REVISTA LITCULT67Revista LitCult - Vol.1 - 2001



O CORTIÇO E A CIDADE DO RIO DE JANEIRO – Ligia Vassallo





Resumo:
A preocupação naturalista com o referente extra-literário se investe de uma tal veracidade que isto nos permite acompanhar, em O cortiço de Aluísio Azevedo, as mutações ocorridas no Rio de Janeiro do último quartel oitocentista, como a expansão geográfica e a modernização dos costumes, ambas associadas às transformações operadas na paisagem humana brasileira devido à substituição da mão de obra escrava pela dos imigrantes. Assim, nesse romance, a cidade torna-se um personagem literário e, como tal, será analisada.

Texto:

O CORTIÇO E A CIDADE DO RIO DE JANEIRO

Ligia Vassallo
Universidade Federal do Rio de Janeiro

O séc

ulo XIX descobre a cidade – realidade sociológica que é logo apropriada pela literatura. São bem conhecidas as palavras de Baudelaire sobre sua flânerie pelas ruas de Paris, fenômeno magistralmente estudado por Walter Benjamin. Entretanto, bastante antes das experiências deambulatórias do autor das Fleurs du mal (1857), a cidade já aparece na então hegemônica literatura francesa, principalmente no grande romance realista, cuja preocupação em tematizar a história feita no presente, tanto quanto a problemática da atualidade, leva a valorizar o referente extra-literário e a veracidade do espaço, em especial o urbano, tomado como cenário preferencial das ações ficcionais.

Assim é que os salões aristocráticos parisienses figuram em Le rouge et le noir, obra de 1830; e no Père Goriot, de 1833, presenciamos uma espécie de mitologia da capital francesa, de que a barata Pensão Vauquer, de um lado, e o sofisticado e elitista salão de Madame de Beauséant, do outro, constituem pólos privilegiados do imenso edifício. Décadas mais tarde, a série dos Rougon-Macquart, de Emile Zola, publicada entre 1871 e 1893, está longe de esgotar os atrativos da Cidade Luz, perene centro cosmopolita e multifacetado. Desse modo, em L’Assommoir (1877), romance que focaliza o universo operário, a cidade se estende para áreas até então inocupadas, ainda em fase de urbanização, nas quais se estabelece a lavadeira Gervaise, que acaba por soçobrar no alcoolismo. Por sinal, tais indicadores remetem ao nosso O cortiço (1890), de Aluísio Azevedo, que mantém intenso diálogo intertextual com o livro de Zola.

Numa sociedade periférica como a brasileira, o fenômeno de valorização da cidade se reproduz e se intensifica, ainda mais no último terço do século XIX, que se assinala por ser o período em que a presença francesa se fez mais forte e influente no Brasil. Haja vista, por exemplo, a magnitude de que se revestiu o Positivismo entre nós. É nesse contexto que vem a lume O cortiço, obra que tomamos como referência para caracterizar a realidade urbana do Rio de Janeiro a partir de um texto literário.

Contudo, independentemente das profundas relações entre a produção de Aluisio Azevedo e a de Émile Zola – questão que não será abordada aqui -, o criador da corrente naturalista no Brasil alcança produzir um rico e diversificado panorama da então capital do Império, num romance bem sucedido que, entretanto, não se propõe a este objetivo precípuo, uma vez que, como o próprio título indica, dedica-se a focalizar as camadas populares, centrando-se na residência coletiva, habitada por uma classe em constituição, a dos trabalhadores manuais livres, em coexistência com os últimos estertores do sistema escravagista.

No desenrolar da narrativa, o romancista procede por contraste, confrontando duas camadas sociais que se encontram sempre em posições antagônicas em todos os aspectos, como no tocante à moradia, às práticas quotidianas, ao trabalho e ao lazer. O conflito entre ambas eclode e se reforça porque os dois grupos são vizinhos no novo bairro de Botafogo, em vias de urbanização, sendo separados por um muro, que situa de um lado o sobrado solarengo da abastada e pretensiosa família Miranda, de outro o cortiço, habitação coletiva de baixa renda capitaneada pelo vendeiro luso João Romão, amásio da escrava Bertoleza. Desse modo, considerando-se que para a estética realista-naturalista o microcosmo reproduz o macrocosmo, tem-se uma visão de conjunto de um certo momento da sociedade brasileira, visão embora sumária, configurada pela situação dos moradores de sua capital, que são os personagens do romance. A percepção da cidade nos é dada tanto pelas ações destes quanto pelo espaço físico onde eles evoluem, espremido entre o mar das praias – Lapa, Saudade, Botafogo – e a montanha, das pedreiras de São Diogo (no Centro da cidade) e Botafogo, nas quais trabalha o cavouqueiro português Jerônimo, egresso do trabalho rural a que não se adaptara.

No século XIX, com a transmigração da família real para o Brasil, a abertura dos portos e a transformação da capital da colônia em sede do reino, depois império, a sociedade se complexifica e conseqüentemente a cidade cresce. Considera Eulalia Lobo (1978) que a introdução do trabalho assalariado, substituindo a escravidão, liberou capitais até então empatados, que passam doravante a se destinar a outros ramos de atividade econômica, como uma incipiente indústria, o comércio internacional e os serviços financeiros. Em contrapartida, excedentes de mão de obra livre que são

excluídos do campo, uma vez que o pólo cafeeiro se deslocou para o estado de São Paulo, dirigem-se para a cidade, vindo engrossar a fileira dos trabalhadores manuais não especializados. Muitos deles passam a atuar como vendedores ambulantes e prestadores de serviços (ferreiros, torneiros, carroceiros, taverneiros, soldados de polícia, empregados do comércio).

Com isso a cidade se povoa – e, portanto, a literatura. Ela se povoa de “gente graúda” e “gente miúda”. O primeiro grupo se compõe basicamente de estrangeiros ricos, que vão integrar a elite social: ingleses financistas, franceses do comércio de luxo, portugueses atacadistas. Somente a última nacionalidade é retratada no romance, através dos dois protagonistas e concorrentes, Miranda e João Romão, que representam dois lados da fortuna e, conseqüentemente, de comportamento e de posição na sociedade.

O segundo grupo é formado por gente com os mais variados matizes de cor da pele, desde os migrantes internos, provenientes do norte do país como a sensual mulata Rita Baiana ou do interior do estado, todos atraídos pelas possibilidades da embrionária metrópole, até os imigrantes europeus, como os trabalhadores portugueses, italianos e judeus que moram no cortiço. Por sinal sobre eles recaem estereótipos negativos: alguns generalizados, como a barulheira e o mau cheiro do corpo, outros mais específicos, como a avidez do judeu ou a sujeira e a bagunça dos italianos.

Aliás, a obra-prima de Aluísio Azevedo é o primeiro texto literário em que aparece a figura do imigrante italiano no Brasil. É também o primeiro que focaliza empregados e trabalhadores sob o modo sério, além de ser o primeiro que assinala a presença da capoeira, cujos praticantes se reuniam em maltas, como refere Gastão Cruls (1952). Ele a define como um “jogo físico de destreza e ataque inventado pelo mestiço ágil, que cansa o adversário para derrubá-lo com um passe imprevisto de rasteira ou cabeçada” (p. 318). Os capoeiristas eram empregados nas campanhas políticas como cabos eleitorais, segundo afiança um deles, o personagem Firmo, que aspirava uma nomeação para o serviço público. Meios tão pouco ortodoxos facultavam-lhes alcançar vitórias altamente questionadas pela imprensa da época.

A união daqueles dois aspectos arrolados por Eulalia Lobo resulta não só em aumento da oferta de bens e serviços, como também na expansão da área urbana, que vai-se estendendo do antigo Centro em direção à zona sul. Desse modo incorporam-se sucessivamente novos bairros, como Lapa, Glória e Catete, para finalmente atingir Botafogo, epicentro da ação no Cortiço. O Centro da cidade, que concentra o comércio elegante quase todo em mãos de franceses, principalmente na Rua do Ouvidor, mantém seu prestígio como área residencial, embora outros arrabaldes desabrochem com esse fim. Nesse sentido, o percurso de Miranda é paradigmático, ao transferir sua moradia do centro da cidade para a região recém-desbravada.

Nessas circunstâncias, constrói-se muito em Botafogo, a se dar crédito ao romance:

“Entretanto, a rua lá fora povoava-se de um modo admirável. Construía-se mal, porém muito; surgiam chalés e casinhas da noite para o dia; subiam os aluguéis; as propriedades dobravam de valor. Montara-se uma fábrica de massas italianas e outra de velas […] Abriam-se novas tavernas; nenhuma, porém, conseguia ser tão afreguesada como a dele” (Azevedo, 1983, p. 10).

No Segundo Reinado, Botafogo era o bairro mais procurado pelas famílias de alta renda, incluído na enorme freguesia que agrupava áreas desertas como Copacabana e Ipanema, ou áreas rurais como a Lagoa Rodrigo de Freitas e a Gávea. Em fins do século XIX a enseada de Botafogo era coberta por jardins e chácaras suntuosas. Erigem-se mansões luxuosas, segundo Jaime Larry Benchimol (1990, p.103), como o atual palácio do Catete, construído em 1862 pelo Barão de Nova Friburgo e onde funcionou a Presidência da República até a transferência da capital federal para Brasília; outro exemplo é o atual palácio da Guanabara, sede do governo do estado do Rio de Janeiro, que foi vendido pelo presidente do Banco do Brasil à família imperial para residência da herdeira do trono.

Nesse bairro estabelecem-se os palacetes da elite social, a exigir mais e mais empregados e fornecedores. Ainda de acordo com Benchimol (1990, p.103), estes constituem a população não aristocrática, que se instala em terrenos menos valorizados nas imediações do cemitério São João Batista, datado de 1852. Seu mercado de trabalho é local, diretamente vinculado à residência dos ricos; relaciona-se ao comércio (formal ou ambulante), à prestação de serviços domésticos, ao exercício de certas profissões e pequenos ofícios, à exploração das pedreiras e à construção. Mas há também oferta de trabalho nas primeiras fábricas, como as que o romance menciona (massas alimentícias, velas) ou as de tecidos, instaladas em Laranjeiras, Gávea e Jardim Botânico, contígüas às vilas operárias que surgem.

São estes contingentes que estão a necessitar moradia e vão ocupar as infectas habitações coletivas para populações de baixa renda, anteriores às atuais favelas, cujas condições de insalubridade favorecem a rápida difusão de epidemias, como as febres mortais que acometem alguns inquilinos de João Romão, mormente entre os italianos. Tais moradas são conhecidas como casas de cômodos, cortiços ou avenidas, verdadeiras colméias humanas que concentram cerca de 10% da população do Rio de Janeiro por volta de 1888. Sua exploração é matéria candente na imprensa da época, em acusação que recai sobre vários aristocratas, inclusive o Conde d’Eu, genro do Imperador, conforme apontam Jean-Yves Mérian (1988, cap. 31) e Lilia Schwarcz (1999, p. 432).

Percebe-se a ocupação do bairro, em O cortiço, de maneira indireta: pelo aumento da extração na pedreira, produtora de material de construção por excelência; pelo crescimento da clientela de João Romão, pelo desenvolvimento de seu ritmo de negócios, pela multiplicação do número de seus inquilinos. O vendeiro vai dilatando o terreno, as propriedades e o poder, em homologia com seu projeto de enriquecimento e ascensão social, o que pode ser detectado através das diversas etapas em seus investimentos e nas modificações em seu comportamento.

Graças às economias de Bertoleza, ele adquiriu “alguns palmos de terreno ao lado esquerdo da venda e levantou uma casinha de duas portas” (Azevedo, 1983, p.5); em seguida três casas, erigidas em terreno baldio ao lado da vendinha infecta em que viviam, construídas com material roubado às obras da vizinhança, são o ponto de partida do grande cortiço. Depois, aos poucos, ele atinge as noventa e cinco casinhas da “Estalagem de São Romão”, tornando-se proprietário também de lavanderias, da pedreira, de hortas e jardins, da casa de pasto mais bem afreguesada do bairro, de bazar variado e bem provido, de armazém com gêneros diretamente importados da Europa, de sorte que João Romão pode fornecer tudo a todos, inclusive sortimento aos pequenos comerciantes dos arredores. O ápice de seus empreendimentos habitacionais constitui-se na “Avenida São Romão”, construção um pouco menos abjeta que o conjunto anterior, sendo formada por prédios de dois pavimentos que abrigam centenas de moradias, agora ocupadas por gente da baixa classe média e não mais as lavadeiras e mascates dos primeiros momentos. Entre os novos inquilinos, mencionados no capítulo 20, arrolam-se empregados do correio, estudantes pobres, contínuos de repartição pública, caixeiros de botequim, artistas de teatro, condutores de bonde, vendedores de bilhetes de loteria, mascates italianos.

Aos trabalhadores interessa viver nas proximidades do local de trabalho, ou, como dizem, perto da “obrigação” (Azevedo, 1983, p. 11), medida indispensável considerando-se a carência de transportes coletivos. Há um serviço de ônibus e uns poucos bondes, como o de São Clemente, usado pelo protagonista ou pelo parasita Botelho quando regressam do Centro da cidade; a maioria das viaturas, contudo, é de uso particular e se move por tração animal, como as que transportam as cocotes Léonie e Pombinha ou conduzem os coches de enterros. Por isso anda-se tanto a pé, como faz João Romão ao ser convocado à polícia, aonde comparece acompanhado por boa parte de seus inquilinos; como fazem Jerônimo e seus comparsas após matarem Firmo; como fazem as hordas de capoeiristas nas lutas entre cortiços ou, ainda, como se locomovem mascates e fornecedores de serviços que freqüentam o cortiço de João Romão, como o leiteiro acompanhado de vaca e bezerro, o padeiro, o tripeiro, o peixeiro, o vendedor de artigos de armarinho, entre tantos outros.

Trabalhadores e gente abastada não vivem da mesma maneira, ainda que em situação de vizinhança. Encontram-se espacialmente apartados, em grupos distintos e antagônicos, constituídos respectivamente pelos do cortiço e os do sobrado. Os primeiros se caracterizam por trabalhar, o que ocorre na pedreira, na tina de roupa por lavar, na loja de João Romão ou em atividades externas, exercidas todos os dias menos aos domingos, quando cuidam da higiene pessoal, lavando as casas e vestindo roupa limpa. Doentes e acidentados buscam cuidados médicos em hospitais como o da Misericórdia ou em irmandades como a de São Francisco, onde Jerônimo convalesce da navalhada. Casos mais simples, como os abortos de Bertoleza, são resolvidos graças às ervas da lavadeira Paula, também conhecida pela alcunha de Bruxa.

Em contrapartida, os membros do segundo grupo, sempre em ótima saúde, assinalam-se por estar permanentemente de folga, à exceção dos empregados domésticos e de Henrique, filho de um cliente de Miranda que veio do interior para estudar medicina na capital. Assim sendo, no tocante ao chefe do clã, enobrecido pelo título de Barão, sabe-se apenas que dirige seu estabelecimento comercial instalado no Centro da cidade. Quanto a João Romão, depois que enriquece e atinge a invejável posição de capitalista, deixa de vender no balcão, onde controlava o caixa do estabelecimento, para marcar presença nos bancos e círculos financeiros, onde especula na bolsa e faz grandes transações comerciais para multiplicar seu patrimônio, entregando a administração do escritório a uma complexa hierarquia de caixeiros e vendedores especializados.

A gente do cortiço pratica suas funções ao ar livre, em espaços comuns, seja devido à própria natureza das mesmas, ou porque as casas são minúsculas. Por isso, uma solidariedade algo forçada obriga-os a partilhar tudo, tarefas profissionais e prazeres, como as comezainas domingueiras, acompanhadas de bebida, música, dança, barulho e, não raro, alguma briga ou cena de infidelidade conjugal, além da reclamação dos vizinhos. A portas fechadas, vêem-se apenas os freqüentadores do botequim do Garnisé ou o trabalho de Pombinha, que costura seu enxoval de casamento ou escreve cartas ditadas pelos moradores analfabetos. No sobrado, porém, tudo se passa em ambientes fechados, em especial a intensa comensalidade, das pequenas reuniões de convidados às grandes recepções nas ocasiões especiais. Executa-se fora de casa apenas a transgressão de Dona Estela com o jovem Henrique, praticada nas moitas do jardim.

O contraste entre os grupos se evidencia em outros aspectos, como no tocante à organização da família e no emprego do tempo livre. Nas camadas populares os casais se unem por interesse afetivo, de maneira livre e descompromissada, como o lusitano João Romão com a escrava Bertoleza e Rita Baiana com Firmo, ambos mulatos, ou pelo casamento oficial – como o dos portugueses Piedade e Jerônimo, ou do policial negro Alexandre com a lavadeira branca Augusta, geradores de numerosa prole. Essas uniões, que podem ser multirraciais, também se desfazem e se refazem sem formalidades, simplesmente pelo abandono do parceiro, como ocorre com os casais formados por Jerônimo e a esposa, Rita e o capoeirista, que constituem um novo par, composto por Jerônimo e Rita.

Na elite branca exige-se o cumprimento dos rituais – de noivado, preparativos de enxoval, casamento na igreja. A união matrimonial parece ser assunto decidido exclusivamente pelos homens, uma vez que Miranda não leva em conta os sentimentos da filha Zulmira, a ponto de escolher João Romão para genro; ela se baseia em interesses econômicos e patrimoniais, sendo portanto indissolúvel. Daí a preocupação em resguardar o dote trazido pela mulher, o que acarreta a necessidade de manter as aparências, mesmo em caso de adultério. É o procedimento adotado por Miranda ante as evidências do comportamento leviano da esposa. Nesse panorama, avulta a situação de Pombinha, que se coloca em posição intermediária, visto que sua família decaiu da condição social anterior após a falência e suicídio do pai. Com isso, ela cumpre os preceitos e sobe ao altar na igreja São João Batista, mas casa sem amor, como alternativa para ascender e se libertar, e termina por abandonar o marido após traí-lo. Por outro lado, a família patriarcal possui um sentido amplo, uma vez que inclui agregados, como o parasita Botelho e o jovem pensionista do interior, o estudante Henrique, além de crianças protegidas, afilhados e numerosa criadagem, circunstância não encontrada no outro grupo.

O emprego do tempo livre dá-se de maneira inteiramente desigual de acordo com a procedência sócio-econômica do personagem. Os trabalhadores do cortiço, pela própria condição laboral, só descansam aos domingos, em fainas já evocadas. Em compensação, o ocioso grupo do sobrado utiliza seu perene lazer de maneira bastante variada. As mulheres recebem e fazem visitas, quando não vão às compras de enfeites. Aos homens de todas as idades é permitido freqüentar as cocotes de luxo, muitas vezes de procedência estrangeira, como Léonie, por quem chegam até a se arruinar. Homens e mulheres estão sempre passeando em locais elegantes no Centro da cidade, principalmente às ruas Gonçalves Dias e Ouvidor. Nesta última encontra-se a Casa Pascoal, confeitaria onde se namora muito, se toma o aperitivo e se fazem lanches intermináveis; os homens lêem os jornais do dia e fumam. Os adultos de bolsa farta ainda comparecem a leilões de prendas e festas de arraial, tornam-se sócios de clubes para aprender a dançar, freqüentam as sessões da tarde no teatro São Pedro de Alcântara e as apresentações das companhias líricas, apreciadas por Dona Estela. A vida social amena e fútil se complementa, no plano cultural, com a leitura de jornais e de “fascículos de romances franceses traduzidos” (Azevedo, 1983, p.77), com os quais João Romão vai-se familiarizando, em seu afã de ostentar maneiras refinadas. Em sua fase de potentado, freqüenta hotéis caros e faz camaradagem com capitalistas. Veste-se com esmero, perfuma-se, vai ao barbeiro, recheia a casa reformada com ricos móveis, prataria e porcelanas.

Percebe-se que a elite social dispõe de algum meio de transporte para ir ao Centro da cidade, como as carruagens ou o bonde São Clemente, e ali faz compras no comércio, vai a confeitarias e teatros, passeia à beira-mar e nas ruas elegantes cujos nomes se mantêm até hoje: Ouvidor, Gonçalves Dias, Largo de São Francisco, Largo da Carioca… Em contrapartida, os trabalhadores do cortiço locomovem-se a pé, motivo pelo qual suas caminhadas se concentram no bairro em que moram. Nesse sentido, é exemplar o percurso de Jerônimo e seus comparsas na noite do assassinato do capoeirista e rival, pois saem de um botequim próximo ao cemitério São João Batista, tomam a rua Sorocaba até as imediações das ruas Bambina e São Clemente, encaminham-se para a travessa da Passagem nas cercanias do Hospício de D. Pedro II, hoje incluído nocampus universitário da zona sul, alcançam a praia de Botafogo para, em seguida, rumarem em direção à cidade, passando pelas praias do Catete, Glória e Lapa. Aí, em vez de flânerie, o itinerário descreve uma rota de despistamento e fuga.

Em suma, o uso do espaço urbano pelos personagens de O cortiço permite configurar a obra de Aluísio Azevedo como um romance de localização especificamente carioca. Nele, são flagradas a cidade e a sociedade em estado de mutação, quando se adapta para o ambiente urbano a dicotomia de casa grande e senzala, agora traduzida pelos contrastes simbolizados pela oposição entre cortiço e sobrado. Assim, a preocupação com a veracidade, própria do realismo-naturalismo, fornece um painel da cidade, em momento de profunda transformação social, cultural, humana. Graças à minuciosa pesquisa que empreendeu, Aluísio Azevedo transformou seu romance em um documentário não só sobre a acumulação de capital como também sobre a cidade do Rio de Janeiro, através da vida, trabalho, moradia e lazer de seus habitantes, sejam eles pertencentes às camadas aristocráticas ou às populares.

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Este ensaio foi publicado na revista Ipotesi, Juiz de Fora, Universidade Federal de Juiz de Fora, v. 4, n. 1, jan-junho 2000, p. 103-10.

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

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Benchimol, Jaime Larry (1995). Pereira Passos, um Haussmann tropical. Rio de Janeiro, Secretaria Municipal de Cultura. (Col. Biblioteca Carioca).

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Mérian, Jean-Yves (1988). Aluísio Azevedo, vida e obra (1857-1913. Rio de Janeiro, Espaço e Tempo.

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Rocha, Oswaldo Porto & Carvalho, Lia de Aquino (1990). A era das demolições; habitaçõespopulares. 2 ed. Rio de Janeiro, Secretaria Municipal de Cultura. (Col. Biblioteca Carioca).

Schwarcz, Lilia Moritz (1999). As barbas do Imperador D. Pedro IIum monarca nos trópicos. São Paulo, Companhia das Letras.

Vassallo, Ligia. “De Zola para O Cortiço: o cânone e a forma”, Cânones e contextosAtas,V Colóquio Internacional ABRALIC, Rio de Janeiro, 1998, 3 v. v. 2, p. 467-70.



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