Revista LitCult – Vol.9 - 2. semestre 2015



O SOCIAL E O PSICOLÓGICO NA FORMAÇÃO IDENTITÁRIA DE FABIANO, DE VIDAS SECAS – Gabriela Pacheco Amaral





O SOCIAL E O PSICOLÓGICO NA FORMAÇÃO IDENTITÁRIA DE FABIANO, DE VIDAS SECAS

Gabriela Pacheco Amaral

Universidade Federal de Minas Gerais

RESUMO: O objetivo deste trabalho é compreender como a personagem principal, Fabiano, do romance Vidas secas, de Graciliano Ramos, sofre pela constante alternância de identidade, uma vez que o mesmo está sempre em busca de estabelecer para si uma identificação, ora com um animal, ora com um homem. Com a intenção de reconhecer como Fabiano realiza uma imagem de si na narrativa, identificaremos algumas categorizações que ocorrem ao longo da narrativa a partir dos pressupostos de Lorenza Mondada e Danièle Dubois (2003) e Bakhtin (1992). Além disso, discutiremos teoricamente como Vidas secas aborda tanto os aspectos sociais quanto os psicológicos, com base nos pensamentos de Candido (2006) e Cristóvão (1986), dentre outros.

 

Palavras-chave: Social e Psicológico; Identidade; Categorização; Vidas secas; Graciliano Ramos.

 

ABSTRACT:  This study aims to understand Fabiano, the main character of Graciliano Ramos’ novel Vidas secas, and how he suffers to identify himself either with an animal or with a human being, while striving to get an image of himself. We will envisage some categorizations in the novel departing from Lorenza Mondada and Danièle Dubois (2003) and from Bakhtin (1992). We will present a theoretical analysis of the novel employing the approach by Candido (2006), Cristóvão (1986), and others, in order to see how this narrative deals with social and psychological aspects.

Key-words: Social and Psychological; Identity; Categorization; Vidas secas; Graciliano Ramos.

 

Currículo da autora: Mestranda em estudos linguísticos, na área da Análise do Discurso, pela Universidade Federal de Minas Gerais. A pesquisa de dissertação busca analisar os conflitos ideológicos e as formações discursivas nos pensamentos, nas ações e principalmente no silenciamento do protagonista do romance Vidas secas, de Graciliano Ramos. Graduada em Licenciatura Plena Português/Inglês pela Universidade Estadual de Minas Gerais em 2014. Como trabalho de conclusão de curso realizou uma monografia intitulada “O ethos nos conflitos de Fabiano em Vidas secas: uma perspectiva discursiva da identidade”, no qual dialogou entre os estudos literários e os estudos linguísticos, e, mais especificamente, na Análise do Discurso.

 

O SOCIAL E O PSICOLÓGICO

 

NA FORMAÇÃO IDENTITÁRIA DE FABIANO,

DE VIDAS SECAS

 

Gabriela Pacheco Amaral

 

Universidade Federal de Minas Gerais

 

INTRODUÇÃO

Ao ler a narrativa, percebemos a complexidade de como a identidade da personagem de Fabiano é construída no enredo. Em alguns contextos sociais do protagonista ao longo da obra, torna-se possível notar o discurso de identidade percorrendo a trama narrativa, atribuindo um tom especifico à dicção do sertanejo. Tais pressupostos são considerados a partir de uma leitura do romance em que percebemos a relação de Fabiano com a sociedade. Essa relação pode ser construída através de diversas injustiças e desigualdades sociais que perpassam a vida do sertanejo e de sua família. Nossa hipótese de pesquisa é que essa relação conflituosa de Fabiano com o seu meio social acarreta em diversas identificações e nuances de identidade.

O livro tem 13 capítulos e alguns deles foram publicados inicialmente como contos e depois reunidos no romance. Por esse motivo Rubem Braga, citado por Antonio Candido, conceitua a obra de Graciliano como um “romance desmontável”, com a justificativa de não existir elo entre os capítulos já que eles foram publicados separadamente (CANDIDO, 2006, p. 63). Diante desse posicionamento de Braga, Candido utiliza de uma metáfora para argumentar sobre o discurso contínuo do romance, independente da sequência ou da publicação dos capítulos.  Nesse sentindo, ele considera Vidas secas um “anel de ferro”, “anel” porque o último capítulo se encontra com o primeiro, e “ferro”, pois, o enredo mostra como a sociedade “esmaga” a vida da família de retirantes. A característica da narrativa em que o último capítulo encontra com o primeiro cria um desenho circular em Vidas secas. O romance inicia com uma fuga e termina em outra. Por decorrência desse círculo, em consonância com Candido, notamos que Fabiano e sua família voltarão para a mesma situação de fuga da seca e serão incessantemente “sufocados pelo meio” (idem, p. 67). Em razão dessa característica, o estudioso estima em Graciliano Ramos uma “poderosa visão social”, em face do “desenho geral” do romance permitir enxergar o mundo opressivo diante de uma “visão dramática”.

Fernando Cristóvão também utiliza de uma metáfora para explicar os capítulos de Vidas secas. Segundo o qual, o romance é um “jogo de dominó”, pois se houvesse uma combinação diferente dos capítulos haveria também outras formas de interpretar a vida da família de retirantes. Nesse raciocínio, com o capítulo Mudança e Fuga nos extremos da obra, adquire-se uma articulação que cria um “sentido lógico” e uma “linha temporal contínua” na narrativa (CRISTÓVÃO, 1986, p. 97).

Similarmente, Luís Bueno (2006, p. 650) acredita na continuidade e na unidade do romance, mesmo os capítulos não tendo uma sequência na construção da narrativa. Segundo esse autor, não existe somente uma ligação entre o primeiro e o último capítulo, há que se considerar também outras ligações na narrativa. A título de exemplo temos Cadeia e O Soldado Amarelo. Em Cadeia, acontece a prisão de Fabiano, em O Soldado Amarelo, ocorre a finalização do conflito de Fabiano com o soldado amarelo. Nos pressupostos de Bueno, os capítulos se relacionam como pares na construção do romance em que um corresponde ao outro. Em suma, qualquer outra ordem dos capítulos “destruiria” o movimento da narrativa, assim como a unidade da obra. Desse modo, não é possível considerá-lo como sendo um “romance desmontável”, mas sim como um “romance cuidadosamente montado” e com perfeição de elaboração de “suas peças” (idem, p. 658).

 

O DRAMA DE FABIANO

Fabiano é um homem “esmagado” tanto pela sociedade quanto pela natureza, não é como Paulo Honório, em São Bernardo, e Luís da Silva, em Angústia, que “pensam, logo existem”: “Fabiano existe, simplesmente” e sofre tanto pela fome quanto por sua existência. O “eu” interior do protagonista é “nebuloso”, na mesma medida o primitivo do homem é “puro” em Fabiano (CANDIDO, 2006, p. 63). Nessa linha de raciocínio de Antonio Candido, percebemos como a identidade de Fabiano está em debate. Visto que o autor distingue Fabiano dos demais protagonistas das outras obras de Graciliano Ramos. O protagonista de Vidas secas, não tem muita habilidade para se expressar verbalmente com as pessoas. Porém não é somente a falta de comunicação que silencia essa personagem na trama narrativa. Podemos notar que o ambiente opressivo ao qual ele é submetido pode contribuir tanto para o seu silenciamento quanto para os seus conflitos internos. Essa última consideração faz parte do objetivo dessa pesquisa em analisar o “eu” interior de Fabiano e sua relação com o meio.

Vidas secas, de acordo com Antonio Candido (2006, p. 66), corresponde ao entrosamento do sofrimento humano vinculado ao tormento que a natureza proporciona. A similaridade do sofrimento geográfico com o problema social perpassa no romance e adquire significado pela “elevada qualidade artística” que Graciliano deu a sua narrativa. A “seca lucidez” de Vidas secas possibilita uma das abordagens “mais honestas” na nossa literatura sobre o homem e a vida (CANDIDO, 2006, p. 99). Com base nesses pressupostos de Candido, acreditamos que os sofrimentos de Fabiano não são ocasionados somente pela seca, mas sim por um conjunto de injustiças, desigualdades e desrespeitos ao qual ele é submetido ao longo de sua vida no enredo do romance. Devido à esses fatores podemos perceber dimensões de identidades discursivas do protagonista sendo formadas ao longo da narrativa que possivelmente são acarretadas por essas circunstâncias sociais.

Para Fernando Cristóvão (1986, p. 132), o principal na narrativa é o sociológico e o psicológico. Essas duas tendências literárias são perceptíveis logo no título da obra, pois “vidas” apresenta um significado “metaforicamente” indicado para um estudo psicológico. Ao passo que, por intermédio do termo “secas”, temos um significado de punho sociológico que indica um romance realista regionalista. Desse modo, é possível identificar como Vidas secas abrange essas duas tendências, visto que aborda tanto o social quanto o psicológico (CRISTÓVÃO, 1986, p. 38).

Como bem abordado por Candido e Cristóvão, o enredo do romance se baseia em uma fusão dos problemas sociais com as questões psicológicas das personagens (dentre outras possíveis dimensões de leituras). Uma das hipóteses dessa pesquisa é a relação da sociedade com a construção da personagem na narrativa. Em suma, não é somente o fator da seca que torna Vidas secas uma obra que pondera a respeito do homem e a sua existência. Outros aspectos como a escassez da linguagem, falta de convivência com a sociedade dentre outros, tornam possíveis as leituras em torno do íntimo da personagem. Como também levamos em consideração a razão de Fabiano incessantemente desejar estabelecer sua identidade. Salientamos que essas não são as únicas peculiaridades da obra, várias outras chaves de leituras podem ser feitas na narrativa. Como exemplo disso, podemos citar o desejo de Sinhá Vitória em ter uma cama; a humanização de Baleia; a imagem do governo e da sociedade capitalista dentre diversas outras possibilidades de observação na narrativa. Tendo isso vista, notamos o posicionamento de Candido ao afirmar que Vidas secas é uma visão distinta do homem e a da vida. Pois, o âmago de cada personagem na obra é abordado de forma a se compreender a dimensão íntima e social de suas vidas.

 

O SILÊNCIO E O NARRADOR

Outra singularidade do romance: a linguagem é feita a partir do silêncio das personagens. Diante da falta de diálogo e comunicação na narrativa, Antonio Candido explica que Graciliano Ramos foi capaz de mostrar sua “força” artística ao criar um forte discurso a partir das personagens que não sabem se comunicar (CANDIDO, 2006, p. 145). Nessa linha de reflexão, Fabiano não conversa muito com sua família nem com outras pessoas, se tenta fazê-lo raramente obtêm sucesso, visto que ele se comunica através de gestos e poucas palavras. No decorrer da narrativa não existem diálogos, não existe conversa, não existe comunicação. Por essa característica, Candido ressalta o aspecto silencioso de Vidas secas. Se é possível perceber os sentimentos e os pensamentos das personagens, deve-se ao fato do narrador obter o papel de mostrá-los aos leitores. Nessa circunstância, o foco narrativo da terceira pessoa e o discurso indireto livre suprem a deficiência linguística das personagens; cabe ao narrador “falar” por elas.

O silêncio, na perspectiva da Análise do Discurso, adquire sentido de implícito, partindo do pressuposto de que o que não foi dito, por isso mesmo, diz. Ao optar por não dizer algo, o silêncio possibilita diversas alternativas de sentidos e interpretações. Segundo Eni Orlandi, ele pode indicar que o sentido pode ser outro, como podemos observar em:

 

Este [o silêncio] pode ser pensado como a respiração da significação, lugar de recuo necessário para que se possa significar, para que o sentido faça sentido. É o silêncio como horizonte, como iminência de sentido. Esta é uma das formas de silêncio, a que chamamos silêncio fundador: silêncio que indica que o sentido pode sempre ser outro. Mas há outras formas de silêncio que atravessam as palavras, que “falam” por elas, que as calam (ORLANDI, 2001, p. 83).

 

Seguindo nesse pensamento, notamos que Vidas secas adquire uma linguagem do silêncio, e isso como Orlandi explica, tem significado. Nesse sentido, a construção do silêncio no romance adquire possíveis dimensões de interpretações, uma delas é sob o ponto de vista de Maria Celina Novaes Marinho (1997). Segundo a qual, Fabiano tem o conhecimento de sua carência do domínio da linguagem oral, com isso ele se coloca em posição de uma pessoa que é observada e julgada por essa deficiência. Por conseguinte, ele sente-se censurado ao tentar comunicar com outras pessoas, pois leva-se em consideração a possibilidade do erro e do não entendimento. De acordo com Marinho, no pensamento de Fabiano a linguagem não o pertence, ela cabe somente aos homens, e diante de Fabiano não se ver como um homem, a linguagem não o compete, não faz parte de sua existência (MARINHO, 1997, p. 251).

Ainda nos pressupostos de Marinho, um dos recursos utilizados para expressar os sentimentos e os pensamentos de Fabiano é o uso do discurso indireto livre e o discurso direto. Conforme a autora, “a voz reprimida e abafada” do protagonista se manifesta na voz do narrador com o uso do discurso indireto livre. Em algumas situações, o discurso direto representa a exteriorização dos pensamentos da personagem.

Quando Fabiano fala, é para si mesmo ou em voz baixa. O uso desses recursos, de acordo com Marinho (1997, p. 255) representa a tentativa de Fabiano em estabelecer sua identidade. No momento em que Fabiano sente a necessidade de se sentir como um homem ele deseja falar alto, matar o soldado amarelo e pensa em até entrar para o cangaço (inferimos nessa situação o uso do discurso direto livre). Já, quando ele se identifica como um bicho, permanece em silêncio e fala em voz baixa (observarmos nesse contexto o uso do discurso indireto livre). Marinho ressalta que esse desejo interno não é direcionada a nenhuma outra pessoa, fica somente nos pensamentos e no interior de Fabiano (Idem). Pretendemos relacionar tais recursos linguísticos com a construção da imagem discursiva de Fabiano na narrativa.

Assim sendo, em Vidas secas, o narrador de terceira pessoa possibilita uma leitura em dois pontos de vista: um parte de uma visão mais ampla da sociedade – o narrador nos apresenta um contexto de exploração financeira e política –, o segundo mostra o interior das personagens, nas quais são narradas os seus pensamentos (MARINHO, 1997, p. 252). Esse aspecto da obra permite realizar uma possível relação de como o contexto social pode influenciar no íntimo das personagens, haja vista a dialética do foco narrativo em apresentar o social e o psicológico. Sob essa reflexão, notamos que o narrador apresenta o contexto social juntamente com os pensamentos e sentimentos das personagens.

 

OS CONFLITOS E A CATEGORIZAÇÃO DE SI

Levaremos em consideração os pressupostos de Lorenza Mondada e Danièle Dubóis (2003, p. 20 – 22). Segundo as autoras, a categorização é uma atividade humana, cognitiva e linguística que estrutura e atribui sentido ao mundo. O sujeito realiza as categorias por meio das atividades sociais ao qual ele está inserido. Além do mais, há uma multiplicidade de categorizações que permitem identificar uma pessoa, um objeto e assim por diante, portanto, geralmente são instáveis, variáveis e flexíveis. As categorizações são formadas na interação do indivíduo com o mundo e variam conforme o contexto e o ponto de vista de sua produção. Ainda nesse sentido, em consonância com Luiz Antônio Marcuschi (2007, p. 88), compreendemos que a categorização é um dos processos básicos que possibilitam a reflexão humana.

Para a análise as categorizações em Vidas secas adotaremos as abordagens citadas acima, como também as considerações de Mikhail Bakhtin sobre a palavra. Segundo o autor, a palavra é um “signo neutro” que obtém significado de acordo com o seu contexto, além disso, a palavra é transformada e sofre alterações de sentido na evolução histórica (BAKHTIN, 1992, p. 79). Desse modo, buscaremos verificar a possível significação da palavra e as transferências de sentido para as categorizações de Fabiano.

A categorização é uma atividade reflexiva do sujeito quanto à nomeação ou referenciação de algo do mundo. Geralmente as categorias são mutáveis e dependem do seu contexto de produção. Desse modo, associamos esses conceitos para a análise das categorias interligadas a Fabiano em Vidas secas.

Iremos, pois analisar alguns enunciados mais representativos como: “Fabiano, você é um homem, exclamou em voz alta”; “Você é um bicho, Fabiano.”; “Um bicho, Fabiano”; “Você é um bicho, Baleia” e “Um homem, Fabiano”. Estas nomeações que o protagonista faz de si estão no segundo capítulo do romance, Fabiano, que narra os pensamentos do protagonista quanto a sua própria existência. Ele busca definir sua identidade, seja tentando se identificar com animais ou com homens.

As palavras “homem” e “bicho” – utilizadas nas produções das categorizações – no contexto social de Fabiano, vão além do significado biológico que elas possuem, abrangendo uma significação moral e simbolizando a representação do papel social da personagem na sociedade. Tal consideração é justificada por intermédio das análises das situações em que Fabiano se vê obrigado a passar devido à seca. Ele sente que seu papel perante sua família e o mundo não é de um homem capaz de sustentar e criar seus filhos, mas sim de se ver forçado a viver como bicho, fugindo da seca e escondendo em matos e casas abandonadas. Respaldamos essa reflexão no ensinamento de Mikhail Bakhtin (1992). Como já vimos, segundo o autor, a palavra é um signo neutro, de modo que ela adquire sentido dependendo do contexto social e histórico de sua produção.

Nesse sentido, podemos perceber que as categorizações com as palavras “homem” e “bicho” podem ser um recurso utilizado no processo mental de Fabiano para se autorreferenciar no mundo. Essa tentativa de se reconhecer pode ser uma forma de Fabiano projetar a imagem que ele tem de si através das referenciações produzidas.

De acordo com Stuart Hall (2006) a identidade está sempre em processo de formação e depende do contexto social em que o indivíduo está inserido. Além disso, a identidade é construída por intermédio da identificação que o sujeito realiza com algum referente no mundo, ou seja, o indivíduo constrói sua identidade realizando um processo de analogia com esse referente externo.

Desse modo, realizamos um diálogo entre a categorização e o processo de identificação com um referente. Tal diálogo, nós o justificamos pela razão de que, se Fabiano usa a nomeação – mesmo que inconscientemente – como recurso para estabelecer qual a sua identidade, esta acontece por intermédio da identificação que ele faz com um referente.

Partiremos agora para a análise das categorias, a primeira pode ser percebida em:

 

Fabiano ia satisfeito. Sim senhor, arrumara-se. Chegara naquele estado, com a família morrendo de fome, comendo raízes. Caíra no fim do pátio, debaixo de um juazeiro, depois tomara conta da casa deserta. Ele, a mulher e os filhos tinham-se habituado à camarinha escura, pareciam ratos – e a lembrança dos sofrimentos passados esmorecera.

Pisou com firmeza no chão gretado, puxou a faca de ponta, esgaravatou as unhas sujas. Tirou do aió um pedaço de fumo, picou-o, fez um cigarro com palha de milho, acendeu-o ao binga, pôs-se fumar regalado.

– Fabiano, você é um homem, exclamou em voz alta.

RAMOS, 2010, p. 18. (Grifo nosso).

 

Nessa passagem da obra, podemos observar que Fabiano faz uma retrospectiva dos últimos acontecimentos. Ele se lembra da situação da seca, da caminhada no mato sem alimentação e de quando eles chegaram na fazenda. Ao relembrar dessas circunstâncias, Fabiano percebe que agora ele e sua família estão em um lugar seguro.

Associando esse contexto juntamente com o ensinamento de Hall, em que a identidade do sujeito depende do seu contexto social, inferimos que o referente de identificação para Fabiano, nessa situação, é o “homem”. Como vimos, o termo “homem” é carregado de significados que depende do seu contexto de produção. Nesse aspecto, a simbologia dessa palavra pode significar uma posição social de prestígio para a personagem. Uma vez que nessas circunstâncias Fabiano tem um emprego e encontra-se hábil para sustentar sua família e adiar a morte. Portanto, Fabiano se vê como um homem na sociedade.

Analisando a estrutura da sentença, nota-se que o termo “Fabiano” é colocado em primeiro lugar e depois é usada uma vírgula, essa estrutura sintática possui a função vocativa. Percebemos assim, que Fabiano chama sua própria atenção para afirmar que ele é um homem. Ele tenta impor para si mesmo sua identidade, uma vez que a partir daquele momento ele tem uma casa, pode cuidar da esposa e filhos e não precisa fugir constantemente da seca como um animal. A explicação do narrador, “exclamou em voz alta”, permite inferir que Fabiano fala em voz alta com a tentativa de afirmar veementemente sua identidade de homem nesse contexto. Nessa situação, ele tem segurança e certeza quanto ao seu papel social diante de sua família. Essa afirmação que a personagem realiza no discurso direto acarreta na sua seguinte reflexão:

 

Conteve-se, notou que os meninos estavam perto, com certeza iam admirar-se ouvindo-o falar só. E, pensando bem, ele não era homem: era apenas um cabra ocupado em guardar coisas dos outros. Vermelho, queimado, tinha os olhos azuis, a barba e os cabelos ruivos; mas como vivia em terra alheia, cuidava de animais alheios, descobria-se, encolhia-se na presença dos brancos e julgava-se cabra.

Olhou em torno, com receio de que, fora os meninos, alguém tivesse percebido a frase imprudente. Corrigiu-a, murmurando:

– Você é um bicho, Fabiano.

RAMOS, 2010, p. 18. (Grifo nosso).

 

Como se vê, o discurso indireto livre apresenta as reflexões de Fabiano, pois ele não consegue se comunicar com as outras pessoas e não tem habilidade na linguagem, com isso, fica por conta do narrador contar quais são os pensamentos de Fabiano através do uso do discurso indireto e indireto livre. Quando se é usado o discurso direto como em “ Fabiano, você é um homem, exclamou em voz alta”, trata-se de uma exteriorização dos seus pensamentos. Nessa fala de Fabiano, percebe-se como ele precisa afirmar para si mesmo que ele é um homem. Tal consideração pode ser realizada através do argumento que quando alguém diz algo em voz alta significa tentar impor o seu discurso. Isso, observamos na fala de Fabiano, pois ele tenta estabelecer para si mesmo a sua identidade.

Porém, depois dessa tentativa de se afirmar como homem, o uso do discurso indireto livre distorce essa possibilidade, como nota-se em: “E, pensando bem, ele não era homem: era apenas um cabra ocupado em guardar coisas dos outros.” Desse modo, identificamos que o conflito interno de Fabiano é mostrado essencialmente pelo uso do discurso indireto livre. O dilema interno vivido por ele se dá na procura de tentar se identificar como homem ou como bicho. Diante disso, seus pensamentos e autorreflexões buscam essa solução de identidade.

Ao realizar sua identificação como um “homem”, em voz alta, Fabiano mostra-se arrependido e considera que sua afirmação é uma “frase imprudente”. Nos pensamentos narrados, a personagem repensa sobre seu enunciado e chega à conclusão de que ele não é um homem. O argumento que o leva a essa dedução refere-se ao fato de que a casa e os animais os quais ele está cuidando não são dele. Além do mais, ele se acha inferior em relação aos outros homens. Diante dessa reflexão sobre seus status, ele muda seu referente de “homem” para “bicho”. Vale acrescentar que ao contrário da categorização anterior proferida em voz alta, essa é apenas murmurada, ou seja, se Fabiano tinha a certeza de sua identidade agora nem tanto assim.

Um aspecto interessante nessa transição de uma autonomeação para a outra, é a maneira como as características fisionômicas de Fabiano são apresentadas. Conforme vimos anteriormente, os aspectos físicos da personagem sofrem um contraste de cor fria e quente, respectivamente, azul e vermelho. Estas cores podem remeter a um conflito entre o interno e o externo de Fabiano, já que consideramos que a cor dos olhos podem sugerir o âmago da personagem, ao passo que a vermelhos pode representar às injustiças sociais.

Essa inserção da fisionomia nesse contexto em que Fabiano está em conflito quanto a estabelecer sua identidade, consideramos ser associada às aflições da personagem. Desse modo, quando o narrador mostra as características de Fabiano, podemos inferir que o protagonista desenvolve uma reflexão sobre sua imagem. A personagem pode até ter os mesmos aspectos físicos que os outros homens, todavia ela se vê como um bicho.

Voltemo-nos para a análise da categorização “- Você é um bicho, Fabiano”. Nela, notamos que a personagem muda de ideia quanto ao seu papel diante da sociedade. Fabiano não se considera mais um “homem”, mas sim um “bicho”. Logo após essa afirmação, ele faz a seguinte reflexão: “Isto para ele era motivo de orgulho. Sim senhor, um bicho, capaz de vencer dificuldades. Chegara naquela situação medonha – e ali estava, forte, até gordo, fumando o seu cigarro de palha” (Idem, p. 19). Nesse aspecto, percebemos que a palavra “bicho” ganha outra significação, a transferência de sentido para “bicho” se dá como forma positiva. Para Fabiano, “bicho” equivale a ter força e determinação para vencer os obstáculos. Essa identificação torna-se motivo de orgulho para ele, pois um bicho é capaz de passar por situações difíceis e insuportáveis.  Em seguida, a personagem reflete novamente sobre a representação simbólica do termo “bicho” relacionada com sua identidade. Isso podemos observar em:

 

Um bicho, Fabiano.

Era. Apossara-se da casa porque não tinha onde cair morto, passara uns dias mastigando raiz de imbu e sementes de mucunã. Viera a trovoada. E, com ela, o fazendeiro, que o expulsara. Fabiano fizera-se de desentendido e oferecera os seus préstimos, resmungando, coçando os cotovelos, sorrindo aflito. O jeito que tinha era ficar. E o patrão aceitara-o, entregara-lhe as marcas de ferro.

RAMOS, 2010, p. 19. (Grifo nosso).

 

Nessa categorização, “– Um bicho, Fabiano”, a transferência de significados para a palavra “bicho” equivale às condições subumanas as quais Fabiano se encontrava, já que ele viu-se obrigado a invadir uma casa alheia e alimentava-se de raízes e sementes. Essa identificação com um bicho não provoca orgulho como na nomeação anterior, mas sim um sentimento de tristeza e desgosto para Fabiano. Essa analogia com o bicho faz com que o protagonista reflita sobre algumas de suas condições, como por exemplo, o fato de não dispor de casa e nem condições de providenciar alimentação adequada para sua família.

Em suma, percebemos que Fabiano tem um dilema interno quanto a estabelecer sua identidade. Essa última consideração pode ser entendida na perspectiva que a construção da identidade do protagonista é influenciada pelo modo como ele se vê diante do mundo. Quando ele reflete sobre as situações em que ele se viu obrigado a enfrentar, como a falta de alimento, moradia, água, estudo e principalmente respeito, ele não se vê como um homem diante da sociedade, mas sim como um bicho.

Relacionando essas três referenciações que Fabiano faz de si, analisadas até o momento, podemos perceber uma degradação quanto à extensão das frases: “Fabiano, você é um homem, exclamou em voz alta”; “Você é um bicho, Fabiano” e “Um bicho, Fabiano”. Segundo Marcel Cressot (1980), as frases longas podem remeter a sensações de doçura ou fluidez, ao passo que as frases curtas possivelmente apontam para uma fragmentação quanto as informações apresentadas, elas também são mais secas e objetivas. Observando a primeira categorização, “Fabiano, você é um homem, exclamou em voz alta”, notamos que sua estrutura é maior em relação às outras. Do mesmo modo, identificamos que ela foi produzida em contexto no qual Fabiano pensava nas coisas boas do seu presente. Já na segunda, “Você é um bicho, Fabiano”, o termo “Fabiano” é trocado de posição. Na primeira, a ênfase do enunciado está em “Fabiano”, nessa última o realce está em “Você é um bicho”. Atentando para a terceira, “Um bicho, Fabiano”, identificamos que ela perde os termos “Você” e “é”, tornando-se um enunciado mais seco e objetivo.

Associamos essa última reflexão com o contexto da personagem, constatamos que Fabiano está triste ao refletir sobre sua semelhança com um bicho. Nesse sentido, inferimos que os sentimentos de Fabiano são alternados quanto à produção dessas categorizações de si. Nas duas primeiras, ele faz uma identificação positiva com os referentes “homem” e “bicho”, porém, na terceira, seu referente “bicho” assume simbolização negativa. Por conseguinte, percebemos que os sentimentos de Fabiano são ajustados quanto ao estilo das produções das categorias.

Retornamos para as análises das categorizações de Fabiano. Nesse sentido, reparemos em:

[Fabiano] Deu estalos com os dedos. A cachorra Baleia, aos saltos, veio lamber-lhe as mãos grossas e cabeludas. Fabiano recebeu a carícia, enterneceu-se:

Você é um bicho, Baleia.

Vivia longe dos homens, só se dava com animais. Os seus pés duros quebravam espinhos e não sentiam a quentura da terra. Montado, confundia-se com cavalo, grudava-se a ele. E falava uma linguagem cantada, monossilábica e gutural, que o companheiro entendia. A pé, não se aguentava bem. Pendia para um lado, para o outro lado, cambaio, torto e feio. Às vezes utilizava nas relações com as pessoas a mesma língua com que se dirigia aos brutos – exclamações, onomatopeias.

RAMOS, 2010, p. 20. (Grifo nosso).

 

Como observamos, as três categorizações analisadas eram direcionadas diretamente para a figura de Fabiano. Todavia, em “Você é um bicho, Baleia”, em um primeiro momento podemos acreditar não haver ligações entre essa com as anteriores.

Contudo, inferimos que enquanto as outras referenciações estavam associadas ao contexto social, histórico e econômico de Fabiano, essa última está relacionada com seus aspectos físicos e comportamentais. Como também identificamos ser possivelmente uma categorização implícita do protagonista. Ou seja, quando Fabiano categoriza a cachorra Baleia, o narrador apresenta algumas semelhanças de Fabiano com animais. Isso percebemos pelo fato de serem tecidas algumas informações a respeito dos comportamentos e os aspectos físicos da personagem que são equivalente aos dos animais, como a dificuldade em se comunicar com as outras pessoas e a maneira cambaleante de andar.

Nossa reflexão sobre a categorização pode ser relacionada com a produção da identidade de Fabiano, ao qual identificamos o processo de incluir e excluir semelhanças com algum referente. Para isso, podemos atentar à explicação posterior da categorização, visto ser realizado o processo de inclusão de características animalescas na corporalidade de Fabiano, como em: “Montado, confundia-se com cavalo, grudava-se a ele. E falava uma linguagem cantada, monossilábica e gutural, que o companheiro entendia. A pé, não se aguentava bem”.

Ao final do capítulo, Fabiano volta a pensar na seca e na possibilidade de sua extinção. Em seguida, ele teme o retorno da seca e de sua morte. O protagonista não deseja morrer, pelo contrário, seu desejo é viver muito e tornar-se um homem capaz de andar de cabeça erguida. Isso podemos observar nas seguintes reflexões:

 

Virou o rosto para fugir à curiosidade dos filhos, benzeu-se. Não queria morrer. Ainda tencionava correr mundo, ver terras, conhecer gente importante como seu Tomás da bolandeira. Era uma sorte ruim, mas Fabiano desejava brigar com ela, sentir-se com força para brigar com ela e vencê-la. Não queira morrer. Estava escondido no mato como tatu. Duro, lerdo como tatu. Mas um dia sairia da toca, andaria com a cabeça levantada, seria homem.

Um homem, Fabiano.

Coçou o queixo cabeludo, parou, reacendeu o cigarro. Não, provavelmente não seria homem: seria aquilo mesmo a vida inteira, cabra, governado pelos brancos, quase uma rês na fazenda alheia.

RAMOS, 2010, p. 24. (Grifo nosso).

 

Averiguando esse fragmento, podemos notar o desejo de Fabiano em viver, uma vez que o enunciado “Não queria morrer” é utilizado duas vezes no primeiro parágrafo, alcançando-se assim uma ênfase de expressão. Além do mais, o protagonista sente o desígnio de conhecer pessoas importantes e sentir-se como um homem. Desse modo, a autonomeação utilizada “Um homem, Fabiano” pode representar sua vontade em ter sua identidade equivalente à de um homem.

Não obstante, após ter bons pensamentos sobre seu futuro, ele chega à conclusão de que provavelmente ele continuaria se identificando como um “bicho”. Esse pensamento é construído na consciência de Fabiano quando ele tem a percepção sobre sua condição de subordinado aos outros homens. Nesse sentido, seu contexto social de retirante, ao qual não lhe permite ter uma casa, um emprego fixo, educação, alimentação adequada e assim por diante influencia no modo como ele constrói a imagem de si.

 

CONSIDERAÇÕES FINAIS

Em suma, é possível observar como as categorizações podem funcionar como um recurso de processamento psicológico da personagem Fabiano, no qual ele identifica um referente externo e realiza um reconhecimento de si através do significado simbólico desse referente. Por conseguinte, ao se autorreferenciar, o protagonista, possivelmente, arquiteta sobre alguns aspectos de sua identidade.

Outra consideração a ser feita a respeito das categorizações é que elas são apresentadas na narrativa na forma do discurso direto, ao passo que as reflexões na mente de Fabiano estão no discurso indireto livre. A relação entre essas duas formas discursivas na narrativa permite perceber que os conflitos internos de Fabiano são representados pelo uso desses dois recursos. Geralmente, quando o protagonista fala por meio do discurso direto ele apresenta uma certeza quanto à sua identidade, porém são nos pensamentos dele que as dúvidas, as incertezas e os conflitos surgem. Estes que são apresentados para os leitores por meio do narrador com o recurso do discurso indireto livre.

Enfim, podemos perceber que os aspectos sociais influenciam, em certa medida, no psicológico, e consequentemente, nas identificações que Fabiano faz de si. Assim há uma constante dialética entre o social e o psicológico no âmago da personagem, que influencia em seus pensamentos e ações. Dessa forma, podemos ver que Vidas secas é uma obra que retrata muito mais além do que a seca nordestina.

REFERÊNCIAS

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CRISTÓVÃO, Fernando Alves. Graciliano Ramos: estrutura e valores de um modo de narrar. 3ª ed. Rio de Janeiro: José Olympio, 1986.

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RAMOS, Graciliano. Vidas secas. 114ª ed. Rio de Janeiro: Record, 2010.

 



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