Revista LitCult – Vol.13 - 1º semestre – 2017



O JAPONISMO GÓTICO DE LAFCADIO HEARN – Edelson Geraldo Gonçalves





 Edelson Geraldo Gonçalves

Universidade Federal do Espírito Santo (UFES)

 

Resumo: No presente artigo será feita a análise de como os contos fantásticos de Lafcadio Hearn contidos em livros como Kwaidan e A Japanese Miscellany inserem-se na tradição da literatura japonista, e como também a temática desses contos contribui para inserir seu trabalho ficcional na tradição da literatura gótica.

Palavras-chave: Lafcadio Hearn, contos, japonismo, literatura gótica.

Abstract: This article will analyse how the fantastic tales by Lafcadio Hearn included in books such as Kwaidan and A Japanese Miscellany are part of the Japonist literary tradition. It will also examine how the theme of these stories can allow us to classify his fictional work also in the Gothic literature tradition.

Keywords: Lafcadio Hearn, tales, Japonism, Gothic literature.

Minicurrículo: Edelson Geraldo Gonçalves é doutorando em História Social das relações Políticas pela Universidade Federal do Espírito Santo (UFES), com bolsa de estudos concedida pela Fundação de Amparo à Pesquisa e Inovação do Espírito Santo (FAPES). Possui também mestrado em História Social das Relações Políticas pela UFES, e experiência no ensino de História nos níveis fundamental, médio e superior.

 


 

O JAPONISMO GÓTICO DE LAFCADIO HEARN

 

Edelson Geraldo Gonçalves

Universidade Federal do Espírito Santo (UFES)

 

 

Introdução

Lafcadio Hearn (1850-1904) é conhecido como uma referência no estudo da cultura japonesa, sendo também um autor de destaque no campo da literatura fantástica, principalmente por seus contos baseados no folclore japonês, sendo os de maior sucesso aqueles que compõem o livro Kwaidan, a mais difundida entre as obras do autor, sendo inclusive o único de seus trabalhos publicado no Brasil.

O presente artigo terá como tema a literatura fantástica desse autor, abordando a forma como essa compõe a tradição o do japonismo da segunda metade do século XIX, assim como parte da tradição da literatura gótica. Para isso faremos uma apresentação do autor e de sua obra, uma exposição sobre a natureza do japonismo e por fim uma análise das características gerais que são comuns nos contos fantásticos de Lafcadio Hearn.

 

O Autor

Lafcadio Hearn foi um escritor grego-irlandês que fez sua carreira literária escrevendo para o público de língua inglesa; primeiramente como jornalista nos EUA, onde se destacou como tradutor de literatura francesa e também por seus artigos sobre a vida dos afro-americanos de Nova Orleans.

Além de escrever vários artigos e um livro, de grande valor etnográfico enquanto viveu nos EUA até 1890, Hearn também foi romancista e contista, primeiramente com os livros de contos Stray Leaves From Strange Literature (uma coletânea de contos fantásticos originários de várias culturas), de 1884, e Some Chinese Ghosts (uma coletânea de contos chineses de fantasmas) de 1887. Posteriormente publicou os romances Chita (1889), uma história que tem como pano de fundo a chegada do Tufão de Last Island na Louisiana em 1856, e Youma (1890) romance que tem como motivo as revoltas de escravos na Martinica na década de 1840).

Em 1890 Hearn viajou ao Japão, com o objetivo de estudar a cultura e o cotidiano do povo japonês, buscando o coração (kokoro) do Japão em sua tentativa de decifrar e compreender temas como as emoções e espiritualidade desse povo (HEARN, 1910, p. ii).

Para cumprir tal objetivo Hearn passou os últimos quatorze anos de sua vida entre os japoneses, tendo se naturalizado japonês, adotando o nome de Yakumo Koizumi, trabalhado como professor e jornalista e constituído família nesse país.

Dessa forma no intervalo entre 1894 e 1905 foram publicados quatorze livros de Lafcadio Hearn que tiveram o Japão como tema[1], publicações que o marcaram na época e ainda hoje como uma das grandes referências sobre a interpretação da cultura japonesa.

Nesses livros Hearn tratou de vários temas: estudos etnológicos, folclore, religião, política, relatos de viagens, etc. Mas além disso o autor também publicou entre seus escritos vários contos ambientados no Japão, sendo em sua maioria histórias fantásticas de fantasmas e duendes, assuntos que estavam entre as grandes paixões desse escritor, sendo inclusive dentro dessa temática que se localiza seu livro mais famoso (e seu único trabalho publicado no Brasil), Kwaidan: Stories and Studies of Strange Things[2].

Tais escritos pertencem a um gênero artístico específico, o japonismo, tema que abordaremos no próximo tópico.

 

O Japonismo

 

O termo japonismo (japonisme) foi cunhado pelo colecionador e crítico de arte francês Philippe Burty (1830-1890) como o título de um artigo seu na revista La Renaissance artistique et littéraire, na edição de maio de 1872 – fevereiro de 1873, termo esse também traduzido para o inglês (japonism) em um artigo desse autor para a revista inglesa The Academy de agosto de 1875, sendo o conceito de japonismo definido pelo autor como “um novo campo de estudos, artísticos, históricos e etnográficos” como também “o estudo da arte e gênio do Japão” (KUNIYOSHI, 1998, p. 76-77). Contudo o japonismo que aqui abordamos limita-se a produção artística desse período que tem o Japão como tema (literatura, teatro, ópera, pintura, etc.), seja ela produzida por ocidentais, ou mesmo a arte japonesa (como as pinturas de Hokusai) exposta no Ocidente.

No entanto convencionou-se entender por japonismo a influência da arte japonesa no Ocidente, sendo que o interesse inicial pela arte japonesa e que levou a essa influência; manifesta primeiro na pintura e posteriormente em campos como a moda, arquitetura, decoração, espetáculos e literatura. Serão a esses dois últimos campos que daremos ênfase no presente artigo.

O Japonismo na Literatura e Espetáculos

O japonismo alcançou a literatura primeiramente e principalmente em livros do romancista francês Pierre Loti; nom de plume do oficial da marinha francesa Julien Viaud (1850-1923) (KUNIYOSHI, 1998, p. 86); um escritor de tipo notório do período que Hobsbawm chama de “Era dos Impérios”, ou seja um viajante ocidental (soldado, jornalista, administrador colonial, aventureiro, etc.) que escreve sobre um ambiente exótico; figura tornada mais possível e recorrente graças ao maior acesso aos territórios da África e da Ásia no dado período. Logo, Loti é um escritor de um tipo e geração que inclui outros como Joseph Conrad (1857-1924), Rudyard Kipling (1865-1936), Karl May (1842-1921) e mais tardiamente Sax Rohmer (1883-1959) (HOBSBAWM, 2005, p. 119).

A matéria prima do legado literário de Loti foram suas viagens como oficial marítimo, trabalho que possibilitou que escrevesse sobre variadas paragens (Turquia, Taiti, Senegal, Indochina, Japão, Marrocos, Argélia, Palestina, Índia, China e Egito) em seus relatos de viagem e romances. O Japão foi tema de três de suas obras: Madame Chrysanthème (1887), Japoneries d’Automne (1889) e La Troisième Jeunesse de Madame Prune (1905), sendo que o primeiro e terceiro eram romances e o segundo um relato de viagem.

Entre seus três livros sobre o Japão, Madame Chrysanthème foi sem dúvida o de maior destaque, não apenas por ser a obra inaugural da literatura japonista, como também provavelmente a obra de maior sucesso de Loti e talvez o livro de maior notoriedade na época, entre aqueles que tinham a Japão como temática, sendo para muitos leitores ocidentais (quiçá a maioria) a obra que lhes apresentou o país do sol nascente (DANTAS, 2011, p. 23).

De maneira sumária podemos descrever Madame Chrysanthème como um romance semiautobiográfico, em que Loti, após uma estada de dois meses no Japão, (e como em textos passados sobre Taiti, Turquia e Senegal) faz o relato de um relacionamento romântico de um marinheiro francês (Pierre) com uma moça local. Esse relacionamento, que tem a cidade de Nagasaki como cenário, é descrito por Loti como um “casamento”, sendo para o francês uma relação tediosa e decepcionante, contudo, às vésperas de sua despedida, Pierre começa a entender sua noiva, partindo, no entanto, com a certeza de que jamais poderia se tornar realmente afeiçoado a ela (KAWAGUCHI, 2010, p. 118-119).

Esse livro, que veio a impingir nas mentes de seus leitores não iniciados na cultura japonesa a imagem de um país que pode ser descrito quase que exclusivamente por adjetivos predominantemente redutivos e degradantes como “pequeno”, “artificial”, “polido”, “animal”, “monótono”, “frágil”, “velho”, “cerimonioso”, “numeroso”, “servil” e “simples”; palavras que juntamente com seus sinônimos “retornam incessantemente, insistem e terminam por imprimir uma imagem” e pelo “sucesso extraordinário das obras de Pierre Loti, a visão do Japão nessa época passava forçosamente por esse filtro” (DANTAS, 2011, p. 24).

Tão notável quanto o sucesso com o público leigo, foi a rejeição que o livro de Loti sofreu nos círculos efetivamente iniciados na cultura japonesa, e também entre o público japonês leitor de língua francesa. Para o romancista brasileiro Aluísio Azevedo que teve contato com o livro em sua estadia como vice-cônsul no Japão entre 1897 e 1899, a leitura foi uma experiência revoltante, que o encorajou a escrever o seu próprio livro sobre o Japão, uma obra que transmitisse uma visão mais justa do país e pudesse ajudar a sanar os danos causados por Loti a imagem daquela nação (DANTAS, 2011, p. 13, 24). Segundo o encarregado de negócios brasileiros no Japão entre 1901 e 1902, o também brasileiro Oliveira Lima (1997, p. 33); “Não existe livro mais superficial em sua fofice e mais falso em seus arrebiques do que o celebrado romance de Pierre Loti”, que, “contudo, passou e passa ainda entre certos grupos de leitores, e, o que mais é, de viajantes, pela fiel imagem do Japão”. A esses exemplos podemos acrescentar ainda a opinião de um notável estudioso da cultura japonesa do período, o filólogo Basil Hall Chamberlain (1905, p. 69), que tece o seguinte comentário sobre o bestseller de Loti: “[…] sua inexatidão e superficialidade vão contra a corrente [da qualidade da bibliografia na época recente sobre o Japão]”. Acrescentando ainda: “Não obstante, as ilustrações de seu Madame Chrysanthème são muito belas, e sua impressão tipográfica o torna digno de se folhear, embora o volume não possa ser de maneira nenhuma recomendado a moças ou a missionários”.

Contudo, a despeito das opiniões de intelectuais, o sucesso geral da obra de Loti fez com que essa inspirasse o surgimento de outras obras semelhantes, tanto no próprio campo da literatura; com o conto Madame Butterfly de John Luther Long (1861-1927), publicado pela primeira vez na revista nova-iorquina Century Magazine em 1898, quanto no campo dos espetáculos, onde o romance de Loti foi adaptado para a ópera (na França) por André Messager (1853-1929) e Georges Hartmann (1843-1900) em 1893, seguido em 1900 pela adaptação do conto Madame Butterfly de John Luther Long para o teatro, feita por David Belasco (1853-1931), sendo este também adaptado, de maneira célebre para a ópera italiana por Giacomo Puccini (1858-1924) e Luigi Illica (1857-1919) em 1904 (KAWAGUCHI, 2010, p. 118-120, 131-132).

Com sua influência, a Madame Chrysanthème de Loti pode não ter sido a responsável primeira pela migração do japonismo para o mundo dos espetáculos; uma vez que a primeira obra de tema japonista nesse campo foi a ópera inglesa The Mikado da dupla William Schwenck Gilbert (1836-1911) e Arthur Sullivan (1842-1900) [Gilbert & Sullivan], que estreou em Londres em 1885; mas nesse processo ajudou a disseminar e cristalizar tanto a tendência orientalista de erotizar as mulheres do leste do planeta, como consumou a imagem da gueixa  como um estereótipo central do comportamento das mulheres japonesas (KAWAGUCHI, 2010, p. 111; LITTLEWOOD, 2006, p. 120-124).

Esse estereótipo (que não foi criado nessa época, embora nela tenha sido reforçado) já se mostrava evidente no musical produzido por George Edwardes (1855-1915), The Geisha, que estreou na cidade de Londres em 1896.

Nesse espetáculo é contada a história de Molly Seamore; a noiva de um oficial da marinha britânica, chamado Reginald Fairfax; que vai até o Japão atrás de seu noivo visando recuperar o seu amor, que foi perdido para a gueixa Mimosa San da casa de chá dos Dez Mil Prazeres, pela qual o marinheiro se apaixonou. Para isso a moça disfarça-se como uma gueixa, chamada Roli-Poli. A parte principal da ação ocorre na resistência a um nobre japonês, que tenta forçar que todas as gueixas da casa de chá sejam vendidas para ele, para comporem seu harém. Ao final todas as dificuldades são superadas e a moça alcança seu objetivo (KAWAGUCHI, 2010, p. 113).

Independente da pouca compreensão ou mesmo consideração que os autores das ficções anteriormente citadas tivessem sobre o Japão e sua cultura (como fica evidente, por exemplo, nos nomes dos personagens dessas obras), essas obras foram de decisiva importância para a formação de uma imagem do Japão no imaginário popular ocidental.

   

O Japonismo de Lafcadio Hearn

Lafcadio Hearn tinha uma grande admiração pela obra de Pierre Loti, mas também tinha a opinião que suas descrições da cultura japonesa eram inadequadas, apesar da inegável beleza de seus escritos (HEARN, 1915, p. 85-86).

A literatura japonista de Hearn foi ao contrário da de Loti, construída com base sólida em sua longa vivência entre os japoneses, e de suas pesquisas voltadas principalmente para as crenças religiosas e superstições populares desse povo, o que resultou em uma produção ficcional baseada principalmente em histórias de terror.

Para Hearn (1894, p. vi-vii) a religião e as superstições seriam uma chave central para compreender a forma de pensar de qualquer povo, e para compreender tal faceta da cultura do Japão, afastou-se dos japoneses urbanos, que no geral considerava por demais ocidentalizados, concentrando suas pesquisas longe das metrópoles como Tóquio e Yokohama, escolhendo ao contrário vilas do campo e cidades interioranas como Matsue e Kumamoto, nas quais viveu e trabalhou como professor.

Entre seus contemporâneos que estudavam a cultura japonesa, Hearn destacava-se pela atenção que dava ao Shinto (ou Xintoísmo) como um elemento formador não apenas da moralidade japonesa, como também da própria organização social, desde a família até o Estado.

Seus contos de terror foram espalhados pela sua bibliografia, uma vez que raramente escrevia livros que não fossem coletâneas de variados textos (ensaios, memórias, contos, etc.) com pouca unidade temática. Tais trabalhos concentraram-se nos livros Japanese Fairy Tales, In Ghostly Japan, A Japanese Miscellany, Kotto e principalmente, Kwaidan.  

Os contos contidos nessas obras são sobre fantasmas (yurei) e duendes (yokai) japoneses, não sendo meras criações do autor, mas sim sua versão de contos fantásticos populares (kaidan) colhidos em suas pesquisas de campo e de antigos livros japoneses, enriquecidos com notas de suas pesquisas históricas e etnológicas em torno desses temas.

Entre seus contos mais famosos podemos destacar A História de Mimi-nashi-Hoishi, Yuki-Onna e A Promessa. Os dois primeiros foram publicados no livro Kwaidan, de 1903, enquanto o terceiro está presente no livro A Japanese Miscellany, de 1901[3].

A primeira história é sobre um músico cego, hospedado em um templo budista. Esse músico é chamado por um samurai para fazer uma apresentação na corte de um nobre, e vai sem saber que estava se dirigindo a uma corte de fantasmas, os espíritos do extinto clã Heike[4] (HEARN, 2007, p. 23-32). A segunda história é sobre um lenhador, que em meio a uma nevasca encontra a Yuki-Onna, uma entidade das neves que mata pessoas em meio ao frio (em outras palavras uma espécie de fada ou duende). No entanto o lenhador é poupado pela aparição, que preserva sua vida em troca da promessa de que nunca revelaria a ninguém o que viu naquela noite; uma promessa que encontraria dificuldades em cumprir (HEARN, 2007, p. 76-80). A terceira história é sobre um homem que no leito de morte de sua jovem esposa promete a ela que jamais se casaria novamente, mas por pressão de seus vizinhos acaba casando-se mais uma vez, e sua nova esposa passa a ser assombrada pelo fantasma da esposa anterior (HEARN, 2007, p. 111-114).

Além de retratar crenças populares ainda em voga entre grande parte dos japoneses do final do século XIX, de forma geral aspectos interpretação que Hearn faz da cultura japonesa em seus ensaios etnológicos e históricos também aparecem nesses contos, como por exemplo em um momento do conto A Promessa, ao pressionarem o protagonista a casar-se os vizinhos argumentam que ele ainda era jovem e sem descendentes, e que por isso precisaria de filhos para no futuro fazer as oferendas e lembrar os ancestrais (HEARN, 2007, p. 112). Nesse trecho Hearn chama a atenção para uma tese central de sua interpretação sobre a cultura japonesa, a de que a principal razão da existência das famílias japonesas, desde a antiguidade, seria justamente a de preservar o culto aos espíritos dos ancestrais, para que não se tornassem espíritos malfazejos (HEARN, 1906, p. 35, 79).

Ainda devemos levar em consideração o fato de serem um reflexo das crenças populares do meio rural japonês da época em que escreveu, como o conto de Yuki-Onna, com o qual teve seu primeiro contato em um festival xintoísta da cidade de Matsue, quando um jardineiro lhe contou sobre ele (HEARN, 1894b, p. 637-638).

Uma característica peculiar dos contos fantásticos japoneses escritos por Lafcadio Hearn é o estilo gótico que o autor atribuiu a eles, não apenas por terem o horror, fantasmas e entidades malignas como tema, mas também pelo fato de seus contos se ambientarem na época dos samurais, comumente tida como uma era feudal, muito semelhante a Europa da Idade Média.

Dessa forma a literatura japonista de Hearn é marcadamente gótica, contendo características clássicas que definem esse gênero segundo Hogle (2002, p. 2), como  ambientes arcaicos (à exemplo das ambientações dos três contos aqui citados como exemplo, um templo budista, uma floresta, uma casa de samurais; além do próprio cenário geral do Japão pré-moderno), o passado voltando para assombrar os protagonistas (como os fantasmas dos Heike no primeiro conto, ou as promessas dos dois contos seguintes), a presença de fantasmas e monstros (os fantasmas dos Heike, a Yuki-Onna, o fantasma da esposa morta).

Segundo Sukehiro Hirakawa o amplo contato que Hearn teve com histórias fantásticas de origem camponesa (por intermédio dos criados de sua casa) em sua infância na Irlanda, deram forma ao seu japonismo, e podemos isso com suas referências literárias, como Edgar Alan Poe (1809-1849) e Théophile Gautier (1811-1872), dois de seus autores favoritos (MURRAY, 2005, p. 31, 72).

Dessa maneira podemos concluir que a grande característica do japonismo de Lafcadio Hearn era sua natureza gótica. Essa característica é notável na obra de Hearn sobretudo pelo contraste com os outros autores japonistas de sua época, que preferiam explorar a sensualidade exótica do universo feminino japonês, sobretudo o mundo das gueixas.

 

REFERÊNCIAS

CHAMBERLAIN, Basil Hall. Things Japanese: Notes on Various Subjects Connected With Japan. Londres: Kelly & Walsh, 1905.

DANTAS, Luiz. Apresentação. In: AZEVEDO, Aluísio. O Japão, p. 7-38. Brasília: Fundação Alexandre de Gusmão, 2011.

HEARN, Lafcadio. Glimpses of Unfamiliar Japan Volume 1. Boston e Nova York: Houghton Mifflin Company, 1894.

HEARN, Lafcadio. Glimpses of Unfamiliar Japan Volume 2. Boston e Nova York: Houghton Mifflin Company, 1894b.

HEARN, Lafcadio. Japan: An Attempt at Interpretation. Nova York: Grosset & Dunlap, 1906.

HEARN, Lafcadio. Kokoro: Hints and Echoes of Japanese Inner Life. Londres: Gay and Hancock, 1910.

HEARN, Lafcadio. Interpretations of Literature. Nova York: Dodd, Mead and company, 1915.

HEARN, Lafcadio. Kwaidan: Assombrações, seguido de Estudos de Insetos. São Paulo: Claridade, 2007.

HIRAKAWA, Sukehiro. Hearn, Interpreter of the Animistic World of the Japanese. In. HIRAKAWA, Sukehiro (Ed.). Lafcadio Hearn in International Perspectives. p. 55-61. Folkestone: Global Oriental, 2007.

HOBSBAWM, Eric. A Era dos Impérios: 1875-1914. São Paulo: Paz e Terra, 2005.

HOGLE, Jarrold E. Introduction: The Gothic in Western Culture. In: HOGLE, Jarrold E. (Ed.). The Cambridge Companion to Gothic Fiction. Cambridge: Cambridge University Press, 2002. P. 1-20.

KAWAGUCHI, Yoko. Butterfly’s Sisters: The Geisha in Western Culture. New Haven: Yale University Press, 2010.

KUNIYOSHI, Celina. Imagens do Japão: uma utopia de viajantes. São Paulo: Estação Liberdade, 1998.

LIMA, Oliveira. No Japão: impressões da terra e da gente. Rio de Janeiro: Topbooks, 1997.

LITTLEWOOD, Ian. The Idea of Japan: Western Images, Western Myths. Chicago: Ivan R. Dee, 1996.

MURRAY, Paul. A Fantastic Journey: The Life and Literature of Lafcadio Hearn. Nova York: Routledge, 2005.

 

NOTAS AO TEXTO

[1] O último livro de Hearn, The Romance of the Milky Way and Other Studies and Stories, é uma publicação póstuma; reúne artigos inéditos do autor.

[2] No Brasil, esse livro foi publicado primeiramente com o título Kwaidan: Assombrações, em 2007, pela editora Claridade, e posteriormente em 2014, no formato digital, pela editora NSP, com o título Kwaidan: Contos do Sobrenatural.

[3] Esses três contos estão presentes na edição brasileira de Kwaidan, publicada pela editora Claridade, que foi a edição consultada para o presente artigo.

[4] Ou clã Taira, derrotado em uma luta pelo poder no Japão na Batalha de Dan no Ura, em 1185.



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