Revista LitCult – Vol.8- 1. semestre 2015



O ECO DE LOUCURA EM SOROCO – Daniele Fernanda Eckstein





 

O ECO DE LOUCURA EM SOROCO

 

Daniele Fernanda Eckstein

Universidade de Coimbra

 

 

Breve biografia

 

Estudante de mestrado em Estudos Literários e Culturais, opção Literatura e Cultura Brasileira, pela Universidade de Coimbra. Tendo-se licenciado em Psicologia pela Universidade Estadual de Máringa, Brasil, com posterior curso de Formação em Psicanálise Lacaniana pela EBP, secção SC. Vem se dedicando aos estudos literários por meio do mestrado e outras instâncias sociais, inclusive através da escrita e leitura de poemas.

 

 

Resumo

Este trabalho propõe a análise de um dos aspectos da problemática das narrativas do fim, precisamente no que toca a? loucura, a partir do conto “Soroco, sua mãe, sua filha”, de Guimarães Rosa. Tem como fundamentação teórica “O mal-estar na civilização”, postulado por Freud (1996), e o conceito de loucura em Foucault (1978), os quais reúnem motivos centrais para pensar o desconsolo humano expresso nas peculiaridades do modo de escrita de Guimarães Rosa. Assim, esta abordagem possibilitará a análise consistente do tema de estudo e a averiguação do lugar deste tipo de discurso na contemporaneidade. Sob os efeitos da modernidade, a marginalização da loucura e o extermínio daqueles que nela habitam são usados como solução para a regeneração da humanidade, práticas sociais que constituem o sentido que criamos do mundo. A impotência perante a dureza do real em “Soroco, sua mãe, sua filha” e o lugar social do sofrimento humano, que oscila entre a esperança e o desespero, serão aqui contemplados como narrativas do fim.

 

Palavras-chave: ficção, loucura, Freud, sofrimento e consolo.

 

 

 

O ECO DE LOUCURA EM SOROCO

 

Daniele Fernanda Eckstein

Universidade de Coimbra

 

 

“Soroco, sua mãe, sua filha” é o terceiro conto que compõe o livro “Primeiras Estórias” de João Guimarães Rosa, publicado em 1962. O livro ganha destaque na obra do escritor não só pela inovação estilística, mas também pelo enfoque na abordagem social presente nos 21 contos, apresentando, em diferentes perspectivas, sujeitos que estão à margem da sociedade.

Sendo o primeiro livro de histórias curtas do escritor, motivo pelo qual a obra é intitulada Primeiras, os contos ambientam-se todos no sertão brasileiro, apresentando como forte característica uma literatura regionalista, permeada pelo uso da linguagem coloquial e por  neologismos tipicamente roseanos. Como aquele que aparece no título “estórias”, termo emprestado do inglês, em referência ao termo “história”, para designar o carácter mais próximo do ficcional. Enquadrado na terceira fase do modernismo brasileiro, este livro, bem como toda a obra do escritor, impõe-se como um marco na evolução da literatura brasileira.

Ao mesmo tempo em que o regionalismo de Guimarães Rosa consegue enfatizar as particularidades regionais dos personagens, com dizeres e comportamentos típicos do sertanejo, abarca ainda características universais que atingem toda a humanidade. Ao abordar temáticas de conflito do ser humano com o meio em que vive, o sertão roseano é amplamente metafórico. Mas também, é lugar político, económico e metafísico, ancorado, sobretudo, na linguagem.

Em Primeiras estórias, os personagens marcados por problemas sociais atravessam estágios emocionais distintos que vão desde a tristeza de um menino que vê transformado um peru em comida, ao desespero de personagens que deparam com o processo de separação, ou melhor, com algum tipo de fim. Exibindo forte crítica social, Primeiras Estórias apresenta muitos personagens com características estranhas, em que a componente da loucura é amplamente tratada, como é o caso de “Soroco, sua mãe, sua filha”.

O conto retoma a problemática da retirada dos loucos para o hospício que ficava na cidade de Barbacena em Minas Gerais. Este local de facto existiu e era o polo de retirada dos desajustados da sociedade, no início do século XX. O despacho e a vida dos internos eram bancados pelo governo que aderia, junto à intelectualidade brasileira, às ideias de eugenia – apresentando uma utopia inerente, não obstante o prenúncio de uma violência avassaladora (ALBEX, 2014).

Aparecendo como discurso que pairava, não só no Brasil, mas em todo o mundo ocidental, a eugenia defendia ideias de purificação e higienização da humanidade, os quais modelavam as concepções de vida dos indivíduos. Tal ideal encontrou apoio também na literatura com o movimento futurista de Marinetti, bem como no pensamento de alguns dos primeiros modernistas, e teve a adesão de escritores brasileiros como Monteiro Lobato e outros.

Neste cenário político social, em que a eugenia foi fortemente praticada, a figura do louco aparece não como aquele que sofre de transtornos mentais, mas vem embutida na classificação dos indivíduos excluídos da sociedade, daqueles que não atendem aos padrões do ideal social. Cria-se desta forma, um desatino uniforme, como um mecanismo social de regeneração, purificação e exaltação da virtude humana.

No entanto, esta característica de estigmatizar, de modo uniforme, aqueles que não respondiam aos comportamentos e valores sociais vigentes, já é apontada por Foucault (2005) em História da loucura. Segundo o escritor, na era clássica a loucura começou a ser apreendida “na sua obscuridade”, como desordem familiar e perigo para o Estado. Esta percepção foi sendo modificada aos poucos, com a estruturação dos conhecimentos da medicina que enquadrou como doença o que antes era tido como “mal-estar da sociedade”.

Este avanço aparente da psiquiatria de dar à loucura um lugar que nunca existiu, não é de todo verdadeiro. Marcada pelos ideais do mundo moderno de eliminar aqueles que se apresentavam como antissociais, a loucura passa a ser duplamente excluída; assinalada pela diferença, foi excluída dos asilos, das prisões, e de todos os outros tipos de confinamento, numa exclusão estritamente moral:

 

“[O louco] foi reconhecido como estranho à sociedade que o havia escorraçado e irredutível às suas exigências; ele se tornou então, para maior tranquilidade de nosso espírito, o candidato indiferenciado a todas as prisões, a todos os asilos, a todos os castigos. Na realidade não é mais que o esquema de exclusões superpostas” (FOUCAULT, 2005, p. 81).

 

O hospício a que se refere o conto que analisamos foi fundado em 1906, e, ainda que levasse este nome, de local de confinamento para “loucos”, enquadra-se na estigmatização uniforme, servindo para abrigar, além de indivíduos que sofriam de transtorno mental, outros que apresentavam como sintoma a tristeza, o alcoolismo, a prostituição, o homossexualismo, o “mendiguismo” e os demais sintomas que ameaçavam a ordem social, sendo considerados inadequados para uma época em que dominavam coronéis e latifundiários no Brasil (ALBEX, 2014).

A Colônia, como era chamada, funcionou como tal até ao ano de 1986 quando, por conta da reforma psiquiátrica do Brasil, foi transformado em Hospital psiquiátrico. E mesmo com os avanços da reforma para acabar com os leitos e avançar com o tratamento através dos centros de apoio psicossocial – CAPS e CAPSAD – o hospital ainda existe, sendo motivo de estudo de instituições voltadas a saúde pública brasileira.

Cercando toda essa problemática social, o conto narrado em terceira pessoa traz já nas primeiras linhas este contexto desencontrado de humanidade que o escritor revela em tom de denúncia social. Ao anunciar que “não era um vagão comum de passageiros” insinua que se tratava de uma locomotiva especial em que numa das alas tinha grades e servia para levar presos: “A gente reparando, notava as diferenças. Assim, repartido em dois, num dos cômodos as janelas sendo de grades, feito as de cadeia, para os presos (…). Ia servir para levar duas mulheres, para longe, para sempre.”

É possível também, fazer um paralelo desse trecho do conto com a sátira “Naus dos loucos”, de Sebastian Brant, que teria possivelmente influenciado a pintura, de mesmo nome, de Hieronymus Bosh. Ambas as obras retratam a loucura, enfatizando o uso de transporte que servia para levar os “loucos” para um outro lugar, fora da sociedade.

No trecho que se segue fica mais evidente a lucidez do escritor, que nos remete para Naus de onde foram despachados os loucos que há muito se tem notícia na Literatura: “O carro lembrava um canoão no seco, navio. A gente olhava: nas reluzências do ar, parecia que ele estava torto, que nas pontas se empinava. (…) Parecia coisa de invento de muita distância.”

A sátira de Brant, escrita no século XV, mostra que há muito tempo a loucura e o louco são personagens “queridos” da Literatura que remexe e retoma incansavelmente este discurso. A representação do louco em viagem, transportado de um local para outro, é apontada por Foucault (2005) por meio de diferentes obras literárias, no entanto, ele também aponta para o registro real de onde teria surgido esta figura essencial da loucura, o navio:

 

“(…) a Narrenschiff é a única que teve existência real, pois eles existiram, esses barcos que levavam sua carga insana de uma cidade para outra. Os loucos tinham então uma existência facilmente errante (…). Não é fácil levantar o sentido exato deste costume. Seria possível já pensar que se trata de uma medida geral de expurgo que as municipalidades fazem incidir sobre os loucos em estado de vagabundagem” (FOUCAULT, 2005, p. 9-10).

 

Personagens que são representados na literatura tanto na simbologia do bobo, do ridículo, como do portador da verdade, ou ainda, representando o estigma dos excluídos da ordem social. Um fenómeno antigo que não perde a atualidade, e não deixa de provocar o pedaço de humanidade que habita em cada um de nós.

Neste conto, a figura do louco representa a fatalidade diante do real, a impossibilidade de “lidar com”. Revelando a miséria humana, a loucura em “Soroco, sua mãe, sua filha” é contagiosa. Pertencente a um universo moral, ela atinge no outro a resignação, o sem nome do estado de compaixão.

O nome escolhido para o personagem central, Soroco, revela a perspicácia roseanana para expressar este desalento advindo da condição em que o personagem se encontra. Numa leitura paragramatical é possível descobrir palavras que saem de dentro do nome, e que se assemelham com a condição abordada no conto: soro, oco, só loco. E ainda o trocadilho com a palavra socorro, anunciando um grito que ecoa a procura de amparo, que vem tanto das próprias personagens que representam a desrazão, como de Soroco, que é atormentado pela loucura ao longo da narrativa e, por isso mesmo, a incorpora.

A insanidade que atravessa a narrativa se passa numa estação de trem, um local que só existe enquanto símbolo de passagem. A passagem remete tanto para um encontro quanto para uma despedida, criando no conto um jogo de ambiguidade que vai para além da estação, aparecendo em diferentes pontos do texto.

O contraste Razão x Loucura é enfatizado no conto através da voz do povo, que anuncia o gozo do estado de ser que a razão lhes proporciona: “As pessoas não queriam poder ficar se entristecendo, conversavam, cada um porfiando no falar com sensatez, como sabendo mais do que os outros a prática do acontecer das coisas”. Neste trecho, Guimarães Rosa faz um elogio à razão, ao colocá-la em complementaridade com a loucura, manifestando-o através do cuidado e da insistência das pessoas em demonstrar coesão na fala. O “porfiar” apresenta uma ambiguidade de sentido, trazendo o prenúncio do que irá acontecer no final do conto, com a adesão das pessoas ao canto.

Outro contraste, que revela a presença de opostos, aparece na descrição do traje dos personagens para aquele dia, que vem a ser um acontecimento na pequena cidade sertaneja, em que se parece tanto com um casamento, quanto com um enterro: “Em mentira, parecia entrada em igreja, num casório. Era uma tristeza. Parecia enterro.”

Mesmo não sendo o portentor deste “mal”, o convívio com a loucura marca profundamente a existência de Soroco, que além de suportar o ato de cuidar, por longo tempo, das únicas familiares que lhe restava, tem de lidar com a dificuldade da separação, que a loucura já tratava de marcar. Entre o alívio do fardo familiar, provocado pela partida, e o desespero da perda dos parentes que tinha, Soroco fica “sem eira, nem beira”, tomado de desolação.

Fundada no seio das relações humanas, a separação, provocadora de angústia pelo afastamento daqueles por quem desenvolvemos os mais profundos afetos, faz tornar mais difícil ainda qualquer possibilidade de minimização do sofrimento, mesmo com o fim do fardo, tornando evidente que o estorvo da loucura não foi embora no trem.

Freud (1996) em Mal-estar na civilização afirma que a vida nos causa sofrimento e desilusões que tendemos a abrandar através de paliativos, uma vez que o verdadeiro anseio do ser humano está em encontrar a felicidade e evitar o desprazer. No entanto, a felicidade é um fator episódico e só existe enquanto contrastada com o desprazer, por isso resulta difícil permanecer em estado de felicidade eterna.

A partir disto, Freud (1996) define neste ensaio as três principais fontes de sofrimento humano: a decadência do corpo; o mundo exterior; e os relacionamentos humanos. É com base nestes três fatores, que o ser humano tende a moderar sua ânsia por alcançar um estado pleno de felicidade, uma vez que se vê em contato inevitável com estes fatores.

Ao tentar lidar com a dualidade prazer/desprazer inerente à sua constituição, o ser humano desenvolve o sentimento de culpabilidade, que entra em ação a todo momento que se tenta resolver o conflito psíquico, que surge desta dualidade e se manifesta através da necessidade de punição.

Em “Soroco, sua mãe e sua filha” a impotência perante o real inscrito no âmago da loucura, e a falta de um lugar social para sofrimento humano, levam Soroco para além do sentimento de culpabilidade, tomado que foi pela desistência. Ele não tem mais força pra lutar “ele não dava mais conta, teve de chamar, que foi preciso”, identificando-se, inevitavelmente, com as estratégias e soluções de confinamento que o Governo apresentava.

Aqui Soroco, aparece como o Sor/oco, o Senhor Oco que carrega o vazio em si, como fruto da loucura, não conseguindo sequer ter um pensamento reflexivo que o leve a um caminho de resistência, porque não consegue lidar com, ou talvez não consiga aceitar este outro que é estigmatizado por sua condição dentro de uma sociedade opressiva e desumana.

Por outro lado, o sentimento de compaixão aparece como um dos elementos estruturantes do texto. O povo se compadece perante a brutalidade do real e a falta de suporte, que podemos aqui entender como falta de suporte dos órgãos reguladores da sociedade, que deveriam dispor de um suporte digno para todos. Nascido da revolta e da indignação, o estado de compaixão, que não vem de um indivíduo, mas é representado pelo povo, é evocado para abrandar a impotência da situação: “todos diziam a ele seus respeitos de dó.”

Soroco apresenta-se como cúmplice da vulnerabilidade humana e o povo da rua, ao compadecer-se, torna-se testemunha do sofrimento humano, que é intensificado pelo desamparo social advindo da insuficiência das instituições, que estando sob o domínio de sujeitos moral e eticamente desumanizados, não cumprem devidamente a função de regular as relações entre os seres humanos na sociedade.

Elevando à ideia de regeneração, ou limpeza da sociedade, ao status de solução para os males enfrentados neste período a que se refere o conto, as instâncias de poder acabam por inverter o seu papel de reguladoras e protetoras da sociedade, deixando esta num estado de abandono, maior do que aquele que já é próprio da natureza humana, expondo o ser humano às variantes de perigo, como a própria loucura.

Esta narrativa da loucura que perpassa o conto, no antes e no depois daquilo que acometia a “insanidade” da sociedade brasileira no século XX, ou mesmo transposta ao mundo ocidental, pode ser enquadrada no conceito de narrativa apocalíptica discutida por Kermode, no livro Sensibilidade apocalíptica (1997).

O teor apocalíptico aparece na fatalidade da loucura e no discurso de regeneração, que rege o mundo neste período, encontrado nas entrelinhas do texto, em que as ideias de eugenia pervertem os valores de humanidade e defendem o extermínio. Tendo por necessário destruir o que não se enquadra no padrão estabelecido, a eugenia cria uma possibilidade utópica de regeneração. Juntamente com a fatalidade da loucura, ou seja, a proximidade com a morte, estes elementos perfazem o enredo da narrativa apocalíptica:

 

“E enquanto outrora a loucura dos homens consistia em ver apenas que o termo da morte se aproximava (…) agora a sabedoria consistirá em denunciar a loucura por toda parte, em ensinar aos homens que eles não são mais mortos e que se o fim está próximo, é na medida em que a loucura universalizada formará uma só e mesma entidade com a própria morte” (FOUCALT, 2005, p. 16).

 

Embora Rosa se baseie na dura realidade da existência de “um lugar chamado Barbacena”, que servia para esconder e acabar pouco a pouco com os “doidos”, ele o faz inscrevendo-a na ficção. Sendo próprio desta insinuar um comprometimento com o real, ao mesmo tempo que nos coloca no imaginário das possibilidades do que poderia ser.

Neste fator imaginário do “como se” encontramos o que Kermode (1997) aponta sobre o elemento de redenção presente nos textos literários, nomeadamente uma liberdade que desconstrói a realidade contingente. Segundo o autor, a ficção existe para buscarmos o sentido, porque necessitamos criar sentido, o que nos permite projetar os nossos desejos na realidade. E desta forma, inventamos, ou usamos artifícios para pensar o fim, no sentido de minimizar a angústia de nada saber sobre ele.

Freud (1996), no ensaio “Perturbação com a morte”, afirma que, através da ficção, encontramos um substituto para o medo da morte, uma vez que a ideia do fim nos é inconcebível. Em função desta dificuldade de dar à morte o lugar que lhe é devido, tendemos a afastarmo-nos dela, convencendo-nos da nossa imortalidade, em nível inconsciente, onde tudo é possível:

 

“(…) iremos procurar na ficção, na literatura, ou no teatro, um substituto para a perda da vida. É aí que podemos ainda encontrar homens que sabem morrer, que conseguem até matar. É aí que vigora ainda a condição que poderia reconciliar-nos com a morte, a saber, que para além das vicissitudes da vida contássemos sempre com uma vida extra intocável” (FREUD, 1996, p. 136).

 

Este medo que temos da morte perpassa toda a nossa trajetória temporal, através da qual a psyque absorve e interioriza o sentido do tempo instituído pela sociedade, tendendo a abrandar à medida que vamos criando artifícios para pensar o fim. Por meio destes artíficios, no quais a tessitura narrativa se inscreve, é que a nossa experiência com o tempo se torna significativa e menos dolorosa.  Ainda que a ficção não defina o tempo, confere-lhe uma estrutura de sentido, através da qual nos é possível apreendê-lo. Esta estrutura de sentido que atravessa o tempo é representado por Cronos, como um desencadear consecutivo dos factos, que nos prende numa realidade onde só o tempo de Kairós consegue a façanha de quebrar, por sua natureza de corte em relação ao que constitui a determinação histórica da narrativa.

O acontecimento do canto proposto por Guimarães Rosa na trama é “um ponto no tempo cheio de significado”, é Kairós que “carrega uma intenção derivada da sua relação com o fim”. O canto é apresentado como um elemento de libertação, ou mesmo de saída utópica diante da eminência catastrófica inerente à loucura, bem como, diante da partida “eterna” daqueles queridos por Soroco: “acorçoo do canto, das duas, aquela chirimia, que avocava: que era um constado de enormes diversidades desta vida, que podiam doer na gente”. Neste momento do texto, a ficção tira-nos do fardo do tempo, ao desafiar os sentidos que temos da realidade, deixando-nos livres de Cronos:

 

“O tempo é uma transição infinda de um estado de infelicidade para outro, ‘uma paixão sem forma nem épocas’, que não será terminada por parousia. É um mundo que grita por formas e épocas, e pelo Apocalipse; tudo o que recebe é a vã temporalidade, o influxo antitético, louco e multiforme” (KERMODE, 1997, p. 116-117).

 

Devido à necessidade que temos de estar em paz com o tempo, não no sentido de conformismo, mas como um ato de consolação diante do fim, somos capazes de aflorar o sentimento da esperança, numa possibilidade de criar outros sentidos para lidar com a contingência, ou seja, com essas “pequenas” descontinuidades que nos assaltam.

Em “Soroco, sua mãe sua filha” Guimarães Rosa dá voz ao louco, e o faz aproximando o interlocutor do texto, através de um estado empático que é visível tanto em nível da narrativa, quanto ao uso de recursos da linguagem coloquial: “E foi o que não se podia prevenir: quem ia fazer siso naquilo? Num rompido – ele começou a cantar, alteado, forte, mas sozinho pra si – e era a cantiga, mesma, de desatino, que as duas tanto tinham cantado. Cantava continuando.”

Neste conto, como também acontece nos outros contos do escritor, a peripécia acaba por desencadear o final da “estória” como um desenlace inusitado e consolador:

 

“Ora, a peripécia depende da confiança que o fim nos merece; é uma desconfirmação seguida por uma consonância; o interesse de termos as nossas expectativas falsificadas está obviamente relacionado com o nosso desejo de alcançar a descoberta ou o reconhecimento por um caminho inesperado e instrutivo” (KERMODE, 1997, p. 34).

 

Ao tratar o conceito de complementaridade, Kermode (1997) afirma que precisamos de narrativas de consonância, ou seja, narrativas que usam o passado como elemento fundamental da trama, mas que, além disto, estão destinadas a relatar eventos inexplicáveis de forma a que sejam humanamente aceitáveis, o que denomina de ficção-concórdia.

Estas ficções-concórdia variam ao longo do tempo, porque se altera o mundo e, com ele, o sentido que damos ao enredo da vida sofre modificações. No entanto, a nossa necessidade de consonância é contínua, porque ela trata da nossa emergência em preencher o tempo de forma a que nos dê contentamento:

 

“(…) a necessidade que continuamos a sentir é uma necessidade de concórdia e nós proporcionamo-la com ficções-concórdia cada vez mais variadas. Mudam como mudam a realidade na qual nós, em ‘o mais no meio possível’, buscamos uma amostra de contentamento; porque ‘o tempo muda’” (KERMODE, 1997, p. 72).

 

O estabelecimento desta concordância aparece no ato do canto, onde a barreira que separa a loucura da razão desaparece. E o que separa o coletivo do indivíduo também se dilui no movimento do canto, numa compreensão trágica da vida. O canto também nos remete para uma linguagem à procura do diferente, uma vez que Guimarães Rosa exclui, com o artifício deste acontecimento, a lógica da exclusão, criando a possibilidade de um outro vir-a-ser.

O canto, expressão vocal do signo da loucura, e símbolo das manifestações mais arcaicas de socialização, não aparece como sarcasmo de uma esperança que nunca virá, mas muito mais como consolo, como um canto de socorro, ou ainda como o desalento consolo do canto.

Ao imitar o canto das “doidas”, Soroco, resignado pela fatalidade da loucura, é incapaz de suportar a culpa que poderia lhe assolar pelo abandono das “suas” mulheres. Em estado de desistência, atinge ele mesmo a desrazão de ser no mundo. E faz respingar no povo a verdade mais profunda das incertezas humanas: “A gente se esfriou, se afundou – um instantâneo. A gente… E foi sem combinação, nem ninguém entendia o que se fizesse: todos de uma vez, de dó de Soroco, principiaram também a acompanhar aquêle canto sem razão. E com as vozes tão altas!”

O conto nos leva a pensar que o lugar do sofrimento humano só existe fora da sociedade. No confinamento, a expressão da morte pode ser mais controlada, gerando uma falsa segurança sobre a dificuldade do ser humano em lidar com o fim. Sendo a loucura a própria morte, afastada, ela não nos assola tanto. No entanto, no final do conto a ideologia eugenista é pervertida e a loucura se torna o normal. Ao fazer com que todos os personagens descortinem o seu “oco” entregando-se ao canto, Guimarães Rosa atinge o imaginário do leitor que balança entre o desalento e a esperança. Partindo de um microcosmos, o escritor atinge o universal discutindo elementos que trespassam as barreiras culturais. Ele consegue criar uma reflexão profunda sobre a falta de um lugar social para o sofrimento humano e a impotência perante a dureza do real.

De todos os males que afligem a humanidade, a loucura é uma destas evocações, remetendo para o valor de humanidade e suplicando ao outro um estado de compaixão. Ao escancarar a vulnerabilidade gritante da nossa própria natureza, ela reduz o ser humano ao nada. Sem capacidade de se auto-gerir, porque “não soube” arranjar-se no mundo, desajustado à ordem social, o que resta ao louco é apenas uma existência suportável, e a nós, através dele, o resgate daquilo que dignifica a humanidade: “A gente estava levando agora o Soroco para a casa dêle, de verdade. A gente, com ele, ia até onde ia aquela cantiga.”

 

Bibliografia

ARBEX, Daniela. O holocausto brasileiro. Guerra e Paz, 2014.

FOUCAULT, Michel. Histo?ria da loucura na idade cla?ssica. Traduc?a?o de Jose Teixeira Coelho Netto. Sa?o Paulo: Perspectiva, 2005.

FREUD, Sigmund. O mal-estar na civilizac?a?o. In: Obras psicolo?gicas completas de Sigmund Freud. Edic?a?o standard brasileira. Rio de Janeiro: Imago, 1996.

FREUD, Sigmund. Perturbação com a morte. In: Obras psicolo?gicas completas de Sigmund Freud. Edic?a?o Standard Brasileira. Rio de Janeiro: Imago, 1996.

KERMODE, Frank. A sensibilidade apocalíptica. Tradução de Melo Furtado.  Lisboa: Edições Século XXI. Coleção Fundamentos, 1997.

ROSA, Joa?o Guimara?es. Soroco, sua ma?e, sua filha. In: Primeiras esto?rias. 15ª ed. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 2001. p. 62-66.

 



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