Revista LitCult – Vol.10 - 1º trimestre – 2016



POESIA, DANÇA E MÚSICA EM BALÉS, DE BRUNA BEBER – Raquel Beatriz Junqueira Guimarães





Raquel Beatriz Junqueira Guimarães
Pontifícia Universidade Católica de Minas Gerais

RESUMO: A escritora Bruna Beber tem, em seu livro Balés, a síntese da expressão estética pautada no diálogo entre as várias artes, em especial a dança, a música e a literatura. A poesia de Beber se materializa, desde o título, como movimento, e, ao ser lida, manifesta-se como sonoridade, mostrando a um só tempo os passos de dança e a música que os possibilita e orienta; tudo isso sem negligenciar o necessário trabalho com a palavra. Neste artigo, pretende-se desenvolver uma reflexão na qual se observa a aproximação dessas três artes na obra mencionada de Bruna Beber. Isso será feito na procura de evidenciar ritmos, temas, formas e concepções de Beber, que podem ser vistas em seus Balés.

PALAVRAS-CHAVE: poesia brasileira; música; dança, Bruna Beber.

RESÚMEN: La escritora Bruna Beber tiene, en su libro Balés, la síntesis de la expresión estética que se basa en el diálogo de varias artes, especialmente, la danza, la música y la literatura. La poesía de Beber presentada como danza se materializa, desde el título, como movimiento, y, cuando leída, se manifiesta como sonoridade, mostrando a un sólo tiempo los pasos de danza y la música que los posibilita y los orienta; todo sin negligenciar el necesario trabajo con la palabra. En este artigo, se pretende desarrollar una reflexion en la que se observa el acercamiento de esas tres artes en la obra de Bruna Beber. Para tanto, se pretende revelar ritmos, temas, formas y concepciones presentes en los Balés de la escritora.

PALABRAS-CLAVE: poesia brasileña; música; danza, Bruna Beber.

Minicurrículo: Raquel Beatriz Junqueira Guimarães é professora de Literatura Brasileira na Pontifícia Universidade Católica de Minas Gerais. Em seu trabalho acadêmico dedica-se aos estudos da interface Literatura e Jornalismo e, no campo da poesia, acompanha as manifestações literárias contemporâneas em seus diversos suportes. Entre suas publicações destacam-se a organização da revista Scripta (v. 18, n. 35, 2014), publicação do Centro de Estudos Luso-afro-brasileiros e do Programa de Pós-graduação em Letras da PUC Minas, cujo tema foi Escritas de mulheres, e os livros Pedro Nava, Leitor de Drummond (2002) e Rastros da leitura, trilhas da escrita: o leitor em Pedro Nava e Graciliano Ramos (2012).

POESIA, DANÇA E MÚSICA EM BALÉS, DE BRUNA BEBER

Raquel Beatriz Junqueira Guimarães

Pontifícia Universidade Católica de Minas Gerais

A poesia, pra mim, é quando o ordinário se manifesta em qualquer tom, sublime ou coloquial. Eu procuro poesia em todas as coisas, às vezes vejo, às vezes não, mas sei que ela é onipresente (Bruna Beber, 2009).

Bruna Beber é uma escritora carioca, nascida em 1984, na cidade de Duque de Caxias, um dos municípios da baixada fluminense. Vive, atualmente, em São Paulo e teve seu primeiro livro publicado aos 21 anos. Tem tido presença constante em sites, antologias e blogs dentre os quais Escritoras suicidas, Antonio Miranda, e o seu próprio chamado didimocolizemos, numa alusão ao grupo humorístico Os trapalhões.
Suas opiniões podem ser conhecidas por meio de entrevistas, como a que foi dada ao programa Entrelinhas, da TV Cultura, exibido em 27/12/09. Segundo a autora, em 2001 e 2002, ela criou um blog para “mostrar o que escreve” e, a partir daí, passou a encontrar outros escritores que também publicavam em meio eletrônico e seus poemas começaram a ser conhecidos.
Segundo ela, suas publicações eletrônicas a levaram a conhecer poetas de vários lugares e esses contatos possibilitaram que seus poemas fossem publicados em antologias no México, na Argentina e que fossem traduzidos para o alemão e o italiano. Por meio de suas entrevistas pode-se acompanhar suas reflexões sobre o fazer poético e conhecer suas preocupações com a experimentação estética. Pode-se, ainda, observar que a escritora parece ser adepta do que podemos chamar de escrita sem pressa. Exemplo disso, a nosso ver, está nos processos de escrita dos seus livros Balés e Rua da padaria. Ao descrever como preparou a edição de Balés, a autora salienta que, depois de acertada a publicação com a editora Língua Geral, o livro demorou um ano para ser publicado. A autora afirma que ficou todo esse período “mexendo no livro”. Ela diz:

Eu ficava lendo alto pra mim mesma, porque eu queria saber como que era, como que estava o livro. Eu comecei a gravar, eu gravei todos os poemas. Eu ouvia separado, ouvia junto e se tivesse uma palavra que me incomodava eu mudava. Só que eu comecei a ficar meio obsessiva com isso. Eu comecei a colar uns poemas nas paredes que eu mais passo aqui em casa. (…) Um dia eu cheguei e falei, não, eu preciso escolher uma ordem só e fechar esse livro” (BEBER, Bruna, 2009, transcrição nossa).

Essa declaração já demonstra a preocupação da escritora com um trabalho mais sistemático de criação. Destacam-se procedimentos como gravar os poemas, lê-los em voz alta, o que pode ser a evidência de uma preocupação com a sonoridade do texto e, ainda, com a precisão lexical. Outro procedimento aqui registrado é o de colar poemas em paredes. Assim, eles mudam de suporte e a autora passa a lê-los como uma espécie de mural e a ouvi-los como se fossem de outrem. Lidos e ouvidos fora do livro, fora de uma sequencia pré-determinada efetua-se uma mudança de suporte e de contexto editorial dos textos o que oferece ao escritor, agora leitor, uma outra possibilidade de percepção daquilo que está escrevendo. Assim, a escritora torna-se leitora e ouvinte de si mesma e em situações diferentes daquelas experimentadas pelos outros leitores. O processo de escrita é realizado, nesse caso, não só pelo silêncio do momento de escrever, mas também pelo som das palavras gravadas e pelas sensações provocadas quando do encontro dos olhos com o poema na parede.
Situação semelhante ocorre com o modo de criação de seu quarto livro A rua da padaria, composto por 26 poemas. Ao descrever o trabalho de criação dessa obra, em entrevista concedida durante a XI Festa Literária Internacional de Paraty (FLIP 2013), Bruna Beber afirma que demorou quatro anos para escrevê-lo:

Esse livro eu demorei quatro anos para escrever. Alguns poemas eu musiquei, outros poemas amigos musicaram, eu apliquei esses poemas em objetos, li os poemas em vários lugares, outras pessoas leram, eles foram dissolvidos em artes plásticas. Eu gravei muitos desses poemas, que é uma coisa que eu fazia desde os Balés. Tive bastante tempo para pesquisar (BEBER, Bruna, 2013. Transcrição nossa).

Essa é mais uma evidência de que a autora tanto se preocupa com uma escrita sem pressa, conforme já dissemos, como inclui no processo de escrita elementos da música, tão próprios da tradição poética, desde o século XIX.
Em outra entrevista, concedida a Angélica Castilho, Bruna ainda acentua que, pelo menos no início de sua carreira, a internet era “seu meio de comunicação primordial”. Outro assunto sempre muito relevante para a autora em suas entrevistas é a que estabelece com outros autores. Nessa entrevista, a entrevistadora pergunta sobre o fato de ela já ter declarado que Clarice Lispector não era uma referência para sua escrita, para o que Bruna responde:

Na época da entrevista, eu só tinha lido A hora da estrela. E gostei muito. Depois de tantos anos, já li outros livros. Mas não gosto, não me toca. Reconheço o valor literário e histórico, mas a mim não diz muita coisa. Eu citei Clarice como exemplo por perceber, na época, que várias escritoras que eu conhecia tinham a Clarice como referência principal. E isso me incomodava um pouco, pois eu notava que os discursos estavam ficando muito parecidos. (…) Não sei o que seria de qualquer escritor sem os escritores que ele leu (isso também serve pra todas as artes), a influência é natural. Eu acho que é importante tentar construir uma linha própria de pensamento, mas sem a ingenuidade de achar que está fazendo algo predominantemente novo, quase tudo já foi dito. O jeito agora é dialogar com o que já está feito, e criar a partir disso. Quero dizer que nenhum trabalho artístico vem do “nada”. Mas isso que estou dizendo vai soar óbvio. BEBER, Bruna (In CASTILHO, Angélica, 2012).

Assim, Beber confirma sua condição de leitora, e a importância, para o escritor, da proximidade com a literatura já existente. Pode-se, perceber, ainda, que embora saiba que “tudo já foi dito”, a escritora procura uma dicção própria, fugindo, por isso, dos “discursos muito parecidos”.
Ainda nessa entrevista a Angélica Castilho, Bruna confessa que, além de escrever, é também mobilizada por “ ouvir música e viajar. Atribui as referências musicais presentes em sua obra ao convívio familiar. Segundo ela, em casa sempre teve muita música e de todo tipo. Cresceu ouvindo Roberto Carlos, Martinho da Vila, Rock nacional, Benito de Paula, dentre outros.
Pelas declarações de Beber, encontramos uma autora preocupada com o resultado estético de sua poesia, atenta aos processos de criação e a seus efeitos, adepta da escrita sem pressa e aberta ao trânsito entre as diferentes artes. Demonstra-se, também, antenada ao que está ao seu redor com um “olhar curioso e inventivo” a procura das “coisas mínimas”, sua matéria de poesia, presente em Balés, livro que aqui se procura analisar.

Os ritmos binários e ternários em Balés
Balés é composto por 38 poemas, escritos em estrofes de dois, três ou quatro versos, com um predomínio de poemas constituídos por tercetos e dísticos. Assim “ludíbrio”, “galerie”, “barragem”, “dorsal”, “jardim”, “festa”, dentre outros, são poemas com estrofes de 3 versos; já “março”, “caixinha de música”, “anéis”, “rifa”, “notícia”, “pares”, trazem estrofes com dois versos (BEBER, Bruna, 2009). A autora, nesses e em outros poemas, experimenta a dimensão melódica e rítmica dos versos e, por meio da junção desses dois elementos cria imagens fortes, surpreendentes que irrompem do texto como que desenhadas pelas palavras. Suas estrofes binárias ou ternárias, e mesmo as quadras presentes em alguns poemas formam um conjunto harmônico, leve e preciso como a dança sugerida pelo título. Com a construção de imagens, os versos se apresentam livres de amarras sintáticas e semânticas, principalmente pelo pouquíssimo uso da pontuação, pela escrita lacunar que os caracterizam e pelo inusitado da composição das cenas poéticas como se vê em:

março

atrasado pela tempestade
de lixo

finalmente nosso encontro
em praça pública

à paisana toda lágrima
e todo cuspe

fomos felizes
para sempre (BEBER, Bruna, 2009, p.18).

Em uma quase narração de um encontro, o poema se materializa em quatro dísticos constituídos por imagens como “tempestade de lixo” e “lágrima à paisana”. Traz, ainda, o paradoxo de registrar uma felicidade já vivida, aparentemente efêmera (fomos felizes), ainda presente e perene (para sempre). Tudo isso sem nenhuma pontuação entre os versos, flashes do cotidiano coletados pelo olhar do observador atento que registra momentos da vida.
Numa perspectiva semelhante, o poema “sentido sem título” nos põe diante de uma confissão em três tercetos que nos possibilitam pensar em um olhar lírico perverso e maroto a um só tempo:

sentido sem título

quando penso que queria
que caísse sobre nós
a pedra da gávea

dou aquela risadinha
maligna em seguida
aquela choradinha

invisível, atravessada
entre o olho e a garganta
nem piscando passa (BEBER, Bruna, 2009, p. 20).

O modo de escrita do poema potencializa os efeitos da ausência de pontuação, relativiza as cesuras e os silêncios possíveis. Na passagem da segunda para a terceira estrofe, por exemplo, a ausência da pontuação é que oferece os sentidos possíveis do verso “maligna em seguida” que, sozinho, parece não ter sentido, mas ao ser lido a partir das possibilidades sugeridas pelos versos que o antecedem e o seguem criam-se muitas possibilidades como se demonstra a seguir: dou aquela risadinha/maligna, em seguida,/aquela choradinha; ou: dou aquela risadinha maligna/ em seguida, aquela choradinha; ou ainda: dou aquela risadinha maligna/ em seguida aquela choradinha [invisível].
A partir dessas possibilidades, o sujeito lírico parece ser perverso ou maroto, como dissemos, e ainda irônico ou discreto, de acordo com o ritmo que o leitor escolher para compor o encadeamento dos versos. Tudo isso porque o ritmo da leitura dos versos, sem as amarras proporcionadas por uma pontuação pré-definida pela escritora, faz o sentido oscilar, como se demonstrou ao apontar essas variações. Esse recurso, usado em vários poemas de Balés, possibilita que os textos ganhem novas coreografias a partir de cada leitor. O texto é, portanto, o corpo que dança (e feito para dançar) nesta obra de Beber.
Nessa perspectiva, ganha especial relevância o poema “ultimo tango (BEBER, 2009, p. 33). Tal como a dança e a música portenhas, o poema é repleto de elementos dramáticos. Os amantes se procuram “desolados”, a aventura amorosa é uma “história de terror”, é “o galho que quebra a sombra da lua”. Nesse medo e desespero realiza-se o encontro de “nomes que não eram nossos próprios nomes”. O tango, dança dramática e intensa, desdobra-se em quatro estrofes que, de certo modo, glosam o que está na epígrafe. A imagem inusitada de dar à mulher o “aspecto de plaza de província” se desdobra em “nos procuramos/ em parágrafos onde os hóspedes dormem/ sobre travesseiros de fronhas azuis”, ou ainda em “ao redor da fogueira alguém se amedronta/ com o urso o galho que quebra a sombra da lua”. Essas imagens inusitadas cadenciam a dança de maria e seu par acelerando-os progressivamente.
Os movimentos dos bailarinos do último tango estão conformados por versos com palavras polissílabas como “desolados”, “parágrafos”, “travesseiros”, na primeira estrofe e cadenciados por versos relativamente longos, considerando o conjunto da obra.
A primeira estrofe parece expressar a caminhada dos bailarinos, espécie de passo básico do tango argentino. Essa é a cadência das duas primeiras estrofes, em crescendo, e, na terceira, nota-se o corte realizado no nono verso do poema (que estalam com o fogo). Mais uma vez, a nosso ver, expressa-se a dança de que se fala tanto pela interrupção repentina do verso, quanto pela imagem que emana de suas palavras – a intensidade própria da paixão. Por esses caminhos, os poemas trazem para o baile o encontro casual em praça pública (sentido sem título) e a desmesura da paixão (último tango), transformados em passos de balé pelo olhar inventivo de Bruna Beber.

Sons de Balés
Junto à captura imagética do cotidiano, aqui transformado em passos de dança, em em Balés, ouve-se um conjunto musical sólido fazendo do texto o corpo que dança, como dissemos anteriormente, e o instrumento que ressoa a música que a orienta. Poemas como “caixinha de música” e “sonata” são a evidência do trabalho de aproximação entre palavra e música. Mas não só nesses poemas essa aproximação se dá. Conforme verificamos pela entrevista da autora, ela recorre, frequentemente, a métodos de composição que valorizam os aspectos sonoros como gravar os poemas para ouvi-los posteriormente, lê-los para si mesma, e a confissão de que ela se pauta em algumas referências musicais para compor. Cabe aqui lembrar da aproximação entre Bruna e Bandeira feita no texto, sem autoria identificada, da orelha do livro em análise:

(…) encontram-se diversos aspectos díspares em Balés: o clássico e o popular, o tradicional e o renovador, o tom contido e o exagerado, entre muitos outros. Daí a possibilidade de a sua obra também remeter os leitores à poesia de Manuel Bandeira e de Mário de Andrade. (Grifo nosso)

Nesse trecho da apresentação da autora, ela é aproximada a dois ícones do modernismo. Sobre a aproximação com Mário de Andrade há um gesto autoral que o realiza, pois é desse autor paulista a epígrafe de Balés: “E dizem que os polichinelos são alegres”, verso retirado de Tristura, de Paulicéia Desvairada. No que diz respeito à remissão do leitor a Manuel Bandeira a relação já não é tão evidente, pois não se pode antever, antes de entrarmos detalhadamente nos poemas-danças presentes em Balés, os motivos que levam a essa aproximação. Mas ao lermos os textos presentes no livro vamos percebendo alguns elementos que a justificariam. A nosso ver, isso se dá, dentre outros motivos, pela musicalidade dos poemas de Bruna e pelo modo como essa musicalidade se apresenta. Retomemos as palavras de Bandeira sobre seu desejo de incursão pela música:

Não há nada no mundo de que eu goste mais do que de música. Sinto que na música é que conseguiria exprimir-me completamente. Tomar um tema e trabalhá-lo em variações ou, como na forma sonata, tomar dois temas e opô-los, fazê-los lutarem, embolarem, ferirem-se e estraçalharem-se e dar a vitória a um ou, ao contrário, apaziguá-lo num entendimento de todo repouso… creio que não pode haver maior delícia em matéria de arte. Dir-me-ão que é possível realizar alguma coisa de semelhante na arte da palavra. Concordo, mas que dificuldade e só para obter um efeito que afinal não passa de arremedo (BANDEIRA, Manuel, 1986, p. 50).

Como já dissemos em artigo escrito anteriormente (GUIMARÃES, 2015), parece que Bandeira abre mão de tentar compor sua “forma sonata”. Bruna Beber, diferentemente do que fez Bandeira, escreve sua “sonata”:

sonata

não me emociona o heroísmo
o que arranha as unhas nas paredes
do precipício deixo cair

a saudade que se sente,
o faz de conta, aquela fantasia
não me emocionam mais

meu coração parou de bater e agora
o que você chama de amor
eu não atendo mais (BEBER, Bruna, 2009, p. 40).

Embora receba o nome de sonata, nesse poema observam-se variações de um mesmo tema, o afastamento amoroso, que vem desenvolvido em três perspectivas, uma em cada estrofe: o heroísmo, a evasão, a emoção. Todas essas perspectivas dadas ao afastamento amoroso são negadas pelo eu lírico que declara a dissonância, ou separação, dos amantes: “o que você chama de amor/ eu não atendo mais”. Observa-se, portanto, que não é exatamente uma ‘forma sonata’, forma que se constitui pelas oposições, pela disputa entre dois temas, e pela força dos silêncios que dessa disputa irrompem. Definida frequentemente como oposição de temas breves e fáceis de serem memorizados, a forma sonata é também um diálogo entre o feminino e o masculino. O primeiro tema é considerado masculino, e o segundo, mais doce e melódico é considerado feminino. Esse poema parece ser a confissão de um único sujeito que percebe o momento em que o desencontro amoroso se consolida. Diferente de Bandeira, portanto, Beber se arrisca, burla a forma convencional de sonata e lança para o público seu poema-sonata a procura de sua dicção pessoal.
Ainda nesse poema, chama-nos atenção a procura das aliterações que ecoam em palavras como “emociona”, “heroísmo”, “chama”, “amor”; ou em “arranha as unhas”; “saudade que se sente”. Outros poemas também exemplificam o jogo sonoro desenvolvido pela autora. É o caso de “vestidos” onde se vê as seguintes escolhas lexicais: “transparentes”, “teia”, “túnica”, “tarrafa”, “mosquiteiro”; ou ainda em “trident melancia”, em que se lê/vê/ouve: “perfumar a fumaça”, “faço festa”, “tinta preta”. Já em “anéis” o leitor é envolvido pelos jogos sonoros, mas também pelo tom do texto: “quero alegria pro poema/ mas os versos saem em mi”.
Balés se apresenta, portanto como a junção da literatura, da dança e da música para desenvolver temas cotidianos num cuidadoso trabalho estético da autora, valorizando o movimento, a sonoridade e a construção imagética. Não se trata de um jogo pelo jogo. A poesia de Bruna Beber, em Balés, parece mesmo ser a manifestação do ordinário em tons sublimes ou coloquiais, conforme ela mesma disse. Essas são as danças de Balés: as relações amorosas (meu amor perdeu/ todos os dentes/ não pode mastigar os cacos/ de vidro da dor) metaforizadas no caos aéreo (caos aéreo/ tchup tchup tchuru); o movimento da vida urbana (os véus transparentes/ colocados nos edifícios em construção); os sons inventados no dia a dia, (pleqpleqpleqpleqpleq); jogos rotineiros, como as rifas, objetos simples como os cata-ventos, e acontecimentos prosaicos como as notícias, e, claro, a reflexão sobre o fazer poético (escrever é dedicar/ os dedos à marcenaria/ de qualquer jardim). E, por fim, cabe dizer que os versos musicais de Bruna não deixam de ser confessionais na medida em que a escrita o permite: canto para esquecer/ a grande confusão das coisas simples// não sei de que material seco são feitas/ as perdas. Todos esses elementos fazem parte da poesia de Bruna Beber, que a vê em todo lugar, afinal, para ela “a poesia é onipresente”.

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

ARNOLD, Denis (1988). Sonata. Dictionnaire encyclopédique de la musique. Université d’Oxford. Paris: Robert Laffont. Tomo I.
BANDEIRA, Manuel (1986). Poesia completa e prosa. Rio de Janeiro: Nova Aguilar.
BEBER, Bruna (2009). Balés. Rio de Janeiro: Língua Geral.
BEBER, Bruna. (2009). Entrelinhas. Entrevista concedida a Paula Picarelli. Disponível em http://www.tvcultura.com.br/entrelinhas.
BEBER, Bruna. (2013). Festa Literária Internacional de Paraty. Entrevista. Disponível em https://www.youtube.com/watch?v=DPtkN44uLZM.
CASTILHO, Angélica (2012). Bruna Beber: Literatura contemporânea em foco. Disponível em http://mcfaculdadeccaa.blogspot.com.br/2012/12/bruna-beber-literatura-contemporanea-em.html?view=sidebar.
GUIMARÃES, Raquel (2015). “Bandeira e Drummond e a nova poesia brasileira”. Comunicação apresentada durante o V SIMELP. Itália: Lecce. Resumo disponível em http://simelp.it/node/84#simposio19. (Texto completo inédito).



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