Revista Mulheres e Literatura – vol.15 – 2º Semestre - 2015



PALAVRAS DA FOME: NOTAS SOBRE UM LIVRO DE RECEITAS ESCRITO EM THERESIENSTADT- Fabiano Dalla Bona e Josiane Rodrigues Neves





Fabiano Dalla Bona

Universidade Federal do Rio de Janeiro – UFRJ

 

Josiane Rodrigues Neves

Universidade Federal do Rio de Janeiro – UFRJ / CAPES

 

 

 

Vocês que vivem seguros em suas cálidas casas,

vocês que, voltando à noite, encontram comida quente e rostos amigos:

Pensem bem se isto é um homem…

(LEVI, 1988, p. 9)

 

 

Resumo: A memória alimentar foi um importante elemento de autopreservação e de esperança aos prisioneiros dos Lager (depósitos) nazistas durante a Segunda Guerra Mundial. Falar de comida, trocar e escrever receitas, simular grandes banquetes, e até sonhar com comida, de certo modo, contribuiu a resgatar aquele pouco de identidade/humanidade dos prisioneiros “animalizados” pela violência alemã. O corpus do presente artigo compõe-se de relatos de deportadas tchecas do campo de Theresienstadt, In Memory’s Kitchen, e podemos observar que, para essas mulheres, a alimentação é um traço identitário e cultural muito importante que nem mesmo o sofrimento nos campos de extermínio conseguiu apagar ou cancelar.

 

Palavras-chave: In Memory’s Kitchen – livro de receitas – memória alimentar – memórias de guerra – holocausto

 

Abstract: Food memory was an important element of self-preservation and hope to prisoners of Nazis’ Lager (warehouses) during World War II. Speaking of food, exchanging and writing recipes, simulating large banquets and even dreaming about food in a way helped to rescue that little prisoners’ identity/humanity “animalized” by German violence. The corpus of this paper consists of reports of Czech deportees to Therensienstadt published under the title In Memory’s Kitchen. As we can see, for these women food is a very important cultural and identitary trait that not even the suffering of extermination camps could erase or cancel.

 

Keywords: In Memory’s Kitchen – cookbook – food memory – war memories – Holocaust.

 

Minicurrículo: Fabiano Dalla Bona é mestre em Letras de Língua e Literatura Italiana pela Universidade de São Paulo (2003) e Doutor em Letras Neolatinas em Literatura Italiana pela Universidade Federal do Rio de Janeiro. É professor adjunto do Departamento de Letras Estrangeiras Neolatinas da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ). Desenvolve pesquisa relacionada ao tema Literatura e gastronomia, com ênfase na produção literária italiana do século XX e XXI. Publicou artigos em conceituadas revistas científicas brasileiras e também em revistas especializadas em gastronomia. É vice-presidente da Associação Brasileira de Professores de Italiano (ABPI). Atua também como parecerista ad hoc de revistas científicas, dentre as quais a Revistas Letras da UFPR e Interfaces da UFRJ.

 

Minicurrículo: Josiane Rodrigues Neves é mestranda do Programa de Pós-graduação em Letras Neolatinas da Universidade Federal do Rio de Janeiro, bolsista da CAPES, sob a orientação do Prof. Dr. Fabiano Dalla Bona. Desenvolve a pesquisa de dissertação de Mestrado intitulada Il cibo caldo e i visiamici: fome e memória alimentar em Primo Levi.

 

 

 

 


 

Palavras da fome: notas sobre um livro de receitas escrito em Theresienstadt

 

 

Fabiano Dalla Bona

Universidade Federal do Rio de Janeiro – UFRJ

 

Josiane Rodrigues Neves

Universidade Federal do Rio de Janeiro – UFRJ / CAPES

 

O que queremos saber, através da leitura de documentos de prisioneiros e de sobreviventes do holocausto: como era a vida nos campos de extermínio? Como era viver provisoriamente, à beira da morte iminente? Como os prisioneiros lidavam com as demandas conflitantes de conviver com a penúria e se esforçar para estender sua sobrevivência por pelo menos mais um dia?

Por muito tempo a memorialística de guerra foi considerada um gênero menor na produção literária. Títulos significativos foram impressos na maior parte dos casos por pequenas editoras, muitas vezes as custas do próprio autor. Mesmo Primo Levi (1919 – 1987) sofreu esse tipo de problema por parte de grandes editores, e após a publicação de É isto um homem? (1947) e de A Trégua(1963), convenceu-se de ter exaurido o dever de testemunhar sobre aquilo que a sociedade dele esperava.

Mas o problema do testemunho é também um problema de gênero. Privilegiou-se, durante certo tempo, as narrativas de vítimas do sexo masculino. Segundo Lillian Kremer (1991, p. 1-2) um dos obstáculos para o pouco interesse verificado pelas representações literárias femininas sobre a Shoahaté algumas décadas atrás, é determinado pelo gênero das testemunhas, derivado da opinião corrente que, separando as vozes femininas daquela coletiva – masculina – arriscava-se abrandar a potência de um único coro de testemunhas, e que se arriscava-se, enfim, diminuir a importância da “unicidade do evento” segundo a tese defendida por Lawrence Langer, além de estabelecer uma “hierarquia dos sofrimentos”.

Lucamente (2007, p.78), sempre sobre a questão do gênero, adverte que

 

Marginalidade e escasso interesse conotaram, em geral, a figura da deportada e sobrevivente hebraica, e essa postura em relação a elas alinha-se ao vetor interceptado pelo discurso historiográfico sobre a Shoah, articulado essencialmente ou ao redor do homem como promotor ou vítima de eventos históricos, ou do ser humano mais genericamente, sem distinções. Se as mulheres constituíam um ingentíssimo número de vítimas da Shoah, e, portanto, eram importantes no interior da coletividade oprimida por tal tragédia, as vozes delas, as experiências delas audíveis através dos seus escritos, ficaram, ao invés, inauditas por muito tempo.

 

Nas últimas duas décadas, porém, a historiografia e a crítica literária fazem uma tentativa de recuperar o terreno perdido, e a memorialística e a narrativa de testemunho vem ganhando vigor e espaço, oferecendo uma série de interessantíssimas vozes. Nesse âmbito, um dado interessante revela-se aquele da publicação de vozes femininas, principalmente nos Estados Unidos, Itália e França. Paralelamente surgem obras incomuns, muito diferentes dos livros de memórias, de autobiografias e biografias, e de relatos de ex-deportados de campos de concentração nazistas.

Falamos aqui de livros de cozinha escritos nos campos de concentração. Imediatamente o leitor perguntar-se-á: como é possível que livros dessa natureza tenham sido escritos em campos de extermínio onde, como bem se sabe, os prisioneiros morriam de inanição? De fato é surpreendente, mas abordaremos uma obra que despertou a atenção de estudiosos, de sionistas, jornalistas e de leitores comuns sobre a temática da Shoah: In Memory’s Kitchen: Alegacy from the Women of Terezín, publicado nos Estados Unidos em 1996.

Trata-se de textos clandestinos, produzidos no escuro dos alojamentos, escritos em minuta caligrafia sobre pedaços de papel reaproveitados de calendários, cantos não impressos de jornais, páginas rasgadas de livros, e que, milagrosamente conseguiram sobreviver e ultrapassar as cercas de arame eletrificado dos campos após a sualiberação. Tal testemunho é uma prova desesperada para quem, como qualquer homem livre que vive hoje em paz e harmonia; parece-nos ingênuo, e nem sempre somos capazes de compreender porque exatamente tal tipo de obra fora escrita.

Hirsch e Spitzer (2007, p. 143) sugerem que os objetos materiais, a memorabília, aqueles fatos ou objetos dignos de serem rememorados e que se guardam na lembrança ou como lembrança (desenhos, cartas, livros, roupas, móveis, etc.), que pertenceram às vítimas ou sobreviventes do Holocausto, são documentos de primordial importância e dignos de uma análise cuidadosa, e quetais documentos podem nos ajudar a reconstruir um passado “opaco e inimaginável”.

In Memory’s Kitchen é o resultado do trabalho coletivo de mulheres deportadas no campo de Terezín ou Theresienstadt, na antiga Tchecoslováquia, legado por Mina Pachter (1872 – 1944), judia residente em Praga, deportada em 1941 ou 1942 com o restante dos judeus remanescentes do gueto da capital tcheca, aos 67 anos de idade. Graças às privações sofridas naquele lager (depósito), com a saúde bastante debilitada, a ex-matrícula nº 5651573, faleceu de inanição naquele campo no dia de Yom Kippur, o Dia do Perdão, do ano judaico de 5704 ou 1944, aos 72 anos de idade.

Todavia, antes de sua morte deixou sob a custódia de um amigo, também prisioneiro, um pacote e o pedido que o mesmo fosse entregue à sua filha, que na época, residia na Palestina Britânica(atual Israel). Começa, então, a epopeia do referido pacote. Após a liberação do campo de Theresienstadt, em abril de 1945, o pacote estava nas mãos do amigo Arthur Buxbaum, negociante de antiguidades de Teplice, Tchecoslováquia; ele sabia que o destinatário era a filha de Mina, Anny, que morava em Israel, mas não tinha ideia de como aquilo chegaria às mãos da mulher. Certa ocasião, em 1960, Buxbaum recebeu a visita de uma prima, de partida para Israel: confiou-lhe, então o pacote, indicando o seu destinatário. Uma vez em Israel, a mulher procurou por Anny Stern, filha de Mina Pachter e logo soube, através de amigos dela, que ela havia partido para os Estados Unidos. De volta aos Estados Unidos, a prima de Buxbaum não encontrou Anny; após esse episódio, não se sabe em mãos de quem o pacote foi parar. Finalmente, uma década depois, em 1969, um estranho procedente de Ohio desembarcou em Nova York à procura de judeus tchecos, conseguiu localizar Anny, na época com 62 anos de idade, e entregou-lhe o pacote.

 

“A primeira vez que abri o livro e vi a caligrafia de minha mãe, precisei fechá-lo”, disse Anny sobre o dia em que recebeu o pacote. “Guardei-o e somente muito mais tarde tive coragem de olhar, meu marido e eu tínhamos medo dele. Era algo sagrado. Após todos esses anos, era como se a mão fosse estendida para mim desde muito tempo atrás” (SILVA, 1996, p. 22).

 

 

O embrulho continha cartas jamais enviadas, poemas sobre as companheiras de Mina e sobre o campo e um caderno costurada à mão, com frágil linha e uma capa de papelão onde estava escrito Kochbuch, livro de receitas. Tratava-se de uma reunião de receitas escritas por diversas mãos além daquelas de Mina. Obviamente não eram receitas a serem preparadas no próprio campo por tratarem-se de sofisticadas iguarias da tradição tcheca, preparadas por aquelas mulheres antes de sua deportação. Famintas e na iminência de serem mortas, aquelas mulheres tentaram manter seus espíritos aliviados através das memórias da boa cozinha antiga, cozinhando simbolicamente.

Segundo o historiador alemão Rüsen (2009, p. 167-168),

 

A memória pode ser classificada de acordo com diferentes critérios, incluindo o modo pelo qual o passado é representado. Em um sentido tipológico ideal há duas possibilidades: responsiva ou construtiva. A memória responsiva é acionada pela intensidade de uma experiência específica que grava a si mesma nas mentes das pessoas, por assim dizer. A memória fere e uma força quase autônoma compele as pessoas a reagir, a interpretá-la e superá-la. Esse tipo de memória imprime-se no espírito trazendo o passado para o presente como uma imagem poderosa e persistente. Um dos mais relevantes exemplos dessa memória é o Holocausto. O conceito dominante para analisar esse modo de experiência na memória histórica é o conceito de trauma. No modo construtivo, o passado rememorado é matéria para discursos, narrativas e uma comunicação contínua. Aqui, a memória moldou o passado em uma história significativa e aqueles que lembram parecem ser os mestres de seu passado na medida em que eles colocam a memória em uma perspectiva temporal com a qual podem articular suas expectativas, esperanças e medos.

 

Nasce aqui, espontaneamente, uma pergunta: por que toda essa atenção voltada para um simples livro de receitas, já que existe toda uma vasta literatura sobre o holocausto, certamente muito mais importante e muito mais descritiva?

Livros como esse tornam-se escritos imbuídos de mensagens edificantes, mostrando que mesmo em tempos extremamente árduos, as pessoas tentam se agarrar à normalidade, e a memória é uma componente importante nesse tipo de operação. O manuscrito, hoje conservado no Museu do Holocausto de Washington, nos Estados Unidos, não trata de uma heroica história de resistência ideológica, mas prova que mesmo em condições extremas aqueles seres humanos procuravam agir como qualquer outro ser humano livre, em uma espécie de (quase) normalidade. É o que nos dizem Hirsch e Spitzer (2007, p. 139) sobre o livro:

 

Como um livro de receitas, criadas e trocadas entre mulheres, legadas de mães para filhas, In Memory’s Kitchen nos convida a pensar sobre como atos de transferência podem ser gerados e gerar leituras feministas. As receitas incorporam e perpetuam as tradições e práticas culturais evidentes das mulheres, tanto no seu conteúdo como no comentário que acompanha algumas delas. Mas, em um livro sobre comida escrito em um campo de concentração, as considerações de gênero também rapidamente desaparecem da vista quando consideramos a vontade nazista de exterminar todos os judeus, e destruir a memória de sua própria existência.

 

 

É um livro que fala diretamente às mulheres, pois é uma história de e sobre mulheres, e porque cozinhar, colecionar e redigir/copiar receitas também é uma atividade familiar às mulheres. O melhor que aquelas mulheres puderam fazer foi lembrar e registrar suas memórias para a posteridade. Pois, como nos relata Primo Levi (1990, p. 43)

 

A desnutrição, a privação e os outros sofrimentos físicos, que é tão fácil e econômico provocar e em que os nazistas eram mestres, são rapidamente destrutivos e, antes de destruir, paralisam; ainda mais quando são precedidos por anos de segregação, humilhação, maus-tratos, migrações forçadas, dilaceramento dos laços familiares, ruptura dos contatos com o resto do mundo.

 

 

Todavia na opinião do psiquiatra austríaco Viktor Frankl (1905 – 1997), sobrevivente do campo de Bergen-Belsen, na Alemanha e criador da Logoterapia, “não se deve provocar o organismo com essas imagens de iguarias, muito intensas e carregadas de sentimento, quando ele [o prisioneiro] já conseguiu, em termos, adaptar-se às reduzidíssimas rações e quantidades de calorias”. (FRANKL, 2008, p. 46) Ele ainda nos dá o seguinte relato:

 

Face ao estado de extrema subnutrição em que se encontravam os prisioneiros, é compreensível que, entre os instintos primitivos que representam a “regressão” da vida psicológica no campo, o instinto de alimentação ocupasse o lugar principal. Observemos os prisioneiros de um modo geral quando estão juntos no lugar de trabalho, num momento em que estão sendo tão vigorosamente vigiados. A primeira coisa de que começam a falar é de comida. Imediatamente alguém começará por perguntar ao colega que trabalha ao seu lado na vala, qual seu prato favorito. Começam a trocar receitas e compor menus para o dia em que pretendem convidar-se mutuamente para um reencontro, futuramente, depois de libertos e de volta em casa. (FRANKL, 2008, p. 45)

 

 

Foi através da memória alimentar que a esperança de salvação e de liberdade aflorou entre as detentasdeTheresientadt. Escrever e narrar são lenitivos para superar o trauma. Para Rüsen (2009, p.195),

 

 

Ao destruir os conceitos efetivos de sentido como sistemas de orientação, o trauma é um obstáculo para a vida prática. Aqueles que tiveram uma experiência traumática precisam lutar para superá-la. Eles tentam dar-lhe nova forma de um modo que faça sentido novamente, isto é, que se insira em padrões eficazes de interpretação e compreensão: omitem ou suprimem o que ameaça a efetividade e validade desses padrões. Pode-se falar em um estranhamento ou falsificação da experiência, de modo a que se concilie com ela. Todos estão familiarizados com essa distorção e com essa alienação. Isso ocorre habitualmente quando se tenta falar sobre uma experiência única e profundamente perturbadora para a própria mente daquele que fala. Isso é verdade não somente para experiências negativas com qualidade traumática, mas também para experiências positivas. Aqueles que têm essas experiências são levados além dos limites de suas vidas cotidianas, de sua visão de mundo e autocompreensão. Todavia, sem palavras, um evento de qualidade perturbadora não pode ser mantido no horizonte da memória e da consciência identitária. É no terreno da linguagem que os envolvidos precisam se haver com tais eventos. Mesmo na jaula escura da supressão, essas experiências tendem a encontrar expressão: se as pessoas não podem falar sobre elas, elas são forçadas a substituir a carência de linguagem e pensamento por atividades compulsivas, por falhas e lacunas em seus modos de vida. Tais falhas, lacunas e atividades precisam ‘falar’ sobre tais pessoas nessa ‘linguagem além das palavras’, simplesmente porque essas experiências se tornaram parte deles e eles precisam se conciliar com este fato.

 

 

Na opinião da linguista americana Linde (1993, p.114),as narrativas unem pessoas, pois, contar histórias cria um sentimento de pertencimento ao grupo e de solidariedade entre seus membros. Em tempos de incerteza e de ansiedade, elas funcionam como canais de interpretação da realidade ao tentar domesticar e disciplinar a estranheza e a inteligibilidade. Em outras palavras, Mina e as outras detentas de Theresientadttentam reconstituir o sistema de significados e de representações que dava sentido ao mundo, ajudando-asa superar a aporia aberta pela crise.

Tal posição é compartilhada por Ross (2002, p. 305) que sustenta que “as narrativas são especialmente relevantes para grupos e indivíduos presos em situações de grande incerteza e alto estresse”. Quando os indivíduos se encontram desorientados, prossegue Ross, eles tentam dar sentido àquilo que experimentam sensorialmente. As narrativas coletivas reafirmadas dentro da coletividade ajudam-nos a encontrar consolo e a lidar com a ansiedade. Por essas razões, as narrativas “não saem de um mesmo saco”: elas têm de estar ancoradas em experiências e em anseios interpretados seletivamente para que possam ter ressonância na coletividade.

No prefácio de In Memory’skitchen, Michel Berenbaum (1996, p.10), diretor do United States Holocaust Research Intitute, fala sobre a importância desse manuscrito:

 

 

Para alguns, a maneira de lidar com esta fome era reprimir o passado, e viver apenas no presente, pensar só no hoje, nem no ontem nem no amanhã. Não foi assim para a mulher que compilou este livro de receitas. Elas falaram do passado, atreveram-se a pensar em comida, naquilo que lhes fazia falta – potes e panelas, uma cozinha, casa, família, convidados, refeições, entretenimento. Portanto, este livro compilado por uma mulher em Theresienstadt, por mulheres famintas em Theresienstadt, deve ser visto como mais uma manifestação de desafio, de uma revolta espiritual contra a dureza das condições que lhes eram dadas. É um voo da imaginação de volta ao passado, quando havia alimentos, quando as mulheres tinham casas e cozinhas e podiam oferecer uma refeição aos seus filhos. A fantasia deve ter sido dolorosa para as autoras. Recordar receitas foi um ato de disciplina que as obrigava a suprimir a fome atual e pensar no mundo comum antes dos campos – e, talvez, ousar a sonhar com um mundo depois deles.

 

 

E nada poderia demonstrar melhor o poder dos alimentos como um marcador de identidade, e seu uso como uma potente forma de resistência psicológica, uma forma de arrancar força, e para reforçar quemse é, enquanto a própria cultura está sob o julgo inimigo e em perigo de ser destruída. A escrita carrega as tradições de suas autoras, como elas mesmas não puderam fazê-lo, demonstrando um extraordinário poder de constância e de fortaleza, repleto de relevância histórica e contemporânea, deixando-nos uma marca indelével. Essa marca da identidade é reforçada por Goldenberg (2003, p. 164) ao afirmar que

 

No contexto do Holocausto, a comida tem um peso simbólico e emocional, especialmente em relação às mulheres. A comida, tradicionalmente influencia a autodefinição das mulheres e de seu status e, na cultura judaica, a reputação delas como balabusta (dona-de-casa). A mesa/tish de uma mulher era a evidência de sua criatividade, de sua generosidade e do valor de suas habilidades femininas.

 

As receitas no livro evocam lembranças de dias melhores: o strudelde ameixas servidono Rosh Hashaná, com instruções para fazer umstrüdel “alto e belo”; Gesundheitskuchen Pachter, ou bolos da “boa saúde” de Pachter, tradicionalmente consumidos pelas mães de recém-nascidos, a Linzertorten servida durante a Jause, o café da tarde em Viena e Praga, e mazelokich, um pão ázimo em camadas com sobremesa de frutas, tipicamente servido pelos judeus tchecos durante os dias de Pesach, a Páscoa.

É importante observar que, no contexto de Theresienstadt, onde a arte só era permitida se servisse aos propósitos da propaganda nazista, escrever um objeto clandestino, principalmente tratando-se de um livro de receitas, foi um gesto de recusa e ato de clara resistência à autoridade nazista.

Cara de Silva, jornalista, estudiosa da alimentação e organizadora da obra, na Introdução, faz o seguinte questionamento: “Nascido do abismo, é um documento que pode ser compreendido apenas nos confins da mente? Anotar receitas teria trazido conforto em meio ao caos e a brutalidade? Será que isto trouxe a esperança para alguém de preparar novamente uma refeição a partir delas [as receitas]?” (SILVA, 1996, p. 21)

As folhas de papel amareladas são frágeis como as folhas de outono que caem das árvores, relembrando a poesia de Eugenio Montale; a mudança de caligrafias vacilantes de página para página, em um marrom esmaecido, são quase indecifráveis. As receitas, certas vezes, são imprecisas e faltam medidas exatas e ingredientes, lacunas são preenchidas com ilustrações dolorosas sobre as condições de vida em Theresienstadt. Sobre essas imprecisões na composição das receitas, comentam Hirsch e Spitzer (2007, p. 139):

 

Memory’s Kitchen, por exemplo, carrega poderosos significados pessoais, históricos, culturais e simbólicos que excedem em muito o seu conteúdo aparentemente comum, extraído do mundo doméstico cotidiano de suas autoras. Não podemos cozinhar a partir das receitas deste volume – a maioria delas deixa de fora os ingredientes ou modos de fazer, ou refletem o racionamento dos tempos da guerra apelando para o uso de sucedâneos (para a manteiga ou café, por exemplo), ou por usar ovos opcionalmente. Mas certamente podemos usá-las para tentar imaginar uma vontade de sobreviver, o compromisso determinado com a comunidade e a colaboração que produziu este livro extraordinário.

 

 

Certamente Mina jamais pode imaginar que um dia aquele singelo manuscrito encadernado à mão pudesse ser impresso por uma editora, ganhar as páginas dos principais noticiários pelo mundo afora e, inclusive, ter suas receitas preparadas, quiçá, pelas mãos de outras tantas mulheres.

Portanto, seria lógico perguntar aqui: poderia um objeto/testemunho da Shoah falar por si só, sem algum intérprete humano? Hirsch e Spitzer (2007, p. 159) afirmam que

 

As receitas de Terezín, assim, tornam-se mais do que microcosmos e emblemas dos campos nos quais foram produzidas – são emblemas para o próprio processo de leitura de gênero no contexto da catástrofe. Como ponto de memória, elas de fato, provocaram uma visão penetrante que atravessa o tempo e o espaço – a incongruência de gênero e Holocausto, sua oscilação entre primeiro e segundo plano, a sua legibilidade e ilegibilidade.

 

 

E concluímos com as palavras de Rego (2006, p. 17):

 

 

Escrever implica, pois, repetição e ausência. A escrita é algo ausente que pode vir a ser, que remete ao futuro, e, porque tratar-se de vestígios, nunca é completamente representacional. Este vestígio é uma marca, uma cicatriz na matéria. A escrita apresenta a língua como uma série de marcas físicas que operam na ausência do autor e devem ser legíveis mesmo na ausência de um leitor. Traços que unem espaço e duração, e questionam o movimento teleológico do querer-dizer. O sentido de um escrito não se reduz ao que quer dizer o autor, nem ao que quer entender o leitor. A significação da escrita ocorre nesse espaço entre um e outro.

 

 

Em meio à massa desventurada de cento e quarenta e quatro mil Häftlinge (inimigos) que passaram pelo campo, onde quase todos tinham a mesma aparência, o mesmo cheiro, sentiam a mesma fome e desespero, Mina Pachtertentou preservar a sua identidade escrevendo e coletando receitas de cozinha. Ela deixou de ser simplesmente um número e com a publicação de seu trabalho ganhou status de protagonista da história. Gagnebin (2006, p. 47) postula que a história atual, tal qual asmemórias de Mina Pachter, precisa “transmitir o inenarrável, manter viva a memória dos sem-nome, ser fiel aos mortos que não puderam ser enterrados”.

 

 

REFERÊNCIAS

 

 

BERENBAUM, Michel. (1996) Foreword, org. SILVA, Cara de. In Memory’s Kitchen: a Legacy from the Woman of Terezín. Lanham: Rownan & Littlefield Publishers. p. 6-12.

FRANKL, Viktor Emil (2008). Em busca de sentido: um psicólogo no campo de concentração. 25ª ed. Trad. de Walter O. Schlupp e Carlos C. Aveline. São Leopoldo: Editora Sinodal.

GAGNEBIN, Jeanne Marie (2006). Lembrar, escrever, esquecer. São Paulo: Editora 34.

GOLDENBERG, Myrna (2003). Food Talk: Gendered Responses to Hunger in Concentration Camps. In: BAER, Elizabeth R. e GOLDENBERG, Myrna (Org.). Experience and expression: Women, the Nazis and the Holocaust. Michigan: Wayne State University Press. p. 161-179.

HIRSCH, Marianne; SPITZER, Leo (2007). Testimonial objects: memory, gender and trasmission. In: BARONIAN, Marie-Aucle; BESSER, Stephan; JAWSEN, Yolande (Org.) Diaspora and memory: figures of displacement in contemporary literature, arts and politics. Amsterdam-New York: Editions Rodopi, p. 137-164.

 

KREMER, Lillian (1999). Women’s Holocaust writing: memory and imagination. Lincoln: University of Nebraska Press.

LEVI, Primo (1988). É isto um homem? Tradução de Luigi Del Re. 2ª ed. Rio de Janeiro: Rocco.

LEVI, Primo (1990). Os afogados e os sobreviventes. Trad. de Luiz Sérgio Henriques. São Paulo: Paz e Terra.

LINDE, Charlotte (1993). Life Stories: the Creation of Coherence. Oxford: Oxford University Press.

LUCAMANTE, Stefania. Non soltanto memoria: la scrittura delle donne della Shoah dal dopoguerra ai giorni nostri. In: SPEELMANN, Reinier et alii (Org.) Scrittori italiani di origine ebrea ieri e oggi: un approccio generazionale. Italianistica Ultraiectina 2. Utrecht: Igitur, Utrecht Publishing & Archiving Services, 2007, p. 77-95.

ROSS, Marc Howard (2002). The Political Psychology of Competing Narratives: September 11 and beyond. In: CALHOUN, C.; PRICE, P; TIMMER, A. Understanding September 11. New York: New Press. p. 303-320.

RÜSEN, Jörn (2009). Como dar sentido ao passado: questões relevantes da meta-história. História da historiografia. Ouro Preto, nº 2, março, p. 163-209.

SILVA, Cara de (Org.) (1996). In memory’s kitchen: a legacy from the woman of Terezín. Lanham: Rownan& Littlefield Publishers.

 



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