REVISTA LITCULT27Revista LitCult - Vol.1 - 2001



O Discurso literário-religioso em Juiz de Fora no início do século XX – Geysa Silva





O Discurso literário-religioso em Juiz de Fora no início do século XX

Geysa Silva

Universidade Federal de Juiz de Fora

A pesquisa, O discurso literário-religioso em

Juiz de Fora no início do século XX, vem acusando uma presença marcante da teodicéia cristã, no período e na cidade em questão. Neste sentido, acredita-se que os estudos até agora desenvolvidos apontam diversos caminhos e atalhos que são tangenciais do projeto matriz e que podem servir de condutores a uma primeira abordagem da obra de Murilo Mendes. Partindo do princípio de que existe uma certa correlação entre fatos históricos e correntes do Saber, basta indagar quais eram as grandes tendências, no início deste século, para visualizarmos o espaço dentro do qual se tocavam os caminhos do pensamento. De um lado, acelera-se o processo de industrialização, com seus aspectos positivos e negativos: avanços da ciência e da tecnologia, desemprego e exploração da força de trabalho. De outro, na filosofia, o positivismo produz um alinhamento que se cristaliza em atitudes semelhantes às vivenciadas pela religiosidade, ensejando o confronto entre anarquistas e contra-iluministas, acirrando os debates e provocando atitudes de extrema agressividade, em ambas as partes.

No caso de Juiz de Fora, cidade situada na Zona da Mata mineira, a proximidade com o Rio de Janeiro, que se pretendia uma nova Paris, e a instalação de fábricas diversas fizeram com que a população vivenciasse transformações sensíveis em sua religiosidade. Pode-se dizer que a expansão do capital e a chegada maciça de imigrantes europeus relativizaram os conteúdos religiosos, que perderam sua realidade objetiva e passaram a ser assunto de indivíduos, isto é, deixaram de lado o cosmos ou a História para ligar-se à existência individual.

Destaca-se, com facilidade, na expressão religiosa de Juiz de Fora, a importância dos católicos, que constituem a maioria da população local e têm, como reduto ideológico, as ordens redentorista e sacramentina, cuja popularidade se assentava na palavra e na ação dos padres Júlio Maria de Morais Carneiro e Júlio Maria de Lombaerde, que, embora não pertencesse ao clero local, tinha seus discursos e livros, lidos e discutidos. Acrescente-se, ainda, o papel desempenhado pelo jornal “O Pharol”, que retrata, em suas páginas, as modificações sofridas pela religiosidade em artigos escritos em linguagem parnasiana e fortemente tendenciosa.

Estabelecendo um diálogo entre religião e literatura, foi possível traçar novas perspectivas de leitura desses discursos, indiciando uma compreensão interdisciplinar do texto poético, que ultrapassa a historicidade ou a imanência da narrativa.

Vivenciando o crepúsculo de uma era e o surgimento de outra (a modernidade), Juiz de Fora, no início do século XX, se reflete nos discursos que redefinem as obrigações religiosas do catolicismo e redefinem o próprio conceito de Deus, nem sempre pensado como fundamento de tudo e de todos, o que vai despertar a reação dos convictos.

A presença real! A permanência de Jesus Cristo

Na terra! A sua perpétua coabitação com os homens!

[…] O espírito que se fortalece neste mistério quase

que sente despedaçados os grilhões da carne e vai,

nas regiões do infinito, pedir aos anjos que cantem

a fortuna e a glória da humanidade

(Júlio Maria, 1905, p. 106-7).

A industrialização plenifica a era dos homens como construtores de seus atos, era exemplificada em O Pharol, mas perde-se a noção de uno e de todo, cuja busca se exibe tanto nos sermões dos dois padres Júlio Maria, como no existencialismo religioso de Murilo Mendes. Religião e literatura, ética e estética emaranharam-se sem conseguir gechar o abismo das novas situações, provocadoras de uma nova consciência.

Se, na Idade Média, por exemplo, tinha-se uma teodicéia que explicava e mantinha unido o mundo, a modernidade inaugurava um mundo que é de alguns e que tem de competir com o mundo dos outros. Luteranos, presbiterianos e metodistas, além dos anarquistas, exibiam a proliferação de crenças e a presença do ateísmo, na fragmentação de atitudes diante dos mistérios da vida. Uns e outros acenavam com a utopia da justiça para todos e com a realização das possibilidades individuais. É sobre essa conjuntura sócio-histórica que se faz a pesquisa de O discurso literário-religioso em Juiz de Fora no início do século XX.

Estudar as obras dos católicos, os artigos de O Pharol, ou as manifestações dos anarquistas exige um compromisso de muitas direções, que mal começam a ser vislumbradas. Tendo como suporte dos “corpora”, os arquivos da biblioteca dos redentoristas, do Centro de Estudos Murilo Mendes, da biblioteca municipal e do próprio arquivo histórico da Universidade Federal de Juiz de Fora, a pesquisa procura mostrar como esses discursos religiosos influíram na formação de Murilo Mendes, de vez que sua família era católica praticante e sua casa freqüentada pelos padres, especialmente pelo padre Júlio Maria de Moraes Carneiro.

É preciso, entretanto, esclarecer que usaremos a palavra discurso como linguagem em interação, pois os sentidos produzidos por um texto não nascem em seu autor, este apenas o retoma. Como afirmam os lingüistas, a linguagem não é somente meio de comunicação e/ou expressão; ela é um espaço de conflito onde se realizam lutas ideológicas. Nossa questão é, pois, caracterizar o discurso religioso, encontrar marcas formais que explicitem seu funcionamento, porque, ao lado da já discutida relação entre religião e cultura, apresenta-se hoje, para os estudiosos em geral, a relação entre religião e literatura, adentrando a crítica acadêmica (principalmente nos Estados Unidos), apoiada na necessidade de novas interpretações do texto poético.

Sabe-se que o discurso religioso é, por sua especificidade, autoritário, procurando absolutizar um sentido de tal maneira que se torne o único e, por conseguinte, sua polissemia é contida. Em se tratando do discurso católico, a performatividade, que considera a linguagem como ação, é exercida pelos padres que falam sempre “no lugar de”. A palavra detentora da verdade requer a crença e faz a mediação com o sagrado, constituindo o discurso religioso em promessa ou em ameaça, conforme as circunstâncias. Vejamos quais eram essas circunstâncias em Juiz de Fora e quais reações a elas eram dadas pelo discurso religioso.

O final do século XIX e o início do século XX trazem para Juiz de Fora a vontade hedonística de aproveitar cada momento da vida. A industrialização, em toda parte, sempre permitiu que os mais pobres se reconhecessem como tal e, portanto, que as diferenças sociais ficassem mais evidentes. Torna-se rara a submissão à vontade de Deus, ou manter a esperança numa vida melhor, mesmo essa esperança sendo mediada pela figura do Cristo encarnado. É assim que A teodicéia social do cristianismo (isto é, sua legitimação das injustiças da sociedade tem desmoronado juntamente com a plausibilidade geral da teodicéia cristã. (Berger, 1985, p. 91). O padre Júlio Maria vai ameaçar a cidade com um eschaton divino: a epidemia que, em 1918, já grassava em outros lugares próximos:

Cidade infiel! Por que temes a peste, a desolação e a morte, se tens em mim o remédio, a alegria e a vida? toda tua confiança, Eu sei estava nos meios humanos; tu os aplicaste; mas eles estão esgotados: só te resta a Minha Misericórdia (Júlio Maria, 1934, p. 31).

O Deus que assim fala tem a plenitude do poder e pode livremente usá-lo, quando a causa é santa (para ajudar os fiéis), ou quando a causa é sacríliga (para puni-los). Essa é a lei da graça, segundo a qual se obtém reconhecimento ou castigo. A questão da culpa e do castigo vai levantar problemas outros. O pecado e as conseqüências dele advindas são vistas sob forma de um masoquismo religioso, justificador de todos os males. Um Deus poderoso castiga os homens, que devem modificar seu comportamento para escapar à danação. Mesmo se o castigo é por demais rigoroso e parece injusto, Deus não pode ser interpelado, pois sua ética está acima dos padrões humanos. Poder-se-ia dizer que a proposta apresentada no discurso religioso é a reiteração das palavras de Jó: Ainda que Deus me mate, confiarei nele. Também os padres não estão isentos de culpa. Ataca-se a desorganização pastoral que se descuidava dos ensinamentos da fé, omitindo-se das obrigações catequéticas para satisfazer o gosto mundano de festas comemorativas as mais diversas. Padres que não estudam a palavra de Deus e adotam o improviso na prática oratória são asperamente criticados pelo padre Júlio Maria:

Pode saber pregar quem não procura no Divino Mestre da palavra a alma, a inspiração, o fogo da eloqüência sagrada? […] A palavra de Deus não precisa, para trazer frutos, de talentos oratórios; precisa apenas ser reproduzida com decoro, fidelidade, gravidade (Júlio Maria, 1934, p. 86).

É justamente nessa via que se constituem os fundamentos da crença, estabelecendo, a partir da compreensão das escrituras, o sistema de regras de vivência. Prosseguir continuadamente com a formação teológica é pré-requisito exigido dos sacerdotes, que devem oferecer, ao público, um referencial de comparação para validade da religião católica. O sacerdote, como medium entre o homem e a realidade absoluta, é fonte do conhecimento religioso, pois ele explica e aponta o espaço da revelação, onde todos os temores se desvanecem. Através da palavra sacerdotal, Deus se faz conhecer e só assim ganham sentido o culto e os rituais.

Convencer o público, argumentar a favor de uma religião que se estiolava no combate com outras religiões e com suas divisões internas é tarefa que exige a fala literária e lingüística cuidada. O padre Júlio Maria toma consciência, dramaticamente, de que bons exemplos não são suficientes para os fiéis adotarem uma vida que mereça a redenção. É preciso divulgá-los através de uma oratória apoiada no discurso literário, configurado por um ritmo musical que se aproxima da poesia. A fala performática, que do público imprecava contra os fiéis, é atravessada por uma melodia monocórdia, análoga e monofônica do canto gregoriano, que o rigor eclesiástico conduziu ao máximo da perfeição expressiva, permitindo que, até hoje, ouvintes se deliciem com sua beleza. Essa monodia (segundo alguns) ou monofonia (segundo outros) limita as opções de representação, todavia permite centrar a atenção no orador e por conseguinte, em suas palavras, conforme se constata neste trecho O Deus desprezado.

Eu sigo os trilhos que o senhor me riscou;

dou os combates a quem me convidou;

acompanho a Estrela que Ele fez brilhar

nas trevas da minha mocidade (Júlio Maria, 1934, p. 102).

A importância do padre Júlio Maria, na formação de Murilo Mendes, é explicitada em A idade do serrote (Mendes, 1994, p. 94), quando o poeta dele fala como alguém que possui uma visão diferente do catolicismo: “O padre Júlio Maria já me vacinara contra a religião piegas das beatas”.

Outro padre, que se destacou na pregação da fé católica e na oratória sacra, coincidentemente tem o mesmo prenome do primeiro: foi Júlio Maria de Lombaerde. A coincidência de nomes não se repetiu nas posições político-religiosas, dentro de uma igreja que era comum aos dois. Atuou em Manhuaçu, em Varginha e em Dores da Boa Esperança, porém seus sermões, publicados em livros, circularam intensamente em Juiz de Fora. Levando vida austera, verdadeiro exemplo de ascetismo, Júlio Maria de Lombaerde era também conservador em questões político-teológicas. Seus escritos apontam para uma clara influência de Santo Agostinho, ensinando que devemos procurar não a sabedoria profana, que pretende desvendar os segredos da natureza e, sim, a sabedoria espiritual, aquela capaz de colocar-nos em contato com o transcendente e aperfeiçoar o que ‘há de melhor em nossa alma!’

O conservadorismo leva o padre Júlio Maria de Lombaerde a atacar o evolucionismo de Darwin, opondo-se até a Aristóteles e a Spencer; condena qualquer tipo de materialismo, uma vez que, para os católicos, é fundamental estabelecer diferenças entre o corpo e a alma, pois o primeiro vem da terra e a segunda, de Deus, como ensina a Bíblia. Nestas condições. Somente é aceita a história de Adão e Eva para explicar a origem do mundo e dos homens. É no Gênesis que se encontra a verdade primeira:

Deus disse: – ‘Que haja luz!’ E a luz existiu. Deus disse: ‘Façamos o homem à nossa imagem e semelhança’. E Deus criou Adão. Tudo isso é sublime e deixa entrever o dedo de Deus. Tudo está explicado pela onipotência divina e nossa origem é divina (Lombaerde, 1937, p. 11).

Ao ataque de anarquistas e ateus responde que a existência de Deus não é uma discussão científica, mas um problema de fé. Esse argumento é hoje defendido por Ferry, que nos diz:

Pois se a existência de Deus, admitamos por hipótese, nos fosse demonstrada em boa e devida forma, com um rigor e uma precisão perfeitamente científicos, ninguém teria paradoxalmente nenhuma razão para acreditar. Ninguém mais teria fé, mas “saberíamos” Deus, como sabemos que Napoleão existiu, mesmo que ele não pertença mais a este mundo (Ferry, 1999, p. 3).

Concebendo Deus como “actus purus“, padre Lombaerde defende o intelecto sobre-humano da mente divina, que não concebe distinção entre realidade e possibilidade. Assim, ao homem foi dado o livre-arbítrio para que faça suas escolhas. Não há determinismo nem fatalismo, estamos longe da “moyra” grega, de quem era impossível escapar. Agora há responsabilidade plena.

O homem deve dilatar a alma pela oração e pela virtude. A salvação é uma obra a dois: Deus e o homem. Porém, Deus deu ao homem o lívre-arbítrio, sem o qual seria apenas um animal e não mais um ser inteligente e livre (Lombaerde, 1937, p. 172-3).

Num momento histórico em que a pobreza e a doença convivem com a ostentação da opulência, o discurso precisa ser altamente persuasivo, para despertar nos fiéis as virtudes teologais que, segundo Santo Agostinho, nunca estarão separados. Lombaerde aponta a prática dessas virtudes como caminho da salvação: agir com amor (ao próximo e a si mesmo), acreditar na vida eterna e, apesar de todos os sofrimentos, esperar encontrá-las, após a morte.

(…) Os bons sofrem, mas para expiarem suas faltas, para se purificarem e merecerem a glória eterna (…). Nem para os lírios tudo é lírio! O Salvador não nos pretende preservar de sofrimentos, mas Ele quer que na dor como na alegria, olhemos para Ele, abençoemos sua mão paternal, e Nele esperemos mais do que nos homens (Lombaerde, 1937, p.89).

A comparação com os lírios, símbolos da pureza, indicia a justificativa dos males que atingem os “bons”. É na própria natureza humana que se encontra a razão do mal. Sofrendo o estigma do pecado original, o homem já nasce sob o signo da culpa. Pior: ainda que Adão e Eva não merecessem a perda do paraíso, não sendo criadores, mas apenas criaturas, os homens seriam marcados pela imperfeição:

No momento em que Deus resolveu fazer as criaturas, Ele não podia escolher, tinha que fazê-las necessariamente defectíveis. Pois só Ele é e pode ser indefectível e devia assim introduzir em sua obra a possibilidade do mal (…). O único bem perfeito é Deus (Lombaerde, 1937, p. 68).

Subrepticiamente, o discurso introduz o tema da recompensa e do castigo, do mérito e do demérito. Há nessa religiosidade o imperativo categórico kantiano, uma escuta interior – o dever que a consciência impõe ao sujeito, um deus que é visto como imagem, modelo a ser seguido pelos homens. O texto é organizado em frases declarativas, de maneira a não deixar dúvidas. O emprego dos adjetivos defectível e seu antônimo, tirados da linguagem culta, empresta solenidade ao discurso que impressiona pela clareza da sintaxe. Há uma defesa apaixonada da fé e da verdade religiosa, qualificada de supra-racional. O homem deve aceitar a miséria de sua condição e conformar-se em viver num mundo degredado, para redimir a si mesmo:

Deus sabia pela presciência divina o que aconteceria com a raça deste homem. Ele viu tudo… tudo… (…) e não quebrou a estátua que tinha diante de si, como um artista descontente com sua obra. Porque mais alto que a ingratidão dos homens, Deus enxergava a misericordiosa figura do Redentor dos homens. (…) A criação, esmo que imperfeita, é um bem. Por causa de poder haver certos males neste bem, Deus não deveria deixar de criá-lo. (…) Seria sacrificar um bem maior por causa de um bem menor (Lombaerde, 1937, p. 139).

O final apoteótico desses sermões substitui a gratuidade e a insignificância de nossa existência pela crença na redenção. Ao notar as “doenças” de uma cidade que começava a mergulhar na era técnica e a entregar-se aos excessos do pragmatismo, padre Lombaerde vai tentar “salvá-la” para Deus, propondo uma prática de vida que se opunha à superficialidade da fé de seus contemporâneos.

Entretanto, a defesa do catolicismo não ficava restrita aos púlpitos. Ela se fazia também nos jornais, como acontecia com “O Pharol!”. Na coluna intitulada “Pregação histórica”, a Igreja empreendia sua força legitimadora que, segundo Peter Berger, “constitui-se num processo fundamental de socialização e controle social (…), que serve para atenuar qualquer ameaça de rompimento com o mundo objetivo” (Berger, 1985, p.42). Assim, o jornal traçava perspectivas moralizantes, através do uso de uma linguagem normativa, com características literárias. Assinada por um enigmático Sibillat, a coluna “Pregação Histórica” fustigava os crentes com suas admoestações.

Queixamo-nos das calamidades, e de todos os flagelos com que Deus nos pune; queixamo-nos das doenças, dos insucessos em nossos negócios; e, entretanto, a origem principal de todos os males, são essas bocas infernais; essas penas impudicas, (…) a vomitarem lavas de blasfêmias, torrentes de obscenidade e de insultos contra Jesus Christo, sua Egreja e os bons costumes.

São como outras tantas cavernas pestilenciais a exalarem mortífero veneno, e que deveriam ser fechadas,…, como contrárias às leis morais, cujo respeito e observância trazem tranqüilidade e boa ordem,…, prosperidade e engrandecimento, ao indivíduo, à família, à nação (“Sibillat”, in O Pharol, 14/07/1899). O jornal não apresenta numeração de páginas e suas edições encontram-se em precário estado de conservação, impossibilitando uma melhor especificação da nota.

Com a proclamação da República e concedida a liberdade de culto, novas correntes religiosas chegam a Juiz de Fora. Para enfrentá-las, a Igreja Católica procura diminuir e diferença entre conselho e advertência, usando uma argumentação com base histórica; observe-se a apresentação de Henrique VIII:

O real chefe do protestantismo (…) Para fazer uma idéia justa ou pelo menos aproximada dos sentimentos, que enchiam o coração desse monstro, basta lembrar – diz o Apóstolo – que ele sacrificou à sua paixão 2 cardeais, 18 arcebispos, 335 nobres, 124 cidadãos… Acrescente-se ainda que duas rainhas, Ana Bolena e Catarina Howard, foram degoladas em conseqüência da inconstância dos amores deste príncipe, que foi o primeiro chefe da Igreja Anglicana (O Pharol, 25/1/1900).

O início do século XX mostra o jornal O Pharol preocupado em disputar o mercado de pregações religiosas. O discurso católico tenta agradar tanto os “velhos consumidores”, apegados à tradição, como os “novos consumidores” que experimentavam as novas simbologias. Se, em 7 de janeiro de 1900, O Pharol publicava “Os sofrimentos humanos agravaram mais e mais, parece que apregados às conquistas científicas do homem”, em 25 de janeiro do mesmo ano, o discurso se torna compreensivo, adaptado aos tempos “modernos”: “Não somos daqueles que querem mal aos que, ou por um desvio da razão, ou por ferrenha pertinência no erro, não comungam”. O jornal adota também a forma poética, em versos que celebram a humildade e a resignação, como se pode ver neste fragmento do soneto “A bofetada”.

Vergado e cambaleando, quase morto

Sob o peso sinistro do madeiro,

Segue Jesus – o grande mensageiro

Da egualdade, da paz e do conforto.

…………………………………………………..

E elle, sereno, como se rezasse,

Murmura, offerecendo-lhe a outra face:

Fere, tambem, deste outro lado, irmão!

(Correa de Azevedo – O Pharol, 14/01/1900)

Conclui-se da leitura desses diferentes discursos que eles só adquirem significação plena, quando há interação entre locutores e ouvintes ou leitores, pois há sempre, por parte do primeiro, modalização apreciativa, ou seja, a fala se dirige a um público determinado e procura atingir finalidades específicas.

É importante destacar a preocupação com a salvação e com a doutrina: deseja-se ligar a criatura humana a seu princípio divino, mostrar que os eixos da existência estão invertidos, afirmar a necessidade de o sagrado sobrepor-se ao profano; tenta-se reparar o corte que separa o imaginário da razão, a verdade revelada do conhecimento objetivo. O discurso religioso da época exibe irritação com a mentalidade científica e uma grande tensão vivida pela Igreja diante dos obstáculos oferecidos por todo um processo de metamorfose social, confirmando a linguagem como construtora de símbolos indicadores do aspecto religioso da vida. Essa linguagem reconhece que o crente não é passivo, inerte diante das ocorrências; ao contrário, o discurso religioso concebe esse homem como participativo, sujeito a influências diversas, co-produtor de seu próprio mundo.

Bibliografia:

Berger, Peter. O dossel sagrado. Trad. José Carlos Barcellos. São Paulo: Paulus, 1985.Mendes, Murilo. Obra completa. Rio de Janeiro: Nova Aguilar, 1995.Moraes Carneiro, Júlio Maria. O deus desprezado. Rio de Janeiro: Boa Imprensa, 1934.Lombaerde, Júlio Maria. O anjo da luz. Petrópolis: Vozes, 1937.Orlandi, Eni Pulcinelli. 2ª ed. Campinas: Pontes, 1987.O Pharol. Juiz de Fora: 1899/janeiro 1900.Ferry, Jean Luck. Caderno de Cultura de O Estado de São Paulo, 10.10.1999.


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