Revista LitCult – Vol.12 – 2º semestre 2016



O MEDO E A LOUCURA DA REALIDADE FICCIONAL: ANÁLISE DO CONTO “O HORLA”, DE GUY DE MAUPASSANT – Caio Vitor Marques Miranda, Cláudia Cristina Ferreira





O MEDO E A LOUCURA DA REALIDADE FICCIONAL: ANÁLISE DO CONTO “O HORLA”, DE GUY DE MAUPASSANT

 

 

Caio Vitor Marques Miranda

Universidade Estadual de Londrina

 

Cláudia Cristina Ferreira

Universidade Estadual de Londrina

 

 

Resumo: O presente trabalho almeja analisar o conto “O Horla”, de Guy Maupassant, que apresenta relatos de um homem em progressivo estado de insanidade e incita uma ameaça invisível com relativo grau de realismo psicológico e verossimilhança, e ao decorrer da história, a sanidade de seu personagem e seus sentimentos são questionados, enquanto o personagem invisível, o Horla, aos poucos, domina seus pensamentos. Para a realização desta análise, recorre-se o embasamento teórico aos estudos efetivados por Todorov, Vax, Rodrigues e Roas que possuem obras pioneiras no gênero. Para tanto, será levado em conta o fato de que a busca pelo inexplicável, a magia e o irreal fazem parte do mundo fantástico, um mundo em que a ficção concerne à realidade, e são elementos assim que dominam as obras pertencentes a este gênero, que, há muitos anos, vem despertando no leitor uma necessidade por saber mais.

 

Palavras-chave: Medo; Literatura fantástica; Guy Maupassant.

 

Resúmen: El presente trabajo busca analizar el cuento “O Harla”, de Guy de Maupassant, que presenta relatos de un hombre en progresivo estado de insania e incita una amenaza invisible con relativo grado de realismo psicológico y verosímil, y al desarrollar de la historia, la insania de su personaje y sus sentimientos son cuestionados, mientras el personaje invisible, el Horla, a los pocos, domina sus pensamientos. Para la realización de este análisis, se recurre el embasamientos teóricos a los estudios efectuados por Todorov, Vax, Rodrigues y Roas que poseen obras pioneras en el género. Para tanto, será llevado a cabo el hecho de que la búsqueda por lo inexplicable, la magía y lo irreal hacen parte del mundo fantástico, un mundo donde la ficción concierne a la realidad, y son elementos así, que dominan las obras pertenecientes a lo fantástico, el cual, hace muchos años, se ha despertado una necesidad por saber más del lector.

 

Palabras-clave: Miedo; Literatura fantástica; Guy Maupassant.

 

Minicurrículo: Caio Vitor Marques Miranda: Mestrando em Letras Estrangeiras Modernas pela Universidade Estadual de Londrina (UEL) com a pesquisa em Literatura e Ensino e graduado pela mesma universidade em Letras – Licenciatura em Língua Espanhola e Respectivas Literaturas (2013). Possui experiência na área de Letras Vernáculas e Estrangeiras Modernas. Atualmente é professor de Espanhol no Colégio Bom Jesus de Rolândia e no cursinho pré-vestibular Prime, e de Literatura Brasileira no Colégio Interativa Londrina e no cursinho Especial da UEL, CEPV. A orientadora do Mestrado é a Profa. Dra. Claudia Critina Ferreira, da Universidade Estadual de Londrina.

 

 

O MEDO E A LOUCURA DA REALIDADE FICCIONAL: ANÁLISE DO CONTO “O HORLA”,

DE GUY DE MAUPASSANT

 

 

Caio Vitor Marques Miranda

Universidade Estadual de Londrina

 

Cláudia Cristina Ferreira

Universidade Estadual de Londrina

 

 

  1. Introdução

A literatura fantástica sob o viés da loucura tem traçado seu percurso no decorrer dos anos. Criando cenários sombrios, permeados pela dúvida, a literatura fantástica possibilita a instauração ou a presença da desordem psíquica em um universo paralelo ambíguo e incerto. Normalidade e anormalidade, sanidade e loucura, tudo se confunde. As fronteiras se expandem, esfumaçando ou apagando os limites entre esses binômios.

A presença da loucura em contos fantásticos que abordam a alienação, o delírio ou a demência é temática contemplada na obra contística de alguns escritores, como: Guy de Maupassant, H. P. Lovecraft ou Ambrose Bierce.

A literatura fantástica rompe com rótulos e explicações racionais, científicas e cartesianas ao possibilitar a presença ou a existência de elementos insólitos e sobrenaturais, convivendo em harmonia com o real. Nesse sentido, a loucura pode ser considerada natural e/ou aceita sem hesitação, enquanto que a sobriedade, questionada.

Dentro deste contexto, faz-se interessante observarmos algumas definições de loucura e termos afins para que possamos compreender melhor a presença e a associação da loucura nesta vertente literária.

Louco, portanto, é aquele sujeito cujo comportamento ou raciocínio denota alterações patológicas das faculdades mentais, aquele cujos atos e palavras parecem extravagantes, desarrazoados. A loucura é a doença/distúrbio que o louco possui. No entanto, Foucault, professor e filósofo, em seu livro História da loucura na literatura (2010), define o louco como:

 

O louco afasta-se da razão, mas pondo em jogo imagens, crenças, raciocínios encontrados, tais quais, no homem de razão. Portanto, o louco não pode ser louco para si mesmo, mas apenas aos olhos de um terceiro que, somente este, pode distinguir o exercício da razão da própria razão (FOUCAULT, 2010, p.186).

 

Assim, desde tempos remotos, encontramos, na literatura, histórias em que o louco/a loucura se torna um fator relevante do enredo, apresentando suas diversas faces. Num panorama geral, podemos começar nos mitos, nos mais clássicos, como a troiana Cassandra.  O deus Apolo concede a Cassandra o dom da profecia, mas como ela não quis ficar com ele, o deus faz com que ninguém acredite no que ela diz. Assim, todos a consideram louca. Ela vive presa numa torre, gritando e sofrendo, pois sabe que as desgraças vão acontecer, mas não pode impedir, pois ninguém acredita nela, todo mundo pensa que suas profecias são mentira. Tendo, assim, um fim trágico.

O herói grego Ájax, por exemplo, que pertence ao ciclo da guerra de Troia, após perder a disputa pelas armas de Aquiles para Ulisses, tem um ataque de loucura e mata vários guerreiros. Depois deste surto, ao descobrir o que fez, ele se mata.

Temos, também, O Alienista, de Machado de Assis, em que o cenário é a casa verde, um tipo de manicômio; o considerável número de contos do Guy de Maupassant, que no final de sua vida, foi diagnosticado com doença mental; a coletânea de contos de Leopoldo Lugones, autor argentino, que com a incursão do fantástico, faz crítica ao cientificismo, ou ainda, a grande obra de Cervantes, El ingenioso Don Quijote de la Mancha.

Entretanto, na literatura, nos deparamos com muitos outros elementos ou fatores chave das narrativas, como o terror, a presença de bruxas e magias, situações inexplicáveis científica ou racionalmente, surreais ou até irreais, provocando, no leitor, uma sensação de medo, mistério ou curiosidade por saber mais. Vislumbrando, neste contexto, a literatura fantástica.

Assim, o presente trabalho almeja realizar uma possível leitura da segunda versão do conto O Horla, de Guy de Maupassant, pelo viés do fantástico, salientando a sensação de medo que o personagem principal sofre durante toda história e ainda o estado de loucura em que se encontra. Como aporte teórico, utilizamos autores pioneiros desta temática, como as ideias de Todorov (2010) presentes no livro Introdução à literatura fantástica e de Roas (2011), presentes no livro Tras los límites de lo real. Una definición de lo fantástico.

 

  1. Em terras fantásticas: Como definir este gênero?

Sabemos que na literatura se manifestam tendências inacabadas, que não se concluem em rótulos determinados, visto que o trabalho de criação é renovado através dos tempos, e que a literatura foi e continua sendo uma linguagem aberta, que permite modificar a ideia do que hoje é, ou não, considerado literatura. Assim, ocorre com o fantástico.

O termo fantástico pode significar: “aquilo que só existe na imaginação, na fantasia; o fora do comum; extraordinário, prodigioso” (HOUAISS, 2001). A literatura fantástica tornou-se, sobretudo nas últimas décadas do século XX, um tema recorrente na literatura contemporânea, sendo objetivo de várias análises literárias, que em sua compreensão, o fantástico mantém, em sentido lato, essas mesmas acepções, e delas sucedem traços únicos ou definidores desse gênero incerto, dependendo da proposta de que parte cada estudioso. Várias foram as tentativas de definições do fantástico realizadas por teóricos literários. Para conter o mundo fantástico na literatura, expomos alguns como: Castex (1951), Vax (1965) e Todorov (1975).

Castex (1951), estudioso sobre a literatura fantástica na França, estabelece:

 

O fantástico não se confunde com as histórias de invenção convencionais, como as narrações mitológicas ou os contos de fadas, que implicam uma transferência da nossa mente para um outro mundo. O fantástico, ao contrário, é caracterizado por uma invasão repentina do mistério no quadro da vida real; está ligado, em geral, aos estados mórbidos da consciência, a qual, em fenômenos como aqueles dos pesadelos ou do delírio, projeta diante de si as imagens das suas angústias e dos seus horrores (CASTEX, 1951, p. 8).

 

Para esse teórico, o fantástico seria histórias muito próximas à realidade, chocando-se com o impossível, e esta invasão faz com que o leitor entre em conflito com ele mesmo sobre o que é ficção e realidade. É isso que faz do fantástico um gênero único, inconfundível, e caracterizado pelo sobrenatural.

Vax (1965), também francês, é um estudioso e um dos precursores do surrealismo artístico, segundo o qual o fantástico não deve somente fazer uma irrupção no real, mas precisa que o real lhe estenda os braços, consinta com a sua sedução, ou seja, esta sedução pode ser considerada um elemento deste gênero, mas para que este encanto ocorra, o real deve ceder-lhe espaço.

Todorov (1975) foi um dos grandes estudiosos que teorizou sobre o fantástico, destacando-se por ter sido o primeiro a organizar o estudo do fantástico, até então pouco discutido. Todorov em Introdução à literatura fantástica (1992) elabora um estudo mais detalhado e consistente nas características da literatura fantástica, ele retoma as definições dadas pelos especialistas franceses Castex (1951), Caillois (1966) e Vax (1960), e logo no segundo capítulo do livro, ele aborda Alvare, o personagem principal do livro de Cazotte, Le diable amoureux, que vive uma história de ambiguidade até o fim da ficção, e Todorov (2010) consolida:

 

Somos assim transportados ao âmago do fantástico. Num mundo que é exatamente o nosso, aquele que conhecemos, sem diabos, sílfides nem vampiros, produz-se um acontecimento que não pode ser explicado pelas leis deste mesmo mundo familiar. Aquele que o percebe deve optar por uma das duas soluções possíveis; ou se trata de uma ilusão dos sentimentos, de um produto da imaginação e nesse caso as leis do mundo continuam a ser o que são; ou então o acontecimento realmente ocorreu, é parte integrante da realidade, mas nesse caso esta realidade é regida por leis desconhecidas para nós. (…) O fantástico ocorre nesta incerteza; (…) (TODOROV, 2010, p. 31).

 

Por conseguinte, define o fantástico como sendo “a hesitação experimentada por um ser que só conhece as leis naturais, face a um acontecimento aparentemente sobrenatural” (TODOROV, 1992, p. 31). Em outras palavras, o fantástico habita a hesitação do leitor diante de fatos insólitos, que vão contra a ordem natural, fazendo com que a dúvida perante estes acontecimentos permaneçam até o fim da narrativa. Esta hesitação do leitor é apontada por Todorov (1992), como uma marca principal do fantástico. Portanto, o autor vê o fantástico como um produto de três fatores que são essenciais em obras desta natureza:

 

Primeiro, é preciso que o texto obrigue ao leitor a considerar o mundo das personagens como um mundo de criaturas vivas e hesitar entre uma explicação natural uma explicação sobrenatural dos acontecimentos evocados. A seguir, esta hesitação pode ser igualmente experimentada por uma personagem; desta forma o papel do leitor é, por assim dizer, confiado a uma personagem e ao mesmo tempo a hesitação encontra-se representada, torna-se um dos temas da obra; no caso de uma leitura ingênua, o leitor real se identifica como a personagem. Enfim, é importante que o leitor adote uma certa atitude para com o texto: ele recusará tanto a interpretação alegórica quanto a interpretação “poética”. Estas três condições não têm valor igual. A primeira e a terceira constituem verdadeiramente o gênero; a segunda pode não ser satisfeita (TODOROV, 1992, p. 39).

 

Logo, a hesitação provoca no leitor uma espécie de reflexo, uma atitude que rejeite a leitura metafórica da obra, o que terminaria com a hesitação requerida, com uma possível condição, a identificação do leitor com uma personagem. Para que haja esta hesitação, compreensão da narrativa, mais uma vez, há de se fechar os olhos para a realidade, e mergulhar-se para um mundo de possibilidades, fantasias, mistérios, um mundo em que a presença do sobrenatural é habitual.

Caillois (1980), outro escritor francês e compilador de antologias, em uma de suas definições, em 1958, diz que o fantástico é a violação de uma regularidade imutável, e o elemento principal do fantástico é a aparição, ou seja, é o que não pode aparecer, mas aparece, manifestando na narrativa o inadmissível. A definição de Caillois (op.cit.) está próxima à definição de Vax (1960), pois em ambas as definições há uma invasão do inadmissível, um conflito do real com o impossível. O que não poderia/deveria ocorrer em uma realidade racional, acaba ocorrendo.

Lovecraft (2007), escritor norte americano, é outro autor que vê o fantástico a partir da relação que estabelece com seu leitor e da sua reação. Dedicou-se a histórias de terror e medo. Para ele, o fantástico reside no modo como o leitor recebe o texto, no envolvimento da obra com o público. Para que um conto receba o rótulo de fantástico, é preciso que este “suscite ou não o leitor um sentimento de profunda apreensão e de contato com esferas diferentes e forças desconhecidas” (LOVECRAFT, 2007, p. 5-6). Ou seja, há de se fechar os olhos para a realidade, para que haja um envolvimento ou uma interação entre leitor e texto.

 

  1. Análise do conto

 

“Quando ouço pronunciar a palavra guerra sinto um pavor como se me falassem de Bruxaria, de inquisição, de uma coisa longínqua, abominável, monstruosa, contra a natureza.”

Guy de Maupassant

 

Henry René Albert Guy de Maupassant nasceu em 1850, em Tourville-sur-Arques (França). Estudou no liceu de Ruão, foi colaborador por oito anos dos Ministérios da Marinha e da Instrução Pública. Em 1870, Maupassant foi para Paris e lá se firmou como contista. Sua obra é conhecida por retratar situações psicológicas e também por fazer críticas sociais, usando a técnica naturalista.

Foi entre os anos de 1875 e 1885, que Maupassant mais produziu textos, cerca de 300 histórias curtas, que se tornaram internacionalmente conhecidas, como Bola de sebo, O Colar, Uma aventura parisiense, Mademoiselle Fifi, Miss Harriett e O Horla. Tornou-se, com a grande aceitação de suas obras, um escritor rico e famoso. Mas o problema com a sífilis o fazia ter pesadelos constantes, atormentando-o por mais de uma década. Em 1892, ele tentou suicídio. Em consequência desse ato desesperado, foi internado em um manicômio, onde morreu no ano seguinte, com apenas 43 anos.

Em um de seus textos deixados, O Horla, escrito em 1887, narra a transformação psicológica de seu personagem, um senhor francês, em progressivo estado de insanidade; relata-nos cerca de 4 meses da sua vida por meio de um diário, manifestando todo o sofrimento com a presença de um ser invisível que o persegue por meses, não conseguindo livrar-se dele.

O Horla, conto de cunho realista psicológico que aborda paulatina e progressivamente o inquietante, a loucura, a paranoia, a demência e a obsessão, influenciou outros escritores, como: H. P. Lovecraft (O Chamado de Cthulhu) e Ambrose Bierce (A coisa maldita).

Vale salientar que tal obra possui duas versões. A primeira linear, com narrativa baseada em fatos já ocorridos. A segunda, em ordem cronológica, possui narrador em primeira pessoa, quem relata os acontecimentos com datas precisas (dia e mês exatos), fato que concede maior verossimilhança à narrativa.

No conto, o personagem autodiegético inicia seu relato com os elementos que estão ao seu redor: “8 de maio – que dia lindo! Passei toda a manhã deitado na relva, na frente da minha casa, sob o enorme plátano que a cobre, a abriga e a sombreia por inteiro” (MAUPASSANT, 2006, 239).

A história tem como espaço predominante a casa do protagonista, cenário baseado na casa de seu amigo Gustave Flaubert, que não consegue abandonar por conta das lembranças que guarda da sua infância. Às vezes, este espaço se estende a outras cidades da França. O personagem relata dias normais, feliz com a vida que leva, até que, de repente, de um dia para o outro, ele começa a se sentir doente, e é esta doença que o leva a sentir uma sensação de perigo iminente, tal como um pressentimento.

 

16 de maio – decididamente estou doente! Eu estava tão bem o mês passado! Estou com febre, uma febre atroz, ou, melhor dizendo, um abatimento febril, que faz minha alma sofrer tanto quanto meu corpo! (MAUPASSANT, 2006, 240).

 

É durante o período noturno que coisas estranhas passam a acontecer. No quinto dia de seu relato, o senhor francês alega estar estranho, com medo, “um medo confuso e irresistível, o medo do sono e o medo da cama” e não consegue se concentrar para dormir. A presença do medo se permeia em todo o conto, e em vários momentos o personagem relata suas emoções, e o medo que sente.

Quando finalmente consegue adormecer, começa a sonhar e sentir que tem alguém se aproximando dele, que o olha, apalpa-o, sobe na sua cama, ajoelha-se sobre seu peito, agarra-o pelo pescoço entre as mãos e o aperta com muita força.

Transcorrido algum tempo, o estado do personagem se agrava cada vez mais. No sétimo dia, ele decide fazer uma pequena viagem para outra cidade. Ao retornar, tudo parece estar bem; entretanto, ele se sente perseguido e começa a pensar que está louco.

Certa noite, algo insólito ocorre. Antes de dormir, bebeu um copo de água e viu que a garrafa estava cheia, mas ao acordar de um pesadelo, observou que a garrafa se encontrava vazia:

 

Tudo recobrado a razão, senti sede outra vez; acendi uma vela e fui até a mesa sobre a qual estava minha garrafa. Levantei-a, inclinando-a sobre meu copo: nada escorreu. Estava vazia! Estava completamente vazia! (MAUPASSANT, 2006, 245).

 

O personagem se questiona sobre tal acontecimento, achando que realmente está louco. O roubo da água volta a acontecer, sucessivamente, por vários dias e, novamente, ele decide viajar; uma espécie de fuga, para solucionar os problemas que vinha enfrentando dentro de casa. Lá, ele visita uma prima e presencia um hipnotismo que o deixa perturbado.

No dia que retorna, aparentemente, tudo está normal, até ouvir uma discussão entre seus criados (…) Eles afirmam que alguém quebra os copos, à noite, nos armários. O criado de quarto acusa a cozinheira, que acusa a lavandeira, que acusa os outros dois. Quem é o culpado. Idiota quem dissesse! (MAUPASSANT, 2006, 252).

Logo, no mesmo dia, vê uma cena muito intrigante. Passeando pelos seus canteiros de roseiras, algo anormal acontece:

 

(…) Quando parei para olhar uma “gigante das batalhas” que tinha três flores magníficas, eu vi, eu vi perfeitamente, bem perto de mim, a haste de uma dessas rosas dobrar, como se uma mão invisível a entortasse, depois se quebrar, como se a mesma mão a tivesse colhido! Depois a flor se ergueu, descrevendo uma curva que teria feito um braço levantando-a até uma boca, e ficou suspensa no ar transparente, sozinha, imóvel, apavorante mancha vermelha a três palmos de meus olhos (MAUPASSANT, 2006, 252).

 

A partir daqui, são os elementos fantásticos que dominam o conto. Uma vez mais, o ser invisível bebe sua água e o medo vai possuindo o senhor francês, que já não sabe o que fazer, e aos poucos, vai ficando sem força, não tendo mais controle de certas atitudes.

No trigésimo sexto dia, o senhor francês lê uma notícia de uma revista:

 

Uma notícia um tanto curiosa nos chega do Rio de janeiro. Uma loucura, uma epidemia de loucura, comparável às demências contagiosas que atingiram os povos da Europa da Idade Média, grassa neste momento na província de São Paulo. Os habitantes apavorados deixam suas casas, desertam de suas aldeias, abandonam suas culturas, dizendo-se perseguidos, possuídos, governados como gado humano por seres invisíveis (…) (MAUPASSANT, 2006, 257).

 

Após ler e refletir muito sobre a notícia que recebera, percebe a chegada do ser invisível que o persegue, começa a dizer um nome: Horla. É este o nome desta força sobrenatural, do ser que há meses vem sugando a vitalidade do senhor francês.

19 de agosto é o dia em que o senhor francês decide:

 

(…) Vou matá-lo. Eu o vi! Sentei-me à mesa ontem à noite; e fingi escrever com muita atenção. Eu sabia que ele viria rondar em volta de mim, bem perto que talvez eu conseguisse tocá-lo, agarrá-lo! E então… então eu teria a força dos desesperados; eu teria minhas mãos, meus joelhos, meu peito, minha testa, meus dentes para estrangulá-lo, esmagá-lo, mordê-lo, rasgá-lo (MAUPASSANT, 2006, 259).

 

O Horla foge, e o senhor consegue montar uma armadilha para prendê-lo e livrá-lo de todo aquele tormento. Tranca-se em seu quarto e, quando sente a presença do Horla, começa a caminhar em direção à porta. Sai do quarto, passa a chave na porta, joga todo o óleo no tapete, nos móveis, em toda parte, e ateia fogo.

 

(…) eu olhava para minha casa e esperava. Como demorou! Eu já achava que o fogo tinha apagado sozinho, ou que Ele o tivesse apagado, quando uma das janelas do térreo explodiu sob a pressão do incêndio e uma chama, uma grande chama vermelha e amarela, comprida, mole, acariciante, subiu pela parede branca e beijou-a até o telhado (…) (MAUPASSANT, 2006, 261).

 

A convicção/neurose de capturar o Horla era tão grande que o senhor se esqueceu de seus empregados, que estavam dentro da casa. Horrorizado com isso, começa a pedir ajuda, mas já era tarde. A casa já era uma fogueira horrível e magnífica, e que, de repente, veio abaixo. Para ele, o Horla estava morto, mas como matar um ser que não tinha um corpo? Assim, somente a própria morte aparenta ser a única solução para livrar-se do ser invisível e temível, o Horla: “Não… não… sem dúvida… ele não está morto… então… então… vai ser preciso que eu me mate!…” (MAUPASSANT, 2006, 262).

O tormento psicológico vivenciado na casa fez com que o narrador/personagem questionasse sua sanidade e adentrasse o cenário sombrio permeado pela incerteza e pelo insólito, o que o fez progredir da angústia à loucura/demência/obsessão, apresentando-nos um desfecho surpreendente.

 

  1. Considerações finais

Podemos constatar as contribuições da obra de Maupassant para a literatura fantástica mundial. Influenciado por Gustave Flaubert e modelo para muitos outros escritores contemporâneos ou posteriores, Maupassant foi um mestre do relato breve, deixando-nos mais de trezentos contos que devem ser considerados e analisados pelo seu teor qualitativo e não somente quantitativo.

Diagnosticado com distúrbio mental, Maupassant exerceu com excelência a arte da escrita. Sua obra fascina e inspira muitos pelo mundo afora, consagrando-se como verdadeiros clássicos canônicos.

No conto analisado, observamos a presença da loucura como um ingrediente que dá sabor peculiar à obra de cunho fantástico, incitando a imaginação do leitor e enriquecendo ainda mais a leitura.

 

REFERÊNCIAS

 

COSTA, Flávio Moreira da (2006). Os melhores contos fantásticos. Rio de Janeiro: Nova Fronteira.

Eudave, Cecilia (2008). Sobre lo fantástico mexicano. Orlando: Letra Roja..

ROAS, David (2008). Tras los límites de lo real: una definición de lo fantástico. Madrid: Páginas de Espuma.

TODOROV, Tzvetan (1981). Introdução à literatura fantástica. São Paulo: Perspectiva.

VAX, Louis (1983). A arte e a literatura fantástica. Lisboa: Arcádia.

CESARINI, Remo. (2006). O Fantástico. Trad. Nilson Cezar Tridapalli. Curitiba: UFPR.

CHIAMPI, Islemar (1980). O realismo Maravilhoso. São Paulo: Perspectiva.

FOUCAULT, Michel (2012). História da loucura: na idade clássica. São Paulo: Perspectiva.



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