ESCRITORES



OLHAI OS LÍRIOS DO CAMPO





Autor: Érico Veríssimo
Título: OLHAI OS LÍRIOS DO CAMPO, MIRAD LOS LIRIOS DEL CAMPO
Idiomas: port, esp
Tradutor: A. Jover Peralta y Antonio Ortiz Mayans
Data: 06/06/2005

OLHAI OS LÍRIOS DO CAMPO

 

 

1

 

 

Erico Veríssimo

 

 

O médico sai do quarto no 122. A enfermeira vem ao seu encontro.

-Irmã Isolda – diz ele em voz baixa – avise o Dr. Eugênio. É um caso perdido, questão de horas, talvez de minutos. E ela sabe que vai morrer…

Selênico. Uma golfada de vento atravessa o corredor. Ouve-se o ruído seco duma porta que bate. A irmã de caridade sente um calafrio, lembrando-se da madrugada em que morreu o paralítico do 103; a enfermeira de plantão lhe contara horrorizada ter sentido o sopro gelado da morte entrar no quarto do doente.

-Ele está na casa da família, doutor?

-Não. Telefone para a chácara do sogro, em Santa Margarida. Diga ao Dr. Eugênio que a Olívia quer vê-lo. Talvez ele ainda possa chegar a tempo…

Encolhe os ombros, pessimista. Acende um cigarro com dedos um tanto trêmulos.

Irmã Isolda caminha para o fundo do corredor, entra na cabina do telefone, disca para o centro.

-Alô! Alô! Interurbano? Aqui é o Hospital Metropolitano.

As lágrimas lhe escorrem pelo rosto.

“… sobreveio uma hemorragia…” – diz a voz velada e distante.

Como se tivesse recebido a mensagem de desgraça primeiro que o cérebro, o coração de Eugênio desfalece, suas batidas se tornam espaçadas e cavas.

“… O Dr. Teixeira Torres diz que é um caso perdido. Ela sabe que vai morrer… pediu para vê-lo…”.

Eugênio sente estas palavras com todo o corpo, sofre-as principalmente no peito, como um golpe surdo de clava. Uma súbita tontura lhe embacia os olhos e o entendimento. Deixa cair a mão que segura o fone. Só tem consciência de duas coisas: duma impressão de desgraça irremediável e da pressão desesperada do coração, que a cada batida parece crescer, inchar sufocadoramente. A respiração é aflitiva e desigual, a boca lhe arde, o peito lhe dói – é como se de repente lhe tombasse sobre o corpo toda a canseira duma longa corrida desabalada. Pendura o fone num gesto de autômato e dirige-se para a janela, na confusa esperança de que alguém ou alguma coisa lhe grite que tudo aquilo é apenas um sonho mau, uma alucinação.

O sol da tarde doura os campos. O açude reluz ao pé do bosquete de eucaliptos. Mas Eugênio só enxerga os seus pensamentos. E dentro deles está Olívia, pálida, estendida na mesa de operações, coberta de panos ensangüentados. “Ela sabe que vai morrer… pediu para vê-lo”. Ele precisa ir. Imediatamente.

Uma voz infantil flutua no silencio da tarde, num grito prolongado. É o rapazito que vai dar de beber a uma vaca malhada, tangendo-a para a beira do açude. As imagens do animal e da criança se refletem na água parada. Paz – pensa Eugênio – a grande paz de Deus de que Olívia sempre lhe falava…

De novo o silêncio, e uma sensação de remorso, a certeza de que vai começar a pagar os seus pecados, a expiar as suas culpas.

Os olhos de Eugênio se inundam de lágrimas. Passam-se os segundos. Aos poucos a respiração se lhe vai fazendo normal e o que ele sente agora é uma trêmula fraqueza de convalescente.

Mas da própria paz dos campos e da idéia mesma de Deus lhe vem de repente uma doida e alvoroçada esperança, que lhe toma conta do ser. É possível que Olívia se salve. Seria cruel demais se ela morresse assim. Acontecem milagres, – ele se lembra de casos…

Apanha o chapéu e precipita-se para a escada. Mas por que se detém de súbito no patamar, como se tivesse encontrado um obstáculo, inesperado? Tem aguda consciência dum sentimento aniquilador: a sua covardia, aquela imensa e dolorosa covardia num momento em que devia esquecer tudo e correr para junto de Olívia.

Fica um instante parado, amassando o chapéu nos dedos nervosos. Sua mulher está lá embaixo no jardim e agora ela pode descobrir toda a verdade… Ele precisa inventar uma desculpa para aquela viagem precipitada. Olívia está agonizante, seria monstruoso deixá-la morrer sem lhe dizer uma palavra de carinho, sem ao menos lhe pedir perdão.

E no instante mesmo em que formula este pensamento, Eugênio sente que seu orgulho e a sua covardia não lhe permitirão esse gesto de humildade diante de estranhos.

Meu Deus, mas eu preciso ir, custe o que custar, aconteça o que acontecer!

Começa a descer a escada devagar… Imagina-se no hospital. Olívia estendida na cama… O Dr. Teixeira dando explicações friamente técnicas. Os outros… Olhares de quem tudo sabe… Cochichos… Quem? Amantes… Ah! Ele é o Dr. Eugênio Fontes, casado com a filha daquele ricaço, o Cintra, conhece?

Eugênio agarra com força o corrimão, o coração a bater-lhe com desesperada fúria.

Lágrimas quentes lhe escorrem pelas faces. Ele as enxuga, todo trêmulo e caminha para o jardim, gritando:

-Honório! – O chofer aparece. – Tire o carro depressa. Precisamos ir à cidade numa corrida. É um caso urgentíssimo.

Eunice lê no jardim, sentada à sombra dum amplo guarda-sol de gomos vermelhos e azuis.

-Preciso ir à cidade a toda pressa – diz-lhe Eugênio, esforçando-se por dominar a voz.

Ela ergue os olhos do livro, com ar de indiferença e fita-os no marido.

-Que é que tens? Estás tão pálido…

-Nada. Foi uma notícia que recebi… – Hesitou, desviou o olhar. E mentiu: – É sobre o Ernesto…

Os olhos dela têm uma luz fria, e penetrante, parecem enxergar através daquelas palavras mentirosas.

-Não precisas explicar. – Pausa. Contemplam-se por um instante como dois estranhos. – Naturalmente não voltas hoje…

Ele consulta o relógio.

-São quase seis. Chego à cidade às nove, nove e pouco… Acho que só posso estar de volta amanhã pela manhã.

Eunice atira a cabeça para trás e, como se falasse para as nuvens, diz:

-Tu sabes que eu faço questão de não me meter na tua vida. Faze como entenderes. Em todo o caso, obrigada pelo aviso.

-Teu pai chega daqui a pouco. Assim, não passarás a noite sozinha.

-Ora! Não te preocupes comigo. Posso tomar conta de mim mesma. Além do mais, tu sabes, gosto da solidão. Ela nos convida a exames de consciência. E já que falamos nisso, deves estar precisando também de um…

Eugênio sente-se corar. Eunice torna a baixar os olhos para o livro. Ele fica a contemplá-la, por um curto instante, sentindo uma raiva fina e fria.

-Até amanhã – diz.

Sai apressado, como quem foge.

-Até amanhã – murmura Eunice, sem erguer os olhos do livro.

 

O auto põe-se em movimento, passa o grande portão da chácara e ganha a estrada real.

-A toda velocidade, Honório!

Sem se voltar, o chofer responde:

-Quando a gente entrar na faixa de cimento, vou embalar o carro pra noventa.

A luz da tarde é doce e tristonha. O gado pasta nos campos, um quero-quero solta o seu grito estridente, um cachorro late longe.

Eugênio sente vontade de saltar paro o banco da frente e confiar a sua angústia e os seus segredos ao chofer. No fundo ele sabe que pertence mais à classe de Honório que à de Eunice. Nunca o pôde tratar com a superioridade com que a mulher e o sogro lhe dão ordens, como se ele fosse feito doma matéria mais ordinária, como se tivesse nascido exclusivamente para obedecer.

-Precisamos chegar à cidade em menos de três horas, Honório. É uma questão de vida e de morte.

Eugênio cerra os olhos. Olívia pálida, estendida na cama, morta…

 

 

_________________________

 

Fonte: VERISSIMO, Erico. Olhai os lírios do campo. 42aed. Rio Grande do Sul: Editora Globo, 1978. p. 03-07.

 

 

MIRAD LOS LIRIOS DEL CAMPO

 

 

1

 

 

Erico Verissimo

 

 

El médico salió de la habitación número 122. La enfermera fue a su encuentro.

-Hermana Isolda – díjola en voz baja -, avísele al doctor Eugenio. Es un caso perdido. Cuestión de horas. Tal vez de minutos. Y ella sabe que va a morir…

Silencio. Una ráfaga de viento atraviesa el corredor. Óyese el ruido seco de una puerta que golpea. La hermana de caridad siente un escalofrío recordando la madrugada en que murió el paralítico del 103. La enfermera de turno le había contado, horrorizada, que había sentido penetrar el soplo helado de la muerte en el cuarto del enfermo.

-¿Estará en su casa?

-No. Telefonee a la quinta del suegro, a Santa Margarita. Dígale al doctor Eugenio que Olivia quiere verle. Tal vez llegue todavía a tiempo…

Encógese de hombros, pesimista. Enciende un cigarrillo y las manos le tiemblan un poco.

La hermana Isolda se encamina hacia el fondo del corredor, entra en la cabina del teléfono, disca los números de la Central.

-¡Hola! ¡Hola! Hablan del Hospital Metropolitano. Es un caso urgente. Quiero larga distancia, por favor…

Las lágrimas le corren por el rostro.

“… y se produjo la hemorragia…” – dijo la voz velada y distante.

Como si hubiese recibido el anuncio de la desgracia primero que el cerebro el corazón, el corazón de Eugenio desfallece y sus latidos se vuelven espaciados y cavernosos.

“… el doctor Teixeira Torres dice que es un caso perdido. Ella sabe que va a morir. Pidió para verle…”

Eugenio siente estas palabras con todo el cuerpo, las sufre principalmente en el pecho como un golpe sordo de clava. Un súbito vahido empaña sus ojos y su razón. Deja caer la mano que sujeta el tubo. Sólo tiene conciencia de dos cosas: de una impresión de desgracia irremediable y de la presión desesperada del corazón que al latir parece crecer, hinchándose sofocadoramente. La respiración es angustiosa y desigual, árdele la boca, duélele el pecho como si de repente cayera sobre su cuerpo todo el cansancio de una larga carrera desalada. Cuelga el tubo con gesto de autómata y se dirige hacia la ventana con la confusa esperanza de que alguien o algo le grite que todo aquello no es más que un mal sueño, una alucinación.

El sol de la tarde dora los campos. El estanque resplandece al pie del bosquecillo de eucaliptus. Pero Eugenio sólo vislumbra sus pensamientos. Y en ellos está Olivia, pálida, tendida en la mesa de operaciones, cubierta de paños ensangrentados. “Ella sabe que va a morir… pidió para verle” Preciso es ir. Inmediatamente.

Una voz infantil fluctúa en el silencio de la tarde en un grito prolongado. Un rapazuelo lleva a beber a una vaca de la majada, e enderezándola hacia la acequia. La imagen del animal y la del muchacho se reflejan en el agua quieta. Paz – piensa Eugenio -, la gran paz de Dios de que Olivia siempre le hablaba…

De nuevo el silencio. Es una sensación de remordimiento. La certeza de que va a comenzar a pagar sus pecados, a expiar sus culpas.

Los ojos de Eugenio se inundan de lágrimas. Pasan los segundos. Poco a poco su respiración se hace normal, y lo que siente ahora es una trémula debilidad de convaleciente. Pero de la propia paz de los campos y de la idea misma de Dios le viene de pronto una loca y alborozada esperanza, que se apodera de todo su ser. Es posible que Olivia se salve. Sería demasiado cruel que muriese así. Acontecen milagros… Él se acuerda de casos…

Toma el sombrero y se precipita hacia la escalera. Pero, ¿por qué se detiene de súbito en le rellano, como si hubiese encontrado un obstáculo inesperado? Eugenio tiene aguda conciencia de un sentimiento aniquilador: su cobardía, esa inmensa y dolorosa cobardía, en un instante en que debía olvidarlo todo y correr junto a Olivia.

Queda un momento parado, oprimiendo el sombrero con los dedos nerviosos. Su mujer está allá abajo, en el jardín. Ella puede ahora descubrir toda la verdad… Necesita inventar una disculpa para aquel viaje precipitado. Mas Olivia se halla agonizante, sería monstruoso dejarla morir sin decirle una palabra de cariño, sin, al menos, pedirle perdón. Y en el instante mismo en que se formula este pensamiento, Eugenio siente que su orgullo y su cobardía no le permitirán este gesto de humanidad delante de extraños.

¡Dios mío! Mas es preciso ir, cueste lo que cueste, suceda lo que suceda.

Empieza a descender la escalera, despacio. Imagínase en el hospital. Olivia tendida en la cama… El doctor Teixeira dando explicaciones fríamente técnicas. Los otros… miradas de quien lo sabe todo… cuchicheos… ¿Quién? Amantes… ¡Ah! Él es, el doctor Eugenio Fontes, casado con la hija de aquel ricacho Cintra, ¿lo conoce?

Los dedos de Eugenio se crispan sobre el pasamanos.

El corazón le late con desesperada furia.

Lágrimas ardientes le corren por el rostro. Las enjuga, todo trémulo, y se dirige hacia el jardín, gritando:

-¡Honorio! – El chófer aparece -. Saque de prisa el auto. Precisamos ir a la ciudad de un tirón. Es un caso urgentísimo.

Eunice lee en el jardín, sentada a la sombra de un amplio quitasol de cascos rojos y azules.

-Necesito ir a la ciudad con urgencia – le dice Eugenio, esforzándose por dominar la voz.

Ella levanta los ojos del libro, con aire de indiferencia, fijándolos en el marido.

-¿Qué tienes? Estás tan pálido…

-Nada. Fue una noticia que recibí… – Vaciló, desvió la mirada. Y mintió: -Es referente a Ernesto.

Los ojos de ella tienen una luz fría. Parecen inquirir a través de aquellas palabras mentirosas.

-No es necesario que expliques. – Pausa. Contémplanse por un instante como dos extraños -. Naturalmente, no vuelves hoy…

Él consulta su reloj.

-Son casi las seis. Llego a la ciudad a las nueve, nueve y pico… Creo que sólo puedo estar de vuelta mañana de mañana.

Eunice echa la cabeza hacia atrás y, como si hablase para las nubes, dice:

-Tú sabes que yo me he hecho el propósito de no meterme en tu vida. Haz como te parezca. En todo caso, gracias por el aviso.

-Tu padre llega dentro de un rato. De esta manera no pasarás la noche sola.

-¡Oh! No te preocupes por mí. Sabré arreglarme yo misma. Además, tú sabes, me agrada la soledad. Nos convida a exámenes de conciencia. Y ya que hablamos de esto, debes necesitar de uno…

Eugenio se siente enrojecer. Eunice vuelve a bajar los ojos sobre el libro. Él queda contemplándola, sintiendo un rencor fino y frío.

-Hasta mañana – dice.

Sale aprisa, como quien huye.

-Hasta mañana – murmura Eunice, sin levantar los ojos del libro.

 

El auto se pone en movimiento. Transpone el portón principal de la quinta y gana el camino real.

-¡A toda prisa, Honorio!

Sin darse vuelta, el chófer responde:

-Cuando entremos en la faja de cemento, largaré el coche a noventa.

La luz de la tarde es suave y tristona. El ganado pace en los campos, un teruteru suelta un grito estridente, un perro ladra a los lejos.

Eugenio experimenta deseos de saltar al asiento delantero y confiar su angustia y sus secretos al chófer. En el fondo sabe que pertenece más a la clase de Honorio que a la clase de Eunice. Nunca pudo tratarlo con la superioridad con que la mujer y el suegro le daban órdenes. Como si estuviese hecho de una materia más ordinaria, como si hubiese nacido exclusivamente para obedecer.

-Preciso es que lleguemos a la ciudad, Honorio, en menos de tres horas. Es una cuestión de vida o muerte.

Eugenio cierra los ojos. Olivia pálida, tendida en la cama, muerta…

 

 

_________________

 

Fonte: VERISSIMO, Erico. Mirad los lirios del campo. 5aed. Traducción del portugués por A. Jover Peralta y Antonio Ortiz Mayans. Buenos Aires: Tupã, 1949. p. 09-12.



Voltar ao topo