ESCRITORES



O MULATO





Autor: Aloísio de Azevedo
Título: O MULATO, DER MULATTE
Tradutor: Michael O. Güsten
Data de entrada no site: 23/12/2004

O MULATO

I

Aloísio de Azevedo

Era um dia abafadiço e aborrecido. A pobre cidade de S. Luiz do Maranhão parecia entorpecida pelo calor. Quasi que se não podia sahir à rua: as pedras escaldavam; as vidraças e os lampeões faiscavam ao sol corno enormes diamantes; as paredes tinham reverberações de prata polida; as folhas das arvores nem se mexiam; as carroças d’agoa passavam ruidosamente a todo o instante, abalando os predios; e os aguadeiros, em mangas de camiza e pernas arregaçadas, invadiam sem ceremonia as casas para encher as banheiras e os potes. Em certos pontos não se encontrava viva alma na rua; tudo estava, concentrado, adormecido; só os pretos faziam as compras para o jantar ou andavam no ganho.

A praça d’Alegria apresentava um ar funebre. De um casebre miseravel, de porta e janella, ouviam-se gemer os armadores enferrujados de urna rede e uma voz tisica e aflautada, de mulher, cantar em falsete a « gentil Carolina era bella »; d’outro lado da praça, uma preta velha, vergada por immenso taboleiro de madeira, sujo, seboso, cheio de sangue e coberto por uma nuvem de moscas, apregoava em tom muito arrastado e melancolico: « Figado, rins e coração! » Era uma vendedeira de fatos de boi. As crianças nuas, com as perninhas tortas pelo costume de cavalgar as ilhargas maternas, as cabeças avermelhadas pelo sol, a pelle crestada, os ventrezinhos amarellentos e crescidos, corriam e guinchavam, empinando papagaios de papel. Um ou outro branco, levado pela necessidade de sahir, atravessava a rua, suado, vermelho, afogueado, à sombra de um enorme chapeu de sol. Os cães, estendidos pelas calçadas, tinham uivos que pareciam gemidos humanos, movimentos irasciveis. Mordiam o ar querendo morder os mosquitos. Ao longe, para as bandas de S. Pantaleão, ouvia-se apregoar: « Arroz de Veneza! Mangas! Mocajubas! » As esquinas, nas quitandas vazias, fermentava um cheiro acre de sabão da terra e agoardente. O quitandeiro, assentado sobre o balcão, cochilava a sua preguiça morrinhenta, acariciando o seu immenso e espalmado pé descalço. Da praia de Santo Antonio enchiam toda a cidade os sons invariaveis e monotonos de uma busina, annunciando que os pescadores chegavam do mar; para lá convergiam, apressadas e cheias de interesse, as peixeiras, quasi todas negras, muito gordas, o taboleiro na cabeça, rebolando os grossos quadris tremulos e as tetas opulentas.

A Praia-Grande e a rua da Estrella contrastavam todavia com o resto da cidade, porque era aquella hora justamente a de maior movimento commercial. Em todas as direcções cruzavam-se homens esbofados e rubros; cruzavam-se os negros no carreto e os caixeiros que estavam em serviço na rua; avultavam os paletós saccos, de brim pardo, mosqueados nas espaduas e nos sovacos par grandes manchas de suor. Os correctores de escravos examinavam, à plena luz do sol, os negros e moleques que ali estavam para ser vendidos; revistavam-lhes os dentes, os pés e as verilhas; faziam-lhes perguntas sobre perguntas; batiam-lhes com a biqueira do chapeu nos hombros e nas coxas, experimentando-lhes o vigor da musculatura, corno se estivessem a comprar cavallos. Na Casa da Praça, debaixo das amendoeiras, nas portadas dos armazens, entre pilhas de caixões de ceboulas e batatas portuguezas, discutiam-se o cambio, o preço do algodão, a taxa do assucar, a tarifa dos generos nacionaes; volumosos commendadores resolviam negócios, faziam transações, perdiam, ganhavam, tratavam de embarrilar uns aos outros, com muita manha de gente de negocios, fallando n’uma gíria só delles, trocando chalaças pesadas, mas em plena confiança de amizade. Os leitoeiros cantavam em voz alta o preço das mercadorias, com um abrimento affectado de vogaes; diziam: «Mal rais » em vez de mil reis. A’ porta dos leilões agglomeravam-se os que queriam comprar e os simples curiosos. Corria um quente e grosseiro zum-zum de feira.

O leiloeiro tinha piscos d’olhos significativos; de martello em punho, enthusiasmado, o ar tragico, mostrava com o braço erguido um calice de cachaça, ou, comicamente acocorado, esbrocava com o furador os paneiros de farinha e de milho. E, quando chegava a occasião de ceder a fazenda, repetia o preço muitas vezes, gritando, e afinal batia o martello com grande barulho, arrastando a voz em um tom cantado e estridente.

Viam-se deslizar pela praça os imponentes e monstruosos abdomens dos capitalistas; viam-se cabeças escarlates e descabelladas, gotejando suor por debaixo do chapeu de pello; risinhos de protecção, boccas sem bigode dilatadas pelo color, perninhas espertas e suadas na calça de brim de Hamburgo. E toda esta actividade, posto que um tanto fingida, era geral e communicativa; até os ricos ociosos, que iam para ali encher o dia, e os caixeiros, que « faziam cera » e até os proprios vadios desempregados, apparentavam diligencia e promptidão.

A varanda ao sobrado de Manoel Pescada, uma varanda larga e sem forro no tecto, deixando ver as ripas e os caibros que sustentavam as telhas, tinha um aspecto mais ou menos pittoresco com a sua bella vista sobre o rio Bacanga e as suas rotulas pintadas de verde-Paris. Toda ella abria para o quintal, estreito e longo, onde, a mingoa de sol, se mirravam duas tristes pitangueiras e passeiava solemnemente um pavão da terra.

As paredes, barradas de azulejos portuguezes e, para o alto, cobertas de papel pintado, mostravam, nos seus desenhos repetidos de assumptos de caça, alguns logares sem tinta, cujas manchas brancacentas traziam à idéa joelheiras de calças surradas. Ao lado, dominando a mesa de jantar, aprumava-se um velho almario de jacarandá polido, muito bem tratado, com as vidraças bem limpas, expondo as pratas e as porcelanas de gosto moderno; a um canto dormia, esquecida na sua caixa de pinho envernisado, uma machina de costura de Wilson, das primeiras que chegaram ao Maranhão; nos intervallos das portas symetrisavam-se quatro estudos de Julien, representando em lithographia as estações do anno; defronte do guarda-louça um relogio de corrente embalava melancolicamente a sua pendula do tamanho de um prato e apontava para as duas horas. Duas bolas da tarde.

Não obstante, ainda permanecia sobre a mesa a louça que servira ao almoço. Uma garrafa branca, com uns restos de vinho de Lisboa, scintillava à claridade reverberante que vinha do quintal. De uma gaiola, dependurada entre as janellas desse lado, chilreava um sabiá.

Fazia preguiça estar ali. A viração do Bacanga refrescava o ar da varanda e dava ao ambiente um tom morno e aprazivel. Havia a quietação dos dias inuteis, uma vontade lassa de fechar os olhos e esticar as pernas. Lá defronte, nas margens oppostas do rio, a silenciosa vegetação do Anjo da Guarda estava a provocar bôas sestas sobre o capim, debaixo das mangueiras; as arvores pareciam abrir de longe os braços, chamando a gente para a calma tepidez das suas sombras.

– Então, Anna Rosa, que me respondes?… disse Manoel, esticando-se mais na cadeira em que se achava assentado, à cabeceira da mesa; em frente da filha. Bem sabes que te não contrario… desejo este casamento, desejo… mas, em primeiro logar, convém saber se elle é do teu gosto… Vamos… falla!

Ana Rosa não respondeu e continuou muito embebida, como estava, a rolar sob a ponta côr de rosa dos seus dedos as migalhas de pão que ia encontrando sobre a toalha.

(…).

____

Fonte: Azevedo, Aluísio. O Mulato. 5a ed. Rio de Janeiro: Garnier, 1927. p. 9-13.

DER MULATTE

1

Aluísio de Azevedo

DER TAG WAR SCHWÜL UND LANGWEILIG. Wie betäubt lag die armselige Stadt São Luiz do Maranhão* in der Hitze. Kaum konnte man die Strassen betreten; die Pflastersteine glühten; silbrig flimmerten die Mauern, und die Fenster und Strassenlampen gleissten in der Sonne wie riesige Diamanten. An den Bäumen bewegte sich kein Blatt. Alle Augenblicke schepperten Wasserkarren vorüber, dass die Häuser erbebten. In Hemdsärmeln und mit aufgekrempelten Hosen gingen die Wasserträger in die Häuser, um Badewannen und Kannen zu füllen. Dann war wieder keine Seele auf der Strasse zu sehen. Die Bewohner der Stadt hatten sich zurückgezogen und schliefen. Nur die Sklaven kauften für das Mittagessen ein oder gingen ihrer Arbeit nach.

Die Praça da Alegria bot einen trostlosen Anblick. Aus Tür und Fenster einer elenden Hütte drang das Seufzen verrosteter Hängemattenringe. Eine Frau sang mit schwindsüchtiger, flötender Falsettstimme eine Volksweise. Auf der anderen Seite des Platzes pries eine alte Negerin mit schleppender, melancholischer Stimme „Leber, Herz, Nieren” an. Von einer FIiegenwolke umschwirrt, gebeugt unter der Last eines schweren Brettes, schmutzig und blutverschmiert, ging sie über den Platz. Kreischend liefen nackte Kinder hinter aufsteigenden Drachen her. Sie hatten versengte Haut und von der Sonne gerötete Gesichter, ihre Bäuche waren aufgequollen und die Beine krumm von der Sitte, auf dem Rücken der Mutter zu reiten. Hin und wieder überquerte ein Weisser unter einem grossen Sonnenschirm schweissnass und rot vor Hitze die Strasse. Auf den Treppen lagen Hunde. Sie gaben Laute von sich, die menschlichen Seufzern glichen, und schnappten nach den Mücken. Von São Pantaleão drangen Rufe herüber: ,,Venezianischer Reis! Mangofrüchte! Mocajubas!” Aus den leeren Marktbuden an den Ecken quoll scharfer Seifen- und Branntweingeruch. Ein Budenbesitzer hockte auf dem Ladentisch, duselte vor sich hin und kraulte seinen grossen, nackten Plattfuss. In der ganzen Stadt hörte man den eintönigen, gleichmässigen Laut des Signalhorns in Santo Antonio, das die Rückkehr der Fischer vom Meer verkündete.

Eilig und begierig strömten die Fischweiber dorthin. Sie trugen Tablette auf dem Kopf und waren fast alle schwarz und dick. Ihre fetten Hüften und schweren Brüste wabbelten.

An der Praia Grande und in der Rua da Estrêla sah es ganz anders aus als in der übrigen Stadt. Dort herrschte gerade zu dieser Tageszeit reges geschäftliches Treiben. Aus allen Richtungen kommend, strömten in diesem Teil der Stadt ausser Atem geratene Männer, Neger auf Karren und Kommis zusammen. Dort herrschten sackartige Jacken aus dunklem Segeltuch vor, die auf dern Rücken und unter den Achseln durchgeschwitzt waren. Sklavenmakler untersuchten in der grellen Sonne Neger und Negerknaben, die zum Verkauf angeboten wurden. Sie musterten Zähne, Füsse und Schamteile, stellten Fragen über Fragen, beklopften mit der Schirmspitze Hüften und Schenkel und betasteten die Muskeln, als ginge es um einen Pferdekauf. Im Stadthaus, unter den Mandelbäumen oder vor den Ladentüren zwischen aufgetürmten Kisten mit Zwiebeln und portugiesischen Kartoffeln debattierte man über den Börsenkurs, über die Baumwollpreise, die Zuckersteuer und den Tarif der einheimischen Waren. Dicke Händler machten Geschäfte, strichen Gewinne ein oder buchten Verluste und versuchten, einander übers Ohr zu hauen, wobei sic derbe Scherzworte in ihrer Gaunersprache tauschten: doch alles ging freundschaftlich und vertraulich vor sich. Auktionäre verkündeten lauthals den Preis ihrer Waren. Um sie scharten sich Kauflustige und Neugierige. Auf dem Markt ging es laut und lebhaft zu.

Der Auktionär blinzelte bedeutsam. Den Hammer in der Hand, wies er grossspurig und theatralisch ein Schnapsg1as vor. Oder er prüfte, komisch zusammengekauert, mit einem Locheisen die Maniokund Maiskörbe. Sobald sich ein Geschäft dem Abschluss näherte, wiederholte er viele Male, markerschütternd singend und schreiend, den Preis und schlug am Ende dröhnend mit dem Hammer auf den Tisch.

Auf dem Platz sah man die schweren, fetten Leiber der Kapitalisten, sah man erhitzte, schweissglänzende, zerfahrene Gesichter unter Sonnenschirmen und vor Hitze aufgesperrte Münder, sah man rastlose, schwitzende Beine in Hamburger Tuchhosen, hörte man gönnerhaftes Auflachen. Überall war Geschäftigkeit, sie ergriff alle, wiewohl mancher sie nur vorgab. Doch selbst die reichen Faulenzer, die nur hierherkamen, um die Zeit totzuschlagen, die Kommis, die nur schwatzten, und die Armen, die keine rechte Arbeit hatten, schienen sich eifrig und fleissig zu betätigen.

Die geräumige Veranda am Hause Manuel Pescadas bot einen recht malerischen Anblick. Sie hatte keine Deckenverschalung, so dass die Balken und Sparren zu sehen waren, auf denen die Dachziegel ruhten. Man hatte von hier eine herrliche Aussicht auf den Bacangafluss. Die Jalousien waren in Pariser Grün gehalten. Die Veranda führte auf einen langen, schmalen Garten, in dem zwei Myrtenbäume mangels Sonnenlichts kümmerten und ein Pfau feierlich einherstolzierte.

Die Wände waren mit bunten portugiesischen Fliesen ausgelegt. Sic zeigten Jagdszenen, unterbrocben von einigen farblosen Stellen, die fleckiges Papier verdeckte, so dass sie nun als weissblonde Flecken wie ausgebeulte, verblichene Hosen aussahen. Auf der einen Seite stand neben einem Tisch ein alter, guterhaltener Schrank aus Jakarandaholz, hinter dessen blankgeputzten Scheiben Porzellan und Silbergerät modernen Geschmacks glänzten. In der einen Ecke schlief in einem Kasten aus lackiertem Fichtenholz vergessen eine Wilson-Nähmaschine, eine der ersten ihrer Art, die nach Maranhão gekommen war. An der Wand zwischen den Türen hingen, symmetrisch geordnet, Lithografien, die vier Jahreszeiten darstellend. Dem Geschirrschrank gegenüber schwang eine Standuhr melancholisch ihr tellergrosses Pendel. Es war zwei Uhr nachmittags. Trotzdem stand auf dem Tisch ein Frühstücksgedeck. In einer Karaffe mit einem Rest Lissabonner Weins spiegelte sich das Licit aus dem Garten wider. Zwischen den Fenstern auf dieser Seite hing ein Käfig, in dem eine Sabiá zwitscherte.

Hier fühlte man sich wohl. Vom Bacanga her wehte ein frischer Lufthauch, es war angenehm kühl. Hier war die Ruhe müssiger Tage. Man war müde und hatte den Wunsch, die Augen zu schliessen und die Beine auszustrecken. Drüben, am anderen Ufer des Flusses, lud die in tiefem Schweigen liegende Vegetation zum Ausruhen ein im Sand unter den Mangobäumen, die von fern aussahen, als riefen sie mit offenen Armen die Menschen in die stille Kühle ihrer Schatten.

„Nun, Ana Rosa, was antwortest du mir?” fragte Manuel und rekelte sich auf seinem Stuhl am Kopfende des Tisches. Vor ihm sass seine Tochter. ,,Du weisst doch, dass ich nur dein Bestes will. Ich wünsche diese Heirat, ich will sie… Aber zunächst möchte ich wissen, ob du einverstanden bist. Nun… Sprich!”

Ana Rosa antwortete nicht. Sic drehte Brotkrumen über dem Teller.

(…).

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Fonte: Azevedo, Aluizio. Der Mulatte. Aus dem Portugiesischen von Michael O. Güsten. Berlim: Verlag Volk und Welt, 1964. p. 5-9.

 

 



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