ESCRITORES



Os samoiedas





Autor: Lima Barreto
Título: Os samoiedas
Idiomas: port
Tradutor: –
Data: 03/06/2006

 

CAPÍTULO ESPECIAL

 

Os samoiedas

 

Vazios estais de Cristo, v?s que vos justificais

pela lei; da gra?a tendes ca?do.

 

S?o Paulo, aos G?latas

 

 

Queria evitar, mas me vejo obrigado a falar na literatura da Bruzundanga. E um cap?tulo dos mais delicados, para tratar do qual n?o me sinto completamente habilitado. Dissertar sobre uma literatura estrangeira sup?e, entre muitas, o conhecimento de duas cousas primordiais : id?ias gerais sobre literatura e compreens?o f?cil do idioma desse povo estrangeiro. Eu cheguei a entender perfeitamente a l?ngua da Bruzundanga, isto ?, a l?ngua falada pela gente instru?da e a escrita por muitos escritores que julguei excelentes; mas aquela em que escreviam os literatos importantes, solenes, respeitados, nunca consegui entender, porque redigem eles as suas obras, ou antes, os seus livros, em outra muito diferente da usual, outra essa que consideram como sendo a verdadeira, a l?dima, justificando isso por ter fei??o antiga de dous s?culos ou tr?s. Quanto mais incompreens?vel ? ela, mais admirado ? o escritor que a escreve, por todos que n?o lhe entenderam o escrito.

Lembrei?me, por?m, que as minhas noticias daquela distante rep?blica n?o seriam completas, se n?o desse algumas informa??es sobre as suas letras; e resolvi vencer a hesita??o imediatamente, como agora ven?o.

A Bruzundanga n?o podia deixar de t??las, pois todo o povo, tribo, cl?, todo o agregado humano, enfim, tem a sua literatura e o estudo dessas literaturas muito tem contribu?do para n?s nos conhecermos a n?s mesmos, melhor nos compreendermos e mais perfeitamente nos ligarmos em sociedade, em humanidade, afinal.

Seria uma falha minha nada dizer eu sobre as belas?letras da Bruzundanga que as tem como todos os pa?ses, a n?o ser o nosso que, conforme sentenciou a Gazeta de Not?cias, n?o merece t??las, pois o literato n?o tem fun??o social na nossa sociedade, provocando tal opini?o o protesto de um soci?logo inesperado. Devem estar lembrados deste epis?dio ? creio eu. Continuemos, por?m, na Bruzundanga.

Nela, h? a literatura oral e popular de c?nticos, hinos, modinhas, f?bulas, etc; mas todo esse folclore n?o tem sido coligido e escrito, de modo que, dele, pouco lhes posso comunicar.

Por?m, um canto popular que me foi narrado com todo o sabor da ingenuidade e dos modismos peculiares ao povo, posso reproduzir aqui, embora a reprodu??o n?o guarde mais aquele encanto de frase simples e imagens familiares das an?nimas narra??es das coletividades humanas.

Na vers?o dos populares da curiosa rep?blica, o conto se intitula ?o General e o diabo? ? havendo uma variante sob a alcunha de ?O padre e o diabo?. Como n?o tivesse de cor nem as palavras da vers?o mais geral, nem as da variante, aproveitei o tema, alguma cousa do corpo da “hist?ria” e narro?a aqui, certamente muito desfigurada, sob a crisma de:

 

SUA EXCEL?NCIA

 

O ministro saiu do baile da embaixada, embarcando logo no carro. Desde duas horas estivera a sonhar com aquele momento, Ansiava estar s?, s? com o seu pensamento, pesando bem as palavras que proferira, relembrando as atitudes e os pasmos olhares dos circunstantes. Por isso entrara no coup? depressa, s?frego, sem mesmo reparar se, de fato, era o seu. Vinha cegamente, tangido por sentimentos complexos: orgulho, for?a, valor, vaidade.

Todo ele era um po?o de certeza. Estava certo do seu valor intr?nseco; estava certo das suas qualidades extraordin?rias e excepcionais. A respeitosa atitude de todos e a defer?ncia universal que o cercava eram nada mais, nada menos que o sinal da convic??o geral de ser ele o resumo do pa?s, a encarna??o dos seus anseios. Nele viviam os doridos queixumes dos humildes e os espetaculosos desejos dos ricos. As obscuras determina??es das coisas, acertadamente, haviam?no erguido at? ali, e mais alto lev??lo?iam, visto que s? ele, ele s? e unicamente, seria capaz de fazer o pa?s chegar aos destinos que os antecedentes dele impunham…

E ele sorriu, quando essa frase lhe passou pelos olhos, totalmente escrita em caracteres de imprensa, em um livro ou em um jornal qualquer, Lembrou?se do seu discurso de ainda agora: ?Na vida das sociedades, como na dos indiv?duos?…

Que maravilha! Tinha algo de filos?fico, de transcendente. E o sucesso daquele trecho? Recordou?se dele por inteiro:

 

?Arist?teles, Bacon, Descartes, Spinosa e Spencer, como S?lon, Justiniano, Portalis e Bhering, todos os fil?sofos, todos os juristas afirmam que as leis devem se basear nos costumes?…

 

O olhar, muito brilhante, cheio de admira??o ? o olhar do leader da oposi??o ? foi o mais seguro penhor do efeito da frase…

E quando terminou! Oh!

 

?Senhor, o nosso tempo ? de grandes reformas; estejamos com ele: reformemos!?

 

A cerim?nia mal conteve, nos circunstantes, o entusiasmo com que esse final foi recebido.

O audit?rio delirou. As palmas estrugiram; e, dentro do grande sal?o iluminado, pareceu?lhe que recebia as palmas da Terra toda.

O carro continuava a voar. As luzes da rua extensa apareciam como um s? tra?o de fogo; depois sumiram?se.

O ve?culo agora corria vertiginosamente dentro de uma n?voa fosforescente. Era em v?o que seus augustos olhos se abriam desmedidamente; n?o havia contornos, formas, onde eles pousassem.

Consultou o rel?gio. Estava parado? N?o; mas marcava a mesma hora, o mesmo minuto da sua sa?da da festa.

? Cocheiro, onde vamos?

Quis arriar as vidra?as. N?o p?de; queimavam.

Redobrou os esfor?os, conseguindo arriar as da frente.

Gritou ao cocheiro:

? Onde vamos? Miser?vel, onde me levas?

Apesar de ter o carro algumas vidra?as arriadas, no seu interior fazia um calor de forja. Quando lhe veio esta imagem, apalpou bem, no peito, as gr??cruzes magn?ficas. Gra?as a Deus, ainda n?o se haviam derretido. O Le?o da Birm?nia, o Drag?o da China, o Ling?o da ?ndia estavam ali, entre todas as outras, intactas.

? Cocheiro, onde me levas?

N?o era o mesmo cocheiro, n?o era o seu. Aquele homem de nariz adunco, queixo longo com uma barbicha, n?o era o seu fiel Manuel!

? Canalha, p?ra, p?ra, sen?o caro me pagar?s!

O carro voava e o ministro continuava a vociferar:

? Miser?vel! Traidor! P?ra! P?ra!

Em uma dessas vezes voltou?se o cocheiro; mas a escurid?o que se ia, aos poucos fazendo quase perfeita, s? lhe permitiu ver os olhos do guia da carruagem, a brilhar de um brilho brejeiro, met?lico e cortante. Pareceu?lhe que estava a rir?se.

O calor aumentava. Pelos cantos o carro chispava. N?o podendo suportar o calor, despiu?se. Tirou a agaloada casaca, depois o espadim, o colete, as cal?as…

Sufocado, estonteado, parecia?lhe que continuava com vida, mas que suas pernas e seus bra?os, seu tronco e sua cabe?a dan?avam, separados.

Desmaiou; e, ao recuperar os sentidos, viu?se vestido com uma reles libr? e uma grotesca cartola, cochilando ? porta do pal?cio em que estivera ainda h? pouco e de onde, sa?ra triunfalmente, n?o havia minutos.

Nas proximidades um coup? estacionava.

Quis verificar bem as coisas circundantes; mas n?o houve tempo.

Pelas escadas de m?rmore, gravemente, solenemente, um homem (pareceu?lhe isso) descia os degraus, envolvido no fard?o que despira, tendo no peito as mesmas magn?ficas gr??cruzes…

Logo que o personagem pisou na soleira, de um s? ?mpeto aproximou?se e, abjectamente, como se at? ali n?o tivesse feito outra coisa, indagou:

? Vossa Excel?ncia quer o carro?

Como esta h?, na Bruzundanga, muitas outras ?hist?rias? que correm de boca em boca e se transmitem de pai a filho.

Os literatos, propriamente, aqueles de bons vestu?rios e ademanes de encomenda, n?o lhes d?o import?ncia, embora de todo n?o desprezem a literatura oral. Ao contr?rio: todos eles quase n?o t?m propriamente obras escritas; a bagagem deles consta de confer?ncias, poesias recitadas nas salas, m?ximas pronunciadas na intimidade de amigos, discursos em batizados ou casamentos, em banquetes de figur?es ou em cerim?nias escolares, cifrando?se, as mais das vezes, a sua obra escrita em uma plaquette de fantasia de menino, colet?neas de ligeiros artigos de jornal ou num ma?udo comp?ndio de aula, vendidos, na nossa moeda, ? raz?o de quinze ou vinte mil?r?is o volume.

Estes tais s?o at? os escritores mais estimados e representativos, sobretudo quando empregam palavras obsoletas e s?o m?dicos com larga freguesia.

S?o eles l?, na Bruzundanga, conhecidos por “expoentes” e n?o h? mo?a rica que n?o queira casar com eles. Fazem?no depressa porque vivem pouco e menos que os seus livros afortunados. H? outros aspectos. Vamos ver um peculiar.

O que caracteriza a literatura daquele pa?s, ? uma curiosa escola liter?ria l? conhecida por “Escola Samoieda”.

N?o que todo o escritor bruzundanguense perten?a a semelhante rito liter?rio; os mais pretensiosas, por?m, e os que se t?m na conta de sacerdotes da Arte, se dizem graduados, diplomados nela. Digo “caracteriza”, porque, como os senhores ver?o no correr destas notas, n?o h? na maioria daquela gente uma profundeza de sentimento que a impila a ir ao ?mago das cousas que fingem amar, de decifr??las pelo amor sincero em que as t?m, de quer??las totalmente, de absorv??las. S? querem a apar?ncia das cousas. Quando (em geral) v?o estudar medicina, n?o ? a medicina que eles pretendem exercer, n?o ? curar, n?o ? ser um grande m?dico, ? ser doutor; quando se fazem oficiais do ex?rcito ou da marinha, n?o ? exercer as obriga??es atinentes a tais profiss?es, tanto assim que fogem de executar o que ? pr?prio a elas. V?o ser uma ou outra cousa, pelo brilho do uniforme. Assim tamb?m s?o os literatos que simulam s??lo para ter a gl?ria que as letras d?o, sem querer arcar com as dores, com o esfor?o excepcional, que elas exigem em troca. A gl?ria das letras s? as tem, quem a elas se d? inteiramente; nelas, como no amor, s? ? amado quem se esquece de si inteiramente e se entrega com f? cega. Os samoiedas, como vamos ver, contentam?se com as apar?ncias liter?rias e a banal simula??o de notoriedade, umas vezes por incapacidade de intelig?ncia, em outras por instru??o insuficiente ou viciada, quase sempre, por?m, por falta de verdadeiro talento po?tico, de sinceridade, e necessidade, portanto, de disfar?ar os defeitos com pelotiquices e passes de m?gica intelectuais.

Tendo convivido com alguns poetas samoiedas, pude estudar um tanto demoradamente os princ?pios te?ricos dessa escola e julgo estar habilitado a lhes dar um resumo de suas regras po?ticas e da sua est?tica.

Esses poetas da Bruzundanga, para dar uma origem altissonante e misteriosa ? sua escola, sustentam que ela nasceu do poema de um pr?ncipe samoieda, que viveu nas margens do ?rtico, nas proximidades do ?bi ou do Lena, na Sib?ria, um original que se alimentava da carne de mamutes conservados h? centenas de s?culos nas geleiras daquelas regi?es.

Essa esp?cie de alimenta??o do long?nquo pr?ncipe poeta dava aos olhos de todos eles, singular prest?gio aos seus versos e aos do fundador, embora pouco eles os conhecessem.

O pr?ncipe chamava?se Tuque?Tuque Fit?Fit e o seu poema Parik?ithont Vakochan, o que quer dizer no nosso cal?o. ? O sil?ncio das renas no campo de gelo.

Tuque?Tuque Fit?Fit era descrito pelos “samoiedas” da Bruzundanga como sendo uma beleza sem par e triunfal entre as deidades daquelas regi?es ?rticas.

Tudo isto era fant?stico, mas gra?as ? credulidade dos s?bios do pa?s, s? um ou outro desalmado tinha a coragem de contestar tais lendas.

Como todos n?s sabemos, a ra?a samoieda ? de estatura baixa, pouco menos que a dos lap?es, cabelos longos, duros e negros de jade, vivendo da carne de renas, de urso branco, quando a felicidade lhe fornece um. Tais homens andam em tren?s e fazem kayacs de peles de renas ou focas que eles empregam para capturar estas ?ltimas.

As suas concep??es religiosas s?o reduzidas, e os seus ?dolos, manipansos hediondos, tocos de pau besuntados de pinturas incoerentes. Vestem?se, os samoiedas, com peles de renas e outros animais hiperb?reos.

Entretanto, na opini?o dos poetas daquela rep?blica, que dizem seguir as teorias da literatura do Oceano ?rtico, n?o s?o os samoiedas assim, como o contam os mais autorizados viajantes; mas sim os mais belos esp?cimens da ra?a humana, possuindo uma civiliza??o digna da Gr?cia antiga.

Esta Gr?cia serve para tudo, especialmente na Bruzundanga…

Em geral, os vates bruzundanguenses adeptos da tal escola samoieda, como os senhores v?em, n?o primam pela ilustra??o; e, quando se conteste no tocante ? beleza de tais esquim?s, respondem categoricamente que a devem ter extraordin?ria, pois quanto mais fria ? a regi?o, mais belos s?o os tipos, mais altos, mais louros, e os samoiedas vivem em zona frigid?ssima.

N?o h? como discutir com eles, porque todos se guiam por id?ias feitas, receitas de julgamentos e nunca se aventuram a examinar por si qualquer quest?o, preferindo resolv??las por generaliza??es quase sempre recebidas de segunda ou terceira m?o, dilu?das e desfiguradas pelas sucessivas passagens de uma cabe?a para outra cabe?a.

Atribuem, sem base alguma, a esse tal Tuque?Tuque a funda??o da escola, apesar de nunca lhe terem lido as poesias nem a sua arte po?tica.

Sempre procurei saber por que se enfeitavam com esse ex?tico avoengo; as raz?es psicol?gicas, eu as encontrei na vaidade deles, no seu desejo de disfar?ar a sua in?pia po?tica com um padrinho esquisito e misterioso; mas o n?cleo da lenda, o gr?ozinho de areia em torno do qual se concretizava o mito ?rtico da escola, s? ultimamente pude encontrar.

Consegui descobrir entre os livros de um ingl?s meu amigo, Senhor Parsons, um volume do Senhor H. T. Switbilter, de Bristol (Inglaterra) ? Literature of the Stingy Peoples; e encontrei nele alguns versos samoiedas.

S?o an?nimos, mas o estudioso de Bristol declara que os recolheu da boca de um certo Tuck?Tuck, samoieda de na??o, que ele conheceu em 1867, quando foi encarregado pela Sociedade Paleontol?gica de Bristol de descobrir na embocadura dos grandes rios da Sib?ria monstros antediluvianos conservados no gelo, como escaparam de encontrar, quase intactos, o naturalista Pallas, nos fins do s?culo XVIII, e o viajante Adams, em 1806. A hist?ria do tal pr?ncipe Tuque?Tuque alimentar?se de carne de elefantes f?sseis, parece ter origem no fato bem sabido de terem os c?es devorado as carnes do mamute, cujo esqueleto Adams trouxe para o museu de S?o Petersburgo; e o pr?ncipe j? sabemos quem ?.

O Senhor Switbilter pouco acrescenta a algumas poesias que publica; e as que est?o no volume, traduzidas, s?o por demais monstruosas, sempre com um mesmo pensamento denunciando uma concep??o estreita da vida e do universo, muito explic?vel em b?rbaros glaciais.

O viajante ingl?s que conhece o samoieda, entretanto, diz aqui e ali, que elas s?o enf?ticas, sem quantidade de sentimento ou um acento musical agrad?vel e individual, descaindo quase sempre para a melop?ia ou o “tant?” ignaro, quando n?o alternam uma cousa e outra.

Mas n?o foi no livro do Senhor Switbilter que os augustos poetas da Bruzundanga foram encontrar as bases da sua escola. Eles n?o conhecem esse autor, pois nunca os vi cit??lo.

Eles, os “samoiedas” da Bruzundanga, encontraram o mestre nos escritos de um tal Chamat ou Chalat, um aventureiro franc?s que parece ter estado no pa?s daquela gente ?rtica, aprendido um pouco da l?ngua dela e se servido do livro do viajante ingl?s para defender uma po?tica que lhe viera ? cabe?a.

Esse Chamat ou Chalat, Flaubert, quando esteve no Egito, encontrou?o por l?, como m?dico do ex?rcito quedival; e ele se ocupava nos ?cios de sua prov?vel mendic?ncia em rimar uma trag?dia cl?ssica, Abdelc?der, em cinco atos, onde havia um c?lebre verso de que o grande romancista nunca se esqueceu. ?, o seguinte:

 

“C’est de Id par Allah! qu’ Abd?Allah s’en alla”.

 

O escul?pio do Cairo insistia muito nele e esfor?ava?se por demonstrar que, com semelhante “harmonia imitativa” como os antigos chamavam, obtinha traduzir, em verso, o sonido do galope de cavalo.

Havia mais belezas de igual quilate e outras originalidades. N?o obstante, quando apareceu, foi um louco sucesso de riso muito parecido com o do Tremor de terra de Lisboa, aquela c?lebre trag?dia do cabeleireiro Andr?, a quem Voltaire invejou e escreveu, entretanto, ao receber?lhe a obra, que continuasse a fazer sempre cabeleiras ? ?toujours des perruques?, Senhor Andr?.

Chalat afrontou a cr?tica e n?o podendo defender?se com os cl?ssicos franceses, apelou para a poesia em l?ngua samoieda, que conhecia um pouco por ter sido marinheiro de um baleeiro que naufragou nas proximidades da terra desses lap?es, entre os quais passou alguns meses. N?o desconhecia o livro do Senhor Switbilter, como tive ocasi?o de verificar nos fragmentos de um seu tratado po?tico, citado na tradu??o da obra de um seu disc?pulo basco por onde os “samoiedas” da Bruzundanga estudaram a escola que verdadeiramente Chalat ou Chamat fundara.

O seu desafio ? cr?tica, escudado na po?tica e est?tica das margens do glacial ?rtico, trouxe?lhe logo uma certa notoriedade e disc?pulos.

Estes vieram muito naturalmente, pois, dada a indig?ncia mental daquela esp?cie de esquim?s, a sua pobreza de impress?es e sensa??es, a sua incapacidade para as id?ias gerais, os hinos, os c?nticos, os rond?s dos mesmos, citados pelo medicastro, facilitavam muito o of?cio de fazer verso, desde que se tivesse paci?ncia; e a facilidade seduziu muitos dos seus patr?cios e determinou a admira??o dos bardos bruzundanguenses.

Os disc?pulos de Chalat ou Chamat tiraram da sua obra regras infal?veis para fazer poetas e poesias e um certo at? aplicou a teoria dos erros ? sua arte po?tica.

A instru??o do grosso dos menestr?is bruzundanguenses n?o permitia esse apelo ? matem?tica; e contentaram?se com umas regras simples que tinham na ponta da l?ngua, como as beatas as rezas que n?o lhes passam pelo cora??o, e outros desenvolvimentos te?ricos.

Era pois essa po?tica e essa est?tica que dominavam entre os literatos da Bruzundanga; era assim como o seu dogma de arte donde se originavam as suas f?rmulas lit?rgicas, o seu ritual, os seus esconjuros, enfim, o seu culto ? tal harmonia imitava, que tanto prezava Chalat.

Al?m desta deusa, havia outras divindades: o ritmo, o estilo, a nobreza das palavras, a aristocracia dos assuntos e dos personagens, quando faziam romances, contos ou drama e a medi??o dos versos que exigiam fosse feita como se se tratasse da base de uma triangula??o geod?sica. Ningu?m, no entanto, podia sacar?lhes da cabe?a uma concep??o geral e larga de arte ou obter o motivo deles conceberem separados da obra d’arte, esses acess?rios, transformando?os em puros manipansos, fetiches, isolando?os, fazendo?os perder a sua fun??o natural que sup?e sempre a obra liter?ria como fim.

? ela, a sua concep??o, a id?ia anterior que a domina e o seu destino necess?rio, que unicamente regulam o emprego deles, graduam o seu uso, a sua necessidade, e como que ela mesma os dita.

Todos os samoiedas limitavam?se quando se tratava dos tais assuntos, a falar muito de um modo confuso, esotericamente, em forma e fundo, com trejeitos de feiticeiros tribais.

N?o nego que houvesse entre eles alguns de valor, mas os preconceitos da escola os matavam.

A maioria ia para ela, porque era c?moda no fundo, pois n?o pedia se comunicasse qualquer emo??o, qualquer pensamento, qualquer importante revela??o de nossa alma que interessasse outras almas; que se dissesse usando dos processos art?sticos, novos ou velhos, de um pouco do universal que h? em n?s, alguma cousa do mist?rio do universo que o nosso esp?rito tivesse percebido e determinasse transmiti?la; enfim um julgamento, um conceito que pudesse influir no uso da vida, na nossa conduta e no problema do nosso destino, empregando os fatos simples, elementares, as imagens e os sons que por si s?s n?o exprimiriam a id?ia que se procura, mas que se acha com eles e se vai al?m por meio deles.

Isto de Hegel, de Taine, de Bruneti?re n?o era com os samoiedas; a quest?o deles era encontrar uma esp?cie de tabuada que lhes fizesse multiplicar a versalhada. Como as tais regras po?ticas do suposto pr?ncipe eram bem acess?veis ? sua paci?ncia de correcionais, adotaram?nas como artigos de f?, exageraram?nas at? ao absurdo.

Convinham elas por ir ao encontro da sua falta de uma larga intelig?ncia do mundo e do homem e facilitar?lhes uma cr?tica terra?a?terra de seminaristas mnem?nicos.

Para mais perfeito ensinamento dos leitores vou?lhes repetir um trecho de conversa que ouvi entre tr?s dos tais poetas da Bruzundanga, adeptos extremados da Escola Samoieda.

Quando cheguei, eles j? estavam sentados em torno da mesa do caf?.

Acabava eu de assistir uma aula de geologia na Faculdade de Ci?ncias do pa?s; o meu esp?rito vinha cheio de silhuetas de monstros de outras ?pocas geol?gicas. Eram ictiossauros, megat?rios, mamutes; era do sinistro pterod?ctilo que eu me lembrava; e n?o sei por que, quando deparei os tr?s poetas samoiedas, me deu vontade de entrar no botequim e tomar parte na conversa deles.

A Bruzundanga, como sabem, fica nas zonas tropical e subtropical, mas a est?tica da escola pedia que eles se vestissem com peles de urso, de renas, de martas e raposas ?rticas.

? um vestu?rio barato para os samoiedas aut?nticos, mas car?ssimo para os seus parentes liter?rios dos tr?picos.

Estes, por?m, crentes na efic?cia da vestimenta para a cria??o art?stica, morrem de fome, mas vestem?se ? moda da Sib?ria.

Estavam assim vestidos, naquela tarde, quente, ali naquele caf? da capital da Bruzundanga, tr?s dos seus novos e soberbos vates; estavam ali: Kotelniji, Wolpuk e Korspikt, o primeiro que tinha aplicado o vernier para “medir” versos.

Abanquei?me e pude perceber que acabavam de ouvir uma poesia do poeta Worspikt. Tratava de lua, de iceberg ?, descobri eu por uma e outra considera??o que fizeram.

Nenhum deles tinha visto um iceberg, mas gabavam os ouvintes a mo??o com que o outro traduzira em verso o espet?culo desse fen?meno das circunvizinhan?as dos p?los.

Num dado momento Kotelniji disse para Worspikt:

? Gostei muito desse teu verso: “h? luna loura linda leve, luna bela!”

O autor cumprimentado retrucou:

? N?o fiz mais do que imitar Tuque?Tuque, quando encontrou aquela soberba harmonia imitativa para dar id?ia do luar ? “Loga Kule Kulela logalam”, no seu poema “Kulelau”.

Wolpuk, por?m, objetou:

? Julgo a tua excelente, mas teria escolhido a vogal forte “u”, para basear a minha sugest?o imitativa do luar.

? Como? perguntou Worspikt.

Eu teria dito: Ui! “lua uma pula, tu moo! sulla nuit!”

? H? muitas l?nguas nela, objetou Kotelniji.

? Quantas mais melhor, para dar um car?ter universal ? poesia que deve sempre t??lo, como ensina o mestre, defendeu?se Wolpuk.

? Eu, por?m, aduziu Kotelniji, conquanto permita nos outros certas licen?as po?ticas, tenho por princ?pio obedecer ?s mais duras e r?gidas regras, n?o me afastar delas, encarcerar bem o meu pensamento. No meu caso, eu empregaria a vogal “a” para a harmonia em vista.

? Mas Tuque?Tuque… fez Worspikt.

? Ele empregou o “e” no tal verso que voc? citou, devido ? pronuncia??o que essa letra l? tem. ? um “e” molhado que evoca bem o luar deles, mas…

? E com “a”, como ?? indagou Wolpuk.

? O “a” ? o espanto; seria ai o espanto do homem dos. tr?picos, diante da estranheza do fen?meno ?rtico que ele n?o conhece e o assombra.

? Mas Kotelniji, eu visava o luar.

? Que tem isso? Na harmonia em “a” tamb?m entra esse fen?meno que ? o provocador do teu espanto, causado pela sua singularidade local, e pela hirta presen?a do iceberg, branco, fant?stico, que, a lua ilumina.

? Bem, perguntou o autor da poesia; como voc? faria, Kotelniji?

? Eu diria: “A lua acaba de calar a cara?a parva”.

? Mas n?o teria nada que ver com o tema da poesia, objetou Wolpuk.

? Como? O iceberg toma as formas mais variadas… Demais, h? sempre onde encaixar, seja qual for a poesia, uma feliz “imitativa”.

? Voc? tem raz?o, aplaudiu Wolpuk.

Worspikt concordou tamb?m e prometeu aproveitar a maravilhosa trouvaille do amigo de letras.

Kotelniji era considerado como um grande poeta “samoieda” e tinha mesmo estabelecido com assentimento de todos eles, as leis cient?ficas da escola perfeita, “a samoieda”, que ele definia como tendo por escopo n?o exprimir cousa alguma com rela??o ao assunto visado, ou dizer sobre ele, pomposamente, as mais vulgares banalidades.

Dentre as leia que estatu?a, eu me lembro de algumas. Ei?las:

1. Sendo a poesia o meio de transportar o nosso esp?rito do real para o ideal, deve ela ter como principal fun??o provocar o sono, estado sempre prof?cuo ao sonho.

2. A monotonia deve ser sempre procurada nas obras po?ticas; no mundo, tudo ? mon?tono (Tuque?Tuque).

3. A beleza de um trabalho, po?tico n?o deve ressaltar desse pr?prio trabalho, independente de qualquer explica??o; ela deve ser encontrada com as explica??es ou coment?rios fornecidos pelo autor ou por seus ?ntimos.

4. A composi??o de um poema deve sempre ser regulada pela harmonia imitativa em geral e seus derivados.

E muitas outras de que me esqueci, mas julgo que s? estas ilustram perfeitamente o absurdo da qualifica??o de leis cient?ficas da arte. Alhos com bugalhos!

Denuncia tal denomina??o, de modo cabal, a sua incapacidade para grupar id?ias, no??es e imagens. Que pensaria ele de ci?ncia? Qual era a sua concep??o de arte? Ser? poss?vel decifrar essa hist?ria de “leis cient?ficas da arte”? Qual!

Era assim o grande poeta samoieda.

Al?m de uma gramaticazinha que n?s aqui chamamos de tico?tico e da arte po?tica de Chalat aumentada e explicada com uma l?gica de gafanhotos, n?o possu?a ele um acervo de no??es gerais, de id?ias, de observa??es, de emo??es pr?prias e diretas do mundo, de julgamentos sobre as cousas, tudo isso que forma o fundo do artista e que, sob a a??o de uma concep??o geral, lhe permite fazer grupamentos ideais, originalmente, criar enfim.

A import?ncia do vate lhe vinha de redigir A Kananga, ?rg?o das casas de perfumarias, leques, luvas e receitas para doces, onde alguns rapazes, sob o seu olhar cioso, escreviam, para ganhar os cigarros, algumas coisas ligeiras.

O bardo samoieda tomava, entretanto, a cousa a s?rio, como se estivesse escrevendo para a Revue de Deux Mondes uma f?rmula de m?e?benta; e evitava o mais poss?vel que algu?m tomasse p? na pueril A Kananga. Era essa a sua m?xima preocupa??o de artista.

De todos os posti?os liter?rios, usava, e de todas as mesquinhezas da profiss?o, abusava.

Era este de fato um samoieda t?pico no intelectual, no moral, no f?sico. Tinha fama.

Poderia mais esclarecer semelhante escola, os seus processos, as suas regras, as suas supersti??es; mas n?o conv?m fazer semelhante cousa, porque bem podia acontecer que alguns dos meus compatriotas a quisessem seguir.

J? temos muitas bobagens e s?o bastantes.

Fico nisto.

I



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