ESCRITORES



O Alienista





Autor: Machado de Assis
Título: O Alienista, L?Ali?niste
Idiomas: port, fra
Tradutor: Maryvonne Lapouge(fra)
Data: 29/12/2004

O ALIENISTA

I

De como Itaguaí ganhou uma casa de Orates

Machado de Assis

As crônicas da vila de Itaguaí dizem que em tempos remotos vivera ali um certo médico, o Dr. Simão Bacamarte, filho da nobreza da terra e o maior dos médicos do Brasil, de Portugal e das Espanhas. Estudara em Coimbra e Pádua. Aos trinta e quatro anos regressou ao Brasil, não podendo el-rei alcançar dele que ficasse em Coimbra, regendo a universidade, ou em Lisboa, expedindo os negócios da monarquia.
— A ciência, disse ele a Sua Majestade, é o meu emprego único; Itaguaí é o meu universo.
Dito isto, meteu-se em Itaguaí, e entregou-se de corpo e alma ao estudo da ciência, alternando as curas com as leituras, e demonstrando os teoremas com cataplasmas. Aos quarenta anos casou com D. Evarista da Costa e Mascarenhas, senhora de vinte e cinco anos, viúva de um juiz de fora, e não bonita nem simpática. Um dos tios dele, caçador de pacas perante o Eterno, e não menos franco, admirou-se de semelhante escolha e disse-lho. Simão Bacamarte explicou-lhe que D. Evarista reunia condições fisiológicas e anatômicas de primeira ordem, digeria com facilidade, dormia regularmente, tinha bom pulso, e excelente vista; estava assim apta para dar-lhe filhos robustos, sãos e inteligentes. Se além dessas prendas, – únicas dignas da preocupação de um sábio, – D. Evarista era mal composta de feições, longe de lastimá-lo, agradecia-o a Deus, porquanto não corria o risco de preterir os interesses da ciência na contemplação exclusiva, miúda e vulgar da consorte.
D. Evarista mentiu às esperanças do Dr. Bacamarte, não lhe deu filhos robustos nem mofinos. A índole natural da ciência é a longanimidade; o nosso médico esperou três anos, depois quatro, depois cinco. Ao cabo desse tempo fez um estudo profundo da matéria, releu todos os escritores árabes e outros, que trouxera para Itaguaí, enviou consultas às universidades italianas e alemãs, e acabou por aconselhar à mulher um regímen alimentício especial. A ilustre dama, nutrida exclusivamente com a bela carne de porco de Itaguaí, não atendeu às admoestações do esposo; e à sua resistência, – explicável mas inqualificável, – devemos a total extinção da dinastia dos Bacamartes.
Mas a ciência tem o inefável dom de curar todas as mágoas; o nosso médico mergulhou inteiramente no estudo e na prática da medicina. Foi então que um dos recantos desta lhe chamou especialmente a atenção, – o recanto psíquico, o exame da patologia cerebral. Não havia na colônia, e ainda no reino, uma só autoridade em semelhante matéria, mal explorada, ou quase inexplorada. Simão Bacamarte compreendeu que a ciência lusitana, e particularmente a brasileira, podia cobrir-se de “louros imarcescíveis”, – expressão usada por ele mesmo, mas em um arroubo de intimidade doméstica; exteriormente era modesto, segundo convém aos sabedores.
— A saúde da alma, bradou ele, é a ocupação mais digna do médico.
— Do verdadeiro médico, emendou Crispim Soares, boticário da vila, e um dos seus amigos e comensais.
A vereança de Itaguaí, entre outros pecados de que é argüida pelos cronistas, tinha o de não fazer caso dos dementes. Assim é que cada louco furioso era trancado em uma alcova, na própria casa, e, não curado, mas descurado, até que a morte o vinha defraudar do benefício da vida; os mansos andavam à solta pela rua. Simão Bacamarte entendeu desde logo reformar tão ruim costume; pediu licença à Câmara para a gasalhar e tratar no edifício que ia construir todos os loucos de Itaguaí e das demais vilas e cidades, mediante um estipêndio, que a Câmara lhe daria quando a família do enfermo o não pudesse fazer. A proposta excitou a curiosidade de toda a vila, e encontrou grande resistência, tão certo é que dificilmente se desarraigam hábitos absurdos, ou ainda maus. A idéia de meter os loucos na mesma casa, vivendo em comum, pareceu em si mesma um sintoma de demência e não faltou quem o insinuasse à própria mulher do médico.
— Olhe, D. Evarista, disse-lhe o Padre Lopes, vigário do lugar, veja se seu marido dá um passeio ao Rio de Janeiro. Isso de estudar sempre, sempre, não é bom, vira o juízo.
D. Evarista ficou aterrada. Foi ter com o marido, disse-lhe “que estava com desejos”, um principalmente, o de vir ao Rio de Janeiro e comer tudo o que a ele lhe parecesse adequado a certo fim. Mas aquele grande homem, com a rara sagacidade que o distinguia, penetrou a intenção da esposa e redargüiu-lhe sorrindo que não tivesse medo. Dali foi à Câmara, onde os vereadores debatiam a proposta, e defendeu-a com tanta eloqüência, que a maioria resolveu autorizá-lo ao que pedira, voltando ao mesmo tempo um imposto destinado a subsidiar o tratamento, alojamento e mantimento dos doidos pobres. A matéria do imposto não foi fácil achá-la; tudo estava tributado em Itaguaí. Depois de longos estudos, assentou-se em permitir o uso de dois penachos nos cavalos dos enterros. Quem quisesse emplumar os cavalos de um coche mortuário pagaria dois tostões à Câmara, repetindo-se tantas vezes esta quantia quantas fossem as horas decorridas entre a do falecimento e a da última bênção na sepultura. O escrivão perdeu-se nos cálculos aritméticos do rendimento possível da nova taxa; e um dos vereadores, que não acreditava na empresa do médico, pediu que se relevasse o escrivão de um trabalho inútil.
— Os cálculos não são precisos, disse ele, porque o Dr. Bacamarte não arranja nada. Quem é que viu agora meter todos os doidos dentro da mesma casa?
Enganava-se o digno magistrado; o médico arranjou tudo. Uma vez empossado da licença começou logo a construir a casa. Era na Rua Nova, a mais bela rua de Itaguaí naquele tempo; tinha cinqüenta janelas por lado, um pátio no centro, e numerosos cubículos para os hóspedes. Como fosse grande arabista, achou no Corão que Maomé declara veneráveis os doidos, pela consideração de que Alá lhes tira o juízo para que não pequem. A idéia pareceu-lhe bonita e profunda, e ele a fez gravar no frontispício da casa; mas, como tinha medo ao vigário, e por tabela ao bispo, atribuiu o pensamento a Benedito VIII, merecendo com essa fraude, aliás pia, que o Padre Lopes lhe contasse, ao almoço, a vida daquele pontífice eminente.
A Casa Verde foi o nome dado ao asilo, por alusão à cor das janelas, que pela primeira vez apareciam verdes em Itaguaí. Inaugurou-se com imensa pompa; de todas as vilas e povoações próximas, e até remotas, e da própria cidade do Rio de Janeiro, correu gente para assistir às cerimônias, que duraram sete dias. Muitos dementes já estavam recolhidos; e os parentes tiveram ocasião de ver o caminho paternal e a caridade cristã com que eles iam ser tratados. D. Evarista, contentíssima com a glória do marido, vestiu-se luxuosamente, cobriu-se de jóias, flores e sedas. Ela foi uma verdadeira rainha naqueles dias memoráveis; ninguém deixou de ir visitá-la duas e três vezes, apesar dos costumes caseiros e recatados do século, e não só a cortejavam como a louvavam; porquanto, – e este fato é um documento altamente honroso para a sociedade do tempo, – porquanto viam nela a feliz esposa de um alto espírito, de um varão ilustre, e se lhe tinham inveja, era a santa e nobre inveja dos admiradores.
Ao cabo de sete dias expiraram as festas públicas; Itaguaí tinha finalmente uma casa de Orates.

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Fonte: ASSIS, Machado de. O alienista. Rio de Janeiro, Ediouro, 1996, p. 17-27.

L’ALIÉNISTE

 

1

Où il est raconté comment Itaguaï s’enrichit d’une maison des fous

Machado de Assis

Les chroniques de la petite cité d’Itaguaï rapportent comment, il y a fort longtemps, un certain médecin, du nom de Simon Bacamarte, fils d’un noble du pays et le plus grand parmi les médecins du Brésil, du Portugal et des Espagnes, s’y rendit célèbre. Le jeune homme avait étudié à Coimbra et Padoue. A trente-quatre ans, le roi n’ayant pu obtenir de lui qu’il demeurât soit à Coimbra pour présider aux destinées de l’université, soit à Lisbonne pour y expédier les affaires de la monarchie, il était rentré au Brésil. — Je n’ai d’autre emploi, avait il représenté à Sa Majesté, que la science, et Itaguaï est tout mon univers.
Ce qu’ayant dit, il se retira à Itaguaï et se consaera corps et âme à l’étude, alternant les cures avec les lectures et faisant la preuve des théorèmes avec des cataplasmes. La quarantaine franchie, il épousa Dona Evarista da Costa e mascarenhas, une jeune femme de vingt-cinq ans, veuve d’un juge de district, ni bien jolie ni sympathique. Un oncle de Simon Bacamarte, réputé grand chasseur devant l’Eternel autant que pour son francparler, s’étonna d’un pareil choix et le lui dit. Le neveu répliqua que Dona Evarista reúnissait des conditions psychologiques et anatomiques de premier ordre, elle digérait sans difficulté, dormait sans problème, avait un pouls régulier, une vue excellente : toutes qualités qui faisaient d’elle la femme indiquée pour lui donner des fils robustes, intelligents et sains. Si, en plus de ces dons – seuls dignes de l’intérêt d’un savant – les traits de Dona Evarista laissaient à désirer, loin de le déplorer, il en remerciait le ciel : ainsi serait-il protégé de négliger les impératifs de la science dans la contemplation exclusive, étriquée et vulgaire de son épouse.
Dona Evarista déçut les espérances du docteur Bacamarte, ni fils robustes, ni fils chétifs elle ne lui fit. Le naturel propre à la science est la longanimité : notre médecin attendit trois années, puis quatre, et bientôt cinq. Au bout de quel temps, il se plongea dans l’étude détcuilée du phénomène, relut les auteurs, arabes et autres, ramenés avec lui à Itaguaï, manda le résultat de ses examens et investigations aux universités allimentaire particulier. L’illustre dame, nourrie exclusivement de belle et tendre viande porcine du pays, ne daigna pas davantage répondre aux admonestations de son époux ; de sorte que nous devons à son – explicable, mais inqualifiable – résistance l’extinction définitive des Bacamarte.
Mais la science possède cet ineffable don de guérir toutes les misères ; notre médecin se plongea entièrement dans l’étude et la pratique de la médecine. C’est alors qu’entre toutes les ramées et ramifications de cette discipline, l’une d’elle retint particulièrement son attention – le domaine psychique, l’examen de la pathologie cerébrale. Il n’y avait alors dans toute la Colonie, et jusque dans le Royaume, aucune autorité en semblable matière, mal explorée, ou pratiquement inexplorée. Simon Bacamarte comprit que la science lusitanienne, et la science brésilienne au premier chef, pouvait là se couvrir de «lauriers immarescibles», – telle fut son expression, mais dans un moment d’envolée restreinte à l’intimité domestique ; en société, il était modeste, ainsi qu’il convient à un savant.
— La santé de l’âme, s’exclama-t-il, est la préoccupation la plus digne du médecin.
— Du véritable médecin, corrigea Crispim Soares, l’apothicaire du pays, et l’un de ses amis et commensaux.
Entre autres tares relevées par la chronique, la commune d’Itaguaï avait ce éfaut de ne faire aucun cas des déments. De sorte que les fous furieux étaient verrouillés chacun dans le secret d’une alcôve, à l’intérieur de leur propre maison, jamais ne guérissant, mais dégénérant aussi longtemps que la mort ne ocnait pas leur soutirer le bénéfice de la vie ; quant aux innocents, ils déambulaient à loisir dans le pays. Simon Bacamarte résolut sans plus attendre de réformer une coutume aussi déplorable ; il fit une demande d’autorisation auprès du Conseil municipal pour abriter et traiter dans l’établissement qu’il se proposait de faire construire tous les fous d’Itaguaï et des agglomérations avoisinantes, moyennant une allocation que le Conseil lui verserait lorsque les familles des malades ne seraient pas en condition de le faire. Sa proposition suscita la curiosité de tout le pays, et provoqua une immense résistance, tant il est vrai que les habitudes les plus absurdes, et jusque désastreuses, se laissent difficilement déraciner. L’idée même de rassembler les fous et de les faire vivre sous le même toit fut interprêtée comme un symptôme de démence, et ne manqua pas la langue charitable pour glisser l’insinuation jusqu’auprès de la propre femme du médecin.
— Ecoutez, Dona Evarista, lui dit le Père Lopes, le curé du lieu, vous devriez suggérer à votre mari de faire un petit voyage à Rio de Janeiro. Etudier comme il fait, sans relâche, fatigue le cerveau, ça ne lui vant rien.
Dona Evarista en resta atterée, elle s’ouvrit à son mari, lui dit «qu’elle avait des envies» – celle en particulier d’aller à Rio de Janeiro et de manger tout ce qui lui avait été conseillé à certaine fin. Mais avec la sagacité rare qui le distinguait, le grand homme pénétra la manœuvre de son épouse et lui rétorqua en souriant de ne point s’inquiéter. Sur ce, il courut à la Mairie où les conseillers débattaient sa proposition, et il la défendit avec une telle éloquence qu’une majorité trancha sur le champ en faveur de ce qu’il avait demandé, votant même dans la foulée un impôt destiné à pourvoir à l’entretien, au logement et à la subsistance des malades mentaux sans ressources. Trouver sur quel chapitre lever cette contribution ne fut pas facile. Tout, dans Itaguaï, tombait sous l’impôt. L’accord se fit, après bien des spéculations, pour autoriser l’emploi de deux plumets sur les attelages, lors des enterrements. Qui désirerait emplumer les chevaux tirant le corbillard paierait deux testons à la commune pour chaque heure écoulée entre le décès et la bénédiction ultime audessus de la sépulture. Le greffier s’embrouilla dans ses calculs en voulant chiffrer le rendement éventual de la future taxe ; et l’un des conseillers, qui n’accordait aucun crédit à l’enterprise du médecin, demanda qu’on dispensa le malheureux d’un travail aussi inutile.
— Nous n’avons aucun besoin de claculs, dit-il, car le docteur Bacamarte n’arrivera à rien. A-t-on jamais vu rassembler tous les fous sous un même toit ?
Le digne magistrait se trompait ; le médecin vint à bout de tout. Aussitôt l’autorisation en poche, il commença la construction des bâtiments. Sis dans la rue Neuve, la plus belle rue d’Itaguaï, à l’époque, l’établissement avait cinquante fenêtres de chaque côté, un patio au centre, et un grand nombre de cellules pour les futurs hôtes. Arabisant de longue date, Simon Bacamarte, dans le Coran, découvrit que Mahomet tenait les fous pour vénérables, pour la raison qu’Allàh les privait de jugement afin qu’ils ne puissent se rendre coupables de péché. Cette considération lui parut jolie et judicieuse, et il la fit graver sur le frontispice de l’établissement. Mais craignant d’indisposer le curé, et son évêque par personne interposée, il attibua la sentence au pape Benoit VIII, mensonge fort pieux, du reste qui lui valut de la bouche du Père Lopes, lors du déjeuner d’inauguration, le récit de la vie de l’éminent pontife.
L’asile prit le nom de la Maison Verte, par allusion à la couleur des fenêtres, les premières fenêtres peintes en vert dans Itaguaï. L’inauguration eut lieu en grande pompe ; une foule immense accourut des communes et agglomérations avoisinantes, et jusque de Rio de Janeiro, pour assister aux cérémonies qui durèrent sept jours pleins. Déjà, un nombre considérable de déments avaient été hospitalisés, Et les familles purent apprécier avec quelle sollicitude paternelle, quelle chrétienne charité ils allaient être traités. Plus que ravie par les honneurs dévolus à son époux, Dona Evarista s’était vêtue luxueusement et parée de soies, de fleurs et de bijoux. Elle fut une véritable reine pendant ces journées mémorables ; réelle entorse aux us modestes et casaniers du temps, nul n’omis de lui rendre visite deux ou trois fois, non point uniquement our la saluer mais pour la complimenter car tous voyaient en elle l’epouse – détail qui parle hautement en faveur de la société de l’époque – l’épouse comblée d’un grand esprit, d’un homme illustre dans la force de l’âge, et, s’ills l’enviaient, c’était de la noble et sainte envie d’admirateurs.
Au bout de sept jours, les festivités publiques expirèrent ; Itaguaï possédait enfin sa maison des Fous.

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Fonte : ASSIS, Machado de. L’Aliéniste. Traduit par Maryvonne Lapouge. Paris, Éditions A. M. Métailié, 1984, p. 25-9.



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