NOITE NA TAVERNA
Bebamos! nem um canto de saudade!
Morrem na embriaguez da vida as dores!
Que importam sonhos, ilusões desfeitas?
Fenecem como as flores!
José Bonifácio
– Silêncio,
moços! acabai com essas cantilenas horríveis! Não vedes que as mulheres dormem
ébrias, macilentas como defuntos? Não sentis que o sono da embriaguez pesa
negro naquelas pálpebras onde a beleza sigilou os olhares da volúpia?
– Cala-te,
Johann! enquanto as mulheres dormem e Arnold – o louro, cambaleia e adormece murmurando as canções de orgia de Tieck,
que música mais bela que o alarido da saturnal? Quando as nuvens correm negras
no céu como um bando de corvos errantes, e a lua desmaia como a luz de uma
lampada sobre a alvura de uma beleza que dorme, que melhor noite que a passada
ao reflexo das taças?
– És um louco,
Bertram! não é a lua que lá vai macilenta: e o relampago que passa e ri de
escárnio as agonias do povo que morre... aos soluços que seguem as mortalhas do
cólera!
– O cólera! e
que importa? Não há por ora vida bastante nas veias do homem? Não borbulha a
febre ainda as ondas do vinho? não reluz em todo o seu fogo a lampada da vida
na lanterna do cranio?
– Vinho!
vinho! Não vês que as taças estão vazias bebemos o vácuo, como um sonambulo?
– É o
Fichtismo na embriaguez! Espiritualista, bebe a imaterialidade da embriaguez!
– Oh! vazio!
meu copo esta vazio! Olá taverneira, não vês que as garrafas estão esgotadas?
Não sabes, desgraçada, que os lábios da garrafa são como os da mulher: só valem
beijos enquanto o fogo do vinho ou o fogo do amor os borrifa de lava?
– O vinho
acabou-se nos copos, Bertram, mas o fumo ondula ainda nos cachimbos! Após os
vapores do vinho os vapores da fumaça! Senhores, em nome de todas as nossas
reminiscências, de todos os nossos sonhos que mentiram, de todas as nossas
esperanças que desbotaram, uma última saúde! A taverneira ai nos trouxe mais
vinho: uma saúde! O fumo e a imagem do idealismo, e o transunto de tudo quanto
ha mais vaporoso naquele espiritualismo que nos fala da imortalidade da alma! e
pois, ao fumo das Antilhas, a imortalidade da alma!
– Bravo!
bravo!
Um urrah!
tríplice respondeu ao moço meio ébrio.
Um conviva se
ergueu entre a vozeria: contrastavam-lhe com as faces de moço as rugas da fronte
e a rouxidão dos lábios convulsos. Por entre os cabelos prateava-se-lhe o
reflexo das luzes do festim. Falou:
– Calai-vos, malditos! a imortalidade da alma!?
pobres doidos! e porque a alma é bela, por que não concebeis que esse ideal
posse tornar-se em lodo e podridão, como as faces belas da virgem morta, não
podeis crer que ele morra? Doidos! nunca velada levastes porventura uma noite a
cabeceira de um cadáver? E então não duvidastes que ele não era morto, que
aquele peito e aquela fronte iam palpitar de novo, aquelas pálpebras iam
abrir-se, que era apenas o ópio do sono que emudecia aquele homem? Imortalidade
da alma! e por que também não sonhar a das flores, a das brisas, a dos
perfumes? Oh! não mil vezes! a alma não é como a lua, sempre moça, nua e bela
em sue virgindade eterna! a vida não e mais que a reunião ao acaso das
moléculas atraídas: o que era um corpo de mulher vai porventura transformar-se
num cipreste ou numa nuvem de miasmas; o que era um corpo do verme vai
alvejar-se no cálice da flor ou na fronte da criança mais loira e bela. Como
Schiller o disse, o átomo da inteligência de Platão foi talvez para o coração de um ser impuro. Por isso eu vo-lo
direi: se entendeis a imortalidade pela metempsicose, bem! talvez eu a creia um
pouco; pelo platonismo, não!
– Solfieri! és
um insensato! o materialismo é árido como o deserto, é escuro como um túmulo! A
nós frontes queimadas pelo mormaço do sol da vida, a nós sobre cuja cabeça a
velhice regelou os cabelos, essas crenças frias? A nós os sonhos do espiritualismo.
– Archibald!
deveras, que é um sonho tudo isso! No outro tempo o sonho da minha cabeceira
era o espírito puro ajoelhado no seu manto argênteo, num oceano de aromas e
luzes! Ilusões! a realidade é a febre do libertino, a taça na mão, a lascívia nos
lábios, e a mulher seminua, trêmula e palpitante sobre os joelhos.
– Blasfêmia!
e não crês em mais nada? teu ceticismo derribou todas as estátuas do teu
templo, mesmo a de Deus?
– Deus! crer
em Deus!?... sim! como o grito íntimo o revela nas horas frias do medo, nas
horas em que se tirita de susto e que a morte parece roçar úmida por nós! Na
jangada do náufrago, no cadafalso, no deserto, sempre banhado do suor frio do
terror e que vem a crença em Deus! Crer nele como a utopia do bem absoluto, o
sol da luz e do amor, muito bem! Mas, se entendeis por ele os ídolos que os
homens ergueram banhados de sangue e o fanatismo beija em sua inanimação de
mármore de há cinco mil anos... não creio nele!
– E os livros
santos?
– Miséria!
quando me vierdes falar em poesia eu vos direi: aí há folhas inspiradas pela
natureza ardente daquela terra como nem Homero as sonhou, como a humanidade
inteira ajoelhada sobre os túmulos do passado nunca mais lembrará! Mas, quando
me falarem em verdades religiosas, em visões santas, nos desvarios daquele povo
estúpido, eu vos direi: miséria! miséria! três vezes miséria! Tudo aquilo é
falso: mentiram como as miragens do deserto!
– Estás
ébrio, Johann! O ateísmo é a insania como o idealismo místico de Schelling, o
panteísmo de Spinoza – o judeu,
e o esoterismo crente de Malebranche nos seus sonhos da visão em Deus. A
verdadeira filosofia e o epicurismo. Hume bem o disse: o fim do homem é o
prazer.
Daí vede que
é o elemento sensível quem domina. E pois ergamo-nos, nos que amanhecemos nas
noites desbotadas de estudo insano, e vimos que a ciência é falsa e esquiva,
que ela mente e embriaga como um beijo de mulher.
– Bem! muito
bem! é um toast de respeito!
– Quero que
todos se levantem, e com a cabeça descoberta digam-no: Ao Deus Pã da natureza,
aquele que a antigüidade chamou Baco o filho das coxas de um deus e do amor de
uma mulher, e que nos chamamos melhor pelo seu nome – o vinho!...
– Ao vinho!
ao vinho!
Os copos
caíram vazios na mesa.
– Agora
ouvi-me, senhores! entre uma saúde e uma baforada de fumaça, quando as cabeças
queimam e os cotovelos se estendem na toalha molhada de vinho, como os braços
do carniceiro no cepo gotejante, o que nos cabe é uma historia sanguinolenta,
um daqueles contos fantásticos como Hoffmann os delirava ao clarão dourado do
Johannisberg!
– Uma
história medonha, não, Archibald? falou um moço pálido que a esse reclamo
erguera a cabeça amarelenta. Pois bem, dir-vos-ei uma história. Mas quanto a
essa, podeis tremer a gosto, podeis suar a frio da fronte grossas bagas de terror.
Não é um conto, é uma lembrança do passado.
– Solfieri!
Solfieri! aí vens com teus sonhos!
– Conta!
Solfieri
falou: os mais fizeram silêncio.
II
...Yet one kiss on
your pale clay
And those lips once
so warm — my heart! my heart!
Cain. Byron
– Sabei-lo. Roma é a cidade do fanatismo e da perdição: na alcova do sacerdote
dorme a gosto a amásia, no leito da vendida se pendura o Crucifixo lívido. É um
requintar de gozo blasfemo que mescla o sacrilégio à convulsão do amor, o beijo
lascivo à embriaguez da crença!
– Era em
Roma. Uma noite a lua ia bela como vai ela no verão pôr aquele céu morno, o
fresco das águas se exalava como um suspiro do leito do Tibre. A noite ia bela.
Eu passeava a sós pela ponte de... As luzes se apagaram uma por uma nos
palácios, as ruas se faziam ermas, e a lua de sonolenta se escondia no leito de
nuvens. Uma sombra de mulher apareceu numa janela solitária e escura. Era uma
forma branca. – A face daquela
mulher era como a de uma estátua pálida à lua. Pelas faces dela, como gotas de
uma taça caída, rolavam fios de lágrimas.
Eu me
encostei a aresta de um palácio. A visão desapareceu no escuro da janela... e
daí um canto se derramava. Não era só uma voz melodiosa: havia naquele cantar
um como choro de frenesi, um como gemer de insania: aquela voz era sombria como
a do vento a noite nos cemitérios cantando a nênia das flores murchas da morte.
Depois o
canto calou-se. A mulher apareceu na porta. Parecia espreitar se havia alguém
nas ruas. Não viu a ninguém: saiu. Eu segui-a.
A noite ia
cada vez mais alta: a lua sumira-se no céu, e a chuva caía as gotas pesadas:
apenas eu sentia nas faces caírem-me grossas lágrimas de água, como sobre um
túmulo prantos de órfão.
Andamos longo
tempo pelo labirinto das ruas: enfim ela parou: estávamos num campo.
Aqui, ali,
além eram cruzes que se erguiam de entre o ervaçal. Ela ajoelhou-se. Parecia
soluçar: em torno dela passavam as aves da noite.
Não sei se
adormeci: sei apenas que quando amanheceu achei-me a sós no cemitério. Contudo
a criatura pálida não fora uma ilusão: as urzes, as cicutas do campo-santo
estavam quebradas junto a uma cruz.
O frio da
noite, aquele sono dormido à chuva, causaram-me uma febre. No meu delírio
passava e repassava aquela brancura de mulher, gemiam aqueles soluços e todo
aquele devaneio se perdia num canto suavíssimo...
Um ano depois
voltei a Roma. Nos beijos das mulheres nada me saciava: no sono da saciedade me
vinha aquela visão...
Uma noite, e
após uma orgia, eu deixara dormida no leito dela a condessa Bárbara. Dei um
último olhar àquela forma nua e adormecida com a febre nas faces e a lascívia
nos lábios úmidos, gemendo ainda nos sonhos como na agonia voluptuosa do amor.
Saí. Não sei se a noite era límpida ou negra; sei apenas que a cabeça me
escaldava de embriaguez. As taças tinham ficado vazias na mesa: nos lábios
daquela criatura eu bebera até a última gota o vinho do deleite...
Quando dei
acordo de mim estava num lugar escuro: as estrelas passavam seus raios brancos
entre as vidraças de um templo. As luzes de quatro círios batiam num caixão
entreaberto. Abri-o: era o de uma moça. Aquele branco da mortalha, as grinaldas
da morte na fronte dela, naquela tez lívida e embaçada, o vidrento dos olhos
mal apertados... Era uma defunta! ... e aqueles traços todos me lembraram uma
idéia perdida... – Era o anjo do
cemitério? Cerrei as portas da igreja, que, ignoro por que, eu achara abertas.
Tomei o cadáver nos meus braços para fora do caixão. Pesava como chumbo...
Sabeis a
historia de Maria Stuart degolada e o algoz, “do cadáver sem cabeça e o homem
sem coração”, como a conta Brantôme? – Foi uma idéia singular a que eu tive. Tomei-a no colo. Preguei-lhe mil
beijos nos lábios. Ela era bela assim: rasguei-lhe o sudário, despi-lhe o véu e
a capela como o noivo as despe a noiva. Era mesmo uma estátua: tão branca era
ela. A luz dos tocheiros dava-lhe aquela palidez de ambar que lustra os
mármores antigos. O gozo foi fervoroso – cevei em perdição aquela vigília. A madrugada passava já frouxa nas
janelas. Aquele calor de meu peito, à febre de meus lábios, à convulsão de meu
amor, a donzela pálida parecia reanimar-se. Súbito abriu os olhos empanados.
Luz sombria alumiou-os como a de uma estrela entre névoa, apertou-me em seus
braços, um suspiro ondeou-lhe nos beiços azulados... Não era já a morte: era um
desmaio. No aperto daquele abraço havia contudo alguma coisa de horrível. O
leito de lájea onde eu passara uma hora de embriaguez me resfriava. Pude a
custo soltar-me daquele aperto do peito dela... Nesse instante ela acordou…
Nunca ouvistes
falar da catalepsia? É um pesadelo horrível aquele que gira ao acordado que
emparedam num sepulcro; sonho gelado em que sentem-se os membros tolhidos, e as
faces banhadas de lágrimas alheias sem poder revelar a vida!
A moça
revivia a pouco e pouco. Ao acordar desmaiara. Embucei-me na capa e tomei-a nos
braços coberta com seu sudário como uma criança. Ao aproximar-me da porta topei
num corpo; abaixei-me, olhei: era algum coveiro do cemitério da igreja que aí
dormira de ébrio, esquecido de fechar a porta.
Saí. Ao
passar a praça encontrei uma patrulha.
– Que levas
aí?
A noite era
muito alta: talvez me cressem um ladrão.
– É minha
mulher que vai desmaiada...
– Uma
mulher!... Mas essa roupa branca e longa? Serás acaso roubador de cadáveres?
Um guarda aproximou-se.
Tocou-lhe a fronte: era fria.
– É uma
defunta...
Cheguei meus
lábios aos dela. Senti um bafejo morno. – Era a vida ainda.
– Vede, disse
eu.
O guarda
chegou-lhe os lábios: os beiços ásperos roçaram pelos da moça. Se eu sentisse o
estalar de um beijo... o punhal já estava nu em minhas mãos frias...
– Boa noite,
moço: podes seguir, disse ele.
Caminhei. – Estava cansado. Custava a carregar o meu
fardo; e eu sentia que a moça ia despertar. Temeroso de que ouvissem-na gritar
e acudissem, corri com mais esforço.
Quando eu
passei a porta ela acordou. O primeiro som que lhe saiu da boca foi um grito de
medo...
Mal eu
fechara a porta, bateram nela. Era um bando de libertinos meus companheiros que
voltavam da orgia. Reclamaram que abrisse.
Fechei a moça
no meu quarto, e abri.
Meia hora
depois eu os deixava na sala bebendo ainda. A turvação da embriaguez fez que
não notassem minha ausência.
Quando entrei
no quarto da moça vi-a erguida. Ria de um rir convulso como a insania, e frio
como a folha de uma espada. Trespassava de dor o ouvi-la.
Dois dias e
duas noites levou ela de febre assim... Não houve como sanar-lhe aquele
delírio, nem o rir do frenesi. Morreu depois de duas noites e dois dias de
delírio.
A noite saí;
fui ter com um estatuário que trabalhava perfeitamente em cera, e paguei-lhe
uma estátua dessa virgem.
Quando o
escultor saiu, levantei os tijolos de mármore do meu quarto, e com as mãos
cavei aí um túmulo. Tomei-a então pela última vez nos braços, apertei-a a meu
peito muda e fria, beijei-a e cobri-a adormecida do sono eterno com o lençol de
seu leito. Fechei-a no seu túmulo e estendi meu leito sobre ele.
Um ano – noite a noite – dormi sobre as lajes que a cobriam. Um dia o
estatuário me trouxe a sua obra. Paguei-lha e paguei o segredo...
– Não te lembras,
Bertram, de uma forma branca de mulher que entreviste pelo véu do meu
cortinado? Não te lembras que eu te respondi que era uma virgem que dormia?
– E quem era
essa mulher, Solfieri?
– Quem era?
seu nome?
– Quem se
importa com uma palavra quando sente que o vinho lhe queima assaz os lábios?
quem pergunta o nome da prostituta com quem dormia e que sentiu morrer a seus
beijos, quando nem há dele mister por escrever-lho na lousa?
Solfieri encheu uma taça e bebeu-a. Ia erguer-se da mesa quando um dos convivas tomou-o pelo braço.
– Solfieri,
não é um conto isso tudo?
– Pelo
inferno que não! por meu pai que era conde e bandido, por minha mãe que era a
bela Messalina das ruas, pela perdição que não! Desde que eu próprio calquei
aquela mulher com meus pés na sua cova de terra, eu vô-lo juro – guardei-lhe como amuleto a capela de
defunta. Hei-la!
Abriu a
camisa, e viram-lhe ao pescoço uma grinalda de flores mirradas.
– Vede-la
murcha e seca como o cranio dela!
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Fonte: AZEVEDO, Álvares de. Noite na taverna. In: Noite na Taverna / Macário. Rio de Janeiro: Editora Três, 1973. p.