Revista LitCult – Vol.10 - 1º trimestre – 2016



PERDENDO A MAJESTADE – Gilberto Santos da Rocha





Gilberto Santos da Rocha
Psicanalista

Minicurrículo: GILBERTO ROCHA é psicólogo/psicanalista, autor do livro A introdução da Psicanálise no Brasil, é mestre em Filosofia-PUC/RJ e doutor em Saúde Coletiva/UERJ.    

“Eu e o Hélio somos amadores do berro. Sim, o Hélio tem a tendência da ópera e alguém já disse, talvez eu mesmo, que ele é a própria ópera. O poeta vira-se para mim e, com a ênfase de um dó-de-peito, faz-me esta acusação horrenda: –
–“Reaça!”. Tremo em cima dos sapatos” (RODRIGUES, 1997, p. 80).

É acreditando que o autor interpreta o mundo social à sua volta e que é possuidor de um simbolismo que cria representações acerca de uma cidade, a obra do autor dramático Nelson Falcão Rodrigues é um referencial para a literatura nacional. Pelo fato de escrever sobre a condição trágica do ser humano frequentemente em seus romances, contos e peças teatrais, aproximou-se de temas tratados pela psicanálise.
A sexualidade no universo rodrigueano é onipresente. Através de temas como a interdição do incesto, paixões, homossexualismo, taras, ménage à trois, romances familiares, curras, intrigas e castração, ela está sempre presente.
Universo que revela o problema da insegurança e da autoflagelação masculina, motivadas pela falência dos valores morais do pater familias no mundo moderno. A sua primeira peça teatral A mulher sem pecado (1941), já contém todos os principais ingredientes de sua obra: declínio do poder paterno, traição e incesto. O tema declínio da figura paterna fazia parte de sua dramaturgia desde o início, transformando-se em tema de discussão da intelectualidade nacional anos depois. “Traição” é o tema que durante dez anos pontuou todos os 2.000 folhetins escritos para a coluna “A vida como ela é” para o jornal Última Hora, enquanto o tema incesto era banalizado em suas histórias.
Nelson Rodrigues é considerado o fundador do moderno teatro brasileiro, autor polêmico, contraditório, reacionário e defensor da ditadura militar instalada a partir de 1964 no Brasil. Sua obra teatral é dividida em três partes: peças psicológicas, peças míticas e tragédias cariocas. Por escolher temas que envolviam a deterioração do conceito de família era censurado. A peça teatral Álbum de Família, por exemplo, levou mais de vinte anos para ser liberada pela censura.
Para ele, a angústia gerava culpa, clamava por punição e se aninhava quando o sujeito se opunha a um mundo em desencanto. Contraditoriamente acreditava que a salvação e o encanto da existência encontravam-se no amor.
Apesar de considerado reacionário, há na estilística rodrigueana uma forma singular de pensamento político em relação aos excluídos sociais brasileiros, como o pobre e o negro. O exemplo abaixo diz respeito ao pobre brasileiro e recebeu do autor o nome de Humildade (RODRIGUES, 1997, p. 81):

O que tem sido o brasileiro desde Pero Vaz de Caminha? Vamos confessar a límpida, exata, singela verdade histórica: o brasileiro é um pau-de-arara. Vamos imaginar esse pau-de-arara na beira da estrada. Que faz ele? Lambe uma rapadura. E além de lamber a rapadura? Raspa, com infinito deleite, a sua sarna bíblica. Sem falar nos piolhos que o devoram, e nas brotoejas que o perseguem. E ainda querem que ele seja humilde! Mas a humildade é um defeito de reis, príncipes, duques, rainhas. O justo, o correto, o eficaz é que disséssemos ao pau-de-arara: “Tudo, menos humildade! Seja arrogante! Erga a cabeça! Suba pelas paredes! Ponha lantejoulas na camisa!”

Para a antropóloga Adriana Facina, o modelo rodrigueano é baseado em histórias de fundo moral baseada no modelo gilbertiano:

Embora as famílias que aparecem na dramaturgia rodriguiana não sejam patriarcais, a dramatização da ruína da hierarquia familiar, com ênfase na perda do poder do pater familias e no rompimento de interdições – como o incesto e a traição – nas relações interpessoais, coloca o modelo descrito por Freire como uma espécie de pano de fundo moral das histórias (FACINA, 2004, p. 107).

Os textos rodrigueanos eram geralmente ambientados no subúrbio carioca, lugar que para suas tragédias fazia mais sentido, pois era onde ainda se cultivavam valores morais mais tradicionais e onde o amor ainda era capaz de produzir tragédias no cotidiano:

Sou um suburbano. Acho que a vida é mais profunda depois da praça Saens Pena. O único lugar onde ainda há o suicídio por amor, onde ainda se morre e se mata por amor, é na Zona Norte (RODRIGUES, 1997, p. 181).

Os valores sociais do subúrbio carioca eram diferentes do centro da cidade e da beira-mar, lugares onde a cultura do indivíduo balizava as relações sociais e onde já existia certo relativismo moral. De acordo com Facina, o dramaturgo encontrava-se inserido num momento de passagem de valores tradicionais para a assunção de valores mais modernos:

Nelson Rodrigues fala de um momento em que a desagregação da família patriarcal, fruto de um processo histórico de modernização, colocou em xeque valores tradicionais. Essas famílias em cena traduzem o dilaceramento dos indivíduos num mundo onde esses valores não foram substituídos por algo que pudesse nortear as suas vidas (FACINA, 2004, p. 25).

O crepúsculo do patriarca
Para enfocar a majestade perdida pelo homem na obra rodrigueana selecionamos os seguintes textos: sua primeira criação teatral, A mulher sem pecado, o conto A dama do lotação e o romance Asfalto selvagem – Engraçadinha e seus pecados.
No drama em três atos, A mulher sem pecado (RODRIGUES, 1981), podemos observar que o motivo que vai caracterizar o enfraquecimento da autoridade do “chefe de família” é a insegurança de um amor doentio retratado no ciúme sem limite do protagonista, Olegário, que logo nas primeiras páginas da peça, no diálogo travado com a empregada Inésia e o motorista Humberto, tem seu perfil desenhado pelo autor:

Olegário (com maior interesse):
– Hum! Voz de mulher, mesmo? (Aproxima-se). Tem certeza que não era voz de homem disfarçada?
Inézia (hesitante) – Não. Pelo menos, não parecia. Não, era voz de mulher,
Olegário – Você perguntou quem queria falar com ela?
Depois, repete o mesmo questionamento com o motorista:
Olegário (embolsando o telegrama) – O que é que há? A senhora saiu, aonde foi?
– Umberto (mascando qualquer coisa). – Saiu depois do almoço. Mais ou menos umas duas horas. Voltou às cinco horas.
Olegário – E você viu o quê? (com desconfiança). Eu acho que você me esconde as coisas! Eu pago para obter informações! (noutro tom) – Ela foi aonde? (RODRIGUES, 1981, p. 48).

O ciúme de Olegário era justificado de três maneiras: pela ameaça de descontrole sexual de sua mulher gerado por sua impotência, pelas idéias modernas representadas pela autarcia psicológica e sexual feminina e pela desconfiança de incesto da esposa, com o irmão de criação dela, Maurício. Idéias que por sinal, sua mulher não possuía e com as quais ela entrou em contato graças às inseguranças, confusões e pelo fracasso das idéias delirantes do protagonista.
Em A mulher sem pecado, Olegário encontra-se no centro do conflito familiar, ameaçando com expurgo econômico sua mãe, Lídia sua mulher, a mãe de Lídia, o irmão de criação dela e três empregados caso eles se insurgissem contra suas incertezas e autoridade.
Imerso num mundo que defendia a repressão dos valores modernos, Olegário, sem conseguir extravasar suas emoções e ansiedades, punia a si mesmo simulando uma paralisia inexistente. Fingia ser paralítico desde quando começou, há cerca de sete meses, com a idéia de testar a fidelidade de sua esposa, perseguindo-a com desconfianças. Acreditava que tinha nascido nela o desejo de trair. Pois, se ele próprio apreciava uma bela mulher, porque ela não apreciaria a beleza masculina? “Lídia (sardônica) – Um marido dizendo essas coisas! Sugerindo! Metendo coisas na cabeça da mulher. Eu acabo, nem sei!” (RODRIGUES, 1981, p. 59).
As informações obtidas e requeridas por Olegário, principalmente de Inezia, a criada, e de Umberto, o motorista, sobre com quem Lídia se relacionava ou o que fazia, demonstram a fragilidade psicológica do chefe dessa família. Fragilidade denunciada também por admoestações morais de caráter repressivo sexual, como a de uma frase retirada de um diálogo travado entre Olegário e Lídia, quando ele, discutindo, diz para a mulher: “O fato de você mesma olhar o próprio corpo é imoral. Só as cegas deviam ficar nuas…” (RODRIGUES, 1981, p. 55).
Quando Lídia comenta seu desconhecimento sobre as coisas do amor, afirma que sua passagem no colégio interno foi mais proveitosa para saber sobre o amor entre duas pessoas do que seu casamento. Nelson Rodrigues parece nesta passagem representar na personagem Lídia uma mulher comum daqueles dias, oprimida pelo universo masculino e pelos valores morais do seu casamento, considerados na atualidade, antigos, abusivos e patriarcais.
O desfecho do drama em três atos se aproxima quando o protagonista finalmente se convence de que Lídia não o traía. Tarde demais… a esposa, cansada depois de tantas humilhações sofridas, aceita o assédio de Umberto, o motorista, e em sua companhia corta as amarras que a ligava a um casamento que para ela tornou-se frustrante, repressivo e fonte de mal-estar. Imprensado entre a razão e a desrazão, arrasado pela culpa, sem forças para enfrentar a situação que fora criada por ele mesmo, Olegário comete suicídio.
Os 112 capítulos do romance Asfalto selvagem – Engraçadinha seus amores e seus pecados foram escritos originalmente para o jornal carioca “Última Hora” de agosto de 1959 a fevereiro de 1960. Foram publicados em livro pela primeira vez em 1961 em dois volumes: livro 1, Engraçadinha dos doze aos dezoito e livro 2, depois dos trinta (1994)). Este livro foi um dos dois romances em que Nelson Rodrigues não usou o pseudônimo costumeiro de Suzana Flag ou de Myrna. Neste romance ele retoma o tema do abandono / suicídio / declínio da autoridade paterna, logo nas primeiras páginas do primeiro capítulo, através da discrição de dois personagens suicidas e de um outro personagem que se intimidava com a própria mulher. Nelson Rodrigues deixa logo entrever a inquietude masculina diante da iminência da independência feminina.
O primeiro suicídio foi motivado pela mulher que abandonou o marido levando os filhos. O segundo foi cometido por um homem bem-sucedido e respeitável, orador, advogado e deputado possuidor de valores arcaicos. Declarou certa vez na tribuna da Câmara Estadual do Espírito Santo que havia casado virgem (coisa que o dramaturgo sarcasticamente menciona argumentando que tal declaração do deputado não se propunha ser uma declaração de bens, tal como a virgindade era para as mulheres). Zózimo, o outro personagem, tem sua fraqueza demonstrada pelo vício da bebida e pela sua maneira de amar. Tinha medo e insegurança de sua bonita esposa protestante indiferente e sem paixão, dona Engraçadinha, pela qual ele, seu marido, se remoia por não ter com ela a menor intimidade conjugal.
Em sua obra, Nelson Rodrigues usa diversas vezes da dramaticidade do suicídio, para demonstrar o nefasto sentimento de desamparo sentido por seus personagens “chefes de família”.
No conto A dama do lotação, o tema da traição feminina no casamento retorna. A insegurança masculina novamente se instala pela via da traição, mas desta vez tem motivo de existir. Originalmente este conto tinha 130 linhas e havia sido publicado na coluna “A vida como ela é” do jornal Última Hora. Foi adaptado para o cinema em 1977 tendo Rodrigues ajudado no roteiro do filme criando situações e personagens novos.
Por causa de uma fatalidade, surpreendida traindo com os pés sob a mesa de um jantar, Solange transforma-se aos olhos de Carlinhos, seu marido. Transforma-se de uma recatada mulher aliada ao regime patriarcal, numa mulher com independência sexual e afetiva do casamento. Após interrogatório e confirmado as suspeitas de que o homem com quem sua esposa o tinha traído era o Assunção, amigo de infância de ambos, Carlinhos enraivecido grita:

“Vou matar esse cachorro do Assunção! Acabar com a raça dele!”
A mulher, até então passiva e apenas espantada, atracou-se com o marido, gritando:
– Não, ele não!
– Agarrado pela mulher, quis se desprender, num repelão selvagem. Mas ela o imobilizou, com o grito:
– Ele não foi o único! Há outros!” (RODRIGUES, 1992, p. 221).

Na família de nossa dama brasileira, “havia de tudo: médicos, advogados, banqueiros e, até, ministro de Estado”. Solange via no lotação o cenário perfeito para a quebra da monotonia de sua vida e da prática de sua tara sexual, que consistia em todas as tardes pegar o lotação e capturar um macho para a satisfação de seus desejos sexuais:

Sem excitação, numa calma intensa, foi contando. Um mês depois do casamento, todas as tardes, saía de casa, apanhava o primeiro lotação que passasse. Sentava-se num banco, ao lado de um cavalheiro. Podia ser velho, moço, feio ou bonito; e uma vez – foi até interessante – coincidiu que seu companheiro fosse um mecânico, de macacão azul, que saltaria pouco adiante. O marido prostrado na cadeira, a cabeça entre as mãos, fez a pergunta pânica:
– Um mecânico?
Solange, na sua maneira objetiva e casta, confirmou:
– Sim” (RODRIGUES, 1992, p. 222).

Para Carlinhos, seu marido, os desconhecidos não o preocupavam. O que lhe amofinava mesmo de verdade, eram os conhecidos:

Mecânico e desconhecido: duas esquinas depois, já cutucara o rapaz: “Eu desço contigo”. O pobre diabo tivera medo dessa desconhecida linda e granfa. Saltaram juntos: e esta aventura inverossímil foi a primeira, o ponto de partida para muitas outras. No fim de certo tempo, já os motoristas dos lotações a identificavam a distância; e houve um que fingiu um enguiço, para acompanhá-la. Mas esses anônimos, que passavam sem deixar vestígios, amarguravam menos o marido. Ele se enfurecia, na cadeira, com os conhecidos. Além do Assunção, quem mais? Começou a relação de nomes: fulano, sicrano, beltrano… Carlinhos berrou: “’Basta! Chega!”. Em voz alta, fez o exagero melancólico: a metade do Rio de Janeiro, sim senhor! (RODRIGUES, 1992, p. 222).

Não conseguindo conviver com a dor da traição, Carlinhos nega a situação, afirmando ter morrido para o mundo e entrando num estado de catatonia e autoflagelação, que requeria a atenção de Solange. Todavia ela não se deixa levar pela chantagem emocional que poderia advir com a “morte” de Carlinhos e após a noite e a manhã passada, dedicada junto à cabeceira do marido, escapole à tarde para passear de lotação, retomando o seu rosário horas depois, resignadamente, a fim de continuar “o velório do marido vivo” (RODRIGUES, 1992, p. 223).
Ele é um dos autores que captou em sua literatura uma mudança nas formas de existência baseada na autoridade paterna. Sua obra está imersa em um momento em que a utilização de explicações de cunho psicológico aumentaram significativamente. Período em que a produção de subjetividade foi abalada, enfraquecida e destituída, devido aos avanços do sistema capitalista, junto com a figura do pai autoritário e da repressão sexual.

NOTAS BIBLIOGRÁFICAS
FACINA, A. Santos e canalhas: uma análise antropológica da obra de Nelson Rodrigues. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2004.
ROCHA, G. S. Entre fronteiras: estudo das relações entre a psiquiatria e a psicanálise. Tese de doutorado em Saúde Coletiva. Rio de Janeiro, Instituto de Medicina Social/UERJ, 2005.
RODRIGUES, N. A vida como ela é… O homem fiel e outros contos. São Paulo: Companhia das Letras, 1992.
RODRIGUES, N. Asfalto selvagem: Engraçadinha seus amores e seus pecados. São Paulo: Companhia das Letras, 1994.
RODRIGUES, N. Flor de obsessão: as mil melhores frases de Nelson Rodrigues. São Paulo: Companhia das Letras, 1997.
RODRIGUES, N. Nelson Rodrigues – Teatro completo. Peças psicológicas. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1981. v. 1.



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