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Resumo: Texto:
ANGELA MARIA DIAS
O Discurso literário-religioso em Juiz de Fora no início do
século XX
Geysa Silva
Universidade Federal de Juiz de Fora
A pesquisa, O discurso literário-religioso em
Juiz de Fora no início do século XX, vem
acusando uma presença marcante da teodicéia cristã, no
período e na cidade em questão. Neste sentido, acredita-se que
os estudos até agora desenvolvidos apontam diversos caminhos e atalhos
que são tangenciais do projeto matriz e que podem servir de condutores
a uma primeira abordagem da obra de Murilo Mendes. Partindo do princípio
de que existe uma certa correlação entre fatos históricos
e correntes do Saber, basta indagar quais eram as grandes tendências,
no início deste século, para visualizarmos o espaço dentro
do qual se tocavam os caminhos do pensamento. De um lado, acelera-se o processo
de industrialização, com seus aspectos positivos e negativos:
avanços da ciência e da tecnologia, desemprego e exploração
da força de trabalho. De outro, na filosofia, o positivismo produz um
alinhamento que se cristaliza em atitudes semelhantes às vivenciadas
pela religiosidade, ensejando o confronto entre anarquistas e contra-iluministas,
acirrando os debates e provocando atitudes de extrema agressividade, em ambas
as partes.
No caso de Juiz de Fora, cidade situada na Zona da Mata mineira,
a proximidade com o Rio de Janeiro, que se pretendia uma nova Paris, e a instalação
de fábricas diversas fizeram com que a população vivenciasse
transformações sensíveis em sua religiosidade. Pode-se
dizer que a expansão do capital e a chegada maciça de imigrantes
europeus relativizaram os conteúdos religiosos, que perderam sua realidade
objetiva e passaram a ser assunto de indivíduos, isto é, deixaram
de lado o cosmos ou a História para ligar-se à existência
individual.
Destaca-se, com facilidade, na expressão religiosa de
Juiz de Fora, a importância dos católicos, que constituem a maioria
da população local e têm, como reduto ideológico,
as ordens redentorista e sacramentina, cuja popularidade se assentava na palavra
e na ação dos padres Júlio Maria de Morais Carneiro e Júlio
Maria de Lombaerde, que, embora não pertencesse ao clero local, tinha
seus discursos e livros, lidos e discutidos. Acrescente-se, ainda, o papel desempenhado
pelo jornal "O Pharol", que retrata, em suas páginas, as modificações
sofridas pela religiosidade em artigos escritos em linguagem parnasiana e fortemente
tendenciosa.
Estabelecendo um diálogo entre religião e literatura,
foi possível traçar novas perspectivas de leitura desses discursos,
indiciando uma compreensão interdisciplinar do texto poético,
que ultrapassa a historicidade ou a imanência da narrativa.
Vivenciando o crepúsculo de uma era e o surgimento de
outra (a modernidade), Juiz de Fora, no início do século XX, se
reflete nos discursos que redefinem as obrigações religiosas do
catolicismo e redefinem o próprio conceito de Deus, nem sempre pensado
como fundamento de tudo e de todos, o que vai despertar a reação
dos convictos.
A presença real! A permanência de Jesus Cristo
Na terra! A sua perpétua coabitação com
os homens!
[...] O espírito que se fortalece neste mistério
quase
que sente despedaçados os grilhões da carne e
vai,
nas regiões do infinito, pedir aos anjos que cantem
a fortuna e a glória da humanidade
(Júlio Maria, 1905, p. 106-7).
A industrialização plenifica a era dos homens
como construtores de seus atos, era exemplificada em O Pharol, mas perde-se
a noção de uno e de todo, cuja busca se exibe tanto nos sermões
dos dois padres Júlio Maria, como no existencialismo religioso de Murilo
Mendes. Religião e literatura, ética e estética emaranharam-se
sem conseguir gechar o abismo das novas situações, provocadoras
de uma nova consciência.
Se, na Idade Média, por exemplo, tinha-se uma teodicéia
que explicava e mantinha unido o mundo, a modernidade inaugurava um mundo que
é de alguns e que tem de competir com o mundo dos outros. Luteranos,
presbiterianos e metodistas, além dos anarquistas, exibiam a proliferação
de crenças e a presença do ateísmo, na fragmentação
de atitudes diante dos mistérios da vida. Uns e outros acenavam com a
utopia da justiça para todos e com a realização das possibilidades
individuais. É sobre essa conjuntura sócio-histórica que
se faz a pesquisa de O discurso literário-religioso em Juiz de Fora
no início do século XX.
Estudar as obras dos católicos, os artigos de O Pharol,
ou as manifestações dos anarquistas exige um compromisso de muitas
direções, que mal começam a ser vislumbradas. Tendo como
suporte dos "corpora", os arquivos da biblioteca dos redentoristas,
do Centro de Estudos Murilo Mendes, da biblioteca municipal e do próprio
arquivo histórico da Universidade Federal de Juiz de Fora, a pesquisa
procura mostrar como esses discursos religiosos influíram na formação
de Murilo Mendes, de vez que sua família era católica praticante
e sua casa freqüentada pelos padres, especialmente pelo padre Júlio
Maria de Moraes Carneiro.
É preciso, entretanto, esclarecer que usaremos a palavra
discurso como linguagem em interação, pois os sentidos produzidos
por um texto não nascem em seu autor, este apenas o retoma. Como afirmam
os lingüistas, a linguagem não é somente meio de comunicação
e/ou expressão; ela é um espaço de conflito onde se realizam
lutas ideológicas. Nossa questão é, pois, caracterizar
o discurso religioso, encontrar marcas formais que explicitem seu funcionamento,
porque, ao lado da já discutida relação entre religião
e cultura, apresenta-se hoje, para os estudiosos em geral, a relação
entre religião e literatura, adentrando a crítica acadêmica
(principalmente nos Estados Unidos), apoiada na necessidade de novas interpretações
do texto poético.
Sabe-se que o discurso religioso é, por sua especificidade,
autoritário, procurando absolutizar um sentido de tal maneira que se
torne o único e, por conseguinte, sua polissemia é contida. Em
se tratando do discurso católico, a performatividade, que considera a
linguagem como ação, é exercida pelos padres que falam
sempre "no lugar de". A palavra detentora da verdade requer a crença
e faz a mediação com o sagrado, constituindo o discurso religioso
em promessa ou em ameaça, conforme as circunstâncias. Vejamos quais
eram essas circunstâncias em Juiz de Fora e quais reações
a elas eram dadas pelo discurso religioso.
O final do século XIX e o início do século
XX trazem para Juiz de Fora a vontade hedonística de aproveitar cada
momento da vida. A industrialização, em toda parte, sempre permitiu
que os mais pobres se reconhecessem como tal e, portanto, que as diferenças
sociais ficassem mais evidentes. Torna-se rara a submissão à vontade
de Deus, ou manter a esperança numa vida melhor, mesmo essa esperança
sendo mediada pela figura do Cristo encarnado. É assim que A teodicéia
social do cristianismo (isto é, sua legitimação das injustiças
da sociedade tem desmoronado juntamente com a plausibilidade geral da teodicéia
cristã. (Berger, 1985, p. 91). O padre Júlio Maria vai ameaçar
a cidade com um eschaton divino: a epidemia que, em 1918, já grassava
em outros lugares próximos:
Cidade infiel! Por que temes a peste, a desolação
e a morte, se tens em mim o remédio, a alegria e a vida? toda tua confiança,
Eu sei estava nos meios humanos; tu os aplicaste; mas eles estão esgotados:
só te resta a Minha Misericórdia (Júlio Maria, 1934, p.
31).
O Deus que assim fala tem a plenitude do poder e pode livremente
usá-lo, quando a causa é santa (para ajudar os fiéis),
ou quando a causa é sacríliga (para puni-los). Essa é a
lei da graça, segundo a qual se obtém reconhecimento ou castigo.
A questão da culpa e do castigo vai levantar problemas outros. O pecado
e as conseqüências dele advindas são vistas sob forma de um
masoquismo religioso, justificador de todos os males. Um Deus poderoso castiga
os homens, que devem modificar seu comportamento para escapar à danação.
Mesmo se o castigo é por demais rigoroso e parece injusto, Deus não
pode ser interpelado, pois sua ética está acima dos padrões
humanos. Poder-se-ia dizer que a proposta apresentada no discurso religioso
é a reiteração das palavras de Jó: Ainda que
Deus me mate, confiarei nele. Também os padres não estão
isentos de culpa. Ataca-se a desorganização pastoral que se descuidava
dos ensinamentos da fé, omitindo-se das obrigações catequéticas
para satisfazer o gosto mundano de festas comemorativas as mais diversas. Padres
que não estudam a palavra de Deus e adotam o improviso na prática
oratória são asperamente criticados pelo padre Júlio Maria:
Pode saber pregar quem não procura no Divino Mestre
da palavra a alma, a inspiração, o fogo da eloqüência
sagrada? [...] A palavra de Deus não precisa, para trazer frutos, de
talentos oratórios; precisa apenas ser reproduzida com decoro, fidelidade,
gravidade (Júlio Maria, 1934, p. 86).
É justamente nessa via que se constituem os fundamentos
da crença, estabelecendo, a partir da compreensão das escrituras,
o sistema de regras de vivência. Prosseguir continuadamente com a formação
teológica é pré-requisito exigido dos sacerdotes, que devem
oferecer, ao público, um referencial de comparação para
validade da religião católica. O sacerdote, como medium
entre o homem e a realidade absoluta, é fonte do conhecimento religioso,
pois ele explica e aponta o espaço da revelação, onde todos
os temores se desvanecem. Através da palavra sacerdotal, Deus se faz
conhecer e só assim ganham sentido o culto e os rituais.
Convencer o público, argumentar a favor de uma religião
que se estiolava no combate com outras religiões e com suas divisões
internas é tarefa que exige a fala literária e lingüística
cuidada. O padre Júlio Maria toma consciência, dramaticamente,
de que bons exemplos não são suficientes para os fiéis
adotarem uma vida que mereça a redenção. É preciso
divulgá-los através de uma oratória apoiada no discurso
literário, configurado por um ritmo musical que se aproxima da poesia.
A fala performática, que do público imprecava contra os fiéis,
é atravessada por uma melodia monocórdia, análoga e monofônica
do canto gregoriano, que o rigor eclesiástico conduziu ao máximo
da perfeição expressiva, permitindo que, até hoje, ouvintes
se deliciem com sua beleza. Essa monodia (segundo alguns) ou monofonia (segundo
outros) limita as opções de representação, todavia
permite centrar a atenção no orador e por conseguinte, em suas
palavras, conforme se constata neste trecho O Deus desprezado.
Eu sigo os trilhos que o senhor me riscou;
dou os combates a quem me convidou;
acompanho a Estrela que Ele fez brilhar
nas trevas da minha mocidade (Júlio Maria, 1934, p.
102).
A importância do padre Júlio Maria, na formação
de Murilo Mendes, é explicitada em A idade do serrote (Mendes,
1994, p. 94), quando o poeta dele fala como alguém que possui uma visão
diferente do catolicismo: "O padre Júlio Maria já me vacinara
contra a religião piegas das beatas".
Outro padre, que se destacou na pregação da fé
católica e na oratória sacra, coincidentemente tem o mesmo prenome
do primeiro: foi Júlio Maria de Lombaerde. A coincidência de nomes
não se repetiu nas posições político-religiosas,
dentro de uma igreja que era comum aos dois. Atuou em Manhuaçu, em Varginha
e em Dores da Boa Esperança, porém seus sermões, publicados
em livros, circularam intensamente em Juiz de Fora. Levando vida austera, verdadeiro
exemplo de ascetismo, Júlio Maria de Lombaerde era também conservador
em questões político-teológicas. Seus escritos apontam
para uma clara influência de Santo Agostinho, ensinando que devemos procurar
não a sabedoria profana, que pretende desvendar os segredos da natureza
e, sim, a sabedoria espiritual, aquela capaz de colocar-nos em contato com o
transcendente e aperfeiçoar o que há de melhor em nossa
alma!
O conservadorismo leva o padre Júlio Maria de Lombaerde
a atacar o evolucionismo de Darwin, opondo-se até a Aristóteles
e a Spencer; condena qualquer tipo de materialismo, uma vez que, para os católicos,
é fundamental estabelecer diferenças entre o corpo e a alma, pois
o primeiro vem da terra e a segunda, de Deus, como ensina a Bíblia. Nestas
condições. Somente é aceita a história de Adão
e Eva para explicar a origem do mundo e dos homens. É no Gênesis
que se encontra a verdade primeira:
Deus disse: Que haja luz! E a luz existiu.
Deus disse: Façamos o homem à nossa imagem e semelhança.
E Deus criou Adão. Tudo isso é sublime e deixa entrever o dedo
de Deus. Tudo está explicado pela onipotência divina e nossa origem
é divina (Lombaerde, 1937, p. 11).
Ao ataque de anarquistas e ateus responde que a existência
de Deus não é uma discussão científica, mas um problema
de fé. Esse argumento é hoje defendido por Ferry, que nos diz:
Pois se a existência de Deus, admitamos por hipótese,
nos fosse demonstrada em boa e devida forma, com um rigor e uma precisão
perfeitamente científicos, ninguém teria paradoxalmente nenhuma
razão para acreditar. Ninguém mais teria fé, mas "saberíamos"
Deus, como sabemos que Napoleão existiu, mesmo que ele não pertença
mais a este mundo (Ferry, 1999, p. 3).
Concebendo Deus como "actus purus", padre
Lombaerde defende o intelecto sobre-humano da mente divina, que não concebe
distinção entre realidade e possibilidade. Assim, ao homem foi
dado o livre-arbítrio para que faça suas escolhas. Não
há determinismo nem fatalismo, estamos longe da "moyra" grega,
de quem era impossível escapar. Agora há responsabilidade plena.
O homem deve dilatar a alma pela oração e pela
virtude. A salvação é uma obra a dois: Deus e o homem.
Porém, Deus deu ao homem o lívre-arbítrio, sem o qual seria
apenas um animal e não mais um ser inteligente e livre (Lombaerde, 1937,
p. 172-3).
Num momento histórico em que a pobreza e a doença
convivem com a ostentação da opulência, o discurso precisa
ser altamente persuasivo, para despertar nos fiéis as virtudes teologais
que, segundo Santo Agostinho, nunca estarão separados. Lombaerde aponta
a prática dessas virtudes como caminho da salvação: agir
com amor (ao próximo e a si mesmo), acreditar na vida eterna e, apesar
de todos os sofrimentos, esperar encontrá-las, após a morte.
(...) Os bons sofrem, mas para expiarem suas faltas, para se
purificarem e merecerem a glória eterna (...). Nem para os lírios
tudo é lírio! O Salvador não nos pretende preservar de
sofrimentos, mas Ele quer que na dor como na alegria, olhemos para Ele, abençoemos
sua mão paternal, e Nele esperemos mais do que nos homens (Lombaerde,
1937, p.89).
A comparação com os lírios, símbolos
da pureza, indicia a justificativa dos males que atingem os "bons".
É na própria natureza humana que se encontra a razão do
mal. Sofrendo o estigma do pecado original, o homem já nasce sob o signo
da culpa. Pior: ainda que Adão e Eva não merecessem a perda do
paraíso, não sendo criadores, mas apenas criaturas, os homens
seriam marcados pela imperfeição:
No momento em que Deus resolveu fazer as criaturas, Ele não
podia escolher, tinha que fazê-las necessariamente defectíveis.
Pois só Ele é e pode ser indefectível e devia assim introduzir
em sua obra a possibilidade do mal (...). O único bem perfeito é
Deus (Lombaerde, 1937, p. 68).
Subrepticiamente, o discurso introduz o tema da recompensa
e do castigo, do mérito e do demérito. Há nessa religiosidade
o imperativo categórico kantiano, uma escuta interior o dever
que a consciência impõe ao sujeito, um deus que é visto
como imagem, modelo a ser seguido pelos homens. O texto é organizado
em frases declarativas, de maneira a não deixar dúvidas. O emprego
dos adjetivos defectível e seu antônimo, tirados da linguagem culta,
empresta solenidade ao discurso que impressiona pela clareza da sintaxe. Há
uma defesa apaixonada da fé e da verdade religiosa, qualificada de supra-racional.
O homem deve aceitar a miséria de sua condição e conformar-se
em viver num mundo degredado, para redimir a si mesmo:
Deus sabia pela presciência divina o que aconteceria
com a raça deste homem. Ele viu tudo... tudo... (...) e não quebrou
a estátua que tinha diante de si, como um artista descontente com sua
obra. Porque mais alto que a ingratidão dos homens, Deus enxergava a
misericordiosa figura do Redentor dos homens. (...) A criação,
esmo que imperfeita, é um bem. Por causa de poder haver certos males
neste bem, Deus não deveria deixar de criá-lo. (...) Seria sacrificar
um bem maior por causa de um bem menor (Lombaerde, 1937, p. 139).
O final apoteótico desses sermões substitui a
gratuidade e a insignificância de nossa existência pela crença
na redenção. Ao notar as "doenças" de uma cidade
que começava a mergulhar na era técnica e a entregar-se aos excessos
do pragmatismo, padre Lombaerde vai tentar "salvá-la" para
Deus, propondo uma prática de vida que se opunha à superficialidade
da fé de seus contemporâneos.
Entretanto, a defesa do catolicismo não ficava restrita
aos púlpitos. Ela se fazia também nos jornais, como acontecia
com "O Pharol!". Na coluna intitulada "Pregação
histórica", a Igreja empreendia sua força legitimadora que,
segundo Peter Berger, "constitui-se num processo fundamental de socialização
e controle social (...), que serve para atenuar qualquer ameaça de rompimento
com o mundo objetivo" (Berger, 1985, p.42). Assim, o jornal traçava
perspectivas moralizantes, através do uso de uma linguagem normativa,
com características literárias. Assinada por um enigmático
Sibillat, a coluna "Pregação Histórica" fustigava
os crentes com suas admoestações.
Queixamo-nos das calamidades, e de todos os flagelos com que
Deus nos pune; queixamo-nos das doenças, dos insucessos em nossos negócios;
e, entretanto, a origem principal de todos os males, são essas bocas
infernais; essas penas impudicas, (...) a vomitarem lavas de blasfêmias,
torrentes de obscenidade e de insultos contra Jesus Christo, sua Egreja e os
bons costumes.
São como outras tantas cavernas pestilenciais a exalarem
mortífero veneno, e que deveriam ser fechadas,..., como contrárias
às leis morais, cujo respeito e observância trazem tranqüilidade
e boa ordem,..., prosperidade e engrandecimento, ao indivíduo, à
família, à nação ("Sibillat", in O
Pharol, 14/07/1899). O jornal não apresenta numeração
de páginas e suas edições encontram-se em precário
estado de conservação, impossibilitando uma melhor especificação
da nota.
Com a proclamação da República e concedida
a liberdade de culto, novas correntes religiosas chegam a Juiz de Fora. Para
enfrentá-las, a Igreja Católica procura diminuir e diferença
entre conselho e advertência, usando uma argumentação com
base histórica; observe-se a apresentação de Henrique VIII:
O real chefe do protestantismo (...) Para fazer uma idéia
justa ou pelo menos aproximada dos sentimentos, que enchiam o coração
desse monstro, basta lembrar diz o Apóstolo que ele sacrificou
à sua paixão 2 cardeais, 18 arcebispos, 335 nobres, 124 cidadãos...
Acrescente-se ainda que duas rainhas, Ana Bolena e Catarina Howard, foram degoladas
em conseqüência da inconstância dos amores deste príncipe,
que foi o primeiro chefe da Igreja Anglicana (O Pharol, 25/1/1900).
O início do século XX mostra o jornal O Pharol
preocupado em disputar o mercado de pregações religiosas. O discurso
católico tenta agradar tanto os "velhos consumidores", apegados
à tradição, como os "novos consumidores" que
experimentavam as novas simbologias. Se, em 7 de janeiro de 1900, O Pharol
publicava "Os sofrimentos humanos agravaram mais e mais, parece que apregados
às conquistas científicas do homem", em 25 de janeiro do
mesmo ano, o discurso se torna compreensivo, adaptado aos tempos "modernos":
"Não somos daqueles que querem mal aos que, ou por um desvio da
razão, ou por ferrenha pertinência no erro, não comungam".
O jornal adota também a forma poética, em versos que celebram
a humildade e a resignação, como se pode ver neste fragmento do
soneto "A bofetada".
Vergado e cambaleando, quase morto
Sob o peso sinistro do madeiro,
Segue Jesus o grande mensageiro
Da egualdade, da paz e do conforto.
...........................................................
E elle, sereno, como se rezasse,
Murmura, offerecendo-lhe a outra face:
Fere, tambem, deste outro lado, irmão!
(Correa de Azevedo O Pharol, 14/01/1900)
Conclui-se da leitura desses diferentes discursos que eles
só adquirem significação plena, quando há interação
entre locutores e ouvintes ou leitores, pois há sempre, por parte do
primeiro, modalização apreciativa, ou seja, a fala se dirige a
um público determinado e procura atingir finalidades específicas.
É importante destacar a preocupação com
a salvação e com a doutrina: deseja-se ligar a criatura humana
a seu princípio divino, mostrar que os eixos da existência estão
invertidos, afirmar a necessidade de o sagrado sobrepor-se ao profano; tenta-se
reparar o corte que separa o imaginário da razão, a verdade revelada
do conhecimento objetivo. O discurso religioso da época exibe irritação
com a mentalidade científica e uma grande tensão vivida pela Igreja
diante dos obstáculos oferecidos por todo um processo de metamorfose
social, confirmando a linguagem como construtora de símbolos indicadores
do aspecto religioso da vida. Essa linguagem reconhece que o crente não
é passivo, inerte diante das ocorrências; ao contrário,
o discurso religioso concebe esse homem como participativo, sujeito a influências
diversas, co-produtor de seu próprio mundo.
Bibliografia:
Berger, Peter. O dossel sagrado. Trad. José
Carlos Barcellos. São Paulo: Paulus, 1985.Mendes, Murilo. Obra completa.
Rio de Janeiro: Nova Aguilar, 1995.Moraes Carneiro, Júlio Maria. O
deus desprezado. Rio de Janeiro: Boa Imprensa, 1934.Lombaerde, Júlio
Maria. O anjo da luz. Petrópolis: Vozes, 1937.Orlandi, Eni Pulcinelli.
2ª ed. Campinas: Pontes, 1987.O Pharol. Juiz de Fora: 1899/janeiro
1900.Ferry, Jean Luck. Caderno de Cultura de O Estado de São Paulo,
10.10.1999.
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