RESENHAS



Resenha: “Nasceu uma poetisa”: Marialzira Perestrello – Gilberto Rocha





NASCE UMA POETISA

 

GILBERTO ROCHA

Psicanalista

Minicurrículo: GILBERTO ROCHA é psicólogo/psicanalista, autor do livro A introdução da Psicanálise no Brasil, é mestre em Filosofia-PUC/RJ e doutor em Saúde Coletiva/UERJ.

Resumo: Biografia e citações de poemas da saudosa psicanalista Marialzira Perestrello, recentemente falecida.

 

 

 

NASCE UMA POETISA

 

GILBERTO ROCHA

Psicanalista

 

Meus versos são humildes

eu tão orgulhosa.

Meus versos são generosos

eu tão egoísta.

Meus pobres versos são ricos

Às vezes choram e gemem,

às vezes cantam e dançam.

Meus versos, quem são vocês? (1)

 

Marialzira Perestrello

 

Jardim de Palermo, Buenos Aires, 1962. Uma mulher observa as árvores. A cena toca de modo particular sua sensibilidade. Quarenta e seis anos, cabelos castanho-escuro fartos, olhos amendoados, pouca pintura no rosto, nem magra nem gorda, sobriamente vestida. De súbito, sentiu uma necessidade de escrever entre aquelas árvores despidas de folhas. Veio aquela vontade inesperada de escrever no papel todos aqueles sentimentos de uma maneira estética, um consolo para quem estava se sentindo desvitalizada pela morte da mãe em 1959 aos sessenta e três anos.

Estas árvores desconsoladas de Palermo,

é bem dentro que me fazem mal.

Estes braços angustiados ao céu,

estes gritos,

o lamento dos leprosos…

Oh! estas árvores ermas de Palermo! (2)

 

Seus primeiros poemas eram quase todos para ela, poemas de elaboração de luto. (3) Marialzira orgulhava-se em dizer que sua mãe, Maria Beatriz Pontes de Miranda, juntamente com Berta Lutz e outras senhoras da sociedade, participaram das discussões para defender o voto feminino, que nesta época era proibido no Brasil. Essas pioneiras se uniram na luta para mudar a legislação eleitoral brasileira, finalmente reformulada em 1933. (4)

A mãe de Marialzira era filha do político Tomaz Cavalcante Albuquerque, deputado federal pelo Ceará. Durante a segunda guerra mundial, Maria Beatriz foi enfermeira voluntária, prática que mais tarde a motivou a cursar enfermagem e entrar para a Cruz Vermelha. Posteriormente foi eleita presidente da Escola de Enfermagem dessa instituição(5). Na criação de suas filhas, Maria Beatriz influenciou-as sempre no sentido de todas concluírem o curso superior e cultivarem o espírito independente. Tomaz Cavalcante de Albuquerque, seu pai, possuía um sítio em Jacarepaguá, no Rio de Janeiro. Gostava de plantar pés de frutas, muitas nordestinas, que trazia de sua terra natal. Esse sítio era o local onde a família de muitos tios e primos se encontravam nos domingos e feriados, e onde as brincadeiras aconteciam, deixando na lembrança de Marialzira, filha mais velha de uma prole de quatro meninas, boas recordações de seu tempo de garota. O fato de ter sido criada por sua mãe, sem ajuda de governantas ou babás, era uma recordação acalentadora. A dedicação com que cuidava das filhas não foi esquecida pela primogênita, que o relembra. Com Maria Betriz aprendeu que a educação melhora o ser humano.

Foi no Jardim de Palermo que a psicanalista brasileira começou a traçar seu caminho na trilha da poesia. Só restou um único verso solto, escrito em 1959, de uma experiência poética anterior. O tempo transforma, e o sol aos poucos apareceu cada vez mais. Era o fim do inverno em Buenos Aires, e a pessoa a quem podia imediatamente mostrar seus primeiros poemas era Marie Langer:

 

Aquelas duas portas

me vêm, às vezes,

tão vivas.

Eu, tímida, olhando.

Tu, compreensiva,

sorrindo.

Da porta da rua

por que não joguei

um beijo?

E tu, de tua porta,

não me acenaste

com a mão?

Evitei o braço.

Mas adiei

o adeus! (6)

 

Marie Langer, psicanalista austríaca, veio contribuir com a Associação Argentina de Psicanálise, motivada pelas condições geradas pela Segunda guerra mundial, na Europa:

 

Vejo-te

olhos cerrados.

Falo-te

em diálogos calados.

Amo teu olhar belo demais

teu sorriso quase lágrimas

tu que não és tu

tu além de ti mesmo

tu algo de mim mesma

tu… (7)

 

 

Inicialmente, Marialzira fez sua análise com Pichon Rivière. Em seguida, quatro reanálises nos anos de 1958, 1962, 1969 e 1970, sempre com Marie Langer. Antes disso, elas já haviam cruzado seus caminhos duas vezes. A primeira, quando a psicanalista austríaca foi sua professora na formação psicanalítica em Buenos Aires e a segunda, por ocasião de uma visita ao Brasil. Nessa visita, Marialzira foi escolhida para acompanhá-la em sua permanência no Rio de Janeiro. O que motivou a escolha de Marie Langer para fazer suas reanálises foi principalmente a admiração que nutria pela cultura humanística da psicanalista radicada na Argentina.

Após voltar de sua segunda reanálise, ao comentar com seu filho Sigmund e o marido Danilo que nessa estada em Buenos Aires  havia escrito poemas, serviu como motivo de troça. Achavam que sua verve poética era episódica. Timidamente, nada mais comentou sobre seus poemas nem os mostrou a mais ninguém. Não tinha intenção alguma de publicá-los. Funcionavam como uma válvula de escape. Sentia um enorme prazer em planejá-los e construí-los. Além disso, a poesia neste momento já a havia ajudado a elaborar o luto pela morte de sua mãe, como podemos perceber em vários poemas, publicados em seu primeiro livro de poesia.

 

Mãos macias, assim,

nunca vi, nunca senti, nunca tive.

Mas teu sorriso encontro em mim.

E, tristemente, sorrio teu sorriso,

O sorriso, as mãos,

lembranças suaves e boas,

cinzentas de saudades,

tão próximas, tão vivas,

tão distantes,

tão mortas. (8)

 

 

Contudo, o acaso se fez, e numa recepção encontrou com o poeta e pintor José Paulo Moreira da Fonseca (mais ou menos dez anos após o inverno no Jardim de Palermo), e ele ficou sabendo, casualmente, que ela também escrevia poesia. Interessou-se. Após ler vários de seus poemas, incentivou-a a publicá-los e indicou alguns caminhos para viabilizar a publicação, em 1972, do seu primeiro livro de poesia, Há um quadrado de céu que não viram. Nesse ano, Marialzira Perestrello já havia participado da fundação da Sociedade Brasileira de Psicanálise do Rio de Janeiro, escrito vários trabalhos sobre a teoria e técnica psicanalítica, além de ter participado de vários congressos e encontros internacionais e nacionais de Psicanálise.

Dirceu Quintanilha, Roberto Martins e Sergio Paulo Rouanet são alguns que escreveram sobre os dotes camaleônicos da psicanalista/escritora, e continuaram em dúvida se ela era uma psicanalista com sensibilidade poética ou uma poetisa com sensibilidade psicanalítica. Na carta do Pen Club do Brasil, em que é comunicado a Marialzira sua eleição para a galeria dos seus titulares (lugar que seu pai Francisco Cavalcante Pontes de Miranda já havia ocupado), novamente são enaltecidos os dotes intelectuais da escritora: “A poesia e o ensaio científico é conjunção de valores bem pouco frequente num mesmo escritor”:

 

Pai, faz um verso bonito,

um verso fácil

só para mim.

Destes que a gente canta, contente,

que a gente chora baixinho. (9)

 

Marialzira contava que Pontes de Miranda recebia muitas visitas em casa. Intelectuais, jovens desejosos de receber alguma orientação, cientistas, médicos, como o inventor da abreugrafia, Manoel de Abreu, e o psiquiatra Juliano Moreira, escritores e artistas. Nenhuma das quatro filhas do destacado jurista quiseram fazer a faculdade de Direito. Porém, todas elas seguiram carreiras profissionais que ele admirava: dos cientistas, matemáticos e artistas. Seu pai começou a escrever livros aos dezenove anos e vários deles foram e são adotados nos cursos de Direito. Foi seu gosto pelos amigos cientistas, o que fez com que Marialzira optasse inicialmente por fazer um curso em Manguinhos. Ela morava no “deserto” de Ipanema, e naquela época a distância entre sua casa e Manguinhos, na então longínqua Avenida Brasil, fez com que desistisse de fazer esse curso de ciências. Mais tarde, encaminhou-se para o de Medicina, sem saber ao certo que especialidade iria seguir. Em 1940, logo após tê-lo completado, foi para Bogotá, pois seu pai foi nomeado embaixador do Brasil na Colômbia. Lá chegando, estudou e trabalhou em Fisiologia. Regressando, depois de algum tempo, casou-se com Danilo, seu colega da faculdade de Medicina.

Anos mais tarde, foi novamente a poesia que iria ajudá-la a elaborar outro luto, dessa vez de seu marido Danilo Perestrello, conhecido psicanalista carioca, que ficou durante treze anos enfermo, antes de falecer:

 

Vejo-te como dantes,

por vezes, por engano;

tu forte, tu protetor.

Eu a perguntar, escutar,

vejo-te como dantes.

Às vezes, um instante.

Mas desperto sem Deus:

Tu fraco, indagando.

Eu fraca, a proteger. (10)

 

 

Danilo Perestrello foi outra figura marcante na vida da psicanalista/poetisa. Quarenta e oito anos de casamento e um relacionamento mais antigo ainda. Os dois já se conheciam desde o útimo ano do primário, no colégio Benett. Tinham ambos onze anos de idade. Anos depois, voltaram a encontrar-se casualmente num bonde na Praia Vemelha, aos dezessete anos, quando ambos se preparavam para o exame de admissão ao curso de Medicina. Os dois foram aprovados. Cursaram a mesma faculdade, na mesma turma. Tempos depois, deram início ao namoro. Após terem concluído o curso de Medicina, em 1939, Marialzira separou-se de Danilo durante seis meses. Esse período foi o tempo determinado por seu pai para ver se o amor dos dois resistiria.

Aproveitando-se do fato de que iria mudar-se com a família para Bogotá, o jurista Francisco Pontes de Miranda, estava determinado a levar junto com ele sua filha primogênita: “Mas papai e mamãe não via com bons olhos esse namoro. Em nossa casa, iam muitos jovens advogados, jovens juízes… Com certeza ele queria que um daqueles jovens encarreirados para genro e não um colega de turma da faculdade que não era ninguém!” (11)

Seis meses depois, voltou de Bogotá e, após muitas dificuldades, casaram-se em 2 de janeiro de 1941. Somente no civil, em cerimônia para os mais íntimos. Seu pai não pode comparecer, pois ainda residia no exterior.

Inicialmente, a vida de casal impôs à Marialzira a necessidade de trabalhar. Como concursos para médicos não surgiam com frequência (e não queria usar o prestígio do pai para conseguir colocação em algum emprego), foi trabalhar fora da Medicina, no laboratório do Departamento de Compras do Instituto de Tecnlogia, analisando papéis e tecidos fornecidos para o governo.

Após o parto de uma criança morta, a gravidez de Sigmund foi cercada de grande cuidado. O nascimento dele fez com que ela adiasse seus projetos profissionais. Seu marido, assistente da cadeira de clínica médica e já interessado na Psiquiatria, fazia plantões em hospitais psiquiátricos e iniciava os estudos para o concurso do Serviço Nacional de Doenças Mentais. Marialzira acompanhava o movimento de Danilo, atentamente.

Em 1945, Arnaldo Rascoviski, psicanalista argentino, proferiu uma palestra no Rio de Janeiro intitulada A formação psicanalítica. Esta palestra motivou várias pessoas da platéia a pensar em fazer uma formação psicanalítica na Argentina, como Walderedo Oliveira, Alcyon Bahia e o casal Perestrello.

A jovem médica fez sua formação psicanalítica de 1946 a 1949 e se tornou membro em 1952 da Associação Psicanalítica Internacional, tornando-se a primeira mulher no Rio de Janeiro a ser qualificada pela associação.

Os primeiros movimentos para a criação da Sociedade Brasileira de Psicanálise coincidiram com a adolescência do filho único do casal Perestrello, Sigmund. E por essas coincidências que ninguém consegue explicar (nem Freud), também se tornou psicanalista. Publicado em 1998, Cartas a um jovem psicanalista é a ele dedicado. Em estilo epistolar, a psicanalista faz uma analogia com o livro de Rainer Maria Rilke, Cartas a um jovem poeta. O seu Cartas a um jovem psicanalista descreve algumas situações vividas pela psicanalista em seus mais de quarenta anos de experiência clínica e enfatiza a importância da pluralidade das técnicas: “Em meu trabalho de analista uso também uma visão artística, literária e não somente científica, e dentro da técnica, penso (e digo aos meus alunos ) que cada paciente ‘indica’ a técnica a empregar”. (12)

Atravessando a década de seus oitenta anos, Marialzira trabalhava três horas por dia em consultório, dava cursos, palestras, seminários clínicos e ainda tinha tempo para outros interesses. Sua família, poemar, estudar alemão e escrever trabalhos, são alguns exemplos. Existem inúmeros outros, como a Casa Branca, sua casa na bucólica ilha de Paquetá, que tão bem rima com seus versos, era considerada pela escritora seu canto predileto. Depois de tantos anos, depois de tantas mudanças, lá continuava sendo o seu cantinho. Canto de reflexão, onde a Serra dos Órgãos e as águas da baía de Guanabara testemunharam uma mulher amadurecer, envelhecer, tornar-se mais tolerante e benevolente. Uma mulher que ambicionava fazer poesia de sua própria vida. “Vivo sozinha, mas não sinto solidão; estou sempre acompanhada dos livros e da música. Escrevo e estudo ouvindo música, e a poesia me acompanha”. (13)

O interesse profundo pelo outro, como tão bem percebeu José Paulo Moreira da Fonseca, somado à grande sedução que as palavras sempre exerceram sobre ela, surgem como os principais motivos para a parceria composta por ela entre o exercício teórico e prático da Psicanálise com a poesia.

Médica, psicanalista, mãe, professora, escritora e poetisa. (14). Em seus poemas, podemos reconhecer a alma curiosa e inquieta da autora. Ora apaixonada pela vida, ora revoltada, ora esperançosa. Quando em sua poesia celebra a vida, é possível imaginar a vida pulsando nela como no poema dedicado a sua neta, “Bênção”. Bella Josef, na introdução do livro A música persiste, de Marialzira, comenta que ao traçar sua geografia pessoal, a perda era um dos temas que mais se manifestava na emergência da sua poesia. Reconhece-se nos versos da autora uma necessidade de superar os sentimentos de perda que a vida lhe impôs através da palavra. Em alguns versos, a dor é o fio condutor que direciona as palavras em Elegia II, ou no poema dedicado a sua filha morta prematuramente, em que a dor chega às raias do insuportável. Quando Marialzira se refere a Paquetá, a Casa Branca, suas palavras adquirem, como na poesia XXII em Há um quadrado de céu que não viram, contornos nostálgicos, mas que de modo algum a impediam de viver o HOJE, pois até na morte ela desejava seguir vivendo, conforme escreve em Encontro com a vida (1997) (15): “Eu queria morrer de repente, morrer lúcida! e sobretudo morrer viva…”.

 

NOTAS AO TEXTO

  • Perestrello, Marialzira. Há um quadrado de céu que não viram. Rio de Janeiro, Livraria José Olímpio Editores, 1972, p. 27.
  • Idem, ibid, p. 18.
  • Este texto baseou-se principalmente em quatro horas de entrevista gravada entre o autor e Marialzira.
  • Tal como sua mãe, Marialzira Perestrello na história da psicanálise do Rio de Janeiro, foi pioneira.
  • Conforme entrevista acima citada.
  • Perestrello, Marialzira. Há um quadrado de céu que não viram. Rio de Janeiro, Livraria José Olímpio Editores, p. 37.
  • Idem, ibid, p. 39.
  • Idem, ibid, p. 41.
  • Idem, ibid p. 31.
  • Perestrello, Marialzira. Ruas Caladas. Rio de Janeiro, 1978, p. 43.
  • Conforme entrevista entre o autor e Marialzira.
  • Perestrello, Marialzira. Cartas a um jovem psicanalista. Rio de Janeiro, Imago, 1998, p. 60.
  • Goldfeld, Zelia (org). Encontros de vida. Rio de Janeiro, Record, 1997, p.
  • Marialzira Pontes de Miranda Perestrello nasceu no Rio de Janeiro em 5 de março de 1916, e morreu em 27 de janeiro de 2015.
  • Goldfed, Zélia (org), idem, p. 178.

 



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