ESCRITORES



ONDE ESTIVESTES DE NOITE





Autor: Clarice Lispector
Título: Onde estivestes de noite, Ou étais-tu pendant la nuit ?
Idiomas: port, fra
Tradutor: Genevieve Leibrich et Nicole Biros(fra)
Data: 28/12/2004

ONDE ESTIVESTES DE NOITE

 

A procura de uma dignidade

 

Clarice Lispector

A Sra. Jorge B. Xavier simplesmente não saberia dizer como entrara. Por algum portão principal não fora. Pareceu-lhe vagamente sonhadora ter entrado por uma espécie de estreita abertura em meio a escombros de construção em obras, como se tivesse entrado de esguelha por um buraco feito só para ela. O fato é que quando viu estava dentro.
E quando viu, percebeu que estava muito, muito dentro. Andava interminavelmente pelos subterrâneos do Estádio do Maracanã ou pelo menos pareceram-lhe cavernas estreitas que davam para salas fechadas e quando se abriam as salas só havia uma janela dando para o estádio. Este, àquela hora torradamente deserto, reverberava ao extremo sol de um calor inusitado que estava acontecendo naquele dia de pleno inverno.
Então a senhora seguiu por um corredor sombrio. Este a levou igualmente a outro mais sombrio. Pareceu-lhe que o teto dos subterrâneos eram baixos.
E aí este corredor a levou a outro que a levou por sua vez a outro.
Dobrou o corredor deserto. E aí caiu em outra esquina. Que a levou a outro corredor que desembocou em outra esquina.
Então continuou automaticamente a entrar pelos corredores que sempre davam para outros corredores. Onde seria a sala da aula inaugural? Pois junto desta encontraria as pessoas com quem marcara encontro. A conferência era capaz de já ter começado. Ia perdê-la, ela que se forçava a não perder nada de cultural porque assim se mantinha jovem por dentro, já que até por fora ninguém adivinhava que tinha quase 70 anos, todos lhe davam uns 57.
Mas agora, perdida nos meandros internos e escuros do Maracanã, a senhora já arrastava pés pesados de velha.
Foi então que subitamente encontrou num corredor um homem surgido do nada e perguntou-lhe pela conferência que o senhor disse ignorar. Mas esse homem pediu informações a um segundo homem que também surgira repentinamente ao dobramento do corredor.
Então este segundo homem informou que havia visto perto da arquibancada da direita, em pleno estádio aberto, “duas damas e um cavalheiro, uma de vermelho”. A Sra. Xavier tinha dúvida de que essas pessoas fossem o grupo com quem devia se encontrar antes da conferência, e na verdade já perdera de vista o motivo pelo qual caminhava sem nunca mais parar. De qualquer modo seguiu o homem para o estádio, onde parou ofuscada no espaço oco de luz escancarada e mudez aberta, o estádio nu desventrado, sem bola nem futebol. Sobretudo sem multidão. Havia uma multidão que existia pelo vazio de sua ausência absoluta.
As duas damas e o cavalheiro já haviam sumido por algum corredor?
Então o homem disse com desafio exagerado: “Pois vou procurar para a senhora e vou encontrar de qualquer jeito essa gente, eles não podem ter sumido no ar.”
E de fato de muito longe ambos os viram. Mas um segundo depois tornaram a desaparecer. Parecia um jogo infantil onde gargalhadas amordaçadas riam da Sra. Jorge B. Xavier.
Então entrou com o homem por outros corredores. Aí este homem também sumiu numa esquina.
A senhora já desistira da conferência que no fundo pouco lhe importava. Contanto que saísse daquele emaranhado de caminhos sem fim. Não haveria porta de saída? Então sentiu como se estivesse dentro de um elevador enguiçado entre um andar e outro. Não haveria porta de saída?
Então eis que subitamente lembrou-se das palavras de informação da amiga pelo telefone: “fica mais ou menos perto do Estádio do Maracanã.” Diante dessa lembrança entendeu o seu engano de pessoa avoada e distraída que só ouvia as coisas pela metade, a outra ficando submersa. A Sra. Xavier era muito desatenta. Então, pois, não era no Maracanã o encontro, era apenas perto dali. No entanto o seu pequeno destino quisera-a perdida no labirinto.
Sim, então a luta recomeçou pior ainda: queria por força sair de lá e não sabia como nem por onde.
E de novo apareceu no corredor aquele homem que procurava as pessoas e que de novo lhe garantiu que as acharia porque não podiam ter sumido no ar. Ele disse assim mesmo:
— As pessoas não podem ter sumido no ar!
A senhora informou:
— Não precisa mais se incomodar de procurar, sim? Muito obrigada, sim? Porque o lugar onde preciso encontrar as pessoas não é no Maracanã.
O homem parou imediatamente de andar para olhá-la perplexo:
— Então que é que a senhora está fazendo aqui?
Ela quis explicar que sua vida era assim mesmo, mas nem sequer sabia o que queria dizer com o “assim mesmo” nem com “sua vida”, nada respondeu. O homem insistiu na pergunta, entre desconfiado e cauteloso: que é que ela está fazendo ali? Nada respondeu apenas em pensamento a senhora, já então prestes a cair de cansaço. Mas não lhe respondeu, deixou-o pensar que era louca. Além do mais ela nunca se explicava. Sabia que o homem a julgava louca – e quem dissera que não? pois não sentia aquela coisa que ela chamava de “aquilo” por vergonha? Se bem que soubesse ter a chamada saúde mental tão boa que só podia se comparar com sua saúde física. Saúde física já agora arrebentada pois rastejava os pés de muitos anos de caminho pelo labirinto. Sua via crucis. Estava vestida de lã muito grossa e sufocava suada ao inesperado calor de um auge de verão, esse dia de verão que era um aleijão do inverno. As pernas lhe doíam doíam ao peso da velha cruz. Já se resignara de algum modo a nunca mais sair do Maracanã e a morrer ali de coração exangue.
(…)

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Fonte: LISPECTOR, Clarice. Onde estivestes de noite. Rio de Janeiro, Nova Fronteira, 1980, p. 7-11.

OÙ ÉTAIS-TU PENDANT LA NUIT ?

 

A la recherche d’une dignité

 

Clarice Lispector

Mme Jorge B. Xavier aurait été bien incapable de dire comment elle était entrée. Certainement pas par le portail principal. Il lui semblait être passée comme en un rêve par une sorte d’ouverture exiguë parmi les gravats d’un chantier de construction, s’être comme faufilée de biais dans un trou creusé exprès pour elle. Le fait est qu’elle ne reprit ses esprits qu’une fois à l’intérieur.
Et quand elle eut repris ses esprits elle constata qu’elle se trouvait e effet très à l’intérieur. Elle avançait dans les interminables souterrains du stade de maracanã qui lui firent l’effet de cavernes étroites, débouchant sur des salles aveugles ou munies d’une unique fenêtre donant sur le stade. Celui-ci, torride et déset à cette heure, réverbérait sous un soleil intense une chaleur inhabituelle pour un jour de plein hiver.
La dame s’engagea alors dans un corridor sombre qui la conduisit vers un autre, plus sombre encore. Il lui sembla que ces galeries souterraines étaient bien basses de plafond.
Le nouveau corridor la mena à un autre et celui-ci à un autre.
Le corridor vide marqua un coude. Ce coude franchi, la dame tomba sur un autre tournant. Qui la mena vers un autre corridor qui présentait un nouveau coude.
Comme une automate la dame s’engageait docilement dans des corridors qui menaient inexorablement à d’autres corridors. Où se trouvait donc la salle où devait avoir lieu le cours inaugural ? C’était devant cette salle qu’elle devait retrouver les personnesavec qui elle avait rendez-vous. La conférence avait peut-être déjàcommencé. Elle allait la rater, elle qui se faisait un devoir de ne manquer aucun évément culturel, ainsi se maintenant-elle jeune, de l’intérieur, puisque à la voir, personne ne devinait qu’ele avait presque soixante-dix ans, on lui en donnait plutôt dans les cinquante-sept.
Mais maintenant qu’elle était égarée dans les méandres souterrains et obscurs du Maracanã, la dame traînait des pieds de plomb, des pieds de vieille.
Alors soudain, elle rencontra dans un corridor un homme surgi du néant qu’elle questionna sur la conférence. L’homme répondit qu’il n’était pas au courant mais il se renseigna auprès d’un deuxième homme, surgi subitement, lui aussi, au détour du corridor.
Ce deuxième individu déclara qu’il avait aperçu, au pied des gradins de droite, en plein stade, à ciel ouvert, «deux dames et un monsieur, une des dames étant vêtue de rouge». Mme Xavier se demandait s’il s’agissait bien des personnes qu’elle était censée rencontrer avant la conférence et, à vrai dire, elle ne savait plus trop pourquoi elle avait tant déambulé. Elle suivit pourtant l’homme jusqu’à la piste où elle s’arrêta net, éblouie par cet espace vide dans lequel déferlait la lumière muette, stade mis à nu, éventré, sans ballon ni match de football. Et surtout sans foule. La foule pourtant était présente, convoquée par le vide, surgie de cette absence absolue.
Où étaient donc les deux dames et le monsieur ? Avaient-ils disparu dans quelque corridor ?
Sur un ton de défi outrancier l’homme dit alors :
— Oh, mais je vais aller à la recherche de ces gens et je finirai bien par vous les dénicher, ils ne peuvent pas s’être évanouis dans les airs.
Et de fait tous deux les aperçurent dans le lointain. Une seconde plus tard le groupe avait de nouveau disparu, on eût dit un cache-cache enfantin, un fou rire muselé émanait d’ailleurs de Mme Jorge B. Xavier.
Laquelle s’engagea avec l’homme dans d’autres corridors. Et soudain, il s’évapora lui aussi à un détour du corridor.
La dame avait définitivement renoncé à la conférence dont, au fond, elle se moquait pas mal. Tout ce qu’elle souhaitait maintenant c’était sortir de cet enchevêtrement de couloirs sans fin. N’y avait-il pas, quelque part, une porte de sortie ? Elle se sentit comme à l’intérieur d’un ascenseur arrêté entre deux étages. N’y avait-il pas de porte de sortie ?
Alors, soudain, elle se souvint d’un renseignement donné par son amie au téléphone : «Cet endroit n’est pas très loin du stade de Maracanã». Elle comprit aussitôt sa méprise, propre à une personne étourdie et distraite qui n’entendait les choses qu’à moitié, le reste tombant dans le vide. Mme Xavier était extrêmement inattentive. Il lui apparaissait maintenant que le rendez-vous n’était pas au stade même, mais dans son voisinage. Or son destin chétif avait voulu qu’elle s’égarãt dans le labyrinthe.
Sa lutte n’en reprit qu’avec plus d’acharnement : la dame voulait coûte que coûte sortir de là mais, comment, par où, elle ne le savait pas. Réapparut dans le corridor l’homme parti à la recherche du groupe, qui, de nouveau, lui jura qu’il retrouverait ces gens parce qu’ils ne pouvaient pas s’être évanouis dans les airs. Ce furent ses paroles exactes :
— Ces gens ne peuvent pas s’être évanouis dans les airs !
Mais la dame déclara :
— Il est inutile que vous fatiguiez à les chercher plus longtemps. Je vous remercie beaucoup. Voyez-vous, l’endroit où je dois rencontrer ces gens n’est pas le Maracanã.
L’homme s’arrêta net et la regarda, perplexe :
— Mais alors, que faites-vous ici ?
La dame voulut expliquer que sa vie était toujours comme cela, mais elle ne savait pas ce qu’elle entendait par «toujours comme cela» ou par «sa vie», et elle ne répondit pas. Pris entre le soupçon et la discrétion l’homme insista sur sa question : que faisait-elle là ? Rien, rétorqua in petto la dame, prête maintenant à s’écrouler de fatigue. Mais elle ne lui répondit rien, le laissant penser qu’elle était folle. D’ailleurs elle ne donnait jamais d’explications. Elle se rendait compte que l’homme le prenait pour une cinglée – et qui pourrait affirmer qu’elle n’en était pas une ? N’était-elle pas la proie de cette chose que, pudiquement, elle appelait «cela» ? Elle se savait pourtant en possession d’une santé mentale aussi solide que sa santé physique. Santé physique à présent bien compromise, la dame ne pouvait presque plus soulever ses pieds épuisés d’avoir cheminé de si longues années dans le labyrinthe. Elle avait eu son chemin de croix. Vêtue d’une robe de laine très épaisse, elle suffoquait et transpirait dans la chaleur inattendue de cet apogée d’un été, de cette journée estivale qui était en fait une difformité de l’hiver. D’avoir tant porté sa vieille croix, ses jambes lui faisaient mal. Elle s’était en quelque sorte résignée à ne plus jamais sortir du Maracanã, et à mourir là, d’un cœur exsangue.
(…)

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Fonte : LISPECTOR, Clarice. Où étais-tu pendant la nuit ? Traduit du brésilien par Geneviève Leibrich et Nicole Biros. Paris, Des Femmes, 1985, p. 9-13.



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