de outrem, está muito bem
sugerida em A hora da estrela. Em diversas ocasiões encontra-se
o narrador se incluindo, se assumindo como o "outro". Nas passagens
seguintes tem-se uma possível amostra do que se tem sugerido até
o momento:
"Agarrava-se a um fiapo de consciência
e repetia mentalmente sem cessar: eu sou, eu sou, eu sou. Quem era é
que não sabia. Fora buscar no próprio profundo e negro âmago
de si mesma o sopro de vida que Deus nos dá.(H. E, 84)".
"Ela estava enfim livre de si e de nós" (H. E, 86).
"Nestes últimos três dias, sozinho,
sem personagens, despersonalizo-me e tiro-me de mim como quem tira uma
roupa. Despersonalizo-me a ponto de adormecer".(H. E, 70).
Retomando a questão da transfiguração,
do travestimento do narrador em personagem e vice-versa; mais uma vez, tem-se
a sugestão de que narrador e personagem estão intimamente misturados,
tal como denuncia o fragmento que segue:
Para desenhar a moça tenho que me domar e para
poder captar sua alma tenho que me alimentar frugalmente de frutas e beber
vinho branco gelado pois faz calor neste cubículo onde me tranquei
e de onde tenho a veleidade de querer ver o mundo. Também tive
que me abster de sexo e de futebol. Sem falar que não entro em
contacto com ninguém.Voltarei algum dia à minha vida anterior?
(H.E, 23).
É como a pele que aderiu à noz. Findo o espetáculo
para Macabéa, metaforizado pelo estrelato: estrela de mil pontas estilhaçada
em várias direções, assim finda também para Rodrigo
S.M., seu "autor".
É negada a Macabéa a condição
de ser fêmea, os ideais estabelecidos para o feminino, não correspondem
às suas proporções. Macabéa é "como
um cabelo na sopa não dá vontade de comer". Por outro lado,
Glória encarna os padrões estabelecidos para o feminino. É
desejada, representa o que o "outro", no caso, o masculino deseja:
"carnes fartas". "Pelos quadris adivinhava-se que seria boa
parideira"(H.E,60). Diferentemente, se configurava Macabéa, já
que tinha ovários murchos, além de não se mostrar feminina.
Macabéa incomoda Olímpico com toda sua negatividade, sua não-feminilidade,
mas, por outro lado, incomoda-nos ainda mais. E, é , nesse sentido,
que a personagem ganha em autonomia; não realiza os desejos de Olímpico
– de fêmea nutriz, ou seja, não corresponde aos desejos encarnados
para o "feminino," no caso por Olímpico, nem tampouco a efetivação
dessas mesmas possibilidades. A personagem deseja ser desejada, mas tal experiência
fica circunscrita à experiência individual da falta, da ausência,
ou seja, fica restrita aos sonhos, devaneios da personagem – É só
no sonho, que Macabéa, aparentemente, "supre" sua ausência,
sua natureza lacunar, já que simbolicamente parece realizar um íntimo
e intuitivo desejo de ser mulher, de se configurar em "outro" que
não ela mesma.
Como se observa, na própria fala do narrador: Macabéa
engravida a si mesma, ao negar-se para o "outro" (Olímpico),
nega-se a exteriorizar uma possível feminilidade, constituindo assim
numa estranha positividade. Negar-se ao desejo do outro talvez seja o maior
mérito desta personagem, toda constituída por lacunas. O valor
positivo de Macabéa, talvez seja o da supressão da falta, o
da manutenção das lacunas. (Cf. BORGES:1999). Macabéa
permanece lacunar, não lhe é permitida a continuidade pela espécie.
Por outro lado, tanto Glória quanto Olímpico encarnam papéis
de seres "nutrires", tanto um como o outro possui a capacidade de
se perpetuarem pela continuidade da espécie, o que, analogamente, como
já se discutiu, é negado a Macabéa. "Olímpico
era um diabo premiado e vital e dele nasceriam filhos, ele tinha o precioso
sêmen. E como já foi dito ou não dito, Macabéa
tinha ovários murchos como um cogumelo cozido"(H.E,58-59).
Quanto às iniciais do narrador, deve-se dizer que
elas não são aleatórias nesta novela: "o que, com
efeito, importa é o que é dito, não quem o diz: as relações
de linguagem e o que subentendem, não o sujeito ocasional que as profere".(TADIÉ:
1992, 67). Acrescentando J.Yves Tadié comenta que as iniciais constituem
em um poderoso factor de despersonalização, de desindividualização,
de desrealização.
Poder-se-ia ainda entrever que tal observação
vale tanto para as iniciais de personagens, quanto para o narrador, que é
o que interessa, neste momento. Rodrigo S.M, não é tão
somente um narrador, ele é o narrador sem individualidade exterior;
o que conta não é esta exterioridade, mas o que o anonimato
vai-lhe permitindo exibir por dentro, o que lhe vai à alma, no pensamento.
E, este peculiar anonimato, nos é revelado pela palavra, pela linguagem,
pela articulação, pelo arranjo desse discurso dúbio,
duplo. Tanto assim o é que, nas diversas caracterizações
exteriores de Rodrigo, ele se acha refletido por um espelho e, como toda e
qualquer imagem especular, se acha invertida. Rodrigo se encontra em Macabéa,
e Macabéa se reflete como um Rodrigo, de aparência "cansada
e barbudo". Nenhum dos dois chega a ter individualidade própria,
Macabéa um tantinho mais que Rodrigo, ou seria o inverso? Macabéa,
no final da narrativa, morre e ao morrer mata também seu autor, no
caso Rodrigo.
Cumpre ressaltar ainda, que o presente anonimato, garantido
em parte, pelo jogo com as iniciais do nome do narrador, revela que ele (o
anonimato) e a cumplicidade, não são só do narrador/
personagem, mas do leitor/autor; autor/ personagem; leitor/ narrador/ personagem/autor,
não importando a ordem dos fatores, mas sua eterna reversibilidade,
bem como o desafio de se colocar no lugar do "outro": ("Se
o leitor possui alguma riqueza e vida bem acomodada, sairá de si para
ver como é às vezes do outro ... Bem sei que é assustador
sair de si mesmo, mas tudo o que é novo assusta..." ( H.E, 30).
É sabido que o exercício empreendido pelo narrador,
de se manter próximo a Macabéa e, ao mesmo tempo, distante dela,
não é nada fácil, tantas vezes sugerido pelo Rodrigo
S.M. Se o exercício de se aproximar dela é desgastante, ficar
sem ela também é motivo de falta, de necessidade: "Nestes
últimos três dias, sozinho, sem personagem, despersonalizo-me
e tiro-me de mim como tira uma roupa. Despersonalizo-me a ponto de adormecer".(H.
E, 70). É só se livrando de uma de suas "personas",
de tanta exaustão que Rodrigo consegue descansar e acaba por adormecer
um pouco. Entretanto, logo em seguida, na narrativa (três dias, no tempo
discorrido ficticiamente pelo narrador), o mesmo (narrador) já sente
falta de sua Macabeazinha, e decide, novamente retomar a personalização,
o uso da persona.
É preciso lembrar que, no conjunto, a presente narrativa
possui uma identidade não andrógina, embora o processo narrativo
se revele desse modo, percebe-se, no todo, que há uma voz feminina,
ainda que a mesma sirva-se de um narrador duplo como se procurou sugerir até
o momento.
Nesse sentido, há uma particularidade discursiva no
interior desta obra, uma vez que ela utiliza um expediente um tanto quanto
paradoxal – narrador andrógino – mas narrativa, predominantemente,
com temática e problemática, de certo modo, voltada para o feminino,
ou seja, se faz ouvir uma dicção feminina na presente narrativa.
Será que, poder-se-ia vislumbrar, nesta atitude, uma necessidade de
se criar uma obra harmônica, um discurso congregando o duplo, a eterna
procura da perfeição, da completude de se unir os dois gêneros:
tanto o masculino quanto o feminino, em uma única narrativa? Preferiu-se
deixar a indagação em aberto, pois, mais que seguir uma resposta,
um único caminho, é imprescindível deixá-lo a
ser escolhido.
3- CONCLUSÃO
A relação com o "outro" como se procurou
tornar possível na presente leitura, não é pautada pela
harmonia, mas justamente o inverso, se apresenta conflituosa, dolorosa, fragmentada,
multifacetada.
Macabéa representa não
somente uma feminilidade negada, como também a não perpetuação
da espécie. Sua espécie, diga-se lacunar por essência,
se finda, não consegue prosseguir. Se, por um lado, Glória –
sua colega de trabalho – representa tão somente o que o "outro"
almeja, no caso as aspirações patriarcais de Olímpico,
sugerindo assim que o corpo da mesma (Glória) está interdito
por apenas satisfazer às estas mesmas aspirações – os
desejos masculinos, por outro lado percebe-se que Macabéa permanece
neste sentido, neutra: não realiza nem as pretensões patriarcais
de Olímpico, nem tampouco a efetivação dessas mesmas
possibilidades.
O que se demonstrou com este olhar, entre os vários
possíveis para a presente novela, seria a noção de travestimento
presente na obra A hora da estrela, ou seja, um narrador andrógino
– aparentemente masculino, mas que implicitamente se transfigura em feminino
–, seja no modo como concebe a noção de narrador, seja a temática,
propriamente feminina, contradições subentendidas na composição
da narrativa: seco/úmido (dureza masculina versus a pieguice tida como
feminina por excelência).
Resta mencionar que, apesar de se ter uma possível
dubiedade narrativa em A hora da estrela, a mesma, como se demonstrou,
fica circunscrita apenas à narração, já que, no
conjunto, ainda se faz notar uma dicção feminina, seja da temática,
seja do modo como a autora articula o discurso e a teia narrativa, sugerindo
a eterna busca harmônica; quem sabe agora, possível na narrativa?
E passa a congregar, assim, em uma mesma narrativa, ambas vozes, tanto masculina
quanto feminina.
4- REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS
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TADIÉ, J.Yves. O romance no século XX.
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Índice:
Cativos, Mulatas e Calhambolas - Um estudo sobre a temática negra no Romantismo Brasileiro
Walter De Souza Lopes
Universidade Federal do Rio de Janeiro A dubiedade narrativa em Clarice Lispector: Um olhar sobre a hora da estrela
Fabiana Rodrigues Carrijo
Universidade Federal de Uberlândia
Prosa de Ficção Feminina Pós 64 no Brasil
Marcia Cavendish Wanderley