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Resumo: Texto:
ANGELA MARIA DIAS
A Desconstrução da metafísica e a reconciliação
de poetas e filósofos
Ronaldes de Melo e Souza
Universidade Federal do Rio de Janeiro
Na tradição ontoteológica da metafísica, a legitimidade
do poeta sempre f
oi contestada pelo filósofo. Platão, o protótipo
do filósofo, é categórico na assertiva de que o poeta não
diz a verdade, porque não possui o saber acerca do ser. No decurso histórico
da filosofia, a determinação metafísica do ser, do saber
e da verdade reduz a poesia à condição subalterna da inconsistência
ontológica e epistemológica. Descartes, o filósofo da modernidade,
preconiza uma ciência puramente matemática, incompatível
com a experiência poética. Somente despojados do estatuto cognitivo
da razão pura e do postulado ético da razão prática
é que Kant reconhece o julgamento estético e a experiência
poética. Hegel advoga a tese da superação das expressões
artísticas na dialética especulativa do conceito filosófico.
A estética não legitima a arte, porque a estética é
a metafísica da arte. As teorias artísticas predominantes na cultura
ocidental foram elaboradas por filósofos educados na escola metafísica,
e não por poetas. A urgente questão, portanto, consiste em saber
como legitimar a linguagem da poesia diante da pretensão hegemônica
do discurso da filosofia.
A legitimação do poeta solicita e requer a elaboração
de uma nova poética, de uma poética liberada da tutela da metafísica,
de uma poética devotada à linguagem da poesia, e não ao
discurso da filosofia. Com este objetivo é que se propõe esta
investigação, cuja tese central afirma e sustenta que, no período
anterior e posterior à vigência histórica da metafísica,
o mundo configurado pela verdade da poesia é mais sutilmente estruturado
do que o universo composto pela verdade da filosofia. Nesta nova poética,
que se considera contemporânea do drama do auto-reconhecimento da verdade
da poesia ou da poesia da verdade, primeiro que tudo há o uno diverso
de si mesmo, a duplicidade originária, a tensão harmônica
dos contrários, e não simplesmente o uno único unificante
da ontologia, da teologia e da lógica. O que se pretende demonstrar em
defesa do poeta é que há mais ser, saber e verdade na poesia do
que na filosofia e, confutando a presunção filosófica,
que o ser, o saber e a verdade dos filósofos são reduções,
e não superações, do ser, do saber e da verdade dos poetas.
A convalidação da verdade do poeta no confronto
com a verdade do filósofo se desenvolve nos trâmites subseqüentes:
1o) inicialmente se comprova que o ser, o saber e a verdade são
percebidos por poetas e pensadores como cifras de uma duplicidade originária
durante toda a época ainda não-metafísica da cultura grega.
E a interação do poetar e do pensar se manifesta com tamanha intensidade,
que o poeta é pensador, e o pensador, poeta. Não há poetar
e pensar. Há, sim, o poetar pensante e o pensar poético. Em seguida,
demonstra-se que o ser, o saber e a verdade são concebidos pela construção
platônica da metafísica como signos da unicidade absoluta. O saber
acerca do ser metafisicamente depreendido como princípio e fundamento
único é que determina o divórcio do pensar e do poetar
e, conseqüentemente, o conflito entre o filósofo e o poeta. Na substituição
da paideia poética pela paideia filosófica, efetiva-se
a condenação da poesia. A priorização do ser e matematização
do saber são o anverso e o reverso do Ocidente de Platão e da
oposição da razão nomotética e da imaginação
poética. O filósofo impõe um veto ao ser, ao saber e à
verdade do poeta. Finalmente se verifica que a reconciliação de
filósofos e poetas só se torna possível com a desconstrução
nietzscheana da metafísica platônica.
A Poematização da Verdade
A duplicidade originária da verdade da poesia se compagina
no poema teo-cosmogônico de Hesíodo. O poetar pensante da Teogonia
revela que o drama vital é pendente da trama mortal. O khósmos
é fundamentalmente o kháos transitoriamente detido no ímpeto
do movimento intempestivo. A constrangedora razão diurna jamais se absolve
da avassaladora paixão noturna. O processo agônico da constituição
cósmica e da destituição caótica nunca se resolve
no estabelecimento normativo de um ordenamento definitivo. A conexão
instituidora de uma diacosmese ou arranjo cósmico sempre se manifesta
dependente da sucessão dilaceradora das dinastias divinas. Na seqüência
contínua e descontínua dos nascimentos e perecimentos, celebra-se
o moto perpétuo da deveniência do mundo ininterruptamente mobilizado
em ritmo de transe. Não há um, mas, sim, diversos khósmoi.
Eternamente gira e regira a roda móvel do tempo. A titanomaquia culmina
na consagração da vitória olímpica, mas o hino à
Hécate assinala a celebração da incontestável glória
ctônica. Não se assentando na subordinação de todos
os poderes adversos, a justiça de Zeus só se mantém com
o auxílio de poderosíssimas deidades telúricas e catactônicas.
O luminoso ser dos deuses da vida se fundamenta no tenebroso poder das divindades
da morte.
Paula Philippson exaustivamente mostra e cabalmente demonstra
que a coesão total do mundo épico-teogônico não implica
uma gênese única, mas se explica na oposição polar
de duas genealogias paralelas: uma principia com o caos, e a outra se inicia
com as núpcias do céu e da Terra. O kháos veio a
ser (e)génet(o) do não-ser da vereda abissal de um nada
descomunal. Na "Descrição do Tártaro", reporta-se
o kháos ao grande abismo, que terrivelmente se impõe como
um estranhíssimo prodígio até mesmo para os divinos imortais.
A estirpe do kháos se desdobra na polaridade da luz e da treva,
e a sua linhagem inclui a descendência da Noite, que compreende as potências
da morte, da angústia e do destino. Numa verdadeira simetria em espelho,
figurando o extremo contrapolar do Olimpo, o Tártaro está situado
abaixo da Terra, a uma distância igual à que a separa do Céu.
Tartáricas são as raízes terrestres e celestes. Primeiro
que tudo não há, senão o abismo-mor, e só depois
existe a Terra, que gera, à sua imagem e semelhança, o constelado
Céu, para que a cubra toda inteira. Fica bem claro, pois, o motivo por
que a propulsão erótica da vitalidade heróica representa
apenas o anverso da sacrossanta essência da realidade, cujo reverso é
a compulsão tanática da mortalidade trágica. Nos mil e
vinte e dois versos da Teogonia, nenhum descendente do Caos se encontra
entrelaçado com um filho da Terra. Não há síntese
alguma entre os pólos opostos. Em virtude da própria oposição,
as duas potências teocosmogônicas determinam a polaridade correlativa
do mundo submetido ao duplo domínio de uma ordem cósmica e de
uma desordem caótica.
A duplicidade originária da verdade se comprova na sapiência
original do pensar poético. O fragmento 123 de Heráclito enuncia
que o ser já de si tende a ocultar-se. A significação fundamental
da philía do philein é o favorecimento mútuo,
o afeiçoar-se um ao outro na tensão harmônica da disjunção
conjuntiva ou da conjunção disjuntiva. O desvelar-se bem quer
autovelar-se. O descobrimento e o encobrimento se harmonizam na intimidade ambivalente
de uma reciprocidade gratificante. Eles se respondem e se correspondem, e mutuamente
se favorecem. Que seria do trânsito floral do ser se o autovelar não
se retivesse no ritmo de transe da sua inclinação para o desvelar-se?
O autovelamento é o sóbrio recolher-se no envolvimento do resguardo
pródigo de si mesmo. Kryptesthai designa o resguardar-se no abrigo
eônico da physis, preservando a essencial possibilidade do aparecer emergente
do selado segredo do ser. O não findar do emergir é garantido
pelo não cessar do imergir. O desvelar-se não se volta para o
autovelar-se, mas se devota a revelar-se concitado pelo próprio velamento.
O excesso anticlinal da ontocriptia solicita a disciplina sinclinal da ontofania
como a única força capaz de o evidenciar e mostrar como excessividade.
O emergir (a partir do autovelamento) se oferece como o favor dispensado ao
autovelar-se. A extroversão e a introversão se compertencem simultaneamente
destinadas na mesma conversão diversiva do que se desoculta, ocultando-se,
ou se oculta, desocultando-se. Anversofania e reversocriptia são um e
o mesmo ser que bem quer ocultar-se. A verdade do ser é, pois, o desvelar
autovelante.
A duplicidade originária do pensar poético se
confirma na compertinência primordial do ser e do aparecer. No Poema
de Parmênides, o homem sapiente não é tão-somente
quem percorre o percurso do sol no próprio carro do deus, mas principalmente
quem se encaminha rumo à concruz do dia e da noite. As divinas Helíades
conduzem o pensador aos confins do horizonte extremo, aonde o céu e a
terra se circunferem. Esta viagem sui generis não é para
baixo, uma incursão na interioridade ctônica, nem para cima, uma
excursão na exterioridade urânica. Verdadeira ciência iniciática,
a peregrinação relatada no Proêmio não tem início
nem fim, mas se revela no meio da travessia. O aonde se vai sempre se volta
ao donde se parte. A deusa inominável, que revela ao pensador o autêntico
saber acerca do duplo domínio do ser e do aparecer, permanece inominada,
não se confundindo com as divindades noturnas nem com as diurnas. A revelação
não se restringe à indicação de uma via de mão
única, mas se traduz na exortação de que é preciso
conhecer a verdade da essência e, ao mesmo tempo, reconhecer a validade
da aparência. A deusa sublinha e enfatiza que é de modo justo e
autêntico que as aparências perpassam e permeiam a totalidade do
que existe, instituindo o fulgor do suntuoso domínio dos entes que se
mostram gloriosamente presentes no portentoso ilumínio da transparência
conjuntiva de tudo. O ser e o aparecer ainda não se encontram separados
no éon parmenídeo. A essência e a aparência
se compertencem. Quem se inicia no conhecimento hierofanicamente revelado tem
de assumir a vigília ontológica que o capacite a considerar, não
apenas um, mas, sim, os três caminhos da iniciação gnosiológica:
1o) a senda do ser; 2o) a vereda do nada; 3o)
a via da aparência. Não se consegue a sabedoria se apenas se persegue
a perfeição esférica do ser. Sábio é quem
se dispõe numa experiência conjunta com o ser, o não-ser
e o aparecer.
A correlação entre alétheia e doxa
se manifesta no comparar o verso 24 do fragmento 8, onde se declara que, na
verdade do ser, tudo está cheio do que é, com o verso 3 do fragmento
9, em que do mundo se afirma que todo ele está cheio conjuntamente de
luz e noite escura. E a esfericidade do ser, formularmente expressa no verso
43 do fragmento 8, também comparece no mundo da aparência, precisamente
na doutrina cosmológica das coroas esféricas. A questão,
no entanto, consiste em saber se a conexão do éon (alétheia)
e dos éonta-dokounta (doxa) não reside exatamente na pergunta
que se interroga pelo estranhíssimo poder do não-ser. Inacessível,
inviável, impensável, indizível, a vereda do nada não
é mencionada e requisitada no fragmento 2 para a magnífica manifestação
do ser? E a concruz dos caminhos do dia e da noite não é a cifra
da divergência convergente ou da convergência divergente das duas
potências cosmogônicas? O viajante não tem de situar-se na
dimensão ambivalente do lugar cruciforme a fim de se lhe revelar a ordem
do mundo da aparência como aparição verdadeira do que é?
Os mortais são os extraviados bicéfalos errantes justamente porque
não se apercebem da necessidade conjunta dos três cursos do mesmo
decurso do caminho que se viaja de si para si mesmo rumo ao que é (éon),
ao que não é (mè éon) e ao que aparece como
sendo muito mais do que parece (éonta-dokounta). O erro dos homens,
denunciado pela deusa nos versos 53-54 do fragmento 8, resulta de estatuírem
eles o controverso renome das duas formas diurna e noturna, das quais nem uma
só é necessária. Nomeando as duas formas ou denominando
uma forma só, eles erram duplamente, porque não há um principium
uniforme ou diforme, mas, sim, um trivium. Dualística ou monisticamente
consideradas, a luciformidade e a noturnidade são duas deformidades.
E a errância persiste, quando se busca um tertium quid, concebendo
o ser como a indiferenciada unidade dos contrários, porque o sentido
compaginado na duplicidade originária do particípio éon
não se compatibiliza com o significado compendiado na dualidade secundária
do princípio uno e do múltiplo diferenciado. Não surpreende,
portanto, que o monismo e o dualismo sejam igualmente caracterizados pela deusa
como decorrência da convenção, e não como ocorrência
da physis. Na significação simultaneamente verbal e nominal
do éon, o ser e o ente são um e o mesmo. O problema de
um ser absolutamente separado e de um ente mais ou menos rejeitado só
se inicia com a separação platônica da essência e
da aparência.
Physis kryptesthai, alétheia-doxa, éon-dokounta
são as diversas cifras da mesma duplicidade originária do
ser, a que corresponde a ambivalência necessária da verdade. A
tensão heraclítica da reversa harmonia já se denuncia na
própria estrutura gramatical do misterioso particípio éon
e na significação ambivalente da palavra alétheia.
O particípio é gramaticalmente portador de uma notável
duplicidade, que o faz participar duplamente do que enuncia: 1o)
como particípio nominal, tò éon significa o singular
de tà éonta e designa um dos entes; 2o) como
particípio verbal, o éon não caracteriza um ente
particular, mas assinala a própria singularidade do éinai.
O ser e o ente se compertencem, porque ambos comparticipam originalmente de
um mesmo particípio. A etimologia de alétheia também
revela um duplo sentido: 1o) mostrar-se e lembrar-se; 2o)
ocultar-se e esquecer-se. Alétheia, de aléthes:
a-privatium + leth, lath-, a que se reportam lanthánomai
(esquecer-se), lanthánein (estar oculto) e o latim latere
(estar latente). A eclosão da verdade do ser implica a comparticipação
da patência do desvelamento (alétheia) e da latência
do velamento (léthe). A deusa prodigalizadora e legisladora do
destino histórico-ontológico ensina que o ater-se à verdade
não é deter-se na posição ou atitude requerida para
se contemplar a esplêndida fulguração diurna da luz catarticamente
abstraída da ofuscação noturna, mas aventurar-se até
a concruz dos caminhos do dia e da noite a fim de se reconhecer que a necessidade
da doxa se fundamenta ontologicamente na duplicidade verbo-nominal do éon
e na intimidade ambivalente da alétheia. Sapientes não
são os amantes do saber acerca da unicidade do ser, mas os itinerantes
mensageiros afeiçoados ao duplo domínio do particípio.
O heraclítico philein tò sophon não é uma
enunciação filosófica, sobretudo porque o philein
equivale ao homologein, ao falar como o lógos. Légein
quer dizer acolher e recolher, unir e reunir o desvelar autovelante do ser
que bem quer ocultar-se. O manifesto não se atualiza tão-somente
na exposição do que se explana e se torna patente, mas fundamentalmente
se potencializa na indicação críptico-eônica da retração
do velamento que se conserva latente. O sábio único, cujo oráculo
está em Delfos, não fala nem cala: assinala. Somente quando a
duplicidade originária do éon se transmuta na dualidade
problemática de um ente dos entes e de um não-ente é que
o philein tò sophon se converte na ciência platônica
da philosophia.
A Matematização da Verdade
A construção platônica da metafísica
se articula no tríptico da República, plasticamente travejado
pela configuração imagética do "sol", da "linha
segmentada" e da "caverna". A conexão interna destas imagens
traduz uma representação matemática do grau de aspiração
do saber acerca do ser. O drama gnosiológico é platonicamente
figurado numa linha dividida em dois segmentos desiguais, cujas partes subdividem-se
na mesma proporção que a linha total. Os dois segmentos principais
representam o universo inteligível, em que se processualiza a ciência
correta da verdade, e o mundo sensível, em que se exerce a experiência
incerta das opiniões. Dos dois novos segmentos resultantes da subdivisão
da parte da linha correspondente ao sensível, um abrange todos os tipos
de simples imagens refletidas, como as sombras e os reflexos das coisas na água
ou nos corpos compactos, lisos e brilhantes, capazes de refletirem os objetos;
o outro engloba os animais e vegetais, e todo o gênero do que se procria
e se fabrica, e as formas visíveis, desenhadas pelos geômetras.
No domínio do espelho das sombras, o conhecimento atinge o nível
mínimo de sua capacidade cognitiva e se classifica como mera conjectura;
no reino das formas moventes e devenientes, o ato cognitivo é apenas
imediatamente superior ao raciocínio meramente conjectural, determinando-se
tão-somente como simples crença. Delineadas neste esquema, as
coisas sensíveis não são senão reflexos de seus
protótipos inteligíveis. O conhecimento que se lhes aplica é
a opinião, e não a verdade. Somente podem ser conhecidas à
luz da teoria das idéias, cujo entendimento se realiza no intelecto discursivo,
que inclui e transcende as hipóteses, na medida em que as concebe, não
só como premissas e postulados geométricos, mas também
como degraus epistemológicos (o ímpar e o par, o quadrado em si,
a diagonal em si), a partir dos quais o saber humano se eleva até ao
absoluto, ao não-hipotético, ao incondicional, ao princípio
universal, consumando-se na suprema intuição eidética,
na admirável visão da idéia do bem. A ciência da
verdade é a consciência da idealidade do lógos puro,
e a experiência do diálogo é a via ascensional do processo
cognitivo em demanda do que reside além de tudo que é ou existe.
O denominador comum às imagens do tríptico da
República é a separação do sensível
e do inteligível, de que decorrem as oposições do corpo
e da alma, da matéria e do espírito, da aparência e da essência,
da realidade e da idealidade, e de todos os pares de dualidades antagônicas,
que se impuseram à tradição onto-teo-lógica do pensamento
ocidental-europeu. No "sol", separa-se a multiplicidade ôntica,
onde reina o astro diurno, da unicidade ontológica, em que impera a idéia
do Bem; na "linha segmentada", o multiverso das coisas, do universo
das idéias; e na "caverna", o que ocorre no interior ensombrado,
do que transcorre no exterior iluminado. Na decisão histórica
desta cisão metafísica, o ente sensível e o ser inteligível
são separados e situados em dois lugares extremos e contrapolares: o
real subterrâneo da aparência e o ideal supraceleste da essência.
Khóra significa precisamente o lugar da diferenciação
de dois mundos abstratos: o primeiro compreende o que é, porém
nunca devém, e o segundo abrange o que devém, mas não é.
O ingente esforço do esquema conceptual do platonismo para estabelecer
a relação entre a idealidade superior e a realidade inferior,
estendendo uma ponte entre os dois mundos separados da eternidade para
a temporalidade ou, inversamente, da temporalidade para a eternidade ,
não consegue senão reforçar o problema do pressuposto aporético
de dois reinos dilematicamente abstraídos e cindidos: um, o das coisas
que não são, e outro, o das idéias que são. O totum
sensível do mundo concreto da vida se converte, portanto, na clausura
de uma caverna cujos prisioneiros fantasmagoricamente se agitam na gestação
insana das sombras.
A iniciação platônica do saber acerca do
ser se realiza na passagem da obscuridade terrestre da aparência para
a claridade celeste e supraceleste da essência. No antro ensombrado, o
ritual iniciático é dramatizado em oito episódios rigorosamente
concatenados: 1o) o prisioneiro, impedido de se mover e de volver
o olhar para ver e conhecer, é o cavernícola imobilizado nas trevas
da ignorância; 2o) o voltar-se para objetos iluminados pelo
fogo como estágio inicial da percepção; 3o)
o devotar-se ao ofício de mirar o próprio fogo como exercício
propedêutico de se adaptar a vista à contemplação
e admiração da luz; 4o) a peregrinação
ascendente através do caminho escalonado até a claridade do dia;
5o) o dever cingir-se à captação de sombras
como etapa preparatória da capacidade de se perceber a luminosidade diurna;
6o) a percepção das coisas que produzem sombras e imagens
reflexas; 7o) a contemplação do céu noturno,
em cujo fulgor menos intenso se prepara a fase terminal da adaptação
perceptiva ao reino dos sensíveis; 8o) a visão final
do sol em todo o seu esplendor transcendente. Exatamente o que é o Bem
em si mesmo em relação à inteligência e aos inteligíveis,
o sol o é no âmbito visível, com respeito à vista
e aos visíveis. Assim como o lume diurno é a fonte da visibilidade
e da perceptibilidade das coisas sensíveis, o Bem é a origem da
luciformidade e da cognoscibilidade das idéias inteligíveis. Conhecer
é saber ver, não apenas com os olhos do corpo, que se limitam
à observação do mundo visível, mas, sobretudo, com
o olho da alma, que se compraz na admirável visão do universo
ideal. Formar verdadeiramente significa educar o olhar eidético, potenciá-lo
e atualizá-lo num virar ou fazer girar toda a alma, num volver a cabeça
do mundo sensível para o universo inteligível a fim de se poder
ver a idealidade luciforme do Bem.
Pensar o supra-sensível com o olhar eidético
concentrado no que antecede e excede o domínio de tudo que é ou
existe significa propiciar a substituição da paideia poética
pela paideia filosófica. Determinado como idéia, o ser
se define como propriedade paradigmática de todo e qualquer ente, como
o próteron, o prius ou o anterior, o antecedente, o antecessor
de tudo que aparece no reino entitativo. Compreende-se, portanto, o motivo por
que o saber preconizado por Platão se caracteriza aprioristicamente.
O próprio ser, platonicamente determinado como idéia, é
a priori. O conhecimento dos entes ou dos physei ónta é
a episteme physiké. Episteme, a ciência platônica
do ser, reporta-se a epistasthai, que significa assumir a posição
ou atitude requerida para se defrontar com algo. No ato de virar a cabeça
para mirar o fogo e, principalmente, no volver o olhar do mundo sensível
para o universo inteligível é que se realiza a episteme
platônica. O que se converte em tema de investigação desta
ciência dos entes se denomina tà physiká. Mas o ser
se estende, em consonância com a sua prioridade, para além dos
entes. Como o ser é a priori, a ciência filosófica
tem de ser necessariamente metafísica. A priorização do
ser e matematização do saber constituem o anverso e o reverso
da doutrina platônica sobre a verdade. Matemático significa precisamente
o que é susceptível de doutrinação, de ensinamento
e aprendizagem independentemente da experiência dos sensíveis,
unicamente com a consciência dos inteligíveis. O saber ver o real
pressupõe o ter visto o ideal. O saber a priori da idealidade
implica o conhecer matemático da realidade. Só sabe verdadeiramente
quem adquire o conhecimento universal e normativo de um objeto único
em sua essência transcendente à diversidade sensível, em
sua presença constante, exemplar e paradigmática. O reconhecimento
da ciência matemática é uma decorrência da consciência
metafísica.
A interpretação heideggeriana do mito da caverna
surpreende, para além do que é dito no texto platônico,
o subtexto do que não é dito, e que, no entanto, constitui a força
propulsiva do estranho relato socrático. O sentido que subjaz e subage
no ideal de formação propugnado por Platão opera uma mudança
na determinação da essência da verdade. O homem é
concebido em consonância com a validade universal e genérica da
imagem ideal de sua humanidade, que o liga ao reino superior das idéias
que se imprimem na sua alma e a modelam. A verdade é descrita e circunscrita
pela visibilidade ou pelo modo como as coisas se evidenciam, segundo um foco
que as mostra sob determinada forma. A educação filosófica
é um processo de formação em que se enforma cada uma das
coisas imediatamente visíveis e sensíveis, imprimindo-se-lhes
um determinado caráter, um aspecto definido, precisamente porque as conforma
ao ponto de vista norteador ou à visão ideal de uma imagem prototípica,
que lhes prefigura e condiciona o modo de ser e de existir. Platonicamente determinada,
a verdade é subjugada pela idéia. De fato, ao se desviar das sombras
para considerar as coisas, o cavernícola procura dirigir o olhar para
o que tem mais ser do que simples imagens reflexas. Em cada estágio mais
desenvolvido de seu trajeto existencial, mais imperiosa se lhe impõe
a necessidade de olhar de modo mais correto e adequado. Tudo se lhe afigura
subordinado à orthotes, que é a correção
e a exatidão do olhar. A essência da verdade é determinada
como semelhança e conformidade da alma com o protótipo ideal e
como adequação e exatidão do olhar eidético. O conhecimento
da verdade se superpõe ao acontecimento da verdade. A verdade matemática
do saber suplanta a verdade poética do ser.
A revolução platônica acerca da verdade
se enuncia subliminarmente na preponderância da epistemologia sobre a
ontologia. O adaptar-se da percepção assegura um adequar-se do
que se conhece ao conhecido. A verdade do ser (alétheia) se converte
na verdade do saber (orthotes), prefigurando o conceito de veritas
como adaequatio rei et intellectus. E a mutação da essência
da verdade acarreta a transmutação do lugar de sua residência.
Como orthotes, a verdade já não reside nos próprios
entes, mas é dependente do comportamento do homem filosoficamente educado
em relação ao domínio entitativo, simplesmente porque a
idéia do Bem, que o filósofo alberga em sua alma, é que
confere ao conhecido o caráter de verdade e ao conhecente a capacidade
para conhecê-lo. Filosofar significa contemplar o fulgor da idéia
do Bem a fim de aplicá-la como modelo de esclarecimento de tudo que é
ou existe. Entretanto, Platão ainda é compelido a manter a concepção
da verdade como imanente ao domínio entitativo, pois todo e qualquer
ente que se apresenta só se essencializa porque aparece, e o ser é
precisamente o processo da aparição. O sentido de alétheia
é desvelamento. Acontece, porém, que a verdade como alétheia,
ao ser subjugada pela idéia, se transforma no que há de mais desvelado.
Simultaneamente se desloca a questão relativa ao desvelado, pois já
não visa senão à aparição da luz da evidência
e à precisão e correção do ato de ver que lhe corresponde.
A evidência dos entes supõe a clarividência do olhar filosoficamente
treinado. Uma ambigüidade necessária permeia, portanto, a doutrina
platônica sobre a verdade. A verdade se determina como alétheia
e, sobretudo, como orthotes. O fundamental, no entanto, é que
Platão fala da alétheia quando pensa na orthotes.
A determinação necessariamente ambígua
da verdade é sublinhada pela própria interpretação
platônica da imagem mítica da caverna, segundo a qual a idéia
suprema estabelece a correlação do conhecer com o conhecido. Esta
correlação é concebida ambiguamente, conforme se verifica
nas duas definições da idéia do Bem, que são justapostas
no texto platônico. Na primeira, a idéia do Bem se caracteriza
como a causa universal de tudo quanto existe de correto e belo; na segunda,
a idéia do Bem se define como a soberana do desvelamento (de todos os
entes) e da percepção (ou capacidade de os perceber). A justaposição
destas duas proposições assinala equivocamente que a verdade é
o acontecimento histórico-ontológico do desvelamento (alétheia)
e o conhecimento ontoteológico da correção e da exatidão
do olhar eidético (orthotes). O equívoco só se resolve
na opção filosófica pelo primado teórico da idéia
suprema, que possibilita a exatidão do verdadeiro conhecimento e o desvelamento
do verdadeiramente conhecido.
Que acontece quando o homem se liberta de sua dependência
em relação ao ser supremo e se apresenta como o ente que paradigmaticamente
representa, perante o tribunal de sua consciência logicamente esclarecida,
a essencialidade do que é e a inessencialidade do que não é?
Simplesmente a idéa se torna o perceptum da perceptio,
e o homem filosoficamente educado se põe como representante ou condição
de possibilidade de todos os entes. A essencialidade da idéia como presencialidade
e visibilidade se converte na representatividade projetiva do sujeito representante
perante o objeto representado. O ser se transforma na mera condição
de possibilidade de que dispõe o homem que se representa em tudo que
se lhe apresenta. A determinação do ser como condição
de possibilidade dos entes, no idealismo platônico, ou dos objetos, no
idealismo cartesiano, é retomada e consumada na proposição
fundamental da Crítica da razão pura, em que se enuncia
categoricamente que as condições de possibilidade da experiência
em geral são, ao mesmo tempo, as condições da possibilidade
dos objetos da experiência. As condições de possibilidade
são o que Aristóteles e Kant denominam categorias ou determinações
da essência dos entes. A interpretação do ser como condição
de possibilidade se prepara e se desenvolve no percurso histórico da
filosofia. Inicia-se no mitologema platônico da idealidade, explica-se
no filosofema cartesiano da subjetividade e se consuma no teorema kantiano da
objetividade (a subjetividade transcendental como representatividade ou condição
de possibilidade da objetividade dos objetos). O ser inicialmente proposto ao
filósofo pela metafísica da idealidade é finalmente disposto
pelo filósofo na metafísica da subjetividade.
Idéa, Episteme, Orthotes são signos da
unicidade absoluta propugnada pela metafísica em contraposição
à verdade da poesia ou poesia da verdade. A tríade epistemológica
de Platão, que preside à gênese e ao desenvolvimento da
filosofia, descarta necessariamente a poematização da duplicidade
originária da verdade do ser, porque visa tão-somente à
matematização do conhecimento, ao processo de unificação
do saber acerca do ser, ao uno único unificante, ao princípio
e fundamento ontoteológico, ao suporte subjacente a tudo que é
ou existe. Convém demonstrar, no entanto, que a ciência henopoética
é uma redução, e não uma superação,
da experiência alethopoética. Com efeito, a interpretação
do ser como idéa resulta da compreensão originária
do ser como physis. O que exsurge se evidencia sob um certo aspecto.
Phyein significa o nascer do sol, o brotar de uma flor, o crescer de
uma planta, o originar-se de si por si mesmo, o mostrar-se, o desvelar ou revelar-se
de todo e qualquer ente. Physis é a brotação das
coisas ou a aparência enquanto aparição de tudo que é
ou aparece. Os étimos pha- e phy- designam o mesmo processo
ontofânico. Ao ser como o ilumínio da manifestação
corresponde a verdade como o domínio da revelação. A idéa
provém da physis e se mantém epifanicamente detida no ritmo
de transe do fulgor de sua vigência e do vigor de sua evidência
aspectual. Portanto, ao pensar o ser como idéa, Platão
se caracteriza como o pensador que realiza a consumação do pensamento
originário dos gregos. Consumar quer dizer conduzir algo até ao
limite extremo de sua delimitação, efetivar a sua plenificação
final. Delimitar, porém, não significa apenas marcar o fim último,
mas também anunciar um novo início. O que decisivamente determina
a revolução platônica ocorre quando a idéa,
que é uma conseqüência da essencialização aspectiforme
do ser, assume o estatuto privilegiado da própria essência, convertendo-se
no ente paradigmático, exemplar e supremo. O que decide o declínio
do antigo regime ontológico e o aclínio da novíssima vigência
metafísica não é o ter-se caracterizado a physis
como idéa, mas o haver-se imposto a idéa como a
interpretação única e normativa do ser. Doravante, entre
a essência e a aparência há uma separação,
uma cisão, um corte epistemológico, e o ente consignado e oferecido
usurpa a dimensão consignante do oferecer original. O faciendum
do desvelamento é metafisicamente reduzido ao factum do mais desvelado.
A physis se despotencializa, degradando-se numa simples antítese
da arte e da lei, e o que aparece se denuncia como sendo só o que parece.
A Hermeneutização da Verdade
A militância nihilista de Nietzsche refuta radicalmente
a tradição ontoteológica da metafísica. O renome
do ser e do deus divulgado pelo platonismo e recitado pelo cristianismo é
denunciado como o mero pronome do universo inteligível hierarquicamente
anteposto e contraposto ao reino sensível. Platão se lhe apresenta
como o insidioso e pernicioso hierofante das formas imutáveis e das normas
inaceitáveis, que deve ser julgado e condenado como o arquetípico
detrator da hierofania da êxtase sensorial e, sobretudo, como sonegador
prototípico do corpejante gesto de baile da vida perpetuamente ritmada
no jogo dionisíaco do duplo domínio do mundo deveniente. Mais
do que modelo de tudo que existe no habitáculo terrestre, as idéias
platônicas constituem as matrizes absolutas de uma doutrina escatológica,
que nadifica o mundo em que se exerce a experiência propriamente antropológica.
A singularização teoplástica de idealidade hegemônica
do bem representa paradigmaticamente a absurda dessacralização
iconoclástica da realidade ctônica. A valorização
eidético-noética do além estelar suscita e provoca a desvalorização
estético-somática do aquém sublunar, e a fulguração
da espiritualidade celeste supõe e propõe dogmaticamente a ofuscação
da corporalidade terrestre. A platonização equivale à degradação
da temporalidade e à desvitalização da humanidade. A insurreição
contra a mistagogia platônica se concebe, portanto, como uma possibilidade
da salvação humana e da redenção mundana. O nihilismo
europeu, por notável exemplo, confuta o patrono do idealismo onto-teo-lógico
ao demonstrar que os valores supremos se desvalorizam. A nadificação
sistemática da legitimidade dogmática da religião teísta
e a nihilificação enfática da validade paradigmática
da razão idealista são aclamadas e proclamadas pelo pensador do
eterno retorno do mesmo como enunciações programáticas
que induzem à transmutação da servilidade urânico-teomórfica
na liberdade telúrico-antropomórfica. A confirmação
do nihilismo possibilita a infirmação do sortilégio desvitalizante
e espiritualizante do platonismo e do cristianismo. A paideia lúdica
da Zaratustra assegura que a supressão do primado teórico da idealidade
é a condição sine qua non da recuperação
do ditame poético da vitalidade. Na mundividência nietzcheana,
filosofar não é platonizar ou valorizar os ideais precursores
da doutrina medieval dos transcendentais, mas, sim, hierofanizar a sensível
seiva da vida.
Professando a sua missão emancipadora da humanidade
subjugada pela idealidade, a pregação nihilista da filosofia nietzscheana
não se satisfaz com a verificação de que os valores supremos
se desvalorizam nem se compraz na observação do crepúsculo
dos ídolos onto-teo-lógicamente apreciados e cultuados. O nihilismo
criticamente definido e passionalmente assumido por Nietzsche se autentica como
o nihilismo clássico-exático e se justifica como uma maneira divina
de pensar. Clássicos significa que o nihilismo nietzscheano é
o modelo dinâmico da transmutação de todos os valores tributários
da vigência histórica da consagração ideoplástica.
A mutação radical do antigo sistema axiológico implica
a instituição fundamental dos novos valores requeridos pela vontade
de potência entusiasticamente mobiliza e sintoniza com o trânsito
floral do movimento vital. Estaticamente, o nihilismo ensina o homem a dançar
na celebração festiva do bem querer a hierofania do êxtase
do viver. A conversão do vitalismo se viabiliza na inversão do
platonismo. O ponto de vistanorteador da nova teoria do conhecimento não
é perpectivado pelo ilumínio de idéa, mas pontualizado
pelo domínio da enérgeia da vontade que se quer atualizar
como potência incondicional de si mesma. O ponto de vista do valor é
o ponto de vista das condições de conservação e
expansão concernentes às configurações complexas
da relativa duração da vida dentro do devir.
A instituição do ponto de vista do valor transmuta
o mitologema platônico da idealidade no axioma nietzscheano da vitalidade.
A cifra do drama do ser e do não-ser decifra-se na alternativa do valer
e do não-valer. O valor nunca é, mas vale ou prevalece apenas
enquanto fortalece a operação metafórica do viver. A certeza
do acerto existencial do sujeito se patentiza no sentimento estuante do acréscimo
do seu poder de viver no concerto vital do prazer consoante com o devir. O parâmetro
da verdade é consignado pelo dinamômetro da vitalidade. Somente
a ingenuidade hiperbólica da criatura ainda não ciente nem consciente
da potencialidade autoplasmadora da vontade soberanamente pletórica é
que explica a pretensa validade universal e normativa do ideal onto-teo-lógico.
Numa espécie de ilusão ótica, o homem demasiado humano
se limita a projetar além de si as condições de possibilidade
de sua autodeterminação, acreditando ingenuamente que a verdade
lhe advém de um lugar supraceleste. Iludida e ludibriada pela fulguração
ofuscante da idéia suprema, a potência da vontade se perverte na
impotência da servilidade. A sujeição da humanidade ao ordenamento
do ser platonicamente singularizado como a onticidade ou propriedade paradigmática
autentificada pela idéia do Bem resulta tão-somente do comportamento
alienado do homem criticamente deseducado. Promovendo o reconhecimento de que
o ponto de vista é modulado pela pontuação ponderativa
da visão do homem liberado dos ditames transcendentes e dos liames eternos,
o conhecimento nietzscheano se credencia como a via real do verdadeiro itinerário
hominal. O que é válido não vale porque é um valor.
Pelo contrário, o valor equivale a um valor somente porque vale, porque
é fixado ou instituído como válido. Os valores infinitamente
se valorizam e se desvalorizam. A verdade do platonismo se transmuta no perspectivismo
da subjetividade que se libera da ingenuidade hiperbólica.
As condições da vitalidade são as perspectivas
da possibilidade de conformação concrescente e de transformação
coalescente da matéria vertente do puro in fieri do ser que somente
é enquanto devém. A conformação da deveniência
vital é uma concreção complexa, porque requer a interação
do ato racional e do conato pulsional ou a interpenetração poético-patética
do nexo da razão estruturante e do plexo da paixão desestruturante.
A formação apolínea da vontade de potência e a deformação
dionisíaca do eterno retorno do mesmo são o anverso e o reverso
da mesma versão nietzscheana da vida. Formação, transformação,
mediação eterna do devir eterno, vitalizar significa poetizar
a excessividade caótica do divino zoogônico. Existir é produzir-se,
adiantar-se para se patentear no ritmo de transe do trânsito floral. A
gaia ciência do viver se explica na experiência trágica de
que o ser existe, porque coexiste com o não-ser. Tudo se oculta e se
desoculta, se interioriza e se exterioriza, numa ronda, num circuito em que
nascer e perecer se circunferem. Em conúbio com o nada, o ser liga e
desliga os fios de que se compõe a totalidade do real. Circulus vitiosus
deus? O círculo dionisíaco do duplo domínio da vida
e da morte traz necessariamente o viço vitalizante e o vício mortalizante,
o vitium, o anel das vicissitudes do destino. Deus não aparece
divinamente, senão ocultando-se? Se o viver do mundo é o morrer
do deus, o repto vital, já de si, é o rapto mortal. Em torno do
herói, tudo se torna tragédia; em torno do semi-deus, drama satírico;
e em torno de deus, tudo se torna como? "mundo" talvez?
Reconhecendo a supremacia do pensar poético sobre o
pensar teórico, Nietzsche argumenta e sustenta que as intuições
originais dos filósofos anteriores à tradição onto-teo-lógica
da metafísica são as mais elevadas e mais puras já alcançadas
e experimentadas na civilização ocidental, sobretudo porque compartilham
a visão trágico-dionisíaca do mundo. Os filósofos
trágicos são os pensadores que compreendem a natureza como a cifra
dionisíaca do duplo domínio da vida e da morte ou do ser e do
nada. Exaltando a tensão heraclítica dos contrários, a
exegese nietzscheana da philosophia enquanto physiologia culmina
na assertiva de que o mundo é o jogo de Zeus, ou fisiologicamente expresso,
o jogo do fogo consigo mesmo; somente neste sentido, o uno é, ao mesmo
tempo, o múltiplo. O aclínio e o declínio do pensamento
são atribuídos a duas mundividências, uma trágica,
de Anaximandro e os outro fisiólogos, e outra teórica, de Platão
e todos os filósofos posteriores. Num dos fragmentos póstumos,
lê-se: Anaximandro. Visão trágica do mundo. Tragédia.
O fim da época trágica do pensamento inaugurado por Anaximandro
ocorre com a separação platônica do ser e do devir. Com
Platão, inicia-se a depreciação da vida através
da valorização da idéia do Bem, e o homem trágico
é substituído pelo homem teórico. O antigo mundo sucumbe
com o advento do homem teórico. O elemento apolíneo se separa
do dionisíaco e, a partir de então, ambos degeneram. Doravante,
a consciência e o apetite cego se contrapõem como poderes antagônicos,
que se confrontam enraivecidos e exasperados num mesmo organismo.
Como filósofo trágico é que Nietzsche
enfrenta Platão, o protótipo do filósofo teórico.
A desconstrução nietzscheana da estrutura arquitetônica
da metafísica platônica pode ser figurada no teorigrama subseqüente:
O Essente, O Supremo Inteligível = O Mundo Verdadeiro
O Deveniente, O Inferno Sensível = O Mundo Aparente
Cumpre observar que a inversão dos extremos contrapolares
não atinge o esquema conceptual do khorismós platônico,
mas tão-somente transmuta o platonismo no positivismo. O subiectum
qua positum apenas se desloca de um lugar superior para outro inferior.
A grande façanha da inversão nietzscheana do platonismo consiste
em provar que a refutação do mundo verdadeiro acarreta a confutação
do mundo aparente. A essência inteligível e a aparência sensível
não têm valor próprio e absoluto. Se o essente supremo não
persiste, o inferno deveniente não subsiste. Incipit Zarathoustra.
Incipit Tragoedia. Momentaneamente detida no impulso de se ultrapassar,
a vida se efetiva em ritmo de transe, e o pensamento só se consuma na
consciência de que o ser somente é enquanto devém. Antes
de se haver com objetos e de perseguir objetivos, a vida experimenta diretamente
a si mesma como atividade essencialmente poética de gestação
e autoplasmação. Em sua evolução e revolução
permanente, neutraliza e dissolve a pretensa imutabilidade dos princípios
a priori, reinterpretando continuamente a si mesma na mobilidade pura
do ser que devém e do devir que é. Criando e recriando as categorias
com que se interpreta, hermeneutizando sempre a si mesma, a vida é a
poematização do seu próprio sentido. O mundo se torna infinitamente
interpretável, e o pensador não se legitima, senão quando
se converte no poeta que celebra a ronda perpétua do movimento vital.
Concebendo a força morfogenética da poesia trágica como
projeto instituidor dos novos paradigmas, medidas e valores do mundo ritmado
no eterno retorno do mesmo, Nietzsche caracteriza a visão poética
como a forma privilegiada do conhecimento compatível com a essência
radicalmente deveniente da experiência existencial.
Amor fati é o ditame nietzscheano da celebração
dionisíaca do drama da vida e da trama da morte. A experiência
patética do anverso vital e do reverso mortal do destino que se apresenta
e se ausenta da fuga perpétua do tempo constitui a ciência poética
do homem que se transumaniza ao suplantar a inflexão inercial do espírito
do ressentimento, do clamor e da vingança contra o declínio ofuscante
da mortalidade, que fatalmente sucede ao fulgurante aclínio da vitalidade.
A instância temporal só se explica na constância do incessante
trânsito da hora atual. Ser significa não cessar de aparecer e
desaparecer na essência e na evanescência dos momentos devenientes.
De acordo com a doutrina do eterno retorno do mesmo, somente está literalmente
morto aquele que, ao passar, petrifica-se no passado, enclausurando-se no cárcere
do que foi. A redenção ou recapitulação do destino
implica a superação do espírito de vingança que
se apossa do homem alienado na impotência de uma alma cativa que inutilmente
se agita e se exaspera contra o passar do tempo finalmente coagulado no passado
ou cristalizado como o magma depois da erupção. Sim, somente esta
é, já de si, a vingança: a aversão da vontade contra
o tempo e o seu ter sido vivido e perdido no grão nulo do que foi. Desta
rebelião do espírito contra a mortalidade terrestre decorre a
ficção metafísica da imortalidade celeste, e o mundo sublunar
se transforma no vale das lágrimas dos acovardados e dos ressentidos.
Rejeitando o conhecimento compendiado do dualismo que se estabelece
entre a sabedoria do comedimento e a euforia da desmesura, o mandamento arcaico
do eterno retorno do mesmo se perfaz na gaia ciência de uma paideia
poética, em que o nada excessivo da ordem apolínea é neutralizado
pela desordem dionisíaca da transcensão de todo e qualquer limite
proposto e imposto à experiência humana. O prólogo de Zaratustra
sentencia que o homem é algo que deve ser superado. Que o homem seja
redimido da vingança constitui o ditame dionisíaco do poeta que
se converte no artista de sua própria vida ao combater e vencer as potências
imanentizadoras da sua propulsão transcendente. Proclamando-se o sacerdote
de uma mistagogia lúdico-poética, o cantor do destino tragicamente
assumido se define na confissão de que somente acreditaria num deus que
soubesse dançar e na profissão de fé do escritor radicalmente
comprometido com a rubra legenda do corpo sangüíneo da vida e que,
por isso mesmo, de tudo que se lê não aprecia senão o que
se escreve com o êxtase diluvial da paixão vital: Escreve com o
sangue, e aprenderás que o sangue é espírito. Escritor
somente o é quem se torna o leitor de uma verdade que justifica a vida
que se forma na vontade de potência e se transforma no eterno retorno
do mesmo, continuamente criando e recriando a si mesma. A verdade é correção
e adequação, não como visão noética da idealidade
do espírito, mas enquanto suscitação poética e justificação
patética do corpejante gesto de baile da excessividade dionisíaca
da vida. Neste sentido é que a verdade nietzscheana se caracteriza como
justiça.
No magistério da vontade de potência, a infinitude
da eternidade e a finitude da temporalidade coexistem na transfinitude do eterno
retorno do mesmo. A concepção nietzscheana do tempo lhe advém
da visão e do enigma do portal da eternidade como umbral da temporalidade.
Ao espírito da gravidade, cujo argumento ironicamente refratário
à possibilidade da propulsão transcendente da existência
humana se traduz na assertiva pretensamente peremptória de que tudo que
sobe tem de cair, Zaratustra categoricamente retruca: tu não conheces
o meu pensamento abissal! Exortando o seu antagonista a contemplar um portal,
o mestre do eterno retorno lhe explica que ele tem duas faces e que dois caminhos,
ainda não totalmente percorridos por ninguém, nele se reúnem.
Símbolo da liminaridade ritual ou iniciática, uma face do portal
se volta retrospectivamente para a rota que conduz ao passado, e a outra se
devota prospectivamente para a senda que induz ao futuro. As duas vias que se
encontram e se desencontram no momento simbolizado no pórtico são
igualmente infinitas, porque a primeira não tem início, e a segunda
não tem fim. Se alguém seguisse adiante, as duas veredas do destino
iriam contradizer-se eternamente? A esta pergunta provocativa, o entendimento
demasiado humano do espírito da gravidade replica que tudo que é
reto mente, porque toda verdade é curva, o próprio tempo é
um círculo. Profundamente agastado com a imaginação meramente
formal desta pretensiosa decifração do enigma do tempo, que se
limita simplesmente a uma figuração geométrica, Zaratustra
reclama uma meditação que não se resolva na substituição
simplória de uma representação linear por outra circular.
O conhecimento essencial consiste na visão do pensamento abissal: o ver
abismos não é o próprio ver? A percepção
de duas direções simétricas e opostas, que só podem
concidir na circunferência de um círculo, é tão-somente
a conseqüência da inflexão inercial do espírito da
gravidade. O tempo não é o círculo em que tudo gira e regira
na tediosa monotonia da incessante repetição de uma substância
corrente ou transcorrente. O pensamento abissal implica o reconhecimento real
de que a matéria vertente da temporalidade é sem fundamento. Não
há causa primeira nem fim último. Destituída de uma causalidade
primordial e de uma finalidade terminal, a idéia de um original que se
repete se torna paradoxal ou irreal. O pórtico do momento, portanto,
simboliza a essência do tempo que se verticaliza no ritmo de transe ascensional
e descensional do aclínio vital e do declínio mortal. Separar
significa engendrar-se. O moto perpétuo da temporalidade é o anel
da eternidade do devir da vida que se consagra na celebração da
sua própria excessividade.
O enigma do tempo culmina na visão do pastor que se
salva e se transumaniza, mordendo a cabeça de uma cobra que lhe penetra
a garganta. Liberto do remorso da vida estrangulada pelo sentimento da irreversibilidade
do passado, o homem adquire o dom de dançar para além da cinza
das horas. Este pastor não é senão o autor do eterno retorno
de si para si mesmo, o boukólos, o bubulcus, o sacerdote
órfico-dionisíaco, que se encaminha para o encontro orquestral
com o coração selvagem da vida, devolvendo-se à verdadeira
morada de sua alma. Por isso mesmo ele reaparece convalescente e rodeado de
seus animais queridos, uma águia e uma serpente, que simbolizam, respectivamente,
o coelum-pater e a tellus-mater, compreendidos como a transcendência
urânica e a transcendência ctônica. Estes são os companheiros
que o reconhecem como o mestre do eterno retorno, o primeiro a ensinar esta
doutrina de que há um grande ano do devir que verte e reverte sempre
de novo, porque o próprio tempo, como jogo dionisíaco do mundo,
é que torna e retorna, e não simplesmente uma substância
no tempo. Eternamente gira a roda do ser. Compaginado no ensinamento de Zaratustra,
o ser eterno da filosofia se transforma no eterno ser da poesia.
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