Revista Mulheres e Literatura – vol. 2 - 1998



Quebec / Nordeste: esboço de análise comparativa entre os romances Bonheur d’occasion, de Gabriélle Roy, e Mulheres de Tijucupapo, de Marilene Felinto





Quebec / Nordeste: esboço de análise comparativa entre os romances Bonheur d’occasion, de Gabriélle Roy, e Mulheres de Tijucupapo, de Marilene Felinto

Márcia Cavendish Wanderley

Universidade Federal Fluminense

Gabriélle Roy, canadense de expressão francesa, nascida
em Manitoba, Província do Québec em 1909, e falecida em
Montreal em 1983, e Marilene Felinto, brasileira, pernambucana, nascida
em Recife em 1957 são as romancistas que compararei neste ensaio,
escolha que teve como primeiro critério a identificação
e empatia sentidas por mim em relação às personagens
femininas de seus romances seguido pelo desejo de aproximá-las
analiticamente em função de algumas características
culturais que me pareceram comuns a ambas. Na verdade a possibilidade
de perceber analogias entre as realidades sociais nordestina e québecoise,
vivenciadas dramaticamente nestes romances.

Comparar escritoras aparentemente tão distantes no tempo e no
espaço pode parecer tarefa impossível. A começar
pela aparentemente enorme diferença existente entre os dois países
a que pertencem: Brasil e Canadá. Ainda que se leve em conta a
homogeneização crescente sofrida pelo universo capitalista,
tudo parece separá-las, a começar pela situação
geográfica, quase oposta, em que se instalam: uma no hemisfério
norte, com suas montanhas eternamente nevadas e planícies varridas
pelos ventos do polo, a outra no hemisfério sul, sofrendo as mazelas
e delícias de um clima tropical.

E a distância geográfica é muito pouco, se pensarmos
na diversa situação sócio-econômica vivida
por ambos: O Canadá, um país desenvolvido, que apresenta
o mais alto índice de qualidade de vida em sua população
que, no entanto, se encontra dividida lingüística e ideologicamente
entre os “québecois” (de expressão e herança
cultural francesa, que nem mesmo se consideram canadenses por verem o
Québec como uma nação à parte) e o resto,
isto é, todos os canadenses de expressão inglesa e que na
verdade constituem a maioria da população do país
como um todo; e o Brasil, lingüística e culturalmente coeso
na aparência mas portador de um enorme índice de população
marginal vivendo nas fímbrias de um capitalismo ainda selvagem.

Entretanto, essa distância se apaga diante de um fato histórico
maior que repercute ainda hoje na vida e na literatura desses dois países
e regiões a que pertencem as referidas romancistas. Este fato histórico,
paralela e simultaneamente vivido por ambos – o da colonização
– é a baliza que permite aproximá-los, que permite identificar
os elementos comuns a estas sociedades institucionalmente homogéneas
mas na verdade fraturadas por processos de dominação interna,
conseqüência tardia da colonização original.

Por isso ao falarmos em colonização torna-se necessário
distinguir dois níveis o da colonização externa,
vivida diferentemente pelos dois países mas que resultou em ambos
na necessidade de liberação dos laços que os ligavam
às matrizes culturais européias em seus processos de construção
de uma identidade nacional, e o da colonização interna,
sofrida por regiões que perderam seu espaço de poder econômico,
político e cultural neste evolver histórico.

A possibilidade de estabelecer comparações entre as literaturas
canadense e brasileira a partir desta baliza já foi identificada
em análises anteriores a exemplo de Zilá Bernd em “Brasil
/ Québec: La difficile inclusion de la parole d’autre”
onde afirma que “Aussi bien pour la littérature quebécoise
que pour la littérature brésiliénne, la problématique
d’autonomination et de la consécration en littératures
nationales s’avére d’emblée majeure et constitue
un des élements possibles de comparaison” (Bernd, 1983). O
fato de Zilá Bernd comparar neste ensaio as literaturas “québecoise
e brasileira e não canadense e brasileira, como seria de esperar,
é já denunciador de que talvez seja impossível falar
de uma literatura canadense na medida em que ela se expressa em duas línguas
diferentes (inglês e francés) que traduzem os movimentos
de culturas e religiões diversas.

Além do mais, a luta separatista do Québec, reivindicando
para si o status, ainda não institucionalmente alcançado
de nação, reivindica também, naturalmente, uma literatura
nacional. E não se pode negar que ela exista, com marcas bem evidentes
do drama vivido por uma sociedade submetida em sua história a uma
sucessão de imposições culturais sob as quais tornou-se
extremamente difícil, mas ao mesmo tempo imprescindível,
construir e conservar uma identidade própria.

Mais sentida no Québec região (ou Província) sobre
a qual tentou se impor a colonização inglesa sobre uma herança
francesa já sedimentada, a angústia da identidade parece,
no entanto, atravessar o país como um todo. Margaret Atwood (1972),
romancista canadense de expressão inglesa, escreveu um livro sobre
a história da literatura canadense onde, embora tente ignorar essa
divisão cultural e ideológica, manifesta indiretamente a
perplexidade e angústia do país diante desse fato: “Canadians
are forever taking the national pulse like a doctor at a sickbed. This
is not to see wether the patient will live well but simply wether he will
live at all”. Para ela, que acredita poder falar numa “literatura
canadense” o sentimento de sobrevivência ou “survival
é a tônica mais forte da história desse país;
um sentimento que se transfere à literatura e se manifesta em formas
de expressão diversas que vão desde as antigas sagas dos
conquistadores até as mais recentes manifestações
da poesia e da prosa ficcional do Québec.

Idéia multifacetada e adaptável, pois pode abranger a sobrevivência
heróica dos pioneiros diante do clima e da natureza hostis mas
também sugerir a sobrevivência diante de uma crise ou de
um desastre social, no caso a dominação inglesa instalada
no Québec a partir de 1760 sobre os descendentes dos primeiros
conquistadores do continente. Para estes a “sobrevivência”
da língua e dos costumes (com destaque para a religião católica,
vista como um dos elementos caracterizadores da nacionalidade) passa a
ser a principal motivação da existência, e a libertação
do jugo econômico e político uma questão de honra
que atravessa toda a história da Província do Québec
desde a conquista inglesa até os dias atuais.

Essa realidade, segundo a visão de Margareth Atwood, pode ser
identificada na maior parte dos temas, enredos e personagens da literatura
do Québec, sob a forma de insucessos sucessivos, “Pushing
far enough the obsession with survive can become the will not to survive”.
Por isso, fatos como, a doença, a morte, a tristeza, o insucesso
(seja material ou espiritual) fazem presença constante na literatura
quebecoise, conferindo-lhe o aspecto mórbido e cinzento que conhecemos
em autores como Marie Claire Blais, Hubert Aquin etc. A literatura do
Canadá, generaliza Atwood, é uma literatura de vitimados,
porque colonizados. Algumas vezes de uma vitimização consciente
que quer mudar sua situação de vítima, o que nem
sempre resulta numa literatura melhor do que aquela posição
que aceita a inferioridade e nela se compraz.

A história do Québec é vista como uma longa sujeição
que teve momentos de rebelião como a “revolta dos patriotas”
(liderada por George Etiénne Cartier, preso e deportado após
o fracasso do movimento) e momentos de vitória com a “Revolução
tranqüila” dos anos 1968 e 70 que garantiu, entre outros ganhos
políticos a sobrevivência do francés como língua
predominantemente falada no Québec, embora o país seja oficialmente
bilingüe. Em recente ensaio sobre o assunto, Maria Bernardette Porto
informa que o Québec se encontra imerso na maioria anglófona
sob a forma da proporção de um para nove. Nestas condições,
diz ela, “lutar pelo francés equivale a uma questão
de sobrevivência, antes de ser a defesa do idioma legado é
o exercício cotidiano da afirmação da língua
materna desvalorizada aos olhos de seus falantes, vítimas de uma
situação de disglossia” (Porto, 1993).

E pode-se afirmar que esta é também questão central
para a literatura “québecoise” contemporânea.
A conquista de um espaço lingüístico e cultural próprio
que embora referenciado à tradição francesa, assuma
as transformações sofridas pelo idioma e pela cultura que
lhe foi legada, e que resultaram numa identidade cultural e lingüística
especificamente “québecoise”. É , portanto, mais
do que uma literatura de “sobrevivência”, como afirma
Atwood, uma literatura de “resistência”, que luta para
preservar essa identidade ameaçada.

No Brasil, embora o mito da superioridade da língua-mãe
tenha marcado a intelectualidade brasileira até o momento do rompimento
antropofágico, nunca vivemos aqui a esquizofrenia québecoise
da superposição de trés línguas, incluindo
o “joual”, onde a hegemônica nem mesmo é o francés
(da França): “Condenados a viver em um mundo híbrido,
os quebequenses se sentem duplamente inferiores. Por um lado acreditam
que em francés, sua expressão lingüística não
se iguala à dos franceses, por outro lado, mesmo os que não
tem complexos quanto ao seu desempenho em francés, vivenciam na
prática diária a desvalorização crescente
dessa língua” (Porto, 1993).

Aqui sofremos uma colonização diferente, porque homogénea
e conservamos sempre e em todo assim chamado território nacional,
a língua do primeiro e único colonizador, abrasileirando-a.
Disto resulta que a dominação sócio-cultural de uma
região sobre as outras se expressa dentro da mesma língua
através da hierarquização dos sotaques.

O nordestino brasileiro também vive o desconforto da própria
língua dentro da própria pátria. O mesmo sentimento
de rejeição, o mesmo complexo de inferioridade do falante
em “québecois” diante do francés puro,
e do inglês, assaltam o falante nordestino ao sentir seu sotaque
ridicularizado e menosprezado pelo sul maravilha. “Speak Whyte
diziam os ingleses aos “québecois” de expressão
francesa que, nas camadas populares, falam o “joual“,
uma espécie de dialeto. Aos nordestinos rotula-se pejorativamente
de “baiano” em São Paulo e “paraíba”
no Rio de Janeiro, quando o sotaque os denuncia como migrantes de qualquer
estado do Norte ou Nordeste. Rótulos discriminatórios com
que os agraciam os próprios compatriotas, sintomáticos da
posição de inferioridade a que são relegados. Vestígios
de uma colonização econômica e sócio-cultural
que deverá de alguma forma repercutir nos textos literários
das regiões dominadas. Em Bonheur d’ occasion, de Gabriélle
Roy (Québec) e Mulheres de Tijucupapo, de Marilene
Felinto (Nordeste) ouvimos os rumores dessas vozes em personagens
esmagados por todos estes tipos de subordinação.

Confrontar o realismo de influência francesa de Bonheur d’occasion,
com o talvez realismo mágico influenciado pelo romance latino-americano
dos anos 1960, de Mulheres de Tjucupapo pode parecer tarefa impossível.
Entretanto identificamos em ambos uma marca comum: a preocupação
em trazer à tona o discurso de uma classe social e de um gênero
excluídos do processo de construção de uma identidade
coletiva, seja no Québec, seja no Nordeste brasileiro.

Bonheur d’ Occasion é uma narrativa profundamente
comprometida com o destino de sua personagem principal: a classe proletária
de St. Henri, bairro pobre de Montréal (Província do Québec)
que se expressa em “joual” e tem na voz feminina de Roseana
sua principal intérprete e representante. Embora respeitando basicamente
o cânone da literatura matriz, aqui representado pelo realismo francés,
o romance irá duplamente desconstruí-lo. Em primeiro lugar
por introduzir uma expressão até então excluída
do espaço literário no Québec: o quase-dialeto falado
pela classe proletária. Em segundo, por construir um realismo onde
a mulher aparece como sujeito (e não como objeto) da ação
do romance, inaugurando um discurso não apenas agressivo em relação
às raízes lingüísticas colonizadoras como também
introdutor da “palavra do outro” no cenário do romance
québecois“.

Segundo Patricia Smart {1988}, em “É crire á la
maison du père
“, neste romance não apenas é
rompido o realismo tradicional fundamentado no poder paternal dentro do
triângulo familiar, como também se torna explícita
a mensagem política da escrita feminina. Bonheur d’ occasion
tem seu foco apontado sobre a mulher construindo “une histoire
à elle
“, no plano individual, quando narra sob um prisma
feminino, as agruras da família Lacasse num momento de grande crise
do Québec. Como pano de fundo, a segunda guerra mundial amplia
a dimensão política do romance ao entrelaçar o destino
privado e trágico de seus personagens ao encadeamento histórico
dos acontecimentos internacionais.

As peculiaridades da pobreza vivida em um país onde o clima acentua
as agruras da privação são realisticamente descritas
pela autora que habilmente utiliza simbolicamente as forças da
natureza (ventos e tempestades de neve) para realçar a tragicidade
das estórias vividas. Outras peculiaridades, como o “démenagement”
sistemático enfrentado pelas famílias pobres do Québec
assemelha-se em termos, ao processo migratório da população
miserável nordestina. Um movimento em busca de uma melhoria que
nem sempre é conquistada.

Para alguns intérpretes da literatura do Québec, como Jacques
Cardinal, a tragicidade que a caracteriza, é resultado da sujeição
fantasmagórica deflagrada pelo colonialismo. As personagens de
Gabriélle Roy sofrem porque são canadenses franceses, porque
pertencem a uma classe trabalhadora destituída de seus tradicionais
meios de produção pelo capital e tecnologia, e porque estão
no último degrau da exploração colonialista. Entre
eles, as mulheres são as mais sofredoras, porque não possuem
qualquer capacidade de se libertarem desse estado. Mas essa resignação
e passividade femininas representada por Roseana a mater dolorosa do romance
terá sua contrafação em Florentine, sua filha, personagem
movida pela revolta. Revolta que explica o tom de cólera que trespassa
sua voz e toda sua fremente figura permanentemente submetida às
humilhações de classe enquanto garçonete da lanchonete
15 Cents, no bairro pobre de Montréal e às humilhações
de gênero pelo desrespeito que ali sofre enquanto mulher. Mas em
sua trajetória dentro do romance, realizará a proeza de
transformar-se em sujeito de sua própria história e de alcançar
uma ascensão social, para si e sua família – a família
Lacasse – que traduz, de certa maneira o projeto não explícito
da autora. Realizar uma análise crítica que englobe as dimensões
de classe, nação, e relações de gênero,
mas que aponte uma saída para os impasses ali colocados. Segundo
Patrícia Smart, “les multiples voix de la résistance
du roman, elles sont politiques mais elles sont péutetre la seule
opposition efficace á l’unité oppressive de la Loi
du Pére”
(Smart, 1988).

Se em Gabriélle Roy a angústia da identidade social fraturada
penetra o realismo com promessas de sobrevivência que dão
voz ao oprimido, em Marilene Felinto esta promessa se mostra na tentativa
de resgate das origens através de um realismo mágico que
mistura realidade e mito, ambos contundentes.

Com referências explícitas a 1964 e à “revolução”,
Mulheres de Tijucupapo é uma memória sofrida que ao mesmo
tempo busca origens regionais e de identidade feminina a partir da reconstituição
de uma infância duplamente espoliada: pela situação
de classe e pela condição de gênero. Apesar disso,
sujeição e submissão são palavras que não
pertencem ao universo de Rísia, personagem que, como Florentine
(Bonheur d’ Occasion) é movida por raiva e revolta
“medonhas” e cuja única redenção possível
se faz a partir da fabricação de uma herança mítica,
embora também “histórica” de mulheres feitas da
matéria do tijuco, cabelos grossos arrastando pela crina do cavalo
no lombo do bicho sem sela, amazonas. Tijucupapo foi, historicamente,
um arraial (reduto) de heroínas pernambucanas que rechaçaram
o invasor holandés das terras alagadas do Recife, e as amazonas
como conta a lenda, são mulheres guerreiras que habitavam a foz
do rio Maranòn, por isso rebatizado de Amazonas. Entrelaçando realidade
e mito a narrativa constrói personagem que busca resgatar sua própria
imagem vilipendiada pela fraqueza da mãe. E resgatar a todas as
mulheres e a si mesma de uma herança de “desamor, miséria
e mutismo”. Tijucupapo é um lugar de motim, como diz a própria
autora, mas não apenas um motim feminista. É também
uma revolta regional e de classe. Regional porque a “questão
nordestina”, jóia do naturalismo brasileiro, é retomada
em versão agressiva e traumática traduzida na linguagem
áspera e crua, como o “joual dos québecois” ou
o linguajar do “povo” nordestino. Revolta de classe porque é
discurso irado dos que “nada têm contra os que tem tudo”.

Bonheur d’ Occasion e Mulheres de Tijucupapo são
romances que expressam em linguagens literárias diferentes a preocupação
comum de resgate das identidades culturais de uma região (Nordeste)
e uma província (Quebec) ameaçadas pelo colonialismo interno.
Resgate realizado através de um olhar feminino emocionado e crítico
não apenas da estrutura de classe como do edifício patriarcal
em que se apóia esta identidade.

 

Referências Bibliográficas
Atwood, 1972. Survival – A Thematic Guide to Canadian Litterature.
Toronto, Anausi.
Bernd, Zilá. 1983 Confluences littéraires-Brasil/Québec,
Les bases d’ une comparaison-, s. l., Les É ditions Balzac,
l’Univers des Ciscours.
Felinto, Marilene. 1992 Mulheres de Tijucupapo; 2. ed., Rio de Janeiro, 34
Letras.
Porto, Maria Bernardette. 1993 Maria Bernardette “A devoração antropofágica
da língua do colonizador. O caso do Brasil e do Quebec”.
Revista Canadart, Salvador, v. 1.
Roy, Gabrielle. 1993 Bonheur d’ occasion; 2 ed. Montreal, Boréal.
Smart, Patrícia. 1988 É crire dans la maison du pere, L’ É
mergence du féminin dans la tradition littéraire du
Québec; Montréal, Québec/Amérique.


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