Revista Mulheres e Literatura – vol.13 – 2014



REVISTA SELEÇÕES: ARQUIVO DE PESQUISA DE IMAGENS REFERENTES ÀS MULHERES DA DÉCADA DE 1950





 

Eliane Maria de Oliveira Giacon1

Universidade do Estado do Mato Grosso do Sul

Resumo: O artigo pretende apresentar o objeto de pesquisa as revista Seleções, em um período de dez anos, a década de 1950. Para tanto foi feito um recorte de alguns dados referentes à revista, à imagem e à posição da mulher neste período. Bem como foi necessário localizar o acervo, dizer o porquê de selecionar um período histórico e por fim fazer a análise de algumas imagens, a fim de observar de que forma a mulher é representada na revista Seleções.

Palavras-chave: Mulher, revista, imagem.

Origem da pesquisa sobre as revista Seleções

O objeto pesquisado e os desdobramentos dele vão ao encontro de um processo que passa pela seleção de um foco dentro de um projeto maior. O projeto em questão é do Laboratório de Acervos Pessoais financiado pelo FUNDECT/CNPq, que propiciou a pesquisa in loco da biblioteca do Centro de Memórias Jindrich Trachta, sitiada em Batayporã-MS.

Ao separar com um conjunto de documentos, livros, anotações do filólogo Jindrich Trachta percebeu-se que se abria ali uma oportunidade de pesquisa para historiadores, linguístas, sociólogos, antropólogos, literatos, psicólogos, jornalistas, agrônomos, pedagogos, que terão a oportunidade de caminhar por dentro das escolhas de leituras e escritas depositadas no Centro de memória Jindrich Trachta..

Jindrich Trachta foi um filólogo de formação, que veio para o Brasil, depois e 1950 e trabalhou na empresa de Jean Antonin Bata, sendo responsável pela formação da região, onde hoje se encontra a cidade de Batayporã/MS. No decorrer de sua vida ele adquiriu muitos livros e coleções de revistas. Após sua morte 2000, a família Trachta iniciou o projeto do Centro de Memória, que recebe o nome do filólogo.

Desde 2011, a professora doutora Eliane Maria de Oliveira Giacon, docente da Universidade Estadual de Mato Grosso do Sul, iniciou um projeto junto à FUNDECT/CNPq, intitulado Laboratório de Acervos Pessoais, que pretende discutir as opções de leitura dos fundadores do Estado de Mato Grosso do Sul, sendo que a primeira fonte de pesquisa é o Centro de Memória Jindrich Trachta.

No decorrer da pesquisa, um dos setores selecionados foi a hemeroteca do acervo, na qual há a uma coleção das revistas seleções de 1942 até o ano de 2000. A princípio, quando nos deparamos com a hemeroteca verificamos que havia a necessidade de catalogar, contudo isso implicaria um trabalho exaustivo, que foi realizado em parte pela acadêmica Amanda Henrique do curso de Letras da Universidade Estadual de Mato Grosso do Sul, em 2011. Durante a orientação da aluna, percebeu-se que havia a possibilidade de recortar um período de estudos desta revista, que se fixou na década de 1950.

A década de 1950 produz um momento de mudanças, políticas, sociais e econômicas, que vão ao encontro de um posicionamento da mulher em relação às suas opções de compra e de sua posição em relação à sua casa e família, pois a mulher aos poucos passa a ser de acordo com Marie Susuki Fujisawa (2006), quem decide os produtos, que entram em sua casa e consequentemente ela se tonar o alvo das propagandas de revistas, televisão, cinema, jornais e demais meios de comunicação.

A mulher, que toma seu lugar nas escolhas do que pode usar em sua casa, também passa a ser vista como mais um elemento da cadeia de consumo, que precisa ser convencido sobre o que comprar. O processo de envolvimento passa por um meio de comunicação, que foi incentivado a partir de 1942, quando a revista Seleções do Reader’ s Digest em plena segunda Guerra Mundial, quando a pedido de Nelson Rockefeller diretamente ao Departamento de Estado Brasileiro, pois o mesmo de acordo com Maria Junqueira(2001, p.147) tinha preocupação quanto à possibilidade do nazismo atingir as colônias alemães do sul do Brasil.

A revista Seleções, que era sucesso desde 1922 nos Estados Unidos passou a partir de 1942 a ter uma versão brasileira idealizada pelos proprietários americanos da revista DeWitt Wallace e Lila Wallace, que atingiu sucesso junto a classe média e alta brasileira. O resultado, que as edições da década seguinte, do pós-guerra passam a ser um veículo, que pretende trazer para uma fatia da população brasileira o estilo de vida americano, no qual os produtos a serem consumidos são direcionados à mulher.

A revista Seleções na Década de 1950

A pesquisa de Amanda Henrique (2011) apresenta um perfil dos sumários das revistas Seleções de 1951 a 1960. O trabalho traz dados impressionantes sobre cada revista, que será o objeto de pesquisa e de estudos a partir de agora, pois ela catalogou o sumário deste grupo de revistas bem como suas capas. Far-se-á um recorte, visto que se pretende observar como a confecção de uma revista, que a princípio é voltada para o público masculino, pois o marido era quem comprava as revistas e as colocava em casa e aos poucos, a revista inicia um processo de incorporação da mulher como promotora do vem estar da família e da sociedade.

O público, no Brasil, era composto na maioria por homens, que assinavam estas revistas, logo boa parte dos artigos interessava a eles, mas como, no interior da família, as mulheres também tinham acesso, havia seções que atendiam às mulheres. Uma delas é a “Seção de romances” e “Flagrantes da vida real”. O incentivo à leitura das mulheres aparece em textos como “Mandei minha esposa para a escola” de janeiro de 1952. Neste sentido e pelo fato de a revista viver em busca de leitores, há a preocupação de colocar alguns artigos e seções, que atendam às mulheres. Ainda há uma seção, na qual os vocábulos tanto em português quanto em inglês são apresentados aos leitores como forma de enriquece o vocabulário. Há a preocupação exaustiva com a língua e com o ensino de ler e falar bem, visto que o fator civilizatório americano passa por postura, língua e conhecimento.

No meio de algumas edições aparecem artigos como: “Você tem em casa uma esposinha habilidosa”, “Se sua mulher é cacete” e “Mandei reformar a minha mulher”. São artigos, que trazem um conteúdo machista e sexista, pois invocam o poder masculino do homem sobre a mulher. Ao apresentar esta posição sobre a mulher, há de se observar, que era a década d 1950, quando a estrutura social e o pós-guerra permitia a existência de uma sociedade, que não via estes textos como machistas, mas com riso e humor.

Por outro lado é possível perceber outras características da revista Seleções , que são textos fixos, em seções pré-determinadas, cujos textos mudam os temas, mas não o formato incisivo de tentar convencer o leitor. A função fática é extrema, que muitas vezes, o leitor contemporâneo pergunta-se: “Como os leitores não viam isso”, mas é o mesmo que ocorre, hoje, quando uma revista ou um grupo de revistas se torna como que uma leitura obrigatória de um país. Aquilo é visto como verdade, como se não houvesse outra saída a não ser aceitar.

Há também uma dicotomia entre as capas e os textos, pois muitas delas, da década de 1950 a 1954 trazem fotos de localidade e personalidades brasileiras, contudo os textos são voltados para a expansão americana, que valorizam sua cultura, ciência e língua. De 1955 em diante iniciam reportagens sobre o Brasil a partir de suas riquezas naturais como o amazonas, Belém, cataratas, bem como a vida de algumas populações brasileiras como os gaúchos. Em outubro de 1955 aparece o artigo sobre a Nação brasileira ao imigrante.

Os temas mais frequentes são: guerra fria; remédios; religião; descobertas científicas; mecânica das coisas; sexo e doenças; história, cultura, geografia, turismo e literatura dos Estados Unidos; combate ao comunismo; emprego e façanhas masculinas. Algumas seções são bem delimitadas: “enriqueça seu vocabulário”, “romances, flagrantes da vida real”, bem como “entre aspas”, que inicia em 1955. O ano de 1955 traz mudanças para a editoração da revista, que persiste no material estudado, até 1960.

A mulher na revista Seleções

Se a mulher americana, no período da Segunda Guerra Mundial assumiu muitos papéis da sociedade, ela a partir do final da guerra vê que os postos alcançados não poderiam ser deixados agora, só porque os homens retornaram, visto que muitos deles não voltaram e a reorganização do país dependia dela também.

O mercado de bens de consumo via nela uma possível consumidora, mas também alguém que necessitava de informação e de conhecimentos sobre o mundo que a rodeia. Assim as revistas passam a fornecer informações das mais variadas, tendo revistas de cunho romântico como as fotonovelas, quanto às de informação e venda de produtos como a Seleções.

A revista Seleções, que há mais de 20 anos era publicada nos Estados Unidos vem para o Brasil e aqui se transforma em um misto de informações pedagógicas, na tentativa de ensinar aos brasileiros, de como a classes média e alta poderiam se manter longe primeiro do nazismo e depois do comunismo e como se educar para o mundo capitalista.

A imagem da mulher apresentada para o Brasil era da dona de casa, que necessitava de produtos, que fossem bons para fazer alimentos para sua família; eletrodomésticos de qualidade superior e produtos de limpeza. A vida desta mulher precisava ser facilitada, porque ao melhorar as condições de trabalho doméstico, ela “se apaixona” pelos bens de consumo e não e interioriza a condição de dependente do capitalismo.

Ao mesmo tempo a mulher da década de 1950, no Brasil continua sendo a dona de casa, aquela que cuida dos filhos e salvo poucos casos, ela trabalha ou tem uma vida financeira independente. O lugar da mulher estava definido dentro de uma “família modelo dessa época, os homens tinham autoridade e poder sobre as mulheres e eram os responsáveis pelo sustento da esposa e dos filhos. A mulher ideal era definida a partir dos papéis femininos tradicionais […]. (BASSANAZI, 2006, p. 608) .Os papéis femininos são reforçados pela revista Seleções, contudo o mesmo veículo de informação passa a ver nesta mulher uma consumidora do que havia de melhor, em matéria de consumo. Entre textos, artigos, que se volta para discussões sobre políticas, informações sobre o que se passa nos Estados Unidos, informações sobre a Europa e América Latina e novelas folhetinesca, há espaços para a propaganda e do convencimento por parte dos produtores da revista às consumidoras brasileiras.

A leitora brasileira desta revista encontra temas literários nas seções: romances e flagrantes da vida real, contudo existem outras partes, que apresentam artigos voltados para esta mulher com dicas sobre serviço doméstico, como educar filhos, depoimentos de homens que mandaram as mulheres para a escola, sugestões sobre etiqueta e um artigo de outubro de 1954, que invoca as mulheres a pararem de levar pratos. O texto intitulado “Chega de lavar pratos” pressupõe uma realidade de máquinas, que lavem pratos, que ao lê-lo hoje, percebe-se uma mudança socioeconômica, na qual a mulher teria mais tempo para si mesma e para a família.

Apesar de não ser a princípio uma revista com temas específicos para as mulheres, no decorrer da década um aumento de artigos e seções, que atendem a leitura deste leitor feminino em formação. O que em termos pode ser complementado com as imagens de propaganda, que percorrem todas as edições.

Para efeito deste artigo e pelo espaço exíguo, iremos analisar somente algumas destas imagens, sendo algumas de propaganda e outras de capas, pois de acordo com Joly (1996, p. 71): “A imagem publicitária […] essencialmente comunicativa e destinada à leitura pública, oferece-se como o campo privilegiado de observação dos mecanismos de produção de sentido pela mensagem.”, log tanto o primeiro grupo das capas e o segundo das propagandas internas da revista Seleções vêm ao encontro da necessidade de produzir sentido a uma mensagem.

Do primeiro grupo o das capas, há um a preocupação do uso de cores vibrantes como vermelho, amarelo, azul e verde na composição de um cenário tropical com imagens de mulheres brancas, bonitas, cujas peles refletem o sol. As roupas em geral são americanizadas, pois as modelos destonam do ambiente tropical, no qual elas estão inseridas nas fotos.

A capa da revista Seleções de 1954:

Seleções de Reader’s Digest, Rio de Janeiro: Ipiranga, mar/1954, nº 145.

Em todas as edições, cujas imagens femininas aparecem em primeiro plano há sempre o distanciamento desta figura do dado local, exposto na parte escura da imagens. A imagem da mulher sobreposta à feira próxima ao vendedor e os barcos. Demonstra uma sobreposição de imagens. A primeira ao fundo são os barcos, que estão mais distantes da imagem da mulher do que do vendedor de frutas, log a proporção entre elas é desconexa, o que evidencia uma forma grosseira de ocultar a realidade brasileira. O tom discordante é a mulher, que em primeiro plano atrai a atenção do leitor e tende a se sobrepor aos demais itens da imagem. A mulher não é brasileira, ela veste-se de maneira a tentar parecer com uma brasileira, mas faltam-lhe traços físicos, que a aproximariam do biótipo de brasileiras, mesmo de cor branca, que vivem nas regiões próximas ao mar.

Se por um lado as capas trazem a busca constante de imprimir uma mentalidade de distanciamento da figura feminina do dado local e sua sobreposição como sendo um ser fora do contexto social do Brasil, pois ela é sempre uma visitante dentro da imagem, por sua vez as imagens de propaganda tendem a usar o texto para convencer a leitora sobre um produto.

O primeiro caso a ser observado é quanto à lavagem de roupas, pois as roupas brancas seriam lavadas com o produto Q BOA, que até hoje é vendido em larga escala como alvejante no Brasil. As cores são mais sóbrias, pois é preciso evidenciar o branco da roupa

Revista SELEÇÕES. Rio de Janeiro: Ypiranga, 1954, nº144: p. 9.

A primeira chamada da página diz que as roupas brancas são preciosas, faça-as durar para sempre. Observa-se que em 1954 comemorava-se quase uma década do fim da II guerra Mundial, logo a preocupação com a paz se torna evidente, quando se remete a ideia de que a roupa branca é preciosa, depois aparecem os efeitos positivos do uso do produto, inclusive, que ela protege a saúde da família. A ação descritiva do produto precede a imagem do vidro, que fica no canto direito inferior da imagem próximo aos dizeres da indústria que fabrica. O alvo é a mulher e a sua capacidade de comprar um produto, que atenda ás necessidades de sua família. A preocupação é vender um produto para a família e não só para diminuir o trabalho da mulher.

A preocupação com a diminuição do tempo de trabalho da mulher com os serviços domésticos é centralizada na venda de tecnologias, que são anunciadas, nos artigos da revista, pois as leitoras leem sobre os avanços tecnológicos para diminuir o tempo com o trabalho e em seguida, em outras edições há propagandas voltadas para vender produtos, que pretendem retirar o fardo milenar do trabalho doméstico da mulher.

O texto mais uma vez se sobrepõe à imagem, pois ele clama para que a mulher termine o serviço em menor tempo e possa se dedicar à família. O relógio, ao lado da imagem da mulher marca quase onze horas, horário, que no Brasil, da década de 1950, tanto nas grandes como pequenas cidades todas as classes operária e patronal paravam para o almoço.

Para a mulher o relógio de parede funcionava como um aviso de que, depois daquele horário, ela teria de colocar o almoço à mesa, almoçar, atender a família. O trabalho dela deveria estar pronto até aquele momento e sendo assim, o aspirador de pós a faria terminar o serviço em tempo hábil para atender mais uma exigência capitalista, que era servir à sua família, a fim de que o seu marido e filhos pudessem servir à busca de riquezas, que por sua vez poderiam comprar os bens de consumo.

RevistaSELEÇÕES, Rio de Janeiro,Ypiranga, 1954, nº 149: p. 153.

As facilidades de utilizar o equipamento são demonstradas em um espaço pequeno do lado direito, enquanto que o equipamento aparece em primeiro plano da esquerda para direita ocupando um espaço superior à figura da mulher. O texto explicativo diz quais são as qualidades do produto e quais as expectativas, que a mulher deve ter em relação a ele.

Ao comparar as três imagens é possível perceber, que a figura da mulher sofre uma transmutação nas capas, pois ela sempre destoa do restante da foto como se fosse uma montagem ou ela é posta, em segundo plano, nas propagandas. Embora a intenção da revista fosse vender produtos ou inserir a mulher dentro do contexto da revista, ela o faz com que a mulher brasileira, seja colocada em posição de mais um detalhe dentro da ótica masculina a qual a revista Seleções direciona seus artigos e reportagem. Os locais bem delimitados das seções também se aplicam a conjuntura social da família, na qual para a mulher ficaria relegado o trabalho de estruturar com seu trabalho doméstico e sua prole a sociedade capitalista.

Referências Bibliográficas

BASSANAZI, Carla. Mulheres dos anos dourados. In: DEL PRIORE, Mary (org.) História das mulheres no Brasil. São Paulo: Contexto, 2006.

FUJISAWA, M.S. Das Amélias às mulheres multifuncionais. São Paulo: Summus, 2006.

JOLY, Martine. Introdução à análise da imagem. Campinas: Papirus, 1996.

PEREIRA, A. H. Memória na revista Seleções: um estudo do perfil da mulher na década de 1950. Trabalho de Conclusão de Curso. (Graduação em Letras) 2012. Campo Grande, Universidade Estadual de Mato Grosso. Orientador: Eliane Maria de Oliveira Giacon.

REVISTA SELEÇÕES, Rio de Janeiro: Ypiranga, 1950-1960.

1 Doutora em Letras/Literatura pela UNESP/Assis. Professora da Universidade Estadual de Mato Grosso do Sul, leciona Literatura e Identidade e Teoria da Literatura na graduação e no mestrado. Autora de vários artigos e do livro Literatura e identidade: uma leitura de Viva o povo brasileiro (PACO). Coordena a editoração da web-revista Linguagem, educação e memória.

 



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