LITERATURA COMPROMETIDA DE JOÃO UBALDO RIBEIRO
Zilá Bernd
Universidade Federal do Rio Grande do Sul
Aimée Césaire, poeta maior da Negritude, escreveu por
volta dos anos 1930 um poem
a intitulado "Les armes miraculeuses"
(As armas milagrosas), revelando a sua convicção de que, com
a palavra, tinha intenção de mudar o mundo, removendo o preconceito
e resgatando a identidade e o orgulho de ser negro nas Américas. Vivia-se
um período em que os escritores acreditavam no poder da escrita e no
compromisso do escritor em denunciar injustiças e opressões.
Já os escritores da chamada pós-modernidade sabem que a escritura
pode pouco, muito pouco mesmo, não tendo servido para desconstruir
preconceitos nem para reverter situações de injustiça
social. Despiram-se, pois, em sua maioria da ilusão de poder mudar
o mundo com a palavra. Talvez achem que podem mudar o homem (que poderá
mudar o mundo
). Sabem ainda que, em determinadas situações
de censura, por exemplo, quando nada pode ser dito contra o poder arbitrário,
só a literatura, por seu caráter camaleônico de significar
muitas coisas ao mesmo tempo, pode produzir a fenda, pode introduzir o diverso
desestabilizando discursos monológicos, instaurando a dúvida
e abalando certezas cristalizadas.
João Ubaldo Ribeiro tem consciência de que a escritura,
contrariamente à grande maioria dos outros textos que têm objetivos
unívocos, é plurissignificante e que qualquer tentativa de transformar
o texto literário em panfleto, isto é, em propaganda de determinadas
idéias, pode comprometer seu valor maior, qual seja, o de estar continuamente
aberto a múltiplas interpretações por seu caráter
simbólico. Contudo, isso não o impede de, não querendo
mudar o mundo, querer mudar o leitor, apresentando-lhe caminhos alternativos
de compreensão do homem e da sociedade em que ele se insere.
Sobre Sargento Getúlio, o próprio João
Ubaldo afirma: "Sargento Getúlio é um romance engajado
persegui esta espécie de autobiografia fantasmagórica,
mas com maior distância. É, de certa forma, um retorno à
minha infância, ao universo de Sergipe, com sua brutalidade, seu primitivismo
ao qual dei uma dimensão mais ampla ética e política"
(Entrevista, 1987).
Em recente pronunciamento, em Maceió (setembro de 1999), João
Ubaldo afirmou não ter jamais aspirado mudar coisa alguma na sociedade;
talvez na cabeça de algum leitor. "Como toda a arte, a literatura
é uma forma de conhecimento, podendo, pois contribuir para que as pessoas
vejam o mundo através de uma forma sugerida pelos escritores. A literatura
pode, portanto, auxiliar na construção do conhecimento humano,
abrindo portas. Se a literatura é invenção, a existência
humana também o é".
O engajamento de que fala João Ubaldo se realiza de forma
muito sutil e, em nenhum momento, compromete o valor literário do texto.
Deste modo, Sargento Getúlio, escrito em 1971, não é
um livro datado, resistindo ao passar dos anos. Segue desafiando os leitores
por conseguir, partindo de uma temática regional o banditismo
do sertão , atingir o universal através do questionamento
existencial. O "ser ou não ser: eis a questão" shakespeareano
se transforma, na pena do escritor baiano, em "levar ou não levar"o
prisioneiro a Aracaju, tarefa confiada a Getúlio por seu chefe Acrísio.
O autor valoriza ao mesmo tempo o pensamento mágico e popular do nordestino,
associando seu impasse existencial ao de grandes personagens da literatura
ocidental, como Hamlet, de Shakespeare, ou Antígona, de Sófocles.
Esta é uma forma bastante sutil de compromisso literário: para
denunciar uma situação de desmedida no sertão nordestino
onde o poder despótico de líderes políticos não
tem limites, aliciando os jagunços que torturam e matam em seus nomes,
João Ubaldo centra a narrativa justamente em um matador profissional,
o famigerado Sargento Getúlio, procurando flagrar, através do
seu dilema, um mundo em transição.
O autor estrategicamente vai encontrar uma saída para que
a obra não se esgote na batida dicotomia civilização
x barbárie, cidade x campo, apontando uma terceira via para situar
o dilema do "herói", em sua decisão de não
acatar as ordens de Acrísio de abortar a "missão"
que lhe havia sido confiada. Para além da simples denúncia de
uma situação de atraso ainda vigente no sertão nordestino
enquanto o Brasil se modernizava, o autor complexifica a situação
heroicizando a figura de Getúlio, matador profissional, portanto fora-da-lei,
e conferindo-lhe uma espessura de personagem trágica. Ao recusar-se
a cumprir as contra-ordens de seu chefe e ao obstinar-se em executar sua missão
a personagem surpreende o leitor, até então horrorizado com
as brutalidades que pratica em relação ao prisioneiro. A surpresa
vem do inesperado de um personagem rude possuir e respeitar um código
de ética comparável a de personagens do teatro clássico
grego e que se verifica inexistente nos líderes políticos corruptos
que lhe dão ordens, ficando evidente que são esses últimos
e não Getúlio o alvo da crítica mordaz de João
Ubaldo. O respeito a essa deontologia internalizada coloca Getúlio
em um patamar superior ao dos chefes políticos e citadinos que o comandam.
Verifica-se, pois uma tentativa do autor de penetrar na lógica "outra"
de Getúlio que, inserido no mundo arcaico do sertão, rege-se
por um pensamento mágico e sacralizado, não conseguindo entender
as mudaças que se operam no Brasil moderno, regido por uma ordenação
racional e utilitarista. Neste sentido, a produção ficcional
de João Ubaldo Ribeiro constrói-se em consonância com
o que há de melhor na literatura latino-americana, como Cem anos
de solidão (1967) de Gabriel Garcia Marquez. Na visão do
autor colombiano, uma comunidade, Macondo, é varrida do mapa por um
furacão junto com toda a geração dos Buendia, simbolizando
o desaparecimento da cultura autóctone, alicerçada no maravilhoso.
No choque entre o mágico e o racional, entre o arcaico e o moderno,
o coronel Aureliano Buendia e sua numerosa decendência desaparecem sem
desaparecer, pois suas peripécias ficam preservadas na memória
da comunidade. Getúlio, como Aureliano Buendia, encarna o dilaceramente
entre dois mundos. Ambos acabam, ao morrer, desafiando as exigências
da modernização, por virar lenda, isto é, tendo suas
histórias transmitidas pela tradição oral e popular,
o que é uma maneira de não morrer.
Também Viva o povo brasileiro, romance mais conhecido e
de maior sucesso de público do autor, constitui-se em uma escritura
de resistência, de inconformidade, marcada fundamentalmente pelo compromisso
do autor de fornecer uma releitura paródica e bem-humorada
de pelo menos três séculos de história do Brasil, dando
destaque ao povo e à sua longa aprendizagem para conquistar um lugar
de onde pudesse ser ouvido pelas elites que se julgavam as únicas donas
do país. Aprender a ser dono do Brasil foi tarefa árdua realizada
sobretudo pelos escravos e ex-escravos, exluídos do processo de constituição
da identidade nacional. Esse aprendizado é o tema central do livro
que inclui todo o manancial de cultura oral e popular que, agregado à
cultura letrada, compõe um dos mais completos afrescos do Brasil que
a ficção brasileira jamais produziu.
Incorporando fragmentos de toda sorte de documentos orais e escritos,
Viva o povo brasileiro se integra à vertente de nosssa literatura
que tentou, pela via do épico, explicar a nossa formação
cultural e exaltar os "heróis de nossa gente". Marcas da
tradição revolucionária do Modernismo podem ser percebidas
na obra que, contudo, ultrapassa as convenções literárias
anteriores, na medida em que os efeitos de sentido produzidos por uma linguagem
despida de convencionalismos destroem sistematicamente a idéia de transparência
contida nas ideologias veiculadas desde o início da colonização
que só serviram para instituir, entre os brasileiros, um eterno processo
de auto-desvalorização.
Viva o povo brasileiro tornou-se um clássico (no bom sentido
da palavra!) de nossa literatura não só por trazer até
o leitor os ecos dos ásperos tempos de nossa história colonial
como por utilizar uma linguagem que, agregando a "contribuição
milionária de todos os erros", logra captar o espírito
brasileiro em todas as suas nuanças. Afastando-se da nefasta tarefa
de tomar a si a missão de pôr sua escritura a serviço
da fabricação identitária e de reivindicações
nacionalistas, João Ubaldo, colocando-se do lado dos que nunca tiveram
voz, tenta produzir a fenda nas certezas identitárias de uma nação
que se queria branca, ou melhor, mestiça, desde que se tornasse cada
vez mais branca e homogênea. A obra torna-se um ponto de encontro de
caminhos, um mosaico de diversidades, onde a relação dialética
entre nós (grupo social e cultural ao qual se pertence) e os outros
(os que são percebidos como não fazendo parte deste grupo) se
volatiliza. O emaranhado de falas que se interseccionam no tecido narrativo
permite-nos concluir que a identidade do povo brasileiro, como a dos latino-americanos
em geral, será forjada a partir da reconciliação das
diferentes formações culturias que estão na sua origem.
A respeito da questão do compromisso do escritor, a qual retorna
continuamente no cenário da teoria literária, Andrè Gide,
de regresso de uma viagem à União Soviética, em 1936,
escreve:
"O valor de um escritor está ligado à força revolucionária
que o anima ou mais exatamente (pois não sou louco para reconhecer
valor artístico apenas aos escritores de esquerda) à sua força
de oposição. [
] Na nossa forma de sociedade, um grande
artista, é essencialmente anticonformista. Ele navega na contra-corrente.
(Gide, 1978, p. 63).
Apesar das inúmeras características pós-modernas
que podemos destacar na obra ubaldiana, como a prática da metaficção
historiográfica, as ambigüidades e ambivalências, o uso
freqüente do estilo paródico, as hibridações de
estilos e falas, entre outras, ela é "essencialmente revolucionária
e anticonformista", reeditando, a seu modo, o estilo engajado dos
anos 1960. Contribuir, através da ironia e do riso, para a desestabilização
de estruturas político-sociais injustas e discriminatórias é
sem sombra de dúvidas uma das metas do escritor no seu cotidiano corpo
a corpo com a palavra.
Seu dom maior é o de escrever na tensão dos contrários,
integrando o erudito e o popular, o trágico e o cômico, o sublime
e o grotesco, e inscrevendo nesse espaço intervalar elementos de desestabilização
das estruturas político-sociais brasileiras. Nele se aliam a esperança
ingênua de reconstruir o mundo sobre as bases da Fraternidade, após
a queda da ditadura militar brasileira, e a aguda consciência crítica
da realidade nacional. Segue, portanto à procura de um caminho do meio,
apontando para a inacessível síntese entre elementos procedentes
de horizontes históricos, geográficos e culturais múltiplos,
numa ficção ao mesmo tempo ambígua e engajada.
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CECCANTINI, J. L. João Ubaldo Ribeiro: no plural, a unidade. Revista
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Moderna ficção brasileira. V. 2, ensaios. Rio de Janeiro:
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GIDE, A. Retour de lU.R.S.S.. Paris: Gallimard, 1936. Reeditado
pela coleção Idées, em 1978, p. 63.
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Artigo publicado no Número Especial de Porto & Vígula,
Secretaria Municipal de Cultura - Coordenação do Livro.