ESCRITORES



O Fundador





Autor: Nélida Piñon
Título: O Fundador, Fundador
Idiomas: port, esp
Tradutor: Ida Vitale(esp)
Data: 29/12/2004

O FUNDADOR


I


Nélida Piñon

Raramente abandonava a loja. Um esconderijo adequado após a peregrinação pelo mundo. Para dormir refugiava-se no quarto dos fundos. Vida simples, nem animal saberia escolher tão bem. Ptolomeu não tinha amigos, uma agressividade a que jamais revidou.Ainda que às vezes quisesse gritar, ensinar-lhe maneiras.
Sempre a mesma coisa. Joe aproximava-se dos balcões averiguando os livros.Ptolomeu cuidava em substituí-los à medida que se vendiam, para que Joe notasse e protestasse, ou perdesse o hábito de manuseá-los. E embora o surpreendesse o empenho de Joe pela mercadoria de sua loja, jamais indagara as razões de sua curiosidade.
– Então, os porcos continuam consumindo seu material indecente, velho?
Ptolomeu sorria. Sua apreciação pelas criaturas iniciara-se através de Joe. Uma aprendizagem difícil.
– È de primeira.
– O encontro sai esta semana.A qualquer momento viajo. O padre concordou.
– Cuidado, Joe. Eles acabam descobrindo.
– Pensa que sou covarde, nasci para ser castrado, oferecer os testículos para eles me esmagarem?A fúria de Joe recorria aos mesmos processos. Rasgava os retratos recolhidos de alguma gaveta, pedaço por pedaço, ameaçando lança-los à rua.
– Cuidado com a polícia, Joe.
– Já não agüento mais, Ptolomeu. Nem sei porque fico nesta cidade. Não tomo outras decisões. Busco uma outra terra.
– Para onde quer ir?
– Qualquer lugar serve.Onde eu me sinta homem.
– Se quiser, faço uma terra só para você.
– Piada besta, Ptolomeu.
– Joe tirou o bloco do bolso. Rabiscava devagar, às vezes o traço escorregando violento no papel. Ptolomeu afastava-se ainda que por minutos. Atendia um cliente, os pedidos que antecipadamente conhecia. Compravam depressa, alguns passando o polegar pelos dentes, como que substituíram a escova. Um gesto de gozo, ele identificava depressa. Regressando a Joe cuidadoso.
– Para quando é o encontro?
– Semana que vem, espero.Já não é sem tempo. Se não for dessa vez, eu desisto. É mais fácil encontrar o Papa Camilo.
– É que o papa não pode fazer o que ele está fazendo.
– Afinal, abandonou o túmulo, Ptolomeu.
O velho largou Joe, fixando-se no mapa antigo dependurado na parede, Joe veio atrás, agarrou-o pelo braço:
– De onde você veio, Ptolomeu? Indagando a sua origem pela primeira vez.
Ptolomeu indicou o mapa na parede, a peça mais preciosa de sua loja.
– Foi seu homônimo quem fez esse mapa? Brincou Joe precipitado.
Ptolomeu olhou-o severo, assumindo uma nova autoridade.
– Desta vez errou. Joe Smith.
– Por não ser homônimo Ptolomeu, ou porque pretendia explicar-me coisa diferente?
– Você fala demais, Joe.A quem saiu tão brigão? Ptolomeu procurou conciliar.
– Se não confessa de onde saiu esta velhice, também não lhe digo de que terra herdei minha agressividade. Empatados?
Ptolomeu trocou a loja pelo corredor dos fundos, retornando trazia cerveja. Joe serviu-se sem cerimônia.
– O melhor do negócio você destina aos outros.
– O que queria?
– Você excita estes animais em troca de uns miseráveis cents, e eles gastam o grosso do dinheiro com os intermediários.
– O mais importante você não disse. Ptolomeu ria complacente. Quase segurando Joe Smith no colo. – Não quero dinheiro. Nunca desejei.
Joe sentia o amigo entregue a um passado que jamais se esclareceu, quando realmente procurou realmente saber. – Uma vez que está no negócio, mergulhe nele por inteiro. Encarava-o como inimigo. Atingindo aquela exasperação que o próprio Joe exigia para regressar à indiferença habitual.
– É melhor não falarmos. Hoje, você está irritado.
– Sou sempre assim. Ou se esqueceu?
O velho sentou-se na cadeira de balanço, estranho objeto naquela loja. A luz sobre seu rosto, uma perspectiva de tempo assinalando marcas. Parecia ultrapassar cem anos, embora nele sobressaísse um vigor jovem, transitando em seu corpo maravilhas e graças, o rosto renovado pelos sucessivos entalhes. Não importava a Joe a velhice do amigo. A amizade tão natural. Antes, a zanga diária uninido-os. E dizia-se Ptolomeu: se eu tivesse gerado um filho naquela época seria como Joe e o teria tornado o homem mais poderoso da terra.
– Logo eu o deixarei, esforçava-se em ser natural, sem excluir amor do que dissesse.
– Vai viajar? Perguntou Joe.
A cadeira balançava. Para frente e para trás. Ele indicou o corpo, a nau das longas viagens. Escondendo a emoção. Joe reprovaria as evidências de um sentimento intolerável.
– Qualquer dia eu morro.
– Qual nada, velho. É capaz de negociar com a morte. Morrendo quando quiser. Fumou um cigarro apressado. Buscando outros interesses.
– Já fiz os tratos possíveis. Não posso mais revogar. Joe condenaria suas palavras, talvez se afastasse da loja, para regressar dias depois. Arrependia-se da explicação.
– Morrer é coisa de macho. E não se pode ser macho na sua idade. Riu para que o outro o acompanhasse. Ptolomeu seguiu o ritmo da cadeira. O pêndulo de um relógio, ou de um alfanje.
– A quem devo a imortalidade, Joe Smith? E disfarçou.
Joe desabotoou a camisa, batendo o peito em sucessivos golpes.
– O corpo está preparado. Mas, antes enfio muita bala nestes gringos.
Desde criança, Joe freqüentava sua loja, adotando idiomas que nunca identificou. Calava-se, o menino defendendo a exclusividade de uma língua que pretendia ser soberana, sempre que se aproximava.

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Fonte: PIÑON, Nélida. Fundador. 2.ed., Rio de Janeiro: Editorial Labor do Brasil, 1976. p. 9, 10, 11, 12.

FUNDADOR


I


Nélida Piñon

Raramente abandonaba el negocio. Un esconderijo adecuado después de su perigrinación por el mundo. Para dormir se refugiaba en los cuartos del fondo. Una vida simple; ni un animal sabría elegir tan bien. Ptolomeo no tenía amigos, desde que llegó a la ciudad. Sólo Joe Smith lo visitaba, con una agresividad a la que nunca replicó. Aunque a veces quisiera gritarle, enseñarle buenos modos.
Siempre era igual. Joe se acercaba a los mostradores investigando los libros. Ptolomeo se preocupaba por sustituirlos a medida que se vendían, para que Joe no notase y protestase, o perdiera el hábito de manosearlos. Y aunque lo sorprendiese la obstinación de Joe por la mercadería de su comercio, nunca averiguaba las razones de su curiosidad.
–¿ Así que los cerdos siguen consumindo su material incidente, viejo?
Ptolomeo sonreía. Su estima por las criaturas se habían iniciado a través de Joe. Un díficil aprendizaje.
– Es de primera.
– El encuentro se hace esta semana. En cualquier momento salgo de viaje. El padre está de acuerdo.
– Cuidado, Joe. Ellos siempre terminan por descubrir.
–¿ Tú crees que soy cobarde, que nací para ser castrado, para ofrecer los testículos y que ellos me los aplasten?– La furia de Joe recorría los mismos procesos. Rasgaba en pedazos retratos sacados de algún cajón, amenazando tirarlos a la calle.
– Cuidado con la policía, Joe.
– No aguanto más, Ptolomeo. Ni sé porque me quedo en esta ciudad. No tomo otras decisiones. Busco otra tierra.
–¿ Adónde quieres ir?
– Cualquier lugar me sirve. Donde me sienta hombre.
– Si quieres hago una tierra sólo para ti.
– Qué animal chistoso, Ptolomeo
Joe sacó el bloc del bolsillo. Garrapateaba despacio, aunque a veces el trazo se deslizaba violento sobre el papel. Ptolomeo se alejaba por unos minutos. Atendía a un cliente, a pedidos que conocía por antecipado. Compraban de prisa, algunos mientras se pasaban el pulgar por los dientes, como sustituyendo un cepillo. Un gesto de gozo, que él identificaba de inmediato. Volvía solícito donde estaba Joe.
–¿ Para cuando es el encuentro?
– La semana que viene, espero. Ahora se hace con tiempo. Si no es esta vez desisto. Es más fácil encontrar al Papa que a Camilo.
– Porqué el Papa no puede hacer lo que él está haciendo.
– Al final abandonó el sepulcro, Ptolomeo.
El viejo dejó a Joe, fijándose en el mapa antiguo colgado de una pared. Joe lo siguió, agarrándolo por un brazo:
–¿ De dónde eres, Ptolomeo? –Indagaba su origen por primera vez.
Ptolomeo indicó el mapa de la pared, el objeto más precioso de su negocio.
–¿ Fue tu homónimo quien hizo este mapa? –bromeó Joe enseguida.
Ptolomeo lo miró severamente, asumiendo una nueva autoridad.
– Esta vez te equivocaste, Joe Smith.
–¿ Por qué no es de tu homónimo Ptolomeo, o porque querías explicarme otra cosa?
– Hablas demasiado, Joe. ¿A quién saliste tan peleador?
– Ptolomeo buscó la paz.
– Si no me confiesas de donde salió esta vejez, tampoco te digo de qué tierra heredé mi agresividad. ¿Empatados?
Ptolomeo abandonó el local por el corredor de los fondos, y volvió trayendo cerveza. Joe se sirvió sin ceremonia.
– Lo mejor de tu negocio se lo destina a los demás.
–¿ Y qué quieres?
– Excitas a estos animales a cambio de unos miserables centavos y ellos gastan la mayor parte del dinero con los intermediarios.
– No dices lo más importante –Ptolomeo reía complaciente, casi apretando a Joe Smith por el cuello–. No quiero dinero. Nunca lo deseé.
Joe presentía al amigo entregado a un pasado que nunca, cuando quiso realmente saberlo, quedo aclarado– . Una vez que estás en el negocio te zambulles en él por completo.
– Lo encaraba como un enemigo, alcanzando aquella exasperación que el mismo Joe exigía para volver a la indiferencia habitual.
– Mejor no hablar. Hoy estás irritado –argumentó Ptolomeo.
– Siempre soy así. ¿O se te olvidó?
El viejo se sentó en el sillón de hamaca, objeto extraño en aquel local. Con la luz sobre el rostro, una perspectiva de tiempo señalaba marcas. Parecía superar los cien años, aunque sobrealiese en él un vigor joven, que concitaba en su cuerpo maravillas y gracias, el rostro renovado por sucesivos tallados. A Joe no le importaba la vejez de su amigo; era una amistad natural. Las riñas diaria los acercaban. Y Ptlomeo se decía: si yo hubiese engendrado un hijo en aquella época sería como Joe y lo había convertido en el hombre más poderoso de la tierra.
– Pronto, voy a dejarte- esforzábase en ser natural, sin excluir el amor de lo que decía.
–¿ Vas a viajar? –preguntó Joe.
El sillón se hamacaba, para adelante y para atrás. Se señaló el cuerpo, la nave de sus largos viajes, escondiendo la emoción. Joe reprobaría las evidencias de un sentimiento intorelable.
– Cualquier día me muero.
– Cualquier día nada, viejo. Eres capaz de negociar con la muerte, muriéndote cuando se te dé la gana.
– Fumó apresurado un cigarrillo, buscando otro tema.
– Ya hice mis arreglos. No puedo revocarlos. –Joe condenaría sus palabras, tal vez se fuese del negocio, para no volver por muchos días. Se arrepentía de la explicación.
– Morir es cosa de machos. Y a tu edad no se puede ser machos. –Rió para que el otro lo acompañase. Ptolomeo seguía el ritmo del sillón. El péndulo de un reloj o de un alfanje.
–¿ A quién debo la inmortalidad, Joe Smith? –Y disimuló.
Joe se desprendió la camisa, golpeándose el pecho con golpes sucesivos.
– El cuerpo ya está preparado. Pero antes meterá mucha bala a estos gringos.
Desde niño, Joe frecuentaba su negocio, adoptando un idioma con el que nunca se identificó. Siempre que él se acercaba, callaba, mientras defendía la exclusividad de una lengua que pretendía ser soberana.

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Fonte: PIÑON, Nélida. Fundador. Traducción de Ida Vitale.Buenos Aires: Emecé, 1973.
p. 13-6.



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