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Resenha: "Os anos da juventude (um romance): Francisco Venceslau dos Santos – Luiza Lobo





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Francisco Venceslau dos Santos, Os anos da juventude (um romance). Rio de Janeiro, Caetés, 2014. 150 p. ISBN 978-85-86478-88-8.

Luiza Lobo

Rio, março de 2015

Francisco Venceslau, professor de Teoria Literária da Universidade do Estado do Rio de Janeiro, nascido em Francisco Santos, Piauí – cidade que tem quiçá nome de um antepassado seu – e emigrado na capital do seu estado e, desde 1963, no Rio de Janeiro – lançou-se, neste romance Os anos de juventude (2014), à difícil tarefa que é transformar em ficção o que é lembrança, memória, sentimento difuso, vida. A carpintaria exigida para esta metamorfose passa pela transformação de fragmentos, trapos, escórias, lembranças difusas, em matéria nobre, clara, inteligível, escorreita, e a transformação de imagens vagas, fotografias apagadas, em fotogramas gráficos, vivos e presentes. O método empregado por Venceslau foi recuperar a história, mais cultural que cronológica e política, no seu caso, através da descrição minuciosa da geografia das ruas, casas, praças, bares e lugares da cidade, não só pela pesquisa na Internet, que contém mapas, roteiros, informações das mais diversas, como pelo recurso à memória pessoal ligada à cultura dos anos 1960. Contudo, ele não se limitou a essas fontes, pois baseou-as num enredo, o que é fundamental para a criação da narrativa ficcional, e nele inseriu Augusto, o protagonista e seu alter-ego, que vive momentos de luta cotidiana ao lado de Linda, Janice, o poeta Caetano, entre outros amigos daquele tempo memorialístico.

No reino das recordações, a mais forte é a presença da música da década de 1960: “Ele voltou-se para os neons coloridos do bar (…) pediu uma Coca-Cola. Tocava Please, Please, dos Beatles” (2014, p. 78). Ou: “‘oi, Augusto, vamos dar as boas-vindas às ondas curtas que estão chegando’, e todos fizeram um círculo entre as prateleiras de discos e cantaram When I got Troubles (1959), de Bob Dylan” (2014, p. 16). Venceslau exagera aqui ao dar a data da música de Bob Dylan – e não o faz em relação à dos Beatles ou outras. Mas pontua o texto com detalhes de época, como beber uma Coca-Cola e as tais “ondas curtas” que devem se referir ao rádio – mas não sei como interferiram na vida dessas personagens que ouvem Bob Dylan.

Outra forte referência no texto é o cinema. Enquanto Linda, nessa mesma página 16, aparece “com o seu vestido rosa solto no corpo de vizinha da rua Simplício Mendes”, “Ali perto, na rua Barroso, aproximava-se, como uma atriz de nouvelle vague, a prima Silvana, olhos vivos, o vestido de organdi (…)” (2014, p. 16). Na página seguinte toca Celly Campello cantando “Tomo banho de lua” e um jingle anuncia as qualidades do Leite de Rosas (2014, p. 17).

Por vezes Francisco Venceslau exagera na descrição de detalhes sobre elementos que caracterizam a época, o cenário ou os acidentes geográficos, como por exemplo na pergunta da jovem Raquel, que enfatiza essa tendência: “‘Por que não ir tomar banho no rio Parnaíba?’” (2014, p. 10). Ora, o nome do rio deveria ser informado pelo narrador externo, uma vez que a pergunta assim elaborada pela personagem se torna muito artificial. Enfim, quantos rios passam por Teresina? O rádio que abre o romance é marca Sharp (2014, p. 9) – e assim por diante. Contudo, em contraste com a menção de praças, ruas, bibliotecas, colégio, não nos é informado o nome da cidade onde se encontram todos os logradouros: “Acertou com Joachim um encontro na varanda do café O Sol, na movimentada esquina da rua Paissandu com a praça Pedro II” (2014, p. 18). O leitor (brasileiro) imagina que se refira à capital, Teresina, mas isso só lhe é confirmado no início da parte II: “‘Alô, é o Augusto, acabei de chegar de Teresina, queria saber se posso dar um pulo aí’” (cap. 1, 2014, p. 47).

Minucioso ao extremo na referência e descrição das casas onde habitou, na localização das livrarias, pontos de encontro, ruas e bibliotecas, no entanto essa cuidadosa enumeração de pormenores e minúcias, típicas da preocupação didática do professor de literatura, muitas vezes quebra o encanto da memória, que transparece no esmerado manuseio da linguagem literária, como nesta passagem:

 

“De repente ele não teve dificuldade de acreditar que na década de 1960, no Brasil, havia pessoas que amavam outras pessoas, mas se aproximava a hora como num filme deslembrado. Desde o início, ele pressentiu o inesperado na montagem daquela cena, em 1964; uma tesoura invisível cortara a película, deixando-a esquecida na estante de uma cinemateca qualquer, e o desejo do eterno retorno do reencontro com o amor” (2014, p. 79).

 

São muitas as referências a obras literárias e políticas importantes, de autores como Blake, Donne, Allen Ginsberg, Drummond, Marx, Alencar, Eça, Lispector, ao lado de cantores de música popular da época e figuras importantes do cinema, entre atores e diretores: Fellini, Antonioni, Rita Hayward, James Dean, Nathalie Wood, Casablanca etc.

A Parte II se inicia na página 47, também por referências indiretas ao cenário da cidade do Rio de Janeiro: “No Flamengo, usou o telefone da União Nacional dos Estudantes, ligou para Janice, a garota que residia na praia de Botafogo” (Parte II, cap. 1, 2014, p. 47).

A memória urbana nem sempre é fácil de recuperar, como no trecho em que a personagem de Augusto, alter-ego do autor, “deu um salto de cabrito montês, na avenida Rio Branco, em frente ao palácio Monroe e ao obelisco” (2014, p. 49). Creio que os bondes entravam pela praça Mahatma Ghandi. Contornando o Passeio Público, e portanto um tanto distante do palácio Monroe e o obelisco, que lhe ficava em frente – demolido, hoje existe um grande chafariz, ali. Também passavam pela rua Santa Luzia, cortando do Passeio Público rumo à avenida Nilo Peçanha, mas não me consta que passassem pela praia diante da avenida Rio Branco, em frente ao obelisco e ao antigo palácio Monroe:

 

“O trajeto inicial foi da curva do antigo Teatro Lírico [no largo da Carioca], subindo a rampa da rua Senador Dantas, rua do Passeio, cais da Lapa, Russell e Flamengo e, entravam nas oficinas da Companhia na rua Dois de Dezembro”

(http://diariodorio.com/bondes-no-rio-de-janeiro-antigamente, acesso em 18 mar 2015).

 

Creio que nunca houve trilho de bonde na avenida Rio Branco, uma vez que ele vinha pela Glória, onde perto batia o mar, antes da criação do Aterro do Flamengo, entrava pelo Passeio Público, seguia pela calçada do cinema Odeon e quem sabe pela rua Senador Dantas para chegar à estação no Tabuleiro da Baiana, grande estação terminal, bem no centro do largo da Carioca, como explicita a citação acima. Na Avenida Rio Branco, via de luxo e grandes prédios da Paris tropical que foram postos abaixo, corriam os carros elegantes, lotações e ônibus, e até a década de 1950 existiam os canteiros centrais.

É certo, conforme lemos na página da Internet indicada acima, que os bondes existiram no Rio até setembro de 1962 e 21 de maio de 1963, com exceção de algumas linhas que duraram até 1965, 1966 e 1967, trafegando até o Alto da Boa Vista e Cascadura, sendo que a linha de Santa Teresa resistiu até 27 de agosto de 2011. O livro de Francisco Venceslau refere-se ao “fim de 1963”, algumas páginas pouco adiante (p. 56), o que está correto. Também a imagem de Augusto pulando do bonde e deixando de pagar a passagem refere-se a fato comum na época – e bastante revoltante para as mulheres, que não andavam nos estribos e não saltavam dos bondes, às vezes em movimento – sendo que o próprio trocador registrava muito menos passagens do que o dinheiro que efetivamente arrecadava nas viagens. (Roubar parece um hábito profundamente arraigado na sociedade brasileira, talvez porque aqui o capitalismo ainda seja uma forma política incipiente, “para inglês ver”).

Francisco cria uma elegia da cidade, que foi capital até 1960. Prende-se à vida e ao trabalho do herói, Augusto, cuja voz não se mistura ao do narrador externo da obra:

 

“Contornaram a orla do mar, chegaram a Copacabana, no posto seis, desceram quase em frente ao Forte, atravessaram a pista; sentaram em torno de uma mesa, na calçada, ao lado da saída da galeria Alaska, depois seguiriam para o Michel. (…)” (2014, p. 74).

 

 

Por vezes o narrador se torna interno, para melhor se voltar ao dia a dia das personagens, ao prazer, à sensualidade, música, trabalho, passeios e, sempre, descrever a maneira de vestir-se, em geral das mulheres:

 

“Agora é fevereiro, sente o cheiro de 68, nos bares, nas ruas, nas salas de aula, e ainda não é março, quando 68 chega realmente ao Brasil. Neste instante sagrado, veste uma calça Lee e uma camisa vermelha, e Linda, uma blusa branca, uma saia plissada azul-claro, andam sob o sopro do vento que vem do mar com suas ondas de sonho.

Na cantina do Ministério da Fazenda (até o AI-5 era território do subterrâneo insurgente), aqui a conversa gira em torno da estreia de Roda viva, Linda conta para todos: ‘Em Paris, os jovens querem ter o direito de livre circulação de moças e rapazes, nas residências estudantis’” (2014, Parte II, cap. 19, p. 121).

 

À ditadura, não faz muitas referências, senão vagas, como no trecho acima, a Marighela (não Maringhela, p. 105). Nos capítulos finais do livro, que se passa na Paris de maio de 1968, voltam as cenas da época da ditadura, no Rio: a morte do estudante Edson Luís, no Calabouço, restaurante estudantil localizado no final do Aterro do Flamengo, próximo à Faculdade de Filosofia, e de Carnaval. Continua a vida de sonhos relativos ao cinema e ao trabalho com editoras de Augusto; mas a ação interrompe-se abruptamente, entre a promessa de um road movie sobre uma viagem ao deserto da América – imagino que seja o de Atacama, no norte do Chile e parte da Argentina. O script é deixado em aberto, como a Obra aberta de Umberto Eco, que é de 1962, e bem ao gosto da década de 1960. O romance termina em suspense ou em suspenso, sem se encerrar o difícil salto entre a pesquisa histórica e a criação de uma história ficcional.

Creio que todos apreciarão esse voo pelo passado.

 



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