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POEMAS





POEMAS

Adélia Prado


COM LICENÇA POÉTICA

Quando nasci um anjo esbelto,
Desses que tocam trombeta, anunciou:
Vai carregar bandeira.
Cargo muito pesado pra mulher,
Esta espécie ainda envergonhada.
Aceito os subterfúgios que me cabem,
sem precisar mentir.
Não sou feia que não possa casar,
Acho o Rio de Janeiro uma beleza e
Ora sim, ora não, creio em parto sem dor
Mas o que sinto escrevo. Cumpro a sina.
Inauguro linhagens, fundo reinos
– dor não é amargura
Minha tristeza não tem pedigree,
Já a minha vontade de alegria,
Sua raiz ao meu mil avô.
Vai ser coxo na vida é maldição pra homem.
Mulher é desdobrável. Eu sou.

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Fonte: Prado, Adélia. In: Bagagem. O modo poético. In: Poesia reunida. 3a ed. São Paulo: Siciliano, 1991. 407 p. p. 11.

SOLO DE CLARINETA

As pétalas da flor-seca, a sempre-viva,
do que mais gosto em flor.
Do seu grego existir de boniteza,
sua certa alegria.
É preciso Ter morrido uma vez e desejado
o que sobre as lápides está escrito
de repouso e descanso, pra amar seu duro odor
de retrato longínquo, seu humano conter-se.
As severas.

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Fonte: idem, p. 49.

LIRIAL

Lírios, lírios
a vida só tem mistérios.
Destruo os lírios,
eles me põem confusa.
Os finados se cobrem deles,
os canteiros do céu,
onde as virgens passeiam.
Com cabeças de alho,
os bulbos ficam na terra
esperando novembro para que eu padeça.
Como pessoas, esta flor espessa;
branca, d’água, roxo-lírio,
lírio amarelo – um antilírio -,
lírio de nada, espírito de flor,
hausto floral do mundo,
pensamento de Deus inconcluído
nesta tarde de outubro em que pergunto:
para que servem os lírios,
além de me atormentarem?
Um lírio negro é impossível.
Inocente e voraz o lírio não existe
e esta fala é delírio.

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Fonte: Prado, Adélia. In: O Pelicano. Licor de romãs. In: Poesia reunida. 3a ed. São Paulo: Siciliano, 1991. 407 p. p. 311.



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