|
Resumo: No final do século passado, tinha-se muito mais esperança e confiança no futuro do que atualmente. Acreditava-se principalmente que a ciência e o triunfo da razão trariam paz e progresso. Dava-se asas à imaginação e pensava-se que o futuro realizaria as suas promessas: iluminação elétrica para as casas, as máquinas possibilitando deslocamentos rápidos, como com o trem e o automóvel, uma revolução através dos remédios, uma maior união dos indivíduos através do patriotismo, o telefone, facilitando as comunicações a distancia, as indústrias tornando-se cada vez mais poderosas e os jornais descobrindo a publicidade. Tudo indicava a proximidade de um novo século de progresso material e da celebração da vida. Muitos acreditavam ainda ser possível mudar o mundo através da razão. Cem anos depois, somos mais modestos, não nos preocupamos tanto em querer mudar os poderes podres do mundo; os valores contemporaneos são pautados pela quantidade do que se pode consumir; o conformismo proporcionado pelos valores materiais estereliza as singularidades e as ambições ideológicas do indivíduo, criando o preconceito contra os mais desprovidos.
Texto:
ANGELA MARIA DIAS
MOSAICO DE AGRESSÕES
GILBERTO ROCHA
Sociedade Espaço Brasileiro de Estudos Psicanalíticos
Société Internationale dHistoire
de la Psychanalyse et de la Psychiatrie
A pergunta que Freud lançou em seu livro O mal-estar na civilização
faz-s
e novamente: será que o supereu continuará conseguindo
administrar o manejo de nossas pulsões destrutivas para continuar assim
sua convivência com a cultura? (Freud, Sigmund, 1969, v. 21, p. 36). Isso
quer dizer, que cada vez mais, o ser humano terá de produzir novas formas
de subjetivação para manejar as propriedades das pulsões
agressivas/destrutivas? E se os manejos faltarem, estaremos novamente num mundo
darwiniano onde a sobrevivência é o bem supremo?
Existem formas de o indivíduo relacionar-se com a agressividade
na vida que são valorizadas, enquanto outras não o são.
Umas são banidas, outras aceitas, dependendo das circunstâncias
e do momento do processo civilizatório. Mas, uma coisa é certa,
um mundo sem delinqüência, disputas, assassinatos, um mundo sem crueldade,
sem destruição, sem transgressões, sem complexo de Édipo
seria um mundo impossível.
Muitas dessas situações agressivas não
podem nos levar para outro lugar senão o do mal-estar mencionado nas
reflexões do psicanalista austríaco, que em seu livro, publicado
em 1930, nos relata a oposição existente entre a agressividade
e a civilização (FREUD, S., v. 21, p. 68). Mais tarde, encontraremos
trabalhos que começarão a dar importância ao aprofundamento
do estudo da positividade da agressividade e priorizarão essa outra forma
de manifestação das pulsões agressivas que viabiliza a
convivência com a cultura. Porém, não é objeto desse
estudo a questão psicanalítica das várias combinações
entre a pulsão de vida e de morte.
Parece ser o caso de alguns profissionais, tais como médicos-cirurgiões,
açougueiros, policiais e tantos outros. Figuras sociais nos quais as
pulsões agressivas/destrutivas encontram-se constantemente em situação
de descarga, portanto em situação de controle, disciplinadas,
quase dominadas. Abraçar uma carreira profissional na qual o sujeito
está constantemente manipulando sua agressividade parece, em primeiro
lugar, uma forma de poder exercer mais intensamente sua porção
agressiva, e, em segundo, uma forma de não renunciar ao prazer que está
associado a essa descarga.
Existem formas de manejar a força destrutiva das pulsões
agressivas dentro de um mesmo grupo de pessoas. Uma delas, a eleição
de um inimigo comum, é uma maneira já muito consagrada pela cultura
neste século XX para o manejo das pulsões agressivas/destrutivas.
É interessante notar que a eleição de um inimigo comum
em determinada sociedade não diminui a violência; somente a faz
mudar de direção, pois ela agora estará direcionada para
o inimigo. Nessas situações, existe uma realocação
da pulsão de morte orientada para o exterior e em hipótese alguma
uma saída ou mesmo enfraquecimento da intensidade da agressividade humana.
Pode-se diminuir a destrutividade entre os membros de determinado grupo, mas
por outro lado não se consegue diluir a pulsão agressiva que é
redirecionada para outro lugar. O futuro de paz que o final do século
XIX anteviu para o século seguinte, tornou-se, então, o futuro
de uma ilusão, pois foi o século XX que, em termos de atrocidades
e extermínios, auxiliados pela teconologia, possivelmente superou as
centenas de séculos que o antecederam. Alguns autores, entre eles Peter
Gay, apontam o amor pelo próprio país e o ódio aos inimigos
(o patriotismo), como um dos maiores álibis da cultura para criação
de situações agressivas/destrutivas testemunhados pela história
universal: "O amor ao próprio país e o ódio aos inimigos
se mostraram as mais potentes racionalizações para a agressão
que foram produzidas ao longo do século XIX, conquistando a dúbia
honraria de ser o álibi dos álibis" (Gay, Peter, 1993, p.
518).
1. Mídia e poder
Michel Focault nos chama atenção, em seu livro
A história da sexualidade I, para o fato de que, em nossa cultura,
a proibição, além ou por causa do fascínio que exerce,
faz-se geralmente acompanhar de uma proliferação discursiva. (Foucault,
Michel, 1976, p. 61). É o caso da sexualidade, e também o da agressividade.
Percebemos que a proliferação discursiva sobre a agressividade
humana cada vez ganha mais espaço na mídia. Por que a mídia
veicula tanta destrutividade através de sua programação?
Será porque assim ela reflete a agressividade que se encontra latente
em sua clientela? Podemos dizer que a mídia é uma grande divulgadora
da agressividade humana, pois, ao assistir a um noticiário na televisão,
o espectador vai percorrer um mundo em que a agressividade transforma-se num
espetáculo, velado ou não. Hoje os noticiários refletem
um mundo repleto de disputas e violência: guerras, atentados, imagens
de um indivíduo apanhando geralmente sozinho de pequenos grupos uniformizados,
a política da violência, a violência política, suicídios
e execuções (sejam ou não legais) são alguns exemplos.
As execuções públicas, na época
clássica, tinham poder de espetáculo e sempre deram vazão
à dramaticidade que às vezes acompanham as pulsões agressivas.
Michel Foucault descreve, em Vigiar e punir (Foucault, M., 1975, p. 14),
quanto podiam ser cruéis os suplícios impingidos na punição
através do castigo-espetáculo ocorridos até o final do
século XVIII e início do século XIX. Atualmente, continuamos
às voltas com o crime-espetáculo, que de certa forma não
deixa de ser, no essencial, uma variação do mesmo espetáculo,
o espetáculo da agressividade que, na época clássica, ocorria
em praças públicas. Atualmente, através dos meios de comunicação
de massa, ela acontece na privacidade acolhedora na própria casa do indivíduo.
Pode-se notar facilmente como os meios de comunicação
servem de suporte, investem e enriquecem as notícias sobre violência,
em seu poder de sedução através do espetáculo. Estas
notícias são o prato principal e predileto da mídia, que
sabe que os patrocinadores não desconhecem que essas informações
refletem a agressividade do sujeito e exercem um tipo de atração
que se mantém através da intensificação e reprodução
das notícias sobre violência. A avalanche desse tipo de notícia
acaba banalizando, quase que absorvendo e assimilando o roubo, o assassinato,
o estupro no nosso dia a dia da atualidade.
2. Alguns formas de convivência entre a pulsão
de morte e a civilização
Existem várias maneiras de tentar contornar o problema
da desagregação social causada pela pulsão de morte dentro
de uma sociedade. O planejamento urbano, a arquitetura e a tecnologia podem
ser considerados alguns exemplos.
Dependendo da estrutura urbana de uma cidade, pode-se estimular
ou diminuir as condições que permitam o surgimento de acontecimentos
que envolvem a descarga da pulsão de morte/destruição.
O planejamento urbano pode contribuir sobremodo para diminuir a tensão
do narcisismo das pequenas diferenças através da mistura de diversos
grupos étnicos ou de classes sociais diferentes, estimulando-os à
convivência, ajudando-os e incentivando-os. Facilita-se o convívio
entre eles para tentar dessa forma ajudar a diminuir o índice de criminalidade
do lugar em que habitam. (Sennett, Richard, 1994, p. 19).
Outra contribuição vem da arquitetura urbana
através dos shoppings e condomínios que são construídos
com a finalidade, entre outras coisas, de criar "ilhas contemporâneas
de segurança" contra a violência. Essas áreas mais
vigiadas e protegidas conseguem diminuir e evitar a violência que vem
de fora desses lugares, porém não conseguem inibir de forma alguma
a violência existente nas pessoas que as freqüentam. Outro exemplo
na tentativa de manejo e convívio com a força destrutiva da pulsão
de morte acontece no Rio de Janeiro. Depois de uma volta pela cidade, o recém-chegado
turista poderá pensar o seguinte: Por que a maioria dos edifícios,
casas e praças nesta cidade são cercados por grades? Será
que, na verdade, o neófito está constatando alguma coisa que poderíamos
chamar de arquitetura urbana da agressividade, onde a ordenação,
possibilitada pela arquitetura, cria e impõe suas regras para docilizar
os corpos?
O culto da agressividade aos poucos desenvolveu também
a indústria da violência e seu poder político. Os produtos
dessa indústria continuam em franca expansão, motivada pela procura
do mercado consumidor. Seguranças armados, câmeras vigilantes,
alarmes, grades, carros blindados, armas com tecnologia avançada, seguros,
são assimilados pela cultura ocidental contemporânea como "comuns"
e "normais" em nosso cotidiano. A indústria da vigilância
e do controle, por exemplo, coloca suas câmaras de vídeo nos ambientes
públicos, nos lugares de comércio e de negócios. Essa forma
de vigilância cria a situação de que todos devem ser filmados,
por prevenção, de que todos em princípio são suspeitos.
Essa "indústria" exerce um tipo de poder, com o registro do
olhar tecno-panóptico, que tem por fim vigiar para assegurar e prevenir.
Acredita-se que a tecnologia é melhor do que os duvidosos resultados
da investigação policial. Portanto, todos devem ser vigiados e
controlados, pois as pulsões destrutivas podem estar à espreita,
aguardando condições para inesperadamente revelar a sua face.
3. Submissão e agressividade
Desde o início da Psiquiatria tem-se um bom exemplo
de como as normas disciplinadoras, através da agressividade, conseguem
dominar, submeter e domesticar os corpos para dar conta de uma intimidade que
se apresenta rebelde e indisciplinada. O enclausuramento, cirurgias, eletrochoques
com caráter punitivo, abuso de autoridade e outras tantas agressões
infinitesimais que se explicavam como terapêuticas, foram recursos fartamente
usados na história da Psiquiatria (Rocha, Gilberto S., 1989, p. 86) ainda
resistindo em alguns redutos.
A agressão, principalmente a física, exige,
geralmente, que um dos componentes da situação agressiva seja
mais forte que o outro. Daí, o peso da violência recair principalmente
nos velhos, nas mulheres e nas crianças, que são figuras sociais
desprovidas de força física. O que se entende por violência
atualmente se ampliou para dar conta das novas formas de violência e sujeição
do indivíduo. É considerada violência contra a pessoa o
fato de crianças com idades as mais variadas (desde por vezes os 6 ou
7 anos), trabalharem em período escolar. Isto acontece principalmente
em zonas rurais de países com desenvolvimento lento. Essas crianças,
ao invés de estudarem, vêem-se na condição de terem
que colaborar no parco orçamento da sua família para poderem seguir
vivendo. Subtrair a oportunidade de uma criança e desenvolver parece
ser o objetivo de políticas conservadoras e, no caso do Brasil, também
corruptas, que, através deste "manejo", cria um mercado de
trabalho barato e cativo. Essas políticas de sujeição e
alienação do indivíduo à ignorância e à
pobreza, tem como único intuito dificultar o aparecimento das condições
de possibilidades, para o indivíduo poder sair de sua condição
miserável. Isso nos indica, por um lado, uma forma de exploração
que leva a criança a submeter-se ao universo das pulsões agressivas/destrutivas
do adulto. Por outro lado, no lugar de poder do assujeitador, as pulsões
agressivas encontram-se canalizadas para a obtenção de prazer,
através da sujeição do outro e da obtenção
de lucros financeiros resultante disso.
Antigamente, as pulsões agressivas eram justificadas
como disciplinadoras, fazendo com que muitos filhos, escravos, alunos, colonizados
tenham provado do "estalar " do chicote, da vara de marmelo, do chinelo,
do cinto, ou mesmo da palmatória. O castigo corporal foi e é mantido
como o melhor e mais rápido restabelecedor de autoridade por parte de
quem infringe a punição, e faz parte também do que chamamos
de pedagogia pelo medo. Um certo prazer nesse exercício de poder através
do castigo corporal existe, e, na verdade, no que diz respeito aos castigos
corporais que ocorrem na educação dos filhos, é uma prática
que jamais foi totalmente abolida pelos pais. Na atualidade da cultura ocidental,
ela caiu em desuso, mas o menor sentimento de perda de autoridade faz com que,
tal como Fênix, o "ultrapassado" castigo físico ressurja
das cinzas. Com o fim de um tipo de servidão humana no Brasil chamada
de escravidão do trabalho negro, as pulsões agressivas dos açoitadores
tiveram que mudar de objeto de descarga. Talvez seus filhos, suas mulheres,
seus animais domésticos tenham sentido na própria pele a abolição
do trabalho escravo no final do século XIX.
A sujeição através do castigo físico,
no Brasil de hoje, ficou mais hipócrita. Existe, geralmente, atrás
dos muros das penitenciárias, das delegacias, das casas de correção
para menores, nessas "ilhas de privacidade" onde a violência
física e mental andam unidas. Somado ao espancamento, hoje temos, nas
prisões, um novo instrumento de castigo físico: a superlotação
das cadeias que, junto com a pancadaria nos corpos, constitui-se um instrumento
eficiente de controle assujeitador e boicotador da auto-estima dessas pessoas
que, em sua esmagadora maioria, são integrantes das classes populares.
Tenta-se, assim, reduzir o sujeito à sua insignificância e conduzi-lo
a uma disciplinada docilidade alcançada e mantida sob controle e vigilância
à base de muita pancada por parte das estruturas de contenção.
Nessas "ilhas de privacidade", o sujeito será reprimido através
de castigos corporais exemplares, que também são receitados pelos
aparelhos de repressão de uma forma geral para diminuir o sentimento
de onipotência, de arrogância e de auto-estima. Ou seja, uma forma
de aniquilação psíquica.
A violência contra a velhice pode ser não só
física, como também uma forma que ataca psicologicamente o velho.
Por exemplo, a violência por motivos econômicos cria no sujeito
repetidas vezes um sentimento de estar em depressão. É comum,
em países com seus "sistema de previdência social falido",
aviltar e diminuir os ganhos dos aposentados. Uma violência legalizada
pela globalização, que atinge as pessoas no final de suas vidas,
comprometendo sua alimentação, habitação, lazer
e bem-estar. Eles são colocados numa condição difícil
de dependência e fragilidade, num mundo de muita disputa, intolerância
e pouca solidariedade.
Na história da cultura brasileira, as mulheres foram
bastante molestadas fisicamente. Estupros, pancadaria, assassinatos sexuais...
Até cinqüenta anos atrás, principalmente no interior, era
difícil um homem ser condenado pela justiça por matar sua mulher.
A vingança de ser traído pela mulher com outro homem terminava
com freqüência em assassinato. Sem sombra de dúvida, se ele
pertencesse à elite, certamente sua sentença já seria conhecida
desde o princípio do julgamento. Inocente!, por exercer seu direito de
honra de ser homem e assim jamais ser traído em sua sexualidade, virilidade,
ou potência. Era uma ameaça de morte concreta para a mulher. Uma
ameaça democrática, que se infiltrou desde as camadas mais ricas
e poderosas até as mais pobres e miseráveis. Tal poder dava, assim,
ao sexo masculino, veladamente, o poder de direito sobre a vida e a morte da
mulher, tal como o espírito que reinava entre o soberano e seus súditos
na época clássica. Com sua superioridade física, o homem
tomou o corpo da mulher como extensão do seu próprio corpo, sua
propriedade, "o quintal de sua casa" e os abusos contra a mulher,
estupros, pancadarias, assassinatos, eram vistos e sentidos como algo que não
deveria sair do âmbito de sua privacidade, não poderia tornar-se
público. O machismo preponderante fornecia ao homem dessa época
bons álibis para exercer sua crueldade no corpo da mulher. Além
disso, as histórias de traições repetidas constituíram-se
em motivos para piadas e chacotas. Despertavam, alimentavam a imaginação
e a curiosidade das pessoas. Essas histórias inicialmente foram aproveitadas
pelos jornais e romancistas para vender, e atualmente são muito utilizadas
pela mídia eletrônica, principalmente pelas novelas.
Finalizando, estas considerações sobre a agressividade
foram concebidas para mostrar alguns exemplos de exigências das pulsões
agressivas que às vezes se encontram em antagonismo com o processo civilizatório,
mas que em outras podem estar conciliadas com as restrições impostas
por esse mesmo processo. Trata-se, portanto, de uma tentativa de pensar algumas
formas da pulsão de morte que estão presentes na atualidade, num
país como o nosso, abaixo dos trópicos, e inserido nos valores
da civilização ocidental.
____
Este artigo baseia-se no ensaio de minha autoria publicado
na revista on-line do Colóquio États-Généraux
de la Psychanalyse, Paris La Sorbonne, realizado em julho de 2000, com
o título de "Mosaïque dAgressions".
____
NOTAS AO TEXTO
Freud, Sigmund. O mal-estar na civilização.
Rio de Janeiro, Imago, 1969. 24 v. v. 21.
Foucault, Michel. LHistoire de la Sexualité
I La volonté de savoir. Paris, Gallimard, 1976.
-----. Surveiller et punir. Paris, Gallimard, 1975.
Gay, Peter, The cultivation of hatred The bourgeois
experience III - Victoria to Freud. New York, W.W. Norton, 1993.
Rocha, Gilberto S. Introdução ao Nascimento
da Psicanalise no Brasil. Rio de Janeiro, Forense Universitária,
1989. p. 86.
Sennett, Richard. Carne e pedra o corpo e a cidade
na civilização ocidental. Rio de Janeiro, Record, 1994.
|