Revista Mulheres e Literatura – vol.14 – 1º semestre - 2015



O NÃO-LUGAR EM ELIZABETH BISHOP: ESPAÇO E DESCOLONIZAÇÃO DE SI – Tiago Barbosa da Silva





 

 

Tiago Barbosa da Silva

 

Doutorado em Teoria Literária

– Universidade Federal de Pernambuco

 

 

Resumo: As composições de Elizabeth Bishop refletem uma atitude que caracteriza os lugares por onde transitou como não-lugares; fragmentos do espaço nos quais não há uma relação forte entre o espaço e o sujeito (SÁ, 2006), que vive marcado pela constante sensação de não pertencimento. Com base em Hall (2006), pode-se dizer que isso é típico do sujeito traduzido, marcado pela ausência de uma fixação identitária ao lugar, o que pode, em nível interpessoal, originar-se da imposição de um poder colonizador sobre o indivíduo (QUIJANO, 2005). Nesse trabalho, observaremos como se dá essa relação, definindo não-lugar a partir das discussões de Augé (1995), para assim revelar como a obra de Bishop representa essa relação diferenciada com o espaço.

 

Palavras-Chave: Elizabeth Bishop, espaço, não-lugar, descolonização de si.

 

Abstract: Elizabeth Bishop’s compositions depict an attitude that characterizes the places she has been to as non-places; spaces of transience that do not hold enough significance to attach individuals (SA, 2006). To Hall (2006), translated subjects endure this particular relation with space as they lack the sense of belonging. In interpersonal level, this may be a result of ‘colonizing forces’ acting over individuals (Quijano, 2005). In this paper, we define non-place after Marc Augé (1995) and analyze how Elizabeth Bishop represents it in her work.

 

Key words: Elizabeth Bishop, space, non-place, decolonization of the self.

 

 

Minicurrículo: Possui graduação em Letras – Língua Inglesa pela Universidade Federal de Campina Grande (2008), graduação em Direito (2009) e mestrado em Desenvolvimento Regional (2012) pela Universidade Estadual da Paraíba. Atualmente, é professor de língua inglesa no Instituto Federal de Sergipe e aluno no Programa de Pós-graduação em Letras, com foco em Teoria Literária, da Universidade Federal de Pernambuco, onde tem se dedicado ao estudo das representações do não-lugar nas literaturas de língua inglesa contemporâneas, atuando na linha de pesquisa Literatura, Sociedade e Memória.

 

 

O NÃO-LUGAR EM ELIZABETH BISHOP: ESPAÇO E DESCOLONIZAÇÃO DE SI

 

 

Tiago Barbosa da Silva

 

Doutorado em Teoria Literária

– Universidade Federal de Pernambuco

 

 

Introdução

Em seu Non-lieux, Marc Augé (1995) trata da supermodernidade e de suas três principais características: a superabundância de eventos, a superabundância de espaço e a individualização das referências, sendo o nosso tempo marcado pelo excesso desses três elementos, que produzem, em certo sentido, não-lugares. Na versão inglesa de seu livro, o título em francês, non-lieux, foi traduzido por John Howe como non-places, reforçando a ideia de que lugar é onde o sujeito se sente em casa, já que place é coloquialmente utilizado para substituir home. Essa ampliação do sentindo de lieu ajuda a entender o não-lugar – um fragmento do espaço com o qual não se forma uma relação histórica, relacional e identitária, sendo, portanto, oposto aos lugares antropológicos. Em razão disso, instaura-se uma pulsão permanente pelo deslocamento. Esse trabalho defende a tese de que a vida e a obra de Elizabeth Bishop refletem uma relação com o espaço assim, constituída ainda muito cedo, quando de sua remoção para os Estados Unidos, onde não compartilhava os modos e práticas culturais que regiam a forma de habitar, revelando uma identificação recorrente com elementos marginais, com pessoas externas ao núcleo familiar, com espaços vazios e com um espaço do afeto ausente e diferente. Assim, passou a ocupar uma posição gauche e a habitar a viagem; comportamento/característica reforçada por deslocamentos constantes que sobrepuseram novas espacialidades a sua original – Great Village, alçada a condição de grande referência, a partir da qual dava sentido a sua movimentação e ao mundo ao redor. A posição gauche ou queer que ocupou no mundo é também uma forma de revolta individual contra a ordem instituída, contra o padrão de poder prevalente, contra, em nível interpessoal, o ‘poder colonizador’ que normaliza os sujeitos e os insere dentro de um sistema, cuja marca principal é a inferiorização de alguns.

 

Espaço, lugar e não-lugar

Para Santos (1988, p. 10), o conceito de espaço só pode ser encontrado a partir de relações com outras realidades, já que ele é um conjunto indissociável composto, de um lado, por objetos geográficos, naturais e sociais e, por outro, pela “vida que os prende, que os preenche e os anima”; cada elemento do todo maior, cada forma presente no espaço contém e ao mesmo tempo está contida nele (SANTOS, 1986). O espaço, obviamente, não é uniforme, nem acabado, podendo ser compreendido como um processo permanente de “tornar-se”, uma “espacialização” que existe enquanto processo de confluência, interrupção e coagulação de fluxos para a qual não existe uma “última instância” (Haesbaert; Bruce, s/d). Brandão (2007) apresenta uma distinção entre espaço e lugar. O primeiro seria uma espécie de universo indeterminado no qual estão inseridos os lugares; já o segundo diz respeito às referências contextualizadas responsáveis pela atribuição de concretude às personagens. Em outras palavras, o espaço se configuraria como um todo maior no qual as realizações humanas aconteceriam e que, em razão das pressões exercidas em diferentes níveis, se fragmentaria em partes menores, em lugares, criando diferenças individuais, culturais, sociais, históricas etc.

É nas pequenas partes dessa fragmentação, construídas a partir de relações sociais, que se realiza o vivido, que se garante a constituição de uma rede de significados e sentidos originados do processo histórico e cultural, que se cria a identidade homem-lugar. Por conseguinte, o lugar “se define, inicialmente, como a identidade histórica que liga o homem ao local onde se processa a vida” e é nele que se “manifestam os desequilíbrios, as situações de conflito e as tendências da sociedade” (CARLOS, 2007, p. 22). Para Walter (2012, p. 140):

 

(…) a maneira como as pessoas habitam um lugar – seu imaginário, episteme cultural, língua, gestos, maneira de falar vestir, etc – é determinada por este lugar: o que é verdade/realidade num lugar e para um determinado grupo necessariamente não o é para outro.

 

Essa relação com o lugar, contudo, nem sempre é tão forte, já que pode-se estar em um fragmento do espaço e não necessariamente assentir com sua episteme, com seu jeito de habitá-lo. Para Augé (1995), somente alguns fragmentos do espaço apresentam essa característica: os lugares antropológicos, que são identitários, históricos e relacionais. Aqueles que não apresentam, característicos da supermodernidade, são não-lugares, pois pressupõem um desligamento do sujeito com o espaço imediato e não permitem a vinculação/fixação da identidade com o lugar em que a pessoa se encontra, já que esse tem um caráter transitório. Para Sá (2006), o lugar e o não-lugar se configuram a partir da relação que cada indivíduo mantém com o fragmento do espaço; o não-lugar, assim, também compreende posturas e atitudes individuais do sujeito. São essas posturas e atitudes individuais que acredito estarem representadas na obra de Elizabeth Bishop, cuja vida foi marcada por deslocamentos constantes.

Aos oito meses de idade, perdeu seu pai. Alguns anos depois, sua mãe foi outra vez internada em um manicômio, de onde nunca mais saiu. Até os cinco anos de idade, Elizabeth morou em Great Village, Nova Escócia, Canadá, com os avós maternos, sendo posteriormente removida para Worcester, Massachusetts, para a casa dos pais de seu pai. Esse período é objeto de alguns textos de memória escritos quando viveu no Brasil, como The Country Mouse, no qual fala de sua mudança ‘forçada’ para os Estados Unidos e sobre suas primeiras experiências nesse novo fragmento de espaço.

A casa dos avós paternos, por sua localização em uma antiga área agrícola, não compunha o cenário urbano, nem o rural – uma casa estranha, explorada pela narradora como uma gata – sorrateira, silenciosa e solitária. Na maior parte do tempo, ocupava a sala da frente, seu cômodo preferido, raramente utilizado pelos outros membros da família; via-se como uma outcast; uma exilada que não participava do núcleo familiar. A casa é vista como um lugar triste, escuro, velho e grande, com alterações em sua arquitetura original que desconsideravam seu estilo colonial pré-revolucionário, formando uma espécie de Frankenstein arquitetônico, preservado a todo custo assim como os dentes do avô. Sua relocalização nesse fragmento do espaço, do qual não compartilha o imaginário, a episteme cultural, o jeito de falar a língua, o jeito de se vestir, pode ser responsável por sua inserção em um mundo de não pertencimento, já que não se estabelece uma relação direta entre sua memória e a experiência vivida.

A partir do que revela em The Country Mouse, pode-se dizer que Bishop manteve uma conexão muito mais forte com a casa dos avós maternos; com os erres invertidos dos canadenses de Nova Escócia; com a simplicidade desse lugar e com o olho de vidro de sua avó materna. A casa de Great Village faz parte de seu cotidiano enquanto ausência, como o lugar em que gostaria de estar, sendo portanto her place; aquele fragmento do espaço com o qual mantinha uma relação histórica, relacional e identitária. Podemos dizer, então, que é a partir dele que significa as movimentações de sua vida e com o qual estabelece uma identificação mais forte, construída através de relações sociais concretizadas no plano do vivido e que garantiram a constituição de uma rede de significados e sentidos tecidos por sua história e cultura.

Reencontrar esse lugar tornou-se uma questão representada de forma recorrente em sua obra. Se tomarmos o caranguejo desgarrado de Strayed Crab como exemplo disso, os versos das primeiras linhas do texto poderiam ser expressões da pequena Elizabeth: “This is not my home. How did I get so far from water? It must be over that way somewhere”.1 O caranguejo não se sentia parte do espaço imediato no qual está inserido, uma superfície macia e estranha. Seu desconforto é o de quem está perdido e busca encontrar seu lar: “But on this strange, smooth surface I am making too much noise. I wasn’t meant for this. If I maneuver a bit and keep a
sharp lookout, I shall find my pool again.
Watch out for my right
claw, all passersby
”.2  Contudo, não há como saber onde é casa desse eu que, para Sperling (2012), habita o deslocamento; é essencialmente desgarrado, como pode ser mais uma vez visto na última estrofe de Questions of Travel (Questões de viagem):

 

 

Continent, city, country, society:the choice is never wide and free.

And here, or there… No. Should we have stayed at [home,

wherever that may be?

Continente, cidade, país: não é tão sobejaa escolha, a liberdade, quanto deseja.

Aqui, ali… Não. Teria sido melhor ficar em [casa,

Onde quer que isso seja?

 

 

Além dessa incompletude permanente, Bishop empreende, ao longo de sua vida, deslocamentos espaciais recorrentes, representado uma pulsão constante, um desejo invencível de migrar. Assim, graças à herança que recebeu de seu pai, passou boa parte da vida viajando. Em uma apreciação dos títulos dos poemas reunidos em seus livros, pode se perceber que a geografia, a viagem, o ser diferente, de tipo gauche (queer), são motivos recorrentes em suas composições. Em North and South, livro publicado em 1946, temos: The Map (O Mapa); The Imaginary Iceberg (O Iceberg Imaginário); Florida (Flórida); Paris, 7 a.m. (Paris, 7 da Manhã); The Man-Moth (O homem mariposa); The Weed (A Erva), a erva daninha. No livro Questions of Travel (Questões de viagem), publicado em 1965, além do poema que dá nome ao livro, temos: Arrival at Santos (Chegada em Santos); Brazil, January 1, 1502 (Brasil, 1º de Janeiro de 1502); e referências a bichos esquisitos e seres humanos excêntricos, no sentido de fora do centro, como The Armadillo (O Tatu); Manuelzinho; The Riverman (O Ribeirinho) e The Burglar of Babylon (O ladrão da Babilônia).

Em Crusoe in England (Crusoé na Inglaterra), fala de um pesadelo no qual infinitas ilhas surgiam e se somavam a sua ilha solitária, nem redescoberta, nem rebatizada. As ilhas se multiplicam, como ovos de sapos se transformando em girinos, diante de um sujeito ciente de que teria que viver em cada nova ilha, registrando sua fauna, flora e geografia. Essa era sua “sina3”, viver por muitas eras, na condição de forasteira. Há, apesar do distanciamento e descrição que a poeta sempre fez questão de manter, um reconhecimento de sua condição de ser em deslocamento. Sua relação com a viagem é tão marcante que em, Edgar Allan Poe and the Juke-Box (2006), que reúne textos não concluídos datados entre 1911 e 1979, a editora Alice Quinn usa a geografia como critério de classificação das composições; além de períodos de tempo, menciona as cidades das quais a poeta fala. Assim, as composições escritas no período do Brasil, aparecem agrupados da seguinte forma: 1951-1956 – Brazil, Seatle, New York. Nos textos, referências geográficas e a outros deslocamentos aparecem frequentemente.

Já em One Art (Uma arte), publicado no livro Geography III (Geografia III), representa uma tomada de consciência de sua condição de desenraizada, que precisa desfazer-se, de tempos em tempos, de sua própria vida. Esse desfazer-se transcorre com dificuldade em alguém que perde três casas, duas cidades, dois rios, reinos, e, até mesmo, um continente. Para o eu do poema, as coisas já contêm em si o intento de serem perdidas, ou retiradas dela, que não se acostumou com o pertencer, mas com a viagem. Assim, comprou uma casa em Ouro Preto, uma “casa de brincar” (MARTINS, 2006), nomeada de Casa Mariana, em homenagem à poeta Marienne Moore, e que representa seu último vínculo com o Brasil, enquanto dividia-se entre Ouro Preto, o Rio de Janeiro e Seattle, onde começou a dar aulas no final de 1965.

Em cartas, Bishop revela que aceitou o convite para lecionar por sentir que tinha que ir embora. Vai, então, morar em São Francisco, Califórnia, de onde escreveu para uma velha amiga (apud BRITTO, 2012): “O apartamento é bem grande, claro e ensolarado. Mas, meu Deus, como tenho saudades do Brasil!” e reconheceu que, apesar de São Francisco ser uma cidade muito bonita, “depois de morar em Samambaia e no Rio, nunca mais vou achar graça em paisagem nenhuma”. Contraditório, no entanto, perceber que desde o início de sua estada no Rio de Janeiro sempre demonstrou seu desagrado por essa cidade, descrita por ela como um lugar de muita bagunça, debilitante, “uma mistura de cidade do México e Miami” (ibid).

Em 1969, regressa para sua terra natal, a região de Boston, passa a morar em Cambridge e torna-se poeta residente da Universidade de Harvard. Lá, conhece Alice Methfessel, sua última companheira, e reassume suas raízes na região da Nova Inglaterra, Estado de Massachusetts. Desse novo fragmento do espaço, outro passa a ser referência permanente – o Brasil, particularmente, o Rio e Samambaia, espaços que, juntamente com a figura de Lota nunca estão muito longe e, assim, passam a representar outro espaço-tempo do afeto e do pertencimento perdido.

 

Estigma e resistência: por uma descolonização do ser

Nem todos os sujeitos se submetem voluntariamente a uma nova ordem, particularmente uma ordem opressiva e que empurrava alguns para à ribeira. Num contexto assim, não pertencer, ocupar a margem é uma alternativa viável frente à exclusão, já que há uma redução da liberdade e há uma discrepância em termos de poder e de participação entre os indivíduos, que, oprimidos, desejam evadir das más “condições de existência (as relações sociais, o meio ambiente, as assimetrias do poder, o acesso à esfera pública de participação, a liberdade dos seres humanos etc)” (CAVALCANTI, 2007, p. 10). Nesse sentido, a resistência a assimilação das regras e valores excludentes é um tipo de oposição, uma oposição ao lócus opressor, um sinal que aponta para um outro lugar e tempo, poderoso para a formação política (ibidem) e consequentemente para a desarticulação do estigma.

Resistir à assimilação é lutar contra o peso simbólico negativo que é atribuído, em determinado contexto, a uma característica do sujeito. Para Goffman (1963, p. 12), o efeito dessa atribuição é o de reduzir o sujeito a uma de suas características, posicionando-o como “pessoa estragada e diminuída”. Isso acontece em razão da nossa tendência de “inferir outras imperfeições a partir de uma imperfeição original” (ibidem, p. 15). Resistir, no entanto, não significa eliminar a pressão estigmatizadora, já que “a sociedade estabelece os meios de categorizar as pessoas e o total de atributos considerados como comuns e naturais para os membros de cada uma dessas categorias” (ibidem, p. 11), que funcionam como gaiolas ou prisões que são, constantemente, impostas a sujeitos que buscam, constantemente, escapar.

A partir do que e de como narra em The Country Mouse, pode-se perceber que Elizabeth resistiu e ‘adotou’ a margem como seu lugar. Na casa dos avós paternos, nunca tinha seus desejos e necessidades reconhecidos e as coisas trazidas da Nova Escócia com as quais se identificava, até seus erres invertidos, eram rejeitados pelos novos familiares, de quem pouco sabia. Essa interpretação da realidade a configura como um sujeito marginal, queer, um tipo gauche e excêntrico; por um lado, afastada do centro familiar/social, deslocada e desenraizada, e, por outro, incompatível com o meio sociocultural (MARTINS, 2006), como pode ser visto no fragmento a seguir:

 

I had been brought back unconsulted and against my wishes to the house my father had been born in, to be saved from a life of poverty and provincialism, bare feet, suet puddings, unsanitary school slates, perhaps even from the inverted r’s of my mother’s family. With this surprising extra set of grandparents, until a few weeks ago no more than names, a new life was about to begin. It was a day that seemed to include months in it, or even years, a whole unknown past I was made to feel I should have known about, and a strange, unpredictable future (BISHOP, 2011, p. 89).4

Em outra passagem, demonstra como suas bonecas foram tidas como velhas e inadequadas pela avó e substituídas por bonecas novas; uma destas foi vestida pela avó com roupas monocromáticas escuras e nomeada com o nome Drussilla, tão desagradável para a garotinha que a própria Bishop chamava-a apenas de the doll.  Desse modo, não conseguia simplesmente ser/pertencer e desfrutar disso, como é explicitado no fragmento abaixo:

 

Yes, I was beginning to enjoy myself a little, if only Grandma hadn’t had such a confusing way of talking. It was almost as if we were playing house. She would speak of “grandma” and “little girls” and “fathers” and “being good” – things I had never before considered in the abstract, or rarely in the third person. In particular, there seemed to be much, much more to being a “little girl” than I had realized: the prospect was beginning to depress me. And now she said, “Where’s your doll? Where’s Drussila?”5 (BISHOP, 2011, p. 88).

Em razão dessa ‘opção política’, simbolizada na recusa do nome da boneca, Bishop escolhe o mundo como casa e transforma-se em permanente estrangeira, reduzindo as escalas, proliferando imagens e referências, a partir de deslocamentos constantes, significando sua movimentação a partir de dois lugares: Nova Escócia, o lugar do afeto e do acolhimento, e Samambaia, no Rio de Janeiro, o lugar do amor romântico. Nesse sentido, transformou-se em ser diaspórico, mantendo vínculos com um lugar prévio de forma suficientemente forte a resistir ao desmantelamento por meio de processos normalizadores como o esquecimento, a assimilação e o distanciamento (CLIFFORD, 2011).

Ao mesmo tempo em que transfere novas regras e valores, o processo de educação ao qual foi submetida reforça o seu não pertencimento e insatisfação. A incompreensão dos padrões culturais desse novo lugar, que lhe eram transferidos de forma muito abstrata, pareciam-lhe construir uma autoimagem deficitária, incompleta e inadequada frente ao que era esperado dela pela avó. Assim, sem saber onde era o seu lugar, projeta-se em um movimento de prospecção de um outro, um bom-lugar, sempre ausente. Partindo de Quijano (2005), seus deslocamentos são importantes para a reconfiguração do “padrão de poder” existente em seu fragmento de espaço imediato, já que desarticula as formas de controle e a hegemonia que imperam e reduzem um ser e sua forma de habitar a algo inferior.

 

Considerações finais

Nesse ensaio, partimos do pressuposto de que a obra e a vida da escritora Elizabeth Bishop revelam um processo típico do nosso tempo – uma relação com o não-lugar. Impossibilitada de negociar os termos e condições de vida da casa em que morou a partir dos cinco anos de idade, adotou a margem como posição primeira e passou a habitar a viagem. Essas escolhas são também um gesto político, que a liberta do peso de viver estigmatizada em uma ordem em que as práticas de poder, em certo sentido, também colonizadoras, impunham-lhe um condição de inferior. Para Hall (2006), adota a condição de ser ‘traduzido’; de ser transferido entre fronteiras, já que seu processo de formação identitário é atravessado por várias culturas, várias casas, vários lugares, que permanecem, mesmo ausentes, interferindo em suas relações com o espaço-tempo presente.

A partir dos cinco anos de idade, em suas inúmeras mudanças e viagens, Bishop, como representou em suas composições, viveu construindo e desconstruindo agenciamentos com novos e recorrentes espaços-tempos. Em certo sentido, a expansão de seu espaço, ou a sobreposição de uma nova espacialidade àquela anteriormente conhecida, reduz o seu lugar, Great Village, a uma referência. Retomando Marc Augé (1995), a expansão do espaço do homem, simbolizado pelos primeiros passos da humanidade no espaço sideral, reduz o nosso próprio espaço a um ponto infinitesimal, provocando uma mudança de parâmetros perceptível na própria mudança de escala. Em outros termos, ao expandir seu espaço, Bishop se percebeu diferente dos novos outros e a vila canadense deixou de ser o centro de sua experiência vivida, permanecendo, no entanto, como espaço afetivo, histórico, relacional. Suas obra e vida são, portanto, marcadas por reações de estranhamento; como se fosse forasteira em cada nova situação – a garotinha da Nova Escócia posta, novamente, em um mundo que não é seu.

 

NOTAS

 

1Quando não indicado em nota de rodapé, a tradução será, como essa, de Paulo Henriques Brito (2012): “Aqui não é a minha casa. Como fui parar tão longe da água? Deve ser para lá.”

2Mas nessa superfície estranha, lisa, faço barulho demais. Não fui feito para isto. Se eu manobrar um pouco e ficar de olho atento, hei de reencontrar minha poça. Cuidado com minha garra direita, passantes!

3A palavra sina é utilizada na tradução de Britto (2012).

4Tradução nossa: Eu fui levada de volta sem ser consultada e contra a minha vontade para a casa na qual meu pai havia nascido, para ser salva de uma vida de pobreza e provincialismo, uma vida de pés descalços, de pudins de sebo, de escolas insalubres revestidas de pedras de ardósia, talvez, para ser salva, até mesmo, dos erres invertidos da família de minha mãe. Com esse surpreendente par de novos avós, poucas semanas atrás não mais que um par de nomes, uma vida nova estava prestes a começar. Era um dia que parecia incluir meses dentro dele, ou até anos, todo um passado desconhecido que eu me fiz sentir que devia conhecer, e um estranho, imprevisível futuro.

5Tradução nossa: Sim, eu começava a me divertir um pouco; se ao menos vovó não tivesse um jeito confuso de falar. É quase como se nós estivéssemos brincando de boneca. Ela falava de “vovó” e de “garotinhas” e de “pais” e de “ser boa” – coisas que eu nunca tinha considerado em abstrato antes, ou raramente na terceira pessoa. Em particular, parecia existir muito, muito mais em ser uma garotinha do que eu podia perceber: a expectativa começava a me deprimir. Então ela disse: – Onde está sua boneca? Onde está Drussila?

 

Referências

 

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