ESCRITORES



OBRAS POÉTICAS





OBRAS POÉTICAS


Alvarenga Peixoto

A EL REI D. DINIZ, FUNDADOR DA UNIVERSIDADE DE COIMBRA
« O pai da pátria, imitador de Augusto
Liberal Alexandre…» Ia adiante,
Quando uma imagem se me pôs presente,
A cuja vista me gelei de susto.

Mostrava no semblante pio e justo
Raios brilhantes do Empírio luzente,
Porém os olhos, como descontente,
Em mim cravava com bastante custo.

– « Nem de Alexandre nem de Augusto quero
Os nomes; sou Diniz » – me disse apenas
Com gesto melancólico e severo.

Levou-me às praias do Mondego amenas,
e, depondo o semblante grave e austero,
Riu-se e mostrou-me a portuguesa Atenas.
ODE AOS TRABALHOS DE HÉRCULES

Tarde Juno zelosa
Vê Júpiter, o Deus onipotente,
Em Alcmena formosa
Ter Hércules; e tanto esta dor sente,
que, em desafogo à pena,
Trabalhos mil de Jove ao filho ordena.
Manda-lhe, enfurecidas,
Duas serpentes logo ao berço terno,
Criadas e nascidas
No infernal furor do estígio
Mas nada surte efeito,
Se um sangue onipotente anima o peito;
Nas mãos o forte infante
Despedaça as serpentes venenosas
E fica triunfante
Das ciladas mortais e furiosas,
Que Juno lhe ordenava
Quando ele a viver mal começava.
Cresce, e a cruel madrasta,
Que, sempre nos seus danos diligente,
A vida lhe contrasta,
Ou que viva em descansos não consente,
Faz com que, vagabundo,
Corra, sempre em trabalhos, todo o mundo.
Aqui lhe põe, irada,
De diversas cabeças a serpente,
Que em briga porfiada
Trabalha por troncar inutilmente:
Divide-as, mas que importa,
Se outras tantas lhe nascem quantas corta?
Enfim, por forca e arte,
Este monstro cruel deixa vencido,
Que já em outra parte
Trabalhos lhe tem Juno apercebido,
Tais que eu não sei dizê-los,
Mas pode o peito de Hércules sofrê-los
Triunfando e vencendo,
Fazendo-se no mundo mais famosos,
A Terra toda enchendo
De seu heróico nome gloriosos,
No templo da Memória
Gravou o Non plus ultra a sua gloria.
A JOSÉ BASÍLIO DA GAMA, AUTOR DO POEMA O URAGUAI
Entro pelo Uruguai: vejo a cultura
Das novas terras por engenho claro;
Mas chego ao templo majestoso, e paro
Embebido nos rasgos da pintura.

Vejo erguer-se a República perjura
Sobre alicerces de um domínio avaro;
Vejo distintamente, se reparo,
De Caco usurpador a cova escura,

Famoso Alcides, ao teu braço forte
Toca vingar os cetros, e os altares:
Arranca a espada, descarrega o corte.
E tu, Termindo, leva pelos ares
A grande ação; já que te coube em sorte
A gloriosa parte de a cantares.
A BÁRBARA HELIODORA
Bárbara bela
Do Norte estrela
Que o meu destino
Sabes guiar.
De ti ausente
Triste somente
As horas passo
A suspirar.
Isto é castigo
Que Amor me dá.

Por entre as penhas
De incultas brenhas
Cansa-me a vista
De te buscar.
Porém não vejo
Mais que o desejo
Sem esperança
De te encontrar.
Isto é castigo
Que Amor me dá.

Eu bem queria
A noite e o dia
Sempre contigo
Poder passar.
Mas orgulhosa
Sorte invejosa
Desta fortuna
Me quer privar.
Isto é castigo
Que Amor me dá.

Tu entre os braços
Ternos abraços
Da filha amada
Podes gozar.
Priva-me a estrela
De ti e dela;
Busca dois modos
De me matar.
Isto é castigo
Que Amor me dá.
SONETO ESCRITO NO CÁRCERE
Não me aflige do potro a viva quina;
Da férrea mão o golpe não me ofende;
Sobre as chamas a mão se não estende;
Não sofro do agulhete a ponta fina.

Grilhão pesado os passos não domina;
Cruel arrocho a testa me não fende;
À forla perna ou braço se não rende;
Longa cadeia o colo não me inclina.

Água e pomo faminto não procuro;
Grossa pedra não cansa a humanidade;
O pássaro voraz eu não aturo.

Estes males não sinto; é bem verdade;
Porém sinto outro mal inda mais duro;
– Sinto da esposa e filhos a saudade!
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Fonte: PEIXOTO, Alvarenga. Obras poéticas. Introdução e notas de Domingos Carvalho da Silva. Rio de Janeiro: ABL, 1998. p. 51-57 ; 111-113 ; 131-132.

 

1 Este soneto saiu pela primeira vez na edição de JNSS (1865) e pertence, como o anterior, à época da juventude do poeta, ainda sob a influência dos estudos de história clássica e literatura latina. Já que JNSS nada informou sobre a procedência destes versos, adota-se aqui o texto proposto, com base em manuscritos, por R. Lapa. A palavra «Empíreo» quebra o ritmo do sexto verso. É possível que Alvarenga tenha usado «Empireu», como usou «nivéis» na ode «Retrato». Nicolau Tolentino rimou «Pegáso» com «Parnaso» e Silva Alvarenga, «ibero» com «Cerbéro».

2 Foi esta ode localizada na Biblioteca do Porto por R. Lapa, que a publicou na Vida e obra de Alvarenga Peixoto e, em uma nota, insinuou o título aqui adotado. O texto denuncia a fase de preparação do poeta, que, dos doze trabalhos de Hércules, cuidou de dois apenas.

3 Este soneto foi publicado com O Uruguai em 1769 e teve a assinatura de Inácio José de Alvarenga Peixoto. Foi a primeira poesia impressa, do autor. Alcides, um dos nomes de Hércules, é provavelmente uma representação metafórica de Gomes Freire de Andrada, que tinha comandado as tropas portuguesas na guerra contra a «República perjura» dos jesuítas.
O texto acama reproduz fielmente o que foi impresso na edição de 1769 do O Uruguai.

4 Esta lira foi publicada pela primeira vez por Elias Matos (Miscelânea poética ou coleção de poesias diversas de autores escolhidos, Rio, 1853) sob a rubrica de De Inácio José de Alvarenga, estando preso, a sua mulher. Nas Obras poéticas (1865), de JNSS, lê-se: A D. Bárbara Heliodora – sua esposa – remetida do cárcere da Ilha das Cobras. R. Lapa (1960) suprimiu o título, afirmando: «não é admissível que a lira fosse composta na prisão». Como o poeta se refere apenas à «filha amada» e como em 1784 já era nascido o seu filho Eleutério, deve a lira ter sido escrita antes daquele ano, provavelmente em 1782, ano em que Alvarenga Peixoto poderá ter ido a Vila Rica para assistir às núpcias do tenente-coronel Freire de Andrada. Isto é só uma hipótese, mas aceitável.
O texto acima (da lira) reproduz o da Miscelânea com a adição do H etimológico de Heliodora. O Amor do estribilho é Cupido e por isso está aqui com inicial maiúscula.

5 Este soneto foi publicado pela primeira vez por JNSS (Obras poéticas, 1865) sob o titulo de «A Saudade – Ouvindo na Cadeia Pública do Rio de Janeiro a sua Sentença de Morte». R. Lapa (Vida e obra de Alvarenga Peixoto, 1960) repetiu-lhe o texto com alterações no último verso. E observou que o poeta: «naquele momento de desgraça, não soube encontrar os acentos de dor que se poderiam esperar do seu gênio poético.» Uma leitura atenta do texto mostra porém que Lapa se equivocou. Alvarenga – a ser dele o soneto… – não fala de desgraça, nem da morte ou da forca iminente; ao contrário, nega ter sido vítima das torturas que enumera e, sobre elas, diz claramente: «Estes males não sinto, é bem verdade.» A ser de Alvarenga Peixoto o soneto, ele o escreveu, certamente, no cárcere, mas muito antes de ouvir a sentença condenatória de18 de abril de1792.
O texto do soneto reproduz fielmente o de 1865.



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