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Resenha: “Um amor. Contos de amor na cidade do Rio de Janeiro” – Luiza Lobo





RESENHA POR LUIZA LOBO

Literatura e Cultura – Janeiro de 2017

SANTOS, William Soares dos. Um amor. Contos de amor na cidade do Rio de Janeiro. Pref. Claudio Aguiar. Rio de Janeiro, Ibis Libris, 2016. 180 p. il.

Já tivemos muitos textos em homenagem ou enquadrados na cidade de São Sebastião do Rio de Janeiro, como os de Cecília Meireles, Vinicius de Moraes, crônicas de Rubem Braga, Paulo Mendes Campos, contos de Clarice Lispector, Sérgio Sant’Anna, Rubem Fonseca, Sonia Coutinho, novelas, como A estrela sobe, de Marques Rebelo (Edi Dias da Cruz), e, na música, incontáveis compositores… sem falar em José de Alencar e Machado de Assis. A lista é muito ampla, e poderia desencorajar qualquer um que não fosse William Soares dos Santos.  Este guerreiro escritor, pesquisador, oriundo dos bancos da Faculdade de Letras da UFRJ e agora seu professor de italiano, não para jamais. Ano passado publicou rarefeito – poemas, pela mesma editora, Ibis Libris, que agora lança também este livro de contos situados na cidade do Rio de Janeiro. Além destes, ele já publicou livros sobre didática de ensino, em colaboração, e diversos ensaios. Sempre original e múltiplo, William é exímio desenhista e fotógrafo. Ele é também o autor das fotos em branco e preto que ilustram cada um dos contos, marcando o bairro em que se passa a história, sempre apresentando ângulos inusitados.

As epígrafes do livro são em grego (de Menandro) e em italiano (da Divina comédia, de Dante Alighieri), justamente o Inferno, versos 100 a 105 do canto V, que trata do amor. Mas não há qualquer analogia entre os contos e os males do Inferno, de Dante, tanto que a passagem escolhida fala do amor: este “tomou-me pelo seu desejo tão forte, / que, como vês, não me abandona”. Os contos rememoram antes o amor e o encontro que o mal e o desencontro infernais. São doze contos que tratam de “o amor da mãe pelo filho”, do “poliamor”, da divisão “entre dois amores”, “flores de jacinto”, com referência a Virginia Woolf. Os que mais se aproximam do inferno são “ulisses” (p. 169-175), que nos remete à ilha da feiticeira Circe, a qual transformou os marinheiros em animais e quis aprisionar Ulisses para sempre, e “poliamor” (p. 89-103), que parte de uma descoberta de amor poligâmico e termina num cruel inferno.

O conto “flores de jacinto” (p. 57-71), vai na mesma direção que “poliamor”, no sentido de construir contos de amor fora do costumeiro modelo heterossexual. A descrição de uma solteirona “já com mais de 25 anos” (p. 60) está localizada no ano de 1970, e seu estudo num curso de inglês e sua vida são associados à biografia homossexual de Virginia Woolf. Referências a amores homossexuais parecem uma tendência da nova geração, agora liberta de entraves preconceituosos contra todo tipo de amor fora das normas canônicas. Tais preconceitos permanecem, mas, agora, liberados pelo menos na legislação, e relações amorosas tornam-se tema literário não mais reprimido, mesmo que nem em todas as mentalidades.

“O amor da mãe pelo filho” se situa em data ainda anterior: 1961. Foi nessa época que a favela do Pinto foi desalojada para dar lugar a um condomínio de luxo, chamado Selva de Pedra, e outro para baixa renda, numa proposta de dom Helder Câmara de misturar ricos e pobres – prédio que ainda existe no jardim de Alá, na divisa entre Ipanema e Leblon, uma das áreas mais valorizadas da cidade, tendo vista para a praia e para a Lagoa. É talvez o conto mais social – e sua colocação em primeiro lugar no livro dá uma impressão inicial ao leitor de que todo o livro correrá nessa linha… A favela é queimada pelo poder público – recurso constantemente utilizado em São Paulo para retirar moradores recalcitrantes e desocupar terrenos particulares – mas o final é feliz, embora focado num único caso.

William vai percorrendo os bairros – o centro, em “flores de jacinto”, com a confeitaria Colombo, na rua Gonçalves Dias – Copacabana, em “o divórcio” (p. 73-87), com o “divorciando” repetindo o estado de espírito do noivo, anos antes, ao correr em casa atrás do documento de pacto antenupcial esquecido pela estagiária, e exigido pelo tabelião para realizar o divórcio. A corrida pelas ruas de Copacabana serve de ensejo para o personagem relembrar os anos passados no matrimônio que termina. O clima de ansiedade do noivo renovado em “divorciando” é muito bem reconstituído, sem uma atitude maniqueísta de bem ou mal nas cores do passado, mas uma vida transcorrida até ali com felicidade, também. Foi apenas o amor que acabou, abrindo novas possibilidades.

O conto “flores de jacinto” parece preceder cronologicamente “entre dois amores” (p. 49-55), que o antecede nas páginas do livro. Neste há também uma primeira e uma segunda mulher, enquanto no anterior a “flores de jacinto”, intitulado “um amor” (p. 37-48), paira uma sombra triangular ou uma indecisão amorosa num caso amoroso relatado do ponto de vista do homem por um narrador onisciente. “entre dois amores” é também narrado por um narrador onisciente que mergulha no interior do protagonista masculino. Tem final triste, assim como “poliamor”. Antes que tudo há o desencontro, a impossibilidade do amor juntos, como em “o retrato da infanta maria teresa” (p. 159-167).

O amor de Ulisses por Penélope, difícil quando se realiza e cheio de esperança quando reaparece, pode corresponder ao mote de todos os tipos de amor do livro: “(…) ele testificara que o amor não era, necessariamente, o elemento formador da felicidade. Eles não poderiam mais viver juntos, já que o que ela dizia sentir o aprisionava, impedindo-o de viver uma existência plena na qual realizaria os sonhos grandiloquentes de conquista” (p. 171). Esses sentimentos atribuídos a Ulisses podem muito bem ser os do narrador. Digamos que William tenha nos oferecido uma Arte de amar, à la Ovídio, mas uma arte de amar dos tempos pós-modernos, cheios de desencontros, frustrações, indecisões, indefinições, abandonos e morte, sinal de nossa época, em que mergulhamos cada vez mais fundo no eu. Talvez por isso a opção pelas letras minúsculas, infringindo a norma gramatical e a do amor metafísico.

 

 



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